Wangari Maathai na primeira pessoa

Wangari Maathai na primeira pessoa

Foi há 13 anos atrás que Wangari Maathai se tornou na primeira africana a ser premiada com o Prémio Nobel da Paz pelo seu trabalho como ambientalista.

Maathai lutou pela liberdade e paz no Quénia usando o Ambiente como ferramenta para tal.

A sua abordagem multidimensional interligava abordagens científicas, ambientais, e culturais, lembrando as comunidades rurais daquilo que eram as tradições para a conservação da terra.

Estas tradições, que ao pouco foram se perdendo, sobretudo pela influência do capitalismo e do colonialismo, estavam muito ligadas à preservação e respeito pela Terra.

Na sua autobiografia “Unbowed”, percebemos como a sua teimosa dedicação e o seu sentido forte de compromisso foram o seu Norte e o seu Sul para a tomada de decisões.

22281823_10155630428325390_243293201014592235_n

Tendo passado grande parte da infância na parte rural do Quénia, Maathai cresceu rodeada de árvores, plantas e animais.

Qual foi o seu susto, quando anos mais tarde, percebeu que grande parte desses ecossistemas estavam destruídos e que pessoas antes auto-sustentáveis, não só dependiam de doações para se alimentar, como também não tinham condições para plantar os seus alimentos.

Muito do conhecimento foi-se perdendo com o passar do tempo e, muitas áreas aráveis tinham sido cedidas para grandes plantações, como por exemplo do chá.

Foi então que começou um movimento ingénuo e isolado, em 1977, o Green Belt Movement, no sentido de reflorestar essas zonas e resgatar todo o conhecimento que já existia.

Este movimento começou primeiramente por dinamizar grupos de mulheres rurais – responsáveis por cultivar as terras – no sentido de plantar algumas zonas perto das suas casas.

Rapidamente, com o seu tempo e os seus sacrifícios, transformou-se numa verdadeira revolução.

portrait.-Wangari-Maathai-1
Wangari Maathai fundou o “Green Belt Movement” em 1977. Fonte: The Green Belt Movement

Não bastava apenas plantar árvores isoladamente. Era preciso perceber a importância de cada espécie; a pertinência de serem plantadas em determinadas zonas; de regá-las e mantê-las vivas, ainda que seja para as gerações futuras.

“The trees (we) are cutting today were not planted by us, but by those who came before. So we must plant trees that will benefit communities in the future.”/ As plantas que estamos a cortar hoje não foram plantadas por nós, mas por aqueles que vieram antes. Portanto devemos plantar árvores que irão beneficiar comunidades no futuro. 

E para tal era preciso também abordar questões de género; de herança de terras; de cedência de terras a indústrias poderosas; de doenças; de saúde; etc.

Estes grupos começaram portanto a exercer a sua cidadania de forma mais activa, questionando decisões tomadas no topo; exigindo explicações e conhecendo os seus direitos.

Esta abordagem despertou a atenção de quem estava no poder e ela foi obrigada a fazer grandes sacrifícios em nome da sua visão. Perseguida, presa, torturada, nada a parou de seguir os seus objectivos.

04_05_oslo
Maathai foi a primeira mulher africana com o grau de PhD e a primeira a ganhar o Nobel da PAz. Fonte: Nobel Prize

Ela soube ser uma figura pública: a estratégia; a logística; que é preciso saber para se defender e proteger de um regime opressor. O crescimento da sua imagem e da sua legitimidade, permitiram-lhe canalizar mais meios e poder para o movimento.

E mesmo antes disso, é impressionante e inspirador perceber como ela soube maximizar todas as oportunidades que lhe foram dadas: a oportunidade de começar a estudar, mais tarde, de ir para um internato de freiras, posteriormente o ensino superior nos EUA e por fim a sua posição aquando do regresso ao Quênia.

“Education, if it means anything, should not take people away from the land, but instill in them even more respect for it, because educated people are in a position to understand what is being lost.”/ Educação, se significa alguma coisa, não deveria afastar as pessoas da terra, mas incutir nelas ainda mais respeito, porque pessoas educadas estão numa posição de entender o que se está a perder. 

A sua mobilização das comunidades não se limitou somente à plantação de árvores, pois Maathai viu nisso uma oportunidade para criar sinergias entre temas como democracia; género; solidariedade.

Essa teia criada permitiu-lhe não só replicar o modelo, mas criar um impacto gigantesco (mais de 20 milhões de árvores plantadas) e deixar um legado imensurável.

Wangari Maathai fez-nos acreditar na possibilidade de um desenvolvimento sustentável antes de isso estar na moda.

 

Ludo, esquecida e encontrada

Ludo, esquecida e encontrada

Em “Teoria Geral do Esquecimento” conhecemos Ludo, uma mulher esquecida em Luanda e encontrada após 30 anos.

Tudo começa em Luanda, nos anos 70, quando a guerra pela libertação de Angola cria um ambiente de instabilidade e insegurança generalizados, que levam muitas famílias da classe média/ alta a fugir rumo a Portugal.

Ludovica Fernandes Mano (Ludo), portuguesa que vive com a irmã e o cunhado na capital angolana é a protagonista, que sofre de fobia social e não sai de casa. Os três moram num prédio bem situado, na cidade de Luanda e observam calmos o movimento de angolanos e portugueses sem saber se vão ou se ficam.

Numa noite o casal sai para jantar e nunca mais regressa. É aqui onde começa a história de esquecimento de Ludo.

angola75_1
Foto: ‘Os dias da independência, angola 1975’, de Joaquim Lobo

Através de recortes de diários e anotações da própria Ludo, José Eduardo Agualusa guia-nos pela consciência dela e pelos seus maiores medos e prazeres.

Tendo como escudo o muro que ergueu a separar o seu apartamento do resto do prédio, Ludo mantém-se isolada por quase 30 anos no seu apartamento tendo como única companhia o latir faminto de Fantasma, seu cão.

Ludo revela-se extremamente inteligente, proactiva e até mesmo destemida no conforto do seu limitado habitat. É uma mulher forte, que não se deixa sucumbir pelas incertezas e instabilidades ao seu redor, mas antes, consegue manter uma certa lucidez que, no meio de tanta loucura, pode parecer estranho.

‘Às vezes vejo um macaco passeando-se pelos ramos, lá no fundo, por entre sombra e os pássaros. Deve ter pertencido a alguém, talvez tenha fugido, ou então o dono abandonou-o. Simpatizo com ele. É, como eu, um corpo estranho à cidade.”

Ludo tenta manter a sua sanidade quando tudo parece desmoronar-se à sua volta: o desaparecimento da sua única família; a decadência da cidade; o abandono ao estilo de vida que até então levava; etc.

Ela vê-se numa encruzilhada entre guerra e paz; vida e morte. No meio deste cenário consegue manter um pouco de “normalidade” que lhe garante a sua sobrevivência.

E isso leva-nos à questão: o que é ‘normal’ em tempo de guerra? O que é ‘normal’ no colonialismo’? Nas revoluções?

Existirá forma de passar por estes processos históricos sem esquecer um pouco quem nós somos? Quem nós fomos?

teoria-geral-do-esquecimentoEste é um livro sobre pessoas esquecidas, pessoas que querem esquecer e/ou pessoas que querem ser esquecidas. E claro, sobre os processos de reconstrução ou destruição que devem ser feitos para que isso aconteça.

Rapidamente percebe-se que não há heróis nem vilões, não há Deus nem Diabo e todas as pessoas batalham diariamente para gerir e equilibrar tanto as forças do bem como as forças do mal que têm dentro de si.

Ludovica é uma excelente metáfora para a própria Angola que, por quase 30 anos isolou-se, combatendo guerras com a própria consciência, tendo erguido um muro que a separou do resto do mundo.

Contudo, o mundo lá fora continuou a girar e a mudar na sua original indiferença e um dia Angola – assim como Ludo – teve de enfrentá-lo.

Esses conflitos internos – tanto em Ludo, como em Angola – são-nos descritos com um ritmo que nem sempre é o mesmo, mas que nunca nos é difícil acompanhar.

O autor vai enquadrando todos os acontecimentos na História, trazendo-nos personagens diferentes, em situações por vezes tristes, por vezes contentes, sempre com bastante sarcasmo e ironia – tal como é também na vida real.

Este ritmo da própria história é de tal forma envolvente que o próprio leitor esquece-se do que estará a acontecer. O leitor perde-se no tempo: passado; presente e futuro misturam-se. Não importa.

DC7mydZXgAAhURh
O livro garantiu ao autor o Prémio Literário Internacional de Dublin. Fonte: Agualusa

Ao recontar (ou seria reinventar?) a história de Ludo, Agualusa traz à superfície importantes reflexões sobre o racismo, o colonialismo e a xenofobia, e por outro lado, leva-nos também a repensar a depressão, a memória e acima de tudo a justiça.

O autor brinca connosco, como se fôssemos marionetas, puxando-nos para dentro e fora da realidade de Ludovica, não deixando, no entanto de dizer aquilo que quer de nós.

A história ficcionada de Ludo oferece-nos algo entre a vida real e a vida imaginada; a memória individual e a memória colectiva de Angola, começando na guerra pela independência até ao início do séc. XIX.

Nesta brincadeira de faz-de-contas, o autor, de forma cómica e verdadeira dá-nos a conhecer os caminhos difíceis, com muitas quedas e tropeços, da História recente de Angola.

 

Yaa Gyasi pelo Povo Negro

Yaa Gyasi pelo Povo Negro

O livro “Homegoing” de Yaa Gyasi é um manifesto gritante pela vivência, coragem e preserverança do povo negro.

Não sei exactamente se podemos falar de um “povo negro”, mas o livro de Yaa Gyasi faz um argumento bem interessante sobre essa experiência de trauma, conflito e esperança partilhada que as pessoas negras de todo o mundo têm entre si.

Há livros que terminamos de ler e olhamos para o tecto, com o coração cheio e a certeza que levará muito tempo até lermos um livro tão bom novamente. Homegoing é tudo isso e muito mais!

O livro atravessa séculos e continentes seguindo sete gerações da mesma família.

Tudo começa com duas irmãs, separadas por um grande incêndio e criadas por comunidades distintas – uma pelos Fante e outra pelos Asante – que desconhecem a existência uma da outra e seguem as suas vidas separadas.

Effia casa-se com um oficial britânico, que vive do comércio de africanos escravizados no Castelo da Costa do Cabo e, Esi que é capturada e levada para a masmorra desse mesmo castelo e eventualmente traficada para os Estados Unidos da América, onde é escravizada.

0612-BKS-Cover-jumbo-v2
O livro segue os sonhos e pesadelos das suas irmãs. Fonte: The New York Times

A narrativa segue por ordem cronológica os encontros e desencontros das ramificações dessa família. O fogo, uma presença constante ao longo da história, representa todos os traumas, sacrifícios, dores e alegrias que atravessam os descendentes das duas irmãs.

Em cada capítulo conhecemos um novo rosto, numa nova época, e com isso as mudanças sociais, económicas e culturais tanto no Gana como nos Estados Unidos da América: a escravatura; o colonialismo; o racismo; etc.

“The family is like the forest: if you are outside it is dense; if you are inside you see that each tree has its own position./ A família é como uma floresta: se você está do lado de fore é densa; se você está do lado de dentro, você vê cada árvore na sua própria posição”

A história força-nos a olhar para nós mesmos e para o nosso papel na teia de relações em que estamos inseridos, tanto no tempo como no espaço.

Que segredos e traumas carregamos no nosso DNA? O que teria sido de mim se fosse eu nesse lugar?

Pelo olhar dos personagens, fica evidente como o legado da escravatura e do colonialismo, ditam o decorrer da vida, tanto do lado dos que foram para as Américas, como para aqueles que ficaram em África.

Primeiro as guerras tribais no Gana pré-colonial, no séc. XVIII, os horrores da ocupação britânica e do comércio de africanos escravizados; a promiscuidade entre os líderes ganenses e os britânicos no tráfico de humanos para alimentar a escravatura até à libertação do Gana.

Depois, o sofrimento e dor desses africanos traficados nos Estados Unidos da América, longe daquilo que és é familiar e despidos de toda a dignidade. A fuga, o medo e as perseguições nos anos pré e pós Guerra Civil Americana. O racismo e todos os riscos aliados à vida nos subúrbios das grandes cidades.

Tudo isto tendo o povo negro no centro de todos estes acontecimentos.

4288
No Castelo da Costa do Cabo de onde partiam os africanos, no Ghana, ainda ecoam as suas vozes. Fonte: The Guardian

Não há dúvidas que a obra envolveu um trabalho árduo de investigação, mas mais do que isso, que obrigou a autora, de origem ganesa, a confrontar-se com os seus próprios fogos, a sua própria origem.

Yaa Gyasi consegue guiar-nos nessa viagem de forma confortável, com as descrições fiéis ao mínimo detalhe, levando-nos à África Ocidental do séc. XVII, ao Sul dos E.U.A. no séc XIV e ao bairro de Harlem no séc. XX, terminando novamente no Gana, mas desta vez no séc. XXI.

“Every moment has a precedent and comes from this other moment, that comes from this other moment, that comes from this other moment./ Cada momento tem um precedente que vem de um outro momento, que vem de um outro momento, que vem de um outro momento.” – Yaa Gyasi

É de aplaudir a ambição de Yaa Gyasi, em re-imaginar os processos históricos e as escolhas de cada indivíduo, de cada árvore, que por sua vez, desencadeia outras reacções e como essas escolhas influenciam toda a comunidade, toda a floresta.

Ela junta-se a Chimamanda Adichie e a outras autoras africanas contemporâneas que fazem uso da História, da tradição oral africana e das vivências reais de pessoas negras para dar protagonismo a estas figuras.

A riqueza, cor e textura das suas palavras tornam esta saga familiar numa experiência universal, de busca por auto-conhecimento, por respostas e sobretudo, por origens. Só podemos evoluir, como indivíduos e como comunidade, se soubermos de onde viemos.

Choriro e a disputa pelo espaço

Choriro e a disputa pelo espaço

O livro Choriro, de Ungulani Ba Ka Khosa descreve o espaço ao Sul do Zambeze no séc. XIX

“Choriro”, que significa choro em língua local, descreve os dramas, as intrigas e esperanças em torno da morte de Nhabezi, um rei branco, que em tempos dominou a região.

Através de uma moldura temporal, Ba Ka Khosa pinta o cenário de mudanças que se faziam sentir, tanto a nível social, como político, cultural e económico. Isto claro, aliado às tradições, mitos, vivência e religiões dos povos locais e à tentativa de construção dos Impérios Britânico e Português.

O cruzamento destes olhares sobre o mundo, infelizmente, foi pago com muita sangue e com esse sangue calaram-se as vozes que podiam manter esse legado vivo.  Deste modo, o escritor, que é também historiador, tenta com a sua obra resgatar estes saberes esquecidos.

17237953._UY630_SR1200,630_
Choriro é o resgatar a alma de um tempo. Fonte: O País

Ao morrer, Nhabezi, também conhecido por Luís António Gregódio, português de origem, tem como sonho tornar-me mpondoro – espírito guia e protector do seu povo. Ele quer transformar-se em:

“espírito de leão como outros soberanos das terras à margem sul do Zambeze se haviam transformado e governado espiritualmente os seus homens. Mas muitos duvidavam da real capacidade de o espírito de Nhabezi em coabitar com outros no selecto reino das divindades africanas.” – p.39

Como um “senhor dos prazos” Nhabezi foi fiel ao seu povo. Era muito respeitado e se acostumou rapidamente à cultura dos achicundas, de modo a que o seu tom de pele não mais representava uma ameaça ou despertava estranheza. Quando morreu, o luto dos seus veio com desorientação, tristeza, desordem.

Coloca-se a questão: Poderá Nhabezi entrar no reino dos mpondoro? Será aceite, como homem branco, no reino dos grandes e imortais reis negros?

Como pode, um chefe branco mesmo tendo assimilado todos os elementos de africanização tornar-se mpondoro?

É esta tensão entre os diferentes espaços que sentimos ao longo de todo o livro.

Os próprios filhos de Nhabezi, uns mais identificados com a cultura portuguesa e inclusivamente funcionários públicos no regime colonial e outros mais ligados à cultura achicunda, exímios caçadores de elefantes, também são exemplos desta constante negociação do sentimento de pertença.

As culturas e tradições locais das pequenas povoações dão espaço a novos costumes à medida que o reino vai-se alargando. Adicionalmente, temos os ingleses e os portugueses a disputar o comércio dos escravos. Em paralelo também há o tráfico de meninas negras virgens; a relação entre as mulheres de Nhabezi; a tensão entre a Igreja Católica e as religiões locais.

E claro, temos também a própria História de Moçambique a lutar pelo seu espaço contra a História de Portugal, e num contexto mais alargado, a História do mundo.

maxresdefault-5
O autor, em Choriro, evidencia o seu inconformismo em relação à História que nos é contada actualmente. Fonte: O País

Em “Choriro” fica subentendido que as forças que decidem estão para além de nós, ou pelo menos para além do nosso entendimento.

Tantos os conselheiros, como as mulheres, os filhos e os oráculos de Nhabezi choram mergulhados nas suas dúvidas, pois ninguém sabe sobre que regras se organizam esses espaços.

Afinal quem define essas regras? A quem cobramos esses limites?

São essas complexidades e armadilhas dos saberes ancestrais que nos envolvem e questionam. Todos nós nascemos e vivemos e vamos ganhando consciência dos espaços que ocupamos, uns mais e outros menos centrais ou periféricos.

E esses espaços, por sua vez, permitem-nos aceder a certos privilégios ou ter um determinado reconhecimento, como se prevê no caso de Nhabezi. No entanto, as regras não são tão simples assim. Por algum acidente ou coincidência podemos questionar a nossa legitimidade em ocupar tal espaço.

Será que sou digno de estar aqui? Poderei, começando neste degrau, alcançar determinado patamar? Onde pertenço?

escravatura-castigo

Embora a musa da história seja Nhabezi, por detrás desta sereia, há um mar (ou devia dizer rio?) e as suas ondas balançam, chamando discretamente pela nossa atenção.

Essa sereia seduz, é atraente e vistosa, porém os mistérios guardados pelas ondas são maiores e bem mais interessantes.

A sereia é a caricata história de Nhabezi, o rei branco, polígamo, influente no vale do Zambeze que sonha em tornar-se mpondoro como rezam as lendas locais. O mar é a sombra do colonialismo; o comércio de marfim; o tráfico de escravos; a economia de mercado; a presença cristã, enfim, a fusão que acontece entre estas influências que tragicamente destroem (ou tentam destruir) a cultura nativa.

O vale do Zambeze é, portanto, o campo de batalha onde estas disputas ocorrem.

O espaço, muito mais que o tempo, é que determina o futuro daquilo que hoje chamamos de Moçambique.

Despertar com Ngūgī Wa Thiong’o

Despertar com Ngūgī Wa Thiong’o

O escritor Ngūgī Wa Thiong’o desperta como um guerreiro na defesa da Literatura Africana.

Foi em 1959 que o jovem queniano Ngūgī wa Thiong’o, então James Thiong’o, entrou na Universidade Makerere no Uganda para adquirir o Bacharelato em Língua Inglesa.

Na altura tanto o Quénia como o Uganda faziam parte do Império Britânico. James era apenas mais um jovem africano cheio de sonhos, apaixonado por histórias, devorador de livros, ansioso para conquistar o seu espaço no mundo.

É este percurso pela Universidade Makerere e a sua descoberta – ou melhor, revelação- como escritor que nos é contada na primeira pessoa no livro “Birth of a Dream Weaver – A Writer’s Awakening” (algo como “O Nascimento de um Tecedor de Sonhos – O despertar de um escritor”).

boadw2_670
O escritor queniano há anos aguarda o prémio Nobel

Para além das imagens do Uganda e da vida académica nos anos 60 na Universidade de Makerere, Thiong’o oferece também uma descrição da sua transformação intelectual à medida que Uganda, Quénia e o resto da região atravessam mudanças políticas.

Estas duas transformações acontecem em simultâneo: como escritor, Thiong’o vai ganhando mais consciência da sua voz e da Verdade que pretende expor através do seu trabalho e ao mesmo tempo, há o movimento pan-africanista e as guerras de libertação um pouco por todo o continente.

É neste período que Thiong’o se estabelece como escritor e dramaturgo. Ao sair da Universidade em 1963, com apenas 25 anos de idade, já tinha um romance publicado, outro já acordado com a Editora e uma peça teatral exibida com sucesso.

De regresso ao Quénia, Thiong’o esteve envolvido na mudança do “Departamento de Língua Inglesa” na Universidade de Nairobi para “Departamento de Literatura”, colocando assim a Literatura Africana numa posição central.

1200987_090923095714_Weep_Not,_Child__James_Ngugi.JPG
Thiong’o abandonou o nome “James” para reafirmar-se como Africano. Fonte: Geledés

Na qualidade de dramaturgo, académico e escritor sempre foi muito crítico das sociedades africanas pós-coloniais e especialmente do Quénia. Por esse motivo Thiong’o foi perseguido e enviado para uma cadeia de segurança máxima, onde decide abandonar o Inglês como sua língua criativa e passa a escrever em Gikuyu, a sua língua materna, a língua do seu povo.

E foi na prisão que escreveu em papel higiénico o seu primeiro livro em Gikuyu, “Caitani Mutharabaini” (Devil on the Cross) em 1981. O seu segundo romance em Gikuyu “Matigari” foi publicado em 1986.

O então presidente queniano, Daniel Moi emitiu um mandado de prisão para a personagem principal, pensando que se tratava de uma história real. Apercebendo-se do ridículo, proíbe então a venda e distribuição do livro em todo o país.

ngugi2.jpg
O autor viveu em exílio por 20 anos. Fonte: Ngugi Wa Thiong’o website

Thiong’o descobre o poder de contar a sua Verdade na sua língua materna, o Gikuyu.

Segundo o autor, só poderemos falar numa autêntica Literatura Africana quando deixarmos de usar línguas coloniais para contar as nossas histórias. Os escritores africanos encontrarão a sua voz, a sua verdade ao falarem a sua língua nativa.

Para ele este é um dos pontos centrais para uma verdadeira descolonização de África.

 

O regime colonial passou por impor o uso da língua do colonizador ao colonizado e chegou até a proibir o uso das línguas nativas dos colonizados. Este processo fez parte da opressão sistemática a que eram expostas as sociedades que foram invadidas e colonizadas pelos projectos Imperialistas Europeus. O processo englobava ainda restrições psicológicas, físicas e culturais que impediram a evolução e desenvolvimento de uma consciência nesses povos.

Nesse sentido, a África pós-colonial deveria usar a língua como arma para a reafirmação da identidade dos povos livres. Contudo, pelo contrário, no contexto pós-colonial usou-se da língua do colonizado como ferramenta para criar uma nova identidade, deixando para trás a original.

Ngugi_18g.jpg
Thiong’o considera-se um contador de histórias. Fonte: Los Angeles Review of Books

Para o queniano a língua é um direito humano, e como tal não existem línguas melhores que outras. Deste modo, todos os povos têm direito a usar a sua língua, seja para conteúdo oral, como escrito: em livros, na academia e em todas as esferas sociais.

“Language as communication and as culture are then products of each other. Communication creates culture: culture is a means of communication. Language carries culture, and culture carries, particularly through orature and literature, the entire body of values by which we come to perceive ourselves and our place in the world. / Língua como comunicação e como cultura são produtos um do outro. A comunicação cria cultura: cultura é um meio para comunicação. A língua transporta a cultura e a cultura transport, particularmente através da oralidade e da literatura, todo o corpo de valores através dos quais nós nos entendemos e o nosso espaço no mundo.”

 

Desde 1959, quando entrou na Universidade Makerere como um jovem africano colonizado a 1964, quando se graduou como cidadão queniano livre, Thiong’o defendeu sempre a pertinência da Verdade africana para Africanos.

De James para Ngūgī, o seu nascimento e crescimento como artista foi profundamente marcado pela crescente consciência do seu papel como criador de Literatura Africana.

 

Inhassunge é aqui

Picture-0399.jpgO livro “O advogado de Inhassunge” levanta questões tão actuais hoje como o tempo que retrata, de guerra civil e reconciliação.

Através da obra de Luís Loforte conhecemos Luiz Conde do Lavradio Almeida de Leão, um cidadão moçambicano negro do distrito de Inhassunge, na Zambézia, que almejava ser um português branco e gozar de todos os privilégios associados a esse estatuto.

Luiz Conde do Lavradio Almeida de Leão era um solicitador que pretendia ser assimilado e para tal fazia-se usar de um português caro e elaborado, vestindo-se com as melhores roupas que o seu dinheiro permitia e fingindo até não ser esposo da sua mulher, uma negra camponesa, que chega a dizer ser sua empregada.

Enquanto tratou dos assuntos legais de outros negros não teve problemas, no entanto, no momento em que se passa por advogado de dois brancos é perseguido e por isso tem de fugir para o Norte do país, onde adopta uma nova identidade e passa a ser guerrilheiro da FRELIMO.

Durante a sua vida vai-se adaptando às realidades impostas transformando-se em várias pessoas perdendo-se até de si mesmo. Passa de guerrilheiro a oficial de campo de reeducação,  bêbado vagabundo, herói de libertação nacional e por fim deputado.

independência.jpg
Moçambique tornou-se independente em 1975.

Numa dança entre a História e a ficção, Luís Loforte dá-nos a conhecer algumas figuras anónimas que tornaram o sonho (ou pesadelo) de Moçambique possível e leva-nos a questionar os conceitos de identidade, de guerra e até mesmo de nacionalidade.

Numa das passagens mais emocionantes, o protagonista revela a sua frustração com a vida que é obrigado a levar, descrente de qualquer ideal e sem nenhum sonho pela frente:

“Estou cansado de me iludir […]. Agora quero que os outros se iludam por mim, caso desejem […]. No passado, eu iludia-me que era português puro […], mas tive que fugir deles, porque fizeram-me ver que eu não era português nada, que me iludia. Depois, tentei iludir-me que era moçambicano, forcei-me com essa ilusão […]. Todos estes anos eu fui-me libertando de todo o género de ilusões cuja origem era eu próprio. Nunca ganhei nada com ilusão nenhuma.”

À medida que a trama se desenrola e o advogado assume outras identidades, começa a distanciar-se do cinismo e do egoísmo dos seus camaradas. A sua consciência não lhe permite ser cúmplice da corrupção e falta de humanidade da nova elite política moçambicana, que segundo ele não difere da anterior.

A obra evidencia a falácia da Independência como solução definitiva para a construção de um Moçambique totalmente novo. O Moçambique pós-independência revelou-se não ser necessariamente menos repressivo nem menos violento que o Moçambique colonial.

Uma das grandes falhas foi a ilusão do projecto nacional. De facto, nos anos imediatamente posteriores à independência não havia um sentido de Nação. E um dos grandes cismas era a dicotomia “branco-negro”, uma clara herança do passado colonial.

No livro, o autor descreve-nos este insucesso mais à frente, através de um diálogo profundo:

“Para mim brancos e pretos não agarraram o verdadeiro problema do nosso país. O verdadeiro problema é que uns e outros se tomam como entidades; há entidades de brancos e de pretos; começam agora a aparecer a entidade dos mulatos e a entidade dos indianos. Não há uma entidade dos moçambicanos. […] Falta-nos um projecto de todos”

Assim, sem um sentido de fraternidade Moçambique foi novamente palco de uma guerra sangrenta, desta vez entre moçambicanos (negros) e não contra os portugueses (brancos). Por isso é difícil apontar o dedo à culpa. Quem causou tanta dor? Por que morreram tantas pessoas?

Moçambique pós-independência falhou.

As polaridades binárias continuaram a evidenciar-se, muitas vezes até por incentivo das lideranças que numa tentativa de reposição de dignidade e promoção de igualdade, totalizaram esses campos de identidade.

Nos campos da fé, género, etnia, identificação política e raça, entre outros, moçambicanos foram forçados a escolher o seu lado, mesmo sabendo que nenhuma identidade é absoluta.

Ou és negro, ou és branco. Ou és português, ou és moçambicano. Ou estás connosco, ou estás contra nós.

E estas classificações se perpetuaram até hoje, pois fazem parte de um contexto histórico válido e correspondem também a uma série de privilégios ou privações a que um determinado grupo está sujeito.

O advogado de Inhassunge é simultaneamente um guerrilheiro conhecedor do mato. É Luiz, aspirante a assimilado e é também Ndala, nacionalista. É um mendigo bêbado e é igualmente deputado da maior bancada da Assembleia.

Cada um de nós é muitos eus. Moçambique é todos esses muitos.

 

 

 

5 livros para o Ano Novo

Pouco posso dizer sobre o ano que nos despede, e menos ainda sobre o ano que se aproxima. Deixo por isso estes 5 livros que me marcaram muito em 2016, cada um com a sua particularidade mas todos eles especiais e dignos de um espaço nesta lista.

Espero que em 2017 eles tenham o mesmo impacto que tiveram na minha vida, na vida de outra pessoa.

Under the Udala Trees – Chinelo Okparanta

“Com um homem a vida é difícil. Sem um homem a vida é ainda mais difícil”

Esta frase resume bem parte do dilema em que vive Ijeoma: entre viver numa sociedade patriarcal casada com um homem, mesmo sendo infeliz ou viver numa sociedade patriarcal e homofóbica com uma mulher e tentar ser feliz no meio de tanto ódio.

Este livro é um emocionante romance que retrata a vida da jovem Ijeoma, uma menina e mais tarde mulher nigeriana nos anos 70 e 80. Ijeoma vê-se em conflito com a sua religião, a sua família e a sociedade em que vive à medida que vai descobrindo a sua sexualidade.

Nervous Conditions – Tsitsi Dangarembga

“Podes cozinhar livros e alimentá-los ao teu marido? Fica em casa com a tua mãe. Aprende a cozinhar e a limpar. Planta vegetais.”

Durante o período pós-colonial no Zimbabwe, Tambu, uma menina de 14 anos, toma posse da sua voz e conta a sua versão dos factos que lhe levaram a libertar-se do fatídico destino de ser apenas mais uma mulher perdida no mato, sem estudos nem profissão.

Mais do que isso, através de Tambu conhecemos outras mulheres, cada uma com uma história para contar apesar das adversidades de um mundo dominado por homens. O livro permite-nos entender e até perdoar as escolhas de todas elas.

Efuru – Flora Nwapa

“Uma boa mulher é aquela que te cumprimenta vinte vezes se te visse vinte vezes num dia.”

Neste livro, do qual já falei aqui no blog, conhecemos a trajectória de Efuru desde a sua juventude, com o ritual da circuncisão feminina, até ao casamento, a maternidade e por fim a sua resignação face às expectativas da sociedade para com as mulheres.

A tragédia de Efuru é a sua inabilidade de se encaixar no padrão de “Boa Mulher, pois apesar de ser uma mulher carinhosa, prestativa e tradicional, não é mãe.

We Need New Names – NoViolet Bulawayo

“Porque nós não estávamos no nosso país, nós não podíamos usar as nossas próprias línguas, então quando falávamos as nossas vozes saíam feridas.”

Darling narra as aventuras dos seus amigos no Zimbabwe, na era pós-colonial. Toda a primeira parte do livro é-nos descrita pelos olhos inocentes das crianças que nada conhecem para além da sua pobreza e miséria.

Posteriormente Darling viaja para os Estados Unidos da América, onde espera viver longe da tristeza, choque e terror do seu país, no entanto percebe que o sonho americano não passa de uma fantasia e é obrigada a enfrentar a dura realidade de ser imigrante.

Difficult daughters – Manju Kapur

“Uma mulher sem o seu próprio lar e família é uma mulher sem amarras”

O livro segue três gerações de mulheres indianas, partindo da perspectiva da mais nova a tentar descobrir e perceber a sua mãe, Virmati.

A história é acima de tudo sobre a luta pela liberdade: a descolonização da Índia; a possibilidade de estudo para as mulheres e a vontade de poder ser mais do que a sociedade deixa. Virmati é o centro desta encruzilhada entre a tradição e o moderno; o individual e o colectivo, e o futuro e o passado.

img_6708
Livro Difficult Daughters na minha cabeceira.

Bónus: Boy, Snow, Bird – Helen Oyeyemi 

“Por razões que cá eu sei, eu tomo nota da forma como as pessoas se comportam quando estão perto de espelhos.”

Este é um conto de fadas muito peculiar que decorre nos EUA, nos anos 60 quando a segregação racial ainda era uma realidade. Os caminhos de três mulheres se cruzam, num mundo mágico e surreal, em que é impossível escapar ao mundano.

A autora consegue explorar temas como o racismo; colorismo e sexualidade, com uma naturalidade envolvente.