Era uma vez um final feliz

Queria ser uma princesa bonita, como nos filmes, mas na sua torre fazia muito frio.
Lá de cima ninguém a tocava e ela também não tocava ninguém.
Queria ser uma princesa bonita e perfeita, por isso deixava-se estar na sua torre à espera do prometido príncipe.
Os seus olhos passeavam pelos picos das árvores e pelas cores das flores, mas as suas mãos continuavam vazias.
O vento subia as escadas aos berros, invocando espíritos que ela desconhecia. À noite as portas batiam numa sinfonia dançante e ela ouvia vozes desafinadas em louvor.
Tinha muito medo.
Queria ser uma princesa bonita e perfeita e delicada e na sua torre ficava, de pé à janela. Durante o dia falava com os pássaros, à noite com os seus fantasmas, mas nunca com o prometido príncipe. Sempre à espera dele.
Da torre dava para ver toda a cidade, os vales verdes e todos os rios que regavam as flores e florestas.
Dentro da torre era calmo.
O silêncio tomava conta de todos os cantos do espaço, não fosse pelas canções dos fantasmas que a atormentavam.
As paredes eram brancas, ou sem cor. Sei lá. Que diferença fazia?
A torre era uma extensão de si mesma. Um local meio abandonado à espera do calor de um amor e das borboletas da barriga para enfeitar as janelas.
A torre: bonita, perfeita e delicada, mas sem luz própria, dependente do humor do Sol para clarear as suas manhãs.
Um dia decidiu sair da Torre para apreciar de perto o lindo jardim que se tinha formado em baixo da sua janela.
Buganvílias amarelas trepavam as altas paredes da torre e alguns tentáculos se aventuravam numa tentativa de caminhar sozinhos. Ao seu lado, um pequeno arbusto se erguia, meio desengonçado, mas sem desistir.
Os pássaros cantavam alegres, e as abelhas zumbiam livremente, distribuindo beijos pelas flores. Parecia que tudo e todos lhe davam as boas-vindas.
Primeiro sentou-se à porta e respirou o ar de baixo. Ali, tão perto da relva, dava para ver, entre as folhas verdes esticadas para cima, a cor escura da terra. Era quase preta e estava húmida, protegida pelas flores e raízes que nela se apoiavam.
Como é que a mesma terra que sustentava a monstruosa Torre, também servia de casa para aquelas delicadas plantas?
Lá de cima não dava para ver esses detalhes.
Ficou ali sentada, com a cabeça apoiada à entrada a observar apenas. A sombra da Torre ia fugindo de si, e os seus pés já doíam, pedindo movimento. O seu sangue ali parado queria sentir a terra de perto.
Então levantou-se.
Começou a andar e sentiu cócegas nos pés, da relva que lhe ia recebendo os passos alegremente. Só parou quando viu um tapete de jacarandás e ali se deitou.
Quando olhou para cima viu os ramos e neles pequenas folhas, que por sua vez formavam outra folha maior.
Ao seu lado, viu uma flor lilás grande e perfumada a olhar para si e ela também olhou para si própria, princesa e pensou na Torre e nos seus fantasmas. Lembrou-se do escuro e do silêncio da sua espera prolongada.
Decidiu não se levantar hoje. Estava feliz.
Ia ficar por ali durante a noite, talvez até para sempre.

Tio António Quando Trabalhava

Tio António Quando Trabalhava

Tio Antônio quando travalhaba
Nas obras numa plantação
Que pertenciam a um colono
Tio Antônio era contratado

Sob um sol ardente do Mocaba
Ele apanhou um pau nas costas
Um capataz pretendia
Que ele era demasiado lento

Tio Antônio era contratado/ Antônio kumbe kumbala

Antônio wayenda ku Zombo
Ngwa nkazi wayenda mu n’tonga
Elumbu kesinga vutuka/ Festa na aldeia

Esta música angolana, narra a triste história do Tio António, um camponês que durante o tempo colonial trabalha arduamente todos os dias e é abusado pelo capataz pois supostamente é muito preguiçoso.

[A sua família fica para trás, aguardando ansiosamente o seu regresso para fazer uma grande festa na aldeia.]

Tio Antônio quando trabalhava
Nas obras numa plantação
Que pertencia a um colono
Tio Antônio era contratado

Por ter recusado
Foi deportado
Deportado longe de sua terra
Tio Antônio
Tinha deixado
A família em sua terra

Actualmente têm circulado imagens de viajantes africanos a serem vendidos publicamente algures na Líbia. A comoção é geral, e é de se louvar. Os gritos destas pessoas – sim, PESSOAS – que foram raptadas, exploradas, manipuladas ao ponto de serem vendidas como objectos, foram ouvidos.

Então, ouçamos esses gritos. O que nos dizem? De onde vêm? Como é que esses gritos surgiram e se multiplicaram até chegarem aos nossos ouvidos?

Para quem acredita em tudo o que lê nos livros de História, os gritos surgiram subitamente, pois a escravatura terminou há séculos atrás. Para quem achava que o tráfico de seres humanos era um problema pequeno, os gritos mostraram que é um problema gigante. Para quem defendia que hoje em dia, no séc. XXI, todos os seres humanos são tratados com a mesma dignidade, os gritos colocaram em evidência a realidade falsa.

Os gritos e lágrimas que nos chegam hoje, vêm de pessoas e lugares que nunca deixaram de existir: mercados de pessoas; traficantes de pessoas; exploradores… Onde miséria, pobreza e ilegalidade caminham de mãos dadas, e as linhas da criminalidade se confundem.

Não é só na Líbia.

Tio Antônio foi empregado
Em Madeira, São Tomé, Cabo Verde
No dia do seu regresso
No dia do seu regresso, Festa na aldeia!

[Mais tarde, Tio António revolta-se e é deportado e assim viaja pelas plantações da Madeira, São Tomé e Cabo Verde.]

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Centenas de migrantes africanos estão a ser vendidos na Líbia. Fonte: Al Jazeera

 

Esses gritos existem também nas nossas casas.

A necessidade da escravatura está tão presente hoje como estava no séc. XVIII, quando começou o movimento abolicionista, pois vivemos numa sociedade capitalista em que queremos adquirir o numero máximo de produtos e serviços pelo preço mais baixo e produzir tudo isso com mais lucro possível.

Tem de haver uma mudança no nosso consumo para que possamos de facto abolir a escravatura. Estaremos prontos para isso?

Queremos prazer ao máximo, consumo ao máximo, o melhor estilo de vida, o melhor conforto e tudo isso da forma mais barata possível. É por isso que durante as campanhas “Black Friday” invadimos lojas de marca como a Zara e Bershka como vândalos.

Em 2013, no Bangladesh mais de 100 pessoas morreram quando duas fábricas ficaram arruinadas. Nessas fábricas os “trabalhadores” faziam roupas para essas mesmas marcas em condições deploráveis.

No Brasil, essas mesmas marcas subcontractam empresas que contratam funcionários menores de idade que trabalham em turnos de 16h diárias.

Sim, porque para que essas marcas possam fazer as roupas que nós tanto gostamos – e descartamos sazonalmente – é necessário que haja pessoas a trabalhar como escravas.

A ganância e egoísmo que nos rege hoje é um dos mais importantes factores que impulsiona o trabalho escravo e o tráfico de humanos.

O nosso erro é nos calarmos face a estes abusos. O nosso erro é não procurarmos saber de onde vêm os produtos e serviços que consumimos (ou aspiramos consumir) . O nosso erro é não querermos saber qual o prejuízo humano para cada item que temos na nossa casa.

Se realmente queremos acabar com o trabalho escravo, temos de começar por reconhecer a nossa cumplicidade.

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Como nós nos tornamos parte do problema da escravidão moderna. Fonte: Insight & Opinion

Nas nossas próprias casas, nos nossos locais de trabalho, nos nossos bairros, quantas pessoas vivem em situação de escravidão? Quão permitidos somos com essas situações?

Comecemos pelas nossas empregadas domésticas, que dignidade lhes conferimos? As crianças a quem compramos amendoins na rua, que direitos têm garantidos? Os guardas/ seguranças, em que condições trabalham?

Comecemos por aí.

Não é uma questão de culpa ou vergonha, mas sim de responsabilidade. Temos de assumir o poder que está nas nossas mãos para mudar alguma coisa.

Em vez de culparmos os governos e grandes corporações; em vez de exigirmos melhor legislação, melhor controle de fronteiras, trabalhemos este espaço que ocupamos agora.

A nossa indiferença faz-me pensar no Tio António, cuja história deu uma boa música para as nossas festas.

Embora a música seja animada, narra vivências reais de muita dor e sofrimento. Não podemos deixar que isso continue a acontecer no séc. XXI.

Não podemos dançar ao som dos gritos dos escravizados.

Antônio wayenda ku Zombo
Ngwa nkazi wayenda mu n’tonga
Elumbu kesinga vutuka/ Festa na aldea

Bu ukuenda ku Zombo tata Antônio/ Antônio kumbe kumbalala
Buku toma siminina/ Antônio…
Kuikila mfumu Yisu/ Antônio…
Elumbu kesinga vutuka/ Festa na aldea

OS AA (Abandonados Anónimos)

OS AA (Abandonados Anónimos)

Clotilde era uma moça no auge dos seus 22 anos, carente e bonita, jovem de coxas grossas e vistosas que não mediam esforços para se fazerem vistas.

Tinha as pernas fortes e zangadas, que não se deixavam passar despercebidas, chamando a atenção de quem quer que fosse. E ela sabia.

Cló, como se apresentava, tinha ouvido falar do grupo. Deram-lhe uma morada, num local secreto, lá para as zonas do Palácio dos Casamentos, numa dependência discreta que não lembrava nada a ninguém.

A entrada para a dependência era antiga. O portão preto, evidenciava as marcas do tempo pela tinta descascada que deixava exposto o metal enferrujado de cor avermelhado. Um longo corredor seguia-se, por onde um dia entraram os carros, pois tina dois corredores de cimento de cada lado para cada roda caminhar sozinha, ainda que acompanhada.

Ela seguiu pelo corredor da roda esquerda, onde algumas plantas sobreviviam, mesmo com a evidente falta de água.

No fundo do corredor havia uma garagem também com ar abandonado. As paredes brancas, ja escurecidas pela chuva e pela poeira, tinham tons de castanho, preto e creme. A porta era de madeira, e ja inchava tamanho era o segredo que guardava.

Entrou, sentou-se e pôs-se a ouvir aquelas vozes.

Uns falavam calmamente, outros choravam enquanto havia quem travasse as lágrimas.

Vozes graves e agudas ali dentro mudavam. Homens e mulheres adultos voltavam a ser crianças, soluçando dores antigas.

Era a sua vez de falar, tinha medo, pois nunca tinha estado numa reunião destas. Não sabia exatamente como a coisa funcionava… Ganhou coragem e lá falou:

– O meu nome é Cló, Clotilde, e tenho 22 anos. Fui abandonada ainda na barriga da minha mãe pelo meu pai verdadeiro. Sou escura, mas tenho pai branco, aquele que me criou. Mas esse também me abandonou… Fugiu deste mundo há 5 anos. O meu primeiro namorado também me abandonou, foi estudar na Índia e aqui fiquei eu. Obrigada por me ouvirem.

No fim todos, em uníssono responderam:

– Bem-vinda Clotilde.

Era a primeira vez que ela falava dos seus abandonos.

Na verdade, é normal em Maputo conhecer pessoas com Síndrome de Abandono, pois afinal de contas, todos deste país foram abandonados.

Durante as várias guerras, com os outros e connosco, fomos abandonados: primeiro pelo colono, que era um pai abusivo mas pelo menos lhe conhecíamos a cara; ao mesmo tempo nos abandonaram os nossos pais, que foram à guerra, de onde nunca mais voltaram, embora alguns caminhem por aqui entre nós normalmente com jeito de quem não viu a morte de perto, mas ainda com o seu cheiro na pele; mais tarde, também as nossas mães nos abandonaram, arrastadas pelas incertezas da vida urbana… Mais recentemente abandonaram-nos os ideais e é precisamente por isso que andamos sem rumo nesta cidade.

Você conhece abandono quando ver?

Cló olhou à sua volta e não se chocou em ver aquelas caras ali; aqueles corpos moribundos; os pés descalços e as roupas sem cor. Não lhe chocaram as origens, nem tão pouco as tragédias daquelas pessoas.

Chocou-lhe perceber o quanto os abandonados também tinham abandonado.

Deu por si a reflectir sobre as coisas que tinha deixado para trás: os estudos; a Anabela, sua melhor amiga de infância; o Rogério, seu primeiro amor; os conselhos da sua mãe; a casa onde cresceu; a campa do seu pai; enfim…

Quem dos que vive em Maputo é de Maputo? Maputo é o ponto de encontro de todos os que ousaram pegar nas suas trouxas e fugir. Do quê e para quê poucos sabem! Abandonámos as nossas terras-natal, as nossas avós, as nossas línguas maternas, os nossos nomes, os nossos defuntos… e para aqui viemos! 

Onde rezam as pessoas que abandonam as suas árvores sagradas?

No fim do evento, Cló ficou a ajudar a tia Fátima a arrumar as cadeiras.

Foi pegando naqueles pedaços de plástico verde e encavalitou-os. Juntou as cadeiras em conjuntos de sete a dez e depois encostou-os a um canto.

Reparou que por baixo das cadeiras havia muito pó e as suas mãos rapidamente mudaram de cor. As paredes daquele compartimento também pareciam empoeiradas, com teias de aranha nos cantos, daquelas grossas, acumuladas durante anos.

Numa prateleira via-se vários electrodomésticos aparentemente avariados ou ultrapassados: um velho aparelho de rádio; uma torradeira; um walkman; e mesmo ao lado um conjunto de cabos e fios entrelaçados, impossíveis de distinguir.

Lá atrás, meio escondida, uma peneira com conchas e búzios que dizia “Recordação da Praia do Wimbi” e ao seu lado uma figura de Nossa Senhora de Fátima, meio fluorescente, parecia ser daquelas que brilham no escuro.

-Vamos? – Perguntou a tia Fátima, parada ao lado da porta já com a chave na mão.

Todos nós temos um canto, ou melhor dois cantos: um dentro e um fora de nós onde guardamos todos os nossos abandonos.

Em nós, o pó se acumula em pessoas, lugares, despedidas e desencontros que ainda esperamos resolver.

As nossas garagens acumulam velharias na esperança de serem um dia restauradas, utensílios sem uso e sem apreço, cartas queridas e guardadas, somos verdadeiros museus de coisas abandonadas.

 

 

Mondlane ao fim de tarde

Mondlane ao fim de tarde

Viu de longe a sua figura plantada no meio do nada e foi ficando, ficando, criando raízes até hoje.

Aquela é a sua avenida: uma encruzilhada de pretos, brancos, mulatos, monhés, um encontro de todos e de ninguém.

De um lado, o fim e o princípio de uma coisa nova já envelhecida. Projectos, sonhos, ideias que nunca avançaram. Obras e infraestruturas que morreram no papel.

Lá ao fundo um novo horizonte se ergue, ao passo galopante de quem anda atrasado numa corrida já perdida ainda no ponto de partida. Como costumamos dizer “É trabalho de Marracuene!”.

Queria ser mais do que um espantalho no meio da praça.

O meu braço erguido às vezes dói.

Um dia ainda me mexo.

Atrás de si, um cobrador de chapa do aperta os seus passageiros para além da lotação do seu carro. Senhoras, meninas, crianças, homens e velhos de todos os tamanhos se diminuem para chegar rapidamente ao seu destino.

O motorista abre a porta do co-piloto para uma jovem menina entrar.

A menina aceita o convite e senta-se à frente, puxando uma colega para ficar ao seu lado no privilegiado lugar de acompanhante do condutor.

Ambas estão de uniforme escolar de uma escola secundária qualquer da cidade. Pelas suas camisas dá para notar os pequenos seios que já se acomodam no soutien e os lábios pintados com gloss brilhante aumentam os sorrisos malandros que escondem segredos adolescentes.

A música está a tocar bem alto e não dá para ouvir metade das coisas que o condutor está a dizer. Não faz mal. Elas sorriem em concordância.

Daqui de cima não consigo mudar nada.

Não há revoluções do topo.

Nem povo sem sonhos.

À frente, vendedores ambulantes deambulam pela melhor sombra, à procura dos mais distraídos na esperança de os convencerem a adquirir algum produto.

Uma mamana consegue a atenção de um rapaz que espera alguém de uma das lojas de roupas dos nigerianos.

Os cinco meticais do amendoim servem de entretenimento enquanto a sua namorada não sai do job. Hoje é sexta-feira, vão sentar num sitio para tomar um refresco, quem sabe até matar outras sedes.

Talvez eu é que sonhei demasiado alto.

Ninguém me tira fotos.

Essas pessoas sabem quem eu sou?

Ninguém olha a estátua de frente.

Enfrentar aquela figura é olhar para História, para o Passado, para a origem de nós mesmos.

Alguns atrevidos usam os degraus como abrigo, às vezes o Passado é o único sitio seguro para dormir.

O capim apaga o rasto dos seus passos. O lixo enfeita a campa dos mortos enterrados sem despedidas.

Os pombos, indiferentes, voam e cagam na direção que o sopro Presente permitir. E assim vivemos, como quem não sabe, nem quer saber.

Estátuas só servem para mijar

E os heróis não vão para os livros de História.

Amanhã vou-me embora.

 

Wangari Maathai na primeira pessoa

Wangari Maathai na primeira pessoa

Foi há 13 anos atrás que Wangari Maathai se tornou na primeira africana a ser premiada com o Prémio Nobel da Paz pelo seu trabalho como ambientalista.

Maathai lutou pela liberdade e paz no Quénia usando o Ambiente como ferramenta para tal.

A sua abordagem multidimensional interligava abordagens científicas, ambientais, e culturais, lembrando as comunidades rurais daquilo que eram as tradições para a conservação da terra.

Estas tradições, que ao pouco foram se perdendo, sobretudo pela influência do capitalismo e do colonialismo, estavam muito ligadas à preservação e respeito pela Terra.

Na sua autobiografia “Unbowed”, percebemos como a sua teimosa dedicação e o seu sentido forte de compromisso foram o seu Norte e o seu Sul para a tomada de decisões.

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Tendo passado grande parte da infância na parte rural do Quénia, Maathai cresceu rodeada de árvores, plantas e animais.

Qual foi o seu susto, quando anos mais tarde, percebeu que grande parte desses ecossistemas estavam destruídos e que pessoas antes auto-sustentáveis, não só dependiam de doações para se alimentar, como também não tinham condições para plantar os seus alimentos.

Muito do conhecimento foi-se perdendo com o passar do tempo e, muitas áreas aráveis tinham sido cedidas para grandes plantações, como por exemplo do chá.

Foi então que começou um movimento ingénuo e isolado, em 1977, o Green Belt Movement, no sentido de reflorestar essas zonas e resgatar todo o conhecimento que já existia.

Este movimento começou primeiramente por dinamizar grupos de mulheres rurais – responsáveis por cultivar as terras – no sentido de plantar algumas zonas perto das suas casas.

Rapidamente, com o seu tempo e os seus sacrifícios, transformou-se numa verdadeira revolução.

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Wangari Maathai fundou o “Green Belt Movement” em 1977. Fonte: The Green Belt Movement

Não bastava apenas plantar árvores isoladamente. Era preciso perceber a importância de cada espécie; a pertinência de serem plantadas em determinadas zonas; de regá-las e mantê-las vivas, ainda que seja para as gerações futuras.

“The trees (we) are cutting today were not planted by us, but by those who came before. So we must plant trees that will benefit communities in the future.”/ As plantas que estamos a cortar hoje não foram plantadas por nós, mas por aqueles que vieram antes. Portanto devemos plantar árvores que irão beneficiar comunidades no futuro. 

E para tal era preciso também abordar questões de género; de herança de terras; de cedência de terras a indústrias poderosas; de doenças; de saúde; etc.

Estes grupos começaram portanto a exercer a sua cidadania de forma mais activa, questionando decisões tomadas no topo; exigindo explicações e conhecendo os seus direitos.

Esta abordagem despertou a atenção de quem estava no poder e ela foi obrigada a fazer grandes sacrifícios em nome da sua visão. Perseguida, presa, torturada, nada a parou de seguir os seus objectivos.

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Maathai foi a primeira mulher africana com o grau de PhD e a primeira a ganhar o Nobel da PAz. Fonte: Nobel Prize

Ela soube ser uma figura pública: a estratégia; a logística; que é preciso saber para se defender e proteger de um regime opressor. O crescimento da sua imagem e da sua legitimidade, permitiram-lhe canalizar mais meios e poder para o movimento.

E mesmo antes disso, é impressionante e inspirador perceber como ela soube maximizar todas as oportunidades que lhe foram dadas: a oportunidade de começar a estudar, mais tarde, de ir para um internato de freiras, posteriormente o ensino superior nos EUA e por fim a sua posição aquando do regresso ao Quênia.

“Education, if it means anything, should not take people away from the land, but instill in them even more respect for it, because educated people are in a position to understand what is being lost.”/ Educação, se significa alguma coisa, não deveria afastar as pessoas da terra, mas incutir nelas ainda mais respeito, porque pessoas educadas estão numa posição de entender o que se está a perder. 

A sua mobilização das comunidades não se limitou somente à plantação de árvores, pois Maathai viu nisso uma oportunidade para criar sinergias entre temas como democracia; género; solidariedade.

Essa teia criada permitiu-lhe não só replicar o modelo, mas criar um impacto gigantesco (mais de 20 milhões de árvores plantadas) e deixar um legado imensurável.

Wangari Maathai fez-nos acreditar na possibilidade de um desenvolvimento sustentável antes de isso estar na moda.

 

O Último Pão

O Último Pão

A célebre foto de Ricardo Rangel, o ‘Último Pão’ e a utopia da cidade perfeita.

Olhando assim parece um grupo de amigos, irmãos, em passeio, não fosse pelo uniforme e armas dos dois homens na foto.

A moça parece calma, olha em frente e caminha certa dos seus passos, com a cabeça erguida e exibe um colar de pérolas enrolado vezes sem conta no seu pescoço.

Foi em 1975, Ricardo Rangel estava lá quando aconteceu.

Foram cerca de 3000 cidadãos, recolhidos em Maputo, Beira Nampula e Chimoio os primeiros neste primeiro dia de uma operação que viu o seu fim apenas nos finais dos anos 80.

Era dia 3 Novembro quando o Daily News [Dar es Salaam] anunciou a detenção, pelo regime de Samora Machel, de milhares de moçambicanos acusados de vagabundagem. O destino? Centros de reeducação.

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Foto: O Último Pão, Ricardo Rangel, 1975

É importante realçar que foram as mulheres, sobretudo, que sofreram com esta operação pois foi uma ferramenta para controlar a sua sexualidade. Parte desta história foi recontada por Licínio de Azevedo em ‘Virgem Margarida’.

Muitas prostitutas e mulheres solteiras mas com “filhos sem pai” (as chamadas “mães solteiras”) infelizmente morreram no caminho ou durante a sua estadia nesses centros, pelas pobres condições em que eram mantidas. Isto para não falar dos abusos físicos e emocionais a que eram submetidas, fosse pelos seus carcereiros ou transportadores.

As mulheres, especialmente das cidades, com as suas roupas, maquilhagem, saltos altos, e o seu sentido de independência forte entrava em choque com os ideais da época que acreditavam que a mulher rural, atarefada com os afazeres domésticos, fiel ao seu marido e aos seus filhos, era o protótipo.

Assim, quanto mais longe deste padrão, maior risco estas mulheres representavam ao regime pois poderiam “infestar” o país.

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É difícil falar nos Centros de reeducação porque as feridas ainda estão abertas. Fonte: DW

Tendo como ponto de partida o puritanismo católico herdado do regime colonial Português, Moçambique independente tentou também separar os “cidadãos de bem” dos restantes.

E, como um bom regime socialista faria, fê-lo através do trabalho.

Nos centros de reeducação, os reeducandos eram responsáveis por lavrar a terra; construir a sua própria casa; cozinhar e aprender algum ofício de modo a poderem reintegrar a sociedade.

Aliada à estratégia dos Centros de Reeducação, implementou-se também a Operação Produção em 1983, com o intuito de garantir a subsistência de todo o país e aumentar a população em zonas desabitadas. Até aí, tudo bem.

No entanto a própria Operação Produção também se usou de “improdutivos” para arrancar, forçando pessoas a saírem dos meios urbanos (especialmente Maputo) para zonas rurais em outras províncias (especialmente para Niassa e Cabo Delgado) a fim de lá habitarem e produzirem.

Os “improdutivos” eram todos aqueles que, durante as rusgas, eram encontrados sem documentos de identificação e/ou não conseguissem provar que estudavam ou trabalhavam, ou seja, que eram úteis para o Estado.

“Vinte pessoas numa família e quem trabalha é uma pessoa só. E são adultas! A quantidade é grande que come.(…) De todas estas zonas vinha dantes o tomate, a couve, o repolho, a cebola, a batata, o arroz, o milho, o feijão, a mandioca, a alface, a banana, tudo aquilo que esta cidade consumia. É isto que vamos produzir!” – Samora Machel

Contudo, é importante realçar que enquanto os reeducandos – os que sobreviviam – que mostravam que tinham mudado o seu estilo de vida podiam voltar para casa, aqueles levados pela Operação Produção não podiam regressar à terra natal.

De tal forma que, muitas famílias até hoje vivem separadas. Muitas pessoas são tidas como mortas. Outras já apagaram da sua memória por completo aquilo que deixaram para trás e reconstruíram a sua vida das cinzas que restaram.

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Estima-se que entre 50 a 100 mil pessoas tenham sido deportadas de Maputo para o meio rural durante a Operação Produção. Fonte: DW 

Hoje em dia há um certo saudosismo ao recordar a pessoa e Presidente que foi Samora Machel, ignorando os erros que cometeu em nome das suas utopias.

Uma dessas utopias é a da “purificação das cidades”, evidenciada através dessas duas estratégias que em muito feriram cidadãos moçambicanos.

Não nos esqueçamos do “último pão”. Nessa foto vemos dois agentes de um regime altamente repressivo a prender uma mulher, levando-a sabe-se lá para onde. O que acontecerá com ela fica na nossa responsabilidade; se ela vive ou se ela morre na nossa memória, na nossa História.

 

Ludo, esquecida e encontrada

Ludo, esquecida e encontrada

Em “Teoria Geral do Esquecimento” conhecemos Ludo, uma mulher esquecida em Luanda e encontrada após 30 anos.

Tudo começa em Luanda, nos anos 70, quando a guerra pela libertação de Angola cria um ambiente de instabilidade e insegurança generalizados, que levam muitas famílias da classe média/ alta a fugir rumo a Portugal.

Ludovica Fernandes Mano (Ludo), portuguesa que vive com a irmã e o cunhado na capital angolana é a protagonista, que sofre de fobia social e não sai de casa. Os três moram num prédio bem situado, na cidade de Luanda e observam calmos o movimento de angolanos e portugueses sem saber se vão ou se ficam.

Numa noite o casal sai para jantar e nunca mais regressa. É aqui onde começa a história de esquecimento de Ludo.

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Foto: ‘Os dias da independência, angola 1975’, de Joaquim Lobo

Através de recortes de diários e anotações da própria Ludo, José Eduardo Agualusa guia-nos pela consciência dela e pelos seus maiores medos e prazeres.

Tendo como escudo o muro que ergueu a separar o seu apartamento do resto do prédio, Ludo mantém-se isolada por quase 30 anos no seu apartamento tendo como única companhia o latir faminto de Fantasma, seu cão.

Ludo revela-se extremamente inteligente, proactiva e até mesmo destemida no conforto do seu limitado habitat. É uma mulher forte, que não se deixa sucumbir pelas incertezas e instabilidades ao seu redor, mas antes, consegue manter uma certa lucidez que, no meio de tanta loucura, pode parecer estranho.

‘Às vezes vejo um macaco passeando-se pelos ramos, lá no fundo, por entre sombra e os pássaros. Deve ter pertencido a alguém, talvez tenha fugido, ou então o dono abandonou-o. Simpatizo com ele. É, como eu, um corpo estranho à cidade.”

Ludo tenta manter a sua sanidade quando tudo parece desmoronar-se à sua volta: o desaparecimento da sua única família; a decadência da cidade; o abandono ao estilo de vida que até então levava; etc.

Ela vê-se numa encruzilhada entre guerra e paz; vida e morte. No meio deste cenário consegue manter um pouco de “normalidade” que lhe garante a sua sobrevivência.

E isso leva-nos à questão: o que é ‘normal’ em tempo de guerra? O que é ‘normal’ no colonialismo’? Nas revoluções?

Existirá forma de passar por estes processos históricos sem esquecer um pouco quem nós somos? Quem nós fomos?

teoria-geral-do-esquecimentoEste é um livro sobre pessoas esquecidas, pessoas que querem esquecer e/ou pessoas que querem ser esquecidas. E claro, sobre os processos de reconstrução ou destruição que devem ser feitos para que isso aconteça.

Rapidamente percebe-se que não há heróis nem vilões, não há Deus nem Diabo e todas as pessoas batalham diariamente para gerir e equilibrar tanto as forças do bem como as forças do mal que têm dentro de si.

Ludovica é uma excelente metáfora para a própria Angola que, por quase 30 anos isolou-se, combatendo guerras com a própria consciência, tendo erguido um muro que a separou do resto do mundo.

Contudo, o mundo lá fora continuou a girar e a mudar na sua original indiferença e um dia Angola – assim como Ludo – teve de enfrentá-lo.

Esses conflitos internos – tanto em Ludo, como em Angola – são-nos descritos com um ritmo que nem sempre é o mesmo, mas que nunca nos é difícil acompanhar.

O autor vai enquadrando todos os acontecimentos na História, trazendo-nos personagens diferentes, em situações por vezes tristes, por vezes contentes, sempre com bastante sarcasmo e ironia – tal como é também na vida real.

Este ritmo da própria história é de tal forma envolvente que o próprio leitor esquece-se do que estará a acontecer. O leitor perde-se no tempo: passado; presente e futuro misturam-se. Não importa.

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O livro garantiu ao autor o Prémio Literário Internacional de Dublin. Fonte: Agualusa

Ao recontar (ou seria reinventar?) a história de Ludo, Agualusa traz à superfície importantes reflexões sobre o racismo, o colonialismo e a xenofobia, e por outro lado, leva-nos também a repensar a depressão, a memória e acima de tudo a justiça.

O autor brinca connosco, como se fôssemos marionetas, puxando-nos para dentro e fora da realidade de Ludovica, não deixando, no entanto de dizer aquilo que quer de nós.

A história ficcionada de Ludo oferece-nos algo entre a vida real e a vida imaginada; a memória individual e a memória colectiva de Angola, começando na guerra pela independência até ao início do séc. XIX.

Nesta brincadeira de faz-de-contas, o autor, de forma cómica e verdadeira dá-nos a conhecer os caminhos difíceis, com muitas quedas e tropeços, da História recente de Angola.