Flores no Concreto

Engraçado como construímos muros, passeios, estradas e achamos que vamos destruir as plantas.

E mais engraçado ainda é que as plantas não recuam, não desistem, não morrem. Elas simplesmente aguardam a altura certa para a sua ressurreição.

Mesmo perante todas as dificuldades há plantas que teimam em crescer no concreto. Com pouca luz, pouca água, por vezes muito lixo e urina, lá estão elas: verdes, brilhantes, firmes.

Muitas vezes sozinhas, muitas vezes isoladas.

“são só ervas daninhas”

“é só capim”

Dizemos nós e quando damos conta, elas se multiplicam, elas florescem.

É assim também que vejo o activismo. Activistas são pessoas que mesmo contra todas as probabilidades teimam em lutar pelas suas causas e ideais. Pessoas que conseguem sobreviver e acima de tudo FLORESCER em ambientes muitas vezes hostis à sua existência.

Agradeço aos activistas que todos os dias me inspiram a manter-me viva. Que continuemos a florescer.

EU ESCOLHI VIVER

Deitei fora o meu batom roxo,
aquele roxo dormente do meu olho inchado
sobre a almofada encharcada de dores secretas,
na constante esperança de reconciliações incertas.

Não quero mais o sapato vermelho,
daquele sangue que manchava a minha face,
enquanto gritava por socorro
e os vizinhos se encondiam.
Não ouviam.
As minhas tias se riam.

Ninguém lhes disse que tínhamos pés
e não raízes a tocar o chão.
Ninguém lhes contou que havia diferença
entre violência e paixão.

Eu escolhi viver.

Eu escolhi viver sem a água salgada
das minhas lágrimas a embalar os meus filhos,
num barco de papel sem destino.

Eu escolhi viver sem a culpa pesada
do véu e grinalda,
do beijo e a chapada.

Desculpem-me,

#EuEscolhiViver.

O que é que eu vou fazer com essa Liberdade? – parte II

O que é que eu vou fazer com essa Liberdade? – parte II
Reflexões em torno da Estátua da Liberdade, em Nova Iorque
Foi numa manhã fria de domingo e Nova Iorque já tinha perdido o seu encanto mas eu queria ver muito aquela mulher.
Olhava os arranha-céus, ouvia os pássaros e sentia aquele vento gelado na minha cara e pensava na Liberdade.
Como seria a Liberdade se de facto existisse? O que diria? Que histórias contaria?
Pensava na Liberdade a falar da ironia que era o tal debate sobre a escravatura nos E.U.A na altura da sua colocação em Nova Iorque enquanto, em simultâneo, nós em África continuávamos a viver sobre o violento regime do Colonialismo.
Ela dir-me-ia que não se sentia nada bem com aquilo e que a vontade dela era de sair a correr para o nosso socorro, mas que a corrente no pé a impedia.
Ela falaria de França e dos franceses, das colónias e dos massacres.
Iríamos tomar um chá, talvez. E ela me confessaria que tinha muita vontade de nos conhecer em África e não ali, e que queria sentir o ar quente do Índico. Que também queria ser deixada em paz e de viver a sua longa vida longe de visitas constantes.
Olhei para a a Liberdade, tão idolatrada e isolada, e ao mesmo tempo distante e desconhecida. As pessoas que lhe chegavam perto quase não a tocavam, não a compreendiam.
E ela ali parada, imóvel e acorrentada.
Foi numa manhã fria de domingo e Nova Iorque já tinha perdido o seu encanto mas eu queria ver muito aquela mulher.
Na verdade eu só conseguia pensar nela.
Estava mesmo obcecada, ansiosa pelo momento em que o meu olhar e o olhar dela se cruzariam.
Queria conversar com ela.
Queria levá-la comigo pela mão. Eu e a Liberdade juntas teríamos uma tribo, ou um exército, não sei, qualquer coisa. Juntas iríamos conquistar o mundo. Mas espera, como pode a Liberdade conquistar o mundo? Não é contra-intuitivo a Liberdade se impôr? Conquistar?
O que é que eu vou fazer com essa tal Liberdade?

O que é que eu vou fazer com essa tal Liberdade?

O que é que eu vou fazer com essa tal Liberdade?
Reflexões em torno da Estátua da Liberdade, em Nova Iorque
Foi numa manhã fria de domingo e Nova Iorque já tinha perdido o seu encanto mas eu queria muito ver aquela mulher.
Eu não queria saber dos Museus com as suas narrativas coloniais e imperialistas, muito menos das obras de arte roubadas. O que eu queria era ver aquela mulher: Liberdade.
Tanto dela se falava, tanto dela se imaginava, mas pouco dela se via.
Foi numa manhã fria de domingo e Nova Iorque já tinha perdido o seu encanto, mas eu só pensava naquela mulher.
Então a ela me dirigi.
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A Estátua da Liberdade não teria sido concebida ou construída se os principais defenders na França e nos EUA não fossem abolicionistas que entendiam a relação entre a Escravatura e a Guerra Civil Americana. Fonte: Black Statue of Liberty | NPS
Não é possível falar de Nova Iorque sem falar em raça – a menos que se seja insensível à cor. A cidade de Nova Iorque é um espaço altamente racializado, em que por exemplo no centro pouco se vêem negros e os que se vêem ocupam na sua maioria posições de servitude (empregados de mesa; motoristas; porteiros; etc). Mas podemos falar disto num outro dia.
Importa falarmos de raça aqui porque nessa fria manhã de domingo eu e outras meninas africanas negras fomos ver a estátua e um jovem senhor, enquanto esperávamos o transporte para lá, aproximou-se de onde estávamos e começou a conversar connosco.
Ele era negro. Nós eramos as outras únicas pessoas negras naquele local.
Depois daquelas perguntas típicas sobre a origem da nossa melanina, o senhor, um homem negro nova iorquino, partilhou tudo o que sabia sobre a estátua.
“Did you know that the Statue of Liberty is a black woman?/ Vocês sabiam que a Estátua da Liberdade é uma mulher negra?” – perguntou, e após a nossa cara de surpresa, ele começou a contar-nos como a Estátua da Liberdade tinha sido concebida pelos franceses com o intuito de alargar o debate sobre a Liberdade, especialmente num contexto em que predominava ainda o sistema escravagista nos EUA.
De facto foi um abolicionista francês, Edouard de Laboulaye que idealizou a estátua e os desenhos iniciais tinham sido inspirados nas mulheres egípcias pelo escultor Auguste Bartholdi.
Os abolicionistas norte-americanos, através das suas campanhas de advocacia e angariação de fundos para o monumento e para a libertação de outras pessoas escravizadas conseguiram por fim, que a estátua chegasse a Nova Iorque.
Nao fosse pelos abolicionistas, um dos maiores pontos turísticos de Nova Iorque sequer existiria.
Era uma manhã fria de domingo e Nova Iorque já tinha perdido o seu encanto, e enquanto ele falava de forma tão apaixonada sobre os povos negros nos EUA, eu pensava em todos os afro-americanos (ou negro- americanos)
“The chain on her feet represents the things that bring us down/ A corrente no pé representa aquilo que nos deita pra baixo”, continuava ele entusiasmado pela atenção que lhe dávamos.
E de facto, a Liberdade continua acorrentada. Quando a vi lá, sozinha e abandonada naquela ilha, rodeada de turistas que não sabiam da sua História, coberta do seu verde nada negro, pensei comigo mesma: Liberdade para quê e para quem?

Por onde andas Paulina?

Por onde andas Paulina?

Os homens de caneta na mão enchem as prateleiras empoeiradas das livrarias moribundas.
Os enviados de Deus vendem conhecidas soluções a problemas antigos.
E nada dos teus livros!

Paulina! Paulina!
Choro. Imploro. Grito.

Nas ruas, entre livros adormecidos sobre as raízes teimosas no concreto quebrado,
as páginas soltas de romances à espera de um final feliz me consolam.

Percorro a cidade numa dança frenética batendo em todas as portas à tua procura.

Alguém viu Paulina? Paulina está?

Os meus pés mexem-se ao ritmo de um batuque de esconjuro. Eu corro. Salto. Ando. Tropeço. Caio.

Silêncio.

No fim, uma voz diz-me:
Estou aqui! Estou aqui!

Andava mesmo a pensar em ti.

Chimamanda, de novo

Chimamanda, de novo

Meu terceiro livro da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, desta vez “Purple Hibicus” (Hibisco Roxo).

Tive o prazer de ler este livro num vôo de 16h e não fosse por ele, não sei se teria sobrevivido à viagem!

A história segue uma família pelos olhos de Kambili, a filha de 15 anos. Apesar de ser um homem respeitado na sua comunidade, o pai é abusivo dentro da sua casa para com a sua esposa e os seus filhos.

Kambili é uma adolescente em conflito: ela idolatra o pai, admira o seu carácter e faz de tudo para ganhar o seu respeito e aprovação, mas por outro lado, também cultiva um medo profundo por ele e sabe que o que ele faz não está certo.

O título do livro vem da flor que a sua tia tinha no seu quintal em Enugu, onde Kambili e o seu irmão Jaja se tornaram livres, o hibisco roxo.

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O livro começa como um filme de suspense. Embora não saibamos ainda o que se passa, dá para sentir que algo está mal. Uma energia pesada no ar. O abuso nunca é directamente referenciado, apenas a descrição do sofrimento: os gritos, as marcas, a loiça partida e todo o trauma que permanecia.

Até o abuso de poder do Estado aparecia apenas como uma força invisível, mas omnipresente.

A religião também aparecia como uma força abusiva e opressiva.

E no olhar de Kambili, a filha mais nova, vamos descobrindo tudo isso na sua inocência. Sem as palavras certas, sem a maturidade para reconhecer as diferentes violências e sem o apoio necessário para denunciá-las.

Eugene ou simplesmente Papa, um homem defensor dos direitos humanos, um empresário de sucesso, um católico exemplar e ao mesmo tempo um esposo abusivo, um pai violento, um filho reprovável, um irmão ausente.

A tirania do pai, Papa, pode ser assemelhar até à tirania da Nigéria, como Estado: em casa, é um homem poderoso e temido por todos, que se usa do seu lugar de poder para abusar física e verbalmente de toda a sua família. E lá fora, é um homem poderoso e admirado por todos, que usa do seu lugar de poder para ajudar e desenvolver a sua comunidade.

Aliás, Papa não se diferente de muitos líderes africanos aplaudidos e premiados internacionalmente, mas déspotas impunes a nível doméstico. Os abusos de muitos desses tiranos eram conhecidos, no entanto, era conveniente ignorar as evidências pelos ganhos individuais (com especial atenção a parcerias econômicas – papo para outro dia).

E Papa, embora tentasse esconder, deixava sempre marcas visíveis do abuso que impunha sobre os seus.

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Embora mais tarde Kambili consiga encontrar as palavras certas, a sua vontade de reconciliação e aprovação são mais fortes.

Eu adorei o livro porque Adichie consegue humanizar até o pior do vilões. É fácil odiar e nos colocarmos num patamar superior, assumirmos que temos um compasso moral mais digno… A prática da empatia é um exercício doloroso. Mas com as palavras de Adichie, é possível entender e quiçá até perdoar o pai abusivo.

Se nós estivéssemos na mesma posição, seríamos diferentes?

 

O medo da catástrofe

O medo da catástrofe

(ou o medo catastrófico)

Há sentimentos que se instalam em nós calmamente e se acomodam. Como sementes, esses sentimentos são pequenos e quietos – os medos. Enterrados na escuridão da nossa mente, esses medos germinam de forma discreta e aos poucos criam raízes.

Os medos tornam-se assim parte de nós mesmos. Onde eles começam e nós acabamos não é claro. O medo sou eu e eu sou o medo.

E de tanto (con)viver com o medo, já não o sinto. Já não me intimido.

Por isso quando ouvimos falar do Ciclone Idaí não nos mexemos. O medo em nós apenas sorriu apático. Okay. Só mais uma desgraça. Mais uma catástrofe.

Não é a primeira vez. Já estamos habituados. Aqui na margem do mundo o que não nos faltam são catástrofes, umas mais e outras menos naturais, mas catástrofes mesmo assim. E a pior parte é que as nossas catástrofes não se fazem sozinhas.

As nossas crises também têm crises. Não basta o desastre natural, com ele se revelam todos os outros desastres: a apatia, o pessimismo, a corrupção, a ganância, o narcisismo, e claro, a falta de infraestruturas, a despreparação generalizada das comunidades afectadas, órgãos de informação e comunicação deficientes, etc.

Se não aderimos às campanhas de angariação de donativos, não é por desconhecimento ou incapacidade, mas sim por desconfiança total nos responsáveis pela gestão desses donativos.

Os desastres tornaram-se em oportunidades de enriquecimento para muitos, por isso custa-nos muito aceitar que a ajuda humanitária vai chegar a quem precisa ou que vai criar soluções efectivas.

É o medo novamente. Essa planta que vai trepando tudo o que pensamos e fazemos. E nos leva a acreditar que não vale a pena fazer nada, porque não vai dar certo. Não vamos salvar nada. O nosso contributo será insignificante.

Ao mesmo tempo, quem tem capacidade para criar outros mecanismos de apoio está demasiado confortável na segurança da sua localização geográfica e/ou do seu emprego, para ser um agente de mudança.

Ou seja, aquele medo enraizado continua lá, certo da sua imponência e imortalidade. Dessa planta, uma árvore se ergue, e com elas as suas ramificações: nos acomodamos, nos recolhemos, aceitamos as catástrofes, não nos abalamos com mais nada.

As incertezas nos imobilizam. Congelam. Paralizam.

Temos medo. Medo de falhar e medo de conseguir.

 

 

 

A pior catástrofe é o medo.