Perdida nas memórias de Conceição Evaristo

Perdida nas memórias de Conceição Evaristo

Becos da memórias” é um labirinto lindo para nos perdermos que se revela tão actual hoje como era quando foi escrito

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O livro é baseado nas suas lembranças da sua infância. Fonte: Itaú Cultural

Conceição Evaristo traz-nos, em “Becos da memória”, as emoções de Maria-Nova durante os anos 70, em Belo Horizonte (Brasil) quando o bairro onde vive passa por um processo de desfavelamento.

De forma envolvente e emocionante, Evaristo descreve cada rua, cada pessoa, cada história que compunham a sua favela. Nas suas mãos os becos esquecidos e ignorados ganham vida. Vidas.

Através das suas palavras, descobrimos que a favela é muito mais que um aglomerado de barracos, mais do que uma mancha na cidade, mas sim, uma cidade no seu próprio direito. Um mundo por si só.

Um mundo em que as pessoas vivem, crescem, choram, riem, procriam, educam, relembram, esquecem, morrem. Enfim! E este mundo é-nos revelado por Maria-Nova, uma jovem adolescente que se desespera ao ver o mundo e as pessoas que tão bem conhece a desaparecerem.

O desfavelamento anunciado para breve evidencia o fim de uma era para todos eles. Para onde iriam? De onde vieram? Que histórias deixariam para trás? Quais levariam com eles?

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“Escrevivência” em Becos da Memória. Fonte: Scielo

Entre a ficção e a biografia, Evaristo usa-se de Maria-Nova para narrar a sua história e dos seus, como tinha prometido ainda menina.

Este foi talvez o que mais me marcou, já que eu também, desde sempre me comprometi com a tarefa de contar histórias. Ouvi-las, registá-las e recontá-las.

Maria-Nova (ou será Conceição Evaristo?) descobre a clandestinidade da sua existência e daqueles que consigo existem naquela favela. Aliás, a própria favela é metaforicamente, a prova dessa clandestinidade, pois surge de forma aparentemente desorganizada e os seus moradores vivem de forma isolada e invisível.

As semelhanças entre favela e senzala vão-se evidenciando e a menina sente que ainda tem de se libertar.

“Maria-Nova olhou novamente a professora e a turma. Era uma história muito grande! Uma história viva que nascia das pessoas, do hoje, do agora. Era diferente de ler aquele texto. Assentou-se e, pela primeira vez, veio-lhe um pensamento: quem sabe escreveria esta história um dia? Quem sabe passaria para o papel o que estava escrito, cravado e gravado no seu corpo, na sua alma, na sua mente” (p. 138).

De nada valia aquela liberdade clandestina. Aquelas vidas na miséria. Aquela fome. Aquela saudade. Era preciso uma liberdade plena, que lhe permitisse crescer e sair daquele lugar. Daqueles lugares: Senzala e Favela.

E é desta forma que Maria-Nova, inspirada nas figuras que dentro daquela favela ainda tinham esperança, decide também encontrar o seu papel na luta pela liberdade: escrever.

A ideia da escrita como resistência, como forma de fazer estas histórias sobreviverem-lhe revela-se à medida que a urgência da mudança se intensifica.

“agora ela [Maria-Nova] já sabia qual seria a sua ferramenta, a escrita. Um dia, ela haveria de narrar, de fazer soar, de soltar as vozes, os murmúrios, os silêncios, o grito abafado que existia, que era de cada um e de todos. Maria-Nova, um dia, escreveria a fala de seu povo (p. 161).

A escrita é a ferramenta escolhida para mostrar que naquele amontoado de barracos, há também sonhos, desejos, amores, paixões, planos que caminham de mãos dadas com a violência e os traumas acumulados nos becos da favela.

Naquilo que a autora chama de “escrevivência”, Evaristo traz a tradição da oralidade para o livro escrito, compilando vivências diversas e relacionando-as a complexa teia que compõe por fim a própria História do Brasil.

Maria-Nova mostra-nos o universo íntimo de Tio Totó, mãe Joana, Maria-Velha, Bondade, Negro Alírio e tantos outros, que representam assim as histórias de afrodescendentes nos diferentes espaços e tempos do Brasil.

É desta forma que Maria-Nova e Conceição Evaristo são a mesma pessoa. Menina, Mulher, Negra, Periférica, Favelada, Brasileira. No fundo, a mesma figura em pontos opostos de uma única ponte: o tempo. Entre elas apenas o sonho. Uma é a proposição, e outra a realização do dever de memória e de escrita. A grande missão contar histórias.

 

 

Macacos me mordam

Macacos me mordam
Sobre macacos, bananas e racismo.
É importante criarmos um diálogo entre as várias experiências de “negritude” e de racismo. Alguém como eu, que sempre cresceu num ambiente maioritariamente negro, vive o racismo de uma forma diferente daquela pessoa que cresce sendo uma minoria.
O próprio conceito de raça altera-se consoante o contexto. Eu em Moçambique não penso em mim como negra, não me vejo como tal diariamente, pois não sou obrigada a isso. Talvez se me sentir discriminada sejam mais provável que seja pelo facto de ser mulher e não pelo meu tom de pele.
O que isto significa é que eu percebo que as minhas reacções não são universais. As minhas emoções não são universais. As coisas que me causam comichão não são universais. Contudo, são e sempre serão válidas.
Não cabe a mais ninguém me dizer que o que eu estou a sentir é pouco ou ridículo. E isto é especialmente importante quando falamos em ofensas.
Como contadora de histórias tenho especial interesse em palavras. Acho fascinante como um conjunto de letras e sons conseguem transmitir tanto! A palavra, seja ela falada ou escrita, é de uma importância inestimável.
Palavras têm poder. Palavras carregam consigo uma História, um Passado. Há mil construções feitas de forma inconsciente que fazem as palavras o que são. Por detrás de cada palavra existe um valor, um legado, que vai para além da intenção de quem a proferiu.
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Ilustração da evolução (racista) retirada do livro Anthropogenie (1874) de Haeckel. Fonte: Sala BioQuímica

Por isso é sempre importante perceber que, ofensas, ainda que não sejam intencionais, não deixam de ser ofensas.

A palavra “macaco” durante muito tempo foi usada para denegrir pessoas negras.
Para validar o tráfico humano e exploração da mão de obra de pessoas negras, cientistas chegaram a validar a ideia de que essas pessoas eram mais primitivas, mais aproximadas aos macacos e por isso, sub-humanas.
Como tal, a palavra “macaco”, especialmente no contexto escravagista (nas Américas), sempre esteve associada a algo sub-humano, para justificar os horrores a que eram submetidas as populações afrodescendentes.
“Ah! Mas isso foi há muito tempo! Já passou!”
É verdade. Foi há muito tempo. Mas não se apagam as dores e traumas de pessoas que durante anos foram – e ainda são – tratadas como inferiores, como uma espécia sub-humana.
Vejamos a experiência de uma pessoa negra a viver na Europa, na Ásia, nas Américas, etc. Até mesmo em África, os imigrantes africanos negros são os que fazem o trabalho mais precário e vivem em piores condições.
Então existe sim, hoje, agora, no tempo Presente, uma experiência de negritude, de racismo e essa experiência Presente não se pode desassociar da experiência Passada.
Não há muito tempo atrás, o jogador brasileiro Dani Alves foi alvo de um ataque racista em campo, em Espanha, quando lançaram uma banana para ele.
A banana foi uma clara referência a essa mesma ideia em como as pessoas negras são uma sub-espécie humana, mais parecida com macacos. O ataque teve tanta repercussão que vários jogadores e celebridades formaram um movimento (#SomosTodosMacacos), comendo bananas e tirando fotos em solidariedade ao jogador.
Racismo no futebol continua. Fonte: Terra
Se for preciso ir ainda mais atrás na História, falemos dos Zoológicos Humanos em que pessoas negras eram expostas como animais.
Foi há cerca de 60 anos. Há fotos por aí. Crianças, Mulheres, Homens, negros de todas as idades, com os seus corpos, as suas línguas, as suas roupas, o seu estilo de vida em exibição por serem considerado selvagens.
E essa exotificação das vidas negras não parou por aí. As pessoas negras eram usadas para experiências médicas e atracções de circos.
Mas muito disso foi apagado dos livros de História. E nós não falamos disso porque custa. Dói. É difícil. E como tal, fingimos que os acontecimentos não estão relacionados entre si.
Portanto, não me surpreende que muitos de nós, negros, se ofendam com uma certa recente campanha de uma certa marca. Também não me surpreende que muitos de nós, negros, não se ofendam com uma certa recente campanha de uma certa marca.
Mas, porra! Macacos me mordam, que algo está errado, isso está!

Eduardo Paixão, o vendedor de utopias

Eduardo Paixão, o vendedor de utopias

O olhar do escritor face as utopias vividas em Moçambique nos anos 70.

Publicado em 1972, o livro “Cacimbo”, de Eduardo Paixão descreve os últimos anos de ocupação colonial portuguesa em Lourenço Marques (Maputo) seguindo os amores e dissabores de uma família portuguesa em Moçambique.

Um importante livro na sua época, pois capta as emoções e contradições de uma geração no meio de um conflito intenso e de várias mudanças, em todo o mundo. Assim, o autor explora os conceitos de (des)colonização; socialismo/ comunismo; identidade; nacionalidade e raça.

Nota-se no seu tom que o livro é mais um manifesto do que romance, na medida em que propõe uma acção ao leitor, fazendo denúncias aos princípios ultrapassados que justificavam o Colonialismo e evidenciando a necessidade de se criar uma nova realidade para Moçambique.

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Usando-se dos personagens para representarem determinadas figuras/ valores da sociedade, o autor então vende-nos esta nova realidade, a tal utopia, re-imaginando-os.

Por exemplo, D. Emília de Sucena, representa os valores da família e a figura da mulher-mãe na sociedade colonial: zelosa; ocupada com reuniões sociais, jantares e institutos de beleza.

O seu filho, Artur, representa a revolução: a juventude activa; o inconformismo;  a fúria e desgosto de quem se vê com poucas armas para defender os seus ideais.

Também o narrador, omnisciente, serve de porta-voz para a razão. Ele é que legitima todo o fundamento ideológico ao longo da história, mostrando não só o que o personagem verbaliza, mas também o que pensa.

No entanto, ao se tornar testemunha, o próprio narrador mostra algumas contradições, pois se por um lado condena o Colonialismo e sonha com um mundo em que todas as raças possam viver harmoniosamente, por outro é incapaz de denunciar as atrocidades e a brutalidade do Colonialismo Português.

Ainda que de forma sofisticada, Eduardo Paixão, procura sempre a visão luso-tropicalista do bom colonizador português.

“O nosso tradicional multirracialismo possibilitava-nos um presente de paz e amor” (p.132)

Pela voz de Anabela acrescenta, mais tarde:

“Felizmente nós [os portugueses] não praticamos a segregação racial que leva ao ódio e à destruição.” (p. 244)

A única figura racista no livro é D. Emília, que se vê desconfortável pelo seu filho namorar com uma rapariga negra.

“Era o maior desgosto da minha vida ver o meu filho casado com uma rapariga de cor.” (p. 126)

É por isso interessante cruzar todos os discursos e imaginar a tal utopia que nos tenta vender Eduardo Paixão. Que mundo é esse em que brancos e pretos vivem harmoniosamente? Como construir esse mundo em que brancos e pretos são igualmente livres?

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Literatura colonial em Moçambique: o paradigma submerso – Fonte: USP

Eduardo Paixão, como criador também é, ele próprio, a História. Pois é através do seu olhar que desenhamos a sua época. Por isso temos de digerir essas tensões que tanto o incomodam. Será Portugal um “bom colonizador”? Como repudiar o Colonialismo Português sem ser anti-Portugal?

É esta constante comichão que sentimos ao ler “Cacimbo”: um cansativo e desesperado exercício para defender um ideal sem ferir a realidade que conhece e que o molda.

Inserir os personagens, a narrativa e o próprio autor no devido tempo e espaço, com todas as ideias, preconceitos, contradições e transformações é essencial para perceber a obra.

As utopias descritas em “Cacimbo” continuam actual na medida em que a visão colonial ainda não foi concretizada e precisa de nós, desta actual realidade para se decidir – O que é isto de ser livre, afinal?

Eliana, da próxima, beija-me

 

Quero um beijo teu na minha boca como o primeiro.

Eu mandei fazer um beijo teu na minha boca. Como aquele beijo pedido, entregue, partilhado. Um beijo sem pressa nem atraso.

Quero guardar para sempre a memória daquele beijo bonito que me deste. E dormir embalada no som dos nossos lábios a dancarem em sintonia. Eu acompanho o teu ritmo e tu segues a minha pegada.

Tu és a música e o pé. O chão e o compasso.

Todas as cartas de amor são 
Ridículas. 
Não seriam cartas de amor se não fossem 
Ridículas. 

Também escrevi em meu tempo cartas de amor, 
Como as outras, 
Ridículas. 

Quero dar-te os meus lábios como um navio para as tuas palavras mais silenciosas navegarem, e e nesse mar sereno mergulharem.

Darei também as ondas calmas da maré baixa para sossegar os teus medos. E de ti levarei o Sol para secar todas as lágrimas desse mar salgado da minha boca.

Nesse beijo vamos guardar todos os nossos segredos.

As cartas de amor, se há amor, 
Têm de ser 
Ridículas. 

Mas, afinal, 
Só as criaturas que nunca escreveram 
Cartas de amor 
É que são 
Ridículas. 

 

Antes que a memória daquele beijo me escape, quero-o outra vez. E outra vez. E todas as vezes até perder a conta.

Quero o teu beijo como uma brisa leve logo de manhã para me acordar. Como a sombra de uma árvore a tarde, para me acalmar. Como a sinfonia dos animais a noite, para me embalar.

Quero o teu beijo sempre. Mesmo quando estás ao meu lado e eu me esqueco que os teus lábios não são meus.

Quem me dera no tempo em que escrevia 
Sem dar por isso 
Cartas de amor 
Ridículas. 

A verdade é que hoje 
As minhas memórias 
Dessas cartas de amor 
É que são 
Ridículas. 

Seremos o nascer e o por do nosso próprio Sol.

Quero me perder nas horas quentes dos dias a amar, em amor.

Nos beijos húmidos esquecer o ritmo do vento, o som das folhas no chão, os passarinhos a comerem fruta, os peixinhos na corrente dos rios, os apressados urgentes nas suas saudades; esquecer os dias frios da tua ausência e toda a vontade que eu tinha de te beijar.

Quero um beijo teu na minha boca como o primeiro.

(Todas as palavras esdrúxulas, 
Como os sentimentos esdrúxulos, 
São naturalmente 
Ridículas.) 

Dois Mil e Dezassete

Dois Mil e Dezassete

Janeiro veio como uma manga madura num ramo ao alcance da mão: Doce, esperançosa, pronta!

Agarrei-a com toda a fome em mim, e devorei Janeiro como uma manga suculenta, deixando escorreu todo seu sumo pelas minhas mãos, chegando ao cotovelo.

E com essas mãos sujas e peganhentas do doce sumo agarrei Fevereiro. Ou Fevereiro agarrou-se a mim.

Fevereiro abraçou-me, consolou-me. Os seus braços curtos me apertaram tão forte que chorei saudades de outras vidas.

Quando limpei as lágrimas, Março já estava aqui.

Em Março um novo reino se ergueu. Uma Rainha desfilou as suas garras no meu chão e fez-me ouvir o seu miar.

Índico e Atlântico se beijaram e nesse amor turbulento me perdi e descobri. Adormeci com Adamastor a soprar-me ao ouvido uma música linda e a sua voz gentil, em mim ficou e comigo voltou.

Em Abril tendo essa música no fundo, fui ao encontro de um novo ciclo.  Grandes renovações começam sempre em Abril. Abril é despedida e boas-vindas. Melancolia e alegria.

Abril nunca se apressa nem atrasa. Abril sempre chega quando eu preciso. Sempre tu, Abril.

O perfume de Abril permaneceu no ar e Maio também foi amor.

Maio foi um banho no mar. Um passeio com os pés na areia. O cheiro de praia a invadir toda a minha vida.

Nessa água salgada também chorei.

Um. Dois. Três.

Junho. Julho. Agosto. Chegaram e foram, como nunca tivessem cá estado.

Enfrentei-os e perdi. As minhãs mãos bateram à porta com tanta força que sangrei todos os meus sonhos.

Setembro foi passageiro como uma chuva de Verão. Veio com força, curou e destruiu, parou.

Dele ficou apenas cheiro a terra molhada e a marca dos meus passos sujos seguindo em frente.

Nessa terra molhada, germinaram algumas coisas.

Em Outubro cortei as pontas, o cabelo cresceu. Na raíz, novos cachos se formavam. Uns mais enrolados que outros, todos eles a apontar para o Céu juntos criaram uma auréola.

Em Novembro chorei. De tristeza. De solidão. De cansaço.

Perdi o fôlego ao tentar correr mas o tempo tem um ritmo próprio e os meus pés estavam cansados de pisar desilusões.

Então parei e observei. Deixei o tempo guiar-me para a sua direcção.

Quando dei por mim já era Dezembro e calor de Capricórnio entrava por todas as janelas.

As cortinas abriam-se, como se estivessem a fazer a vénia às lições de dois mil e dezassete. O Sol espreitava até por debaixo da porta, para ver mais uma vez aquele mestre.

Até sempre!

 

Afro-ismos e outras cenas

Afro-ismos e outras cenas

O “Negro” e o “Africano” são criações da ocupação europeia.

Antes dos colonizadores europeus chegarem a África não havia negros. Os negros apareceram como categoria para se distinguir o branco europeu.

O continente Africano existia como uma pluralidade de culturas e nações e não um bloco homogéneo. Havia muita produção científica e economias robustas.

Também havia conflitos, forças que queriam alargar o seu poder, saqueios, perseguições e assassinatos.

Mas não havia negros.

Esses apareceram pela necessidade de criar um sistema de domínio económico, político e mais tarde social, de imposição de uma cultura em outra.

Para tal, o uso da violência foi imprescindível e a justificação para tal foi precisamente essa dicotomia: branco vs. negro; civilizado vs. selvagem.

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Achille Mbembe e o que herdamos do Colonialismo e do Imperialismo Ocidentais. Fonte: Comunidade Cultura & Arte

E por isso, sentimos a necessidade de reforçar a nossa identidade, de fazer deste “não-espaço” um lugar confortável, seguro.

Nesse processo de auto-afirmação, acabamos por reforçar essas categorias que na verdade nunca nos pertenceram.

Longe de ser espontânea, esta crença [na raça] foi cultivada, alimentada, reproduzida e disseminada através de um conjunto de dispositivos teológicos, culturais, políticos, económicos e institucionais, dos quais a história e a teoria crítica da raça acompanharam a evolução e as consequências ao longo dos séculos.” – Achille Mbembe

 

Até hoje deixamos esta crença na raça dominar a nossa cultura. Embora já não seja algo institucionalizado, como era por exemplo o colonialismo ou o apartheid, há resquícios disso no nosso dia-a-dia.

Para além da religião e das nossas colonialices de estimação, notamos até nas coisas mais pequenas.

Vamos ao mercado, e chamamos o inhame de “batata africana”. Enquanto a batata sul americana, que nos chegou através dos europeus e asiáticos é simplesmente “batata”.

A pessoa quando fala em Medicina Africana, diz “Medicina Tradicional”, mas trata a Medicina Ocidental/ Moderna somente por “Medicina”.

O mesmo certamente se aplica em mil e outros casos! Por defeito, tratamo-nos como se fôssemos os “outros”, pois enquanto o branco europeu olha para si apenas como uma pessoa, nós aprendemos a olhar para nós como africanos.

Não somos somente “chiques”, como “afrochiques”.

“Afro-empreendedores”

“Afro-fashion”

“Afro-cosmopolitas”

“Afro-descendentes”

“Afro-qualquer coisa”

Enfim… E por falar em “Afro”, por que o meu cabelo quando está solto é “Afro”? Existe cabelo “Euro”?

É como se o meu cabelo não pudesse ser simplesmente “cabelo”!

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Empoderamento não é sobre o tamanho do seu black power. Fonte: Geledés

Na sua TED Talk, Edgar Cubaliwa tocou num ponto importante quanto a este assunto: Por que é que quando vamos a um sítio bonito aqui no nosso país, dizemos “Nem parece Moçambique”?

A nossa auto-imagem é tal que não nos achamos merecedores de locais paradisíacos. Aqui no nosso país só pode haver pobreza, guerra, miséria.

África não pode ter coisas boas. Os africanos negros complexos, com ideias progressistas ou simplesmente diferentes “querem ser brancos”.

Parece-nos difícil olhar para quem somos e reconhecer diversidade, inteligência, riqueza. Não conseguimos ver valor, unicidade nas nossas coisas.

E o motivo é provavelmente o facto de estarmos a olhar para o mundo através de determinadas lentes.

Esse é o nosso desafio: tirar as lentes e sair desse “não-espaço”.

Criemos as nossas visões. Os nossos modelos. As nossas próprias batatas e cabelos.

 

 

Era uma vez um final feliz

Queria ser uma princesa bonita, como nos filmes, mas na sua torre fazia muito frio.
Lá de cima ninguém a tocava e ela também não tocava ninguém.
Queria ser uma princesa bonita e perfeita, por isso deixava-se estar na sua torre à espera do prometido príncipe.
Os seus olhos passeavam pelos picos das árvores e pelas cores das flores, mas as suas mãos continuavam vazias.
O vento subia as escadas aos berros, invocando espíritos que ela desconhecia. À noite as portas batiam numa sinfonia dançante e ela ouvia vozes desafinadas em louvor.
Tinha muito medo.
Queria ser uma princesa bonita e perfeita e delicada e na sua torre ficava, de pé à janela. Durante o dia falava com os pássaros, à noite com os seus fantasmas, mas nunca com o prometido príncipe. Sempre à espera dele.
Da torre dava para ver toda a cidade, os vales verdes e todos os rios que regavam as flores e florestas.
Dentro da torre era calmo.
O silêncio tomava conta de todos os cantos do espaço, não fosse pelas canções dos fantasmas que a atormentavam.
As paredes eram brancas, ou sem cor. Sei lá. Que diferença fazia?
A torre era uma extensão de si mesma. Um local meio abandonado à espera do calor de um amor e das borboletas da barriga para enfeitar as janelas.
A torre: bonita, perfeita e delicada, mas sem luz própria, dependente do humor do Sol para clarear as suas manhãs.
Um dia decidiu sair da Torre para apreciar de perto o lindo jardim que se tinha formado em baixo da sua janela.
Buganvílias amarelas trepavam as altas paredes da torre e alguns tentáculos se aventuravam numa tentativa de caminhar sozinhos. Ao seu lado, um pequeno arbusto se erguia, meio desengonçado, mas sem desistir.
Os pássaros cantavam alegres, e as abelhas zumbiam livremente, distribuindo beijos pelas flores. Parecia que tudo e todos lhe davam as boas-vindas.
Primeiro sentou-se à porta e respirou o ar de baixo. Ali, tão perto da relva, dava para ver, entre as folhas verdes esticadas para cima, a cor escura da terra. Era quase preta e estava húmida, protegida pelas flores e raízes que nela se apoiavam.
Como é que a mesma terra que sustentava a monstruosa Torre, também servia de casa para aquelas delicadas plantas?
Lá de cima não dava para ver esses detalhes.
Ficou ali sentada, com a cabeça apoiada à entrada a observar apenas. A sombra da Torre ia fugindo de si, e os seus pés já doíam, pedindo movimento. O seu sangue ali parado queria sentir a terra de perto.
Então levantou-se.
Começou a andar e sentiu cócegas nos pés, da relva que lhe ia recebendo os passos alegremente. Só parou quando viu um tapete de jacarandás e ali se deitou.
Quando olhou para cima viu os ramos e neles pequenas folhas, que por sua vez formavam outra folha maior.
Ao seu lado, viu uma flor lilás grande e perfumada a olhar para si e ela também olhou para si própria, princesa e pensou na Torre e nos seus fantasmas. Lembrou-se do escuro e do silêncio da sua espera prolongada.
Decidiu não se levantar hoje. Estava feliz.
Ia ficar por ali durante a noite, talvez até para sempre.