Niketche: Uma história de Poligamia… e amor!

Niketche: Uma história de Poligamia… e amor!

No livro “Niketche: Uma história de Poligamia”, Paulina Chiziane conta-nos histórias de amor e redenção.

Contado na primeira pessoa, este romance traz-nos a voz de Rami, uma mulher de meia-idade que se vê infeliz no seu casamento com o ausente Tony, um homem dos altos quadros da polícia, que passa mais tempo fora de casa com outras mulheres.

Rami é uma mulher do Sul de Moçambique, criada com os valores cristãos coloniais, que no momento de crise conjugal, procura entender melhor a cultura tradicional que desconhece.

Rami reconhece que as mulheres são vistas como as culpadas de tudo, como a origem de todos os males que assolam a sociedade e por isso, se ela desistir do casamento, embora saiba que tem motivos de sobra para tal, será acusada de ser ela a causadora dos problemas.

“Quando não chove, a culpa é delas. Quando há cheias, a culpa é delas. Quando há pragas e doenças, a culpa é delas que sentaram no pilão, que abortaram às escondidas, que comeram o ovo e as moelas, que entraram nos campos nos momentos de impureza.”

Por isso, apesar de ter uma consciência do seu lugar subalterno como mulher tanto a nível privado, no seu casamento, na sua casa, na sua família, como a nível público, na sociedade em geral, Rami não quer, à partida, desafiar as normas patriarcais que regem a sua vida.

Rami toma a difícil decisão de procurar as mulheres que tanto afastam o seu marido. Ao início é fácil ver Rami como a vítima, porém, à medida que Julieta, Luísa, Saly e Mauá vão ganhando espaço na trama, as linhas desaparecem e torna-se cada vez mais difícil identificar culpados.

Ao conhecermos as histórias pessoais de cada uma delas, os seus dilemas, as suas dificuldades, as suas lutas e conquistas, evidencia-se que elas também são produtos da mesma ordem patriarcal que “vitimou” Rami e as colocou como rivais.

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‘Niketche’ fala sobre poligamia no Moçambique pós-colonial. Fonte: Desacato

Rami decide então institucionalizar o sistema poligâmico no seu casamento, unindo-se às outras mulheres do Tony, de modo a não perder o seu marido.

Rami, Julieta, Luísa, Saly e Mauá têm visões da vida e do mundo completamente diferentes. A forma como vêem o casamento, o conceito de amor e a experiência da sexualidade oferecem ao leitor uma dimensão de pluralidade cultural, e permite-nos olhar para cada uma delas como seres completos, indivíduos distintos com as suas particularidades.

As mulheres em Moçambique – de Norte a Sul – já nascem e crescem num ambiente em que o homem é o centro do Universo e que apenas através dele, elas podem se afirmar.

Contudo, apesar dos desencontros de costumes, tradições, etnias, apesar do contexto multicultural em que vivemos, as cinco mulheres, todas de origens distintas, mostram que existe um denominador comum: a opressão.

O sistema poligâmico é por si só uma contradição no livro. Pois se por um lado, é através da instauração da poligamia que as mulheres de unem, se ajudam e criam laços entre si, por outro, é também através da poligamia que reforçam a centralidade do Tony nas suas vidas.

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Paulina Chiziane Paulina Chiziane foi a primeira escritora a publicar um livro em Moçambique: Fonte: Nau Literária

Nesta encruzilhada entre os valores modernos e os valores tradicionais, Rami descobre-se, questiona-se, alarga-se. De mulher submissa e obediente, Rami passa a olhar-se ao espelho e a assumir um papel central na sua história, na sua casa, no seu casamento.

Rami passa a ser a primeira esposa, aquela que lidera, a mana mais velha que aconselha e consola as restantes. E neste processo de resgate do amor próprio, Rami ensina as outras mulheres a fazerem o mesmo exercício e a libertarem-se das garras opressoras que lhes limitam.

Por isso Niketche não é somente sobre poligamia, é sobre a força de um grupo de mulheres unidas; sobre a necessidade de auto-aceitação e perdão; sobre o rompimento e a reinvenção de tradições; sobre o diálogo intercultural… e sobretudo sobre amor.

“— Niketche?
— Uma dança nossa, dança macua — explica Mauá —, uma dança do amor, que as raparigas recém- iniciadas executam aos olhos do mundo, para afirmar: somos mulheres. Maduras como frutas. Estamos prontas para a vida! Niketche. A dança do sol e da lua, dança do vento e da chuva, dança da criação. Uma dança que mexe, que aquece. Que imobiliza o corpo e faz a alma voar: As raparigas aparecem de tangas e missangas. Movem o corpo com arte saudando o despertar de todas as primaveras.”

Under The Udala Trees, uma Nigéria LGBT+

Under The Udala Trees, uma Nigéria LGBT+

O livro “Under The Udala Trees”  de Chinelo Okparanta retrata uma história nigeriana LGBT+

Este é um dos melhores livros que já li e escrevi um pouco sobre ele em 2016.

Há vários motivos para gostar do livro e um deles é o facto de ser  um livro africano recente que não retrata as vidas de africanos num contexto de emigração, que tem sido uma tendência entre escritores do continente.

Okparanta começa o livro de forma tímida e contida, tornando, na minha opinião, as primeiras páginas aborrecidas, cheias de metáforas e frases bonitas para escrever num caderno de anotações, mas à medida que a história avança, a leitura torna-se mais confortável e as suas frases tornam formas mais naturais.

A autora consegue retratar as experiências de Ijeoma, a protagonista, desde a sua infância à sua idade adulta. Uma mulher numa encruzilhada difícil, obrigada a escolher entre o que ela sente que é certo e o que precisa para sobreviver.

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A autora escreveu para se manifestar contra a opressão vivida pela comunidade LGBT+ na Nigéria. Fonte: The Guardian

 

Seguindo a tradição oral da Nigéria, a narrativa é inspirada pelas histórias e fábulas sobre as diferentes tribos e religiões que coexistem no país.

A puberdade de Ijeoma chega justamente no momento em que começa a guerra civil. Após a morte do pai, a mãe envia a sua filha para uma outra vila mais segura, sobre os cuidados de uma família amiga. Lá, Ijeoma vai descobrir a sua sexualidade, as suas forças e as suas fraquezas.

Decisões complicadas que nos deixam, como leitores, numa luta permanente.

Num país devastado por uma guerra civil e tensões étnicas, o luto é um sentimento constante. As ausências sentem-se ao longo de toda a narrativa. As questões de conflito e tribalismo misturam-se com homofobia, valores tradicionais e xenofobia.

Embora estes temas não sejam o centro da história, tal como na vida real, são componentes que determinam certas crenças e comportamentos. São elementos incorporados de forma tão subtil e bonita!

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Perseguições à comunidade LGBT+ na Nigéria são frequentes. Fonte: The Independent UK

O livro é um interessante começo para termos, como africanos, conversas sinceras sobre as experiências LGBT+ no continente.

Este é um brilhante retrato de histórias queer na Nigéria entre as décadas de 70 e 80, mas não deixa de ser uma história universal: pessoas queer a serem forçadas para espaços marginalizados, tanto física como espiritualmente. Pessoas queer como alvos de violência, tanto física como emocionalmente. Pessoas queer a viverem traumas todos os dias, tanto individualmente como colectivamente.

Na Nigéria, semelhante a outros países é ilegal ser LGBT+. Na base da legislação está a crença em que a homoafetividade é um conceito importado do Ocidente, uma herança nefasta do colonialismo, mas na verdade a homofobia é que na verdade foi importada.

O livro de Okparanta, um manifesto pelo direito a amar, em toda a sua beleza e magnitude, propõe um entendimento mais profundo da questão.

 

 

Perdida nas memórias de Conceição Evaristo

Perdida nas memórias de Conceição Evaristo

Becos da memórias” é um labirinto lindo para nos perdermos que se revela tão actual hoje como era quando foi escrito

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O livro é baseado nas suas lembranças da sua infância. Fonte: Itaú Cultural

Conceição Evaristo traz-nos, em “Becos da memória”, as emoções de Maria-Nova durante os anos 70, em Belo Horizonte (Brasil) quando o bairro onde vive passa por um processo de desfavelamento.

De forma envolvente e emocionante, Evaristo descreve cada rua, cada pessoa, cada história que compunham a sua favela. Nas suas mãos os becos esquecidos e ignorados ganham vida. Vidas.

Através das suas palavras, descobrimos que a favela é muito mais que um aglomerado de barracos, mais do que uma mancha na cidade, mas sim, uma cidade no seu próprio direito. Um mundo por si só.

Um mundo em que as pessoas vivem, crescem, choram, riem, procriam, educam, relembram, esquecem, morrem. Enfim! E este mundo é-nos revelado por Maria-Nova, uma jovem adolescente que se desespera ao ver o mundo e as pessoas que tão bem conhece a desaparecerem.

O desfavelamento anunciado para breve evidencia o fim de uma era para todos eles. Para onde iriam? De onde vieram? Que histórias deixariam para trás? Quais levariam com eles?

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“Escrevivência” em Becos da Memória. Fonte: Scielo

Entre a ficção e a biografia, Evaristo usa-se de Maria-Nova para narrar a sua história e dos seus, como tinha prometido ainda menina.

Este foi talvez o que mais me marcou, já que eu também, desde sempre me comprometi com a tarefa de contar histórias. Ouvi-las, registá-las e recontá-las.

Maria-Nova (ou será Conceição Evaristo?) descobre a clandestinidade da sua existência e daqueles que consigo existem naquela favela. Aliás, a própria favela é metaforicamente, a prova dessa clandestinidade, pois surge de forma aparentemente desorganizada e os seus moradores vivem de forma isolada e invisível.

As semelhanças entre favela e senzala vão-se evidenciando e a menina sente que ainda tem de se libertar.

“Maria-Nova olhou novamente a professora e a turma. Era uma história muito grande! Uma história viva que nascia das pessoas, do hoje, do agora. Era diferente de ler aquele texto. Assentou-se e, pela primeira vez, veio-lhe um pensamento: quem sabe escreveria esta história um dia? Quem sabe passaria para o papel o que estava escrito, cravado e gravado no seu corpo, na sua alma, na sua mente” (p. 138).

De nada valia aquela liberdade clandestina. Aquelas vidas na miséria. Aquela fome. Aquela saudade. Era preciso uma liberdade plena, que lhe permitisse crescer e sair daquele lugar. Daqueles lugares: Senzala e Favela.

E é desta forma que Maria-Nova, inspirada nas figuras que dentro daquela favela ainda tinham esperança, decide também encontrar o seu papel na luta pela liberdade: escrever.

A ideia da escrita como resistência, como forma de fazer estas histórias sobreviverem-lhe revela-se à medida que a urgência da mudança se intensifica.

“agora ela [Maria-Nova] já sabia qual seria a sua ferramenta, a escrita. Um dia, ela haveria de narrar, de fazer soar, de soltar as vozes, os murmúrios, os silêncios, o grito abafado que existia, que era de cada um e de todos. Maria-Nova, um dia, escreveria a fala de seu povo (p. 161).

A escrita é a ferramenta escolhida para mostrar que naquele amontoado de barracos, há também sonhos, desejos, amores, paixões, planos que caminham de mãos dadas com a violência e os traumas acumulados nos becos da favela.

Naquilo que a autora chama de “escrevivência”, Evaristo traz a tradição da oralidade para o livro escrito, compilando vivências diversas e relacionando-as a complexa teia que compõe por fim a própria História do Brasil.

Maria-Nova mostra-nos o universo íntimo de Tio Totó, mãe Joana, Maria-Velha, Bondade, Negro Alírio e tantos outros, que representam assim as histórias de afrodescendentes nos diferentes espaços e tempos do Brasil.

É desta forma que Maria-Nova e Conceição Evaristo são a mesma pessoa. Menina, Mulher, Negra, Periférica, Favelada, Brasileira. No fundo, a mesma figura em pontos opostos de uma única ponte: o tempo. Entre elas apenas o sonho. Uma é a proposição, e outra a realização do dever de memória e de escrita. A grande missão contar histórias.

 

 

Eduardo Paixão, o vendedor de utopias

Eduardo Paixão, o vendedor de utopias

O olhar do escritor face as utopias vividas em Moçambique nos anos 70.

Publicado em 1972, o livro “Cacimbo”, de Eduardo Paixão descreve os últimos anos de ocupação colonial portuguesa em Lourenço Marques (Maputo) seguindo os amores e dissabores de uma família portuguesa em Moçambique.

Um importante livro na sua época, pois capta as emoções e contradições de uma geração no meio de um conflito intenso e de várias mudanças, em todo o mundo. Assim, o autor explora os conceitos de (des)colonização; socialismo/ comunismo; identidade; nacionalidade e raça.

Nota-se no seu tom que o livro é mais um manifesto do que romance, na medida em que propõe uma acção ao leitor, fazendo denúncias aos princípios ultrapassados que justificavam o Colonialismo e evidenciando a necessidade de se criar uma nova realidade para Moçambique.

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Usando-se dos personagens para representarem determinadas figuras/ valores da sociedade, o autor então vende-nos esta nova realidade, a tal utopia, re-imaginando-os.

Por exemplo, D. Emília de Sucena, representa os valores da família e a figura da mulher-mãe na sociedade colonial: zelosa; ocupada com reuniões sociais, jantares e institutos de beleza.

O seu filho, Artur, representa a revolução: a juventude activa; o inconformismo;  a fúria e desgosto de quem se vê com poucas armas para defender os seus ideais.

Também o narrador, omnisciente, serve de porta-voz para a razão. Ele é que legitima todo o fundamento ideológico ao longo da história, mostrando não só o que o personagem verbaliza, mas também o que pensa.

No entanto, ao se tornar testemunha, o próprio narrador mostra algumas contradições, pois se por um lado condena o Colonialismo e sonha com um mundo em que todas as raças possam viver harmoniosamente, por outro é incapaz de denunciar as atrocidades e a brutalidade do Colonialismo Português.

Ainda que de forma sofisticada, Eduardo Paixão, procura sempre a visão luso-tropicalista do bom colonizador português.

“O nosso tradicional multirracialismo possibilitava-nos um presente de paz e amor” (p.132)

Pela voz de Anabela acrescenta, mais tarde:

“Felizmente nós [os portugueses] não praticamos a segregação racial que leva ao ódio e à destruição.” (p. 244)

A única figura racista no livro é D. Emília, que se vê desconfortável pelo seu filho namorar com uma rapariga negra.

“Era o maior desgosto da minha vida ver o meu filho casado com uma rapariga de cor.” (p. 126)

É por isso interessante cruzar todos os discursos e imaginar a tal utopia que nos tenta vender Eduardo Paixão. Que mundo é esse em que brancos e pretos vivem harmoniosamente? Como construir esse mundo em que brancos e pretos são igualmente livres?

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Literatura colonial em Moçambique: o paradigma submerso – Fonte: USP

Eduardo Paixão, como criador também é, ele próprio, a História. Pois é através do seu olhar que desenhamos a sua época. Por isso temos de digerir essas tensões que tanto o incomodam. Será Portugal um “bom colonizador”? Como repudiar o Colonialismo Português sem ser anti-Portugal?

É esta constante comichão que sentimos ao ler “Cacimbo”: um cansativo e desesperado exercício para defender um ideal sem ferir a realidade que conhece e que o molda.

Inserir os personagens, a narrativa e o próprio autor no devido tempo e espaço, com todas as ideias, preconceitos, contradições e transformações é essencial para perceber a obra.

As utopias descritas em “Cacimbo” continuam actual na medida em que a visão colonial ainda não foi concretizada e precisa de nós, desta actual realidade para se decidir – O que é isto de ser livre, afinal?

Wangari Maathai na primeira pessoa

Wangari Maathai na primeira pessoa

Foi há 13 anos atrás que Wangari Maathai se tornou na primeira africana a ser premiada com o Prémio Nobel da Paz pelo seu trabalho como ambientalista.

Maathai lutou pela liberdade e paz no Quénia usando o Ambiente como ferramenta para tal.

A sua abordagem multidimensional interligava abordagens científicas, ambientais, e culturais, lembrando as comunidades rurais daquilo que eram as tradições para a conservação da terra.

Estas tradições, que ao pouco foram se perdendo, sobretudo pela influência do capitalismo e do colonialismo, estavam muito ligadas à preservação e respeito pela Terra.

Na sua autobiografia “Unbowed”, percebemos como a sua teimosa dedicação e o seu sentido forte de compromisso foram o seu Norte e o seu Sul para a tomada de decisões.

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Tendo passado grande parte da infância na parte rural do Quénia, Maathai cresceu rodeada de árvores, plantas e animais.

Qual foi o seu susto, quando anos mais tarde, percebeu que grande parte desses ecossistemas estavam destruídos e que pessoas antes auto-sustentáveis, não só dependiam de doações para se alimentar, como também não tinham condições para plantar os seus alimentos.

Muito do conhecimento foi-se perdendo com o passar do tempo e, muitas áreas aráveis tinham sido cedidas para grandes plantações, como por exemplo do chá.

Foi então que começou um movimento ingénuo e isolado, em 1977, o Green Belt Movement, no sentido de reflorestar essas zonas e resgatar todo o conhecimento que já existia.

Este movimento começou primeiramente por dinamizar grupos de mulheres rurais – responsáveis por cultivar as terras – no sentido de plantar algumas zonas perto das suas casas.

Rapidamente, com o seu tempo e os seus sacrifícios, transformou-se numa verdadeira revolução.

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Wangari Maathai fundou o “Green Belt Movement” em 1977. Fonte: The Green Belt Movement

Não bastava apenas plantar árvores isoladamente. Era preciso perceber a importância de cada espécie; a pertinência de serem plantadas em determinadas zonas; de regá-las e mantê-las vivas, ainda que seja para as gerações futuras.

“The trees (we) are cutting today were not planted by us, but by those who came before. So we must plant trees that will benefit communities in the future.”/ As plantas que estamos a cortar hoje não foram plantadas por nós, mas por aqueles que vieram antes. Portanto devemos plantar árvores que irão beneficiar comunidades no futuro. 

E para tal era preciso também abordar questões de género; de herança de terras; de cedência de terras a indústrias poderosas; de doenças; de saúde; etc.

Estes grupos começaram portanto a exercer a sua cidadania de forma mais activa, questionando decisões tomadas no topo; exigindo explicações e conhecendo os seus direitos.

Esta abordagem despertou a atenção de quem estava no poder e ela foi obrigada a fazer grandes sacrifícios em nome da sua visão. Perseguida, presa, torturada, nada a parou de seguir os seus objectivos.

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Maathai foi a primeira mulher africana com o grau de PhD e a primeira a ganhar o Nobel da PAz. Fonte: Nobel Prize

Ela soube ser uma figura pública: a estratégia; a logística; que é preciso saber para se defender e proteger de um regime opressor. O crescimento da sua imagem e da sua legitimidade, permitiram-lhe canalizar mais meios e poder para o movimento.

E mesmo antes disso, é impressionante e inspirador perceber como ela soube maximizar todas as oportunidades que lhe foram dadas: a oportunidade de começar a estudar, mais tarde, de ir para um internato de freiras, posteriormente o ensino superior nos EUA e por fim a sua posição aquando do regresso ao Quênia.

“Education, if it means anything, should not take people away from the land, but instill in them even more respect for it, because educated people are in a position to understand what is being lost.”/ Educação, se significa alguma coisa, não deveria afastar as pessoas da terra, mas incutir nelas ainda mais respeito, porque pessoas educadas estão numa posição de entender o que se está a perder. 

A sua mobilização das comunidades não se limitou somente à plantação de árvores, pois Maathai viu nisso uma oportunidade para criar sinergias entre temas como democracia; género; solidariedade.

Essa teia criada permitiu-lhe não só replicar o modelo, mas criar um impacto gigantesco (mais de 20 milhões de árvores plantadas) e deixar um legado imensurável.

Wangari Maathai fez-nos acreditar na possibilidade de um desenvolvimento sustentável antes de isso estar na moda.

 

Ludo, esquecida e encontrada

Ludo, esquecida e encontrada

Em “Teoria Geral do Esquecimento” conhecemos Ludo, uma mulher esquecida em Luanda e encontrada após 30 anos.

Tudo começa em Luanda, nos anos 70, quando a guerra pela libertação de Angola cria um ambiente de instabilidade e insegurança generalizados, que levam muitas famílias da classe média/ alta a fugir rumo a Portugal.

Ludovica Fernandes Mano (Ludo), portuguesa que vive com a irmã e o cunhado na capital angolana é a protagonista, que sofre de fobia social e não sai de casa. Os três moram num prédio bem situado, na cidade de Luanda e observam calmos o movimento de angolanos e portugueses sem saber se vão ou se ficam.

Numa noite o casal sai para jantar e nunca mais regressa. É aqui onde começa a história de esquecimento de Ludo.

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Foto: ‘Os dias da independência, angola 1975’, de Joaquim Lobo

Através de recortes de diários e anotações da própria Ludo, José Eduardo Agualusa guia-nos pela consciência dela e pelos seus maiores medos e prazeres.

Tendo como escudo o muro que ergueu a separar o seu apartamento do resto do prédio, Ludo mantém-se isolada por quase 30 anos no seu apartamento tendo como única companhia o latir faminto de Fantasma, seu cão.

Ludo revela-se extremamente inteligente, proactiva e até mesmo destemida no conforto do seu limitado habitat. É uma mulher forte, que não se deixa sucumbir pelas incertezas e instabilidades ao seu redor, mas antes, consegue manter uma certa lucidez que, no meio de tanta loucura, pode parecer estranho.

‘Às vezes vejo um macaco passeando-se pelos ramos, lá no fundo, por entre sombra e os pássaros. Deve ter pertencido a alguém, talvez tenha fugido, ou então o dono abandonou-o. Simpatizo com ele. É, como eu, um corpo estranho à cidade.”

Ludo tenta manter a sua sanidade quando tudo parece desmoronar-se à sua volta: o desaparecimento da sua única família; a decadência da cidade; o abandono ao estilo de vida que até então levava; etc.

Ela vê-se numa encruzilhada entre guerra e paz; vida e morte. No meio deste cenário consegue manter um pouco de “normalidade” que lhe garante a sua sobrevivência.

E isso leva-nos à questão: o que é ‘normal’ em tempo de guerra? O que é ‘normal’ no colonialismo’? Nas revoluções?

Existirá forma de passar por estes processos históricos sem esquecer um pouco quem nós somos? Quem nós fomos?

teoria-geral-do-esquecimentoEste é um livro sobre pessoas esquecidas, pessoas que querem esquecer e/ou pessoas que querem ser esquecidas. E claro, sobre os processos de reconstrução ou destruição que devem ser feitos para que isso aconteça.

Rapidamente percebe-se que não há heróis nem vilões, não há Deus nem Diabo e todas as pessoas batalham diariamente para gerir e equilibrar tanto as forças do bem como as forças do mal que têm dentro de si.

Ludovica é uma excelente metáfora para a própria Angola que, por quase 30 anos isolou-se, combatendo guerras com a própria consciência, tendo erguido um muro que a separou do resto do mundo.

Contudo, o mundo lá fora continuou a girar e a mudar na sua original indiferença e um dia Angola – assim como Ludo – teve de enfrentá-lo.

Esses conflitos internos – tanto em Ludo, como em Angola – são-nos descritos com um ritmo que nem sempre é o mesmo, mas que nunca nos é difícil acompanhar.

O autor vai enquadrando todos os acontecimentos na História, trazendo-nos personagens diferentes, em situações por vezes tristes, por vezes contentes, sempre com bastante sarcasmo e ironia – tal como é também na vida real.

Este ritmo da própria história é de tal forma envolvente que o próprio leitor esquece-se do que estará a acontecer. O leitor perde-se no tempo: passado; presente e futuro misturam-se. Não importa.

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O livro garantiu ao autor o Prémio Literário Internacional de Dublin. Fonte: Agualusa

Ao recontar (ou seria reinventar?) a história de Ludo, Agualusa traz à superfície importantes reflexões sobre o racismo, o colonialismo e a xenofobia, e por outro lado, leva-nos também a repensar a depressão, a memória e acima de tudo a justiça.

O autor brinca connosco, como se fôssemos marionetas, puxando-nos para dentro e fora da realidade de Ludovica, não deixando, no entanto de dizer aquilo que quer de nós.

A história ficcionada de Ludo oferece-nos algo entre a vida real e a vida imaginada; a memória individual e a memória colectiva de Angola, começando na guerra pela independência até ao início do séc. XIX.

Nesta brincadeira de faz-de-contas, o autor, de forma cómica e verdadeira dá-nos a conhecer os caminhos difíceis, com muitas quedas e tropeços, da História recente de Angola.

 

Yaa Gyasi pelo Povo Negro

Yaa Gyasi pelo Povo Negro

O livro “Homegoing” de Yaa Gyasi é um manifesto gritante pela vivência, coragem e preserverança do povo negro.

Não sei exactamente se podemos falar de um “povo negro”, mas o livro de Yaa Gyasi faz um argumento bem interessante sobre essa experiência de trauma, conflito e esperança partilhada que as pessoas negras de todo o mundo têm entre si.

Há livros que terminamos de ler e olhamos para o tecto, com o coração cheio e a certeza que levará muito tempo até lermos um livro tão bom novamente. Homegoing é tudo isso e muito mais!

O livro atravessa séculos e continentes seguindo sete gerações da mesma família.

Tudo começa com duas irmãs, separadas por um grande incêndio e criadas por comunidades distintas – uma pelos Fante e outra pelos Asante – que desconhecem a existência uma da outra e seguem as suas vidas separadas.

Effia casa-se com um oficial britânico, que vive do comércio de africanos escravizados no Castelo da Costa do Cabo e, Esi que é capturada e levada para a masmorra desse mesmo castelo e eventualmente traficada para os Estados Unidos da América, onde é escravizada.

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O livro segue os sonhos e pesadelos das suas irmãs. Fonte: The New York Times

A narrativa segue por ordem cronológica os encontros e desencontros das ramificações dessa família. O fogo, uma presença constante ao longo da história, representa todos os traumas, sacrifícios, dores e alegrias que atravessam os descendentes das duas irmãs.

Em cada capítulo conhecemos um novo rosto, numa nova época, e com isso as mudanças sociais, económicas e culturais tanto no Gana como nos Estados Unidos da América: a escravatura; o colonialismo; o racismo; etc.

“The family is like the forest: if you are outside it is dense; if you are inside you see that each tree has its own position./ A família é como uma floresta: se você está do lado de fore é densa; se você está do lado de dentro, você vê cada árvore na sua própria posição”

A história força-nos a olhar para nós mesmos e para o nosso papel na teia de relações em que estamos inseridos, tanto no tempo como no espaço.

Que segredos e traumas carregamos no nosso DNA? O que teria sido de mim se fosse eu nesse lugar?

Pelo olhar dos personagens, fica evidente como o legado da escravatura e do colonialismo, ditam o decorrer da vida, tanto do lado dos que foram para as Américas, como para aqueles que ficaram em África.

Primeiro as guerras tribais no Gana pré-colonial, no séc. XVIII, os horrores da ocupação britânica e do comércio de africanos escravizados; a promiscuidade entre os líderes ganenses e os britânicos no tráfico de humanos para alimentar a escravatura até à libertação do Gana.

Depois, o sofrimento e dor desses africanos traficados nos Estados Unidos da América, longe daquilo que és é familiar e despidos de toda a dignidade. A fuga, o medo e as perseguições nos anos pré e pós Guerra Civil Americana. O racismo e todos os riscos aliados à vida nos subúrbios das grandes cidades.

Tudo isto tendo o povo negro no centro de todos estes acontecimentos.

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No Castelo da Costa do Cabo de onde partiam os africanos, no Ghana, ainda ecoam as suas vozes. Fonte: The Guardian

Não há dúvidas que a obra envolveu um trabalho árduo de investigação, mas mais do que isso, que obrigou a autora, de origem ganesa, a confrontar-se com os seus próprios fogos, a sua própria origem.

Yaa Gyasi consegue guiar-nos nessa viagem de forma confortável, com as descrições fiéis ao mínimo detalhe, levando-nos à África Ocidental do séc. XVII, ao Sul dos E.U.A. no séc XIV e ao bairro de Harlem no séc. XX, terminando novamente no Gana, mas desta vez no séc. XXI.

“Every moment has a precedent and comes from this other moment, that comes from this other moment, that comes from this other moment./ Cada momento tem um precedente que vem de um outro momento, que vem de um outro momento, que vem de um outro momento.” – Yaa Gyasi

É de aplaudir a ambição de Yaa Gyasi, em re-imaginar os processos históricos e as escolhas de cada indivíduo, de cada árvore, que por sua vez, desencadeia outras reacções e como essas escolhas influenciam toda a comunidade, toda a floresta.

Ela junta-se a Chimamanda Adichie e a outras autoras africanas contemporâneas que fazem uso da História, da tradição oral africana e das vivências reais de pessoas negras para dar protagonismo a estas figuras.

A riqueza, cor e textura das suas palavras tornam esta saga familiar numa experiência universal, de busca por auto-conhecimento, por respostas e sobretudo, por origens. Só podemos evoluir, como indivíduos e como comunidade, se soubermos de onde viemos.