Mondlane ao fim de tarde

Mondlane ao fim de tarde

Viu de longe a sua figura plantada no meio do nada e foi ficando, ficando, criando raízes até hoje.

Aquela é a sua avenida: uma encruzilhada de pretos, brancos, mulatos, monhés, um encontro de todos e de ninguém.

De um lado, o fim e o princípio de uma coisa nova já envelhecida. Projectos, sonhos, ideias que nunca avançaram. Obras e infraestruturas que morreram no papel.

Lá ao fundo um novo horizonte se ergue, ao passo galopante de quem anda atrasado numa corrida já perdida ainda no ponto de partida. Como costumamos dizer “É trabalho de Marracuene!”.

Queria ser mais do que um espantalho no meio da praça.

O meu braço erguido às vezes dói.

Um dia ainda me mexo.

Atrás de si, um cobrador de chapa do aperta os seus passageiros para além da lotação do seu carro. Senhoras, meninas, crianças, homens e velhos de todos os tamanhos se diminuem para chegar rapidamente ao seu destino.

O motorista abre a porta do co-piloto para uma jovem menina entrar.

A menina aceita o convite e senta-se à frente, puxando uma colega para ficar ao seu lado no privilegiado lugar de acompanhante do condutor.

Ambas estão de uniforme escolar de uma escola secundária qualquer da cidade. Pelas suas camisas dá para notar os pequenos seios que já se acomodam no soutien e os lábios pintados com gloss brilhante aumentam os sorrisos malandros que escondem segredos adolescentes.

A música está a tocar bem alto e não dá para ouvir metade das coisas que o condutor está a dizer. Não faz mal. Elas sorriem em concordância.

Daqui de cima não consigo mudar nada.

Não há revoluções do topo.

Nem povo sem sonhos.

À frente, vendedores ambulantes deambulam pela melhor sombra, à procura dos mais distraídos na esperança de os convencerem a adquirir algum produto.

Uma mamana consegue a atenção de um rapaz que espera alguém de uma das lojas de roupas dos nigerianos.

Os cinco meticais do amendoim servem de entretenimento enquanto a sua namorada não sai do job. Hoje é sexta-feira, vão sentar num sitio para tomar um refresco, quem sabe até matar outras sedes.

Talvez eu é que sonhei demasiado alto.

Ninguém me tira fotos.

Essas pessoas sabem quem eu sou?

Ninguém olha a estátua de frente.

Enfrentar aquela figura é olhar para História, para o Passado, para a origem de nós mesmos.

Alguns atrevidos usam os degraus como abrigo, às vezes o Passado é o único sitio seguro para dormir.

O capim apaga o rasto dos seus passos. O lixo enfeita a campa dos mortos enterrados sem despedidas.

Os pombos, indiferentes, voam e cagam na direção que o sopro Presente permitir. E assim vivemos, como quem não sabe, nem quer saber.

Estátuas só servem para mijar

E os heróis não vão para os livros de História.

Amanhã vou-me embora.

 

Wangari Maathai na primeira pessoa

Wangari Maathai na primeira pessoa

Foi há 13 anos atrás que Wangari Maathai se tornou na primeira africana a ser premiada com o Prémio Nobel da Paz pelo seu trabalho como ambientalista.

Maathai lutou pela liberdade e paz no Quénia usando o Ambiente como ferramenta para tal.

A sua abordagem multidimensional interligava abordagens científicas, ambientais, e culturais, lembrando as comunidades rurais daquilo que eram as tradições para a conservação da terra.

Estas tradições, que ao pouco foram se perdendo, sobretudo pela influência do capitalismo e do colonialismo, estavam muito ligadas à preservação e respeito pela Terra.

Na sua autobiografia “Unbowed”, percebemos como a sua teimosa dedicação e o seu sentido forte de compromisso foram o seu Norte e o seu Sul para a tomada de decisões.

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Tendo passado grande parte da infância na parte rural do Quénia, Maathai cresceu rodeada de árvores, plantas e animais.

Qual foi o seu susto, quando anos mais tarde, percebeu que grande parte desses ecossistemas estavam destruídos e que pessoas antes auto-sustentáveis, não só dependiam de doações para se alimentar, como também não tinham condições para plantar os seus alimentos.

Muito do conhecimento foi-se perdendo com o passar do tempo e, muitas áreas aráveis tinham sido cedidas para grandes plantações, como por exemplo do chá.

Foi então que começou um movimento ingénuo e isolado, em 1977, o Green Belt Movement, no sentido de reflorestar essas zonas e resgatar todo o conhecimento que já existia.

Este movimento começou primeiramente por dinamizar grupos de mulheres rurais – responsáveis por cultivar as terras – no sentido de plantar algumas zonas perto das suas casas.

Rapidamente, com o seu tempo e os seus sacrifícios, transformou-se numa verdadeira revolução.

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Wangari Maathai fundou o “Green Belt Movement” em 1977. Fonte: The Green Belt Movement

Não bastava apenas plantar árvores isoladamente. Era preciso perceber a importância de cada espécie; a pertinência de serem plantadas em determinadas zonas; de regá-las e mantê-las vivas, ainda que seja para as gerações futuras.

“The trees (we) are cutting today were not planted by us, but by those who came before. So we must plant trees that will benefit communities in the future.”/ As plantas que estamos a cortar hoje não foram plantadas por nós, mas por aqueles que vieram antes. Portanto devemos plantar árvores que irão beneficiar comunidades no futuro. 

E para tal era preciso também abordar questões de género; de herança de terras; de cedência de terras a indústrias poderosas; de doenças; de saúde; etc.

Estes grupos começaram portanto a exercer a sua cidadania de forma mais activa, questionando decisões tomadas no topo; exigindo explicações e conhecendo os seus direitos.

Esta abordagem despertou a atenção de quem estava no poder e ela foi obrigada a fazer grandes sacrifícios em nome da sua visão. Perseguida, presa, torturada, nada a parou de seguir os seus objectivos.

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Maathai foi a primeira mulher africana com o grau de PhD e a primeira a ganhar o Nobel da PAz. Fonte: Nobel Prize

Ela soube ser uma figura pública: a estratégia; a logística; que é preciso saber para se defender e proteger de um regime opressor. O crescimento da sua imagem e da sua legitimidade, permitiram-lhe canalizar mais meios e poder para o movimento.

E mesmo antes disso, é impressionante e inspirador perceber como ela soube maximizar todas as oportunidades que lhe foram dadas: a oportunidade de começar a estudar, mais tarde, de ir para um internato de freiras, posteriormente o ensino superior nos EUA e por fim a sua posição aquando do regresso ao Quênia.

“Education, if it means anything, should not take people away from the land, but instill in them even more respect for it, because educated people are in a position to understand what is being lost.”/ Educação, se significa alguma coisa, não deveria afastar as pessoas da terra, mas incutir nelas ainda mais respeito, porque pessoas educadas estão numa posição de entender o que se está a perder. 

A sua mobilização das comunidades não se limitou somente à plantação de árvores, pois Maathai viu nisso uma oportunidade para criar sinergias entre temas como democracia; género; solidariedade.

Essa teia criada permitiu-lhe não só replicar o modelo, mas criar um impacto gigantesco (mais de 20 milhões de árvores plantadas) e deixar um legado imensurável.

Wangari Maathai fez-nos acreditar na possibilidade de um desenvolvimento sustentável antes de isso estar na moda.

 

O Último Pão

O Último Pão

A célebre foto de Ricardo Rangel, o ‘Último Pão’ e a utopia da cidade perfeita.

Olhando assim parece um grupo de amigos, irmãos, em passeio, não fosse pelo uniforme e armas dos dois homens na foto.

A moça parece calma, olha em frente e caminha certa dos seus passos, com a cabeça erguida e exibe um colar de pérolas enrolado vezes sem conta no seu pescoço.

Foi em 1975, Ricardo Rangel estava lá quando aconteceu.

Foram cerca de 3000 cidadãos, recolhidos em Maputo, Beira Nampula e Chimoio os primeiros neste primeiro dia de uma operação que viu o seu fim apenas nos finais dos anos 80.

Era dia 3 Novembro quando o Daily News [Dar es Salaam] anunciou a detenção, pelo regime de Samora Machel, de milhares de moçambicanos acusados de vagabundagem. O destino? Centros de reeducação.

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Foto: O Último Pão, Ricardo Rangel, 1975

É importante realçar que foram as mulheres, sobretudo, que sofreram com esta operação pois foi uma ferramenta para controlar a sua sexualidade. Parte desta história foi recontada por Licínio de Azevedo em ‘Virgem Margarida’.

Muitas prostitutas e mulheres solteiras mas com “filhos sem pai” (as chamadas “mães solteiras”) infelizmente morreram no caminho ou durante a sua estadia nesses centros, pelas pobres condições em que eram mantidas. Isto para não falar dos abusos físicos e emocionais a que eram submetidas, fosse pelos seus carcereiros ou transportadores.

As mulheres, especialmente das cidades, com as suas roupas, maquilhagem, saltos altos, e o seu sentido de independência forte entrava em choque com os ideais da época que acreditavam que a mulher rural, atarefada com os afazeres domésticos, fiel ao seu marido e aos seus filhos, era o protótipo.

Assim, quanto mais longe deste padrão, maior risco estas mulheres representavam ao regime pois poderiam “infestar” o país.

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É difícil falar nos Centros de reeducação porque as feridas ainda estão abertas. Fonte: DW

Tendo como ponto de partida o puritanismo católico herdado do regime colonial Português, Moçambique independente tentou também separar os “cidadãos de bem” dos restantes.

E, como um bom regime socialista faria, fê-lo através do trabalho.

Nos centros de reeducação, os reeducandos eram responsáveis por lavrar a terra; construir a sua própria casa; cozinhar e aprender algum ofício de modo a poderem reintegrar a sociedade.

Aliada à estratégia dos Centros de Reeducação, implementou-se também a Operação Produção em 1983, com o intuito de garantir a subsistência de todo o país e aumentar a população em zonas desabitadas. Até aí, tudo bem.

No entanto a própria Operação Produção também se usou de “improdutivos” para arrancar, forçando pessoas a saírem dos meios urbanos (especialmente Maputo) para zonas rurais em outras províncias (especialmente para Niassa e Cabo Delgado) a fim de lá habitarem e produzirem.

Os “improdutivos” eram todos aqueles que, durante as rusgas, eram encontrados sem documentos de identificação e/ou não conseguissem provar que estudavam ou trabalhavam, ou seja, que eram úteis para o Estado.

“Vinte pessoas numa família e quem trabalha é uma pessoa só. E são adultas! A quantidade é grande que come.(…) De todas estas zonas vinha dantes o tomate, a couve, o repolho, a cebola, a batata, o arroz, o milho, o feijão, a mandioca, a alface, a banana, tudo aquilo que esta cidade consumia. É isto que vamos produzir!” – Samora Machel

Contudo, é importante realçar que enquanto os reeducandos – os que sobreviviam – que mostravam que tinham mudado o seu estilo de vida podiam voltar para casa, aqueles levados pela Operação Produção não podiam regressar à terra natal.

De tal forma que, muitas famílias até hoje vivem separadas. Muitas pessoas são tidas como mortas. Outras já apagaram da sua memória por completo aquilo que deixaram para trás e reconstruíram a sua vida das cinzas que restaram.

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Estima-se que entre 50 a 100 mil pessoas tenham sido deportadas de Maputo para o meio rural durante a Operação Produção. Fonte: DW 

Hoje em dia há um certo saudosismo ao recordar a pessoa e Presidente que foi Samora Machel, ignorando os erros que cometeu em nome das suas utopias.

Uma dessas utopias é a da “purificação das cidades”, evidenciada através dessas duas estratégias que em muito feriram cidadãos moçambicanos.

Não nos esqueçamos do “último pão”. Nessa foto vemos dois agentes de um regime altamente repressivo a prender uma mulher, levando-a sabe-se lá para onde. O que acontecerá com ela fica na nossa responsabilidade; se ela vive ou se ela morre na nossa memória, na nossa História.

 

Ludo, esquecida e encontrada

Ludo, esquecida e encontrada

Em “Teoria Geral do Esquecimento” conhecemos Ludo, uma mulher esquecida em Luanda e encontrada após 30 anos.

Tudo começa em Luanda, nos anos 70, quando a guerra pela libertação de Angola cria um ambiente de instabilidade e insegurança generalizados, que levam muitas famílias da classe média/ alta a fugir rumo a Portugal.

Ludovica Fernandes Mano (Ludo), portuguesa que vive com a irmã e o cunhado na capital angolana é a protagonista, que sofre de fobia social e não sai de casa. Os três moram num prédio bem situado, na cidade de Luanda e observam calmos o movimento de angolanos e portugueses sem saber se vão ou se ficam.

Numa noite o casal sai para jantar e nunca mais regressa. É aqui onde começa a história de esquecimento de Ludo.

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Foto: ‘Os dias da independência, angola 1975’, de Joaquim Lobo

Através de recortes de diários e anotações da própria Ludo, José Eduardo Agualusa guia-nos pela consciência dela e pelos seus maiores medos e prazeres.

Tendo como escudo o muro que ergueu a separar o seu apartamento do resto do prédio, Ludo mantém-se isolada por quase 30 anos no seu apartamento tendo como única companhia o latir faminto de Fantasma, seu cão.

Ludo revela-se extremamente inteligente, proactiva e até mesmo destemida no conforto do seu limitado habitat. É uma mulher forte, que não se deixa sucumbir pelas incertezas e instabilidades ao seu redor, mas antes, consegue manter uma certa lucidez que, no meio de tanta loucura, pode parecer estranho.

‘Às vezes vejo um macaco passeando-se pelos ramos, lá no fundo, por entre sombra e os pássaros. Deve ter pertencido a alguém, talvez tenha fugido, ou então o dono abandonou-o. Simpatizo com ele. É, como eu, um corpo estranho à cidade.”

Ludo tenta manter a sua sanidade quando tudo parece desmoronar-se à sua volta: o desaparecimento da sua única família; a decadência da cidade; o abandono ao estilo de vida que até então levava; etc.

Ela vê-se numa encruzilhada entre guerra e paz; vida e morte. No meio deste cenário consegue manter um pouco de “normalidade” que lhe garante a sua sobrevivência.

E isso leva-nos à questão: o que é ‘normal’ em tempo de guerra? O que é ‘normal’ no colonialismo’? Nas revoluções?

Existirá forma de passar por estes processos históricos sem esquecer um pouco quem nós somos? Quem nós fomos?

teoria-geral-do-esquecimentoEste é um livro sobre pessoas esquecidas, pessoas que querem esquecer e/ou pessoas que querem ser esquecidas. E claro, sobre os processos de reconstrução ou destruição que devem ser feitos para que isso aconteça.

Rapidamente percebe-se que não há heróis nem vilões, não há Deus nem Diabo e todas as pessoas batalham diariamente para gerir e equilibrar tanto as forças do bem como as forças do mal que têm dentro de si.

Ludovica é uma excelente metáfora para a própria Angola que, por quase 30 anos isolou-se, combatendo guerras com a própria consciência, tendo erguido um muro que a separou do resto do mundo.

Contudo, o mundo lá fora continuou a girar e a mudar na sua original indiferença e um dia Angola – assim como Ludo – teve de enfrentá-lo.

Esses conflitos internos – tanto em Ludo, como em Angola – são-nos descritos com um ritmo que nem sempre é o mesmo, mas que nunca nos é difícil acompanhar.

O autor vai enquadrando todos os acontecimentos na História, trazendo-nos personagens diferentes, em situações por vezes tristes, por vezes contentes, sempre com bastante sarcasmo e ironia – tal como é também na vida real.

Este ritmo da própria história é de tal forma envolvente que o próprio leitor esquece-se do que estará a acontecer. O leitor perde-se no tempo: passado; presente e futuro misturam-se. Não importa.

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O livro garantiu ao autor o Prémio Literário Internacional de Dublin. Fonte: Agualusa

Ao recontar (ou seria reinventar?) a história de Ludo, Agualusa traz à superfície importantes reflexões sobre o racismo, o colonialismo e a xenofobia, e por outro lado, leva-nos também a repensar a depressão, a memória e acima de tudo a justiça.

O autor brinca connosco, como se fôssemos marionetas, puxando-nos para dentro e fora da realidade de Ludovica, não deixando, no entanto de dizer aquilo que quer de nós.

A história ficcionada de Ludo oferece-nos algo entre a vida real e a vida imaginada; a memória individual e a memória colectiva de Angola, começando na guerra pela independência até ao início do séc. XIX.

Nesta brincadeira de faz-de-contas, o autor, de forma cómica e verdadeira dá-nos a conhecer os caminhos difíceis, com muitas quedas e tropeços, da História recente de Angola.

 

Lições de Outono

Lições de Outono

Coisas que aprendemos ao observar as folhas cair.

Nas manhãs frias e nubladas de Berlim, em que as folhas caíam sobre o ritmo frenético do vento, acordar era um sacrifício. E que sacrifício!

Mas deliciava-me ficar, aquecida na minha cama, a olhar para a janela de onde era possível ver o abanar das folhas e das árvores consoante a vontade do vento.

Da janela dava para ver as folhas nas suas danças constantes. Umas, de tão embaladas pelo sopro, deixavam-se cair e beijavam lentamente o chão húmido. As mais resistentes agarravam-se à árvore com toda a esperança de ali permanecer, embora soubessem que a altura delas caírem também chegaria em breve.

Essa é a primeira lição: saber esperar. Mesmo vendo a folha vizinha a cair, as outras folhas não corriam para o precipício. Pelo contrário, algumas até pareciam ficar mais atentas para ver o destino daquela que se deixava levar de forma a fazerem a escolha mais consciente.

Já no chão, as folhas caídas formavam tapetes ora laranja, ora castanho, interrompidos por algumas poças de água, que em conjunto davam outra cara aos passeios. Mesmo deitadas, no chão, sem vida, as folhas continuavam a dar o melhor de si, acarinhando-se umas às outras e aos pés que as iam pisando.

Lição dois: Mesmo no chão, nunca perder a essência de quem somos. Aproveitar a queda para aprender sobre humildade e amar quem está connosco.

Depois, reparei também que algumas árvores já se viam nuas, mas as outras não se deixavam despir. Cada uma se revelava consoante a sua vontade, no entanto a força aplicada sobre elas pelo vento era igual. E os galhos mais teimosos, ainda exibiam folhas verdes, poucas, mas persistentes enquanto outros, já quase só tinham folhas amarelas, castanhas ou mesmo folha nenhuma.

Terceira lição: Devemos tirar as partes de nós consoante o que nos deixa mais confortáveis, independentemente daquilo que é a pressão externa.

Tanto podemos aprender com o Outono. O Outono é a primeira linha na testa; o primeiro fio de cabelo branco; o primeiro sinal da idade. Mas é também o início da renovação, é aquela etapa dolorosa, mas necessária para o crescimento.

Drummond de Andrade disse “Repare que o Outono é mais estação da Alma que da Natureza”.

Não há ser que resista ao ar reconfortante do Outono. Ele diz-nos:

 

“Não há problema nenhum em deixar parte de nós morrer”

“Não há problema em deixar parte de nós cair”

 

 

 

sara- FREEDOM!

sara- FREEDOM!

O filme Sarafina! de Darrell Roodt retrata uma geração de Freedom Fighters na África do Sul durante o apartheid.

De madrugada, um grupo de sombras atravessa sorrateiramente o percurso para a escola do bairro. Passando pela linha férrea, saltando muros, a escuridão como cúmplice, galopando até que chegam ao destino: uma escola.

Atiram uma “bomba” caseira, que incendeia uma sala de aulas inteira.

À partida, parece que estamos perante um grupo de jovens vândalos sem nenhuma causa senão o prazer de estragar propriedade pública.

Mas à medida que a história se revela, percebemos que na verdade os jovens vândalos estão a protestar contra um sistema de ensino que em nada os favorece. Estão a protestar contra o racismo institucional que lhes oprime diariamente. Estão a protestar contra a falta de condições para crescerem e se desenvolverem.

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SARAFINA! conta com as estrelas Whoopi Goldberg e Leleti Khumalo. 1992, (c)Buena Vista Pictures. Fonte: TimeOut

Sarafina, a nossa protagonista é uma jovem estudante que se vê no meio destes conflitos.

Como uma menina negra que vive sobre o regime do apartheid, encontra no exemplo de Nelson Mandela a sua inspiração. É nele que desabafa as suas angústias e anseios.

Mandela é uma presença constante, a liderança forte e fidedigna de que ela precisa para manter-se sã e seguir os sonhos.

Em forma de musical, o filme mostra por um lado a esperança e alegria de Sarafina, que sonha em ser famosa, e por outro, a violência e perversidade do regime do apartheid.

Mesmo sem ser explícito no que toca às leis e repressão em que viviam os negros sul-africanos, sente-se ao longo do filme como a opressão ecoava em todas as esferas das suas vidas.

Desde o quarto em que dorme, Sarafina e os seus irmãos, apertados na única cama e no chão até ao medo constante de uma palavra, um olhar ou mesmo um sonho fora do lugar.

Desde as ruas não alcatroadas; o fraco saneamento até ao sistema de ensino que limitava as opções dos jovens estudantes negros.

A covardice da classe opressora, representada pela patroa da mãe de Sarafina, que vive indiferente aos desafios enfrentados pela sua empregada doméstica, que sozinha e à distância, sustenta a sua família.

 

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Sarafina! é inspirado numa história verífica. Fonte: LA Times

Embora o filme não mostre quem eram os brancos no poder, o filme evidencia como todos os brancos sul africanos eram apáticos, não questionando nem desafiando o status quo, pelo contrário até o fortaleciam.

Os negros viram-se contra eles mesmos, roubando, matando, extorquindo.

As alianças quebram-se e as fraquezas de cada lado revelam-se. Não há vilões e nem heróis.

Sarafina e os seus amigos vêem-se perdidos, sem um rumo próspero. Despidos da sua humanidade, vêem-se também eles próprios, a despirem os outros do seu lado humano.

Perante isto, as linhas que separam a paz da guerra; o certo do errado e o impensável do possível tornam-se turvas.

O filme é um importante testemunho, feito por sul-africanos, daquilo que se viveu e aconteceu durante os finais anos sangrentos do apartheid, oferecendo um olhar real e intemporal da África do Sul, a nação arco-íris.

As nossas colonialices

As nossas colonialices

Foi há 40 anos que Moçambique se tornou um país independente, governado tendo em conta os seus próprios interesses e para o seu próprio povo.

No entanto, a herança colonial até hoje está bastante presente.

A auto-imagem que temos é na verdade um reflexo do que nos foi ensinado sobre nós mesmos durante os anos de ocupação europeia no território Africano.

 

É comum entre nós, especialmente para as pessoas mais velhas que viveram o período colonial, reforçarem alguns mitos sobre os africanos: os africanos são preguiçosos; os africanos não têm tanta capacidade intelectual como os europeus; os africanos servem apenas para trabalho braçal; etc.

Por outro lado, também existe um discurso de saudosismo ao tempo colonial, que glorifica os horrores e opressões por que passavam todos os dias as populações africanas durante esse período.

E acima de tudo, herdamos muito da forma de estar, de ser e fazer do colono.

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A luta pela descolonização continua. Fonte: Público

Embora exista a União Africana, os blocos regionais e aqueles definidos pela língua são os que têm mais peso. Ainda nos definimos como lusófonos (os que falam Português); francófonos (os que falam Francês) e Anglófonos (os que falam inglês), e deixamos de lado as nossas restantes línguas, que representam a maioria da população e provavelmente os elos mais fortes que nos ligam.

A recente crise nos Camarões centra-se sobretudo na fricção entre camaronenses “francófocos” e camaronenses “anglófonos”, o que evidencia até que ponto essas identidades forjadas até hoje se fazem sentir.

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A crise dos Camarões prende-se com identidade. Fonte: Crisis Group

A verdade é que as próprias fronteiras não existiam e por isso, juntaram-se nações, repartiram-se outras para formar os países que hoje conhecemos.

Os poderes coloniais impuseram desta forma as suas línguas, costumes e culturas nos povos africanos. Desse processo houve mudanças sociais políticas e económicas que alteraram para sempre o destino dessas nações.

Portanto os conflitos étnicos/ tribais surgem como resultado dessas disputas: espaço legitimidade; recursos; etc.

Um outro exemplo marcante do colonialismo europeu é a réplica do funcionamento das insituições do Estado, até nas suas vestes.

Nos países outrora ocupados pela Grã-Bretanha, por exemplo, as formas de tratamento nos tribunais, o funcionamento dos mesmos e até mesmo o vestuário dos Juízes parecem ter saído do séc. XIX.

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Membros do Poder Judiciário no Malawi, Nigéria e Ghana, entre outros países africanos ainda usam o traje tradicional britânico. Fonte: The Independent UK

Uma das marcas mais fortes do colonialismo europeu em Moçambique é a institucionalização das “boas maneiras” e da “decência” especialmente na Função Pública, que é claramente herança do puritanismo católico.

As instituições públicas, na altura em que Moçambique estava ocupado pelos Portugueses, eram reservadas apenas aos europeus ou a alguns negros – os assimilados, que tinham alguns privilégios uma vez que eram “civilizados”.

Até hoje nas repartições públicas não se pode ir de calções, chinelos, blusas de alças ou saias acima do joelho. Estas medidas também são reforçadas em Escolas e até mesmo Universidades.

foto hospitalRecentemente uma imagem tornou-se viral por se tratar do aviso de um hospital. O aviso restringia o vestuário permitido aos utentes, o que é um absurdo, tendo em conta que se trata de um hospital.

Isto é novamente a reprodução do discurso do colono. O cidadão comum, pobre, camponês, tem desta forma o acesso vedado a estes serviços pois não tem roupas para entrar na Esquadra ou no Hospital, nem tão pouco para tratar o seu Bilhete de Identidade. Aliás, nem o rei da Swazi, com as suas roupas tradicionais seria admitido no Hospital!

Este falso moralismo sente-se um pouco por todo o lado. Estas noções de decência e civilização ultrapassadas são usadas até hoje nas nossas sociedades.

 

Ainda hoje nos inspiramos na legislação, educação, etc das potências europeias para edificar os nossos países “independentes”.

E como resultado, continuamos a reproduzir mecanismos de exclusão e a atrasar o nosso desenvolvimento.