Karingana wa Karingana- KARINGANA! Karingana wa Karingana- KARINGANA!
Era uma vez uma menina que falava muito. Sempre lhe diziam:
Eliana tens boca grande!
Eliana estás sempre a falar!
E ela respondia: “A boca não foi feita apenas para comer. Deixem-me falar”.. Como não a deixavam falar à vontade, ela começou a escrever. Escrevia tudo! Escrevia sobre o que lhe deixava triste e o que lhe fazia feliz.
Escrevia o que via e o que imaginava. E foi escrevendo que as pessoas passaram a ouvir-lhe.
Foto: Neide Tsenane
No dia 20 de Maio tive o privilégio de subir ao palco como uma das oradoras do TEDxMaputo 2017.
Sim, privilégio. É um privilégio ter uma plataforma como o TEDx para expor as nossas ideias e dar lugar à nossa voz.
E do que foi que eu falei? Eu preferi falar daquilo que me move: a urgência de uma literatura africana que represente todas as africanidades.
Eu sonho com um mundo em que eu possa ter fácil acesso a livros africanos para crianças, para adolescentes, para jovens, adultos, idosos. Livros africanos sobre a vida nas aldeias e nas cidades; nas escolas; nos mercados; nas ruas. Livros africanos que não tenham medo de ser quem somos.
E depois dos livros, que tenhamos também filmes, novelas, bandas desenhadas. Por que não?
Foto: Neide Tsenane
Tudo começou em 2015 com o desafio dos 12 livros escritos por autores africanos ou afrodescendentes.
Como uma pessoa apaixonada por histórias, esse ano foi o início de muitas descobertas por aqui. Foi o ano em que desvendei histórias escondidas e segredos muito bem guardados, mas que precisavam de ser revelados.
Foi aí que um mundo novo se revelou a mim e com ele uma vontade de continuar com esse compromisso: ler negritude.
De lá para cá já foram mais de 30 livros de autores africanos e afrodescendentes que contaram as nossas histórias das formas mais brilhantes.
“Eram histórias diversas: africanas; americanas; portuguesas; sobre mulheres; sobre homens; sobre liberdade; sobre colonialismo; sobre escravidão… histórias para que eu descobrisse a minha História.”
Então quando recebi o convite para ser uma das oradoras, nada mais me fez tanto sentido como usar esse espaço para contar essa história (ainda em construção).
Os meus 15min de fama já serviram para iniciar conversas interessantes e cheias de impacto com várias pessoas.
Uma, que já começou a escrever um livro e queria trocar impressões. E outra, que começou a ler um livro escrito por um autor africano.
Certamente outras conversas já aconteceram, fora do meu alcance e outras estarão ainda por vir.
Gratidão parece pouco para descrever o que sinto pela oportunidade.
Mais um sonho realizado. Mais um passo na direcção certa.
Quem dirá ao Rei, cheio da sua vaidade, que ele está na verdade nu?
Era uma vez um rei muito vaidoso que vivia rodeado de luxo num reino em que os plebeus viviam na miséria.
Conhecido pelos seus trajes extravagantes, o rei é abordado por dois aldabrões (certamente moçambicanos) que dizem ter um tecido muito belo, visto apenas por pessoas inteligentes e requintadas.
O Rei permitiu que os dois tirassem-lhe as medidas e dali a alguns dias eles apareceram com o “fato”. O Rei não via nada, mas também não queria dar a entender que não era inteligente ou requintado, por isso confirmou que o tecido de facto tinha uma qualidade superior.
Depois de fingir que vestia o fato, já que era invisível, o Rei encheu os aldrabões de elogios, que em troca aplaudiram a sua elegância. Rapidamente a notícia se espalhou: O Rei tinha um fato especial, de qualidade superior, visível apenas aos olhos de quem fosse inteligente e requintado.
Então certo dia o Rei decide sair às ruas com o seu fato especial. Todos admiraram o fato, pois não queriam passar por ignorantes até que a criançada começou a rir e a gritar “O Rei vai nu! O Rei vai nu!”, e todos se espantaram, porque de facto ele estava nu. E todos se riram dele.
O Rei fugiu envergonhado para o seu Palácio.
O Presidente sul-africano Zuma vai nu sem alguém que lhe diga a verdade. Fonte: Brett Murray
É assim também por aqui, na vida real, nas nossas pseudo-democracias. Meio-ditaduras. Os nossos reis estão nus. Só que ninguém lhes diz.
Segundo o mais recente relatório sobre a liberdade de imprensa, muitos governos têm usado estratégias mais subtis para ameaçar e intimidar os cidadãos de modo a evitar críticas.
Em África, apesar do avanços nos anos mais recentes ainda temos um longo caminho para fazer.
A investigadora é acusada de assédio moral contra o Presidente e a Primeira-Dama. Fonte: The Guardian
Esta semana, a activista ugandesa Stella Nyanzi questionou na sua página de Facebook, o que terá sido das crianças que apontaram o óbvio.
Será que foram mortas por ordens do rei? Será que a multidão voltou-se contra elas e tentou fazer com que elas vissem as roupas invisíveis por terem medo do rei? Ou receberam o amor dos amigos? O que acontece a quem diz a verdade em regimes maléficos?
Com um PhD em Antropologia Social, Stella Nyanzi é investigadora nas áreas de sexualidade; saúde sexual e reprodutiva; racismo e medicina alternativa, entre outras.
No Uganda, onde o Presidente Museveni ocupa o mesmo cargo há mais de 30 anos, Nyanzi já foi presa várias vezes por protestos pacíficos e pelas críticas severas ao regime.
Em Moçambique, pelo trauma dos conflitos vividos, temos muito medo de falar, pois não queremos mais violência. A sociedade como um todo promove o silêncio e entretenimento que distraia e não questione o status quo.
No entanto, há sempre quem tenha coragem de levantar a voz. Uma dessas pessoas é o rapper Azagaia, famoso pela música de intervenção que faz.
Depois das manifestações populares de 2008, o músico lançou a música “Povo no Poder” que resultou numa intimação pela Procuradoria Geral da República por supostamente “atentar à segurança do Estado” e “incitar a violência”.
Nos anos mais recentes jornalistas; investigadores; juristas; seqüestradores foram assassinados em circunstâncias duvidosas. É o exemplo de Gilles Cistac, um jurista, baleado em 2015 ao entrar num táxi na cidade de Maputo.
Gilles Cistac entra para a lista de pessoas assassinadas em Moçambique por motivos políticos. Fonte: The European Magazine
Tal como eles, um pouco por todo o mundo, as liberdades de expressão dos cidadãos são cada vez mais limitadas.
Em Angola por lerem e debaterem um livro, activistas foram presos e julgados no que ficou conhecido como o caso 15+2.
No entanto, no mesmo país recentemente os deputados decidiram importam carros de luxo no valor de mais de 75 milhões de dólares americanos. Simultaneamente, num hospital da capital, Luanda, as mulheres grávidas e recentes mães são obrigadas a partilhar as camas ou dormir no chão.
Os reis estão mesmo nus. E ninguém faz nada.
Em “democracias” frágeis, como grande parte das democracias africanas, as ameaças a quem questiona quem está no Poder são evidentes.
Até quando deixaremos o medo travarem as nossas vozes?
Consideramos uma “Cabeçada”, uma situação em que um casal se separa e a culpa recai sobre uma terceira pessoa.
No nosso dia-a-dia é comum ouvirmos, comentarmos e julgarmos as histórias de triângulos amorosos alheios.
No geral, essas histórias sempre começam com um casal que vivia feliz e que repentinamente se separa devido a alguém que se “mete no meio”. Alguém que destrói tudo e que começa posteriormente uma relação com alguém que fazia parte desse casal.
Geralmente esse alguém é uma mulher. A mulher é maléfica. É invejosa. É egoísta. Diabólica. As mulheres não são amigas. Essa mulher não pensou nos filhos dele. Destruidora de lares.
Enfim, os comentários são vários mas a situação é quase sempre a mesma: fulana deu cabeçada e agora está a namorar com fulano.
No ano passado a cantora Liloca foi acusada de dar cabeçada a Maria de Lurdes, ex-mulher do cantor Mr. Bow. Fonte: Portal MozNews
O homem é visto como uma eterna criança, cujas decisões são tomadas sem ter em conta as consequências. A ele lhe é permitido agir por impulso e até mesmo instinto. Quantas vezes não ouvimos “Homem é assim mesmo!” ou “Isso é coisa de homem!”. E claro, “Todo o homem é assim“.
Simplificamos demais o homem e para compensar essa infantilização dele exigimos da mulher que ela seja responsável e ponderada.
Em relações monogâmicas heteronormativas os papéis de género estão bem definidos. Segundo esses papéis à mulher cabe cuidar do lar e da família (esposo e filhos) incondicionalmente, numa posição de clara submissão enquanto o homem desempenha o papel de provedor, força dominante.
Mesmo assumindo que os tempos são outros e que existem sim casais na vanguarda a tentar criar novas dinâmicas, é extremamente difícil numa sociedade patriarcal fugir a essas funções. Mesmo em relações homoafetivas muitas vezes vemos esses papéis replicados.
E nesses papéis pré-definidos o homem está sempre em vantagem. Se ele trai, a culpa é da esposa que se deixou acomodar. Se ele lhe bate, a culpa é da esposa que lhe tirou a paciência. Qualquer que seja a sua acção é na verdade uma reacção a algo que uma mulher fez.
A mulher neste sentido vê-se desconsiderada. Todas as suas vontades, ideias e desejos são invalidados pois os do seu esposo prevalecem. Na estrutura familiar tradicional, é a mulher que se adapta ao marido.
Por essa razão, quando uma relação chega ao fim é comum culparmos a mulher. Ela é que se não se esforçou. Ela é que tem de pensar nos filhos. Ela é que tem de crescer e saber que casamento é isso mesmo.
E como essa mulher foi socializada para desculpabilizar o homem, ela vai procurar outra mulher para explicar o fim do seu relacionamento. É essa outra mulher a responsável, pois atraiu o homem, provocou e ele claro, seguindo o seu instinto foi incapaz de resistir.
Lizha James canta a dor da mulher que leva uma cabeçada na música “Uloyi”. Fonte: Youtube
Aí entramos naquele discurso de cobrança de sororidade entre as mulheres, pois supostamente esta outra mulher deve se colocar no lugar daquela que está numa relação com o determinado homem.
Mas precisamente, a sororidade deixa de existir no momento em que eu me coloco numa situação de disputa com outra mulher. Se esse homem está numa relação comigo, é a ele a quem eu devo fazer cobranças e pedir satisfações.
A sororidade termina quando eu culpo a mulher pelo meu parceiro ser permissivo e não estabelecer limites.
Aí, eu olho para a outra mulher como a culpada por tudo, ela é que seduziu, ela é que provocou e ele fica isento de qualquer responsabilidade.
Precisamos de desconstruir essa ideia de inimizade entre as mulheres. É dessa ideia que surge essa culpabilização de outra mulher pelo fracasso do nosso relacionamento; da falência dos nossos sonhos; etc.
O sentido de sororidade aplica-se precisamente quando eu, como mulher, protejo a moça dessa responsabilidade. Afinal de contas, ela teve permissão do meu parceiro para se aproximar dele e foi ele quem se separou de mim.
Por outro lado, é importante também olhar para os nossos parceiros e parceiras como seres humanos complexos, cheios de sonhos, desejos, medos, traumas, etc.
Em qualquer relação é importante reconhecermos as necessidades e carências dos nossos parceiros e as nossas também. É a partir daí que vem o carinho, o companheirismo e a capacidade de ultrapassar situações de crise dentro do relacionamento.
Então, olhemos mais para dentro de cada um de nós, das conexões que fazemos e façamos um trabalho profundo de reflexão para reconhecer os vazios que deixamos (e enchemos) por onde passamos.
O Kutchinga é um ritual que tem como objectivo purificar a viúva, levado a cabo através de relações sexuais com um dos familiares do falecido (geralmente um cunhado).
Pela forma como vivenciamos a vida é comum não encontrarmos respostas para as nossas questões no mundo material. É então que nos viramos para o mundo espiritual para ter explicações para os diversos fenômenos que acontecem no nosso dia-a-dia.
Uma das grandes questões daqueles que estão vivos é precisamente a morte. O que é a morte? Como acontece? Porquê?
No caso das mulheres moçambicanas, ao perderem ao marido têm ainda uma caminhada difícil para enfrentar.
Uma vez que a Mulher representa a vida, a fertilidade, é ela a origem de todas as coisas – boas e más. Quando o seu esposo morre é necessário que se tire a morte dela, isto é, que se purifique.
Como acreditamos que a morte não é um mero acaso, mas sim resultado de uma série de acontecimentos sobrenaturais, o pagamento de dívidas que temos com o Universo, é preciso livrar os vivos das vivências dos mortos.
E a esposa, como parceira de vida, com quem o falecido partilhava os dias, é quem tem de salvaguardar a segurança de todos. A viúva tem de se purificar para evitar mais tragédias; infortúnios; azares para si, os seus filhos; netos; etc.
Kutchinga, no sul de Moçambique ou Kupitafuka no Centro é o ritual através do qual se faz essa purificação da viúva.
A morte do seu esposo é também o marco do nascimento de energias negativas/ impurezas. Estas energias (ndzaka) quando não são seguidos os devidos rituais, podem causar danos na vida da família e comunidade.
Todos os parentes e pertences do morto – mesmo aqueles que vivem longe – tornam-se impuros no momento da morte. Daí o luto. Essas pessoas devem cumprir os rituais de luto à risca, sobre a pena de consequências terríveis a eles próprios e àqueles ao seu redor.
A purificação da viúva dá-se através do Kutchinga, que deve acontecer entre 8 dias a 2 anos da morte do marido. O Kutchinga em si deve durar por volta de seis noites seguidas, durante as quais a viúva deve manter relações sexuais com um familiar do esposo, geralmente um irmão ou primo mais novo.
Em outros casos, o Kutchinga por ser realizado por um homem alheio à família. Estes homens geralmente são conhecidos na região por serem “purificadores natos”/ “purificadores experientes”/ “purificadores viris” e chegam a ser pagos pelos seus serviços.
O Kutchinga precisa de uma alternativa. Fonte: Sapo
Porque na nossa cultura os nossos mortos estão sempre vivos, a partida física de um ente querido não quer dizer necessariamente o desaparecimento das suas energias; alegrias; tristezas; arrependimentos do mundo material.
Daí a invocação constante aos nossos antepassados em todos os momentos importantes das nossas vidas, pois o mundo espiritual habita no mundo material. Tendo em conta a omnipresença dos nossos antepassados, a viúva e os demais familiares podem se sentir em dívida com o falecido.
Por isso, embora haja situações em que a viúva se recusa a praticar o Kutchinga, muitas vezes o medo da maldição fala mais alto.
Para além de não ser um acto voluntário ou seja, de ser um caso de violação sexual; o ritual valida a ‘transmissão’ da viúva de um homem para o outro dentro da mesma família como se de um bem se tratasse.
O Kutchinga é um costume ultrapassado. Fonte: Jornal Notícias
Mas tal como outro rituais, como por exemplo o lobolo já sofreram alterações, o Kutchinga também deve acompanhar o tempo e o espaço.
Nenhum ritual está imune a actualizações. Pode-se fazer a purificação através de banhos; chás ou orações. Porquê relações sexuais? Não é esta uma forma de reforçar a submissão da mulher face à família do seu esposo?
E mais, por que um homem não passa pelo ritual do Kutchinga quando a sua esposa morre?
Há que repensar o enquadramento da tradição nos paradigmas da vida actual de modo a mantermos a nossa cultura relevante sem colocar em causa a nossa integridade e os valores pelos quais pretendemos viver.
Reynaldo Gianecchini esteve recentemente em Moçambique glamourizando a nossa Pobreza como manda a praxe.
São várias as celebridades que viajam para África com dois objectivos bem distintos: férias de luxo ou trabalho voluntário.
A primeira categoria acontece sobretudo fora das grandes cidades, em ilhas semi-desertas e privadas, de pouco acesso para nós, pobre locais – ainda que sejamos os nacionais.
E geralmente nestes casos não há muitas fotos, à excepção de uma ou duas fotos na redes sociais, pois afinal de contas a proposta de valor desses locais é a oportunidade de os famosos manterem alguma privacidade, longe dos paparazzi e dos olhares dos fãs.
Por outro lado, o trabalho voluntário que essas celebridades vêm fazer envolve muita notícia. Afinal de contas, o que seria caridade se ninguém aplaudisse o gesto do privilegiado que estica a sua mão para os desfavorecidos?
Gianecchini não desaponta. Com a mesma dedicação com que a genética desenhou a sua face, ele tira fotos com crianças e idosos, no meio da savana africana, num tal país chamado Moçambique.
E como não podia deixar de ser, emociona-se ao se aperceber da triste felicidade que essas pessoas vivem diariamente. Com tão pouco são tão felizes. Não passam a vida a reclamar. São verdadeiramente ricas. Aos meus olhos não vejo miséria. Têm vidas preenchidas com amor.
Certamente é esse amor e essa tal felicidade que lhes enche a barriga à noite. Que cura as doenças. Que rega as suas machambas e alimenta os animais.
Os moçambicanos partilharam todas as fotos cheios de orgulho pela presença de Sua Majestade, Reynaldo Gianecchini lá no meio do nada, a forçar sorrisos com as pobres crianças.
Esqueceram-se até que por fotos idênticas quase boicotaram um show do Nelson Freitas.
Em 2016, quando Nelson Freitas esteve em Maputo para um espectáculo de lançamento do seu novo álbum, à saída do aeroporto tirou fotos das ruas. Ao publicar a realidade nua e crua foi criticado, chegando até a apagar a foto.
Os seguidores se mostraram desconfortáveis em ver a sua Pobreza exposta.
Os seguidores moçambicanos do artista cabo-verdeano não gostaram da foto por ele publicada. Fonte: Sapo MZ
Segundo eles Maputo é mais do que aquilo. Moçambique é melhor que aquela foto. Moçambique é lindo, é rico, é limpo. E de facto, somos isso tudo.
Mas somos também essa Pobreza, essa imundice, essa crueldade. Somos – e temos de assumir isso – feitos de contrastes.
Ao negarmos uma Pobreza e aceitarmos a outra evidenciamos a nossa hipocrisia. A nossa preocupação é selectiva. Pouco nos importa quem vê a nossa Pobreza, mas queremos que a Pobreza venha bonita.
Presidente da República Filipe Nyusi e ex ministro da Educação Jorge Ferrão numa escola primária sem carteiras.
A glamourização da Pobreza valida-a. Naturaliza-a.
Ajuda-nos a olhar para a pobreza como algo normal, como algo que não deve ser corrigido.
Visitamos uma escola onde as crianças estudam sem carteira e aplaudimos as suas notas. Sentamo-nos no chão ao seu lado e sorrimos como se fosse confortável estar naquele lugar e de facto aprender. Rimos e brincamos com elas como se aquilo fosse de facto uma escola.
Olhamos para as mulheres atarefadas, a carregar os filhos, as compras e metade do mundo e dizemos “Parabéns! És tão forte!”, em vez de oferecermos soluções concretas para acabar com o seu sofrimento. Soluções para ela não precisar de ser forte. Para ela se sentir confortável em mostrar vulnerabilidade.
Aplaudimos a Pobreza que nos é exibida de forma glamourizada. Gostamos de ver as pessoas pobres a brincar, sofrendo de forma feliz, de forma a que não perturbe a nossa vida pseudo-burguesa.
Queremos ver uma Pobreza com maquilhagem, cirurgia plástica, filtro do instagram, sorriso falso. Uma Pobreza disfarçada.
Pobreza não é glamour. Não é prémio. Não é benção.
A questão da gravidez indesejada é um tema polémico, pois inevitavelmente entra no campo da sexualidade, algo que como sociedade ainda não sabemos bem como abordar.
Uma mulher grávida que está num relacionamento estável é celebrada. Todos aplaudem a possibilidade de uma nova vida! Por vermos esta mulher dentro de um padrão aceitável aos nossos olhos felicitamos a nova vida a caminho e encorajamos a vinda de outras vidas.
Mas uma mulher grávida que não se enquadra nesse padrão é mal vista. Ela é a prova da sexualidade depravada das mulheres. Para as mulheres que optam ter os seus filhos sem um parceiro existe um estigma muito forte associado. São as chamadas “mães solteiras”, como se a palavra “mãe” presumisse por si só um estado civil.
A mensagem por detrás desta expressão é clara: mulher solteira não pode ser mãe. A mulher solteira não pode ter relações sexuais.
Discute-se no Parlamento a penalização do aborto, sem excepções. No centro da discussão cruzam-se questões religiosas com direitos fundamentais e situações sociais e económicas.
A proposta inicial a ser discutida em Luanda prevê com pena de prisão a interrupção voluntária da gravidez, sem nenhuma excepção. Ou seja, mesmo se a gravidez estiver a colocar em risco a vida da mãe ou se for resultado de uma violação sexual, não poderá ser interrompida. A mulher está entre o caixão e a prisão.
Independentemente do que for decidido em Angola a prática do aborto não vai parar.
A verdade é que por detrás de todo o espectáculo mulheres continuarão a interromper as gravidezes que não desejarem. O 1% que tiver condições para tal irá pagar pessoal médico para as fazer, com alguma segurança enquanto o 99% que não tiver condições para tal vai arriscar a própria vida num local clandestino.
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Os defensores da vida do feto esquecem-se muitas vezes do conceito de “autonomia corporal“.
Autonomia corporal que define a inviolabilidade do corpo humano, isto é, cabe a cada pessoa controlar o seu próprio corpo e este direito não pode ser violado.
Um dos exemplos da supremacia da autonomia corporal é a doação de órgãos. A menos que a pessoa tenha consentido em vida à doação dos seus órgãos, estes não podem ser doados. Ou seja, um cadáver tem autonomia corporal.
O mesmo se verifica na doação de sangue. Existem milhares de pessoas todos os dias a morrer em hospitais devido à falta de sangue, no entanto, cabe a cada um de nós decidir se queremos ou não doar sangue. E até podemos doar especificamente a uma determinada pessoa, impedindo que o sangue por nós doado seja utilizado por outra(s) pessoa(s).
Ao obrigarmos as mulheres a levarem as suas gravidezes até ao fim, estamos a tirar-lhes a autonomia corporal, o poder de decisão sobre o seu próprio corpo. Estamos a aceitar que elas têm menos autonomia corporal que um cadáver. Um cadáver que nem sequer vai precisar dos órgãos a serem doados para salvar uma vida em risco.
Para além disto, os mesmos defensores da vida do feto já não se preocupam com a defesa da vida da mãe ou da vida da criança.
É importante que esta mulher tenha apoio se tiver de facto uma criança para criar. E de igual modo também é essencial garantir e salvaguardar os direitos dessa criança.
Onde estão esses mesmos defensores da vida humana quando mulheres em situações de vulnerabilidade precisam de uma fonte de renda? Quando elas são espancadas e violadas? Quando são privadas de exercer o seu direito de ir e vir sem serem assediadas?
Onde estão esses mesmos defensores da vida humana quando as crianças estudam em baixo de árvores? Quando as crianças vão dormir sem ter pelo menos uma refeição por dia? Quando há crianças presas em cadeias de adultos?
Em 2015, Moçambique passou a permitir a interrupção voluntária da gravidez até às 12 semanas. Fonte: Por Dentro de África
Por outro lado, há também uma tendência a reduzir o problema da gravidez a um problema da mulher. É verdade que o corpo é dela, e no corpo dela ela tem a decisão final, mas é de extrema importância termos conversas honestas entre homens e mulheres.
As mulheres não fazem filhos sozinhas. Os homens são 50% dessa concepção. E é preciso que abordemos este assunto urgentemente.
Recentemente, a 19 de Março, celebrou-se o Dia do Pai. Uma pesquisa divulgada pela ONU Mulheres Cabo Verde aponta que quase 60% das crianças daquele país vivem sem a presença dos pais e que cerca de 14% não têm o nome do pai registado nos seus documentos.
Acredito que em outros países as situações possam ser diferentes, tanto para melhor, como para pior – como aliás, especulo que seja o caso de Moçambique onde a fuga à paternidade é mais comum do que o que se pensa. E o que fica subjacente aqui é sobretudo a ideia de que a gravidez e a responsabilidade de cuidar e criar os filhos é da mulher.
Ou seja, ela que se vire!
Num mundo em que a liberdade sexual das mulheres ainda é vivida de forma alienada e heteronormativa, não é de admirar que as mulheres sexualmente activas que engravidam fora dos padrões aceitáveis tenham as suas opções barradas.
A estas mulheres não é permitido decidir o que querem fazer com o próprio corpo.
“A sexualidade da mulher assusta quando não é para o consumo masculino” – Erykah Badu
As mulheres sexualmente activas que engravidam e optam por um aborto não estão à procura de uma saída fácil, pois elas sabem que isso não existe. Elas estão à procura de uma saída que não ponha em causa a sua saúde e estabilidade física, emocional e financeira.
Estão à procura de uma saída de um caminho que não foi o que sonharam. Estão a tomar controle sobre o seu corpo e a decidir sobre aquilo que melhor se adeque às suas situações.
Na semana do 8 de Março, Dia Internacional da Mulher, lembro-me do legado deixado pelas mulheres enteadas da História.
O dia 8 de Março é celebrado por todo o mundo como uma ocasião para lembrar o porquê das mulheres existirem e a sua importância na vida quotidiana. A data está ligada ao movimento sufragista do séc. XIX e ao movimento operário feminino do séc XX.
Por estas alturas no Ocidente se a mulher branca, de classe alta se sentia oprimida, a cidadania plena da mulher negra era virtualmente inexistente. Em larga escala o papel da mulher negra ainda era de servidão: fosse num sentido micro, como escrava doméstica ou num sentido mais amplo, na medida em que viva sobre o domínio do colonialismo europeu.
Não obstante, várias mulheres negras quebraram essas barreiras e fizeram as suas contribuições para o fim do sexismo e do racismo no mundo.
Huda Shaarawi
Fundadora do Sindicato Feminista Egípcio e do Sindicato Feminista Árabe, Huda Shaawari foi uma líder feminista egípcia.
Ainda jovem Shaawari abriu uma escola para educar outras meninas a escrever e ler com várias línguas, como ela tivera oportunidade de aprender, e a adquirir competências para além daquilo que era permitido às meninas na época.
Depois da morte do seu esposo, ela optou por abandonar o uso do véu, algo que causou choque e descontentamento na sociedade. Mas este simples acto iniciou um verdadeiro movimento.
O seu activismo também esteve ligado com o movimento nacionalista egípcio contra a ocupação britânica.
Funmilayo Ransome Kuti
Não haverá lista sobre mulheres africanas importantes contemporâneas sem o nome de Funmilayo Ransome Kuti da Nigéria. Depois de ser criada no regime britânico, Funmilayo foi estudar em Londres, de onde regressou com mais vontade e motivação para retornar às suas raízes tendo abandonado por completo o seu nome inglês.
Fundou o Sindicato de Mulheres de Abeokuta em 1944, juntando donas de casa, académicas, comerciantes e pequenas empreendedoras para a defesa dos direitos políticos, sociais e económicos das mulheres. Este grupo chegou a ter perto de 20 000 membros a trabalhar activamente para a defesa dos seus direitos. O seu maior feito – para além claro de ser mãe de Fela Kuti – foi ter conseguido através do trabalho do sindicato a demissão do rei Ladapo Ademola II.
Yaa Asantewaa
Nas artes da guerra – e do amor – os africanos, ao contrário do que se aprende na escola, já tinham técnicas e estratégias mesmo antes dos europeus invadirem as suas fronteiras.
A rainha Yaa Asantewaa do povo Edweso de Ashanti (actual Gana) foi uma monarca que no início do séc. XX liderou um exercito de 5000 soldados contra as forças coloniais britânicas de modo a conseguir a independência da região.
Apesar da derrota, a coragem e liderança da rainha levaram a um movimento forte do seu povo contra as forças coloniais. Até hoje vários monumentos são erguidos em sua homenagem e ela permanece como uma figura importante da luta de libertação do Gana, o primeiro país africano a ter a sua independência.
Nehanda Nyakasikana
As superstições e a espiritualidade são elementos fortes da identidade africana. A base do pensamento espiritual e até mesmo da religião parte desse entendimento do mundo como algo holístico – físico e sobrenatural.
A figura de Nehanda Nyakasikana representa o casamento desses dois mundos. Ela foi uma líder espiritual e médica tradicional da Rodésia (actual Zimbabué) que teve um papel central na primeira guerra de libertação contra as forças coloniais britânicas entre 1896-1897.
Ao seu capturada pelos seus inimigas, ela profetizou que o seu espírito iria liderar uma segunda guerra de libertação. E foi nesta segunda guerra de libertação que o Zimbabué se tornou independente. O seu nome é o símbolo da força das crenças tradicionais africanas.
Wangari Maathai
Vencedora do primeiro Prémio Nobel da Paz dado a uma mulher africana, Wangari Maathai foi galardoada pelo seu empenho como activista ambiental.
Fundadora do Movimento do Cinturão Verde em 1977, a queniana encorajou o envolvimento de mulheres no combate à desflorestação e lutou para proteger o direito à terra. Consciente de que o problema do ambiente envolvia questões de paz e direitos humanos, ela começou por combater o abuso de poder e as licenças de terra ilegais.
Mesmo com poucos recursos, pouco apoio e uma forte oposição, ela conseguiu gerar impacto através das alianças com organizações não-governamentais a nível regional e internacional.
No total já são mais de 50 milhões de árvores plantadas e milhares de famílias protegidas como resultado do seu trabalho.
Todas estas mulheres de alguma forma foram negadas pela História. Seja pela sua condição social, pelo que fizeram, por onde vêm mas sobretudo pelo que representam.
Representam possibilidades que uma sociedade patriarcal e racista não pode aceitar. Representam oportunidades da quebra de papéis de género e de raça. Põem em causa tudo aquilo que nos querem fazer acreditar que nós mulheres não podemos ser nem fazer.
O livro “O advogado de Inhassunge” levanta questões tão actuais hoje como o tempo que retrata, de guerra civil e reconciliação.
Através da obra de Luís Loforte conhecemos Luiz Conde do Lavradio Almeida de Leão, um cidadão moçambicano negro do distrito de Inhassunge, na Zambézia, que almejava ser um português branco e gozar de todos os privilégios associados a esse estatuto.
Luiz Conde do Lavradio Almeida de Leão era um solicitador que pretendia ser assimilado e para tal fazia-se usar de um português caro e elaborado, vestindo-se com as melhores roupas que o seu dinheiro permitia e fingindo até não ser esposo da sua mulher, uma negra camponesa, que chega a dizer ser sua empregada.
Enquanto tratou dos assuntos legais de outros negros não teve problemas, no entanto, no momento em que se passa por advogado de dois brancos é perseguido e por isso tem de fugir para o Norte do país, onde adopta uma nova identidade e passa a ser guerrilheiro da FRELIMO.
Durante a sua vida vai-se adaptando às realidades impostas transformando-se em várias pessoas perdendo-se até de si mesmo. Passa de guerrilheiro a oficial de campo de reeducação, bêbado vagabundo, herói de libertação nacional e por fim deputado.
Moçambique tornou-se independente em 1975.
Numa dança entre a História e a ficção, Luís Loforte dá-nos a conhecer algumas figuras anónimas que tornaram o sonho (ou pesadelo) de Moçambique possível e leva-nos a questionar os conceitos de identidade, de guerra e até mesmo de nacionalidade.
Numa das passagens mais emocionantes, o protagonista revela a sua frustração com a vida que é obrigado a levar, descrente de qualquer ideal e sem nenhum sonho pela frente:
“Estou cansado de me iludir […]. Agora quero que os outros se iludam por mim, caso desejem […]. No passado, eu iludia-me que era português puro […], mas tive que fugir deles, porque fizeram-me ver que eu não era português nada, que me iludia. Depois, tentei iludir-me que era moçambicano, forcei-me com essa ilusão […]. Todos estes anos eu fui-me libertando de todo o género de ilusões cuja origem era eu próprio. Nunca ganhei nada com ilusão nenhuma.”
À medida que a trama se desenrola e o advogado assume outras identidades, começa a distanciar-se do cinismo e do egoísmo dos seus camaradas. A sua consciência não lhe permite ser cúmplice da corrupção e falta de humanidade da nova elite política moçambicana, que segundo ele não difere da anterior.
A obra evidencia a falácia da Independência como solução definitiva para a construção de um Moçambique totalmente novo. O Moçambique pós-independência revelou-se não ser necessariamente menos repressivo nem menos violento que o Moçambique colonial.
Uma das grandes falhas foi a ilusão do projecto nacional. De facto, nos anos imediatamente posteriores à independência não havia um sentido de Nação. E um dos grandes cismas era a dicotomia “branco-negro”, uma clara herança do passado colonial.
No livro, o autor descreve-nos este insucesso mais à frente, através de um diálogo profundo:
“Para mim brancos e pretos não agarraram o verdadeiro problema do nosso país. O verdadeiro problema é que uns e outros se tomam como entidades; há entidades de brancos e de pretos; começam agora a aparecer a entidade dos mulatos e a entidade dos indianos. Não há uma entidade dos moçambicanos. […] Falta-nos um projecto de todos”
Assim, sem um sentido de fraternidade Moçambique foi novamente palco de uma guerra sangrenta, desta vez entre moçambicanos (negros) e não contra os portugueses (brancos). Por isso é difícil apontar o dedo à culpa. Quem causou tanta dor? Por que morreram tantas pessoas?
Moçambique pós-independência falhou.
As polaridades binárias continuaram a evidenciar-se, muitas vezes até por incentivo das lideranças que numa tentativa de reposição de dignidade e promoção de igualdade, totalizaram esses campos de identidade.
Nos campos da fé, género, etnia, identificação política e raça, entre outros, moçambicanos foram forçados a escolher o seu lado, mesmo sabendo que nenhuma identidade é absoluta.
Ou és negro, ou és branco. Ou és português, ou és moçambicano. Ou estás connosco, ou estás contra nós.
Renamo, 1991 – Peter Strandberg
Renamo, 1991 – Peter Strandberg
E estas classificações se perpetuaram até hoje, pois fazem parte de um contexto histórico válido e correspondem também a uma série de privilégios ou privações a que um determinado grupo está sujeito.
O advogado de Inhassunge é simultaneamente um guerrilheiro conhecedor do mato. É Luiz, aspirante a assimilado e é também Ndala, nacionalista. É um mendigo bêbado e é igualmente deputado da maior bancada da Assembleia.
Cada um de nós é muitos eus. Moçambique é todos esses muitos.
Existe trabalho doméstico ou estamos perante situações de escravidão doméstica?
As negras do quintal eram as mulheres que no séc. XIX/ XX vivam em situação de escravidão doméstica “voluntária” trabalhando sem remuneração, em troca de refúgio e um prato de comida.
Estas mulheres, muitas vezes ainda meninas, eram entregues a famílias abastadas devido às situações precárias dos próprios pais, que sem condições para criá-las, deixavam-nas à mercê da sorte (ou azar) vivendo num canto qualquer do quintal de um casarão.
Como escravas trabalhavam toda a vida com a sua identidade alienada, sem espaço para desenvolver vontade própria ou definir objetivos pessoais para além de trabalharem nas tais casas, os seus “patrões” podiam ceder algumas horas do seu tempo a outras famílias e assim fazer dinheiro com a mão-de-obra das suas negras, como se de um aluguer se tratasse. Isso permitia que os patrões tivessem algum “retorno” do investimento tido no sustento e “treino”da sua funcionária.
Avançamos para o séc. XXI e olhando ao nosso redor vemos uma nova versão dessas negras do quintal nos nossos prédios, nos nossos bairros; nos quartinhos de fundo ou mesmo no chão da sala.
O trabalho doméstico tem origem escravagista. Fonte: Nã0 Me Kahlo
Durante a época colonial ter empregados domésticos era um sinal de prestígio por ser um privilégio de poucos. E para os empregados era uma oportunidade para aprenderem e viverem como cidadãos dignos, aproximando-se ao ideal de “colonizado domesticado”, que apesar de explorado tece uma admiração profunda pelo seu colonizador, uma situação complicada que nos remete à Síndrome de Estocolmo.
Para as vilas e cidades, onde vivia a maior parte das famílias privilegiadas, afluíam sobretudo jovens migrantes do meio rural, em troca de abrigo e comida na esperança de alguma ascensão social. Alguns deles puderam se assimilar, ou se não eles, os seus filhos.
Depois da independência, com a urbanização das vilas e o crescimento das cidades, novamente do meio rural saíam jovens à procura de uma actividade assalariada e muitos a encontraram na forma de trabalho doméstico.
O trabalho braçal sempre esteve a cargo das camadas mais pobres e vulneráveis da população e por isso é visto como inferior. Por esse motivo, o trabalho doméstico é não só desvalorizado, mas menosprezado, evidente pela arbitrariedade na remuneração demasiado baixa; ilegalidades na contratação, jornadas de trabalho longas; assédio moral; abuso sexual e psicológico; entre outros.
Em Moçambique mais de um milhão de crianças são vítimas de trabalho infantil. Fonte: Jornal Notícias
Não é por acaso que a esmagadora maioria das pessoas que exercem tais funções são mulheres negras provenientes de zonas rurais. Para muitas delas não foi uma escolha, mas sim uma necessidade que as levou a sair do seu local de origem.
Num contexto em que muitos jovens homens migram para outros países, como por exemplo a África do Sul, para trabalharem nas minas e raramente enviam o suficiente para a família, as mulheres vêem-se obrigadas a procurar alternativas para sair da situação de precariedade em que se encontram.
Isto, aliado ao facto de vivermos numa sociedade em que há tão poucas oportunidades de crescimento e desenvolvimento para as mulheres rurais, a possibilidade de garantirem a sua sobrevivência e dos seus filhos pode representar a única opção válida.
Estas mulheres desconhecem os seus direitos elementares, como privacidade e respeito e por isso facilmente aceitam as condições “oferecidas” pelos patrões na cidade. Outras, não têm voz na decisão pois tudo é negociado com os pais, sobre a desculpa de “ajudar a criar”. Assim, desde cedo começam a trabalhar se expondo a todos os tipos de violência, sem direito a educação nem acesso a serviços de saúde.
Enquanto isso os seus filhos continuam sem condições para sair da pobreza extrema em que se encontram, pois são criados na ausência dos pais, num meio em que a sua educação é negligenciada e não têm apoio emocional e psicológico para sequer sonhar.
A emancipação da trabalhadora doméstica segundo a artista Mary Sibande. Fonte: The Guardian
É possível ver como a lógica colonial se perpetuou até hoje, em tempos em que famílias de quatro ou mesmo três pessoas se dão ao luxo de ter duas empregadas ao seu dispor.
É comum agora vermos em restaurantes e mesmo festas e convívios familiares casais com as suas crianças e as respectivas babás, muitas vezes uniformizadas ou extremamente mal vestidas, destoando totalmente do ambiente para evidenciar que elas pertencem a outro espaço que não aquele.
Até nos domingos e feriados, para muitos pais os únicos dias que podem passar com os filhos, não conseguem dispensar a sua empregada para ela também gozar de um dia de descanso quiçá também ao lado dos filhos dela.
Os abusos são vários.
Quando viajam também levam consigo as empregadas e raramente pagam aquilo que deviam por isso. É normal em qualquer outro emprego receber-se um valor per diem que cobre pelo menos o dinheiro para a alimentação, estadia e transporte, contudo sabemos que para as empregadas domésticas não é assim, elas raramente sequer escolhem o que vão almoçar.
Se forem empregadas domésticas que dormem no local de serviço, é esperado que elas estejam disponíveis 24h por dia, muitas vezes sem um horário fixo. Porquê? Um engenheiro a trabalhar numa estação petrolífera segue um horário, o mesmo para um marinheiro em alto mar.
E mais, haverá de facto necessidade de ela dormir no local de emprego? Que tarefas precisam de ser feitas à noite e os pais não podem fazer? Será que ela não precisa de estar com a própria família?
O trabalho doméstico é onde sexismo e classismo se convergem. Fonte: Miss Milli B
As negras do quintal mudaram de nome, mas continuam aqui. São as empregadas domésticas, as babás, as secretárias do lar; as ajudantes; etc. São as mulheres que oprimimos em nome da nossa própria ascensão social.
São as mulheres que “são como se fossem da família”, mas a quem privamos de ter uma vida social saudável, manter relações românticas, buscar uma carreira ou prosseguir os estudos. São as mulheres que desde cedo vivem connosco, mas em locais pequenos, pouco arejados e menos confortáveis; vestem as nossas roupas velhas e comem somente aquilo que nós deixamos. São as mulheres que recebem o nosso mau humor de braços abertos, trabalham horas extras sem reclamar e ainda nos põem os filhos para dormir.
Mesmo de forma disfarçada, a verdade é que estas mulheres têm os seus direitos básicos sistematicamente vedados. É uma opressão disfarçada em laços afectivos, já que tratamos o trabalho que fazem com demasiada informalidade e pintado num discurso de caridade e familiaridade.
Estas mulheres, as “negras do quintal”, são invisíveis à nossa vivência burguesa que consegue pagar viagens mas não paga salários dignos.
A música pop africana tem estado a passar uma fase de ouro, com vários artistas a terem reconhecimento internacional fora daquilo que é a “world music”. No hip hop, na kizomba, no RnB e em vários outros estilos musicais, África começa a destacar-se.
Contudo, apesar do som distinto dos sons de hip hop e de kizomba vindos do nosso continente, comparados àqueles de outros locais do mundo, nos vídeos e nos estilos de vida promovidos nada difere.
A nossa criatividade parece não ir tão longe. A imagem da mulher negra nestes espaços continua a ser usada apenas para reforçar estereótipos.
Na cultura pop, o papel da mulher negra sempre foi muito marginal. Apesar as contribuições de mulheres fora do padrão como a Missy Elliott, a maioria das mulheres negras que vemos na indústria musical estão apenas como acessórios para o sucesso de outras pessoas.
São as suas bailarinas, coristas, maquilhadoras, coreógrafas, mas quase sempre o seu papel é apagado.
O legado feminista de Missy Elliott é subestimado criminalmente. Fonte: Dazed
Em África esta tendência começa a evidenciar-se. É comum nos vídeos das estrelas vermos as protagonistas sendo mulheres negras claras ou até mesmo brancas, com uma ou outra negra escura no plano de fundo ou geralmente hipersexualizada e exotificada ao extremo.
O padrão que estabelece como belo no feminino como as feições europeias e a pele clara está tão enraizado e é tão penetrante que não pode ser visto como mera coincidência. Fazendo uma pesquisa rápida pelo Youtube e observando os vídeos musicais de artistas africanos mais vistos rapidamente fica claro que não é uma questão pessoal, mas sim estrutural.
É uma manifestação do racismo e colorismo presentes na nossa sociedade.
Enquanto o racismo é a sobrevalorização de todos os aspectos e atributos da cultura branca (leia-se Ocidental), já o colorismo caracteriza-se pela discriminação de uma pessoa negra de acordo com a tonalidade da sua pele, privilegiando os tons mais claros e os traços associados às pessoas brancas (cabelo liso; nariz fino; etc).
O colorismo é um problema do qual já falei aquando da campanha “No Make Up” (Sem maquilhagem) da Alicia Keys. O colorismo manifesta-se, por exemplo, no excesso de manipulação das fotos das mulheres escuras em capas de revista para que fiquem mais claras e até no preterimento das mulheres negras pelas mulheres mestiças.
A pessoa de pele mais clara é tolerada pois aproxima-se mais à branquitude. E é por isso que o colorismo é resultado do racismo.
Os artistas africanos também são produto dessa mesma sociedade e como tal, muitas vezes, talvez até de forma implícita, sem se aperceberem perpetuam estes ideais de beleza eurocêntricos.
Tendo como referência outras figuras proeminentes, da Europa e sobretudo dos Estados Unidos da América, os artistas africanos inspiram-se na linguagem figurativa e no imaginário daquilo que é o sucesso e o que o sucesso representa para elaborar as suas próprias linhas de comunicação.
Desta forma, sem desafiar as produções da indústria que já são habituais, as mulheres no geral e em especial as negras, aparecem como objectos muitas vezes sem uma cara, somente em pedaços.
As mulheres negras são usadas como acessórios para validar a desejabilidade sexual dos artistas, mas não para representar pares românticos.
Não há dúvidas que tudo isto tem repercussões na auto-estima e na imagem que as próprias mulheres têm de si mesmas. Embora claro, não possamos depositar toda a responsabilidade na falta de representação na música, não podemos negar o lugar central que a música tem na cultura pop.
Quando os artistas mais famosos não valorizam as mulheres negras, nem mesmo em África, temos um problema. É um desperdício o papel central que tais figuras têm na construção de mentalidades e no seu papel como veículos e manifestações das crenças e ideias em torno da beleza e valor da mulher.
Onde estão as mulheres negras escuras em África? Fonte: This is Africa
É importante que mulheres que todas as proveniências e com experiências diversificadas se sintam validadas, e como tal mulheres brancas em relações interraciais também merecem algum espaço.
No entanto, com tão poucos espaços para ver e celebrar as mulheres negras, temos de exigir mais dos nossos artistas em África. Queremos dançar e cantar ao som de ritmos que não só nos enalteçam, mas enalteçam também a nossa imagem.
Queremos ver um novo protótipo de mulher negra, uma nova imagem de nós mesmas. Queremos quebrar esse padrão eurocêntrico.