Poemas Africanos para dias de frio

Nos dias que correm, em que a brisa do mar bate forte como o rajar das ondas e as árvores abanam-se ao ritmo rápido do batucar do Tempo, nada melhor que poesia para acalmar a alma.

A poesia, o jogo das palavras, a dança sensual entre o sentir e o escrever ainda consegue transcrever o bater do coração poético em palavras. Hoje deixo a arte de falar escrevendo a eles, os poetas.

1. Adeus à hora da largada

 

Minha Mãe

         (todas as mães negras

         cujos filhos partiram)

tu me ensinaste a esperar

como esperaste nas horas difíceis

 

Mas a vida

matou em mim essa mística esperança

 

Eu já não espero

sou aquele por quem se espera

 

Sou eu minha Mãe

a esperança somos nós

os teus filhos

partidos para uma fé que alimenta a vida

 

Hoje

somos as crianças nuas das sanzalas do mato

os garotos sem escola a jogar a bola de trapos

nos areais ao meio-dia

somos nós mesmos

os contratados a queimar vidas nos cafezais

os homens negros ignorantes

que devem respeitar o homem branco

e temer o rico

somos os teus filhos

dos bairros de pretos

além aonde não chega a luz elétrica

os homens bêbedos a cair

abandonados ao ritmo dum batuque de morte

teus filhos

com fome

com sede

com vergonha de te chamarmos Mãe

com medo de atravessar as ruas

com medo dos homens

nós mesmos

 

Amanhã

entoaremos hinos à liberdade

quando comemorarmos

a data da abolição desta escravatura

 

Nós vamos em busca de luz

os teus filhos Mãe

         (todas as mães negras

         cujos filhos partiram)

Vão em busca de vida.

 

                   (Sagrada esperança)

2. O CHAPINHAR DO TEMPO

 

Tempo para nascer

e também tempo para viver

e morrer

 

É preciso tempo

para crescer nas coisas sérias

nas coisas mescladas de harmonia

tempo para amar a miséria

e as lágrimas derramadas

nos púcaros sagrados da esperança

 

É preciso tempo

para ser aquilo que não nos deixam ser

e também tempo para vencermos

as fadigas e indômitas teimas

vazadas em catadupas

 

É preciso tempo

para se provar à humana criatura

a nossa valia o nosso fervor

na castiça mas chata caminhada

marca vida

 

É preciso tempo

para se repudiarem

ódio e inveja

arrogância e altivez

e também tempo

para nos identificarmos

com os labirintos crassos

emergidos da dor incompreendida

 

É preciso tempo

para incondicionalmente

aliarmos os redondeis

e valermos nas tempestades

como também nas honras e lisonjas

 

Como o chapinhar do tempo

nós seremos e sempre

a filosofia garante do tempo presente.

 3. Para lá da praia
Baía morena da nossa terra  

vem beijar os pézinhos agrestes  

das nossas praias sedentas,  

e canta, baía minha  

os ventres inchados  

da minha infância,  

sonhos meus, ardentes  

da minha gente pequena  

lançada na areia  

da Praia Gamboa morena  

gemendo na areia  

da Praia Gamboa.
Canta, criança minha 

teu sonho gritante  

na areia distante  

da praia morena.
Teu teto de andala  

à berma da praia. 

Teu ninho deserto  

em dias de feira. 

Mamã tua, menino  

na luta da vida  

gamã pixi à cabeça  

na faina do dia  

maninho pequeno, no dorso ambulante  

e tu, sonho meu, na areia morena  

camisa rasgada,  

no lote da vida, 

na longa espera, duma perna inchada  

Mamã caminhando p’ra venda do peixe  

e tu, na canoa das águas marinhas … 
 — Ai peixe à tardinha 

na minha baía… 

Mamã minha serena 

na venda do peixe.
 

 

O dia em que 20 000 rochas marcharam

O dia em que 20 000 rochas marcharam

Abafazi wathint ‘, (Quando se bate numa mulher)
Imbokodo wathint ‘, (Se bate numa rocha)
Uza Kufa! (Você será esmagado)

Fonte: KANDIMBA

 

Foi a 9 de Agosto de 1956 que a força das rochas se fez sentir na África do Sul.

Na altura o país vivia em regime de Apartheid, que privilegiava a minoria branca, em detrimento da maioria negra. E as mulheres caminharam em protesto em Pretória, na sede do Governo.

Aos brancos, detentores do poder, lhes era concedida educação de qualidade, acesso a hospitais e segurança, e o direito de viver e ocupar qualquer espaço. Já os negros não podiam circular livremente no território sul-africano, tendo os seus espaços devidamente delimitados.

Numa histórica marcha, que juntou cerca de 20 000 pessoas em Joanesburgo, as mulheres protestaram contra o uso de passes.

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Os primeiros passes foram instituídos em 1910. Fonte: South African History

Na época, a legislação sul africana exigia que todos os cidadãos não brancos provassem que tinham autorização para frequentar as áreas reservados aos brancos.

Os passes eram documentos que definiam os limites de circulação para os cidadãos não brancos na África do Sul, impedindo-os de andar livremente nos centros urbanos e estipulando zonas e horários onde podiam estar.

Os passes serviam para segregar as cidades através da gestão do meio urbano e do controle do êxodo rural. Com os passes, o regime controlava as entradas/ saídas das cidades, impedindo jovens negros de procurar emprego melhor nas cidades, bem como de encontrar melhores hospitais ou escolas.

Estas leis não só dificultavam o desenvolvimento emocional, social e intelectual das populações não brancas, como também impediam, de forma deliberada, que os poucos que conseguissem quebrar algumas barreiras se sentissem como os brancos.

Muitos homens negros eram presos, torturados ou mesmo assassinados quando encontrados nas zonas reservadas aos brancos sem os passes. Assim, era comum, nas zonas adjacentes às cidades, nos bairros periféricos habitados pela mão-de-obra que durante o dia trabalhava nas zonas reservadas aos brancos, que muitas mulheres ficassem a cargo da subsistência da família.

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As mulheres tiveram um papel central para o fim do Apartheid. Fonte: Africa.com

À semelhança do que aconteceu com outros países, na África do Sul, a ausência dos homens fez com que a estrutura familiar tradicional mudasse radicalmente. Os papéis de género foram desafiados e as mulheres passaram a ter uma posição mais central, com poder de decisão.

Como um sistema racista, capitalista e patriarcal, as mulheres negras eram o grupo mais oprimido. Eram elas que ocupavam os piores postos de trabalho, que viviam nas piores condições e que eram ainda responsáveis pela segurança e subsistência dos seus filhos.

Obrigando as mulheres negras a usarem os passes, o regime estava a empurrá-las para longe das cidades.

We, women, will never carry these passes. This is something that touches my heart. I appeal to you young Africans to come forward and fight. These passes make the road even narrower for us. We have seen unemployment, lack of accommodation and families broken because of passes. We have seen it with our men. Who will look after our children when we go to jail for a small technical offence — not having a pass?//

Nós, as mulheres, jamais andaremos com estes passes. Isto é algo que me toca o coração. Eu apelo a vocês, jovens africanas que avancem e lutem. Estes passes tornam a estrada ainda mais dura para nós. Nós vimos o desemprego; a falta de alojamento e famílias desfeitas por causa dos passes. Nós vimos com os nossos homens! Quem irá olhar pelos nossos filhos quando nós formos para a cadeia por uma pequena infracção- não ter o passe? – Dora Tamana, durante o protesto em 1956

As mulheres não queriam mais ter um papel submisso, pelo contrário, estavam dispostas a ir à luta para ter mais direitos e foi por isso que rapidamente as mulheres estiveram na vanguarda da resistência anti-apartheid.

A opressão racial levou as mulheres a não só ganhar consciência da sua cor de pele, mas também do seu género. Esta consciência deu vida a um movimento que se fortaleceu e não se calou.

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Mulheres de todas as raças e credos juntaram-se ao protesto. Fonte: GENI

Foram mulheres como Lilian Ngoyi, Helen Joseph, Rahima Moosa e Sophia Williams-de Brun, que tornaram o movimento possível, mobilizando mulheres de todo o país para saírem das suas casas e invadirem as ruas em protesto.

As quatro mulheres e o seu exército mostraram o poder que têm quando unidas: foram 100 000 assinaturas numa petição para entregarem ao Primeiro-Ministro da altura.

Mesmo em silêncio com os filhos nas costas, elas não se deixaram intimidar. Mesmo sobre o risco de perderem os seus empregos, mesmo arriscando as próprias vidas, elas foram à rua.

Mesmo enjauladas em cadeias, como Winnie Mandela, estas verdadeiras rochas fizeram uma muralha inquebrável que inevitavelmente derrubou o regime do Apartheid.

Por que importam as políticas afirmativas?

Por que importam as políticas afirmativas?

Recentemente nos Estados Unidos da América tem havido um debate sobre políticas afirmativas no que toca às admissões em Universidades, que de alguma forma podem estar a prejudicar os cidadãos americanos descendentes de asiáticos.

No centro do debate está a questão da necessidade de tais políticas e dos beneficiários.

Mas afinal de contas, o que são políticas afirmativas?

As políticas afirmativas são mecanismos usados para promover a inclusão e/ou protecção de um determinado grupo social que de outra forma, seria excluído e/ou privado de exercer um determinado direito. Geralmente as políticas afirmativas são direcionadas a afrodescendentes; mulheres; homossexuais, idosos; portadores de deficiência; etc.

Estes grupos são tratados de forma desigual em diversos sectores, e por isso as políticas afirmativas visam reparar essas disparidades de modo a criar condições para, a longo prazo, não ser preciso reafirmar os seus direitos.

 

Numa sociedade desigual em que há disparidades entre os diferentes grupos não podemos ignorar que a Constituição por si só é insuficiente para proteger todos os cidadãos.

Bem sabemos que há grupos distintos que sofrem violências diárias e não são protegidos pela Lei, e por isso é preciso criar outras leis para protegê-los e colocá-los em pé de igualdade com os restantes grupos sociais.

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As acções afirmativas no mercado de trabalho. Fonte: JUS

Por exemplo, em 1984 a União Europeia incentivou a inclusão e participação das mulheres no mercado de trabalho, em todos os sectores profissionais e em todos os níveis de liderança.

Desde então todos os Estados Membros têm criado mecanismos não só para encorajar a participação das mulheres, tais como por exemplo premiar empresas, como também para aproximar os salários de homens e mulheres.

A Índia, por sua vez, na primeira metade do séc. XX, aquando da sua independência introduziu um sistema de quotas para garantir acesso a empregos públicos e vagas em universidades a castas desprivilegiadas.

Este ano foi eleito um presidente Dalit, com 65% dos votos, Ram Nath Kovind, que segundo a cultura indiana é a casta mais inferior, dos ‘intocáveis’.

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Implementar políticas afirmativas é negar o princípio de igualdade?

Não, pelo contrário, é admitirmos que existem sim desigualdades e ignorar essas diferenças na nossa sociedade seria admitirmos a nossa cumplicidade com a perpetuação dos modelos actuais.

Se não encararmos a realidade corremos o risco de assistir, tal como aconteceu em séculos passados e começa agora a reaparecer, a manifestações explícitas de intolerância e preconceito. Estas manifestações são levadas a cabo sobretudo por grupos privilegiados  que pretendem manter o status quo, deixando os grupos marginalizados aquém do seu potencial de desenvolvimento.
Por outro lado, há que reconhecer a necessidade de oferecer equidade.

Cada cidadão cresce e se desenvolve num determinado grupo, onde tem acesso a certas oportunidades. Um cidadão que é educado em escolas privadas, nas férias viaja para o exterior; tira cursos de inglês na infância; tem acesso a computadores e internet, já tem uma vantagem na Universidade quando comparado a um cidadão que sempre estudou em escolas públicas, com pouco acesso a outras realidades ou línguas.

Por isso as políticas afirmativas procuram compensar essas circunstâncias que afectam aqueles em desvantagem, criando mais equidade.

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Existe meritocracia numa sociedade desigual? Fonte: Estadão

Por exemplo, um pouco por todo o mundo há que aceitar que existem grupos sistematicamente excluídos do mercado de trabalho, como é o caso dos portadores de deficiência física.

Quando foi a última vez que você viu uma professora com deficiência física? Quantas médicas você conhece que sejam portadores de uma deficiência física?

Talvez se houvesse uma política de afirmação que garantisse a este grupo o acesso a educação superior e/ou o acesso ao emprego, poderíamos ver estas pessoas a ocupar tais postos.

Finalizando, a razão de existir das políticas afirmativas é aumentar as oportunidades para cidadãos historicamente discriminados. As políticas servem para equiparar todos os cidadãos, de forma a assegurar uma vida digna a todos.

 

 

Pêlos, para que te quero!

Tudo começou quando eu tinha mais ou menos 13 anos.

Aos 13 anos eu já usava soutien. O meu corpo estava algures entre uma menina e uma mulher. Umas partes mais menina e outras mais mulher. Enfim, um corpo de quem estava a passar pela Puberdade. Esse corpo incluía pernas relativamente grossas, seios, acne e… pêlos!

Eu ainda me lembrou do dia.

Eu estava a fazer xixi e a minha mãe olhou para mim e imediatamente me informou que tinha chegado a hora de começar a fazer depilação. Ao que parece, a minha zona púbica tinha alcançado um estado socialmente constrangedor, pelo menos para ela.

Eliana, conheça gillette. Gillette, Eliana. Muito prazer.

Apresentações feitas, passámos ao que interessa: tirar os pêlos do meu corpo.

Nos meses seguintes fui descobrindo a arte de me depilar. Os tempos de intervalo; os pêlos encravados; as manchas na pele; os cortes; as partes mais e outras menos sensíveis à lâmina; etc.

Mais tarde descobri os cremes depilatórios; as bandas e finalmente, a temida cera.

 

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A primeira depilação ninguém esquece. Fonte: Pimenta no teu.. é refresco!

Seja com lâmina de barbear; cremes; cera ou laser, uma coisa é certa: depilação feminina é compulsória. Pernas, virilha, axilas e púbis devem ser zonas sem pêlos.A ideia de beleza no corpo feminino tal como ele é simplesmente não existe na nossa sociedade.

As axilas de uma mulher adulta têm pêlos. As pernas de uma mulher adulta têm pêlos. A virilha de uma mulher adulta tem pêlos.

Então por que somos obrigadas a fazer a depilação nessas partes do corpo?

Eu sempre cresci a ouvir explicações ligadas à higiene e cheiro dessas zonas e fui assimilando essas ideias para mim também.

Às minhas amigas ia dando recomendações; íamos trocando ideias e conselhos; encorajando essa guerra quase diária contra os terríveis pêlos.

Mas está mais do que provado que os pêlos têm uma função importante para a nossa saúde.

Os pêlos servem de protecção natural de certas zonas do nosso corpo e são uma resposta fisiológica da nossa espécie face a determinadas bactérias que seja por humidade ou devido ao calor, reproduzem-se mais facilmente nessas partes do corpo. Servem também para diminuir a fricção resultante do contacto de pele com pele (por exemplo ao andar).

Pensarmos que tirar os pêlos torna-nos seres mais limpos ou higiénicos é portanto, no mínimo ingénuo. E esse mesmo padrão de “higiene e cheiro” nunca se aplica aos homens.  Por que será?

Apenas às mulheres é cobrado um corpo sem pêlos. E nós cobramos isso de nós mesmas!

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Os descartáveis pelos das mulheres. Fonte: Casa da mãe Joanna

Por outro lado, há também a questão estética. Vivemos num mundo em que somos bombardeadas diariamente com imagens que correspondem a um padrão de beleza e queremos também segui-lo.

Nos anos recentes, com a internet e a propagação da pornografia houve uma influência daquilo que se vê nos filmes em como as mulheres se vêem na vida real.

Quantas vezes não recorri à minha amiga Gillette ao saber que tinha um encontro romântico nesse dia?

Nas revistas e TV também é raro vermos mulheres com pêlos. A imagem de uma mulher adulta ao natural raramente nos é apresentada.

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Depilação compulsória tem relação com pedofilia enraizada? Fonte: Radicalize
Vemos apenas a mulher infantilizada, sem pêlo algum como se fossse uma criança. Somos expostos a essa imagem vezes sem conta desde a nossa infância. E aprendemos a chamar nomes àquelas que escolhem não se depilar.

E está tão enraizado na nossa cultura patriarcal machista que a mulher acredita que de facto o seu corpo é mais bonito assim, que os seus pêlos são nojentos. Por detrás dessa preferência existe uma construção social que começa bem cedo, quando todas as roupinhas são cor-de-rosa, cheias de flores e lacinhos.

 

Aprendemos a odiar os nossos pêlos; os nossos cheiros; as nossas celulites; nossa menstruação; nosso cabelo natural; etc. E a luta para romper com esses padrões, para amar o nosso corpo tal como ele é, é constante.

O nosso corpo é desde cedo mutilado, manipulado, transformado para ser tudo menos “natural”: desde o furo na orelha quando ainda somos bebês; ao desenho da sobrancelha; passando pelo cabelo liso; o corpo escultural; a pele perfeita; as perna sem pêlos; etc.

E se a partir de hoje nos amássemos tal como somos, quantas indústrias não iriam à falência?

 

Notas sobre o Amor Próprio

Notas sobre o Amor Próprio

Num mundo em que cada vez mais somos levados a aparentar ser algo mais do que o que realmente somos e somos empurrados a perseguir um estilo de vida supostamente universalmente ideal, o amor próprio é cada vez mais raro.

Muito mais facilmente procuramos nos outros coisas que nos façam gostar de nós. Procuramos lá fora motivos para estarmos confortáveis com a nossa essência, criando uma tensão constante dentro de nós.

Por isso o amor próprio é tão importante: dá-nos a confiança para enfrentar o mundo; assumir as nossas decisões; aceitar os nossos limites e procurar a melhor versão de nós todos os dias.

O nosso corpo

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Sobre o amor próprio: eu me basto. Fonte: Casa da Mãe Joanna

Talvez a primeira luta seja aquela por um modelo físico ‘mainstream’, aquele padrão que nos é ditado todos os dias pelas revistas; pela TV; pelas celebridades; etc. Até nas nossas casas: a gordofobia nossa de todos os dias; o colorismo; etc.

Especialmente para a mulher, cujo corpo é policiado constantemente existe muita pressão para fazer alterações ao seu corpo. Estas alterações podem parecer insignificantes/ normais, como é o caso da depilação ou dos furos nas orelhas, mas que também podem assumir facetas mais perigosas como o caso da mutilação genital.

Desde pequenas que somos alimentadas com estas ideias de que o nosso corpo tal como ele é não é suficiente. É como se o nosso corpo estivesse constantemente contra nós e fosse nosso direito (e dever) nos defendermos, mutilando-o.

Aceitar a nossa pele escura; o nosso cabelo crespo; as nossas estrias e os nossos seios assimétricos é a porta de entrada para a aceitação de outras partes mais íntimas de nós mesmas. Fazer as pazes como o espelho não é só libertador, é revolucionário.

Afinal de contas o nosso corpo é o espaço que ocuparemos até à nossa morte.

O nosso tempo

Com os Instagrams e Snapchats da vida parece que o sucesso está apenas a um passo de nós. É como se todos já tivessem encontrado o seu lugar ao Sol e nós ainda estivéssemos à espera da chuva passar, à procura de um guarda-chuva!

Existe um sentido de competição nada amigável que nos leva a apressar os nossos projectos porque não queremos ficar de fora. É essa pressa que nos obriga a ir por corta-matos que não nos permitem aprender as lições que precisaríamos para de facto sermos felizes com o resultado final.

Cada um de nós leva o seu tempo a alcançar as suas próprias metas – que não têm de ser iguais às dos outros – e a sentir-se confortável com a vida que escolheu. O mais importante é estar consciente dessas escolhas e assumir essa liderança do próprio caminho.

O respeito pelo nosso ritmo e processo de aprendizagem já é por si só uma prova de maturidade.

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Amor próprio é o seu primeiro romance. Fonte: Maria Chantal

Quantas vezes não deixamos de fazer certas coisas por medo de não sermos bem vistos/ aceites? O que foi que perdemos por nunca termos sequer tentado verbalizar as nossas vontades?

O amor próprio é uma força que nos liberta, pois permite-nos namorar, conhecer e ouvir o nosso EU.

Claro que mesmo o amor próprio exige negociação constante, pois somos feitos de contradições. Hoje sou amarelo, amanhã quero azul. Então fico-me pelo verde. É importante pautar sempre pela cordialidade e paciência até connosco mesmos.

Pedir ajuda, ouvir conselhos, há espaço para tudo isso, mas a decisão é apenas de uma pessoa.

É urgente amar na primeira pessoa do singular, começando pelo espaço e pelo tempo.

 

Monsieur Macron, vamos lá falar!

Monsieur Macron, vamos lá falar!

O Presidente francês fez alguns comentários recentemente sobre o estado actual de África que despontaram grandes debates.

Durante a cimeira dos G20, quando um jornalista da Costa do Marfim perguntou sobre a possibilidade da implementação de um programa em África como o Plano Marshall (Europa) , o Emmanuel Macron afirmou que os problemas enfrentados actualmente pelo continente africano são completamente diferentes, pois são civilizacionais e mais tarde ainda refere-se ao facto de as mulheres terem 7 a 8 filhos como um factor central para o sub-desenvolvimento do continente.

Bem, primeiramente, a taxa de fecundidade a nível do continente é de 4,45 filhos por mulher segundo dados da ONU de 2009. O único país Africano perto do número referido por Macron é o Níger, em que cada mulher tem em média 7,6 filhos.

Depois, vários foram os estudiosos que confirmaram que não é o sobre-povoamento que causa pobreza, mas sim a pobreza que causa sobre-povoamento. Ou seja, sociedades com níveis de literacia baixos e pouco acesso a serviços de saúde de qualidade estão mais predispostas a fazer muitos filhos. Pelo contrário, se esses “muitos filhos” conseguirem viver num ambiente mais propício ao seu desenvolvimento, provavelmente farão menos filhos.

Para além disso, a ideia em como recai na mulher todo o peso do desenvolvimento de um país inteiro é não só machista, como distrai-nos de questionar o papel de políticas imperialistas e neo-colonislistas em vigor nos países africanos.

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Macron não é diferente dos restantes líderes ocidentais. Fonte: This is Africa

Macron, ainda nessa resposta fala no combate à corrupção e em melhor governação.

Nos últimos 50 anos África assistiu a mais de 26 golpes de Estado (ou quase isso) sendo que 16 destes aconteceram em países que tinham sido colónias francesas.

Adicionalmente, até hoje 14 países africanos “francófonos” pagam €440 bilhões anualmente para a França. Estes países devem pagar 85% das suas reservas em moeda estrangeira ao Banco Central Francês.

Ou seja, a política externa da França no que toca aos países africanos mostra que ainda é baseada numa visão colonialista, em que os países “francófonos” são uma extensão do seu território na Europa.

O papel da França no genocídio de Ruanda, no assassinato de Thomas Sankara e mais recentemente na morte de Gaddafi, ainda que por esclarecer, mostra como a França tem agido tendo em conta os seus próprios interesses e não o crescimento e desenvolvimento do continente africano.

Isto evidencia o papel da França no sub-desenvolvimento de África e de África no desenvolvimento da França.

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Por que são tão importantes as ex-colónias africanas para a França? Fonte: Mail & Guardian

A instalibilidade do continente é em grande parte resultado da interferência ocidental em África.

Tudo o que foi dito por Macron – ou grande parte – é verdade, mas não é o problema, não é a doença. São apenas sintomas: Estados descredibilizados; conflitos armados constantes; fraco controle da natalidade; etc.

Estas verdades são a parte material, a parte visível. Mesmo se esses sintomas não estivessem lá teríamos outros, e precisaríamos de ajuda à mesma.

Foi o Ocidente que instalou estes regimes corruptos para melhor manipularem os povos e servirem os seus interesses e depois vêm aqui falar em corrupção e boa governação. Isto para não mencionar as medidas racistas anti-imigração que implementam na Europa para impedir-nos de fugir à Pobreza e miséria.

É muita hipocrisia – ou ignorância – Macron sentar-se no topo da montanha de dinheiro arrancada aos países africanos, com o seu vinho francês e falar de África como um fardo que ele carrega.

Macron não vê os países africanos como parceiros de negócios, mas sim como bebés ricos que precisam de ajuda a gerir os recursos.

Quando a França começar a falar em reparações pelos danos humanos e materiais que causou com a sua ocupação no continente africano; quando a França parar de deixar africanos morrerem no Mediterrâneo em busca de uma vida melhor; quando a França devolver o dinheiro de África que tem nos seus cofres, bem como arte nos seus museus, aí sim vamos falar em “civilização“.

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O problema com o “complexo de salvador branco” em África. Fonte: Ventures Africa

Contudo, a maior decepção acho que foi mesmo para quem aplaudiu e se jubilou com a sua eleição.

Afinal de contas, Emmanuel Macron criou esta imagem carismática, com os seus olhos claros e sorriso fácil. Quebrando protocolo de vez em quando, para lembrar ao público da sua humanidade e sejamos francos, com o oponentes que ele tinha, seria difícil se não tivéssemos caído no seu jogo de sedução.

Mas a verdade é que ele é apenas tão liberal como outro presidente ocidental branco qualquer. Ele provavelmente só não diz as coisas racistas e xenófobas que o Trump diz para não ferir susceptibilidades, mas ri-se das piadas no seu íntimo e agradece por haver alguém que diga essas coisas em voz alta.

Macron não é diferente dos nossos amigos estrangeiros, brancos, imigrantes (ou talvez diria expatriados)  vindos do Ocidente que adoram África e contam histórias fantásticas de todos os países africanos que visitaram e do trabalho que as ONGs para quem trabalham/ trabalharam faz e até lêem Chimamanda Adichie ou Chinua Achebe porque “literatura africana é fascinante”.

Mas esses nossos amigos vivem nos melhores bairros das nossas cidades; recebem muito acima da média e têm regalias que lhes permitem viver de forma luxuosa, mesmo no meio de tanta Pobreza e sendo a ‘voz dos desfavorecidos’.

Ao jantar com amigos falam das decepções de viver num país em que nada funciona e em que não se pode confiar sequer na polícia, e levam as empregadas fardadas aos restaurantes enquanto discutem os direitos das mulheres.

Macron se encaixaria perfeitamente nessas conversas e provavelmente falaria da crise da caça furtiva e da pena que é ir aos safaris e não ver elefantes. Falaria também do quão gosta da comida local e da hospitalidade onde quer que vá, mas jamais faria a relação entre isso e a cor da sua pele.

Enfim, Emmanuel Macron, aquele amigo europeu branco que contribuiu 1 dólar para uma ONG qualquer, daquelas com fotos de crianças mal nutridas nas assinaturas dos emails para limpar a sua alma da culpa que o seu capitalismo e condescendência lhe trazem.

 

Moolaade

Moolaade

No último filme de Sembene, o contador de histórias senegalês traz-nos um tema polémico e bastante actual: circuncisão feminina, ou por outras palavras, a mutilação genital feminina.

O filme “Moolaadé” passa-se numa pacata aldeia do Burkina Faso quando, após fugirem do ritual de purificação, quatro fugitivas se refugiam em casa de Collé, uma mulher que anos antes não deixou que a filha participasse do ritual.

Collé para proteger as meninas lança um feitiço de nome Moolaadé, que funciona como asilo espiritual, impedindo as meninas de voltarem para o local do ritual, até que o feitiço seja quebrado com a palavra mágica que apenas por ela pode ser proferida, sobre o risco de grandes desgraças acontecerem.

 

 A segunda de três esposas, Collé tem de defender e negociar a sua posição primeiro para a sua irmã mais velha (a primeira mulher) e para os restantes habitantes da casa, e depois para as mães das meninas e toda a comunidade em geral.

Collé, com as suas dores e cicatrizes, ameaça a ordem social naquela pacata vila e isso assusta os demais. Ela é acusava de ser demoníaca por defender algo que contradiz os ensinamentos religiosos e as tradições ali instaladas.

Através do conselho de anciões, os homens mais velhos opõem-se ao feitiço lançado por Collé, chamando-a de imprudente e de desequilibrada. E forçam o seu marido, que reconhece a sua força e por ela tem muito amor, a humilhá-la em praça pública para provar o seu domínio sobre a esposa ‘desobediente’.

Evidencia-se aqui o poder que os homens têm – ou procuram ter – sobre as mulheres, os seus corpos e as suas decisões. Seja de marido para esposa; de irmão para irmã; de filho para mãe ou mesmo de um simples desconhecido para uma mulher qualquer.

 


Misturam-se motivos culturais; religiosos; mitos e factos numa trama trágica e simultaneamente cómica que retrata a vida e dinamismo de uma aldeia típica africana.

Sembene traz-nos todos os contrastes e contradições desta vivência.

Se por um lado Collé é uma mãe ousada, com audácia para desafiar as normas impostas, por outro é também uma mulher bastante convencional, que vive um casamento poligâmico e faz um casamento arranjado para a filha.

Se temos de um lado uma vila com uma herança islâmica presente em todas as esferas da vida, temos também uma forte influência das religiões tradicionais africanas, em que o Moolaadé tem muito poder.

E embora a aldeia pareça estar parada no tempo e isolada de tudo, a presença de aparelhos de rádio, que trazem notícias de todo o mundo e do filho do régulo que regressa da França vestindo fato e gravata sempre que sai de casa, provam que não se pode viver fechando os olhos ao que se passa lá fora.
Mais do que um filme político, Moolaadé é um manifesto para a celebração de uma cultura africana que não cause prejuízo às mulheres.

O filme prova-nos como a cultura africana, os seus mitos e tradições não funcionam somente para oprimir, mas também para libertar. A nossa heroína com apenas um acto de resistência leva toda a vila a questionar, debater e conversar sobre um assunto até então tabu.

Sembene, mais uma vez, dá a conhecer uma África para além de toda a sua pobreza e agonia. Uma África de coragem e encanto, cujas respostas estão lá escondidas, no meio de toda a opressão à espera de serem descobertas.