Lições de Outono

Lições de Outono

Coisas que aprendemos ao observar as folhas cair.

Nas manhãs frias e nubladas de Berlim, em que as folhas caíam sobre o ritmo frenético do vento, acordar era um sacrifício. E que sacrifício!

Mas deliciava-me ficar, aquecida na minha cama, a olhar para a janela de onde era possível ver o abanar das folhas e das árvores consoante a vontade do vento.

Da janela dava para ver as folhas nas suas danças constantes. Umas, de tão embaladas pelo sopro, deixavam-se cair e beijavam lentamente o chão húmido. As mais resistentes agarravam-se à árvore com toda a esperança de ali permanecer, embora soubessem que a altura delas caírem também chegaria em breve.

Essa é a primeira lição: saber esperar. Mesmo vendo a folha vizinha a cair, as outras folhas não corriam para o precipício. Pelo contrário, algumas até pareciam ficar mais atentas para ver o destino daquela que se deixava levar de forma a fazerem a escolha mais consciente.

Já no chão, as folhas caídas formavam tapetes ora laranja, ora castanho, interrompidos por algumas poças de água, que em conjunto davam outra cara aos passeios. Mesmo deitadas, no chão, sem vida, as folhas continuavam a dar o melhor de si, acarinhando-se umas às outras e aos pés que as iam pisando.

Lição dois: Mesmo no chão, nunca perder a essência de quem somos. Aproveitar a queda para aprender sobre humildade e amar quem está connosco.

Depois, reparei também que algumas árvores já se viam nuas, mas as outras não se deixavam despir. Cada uma se revelava consoante a sua vontade, no entanto a força aplicada sobre elas pelo vento era igual. E os galhos mais teimosos, ainda exibiam folhas verdes, poucas, mas persistentes enquanto outros, já quase só tinham folhas amarelas, castanhas ou mesmo folha nenhuma.

Terceira lição: Devemos tirar as partes de nós consoante o que nos deixa mais confortáveis, independentemente daquilo que é a pressão externa.

Tanto podemos aprender com o Outono. O Outono é a primeira linha na testa; o primeiro fio de cabelo branco; o primeiro sinal da idade. Mas é também o início da renovação, é aquela etapa dolorosa, mas necessária para o crescimento.

Drummond de Andrade disse “Repare que o Outono é mais estação da Alma que da Natureza”.

Não há ser que resista ao ar reconfortante do Outono. Ele diz-nos:

 

“Não há problema nenhum em deixar parte de nós morrer”

“Não há problema em deixar parte de nós cair”

 

 

 

sara- FREEDOM!

sara- FREEDOM!

O filme Sarafina! de Darrell Roodt retrata uma geração de Freedom Fighters na África do Sul durante o apartheid.

De madrugada, um grupo de sombras atravessa sorrateiramente o percurso para a escola do bairro. Passando pela linha férrea, saltando muros, a escuridão como cúmplice, galopando até que chegam ao destino: uma escola.

Atiram uma “bomba” caseira, que incendeia uma sala de aulas inteira.

À partida, parece que estamos perante um grupo de jovens vândalos sem nenhuma causa senão o prazer de estragar propriedade pública.

Mas à medida que a história se revela, percebemos que na verdade os jovens vândalos estão a protestar contra um sistema de ensino que em nada os favorece. Estão a protestar contra o racismo institucional que lhes oprime diariamente. Estão a protestar contra a falta de condições para crescerem e se desenvolverem.

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SARAFINA! conta com as estrelas Whoopi Goldberg e Leleti Khumalo. 1992, (c)Buena Vista Pictures. Fonte: TimeOut

Sarafina, a nossa protagonista é uma jovem estudante que se vê no meio destes conflitos.

Como uma menina negra que vive sobre o regime do apartheid, encontra no exemplo de Nelson Mandela a sua inspiração. É nele que desabafa as suas angústias e anseios.

Mandela é uma presença constante, a liderança forte e fidedigna de que ela precisa para manter-se sã e seguir os sonhos.

Em forma de musical, o filme mostra por um lado a esperança e alegria de Sarafina, que sonha em ser famosa, e por outro, a violência e perversidade do regime do apartheid.

Mesmo sem ser explícito no que toca às leis e repressão em que viviam os negros sul-africanos, sente-se ao longo do filme como a opressão ecoava em todas as esferas das suas vidas.

Desde o quarto em que dorme, Sarafina e os seus irmãos, apertados na única cama e no chão até ao medo constante de uma palavra, um olhar ou mesmo um sonho fora do lugar.

Desde as ruas não alcatroadas; o fraco saneamento até ao sistema de ensino que limitava as opções dos jovens estudantes negros.

A covardice da classe opressora, representada pela patroa da mãe de Sarafina, que vive indiferente aos desafios enfrentados pela sua empregada doméstica, que sozinha e à distância, sustenta a sua família.

 

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Sarafina! é inspirado numa história verífica. Fonte: LA Times

Embora o filme não mostre quem eram os brancos no poder, o filme evidencia como todos os brancos sul africanos eram apáticos, não questionando nem desafiando o status quo, pelo contrário até o fortaleciam.

Os negros viram-se contra eles mesmos, roubando, matando, extorquindo.

As alianças quebram-se e as fraquezas de cada lado revelam-se. Não há vilões e nem heróis.

Sarafina e os seus amigos vêem-se perdidos, sem um rumo próspero. Despidos da sua humanidade, vêem-se também eles próprios, a despirem os outros do seu lado humano.

Perante isto, as linhas que separam a paz da guerra; o certo do errado e o impensável do possível tornam-se turvas.

O filme é um importante testemunho, feito por sul-africanos, daquilo que se viveu e aconteceu durante os finais anos sangrentos do apartheid, oferecendo um olhar real e intemporal da África do Sul, a nação arco-íris.

As nossas colonialices

As nossas colonialices

Foi há 40 anos que Moçambique se tornou um país independente, governado tendo em conta os seus próprios interesses e para o seu próprio povo.

No entanto, a herança colonial até hoje está bastante presente.

A auto-imagem que temos é na verdade um reflexo do que nos foi ensinado sobre nós mesmos durante os anos de ocupação europeia no território Africano.

 

É comum entre nós, especialmente para as pessoas mais velhas que viveram o período colonial, reforçarem alguns mitos sobre os africanos: os africanos são preguiçosos; os africanos não têm tanta capacidade intelectual como os europeus; os africanos servem apenas para trabalho braçal; etc.

Por outro lado, também existe um discurso de saudosismo ao tempo colonial, que glorifica os horrores e opressões por que passavam todos os dias as populações africanas durante esse período.

E acima de tudo, herdamos muito da forma de estar, de ser e fazer do colono.

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A luta pela descolonização continua. Fonte: Público

Embora exista a União Africana, os blocos regionais e aqueles definidos pela língua são os que têm mais peso. Ainda nos definimos como lusófonos (os que falam Português); francófonos (os que falam Francês) e Anglófonos (os que falam inglês), e deixamos de lado as nossas restantes línguas, que representam a maioria da população e provavelmente os elos mais fortes que nos ligam.

A recente crise nos Camarões centra-se sobretudo na fricção entre camaronenses “francófocos” e camaronenses “anglófonos”, o que evidencia até que ponto essas identidades forjadas até hoje se fazem sentir.

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A crise dos Camarões prende-se com identidade. Fonte: Crisis Group

A verdade é que as próprias fronteiras não existiam e por isso, juntaram-se nações, repartiram-se outras para formar os países que hoje conhecemos.

Os poderes coloniais impuseram desta forma as suas línguas, costumes e culturas nos povos africanos. Desse processo houve mudanças sociais políticas e económicas que alteraram para sempre o destino dessas nações.

Portanto os conflitos étnicos/ tribais surgem como resultado dessas disputas: espaço legitimidade; recursos; etc.

Um outro exemplo marcante do colonialismo europeu é a réplica do funcionamento das insituições do Estado, até nas suas vestes.

Nos países outrora ocupados pela Grã-Bretanha, por exemplo, as formas de tratamento nos tribunais, o funcionamento dos mesmos e até mesmo o vestuário dos Juízes parecem ter saído do séc. XIX.

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Membros do Poder Judiciário no Malawi, Nigéria e Ghana, entre outros países africanos ainda usam o traje tradicional britânico. Fonte: The Independent UK

Uma das marcas mais fortes do colonialismo europeu em Moçambique é a institucionalização das “boas maneiras” e da “decência” especialmente na Função Pública, que é claramente herança do puritanismo católico.

As instituições públicas, na altura em que Moçambique estava ocupado pelos Portugueses, eram reservadas apenas aos europeus ou a alguns negros – os assimilados, que tinham alguns privilégios uma vez que eram “civilizados”.

Até hoje nas repartições públicas não se pode ir de calções, chinelos, blusas de alças ou saias acima do joelho. Estas medidas também são reforçadas em Escolas e até mesmo Universidades.

foto hospitalRecentemente uma imagem tornou-se viral por se tratar do aviso de um hospital. O aviso restringia o vestuário permitido aos utentes, o que é um absurdo, tendo em conta que se trata de um hospital.

Isto é novamente a reprodução do discurso do colono. O cidadão comum, pobre, camponês, tem desta forma o acesso vedado a estes serviços pois não tem roupas para entrar na Esquadra ou no Hospital, nem tão pouco para tratar o seu Bilhete de Identidade. Aliás, nem o rei da Swazi, com as suas roupas tradicionais seria admitido no Hospital!

Este falso moralismo sente-se um pouco por todo o lado. Estas noções de decência e civilização ultrapassadas são usadas até hoje nas nossas sociedades.

 

Ainda hoje nos inspiramos na legislação, educação, etc das potências europeias para edificar os nossos países “independentes”.

E como resultado, continuamos a reproduzir mecanismos de exclusão e a atrasar o nosso desenvolvimento.

O que aconteceu Lumumba?

O que aconteceu Lumumba?

O filme “Lumumba, a morte de um Profeta” de Raoul Peck descreve os acontecimentos em torno da ascensão, declínio e assassinato do Primeiro Ministro democraticamente eleito no Congo.

Com o intuito nem de criar uma imagem idealista e heróica de Lumumba e nem de o crucificar, ou de crucificar as pessoas que permitiram que o seu assassinato acontecesse, o realizador haitiano Raoul Peck criou um filme histórico e comovente sobre a pessoa que foi Lumumba.

Patrice Lumumba lutou por um Congo unido. Para ele, não havia liberdade com divisões tribais ou territoriais e essa era uma das grandes discussões para os partidos da altura.

No filme, Peck consegue contextualizar todos os acontecimentos desde a luta de libertação travada pelo Congo, as figuras políticas que o protagonizaram e os resultados conseguidos.

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R. Peck viveu em exílio no Congo e viveu a morte de Lumumba de perto. Fonte: The Culture Trip

Com apenas 12 semanas no poder, Lumumba foi assassinado.

O filme começa com dois homens brancos a carregar cadáveres, a beberem algum licor barato pelo gargalo e posteriormente a equartejarem os corpos sem vida.

Já mais para o fim, vemos esses corpos a arderem. Os restos mortais de Patrice Lumumba até hoje não foram encontrados.

Patrice Lumumba foi um dos fundadores do Movimento Nacional Congolês, o primeiro partido político nativo do Congo em 1958. E desde esse primeiro momento, aliou-se a vários líderes Pan-Africanistas, o que moldou muito a sua visão e ideais nacionalistas.

Por essa altura, outros partidos com ideais variados surgiram no Congo, no entanto nenhum líder era tão carismático, perspicaz e radical como Lumumba.

Na defesa da independência do Congo, ele foi preso e torturado, libertado apenas para participar da conferência em Bruxelas onde se preparou a transição política do Congo. E assim foi, as eleições foram em Maio de 1960, em que o partido de Lumumba saiu como grande vencedor, no entanto não conseguiu formar uma coalizão no Parlamento.

O seu rival, Joseph Kasavubu, ficou então como Presidente e convidou-lhe a ficar como Primeiro-Ministro.

Os dois são completamente diferentes: enquanto Kasavubu é calmo, e tenta manter a relação com a Bélgica pacífica e cordial, Lumumba é impulsivo, orgulhoso e revolucionário.

Uma das cenas em que estas diferenças melhor se manifestam é durante a tomada de posse, em que a Bélgica entrega o poder aos Congoleses, com um discurso condescendente e paternalista, mesmo depois de todas as atrocidades cometidas.

Kasavubu, como Presidente, agradece a bondade e liderança da Bélgica durante os anos de ocupação, e promete não decepcionar enquanto Lumumba, logo a seguir, movido pela raiva e dor do povo congolês, relembra a Bélgica de todo o sangue derramado pela independência e reafirma-se como um líder

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O filme capta alguns raros momentos de glória de Lumumba. Fonte: NY Times

Com um território de cerca de 2 345 000 km2 e mais de 80 milhões pessoas, o Congo é um país com diversos grupos étnicos distintos. Esta diversidade sempre foi usada pela Bélgica para separar o povo congolês.

De tal forma que, após independência os principais rivais de Patrice Lumumba e os respectivos partidos criaram várias manifestações e distúrbios para defenderem a libertação de vários territórios tidos como de uma única etnia.

Após a independência o Congo entra em crise.

Moise Tshombe, da etnia Lunda, liderou um movimento separatista com o apoio da Bélgica, chegando a declarar a independência da província de Katanga a 11 de Julho de 1960. Esta província é rica em cobre, urânio e diamantes, entre outros recursos.

Peck mostra-nos como esta crise afecta Lumumba. Ele fica cada vez mais ansioso, dorme pouco, mexe-se muito. Sem apoio dos E.U.A. nem das Nações Unidas, ele recorre à União Soviética para controlar a crise, sem o consentimento do Presidente Kasavubu nem de Joseph Mobutu, Secretário de Estado.

Lumumba fica isolado.

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Lumumba foi capturado e assassinado com o apoio da Bélgica, Reino Unido e EUA. Fonte: BBC

Raoul Peck consegue contar todos estes factos históricos de uma forma envolvente e emotiva.

 

Fica claro que não foi apenas a promiscuidade entre o poder militar e a Bélgica e outras potências ocidentais mas também a própria indisciplina do Exército e o contexto da Guerra Fria, combinados com o temperamento de Patrice Lumumba e sua ingenuidade que culminaram no seu afastamento.

O filme não é apenas sobre o caos e sobre a guerra, é também sobre as forças maiores que qualquer homem e qualquer ideal que ele possa defender: é sobre um pai que não consegue estar lá quando o seu filho ainda bebé morre, sobre um esposo que não está presente quando a mulher precisa.

Patrice Lumumba teve a coragem de se posicionar contra a condescendência ocidental. Ele ousou defender a causa Africana, mesmo sobre o risco de morrer – e morreu. A sua vida foi o seu maior sacrifício.

Morreu herói sim, mas a sua ausência causou prejuízos inestimáveis ao Congo que se fazem sentir até hoje.

 

 

Por que precisamos de falar de Leopoldo II?

Por que precisamos de falar de Leopoldo II?

Leopold_ii_garter_knightFoi a 19 de Setembro de 1903 que o rei Leopoldo II da Bélgica negou as acusações de brutalidade no Estado Livre do Congo e avisou os restantes países europeus para não interferirem no seu projecto.

Aquando da Conferência de Berlim, em 1884/85, o rei fez questão de segurar “o coração de África”. Este era um projecto pessoal e não da coroa belga, como se de um animal de estimação se tratasse.

Com 2 344 milhões de km2, a área do Estado Livre do Congo era 76 vezes maior que a Bélgica. Na altura os estimados 30 milhões de habitantes da região passaram a responder ao rei Leopoldo II, sem nunca sequer ter ouvido falar dele, como aconteceu com grandes nações africanas.

Sem uma constituição nem supervisão internacional, o rei conseguiu domínio sobre o território. Conseguiu fazê-lo por um lado através de jogos de poder, aproveitando os egos frágeis dos outros monarcas europeus. E por outro, usando o discurso paternalista e missionário, afirmando que o Congo era na verdade um Protectorado seu, que vivia sobre a ameaça de invasão árabe.

Na verdade o Congo era domínio seu, pessoal, rico em matéria prima valiosa como borracha e marfim, entre outros recursos naturais, que lhe permitiram acumular bastante riqueza e alimentar os seus vícios fartos.

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Por mais de 20 anos o rei Leopoldo causou danos anos no Congo que ecoam até hoje. Fonte: The Espresso Stalinist

Para cada região quem não cumprisse com as exigências do rei era penalizado severamente. As mãos e em algumas circunstâncias os pés dos filhos e mulheres dos homens que não conseguiam atingir as ambiciosas metas de extracção de borracha era cortados.

Este era o castigo mais comuns no Estado Livre do Congo, de tal forma que, as mãos passaram a ser usados como verdadeira moeda. Nas vilas em que a meta não era alcançada, os seus habitantes sacrificavam as mãos das famílias que menos contribuíam.

Guerras e assaltos a vilas vizinhas passaram a ser comuns, fosse para roubar a matéria prima, ou cortar os membros dos seus habitantes para pagar o prejuízo.

Sobre o domínio do rei Leopoldo II, estima-se que o Congo tenha tido a sua população reduzida à metade. Isto deveu-se sobretudo devido a guerras múltiplas; fome; redução da taxa de natalidade e epidemias.

A administração imperialista do rei belga criou mudanças drásticas na forma de viver do povo nativo, trazendo novas doenças; forçando movimentos migratórios; alterando a demografia das vilas e claro, deixando rastos de trauma.

Isto para não mencionar, claro, as situações precárias e brutais a que eram subjugadas as populações. Estas eram obrigadas a vender, a um preço fixo, aquilo que conseguiam e trabalhavam nas minas em tempo integral, como escravos, não recebendo nada por isso.

Adicionalmente eram também obrigados a fornecer comida aos seus colonos e eram proibidos de vender qualquer produto.

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O terror e violência eram usados para dominar os habitantes do Congo. Fonte: NY Times

John Harris de Baringa, um missionário em visita ao Congo ficou tão chocado pelo que viu que escreveu uma carta ao Comissário Residente:

“I have just returned from a journey inland to the village of Insongo Mboyo. The abject misery and utter abandon is positively indescribable. I was so moved, Your Excellency, by the people’s stories that I took the liberty of promising them that in future you will only kill them for crimes they commit./ Acabo de regressar de uma viagem pelo interior do país para a vila Insongo Mboyo. A miséria e o abandono total são indiscritíveis. Fiquei tão comovido pelas histórias do povo, Sua Excelência, que tomei a liberdade de promoter-lhes que no futuro haverá mortes somente por crimes que eles cometerem.”

No início do séc. XX, face à pressão externa, o rei Leopoldo II vendeu o Estado Livre do Congo à Bélgica e queimou grande parte do acervo histórico referente ao seu Protectorado.

Nem mesmo no Museu de África, construído pelo rei na Bélgica tem vestígios dos massacres e atrocidades cometidos no Estado Livre do Congo. Ainda prevalece o discurso condescendente dos tempos de glória do colonialismo europeu.

E a República Democrática do Congo, berço de Patrice Lumumba, continua assombrada pelos fantasmas daqueles que sofreram nas mãos do rei belga e tal como outros genocídios em África, este permanece ausente dos livros de História.

 

Yaa Gyasi pelo Povo Negro

Yaa Gyasi pelo Povo Negro

O livro “Homegoing” de Yaa Gyasi é um manifesto gritante pela vivência, coragem e preserverança do povo negro.

Não sei exactamente se podemos falar de um “povo negro”, mas o livro de Yaa Gyasi faz um argumento bem interessante sobre essa experiência de trauma, conflito e esperança partilhada que as pessoas negras de todo o mundo têm entre si.

Há livros que terminamos de ler e olhamos para o tecto, com o coração cheio e a certeza que levará muito tempo até lermos um livro tão bom novamente. Homegoing é tudo isso e muito mais!

O livro atravessa séculos e continentes seguindo sete gerações da mesma família.

Tudo começa com duas irmãs, separadas por um grande incêndio e criadas por comunidades distintas – uma pelos Fante e outra pelos Asante – que desconhecem a existência uma da outra e seguem as suas vidas separadas.

Effia casa-se com um oficial britânico, que vive do comércio de africanos escravizados no Castelo da Costa do Cabo e, Esi que é capturada e levada para a masmorra desse mesmo castelo e eventualmente traficada para os Estados Unidos da América, onde é escravizada.

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O livro segue os sonhos e pesadelos das suas irmãs. Fonte: The New York Times

A narrativa segue por ordem cronológica os encontros e desencontros das ramificações dessa família. O fogo, uma presença constante ao longo da história, representa todos os traumas, sacrifícios, dores e alegrias que atravessam os descendentes das duas irmãs.

Em cada capítulo conhecemos um novo rosto, numa nova época, e com isso as mudanças sociais, económicas e culturais tanto no Gana como nos Estados Unidos da América: a escravatura; o colonialismo; o racismo; etc.

“The family is like the forest: if you are outside it is dense; if you are inside you see that each tree has its own position./ A família é como uma floresta: se você está do lado de fore é densa; se você está do lado de dentro, você vê cada árvore na sua própria posição”

A história força-nos a olhar para nós mesmos e para o nosso papel na teia de relações em que estamos inseridos, tanto no tempo como no espaço.

Que segredos e traumas carregamos no nosso DNA? O que teria sido de mim se fosse eu nesse lugar?

Pelo olhar dos personagens, fica evidente como o legado da escravatura e do colonialismo, ditam o decorrer da vida, tanto do lado dos que foram para as Américas, como para aqueles que ficaram em África.

Primeiro as guerras tribais no Gana pré-colonial, no séc. XVIII, os horrores da ocupação britânica e do comércio de africanos escravizados; a promiscuidade entre os líderes ganenses e os britânicos no tráfico de humanos para alimentar a escravatura até à libertação do Gana.

Depois, o sofrimento e dor desses africanos traficados nos Estados Unidos da América, longe daquilo que és é familiar e despidos de toda a dignidade. A fuga, o medo e as perseguições nos anos pré e pós Guerra Civil Americana. O racismo e todos os riscos aliados à vida nos subúrbios das grandes cidades.

Tudo isto tendo o povo negro no centro de todos estes acontecimentos.

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No Castelo da Costa do Cabo de onde partiam os africanos, no Ghana, ainda ecoam as suas vozes. Fonte: The Guardian

Não há dúvidas que a obra envolveu um trabalho árduo de investigação, mas mais do que isso, que obrigou a autora, de origem ganesa, a confrontar-se com os seus próprios fogos, a sua própria origem.

Yaa Gyasi consegue guiar-nos nessa viagem de forma confortável, com as descrições fiéis ao mínimo detalhe, levando-nos à África Ocidental do séc. XVII, ao Sul dos E.U.A. no séc XIV e ao bairro de Harlem no séc. XX, terminando novamente no Gana, mas desta vez no séc. XXI.

“Every moment has a precedent and comes from this other moment, that comes from this other moment, that comes from this other moment./ Cada momento tem um precedente que vem de um outro momento, que vem de um outro momento, que vem de um outro momento.” – Yaa Gyasi

É de aplaudir a ambição de Yaa Gyasi, em re-imaginar os processos históricos e as escolhas de cada indivíduo, de cada árvore, que por sua vez, desencadeia outras reacções e como essas escolhas influenciam toda a comunidade, toda a floresta.

Ela junta-se a Chimamanda Adichie e a outras autoras africanas contemporâneas que fazem uso da História, da tradição oral africana e das vivências reais de pessoas negras para dar protagonismo a estas figuras.

A riqueza, cor e textura das suas palavras tornam esta saga familiar numa experiência universal, de busca por auto-conhecimento, por respostas e sobretudo, por origens. Só podemos evoluir, como indivíduos e como comunidade, se soubermos de onde viemos.

Existe casamento feminista?

Existe casamento feminista?

Se o casamento é uma união que reforça os papéis de género, é possível ter um casamento feminista?

O sexismo é algo que aprendemos através da nossa socialização que se manifesta em virtualmente todas as esferas das nossas vidas: em casa; no trabalho; na rua; etc.

Em todos os espaços, em todos os aspectos, muito das nossas escolhas são feitas tendo como base ideias sexistas enraizadas em nós. Eu sou mulher, logo tenho de me comportar de uma certa forma. Eu sou mulher, logo não devo dizer tal coisa. Eu sou mulher, logo preciso de ter determinada característica. Enfim, a forma como eu sinto, vivo e expresso o meu género é adquirida, é uma manifestação do meio onde vivi.

Uma das questões que me ocorre quando penso em mim, como mulher e como feminista, é a vivência do casamento. Na medida em que o feminismo surge da necessidade de abolir por completo a diferença em os géneros, e em que o casamento é uma instituição baseada numa série de costumes e tradições machistas, pode haver um casamento feminista? Se sim, como seria? O que seria de diferente? Ainda poderíamos chamar essa união de ‘casamento’?

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A esposa deve cuidar do seu marido como se fosse filho? Fonte: Flávia Azevedo

Mas talvez antes disso, a pergunta seja: num mundo em que ambos os géneros tenham tratamentos iguais, haverá casamento?

O casamento é o cruzar do Capitalismo e do Sexismo.

O casamento serve para garantir a sobrevivência de ambas as partes e suas famílias. A prova disso são as facilidades em conseguir contractos de arrendamento; compra de imóveis e empréstimos quando somos casados.

Mesmo o casamento tradicional do Sul de Moçambique, o lobolo, prevê certos direitos no caso de separação do casal ou morte de uma das partes. Isto para garantir que nenhuma família saia ‘em prejuízo’.

Já o Sexismo manifesta-se sobretudo na desvalorização da mulher solteira, especialmente a partir de uma certa idade, visto que o valor da mulher assenta sobretudo na sua função reprodutiva e afectiva.

Para além de haver uma pressão generalizada para a mulher em idade fértil casar, há também uma grande responsabilização da mulher no que toca ao sucesso ou insucesso do casamento. O homem é visto como um acessório, e a mulher a peça central na manutenção da casa, educação dos filhos, gestão de conflitos, etc.

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Você ‘não’ tem que casar. Fonte: Blogueiras Feministas

O casamento é, por princípio, a união entre dois cidadãos – geralmente um homem e uma mulher-  para a formação de uma família.

O casamento produz a heteronormatividade. Reforça a heteronormatividade. Valida a heteronormatividade.

Descrevendo direitos e deveres distintos, o casamento prescreve os papéis que cada uma das partes deve exercer. Por um lado formalmente, uma vez que se estabelece por um contracto, e por outro, informalmente, através da nossa socialização que tem expectativas daquilo que uma esposa deve ser/ fazer e daquilo que deve ser/ fazer um esposo.

Mesmo em uniões homossexuais é comum vermos estes papéis sendo reproduzidos.

Por isso, o casamento é uma das ferramentas mais importantes e eficazes para a manutenção do Patriarcado. Afinal de contas, é no casamento que se definem os papéis de homem, mulher, pai, mãe, filho, filha, etc.

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Casamento machista tem salvação? Fonte: Escreva Lola Escreva

Claro que tudo isto é resultado de um processo histórico, mas ainda hoje assumimos que a mulher deixa de ser propriedade do seu pai, para passar a pertencer ao seu esposo. São resquícios de outros tempos que ainda se fazem sentir hoje.

Quando seremos propriedade de nós mesmas?

Eu não sei se eu, como mulher e feminista, poderei ser livre no casamento. Não sei se o casamento é um terreno fértil para as minhas ideias, o meu crescimento, para a mulher que me quero tornar. E mais, como seria o ‘esposo feminista’?

É difícil imaginar de facto um casamento em que um casal partilhe-se na sua essência, sem pensar no seu género, sem pensar nas expectativas criadas para que ‘aquilo’ – seja lá o que for – seja um casamento.