Perceber a Medicina Tradicional Africana

A Medicina Tradicional Africana é muitas vezes vista como uma ciência subdesenvolvida, mas é uma ciência milenar

Segundo a Organização Mundial da Saúde, aMedicina Tradicional é “a combinação total de conhecimentos e práticas, sejam elas aplicáveis ou não, usadas no diagnóstico, prevenção e eliminação de doenças físicas, mentais e sociais que podem assentar-se em experiências passadas, e na observação transmitida de geração em geração, de forma oral ou escrita.”

Ou seja, é isto que constitui a Medicina Tradicional tanto em África como na China, por exemplo. No entanto, a Medicina Tradicional Africana é talvez a expessão mais visível do Pensamento Filosófico Africano, que vê o ser humano como resultado de condições materiais (corpo; terra; sol; água; etc) e imateriais (antepassados; crenças; etc).

Apesar de África ser um continente vasto que engloba várias culturas, etnias e nações, tem uma Filosofia peculiar que perdurou milhares de anos. Na Filosofia Africana a comunidade prevalece o indivíduo, ou seja, o sentido de pertença e partilha, de respeito e mutualidade entre o “eu” e os “outros” é um principio máximo.

Deste modo, a Medicina Tradicional Africana é interdisciplinar. Engloba a biologia, farmacologia, biomedicina, mas também a justiça e a religião, formando um código complexo de saberes tradicionais.

 

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A Medicina Tradicional deve ser incorporada nos sistemas de saúde publica. Fonte: The conversation

Tal como outras Civilizações, as Civilizações Africanas foram, ao longo dos anos, afectadas por várias pragas e doenças e tiveram de usar-se da Natureza para se protegerem e sobreviverem.

Dessas experiências surge uma ciência forte, assentada na farmacopeia tradicional, mas também composta por crenças religiosas que dura até hoje.

Durante o período colonial a Medicina Tradicional Africana, como várias outras componentes da cultura africana, foi tratada como um “não saber”. Por ser uma prática que incorpora em si superstições, nunca se olhou para ela como ciência.

Os colonialistas, que tinham uma forte herança católica, designaram a Medicina Tradicional de obscurantismo e feitiçaria, acusando os médicos tradicionais de burlões e mafiosos – fama que dura até hoje – e desencorajando, com penas fortes, a consulta e acesso a estes serviços.

Contudo, vale lembrar que vários médicos e investigadores europeus durante essa época foram recolhendo informações e observando como os médicos tradicionais africanos faziam o uso das plantas e aplicavam as suas técnicas.

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O povo Banyoro já fazia cesarianas quando era raro na Europa. Fonte: Black & African History

É o caso do médico Robert Felkin que em 1878, chega ao actual Uganda como missionário e surpreende-se ao ver a agilidade com que os médicos locais faziam cesarianas em mulheres grávidas com sucesso, salvando a mãe e o bebé, o que era raro na Europa.

Num tempo em que o conceito de propriedade intelectual não se debatia como actualmente se faz,  muitos foram os cientistas europeus que, com os seus jardins e herbanários, apropriaram-se desses conhecimentos, compilando muito dessa ciência e incorporando-a na Medicina Ocidental.

Uma vez que a Medicina Tradicional Africana entende a vida humana como multidimensional, a saúde – e consequentemente a doença – também é encarada sobre esse olhar.

Uma pessoa saudável é aquela que não só está bem fisicamente, mas também está bem com a sua comunidade, é respeitada e segue os princípios que regem o mundo, dentro desta moldura ética.

Deste modo, entende-se a doença, seja esta física ou mental, como um sinal de desequilíbrio no Universo. E a doença de um indivíduo afecta por isso toda a comunidade.

A doença é a manifestação física, mas o sofrimento ultrapassa essa dimensão e é aí que entra a força religiosa.

Por exemplo, alguém que abandona certas tradições e não segue certos rituais que são vistos como essenciais, pode vir a sofrer de doença grave como resultado da sua desobediência. Romper com tradições significa quebrar uma ligação milenar com os seus antepassados.

O médico tradicional é por isso mais do que um simples farmacêutico, ele é também psicólogo, juiz e até mesmo padre. É ele quem faz o diagnóstico e define a cura a saúde física, espiritual e psicológica, bem a salvaguarda dos princípios éticos e morais daquela pessoa que na verdade afectam toda a comunidade.

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O médico tradicional é preparado para ser além de responsável e eficiente, um bom ouvinte, orgulhoso de si mesmo, de sua tradição e cultura. Fonte: Afreaka

Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 80% da população africana deixa os seus cuidados médicos a cargo de médicos tradicionais.

Os médicos tradicionais são educados desde cedo, durante anos, para exercerem a sua profissão. Ser médico tradicional não é algo voluntário, mas sim um dom com o qual a pessoa nasce e que deve ser treinado.

Infelizmente, com os fluxos migratórios e o êxodo rural, muitos jovens abandonaram as suas vilas e aldeias. Esta factor quando combinado à demonização das religiões africanas, resultou num abandono também desta profissão.

Os médicos tradicionais já não têm o mesmo prestígio nem lhes é conferido o mesmo respeito que antigamente. Pelo contrário, especialmente nas zonas mais urbanas, são ridicularizados e existe uma descrença generalizada no seu papel. Ainda é tabu falar sobre o assunto.

Embora estes vivam praticamente na marginalidade e em alguns casos clandestinidade, a OMS reconhece a sua importância para os serviços de saúde materno-infantil, cuidados gerais e doenças não agudas.

Num tempo em que a ciência actual começa a abrir portas para soluções alternativas e cala-se perante doenças sem cura e epidemias que dizimam milhares de pessoas todos os anos, é essencial reconhecermos e aprendermos mais com a Medicina Tradicional Africana.

Sembene para além das histórias

Sembene para além das histórias

O documentário Sembene! é um retrato do contador de histórias senegalês Ousmane Sembene, considerado o Pai do Cinema Africano.

Como contador de histórias Sembene sempre procurou trazer ao centro alternativas ao discurso dominante, que até então encontravam-se à margem da sociedade.

São estas histórias alternativas as suas musas, mas o filme não é só sobre isso.

O entrelaçar da sua biografia, com o panorama geopolítico internacional e as suas produções, oferece-nos uma ideia do compasso moral e daquilo que Sembene pretendia ao escrever e realizar cada um dos seus filmes.

É promíscua e até certo ponto pornográfica a relação entre política e o seu trabalho. Sembene não tem o privilégio de contar histórias de amor, ele traz-nos guerras; massacres; mutilação genital; corrupção. É daí que vem a sua força criativa.

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Sembene inventou um novo Cinema para África. Fonte: Africa Is A Country

Ousmane Sembene nasceu em 1923 no Senegal, em Ziguïnchor, filho de um pescador, profissão que abraçou na adolescência ao abandonar a escola.

Decidiu depois sair da sua vila, realizando vários trabalhos manuais e por fim chegou a França aos 24 anos. Foi nas docas de Marselha, como estivador, que conheceu a vida como operário e se envolveu no movimento trabalhista.

Após uma grave lesão na coluna durante o trabalho, passou vários meses no hospital e aí começou a ler bastante.

Foi nesse período que se acorda nele a consciência do seu lugar no mundo.

Passa a activista sindical e autodidacta compulsivo, procurando conhecimento sobre tudo um pouco, mas especialmente sobre a vivência da Negritude.

“It’s a long-term job to change ideas held for centuries. My aim is to make a film for Africans. And, if it’s done well, people will like it everywhere else too./ Mudar ideias centenárias é um trabalho a longo prazo. O meu objectivo é fazer um filme para Africanos. E, se for bem feito, pessoas de outras partes do mundo também vão gostar.”

Começou por escrever pequenos contos e romances, mas rapidamente apercebe-se das limitações da escrita no Senegal, onde a taxa de alfabetização era muito baixa. É assim que surge a sua paixão pelo cinema: a necessidade de contar as suas histórias a pessoas como ele, numa linguagem que percebessem.

Durante os seus 40 anos de carreira, Sembene explorou destemidamente temas como o colonialismo, a corrupção dos movimentos de libertação no período pós-independência; o Islão e o racismo.

Foram filmes como “La noire de…” (1966) e “Moolaadé” (2004) que colocaram o cinema Africano no radar dos grandes festivais internacionais de cinema como o de Cannes e Berlim.

Mas com essa atenção, vieram também algumas punições. Em França, por exemplo, o seu filme “Camp de Thiaroye” (1988) foi banido e no Senegal, vários trabalhos dele foram banidos e/ou censurados como é o caso de “Ceddo” (1977) e “Emitaï” (1971).

 

O filme Sembene! tenta ser um retrato fiel do realizador que sacrificou as suas relações na indústria; com a sua família; com os seus amigos e até amantes pela sua causa.

Sembene aparece no filme como um artista que nunca quis – ou talvez nunca pôde – respirar, comer, dormir e amar outra coisa senão a própria arte. E é esta humanização, que serve ao mesmo tempo de demonização que coloca o espectador como juiz.

A dada altura Sembene confessa que seria capaz de atropelar certos princípios e mesmo valores em nome da sua arte. E que nós, os juízes, devíamos julgar a sua arte e não os processos que permitiram que tal arte fosse feita.

Ao enfrentar a câmara, Sembene olha-nos com uma certa arrogância e prepotência, mas atrás dela, o seu olhar capta compaixão, gentileza e procura sempre o mais puro e verdadeiro.

É por isso irónico que através do seu trabalho tenha sempre criticado a forma absoluta como o poder dominante era uma força intolerante, no entanto, ele fez o mesmo.

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Sembene faleceu e deixou projectos inacabados. Fonte: Telegraph

Mas apesar das contradições que o filme nos mostra entre o homem e o seu ego, Sembene! é ainda um retrato amável do realizador. Nele, nos é pintado um rebelde com uma causa nobre.

Para um homem que entregou a sua vida à arte de contar histórias à moda Africana, nenhum filme seria suficiente, contudo o documentário Sembene! fica bem perto.

Somos obrigados a aceitar os limites da humanidade deste grande senhor, Ousmane Sembene pois nem ele tem todas as respostas. Quando confrontado com as suas provocações, ele também treme.

Ficam claras as suas intenções: o contador de histórias não tem respostas, apenas perguntas.

Os Bons & Velhos Tempos

Como a História que nos ensinam deturpa a realidade dos tempos que se foram.

No nosso imaginário a “vida na quinta de escravos” ou a “vida na colónia” era cheia de alegrias e tempo livre para correr, brincar, namorar. Lá as senhoras brancas confidenciavam nas suas amas de leite, que depois de apaixonavam pelos seus patrões brancos e desse amor proibido nasciam filhos mestiços.

As crianças, tanto brancas como negras, eram livres para correr, brincar e comer. Podiam ir à praia ou comer os frutos silvestres que caíam das árvores.

Ah! Como eram bonitos, os bons e velhos tempos!

Esse saudosismo barato que glorifica as atrocidades cometidas pelos países colonizadores e sociedades esclavagistas é muito comum e começa cedo.

Durante a infância, as crianças são ensinadas a fazer uma interpretação romântica da Escravatura e do Colonialismo.

Os livros escolares trivializam as questões de violação de direitos humanos. Adicionalmente, não fazem uma leitura fidedigna da natureza das relações de poder e das violências levadas a cabo pelos países colonizadores.

Assim, as crianças crescem sem uma visão fiel da História e perpetuam os ideais imperialistas e racistas que até hoje regem o mundo.

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Os Portugueses sabem pouco do seu Passado Colonial. Fonte: Diário de Notícias

Na África do Sul recentemente a deputada Helen Zille do principal partido da oposição (Aliança Democrática) elogiou o legado do Colonialismo.

Segundo ela, foi graças ao sistema colonial que a África do Sul conseguiu ter grandes infraestruturas (hospitais; rede de transportes; etc). Mas, para quem eram tais infraestruturas? Quantas pessoas tiveram de morrer para construir tudo isso?  E até hoje, quem tem acesso a tais infraestruturas?

E sobretudo, é importante referir que tais construções tiveram um preço muito alto, demasiado alto. Apenas em 1994 a África do Sul se libertou das correntes do Apartheid, que deixaram a população negra sul-africana estruturalmente desfavorecida.

É a população negra que ocupa os cargos mais precário, que faz o trabalho mais pesado; que vive nas zonas mais vulneráveis tanto para a sua saúde como para a sua segurança e obviamente, é a população negra quem tem menos acesso a Educação Superior.

Taxativamente falando, é esse o legado do Colonialismo.

A imagem e fotografia que se dá ao Colonialismo sempre é aquela dos tempos de glória, em que as cidades andavam limpas e os restaurantes eram bem frequentados (leia-se aqui, na altura em que os pretos não podiam lá estar).

É esta mesma imagem que vemos recriada em hotéis, restaurantes, revistas, filmes, etc.

Essas imagens reforçam a ideia de “exótico” e “étnico” que se usam frequentemente para descrever as populações negras. São retratos que reflectem a saudade e vontade de reviver tempos que na verdade foram sombrios e de muita dor para quem foi oprimido durante séculos.

Essas reconfigurações da memória colonial não só a deturpam, como a validam. O mito vira facto.

Para além disso, reflectem também  como na nossa sociedade o racismo e o colonialismo é visto como algo ultrapassado. É impensável haver um café, num hotel, com nome de “Café Nazi”, como existe em Lisboa o “Café Colonial“.

No entanto, o Colonialismo foi também um sistema de domínio que definia uma determinada raça como superior à outra; um sistema que limitava as liberdades das raças tido como inferiores; um sistema que perseguia, torturava e matava aqueles que se opunham ao poder. Tal como o Nazismo, o Colonialismo foi perverso, violento, nocivo.

Embora com objectivos distintos, ambos sistemas deixaram marcas que se fazem sentir até hoje.

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Designer paquistanesa Aamma Aqeel foi criticada pela coleção “Be My Slave” (Seja meu escravo): Fonte: Clutch Magazine

Mas a nostalgia colonial está também presente nos países hoje independentes.

Por exemplo, até recentemente havia uma discoteca chamada “Sanzala” na Baixa de Maputo. Isto evidencia a insensibilidade com que se trata a escravatura no país e a falta de conhecimento do horror e violência a que as pessoas escravizadas eram submetidas.

No Brasil também são comuns as referências à escravatura. No ano passado uma quinta que fazia encenação da vida dos escravizados (incluindo torturas) foi denunciada e obrigada a encerrar o “entretenimento”.

 

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No Brasil é pertinente explorar melhor a Lei Áurea. Fonte: Brasil Escola

É importante contar a História tal ela aconteceu. Houve exploração, violação, dominação dos povos africanos. Houve desmando e abuso.

O Colonialismo e a Escravatura foram processos dolorosos que não só dizimaram pessoas, mas também culturas. As nações foram roubadas e impedidas de se desenvolverem, de usar os seus nomes e as suas línguas.

Cabe-nos a nós reconhecer e falar das atrocidades cometidas com a devida seriedade sem crises de consciência.

 

O Rei Vai Nu

Quem dirá ao Rei, cheio da sua vaidade, que ele está na verdade nu?

Era uma vez um rei muito vaidoso que vivia rodeado de luxo num reino em que os plebeus viviam na miséria.

Conhecido pelos seus trajes extravagantes, o rei é abordado por dois aldabrões (certamente moçambicanos) que dizem ter um tecido muito belo, visto apenas por pessoas inteligentes e requintadas.

O Rei permitiu que os dois tirassem-lhe as medidas e dali a alguns dias eles apareceram com o “fato”. O Rei não via nada, mas também não queria dar a entender que não era inteligente ou requintado, por isso confirmou que o tecido de facto tinha uma qualidade superior.

Depois de fingir que vestia o fato, já que era invisível, o Rei encheu os aldrabões de elogios, que em troca aplaudiram a sua elegância. Rapidamente a notícia se espalhou: O Rei tinha um fato especial, de qualidade superior, visível apenas aos olhos de quem fosse inteligente e requintado.

Então certo dia o Rei decide sair às ruas com o seu fato especial. Todos admiraram o fato, pois não queriam passar por ignorantes até que a criançada começou a rir e a gritar “O Rei vai nu! O Rei vai nu!”, e todos se espantaram, porque de facto ele estava nu. E todos se riram dele.

O Rei fugiu envergonhado para o seu Palácio.

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O Presidente sul-africano Zuma vai nu sem alguém que lhe diga a verdade. Fonte: Brett Murray

É assim também por aqui, na vida real, nas nossas pseudo-democracias. Meio-ditaduras. Os nossos reis estão nus. Só que ninguém lhes diz.

Segundo o mais recente relatório sobre a liberdade de imprensa, muitos governos têm usado estratégias mais subtis para ameaçar e intimidar os cidadãos de modo a evitar críticas.

Em África, apesar do avanços nos anos mais recentes ainda temos um longo caminho para fazer.

 

 

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A investigadora é acusada de assédio moral contra o Presidente e a Primeira-Dama. Fonte: The Guardian

Esta semana, a activista ugandesa Stella Nyanzi questionou na sua página de Facebook, o que terá sido das crianças que apontaram o óbvio.

Será que foram mortas por ordens do rei? Será que a multidão voltou-se contra elas e tentou fazer com que elas vissem as roupas invisíveis por terem medo do rei? Ou receberam o amor dos amigos? O que acontece a quem diz a verdade em regimes maléficos?

Com um PhD em Antropologia Social, Stella Nyanzi é investigadora nas áreas de sexualidade; saúde sexual e reprodutiva; racismo e medicina alternativa, entre outras.

No Uganda, onde o Presidente Museveni ocupa o mesmo cargo há mais de 30 anos, Nyanzi já foi presa várias vezes por protestos pacíficos e pelas críticas severas ao regime.

Em Moçambique, pelo trauma dos conflitos vividos, temos muito medo de falar, pois não queremos mais violência. A sociedade como um todo promove o silêncio e entretenimento que distraia e não questione o status quo.

No entanto, há sempre quem tenha coragem de levantar a voz. Uma dessas pessoas é o rapper Azagaia, famoso pela música de intervenção que faz.

Depois das manifestações populares de 2008, o músico lançou a música “Povo no Poder” que resultou numa intimação pela Procuradoria Geral da República por supostamente “atentar à segurança do Estado” e “incitar a violência”.

Nos anos mais recentes jornalistas; investigadores; juristas; seqüestradores foram assassinados em circunstâncias duvidosas. É o exemplo de Gilles Cistac, um jurista, baleado em 2015 ao entrar num táxi na cidade de Maputo.

 

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Gilles Cistac entra para a lista de pessoas assassinadas em Moçambique por motivos políticos. Fonte: The European Magazine

Tal como eles, um pouco por todo o mundo, as liberdades de expressão dos cidadãos são cada vez mais limitadas.

Em Angola por lerem e debaterem um livro, activistas foram presos e julgados no que ficou conhecido como o caso 15+2.

No entanto, no mesmo país recentemente os deputados decidiram importam carros de luxo no valor de mais de 75 milhões de dólares americanos. Simultaneamente, num hospital da capital, Luanda, as mulheres grávidas e recentes mães são obrigadas a partilhar as camas ou dormir no chão.

Os reis estão mesmo nus. E ninguém faz nada.

Em “democracias” frágeis, como grande parte das democracias africanas, as ameaças a quem questiona quem está no Poder são evidentes.

Até quando deixaremos o medo travarem as nossas vozes?

 

Despertar com Ngūgī Wa Thiong’o

Despertar com Ngūgī Wa Thiong’o

O escritor Ngūgī Wa Thiong’o desperta como um guerreiro na defesa da Literatura Africana.

Foi em 1959 que o jovem queniano Ngūgī wa Thiong’o, então James Thiong’o, entrou na Universidade Makerere no Uganda para adquirir o Bacharelato em Língua Inglesa.

Na altura tanto o Quénia como o Uganda faziam parte do Império Britânico. James era apenas mais um jovem africano cheio de sonhos, apaixonado por histórias, devorador de livros, ansioso para conquistar o seu espaço no mundo.

É este percurso pela Universidade Makerere e a sua descoberta – ou melhor, revelação- como escritor que nos é contada na primeira pessoa no livro “Birth of a Dream Weaver – A Writer’s Awakening” (algo como “O Nascimento de um Tecedor de Sonhos – O despertar de um escritor”).

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O escritor queniano há anos aguarda o prémio Nobel

Para além das imagens do Uganda e da vida académica nos anos 60 na Universidade de Makerere, Thiong’o oferece também uma descrição da sua transformação intelectual à medida que Uganda, Quénia e o resto da região atravessam mudanças políticas.

Estas duas transformações acontecem em simultâneo: como escritor, Thiong’o vai ganhando mais consciência da sua voz e da Verdade que pretende expor através do seu trabalho e ao mesmo tempo, há o movimento pan-africanista e as guerras de libertação um pouco por todo o continente.

É neste período que Thiong’o se estabelece como escritor e dramaturgo. Ao sair da Universidade em 1963, com apenas 25 anos de idade, já tinha um romance publicado, outro já acordado com a Editora e uma peça teatral exibida com sucesso.

De regresso ao Quénia, Thiong’o esteve envolvido na mudança do “Departamento de Língua Inglesa” na Universidade de Nairobi para “Departamento de Literatura”, colocando assim a Literatura Africana numa posição central.

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Thiong’o abandonou o nome “James” para reafirmar-se como Africano. Fonte: Geledés

Na qualidade de dramaturgo, académico e escritor sempre foi muito crítico das sociedades africanas pós-coloniais e especialmente do Quénia. Por esse motivo Thiong’o foi perseguido e enviado para uma cadeia de segurança máxima, onde decide abandonar o Inglês como sua língua criativa e passa a escrever em Gikuyu, a sua língua materna, a língua do seu povo.

E foi na prisão que escreveu em papel higiénico o seu primeiro livro em Gikuyu, “Caitani Mutharabaini” (Devil on the Cross) em 1981. O seu segundo romance em Gikuyu “Matigari” foi publicado em 1986.

O então presidente queniano, Daniel Moi emitiu um mandado de prisão para a personagem principal, pensando que se tratava de uma história real. Apercebendo-se do ridículo, proíbe então a venda e distribuição do livro em todo o país.

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O autor viveu em exílio por 20 anos. Fonte: Ngugi Wa Thiong’o website

Thiong’o descobre o poder de contar a sua Verdade na sua língua materna, o Gikuyu.

Segundo o autor, só poderemos falar numa autêntica Literatura Africana quando deixarmos de usar línguas coloniais para contar as nossas histórias. Os escritores africanos encontrarão a sua voz, a sua verdade ao falarem a sua língua nativa.

Para ele este é um dos pontos centrais para uma verdadeira descolonização de África.

 

O regime colonial passou por impor o uso da língua do colonizador ao colonizado e chegou até a proibir o uso das línguas nativas dos colonizados. Este processo fez parte da opressão sistemática a que eram expostas as sociedades que foram invadidas e colonizadas pelos projectos Imperialistas Europeus. O processo englobava ainda restrições psicológicas, físicas e culturais que impediram a evolução e desenvolvimento de uma consciência nesses povos.

Nesse sentido, a África pós-colonial deveria usar a língua como arma para a reafirmação da identidade dos povos livres. Contudo, pelo contrário, no contexto pós-colonial usou-se da língua do colonizado como ferramenta para criar uma nova identidade, deixando para trás a original.

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Thiong’o considera-se um contador de histórias. Fonte: Los Angeles Review of Books

Para o queniano a língua é um direito humano, e como tal não existem línguas melhores que outras. Deste modo, todos os povos têm direito a usar a sua língua, seja para conteúdo oral, como escrito: em livros, na academia e em todas as esferas sociais.

“Language as communication and as culture are then products of each other. Communication creates culture: culture is a means of communication. Language carries culture, and culture carries, particularly through orature and literature, the entire body of values by which we come to perceive ourselves and our place in the world. / Língua como comunicação e como cultura são produtos um do outro. A comunicação cria cultura: cultura é um meio para comunicação. A língua transporta a cultura e a cultura transport, particularmente através da oralidade e da literatura, todo o corpo de valores através dos quais nós nos entendemos e o nosso espaço no mundo.”

 

Desde 1959, quando entrou na Universidade Makerere como um jovem africano colonizado a 1964, quando se graduou como cidadão queniano livre, Thiong’o defendeu sempre a pertinência da Verdade africana para Africanos.

De James para Ngūgī, o seu nascimento e crescimento como artista foi profundamente marcado pela crescente consciência do seu papel como criador de Literatura Africana.

 

As negras do quintal

Existe trabalho doméstico ou estamos perante situações de escravidão doméstica?

As negras do quintal eram as mulheres que no séc. XIX/ XX vivam em situação de escravidão doméstica “voluntária” trabalhando sem remuneração, em troca de refúgio e um prato de comida.

Estas mulheres, muitas vezes ainda meninas, eram entregues a famílias abastadas devido às situações precárias dos próprios pais, que sem condições para criá-las, deixavam-nas à mercê da sorte (ou azar) vivendo num canto qualquer do quintal de um casarão.

Como escravas trabalhavam toda a vida com a sua identidade alienada, sem espaço para desenvolver vontade própria ou definir objetivos pessoais. Para além de trabalharem nas tais casas, os seus “patrões” podiam ceder algumas horas do seu tempo a outras famílias e assim fazer dinheiro com a mão-de-obra das suas negras, como se de um aluguer se tratasse. Isso permitia que os patrões tivessem algum “retorno” do investimento tido no sustento e “treino”da sua funcionária.

Avançamos para o séc. XXI e olhando ao nosso redor vemos uma nova versão dessas negras do quintal nos nossos prédios, nos nossos bairros; nos quartinhos de fundo ou mesmo no chão da sala.

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O trabalho doméstico tem origem escravagista. Fonte: Nã0 Me Kahlo

Durante a época colonial ter empregados domésticos era um sinal de prestígio por ser um privilégio de poucos. E para os empregados era uma oportunidade para aprenderem e viverem como cidadãos dignos, aproximando-se ao ideal de “colonizado domesticado”, que apesar de explorado tece uma admiração profunda pelo seu colonizador, uma situação complicada que nos remete à Síndrome de Estocolmo.

Para as vilas e cidades, onde vivia a maior parte das famílias privilegiadas, afluíam sobretudo jovens migrantes do meio rural, em troca de abrigo e comida na esperança de alguma ascensão social. Alguns deles puderam se assimilar, ou se não eles, os seus filhos.

Depois da independência, com a urbanização das vilas e o crescimento das cidades, novamente do meio rural saíam jovens à procura de uma actividade assalariada e muitos a encontraram na forma de trabalho doméstico.

O trabalho barçal sempre esteve a cargo das camadas mais pobres e vulneráveis da população e por isso é visto como inferior. Por esse motivo, o trabalho doméstico é não só desvalorizado, mas menosprezado, evidente pela arbitrariedade na remuneração demasiado baixa; ilegalidades na contratação, jornadas de trabalho longas; assédio moral; abuso sexual e psicológico; entre outros.

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Em Moçambique mais de um milhão de crianças são vítimas de trabalho infantil. Fonte: Jornal Notícias 

Não é por acaso que a esmagadora maioria das pessoas que exercem tais funções são mulheres negras provenientes de zonas rurais. Para muitas delas não foi uma escolha, mas sim uma necessidade que as levou a sair do seu local de origem.

Num contexto em que muitos jovens homens migram para outros países, como por exemplo a África do Sul, para trabalharem nas minas e raramente enviam o suficiente para a família, as mulheres vêem-se obrigadas a procurar alternativas para sair da situação de precariedade em que se encontram.

Isto, aliado ao facto de vivermos numa sociedade em que há tão poucas oportunidades de crescimento e desenvolvimento para as mulheres rurais, a possibilidade de garantirem a sua sobrevivência e dos seus filhos pode representar a única opção válida.

Estas mulheres desconhecem os seus direitos elementares, como privacidade e respeito e por isso facilmente aceitam as condições “oferecidas” pelos patrões na cidade. Outras, não têm voz na decisão pois tudo é negociado com os pais, sobre a desculpa de “ajudar a criar”. Assim, desde cedo começam a trabalhar se expondo a todos os tipos de violência, sem direito a educação nem acesso a serviços de saúde.

Enquanto isso os seus filhos continuam sem condições para sair da pobreza extrema em que se encontram, pois são criados na ausência dos pais, num meio em que a sua educação é negligenciada e não têm apoio emocional e psicológico para sequer sonhar.

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A emancipação da trabalhadora doméstica segundo a artista Mary Sibande. Fonte: The Guardian

É possível ver como a lógica colonial se perpetuou até hoje, em tempos em que famílias de quatro ou mesmo três pessoas se dão ao luxo de ter duas empregadas ao seu dispor.

É comum agora vermos em restaurantes e mesmo festas e convívios familiares casais com as suas crianças e as respectivas babás, muitas vezes uniformizadas ou extremamente mal vestidas, destoando totalmente do ambiente para evidenciar que elas pertencem a outro espaço que não aquele.

Até nos domingos e feriados, para muitos pais os únicos dias que podem passar com os filhos, não conseguem dispensar a sua empregada para ela também gozar de um dia de descanso quiçá também ao lado dos filhos dela.

Os abusos são vários.

Quando viajam também levam consigo as empregadas e raramente pagam aquilo que deviam por isso. É normal em qualquer outro emprego receber-se um valor per diem que cobre pelo menos o dinheiro para a alimentação, estadia e transporte, contudo sabemos que para as empregadas domésticas não é assim, elas raramente sequer escolhem o que vão almoçar.

Se forem empregadas domésticas que dormem no local de serviço, é esperado que elas estejam disponíveis 24h por dia, muitas vezes sem um horário fixo. Porquê? Um engenheiro a trabalhar numa estação petrolífera segue um horário, o mesmo para um marinheiro em alto mar.

E mais, haverá de facto necessidade de ela dormir no local de emprego? Que tarefas precisam de ser feitas à noite e os pais não podem fazer? Será que ela não precisa de estar com a própria família?

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O trabalho doméstico é onde sexismo e classismo se convergem. Fonte: Miss Milli B

As negras do quintal mudaram de nome, mas continuam aqui. São as empregadas domésticas, as babás, as secretárias do lar; as ajudantes; etc. São as mulheres que oprimimos em nome da nossa própria ascensão social.

São as mulheres que “são como se fossem da família”, mas a quem privamos de ter uma vida social saudável, manter relações românticas, buscar uma carreira ou prosseguir os estudos. São as mulheres que desde cedo vivem connosco, mas em locais pequenos, pouco arejados e menos confortáveis; vestem as nossas roupas velhas e comem somente aquilo que nós deixamos. São as mulheres que recebem o nosso mau humor de braços abertos, trabalham horas extras sem reclamar e ainda nos põem os filhos para dormir.

Mesmo de forma disfarçada, a verdade é que estas mulheres têm os seus direitos básicos sistematicamente vedados. É uma opressão disfarçada em laços afectivos, já que tratamos o trabalho que fazem com demasiada informalidade e pintado num discurso de caridade e familiaridade.

Estas mulheres, as “negras do quintal”, são invisíveis à nossa vivência burguesa que consegue pagar viagens mas não paga salários dignos. 

 

 

Amílcar hoje

Amílcar Cabral foi o líder da libertação de Cabo Verde e Guiné Bissau, assassinado a 20 de Janeiro de 1973 antes de ver a independência das (ex) colónias africanas de Portugal.

Agrónomo, revolucionário anti-fascista, guerrilheiro e panafricanista, Amílcar Cabral marcou a História pelo seu papel central na luta pela auto-determinação dos povos de Cabo Verde e de Guiné Bissau que viviam sobre o domínio português.

Como um dos fundadores do PAIGC (Partido Africano da Independência da Guiné Bissau e Cabo Verde), foi um dos mais bem sucedidos líderes de uma revolução de guerrilha, tendo em algum momento dominado grande parte do território guineense (cerca de 70%) antes de Portugal concordar em ceder o poder a quem era de direito.

 

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Amílcar Cabral continua a ter impacto em movimentos contemporâneos. Fonte: Pambazuka

 

Enquanto estudante universitário em Lisboa, estabeleceu contacto com Agostinho Neto e Eduardo Mondlane que viriam a liderar movimentos de libertação em Angola e Moçambique, respectivamente.

Fez parte, em Lisboa, da Casa dos Estudantes do Império, que se tornou num centro de valorização das culturas africanas. Foi aí que se estabeleceu o contacto entre Cabral e outros intelectuais contemporâneos, tais como Marcelino dos Santos, Mário de Andrade, Noémia de Sousa e Alda Espírito Santo, entre outros.

Foi esta elite que deu origem ao Centro de Estudos Africanos e deu início ao processo de consciencialização das então colónias portuguesas, através do qual se estabeleceram movimentos de libertação.

Este pequeno grupo privilegiado de estudantes universitários oriundos de diferentes pontos do continente africano foi capaz de não só questionar a lógica colonial, mas mais do que isso, mobilizar forças para dar um fim definitivo ao colonialismo português.

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A união entre os movimentos de libertação foi uma peça central. Fonte: Via Atlântica

A ligação entre os movimentos de libertação foi de grande importância para o sucesso das lutas pela independência.
Mas Cabral destacou-se sobretudo pela sua articulação e pelo trabalho que fez como questionador do seu tempo, teorizando grande parte das suas visões para África.

O que mais marca Cabral é o papel que ele dá à valorização das culturas nativas. Segundo ele, a cultura é o fundamento da luta anti-colonial na medida em que só se libertam os povos que vêem a sua capacidade de criar e praticar cultura limitada.

Ou seja, a subjugação de uma cultura nativa face à imposição de uma cultura estrangeira é que obriga uma determinada sociedade a lutar pela sua libertação.

 

De uma forma alargada, muito daquilo que se fala hoje sobre a globalização e neo-colonialismo já tinha sido antecipado por Cabral. Só se pode dizer livre um povo que é capaz de negar influências negativas de outras culturas de modo a preservar a sua cultura e a sua identidade.

Na sua compreensão do mundo ele vai para além das ideias do Homem Novo que muitos movimentos revolucionários da época defendem, e projecta um resgate dos valores e hábitos tradicionais africanos.

Para ele é central o papel da cultura para a resistência anti- imperialista e daí a necessidade de criar espaço para a cultura, através da luta, restaurar as pessoas oprimidas e transformá-las em agentes completos da sua própria história e identidade.

 

“Nós queremos entretanto exprimir claramente o seguinte: nós não confundimos a nossa luta, na nossa terra, com a luta do povo português. Estão ligadas, mas nós, no interesse do nosso povo, combatemos contra o colonialismo português. Liquidar o fascismo em Portugal, se ele não se liquidar pela liquidação do colonialismo, isso é função dos próprios portugueses patriotas, que cada dia estão mais conscientes da necessidade de desenvolver a sua luta e de servir o melhor possível o seu povo.”

O desmoronamento do Estado Novo em Portugal, embora não fosse a finalidade do trabalho de Cabral e dos seus contemporâneos, acabou sendo um dos resultados da sua luta.

O colonizador inevitavelmente acabou sendo libertado pelo colonizado. Para Cabral, isso era previsível pois a revolução opunha mais os povos dominados aos dominadores, desafiando a própria essência da ditadura fascista, do que opunha o proletariado (colonizados) à burguesia (colonizadores).

Pode-se dizer, portanto, que não foi Portugal que libertou as colónias, mas sim foram as colónias que libertaram Portugal. Na medida em que através da defesa da sua auto-determinação e da exigência do reconhecimento da sua humanidade plena puseram em causa a própria natureza do Fascismo Português, destruindo-o.

 

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É importante perceber como, para Amílcar Cabral, a luta armada pelo fim do colonialismo, não termina na declaração da independência. Para ele, era preciso compreender dilemas persistentes como a ligação cultural entre os povos africanos e o povo português (que ele sempre separou do Estado Português), bem como as ideias de construção de Estado num contexto de pan-africanismo.

Embora panafricanista, Cabral rejeitava a ideia de se tratar da África Negra como um espaço homogéneo. O panafricanismo de Cabral defendia as especificidades de cada nação africana e o seu estudo de forma isolada.

A dimensão de libertação de Cabral ia para além da auto-determinação a nível da organização política,mas passava também sobre a auto-descoberta da cultura nativa e do seu desenvolvimento. Por isso é tão importante revisitá-lo hoje, 44 anos após o seu assassinato.

O legado político de Amílcar Cabral vai para além do seu estudo crítico dos desafios e ameaças dos movimentos de libertação africanos dos anos 50 e 60.

Ao explorar as a centralidade da cultura e da identidade, bem como ao desafiar as noções de imperialismo e colonialismo, Cabral obriga-nos a observar o panorama social actual e a reconhecer padrões idênticos àqueles que ele lutou para derrubar.

O seu pensamento é relevante e contemporâneo para falarmos de apropriação cultural, de movimentos migratórios e de novas formas de domínio dentro do próprio continente africano.