Wangari Maathai na primeira pessoa

Wangari Maathai na primeira pessoa

Foi há 13 anos atrás que Wangari Maathai se tornou na primeira africana a ser premiada com o Prémio Nobel da Paz pelo seu trabalho como ambientalista.

Maathai lutou pela liberdade e paz no Quénia usando o Ambiente como ferramenta para tal.

A sua abordagem multidimensional interligava abordagens científicas, ambientais, e culturais, lembrando as comunidades rurais daquilo que eram as tradições para a conservação da terra.

Estas tradições, que ao pouco foram se perdendo, sobretudo pela influência do capitalismo e do colonialismo, estavam muito ligadas à preservação e respeito pela Terra.

Na sua autobiografia “Unbowed”, percebemos como a sua teimosa dedicação e o seu sentido forte de compromisso foram o seu Norte e o seu Sul para a tomada de decisões.

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Tendo passado grande parte da infância na parte rural do Quénia, Maathai cresceu rodeada de árvores, plantas e animais.

Qual foi o seu susto, quando anos mais tarde, percebeu que grande parte desses ecossistemas estavam destruídos e que pessoas antes auto-sustentáveis, não só dependiam de doações para se alimentar, como também não tinham condições para plantar os seus alimentos.

Muito do conhecimento foi-se perdendo com o passar do tempo e, muitas áreas aráveis tinham sido cedidas para grandes plantações, como por exemplo do chá.

Foi então que começou um movimento ingénuo e isolado, em 1977, o Green Belt Movement, no sentido de reflorestar essas zonas e resgatar todo o conhecimento que já existia.

Este movimento começou primeiramente por dinamizar grupos de mulheres rurais – responsáveis por cultivar as terras – no sentido de plantar algumas zonas perto das suas casas.

Rapidamente, com o seu tempo e os seus sacrifícios, transformou-se numa verdadeira revolução.

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Wangari Maathai fundou o “Green Belt Movement” em 1977. Fonte: The Green Belt Movement

Não bastava apenas plantar árvores isoladamente. Era preciso perceber a importância de cada espécie; a pertinência de serem plantadas em determinadas zonas; de regá-las e mantê-las vivas, ainda que seja para as gerações futuras.

“The trees (we) are cutting today were not planted by us, but by those who came before. So we must plant trees that will benefit communities in the future.”/ As plantas que estamos a cortar hoje não foram plantadas por nós, mas por aqueles que vieram antes. Portanto devemos plantar árvores que irão beneficiar comunidades no futuro. 

E para tal era preciso também abordar questões de género; de herança de terras; de cedência de terras a indústrias poderosas; de doenças; de saúde; etc.

Estes grupos começaram portanto a exercer a sua cidadania de forma mais activa, questionando decisões tomadas no topo; exigindo explicações e conhecendo os seus direitos.

Esta abordagem despertou a atenção de quem estava no poder e ela foi obrigada a fazer grandes sacrifícios em nome da sua visão. Perseguida, presa, torturada, nada a parou de seguir os seus objectivos.

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Maathai foi a primeira mulher africana com o grau de PhD e a primeira a ganhar o Nobel da PAz. Fonte: Nobel Prize

Ela soube ser uma figura pública: a estratégia; a logística; que é preciso saber para se defender e proteger de um regime opressor. O crescimento da sua imagem e da sua legitimidade, permitiram-lhe canalizar mais meios e poder para o movimento.

E mesmo antes disso, é impressionante e inspirador perceber como ela soube maximizar todas as oportunidades que lhe foram dadas: a oportunidade de começar a estudar, mais tarde, de ir para um internato de freiras, posteriormente o ensino superior nos EUA e por fim a sua posição aquando do regresso ao Quênia.

“Education, if it means anything, should not take people away from the land, but instill in them even more respect for it, because educated people are in a position to understand what is being lost.”/ Educação, se significa alguma coisa, não deveria afastar as pessoas da terra, mas incutir nelas ainda mais respeito, porque pessoas educadas estão numa posição de entender o que se está a perder. 

A sua mobilização das comunidades não se limitou somente à plantação de árvores, pois Maathai viu nisso uma oportunidade para criar sinergias entre temas como democracia; género; solidariedade.

Essa teia criada permitiu-lhe não só replicar o modelo, mas criar um impacto gigantesco (mais de 20 milhões de árvores plantadas) e deixar um legado imensurável.

Wangari Maathai fez-nos acreditar na possibilidade de um desenvolvimento sustentável antes de isso estar na moda.

 

O Último Pão

O Último Pão

A célebre foto de Ricardo Rangel, o ‘Último Pão’ e a utopia da cidade perfeita.

Olhando assim parece um grupo de amigos, irmãos, em passeio, não fosse pelo uniforme e armas dos dois homens na foto.

A moça parece calma, olha em frente e caminha certa dos seus passos, com a cabeça erguida e exibe um colar de pérolas enrolado vezes sem conta no seu pescoço.

Foi em 1975, Ricardo Rangel estava lá quando aconteceu.

Foram cerca de 3000 cidadãos, recolhidos em Maputo, Beira Nampula e Chimoio os primeiros neste primeiro dia de uma operação que viu o seu fim apenas nos finais dos anos 80.

Era dia 3 Novembro quando o Daily News [Dar es Salaam] anunciou a detenção, pelo regime de Samora Machel, de milhares de moçambicanos acusados de vagabundagem. O destino? Centros de reeducação.

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Foto: O Último Pão, Ricardo Rangel, 1975

É importante realçar que foram as mulheres, sobretudo, que sofreram com esta operação pois foi uma ferramenta para controlar a sua sexualidade. Parte desta história foi recontada por Licínio de Azevedo em ‘Virgem Margarida’.

Muitas prostitutas e mulheres solteiras mas com “filhos sem pai” (as chamadas “mães solteiras”) infelizmente morreram no caminho ou durante a sua estadia nesses centros, pelas pobres condições em que eram mantidas. Isto para não falar dos abusos físicos e emocionais a que eram submetidas, fosse pelos seus carcereiros ou transportadores.

As mulheres, especialmente das cidades, com as suas roupas, maquilhagem, saltos altos, e o seu sentido de independência forte entrava em choque com os ideais da época que acreditavam que a mulher rural, atarefada com os afazeres domésticos, fiel ao seu marido e aos seus filhos, era o protótipo.

Assim, quanto mais longe deste padrão, maior risco estas mulheres representavam ao regime pois poderiam “infestar” o país.

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É difícil falar nos Centros de reeducação porque as feridas ainda estão abertas. Fonte: DW

Tendo como ponto de partida o puritanismo católico herdado do regime colonial Português, Moçambique independente tentou também separar os “cidadãos de bem” dos restantes.

E, como um bom regime socialista faria, fê-lo através do trabalho.

Nos centros de reeducação, os reeducandos eram responsáveis por lavrar a terra; construir a sua própria casa; cozinhar e aprender algum ofício de modo a poderem reintegrar a sociedade.

Aliada à estratégia dos Centros de Reeducação, implementou-se também a Operação Produção em 1983, com o intuito de garantir a subsistência de todo o país e aumentar a população em zonas desabitadas. Até aí, tudo bem.

No entanto a própria Operação Produção também se usou de “improdutivos” para arrancar, forçando pessoas a saírem dos meios urbanos (especialmente Maputo) para zonas rurais em outras províncias (especialmente para Niassa e Cabo Delgado) a fim de lá habitarem e produzirem.

Os “improdutivos” eram todos aqueles que, durante as rusgas, eram encontrados sem documentos de identificação e/ou não conseguissem provar que estudavam ou trabalhavam, ou seja, que eram úteis para o Estado.

“Vinte pessoas numa família e quem trabalha é uma pessoa só. E são adultas! A quantidade é grande que come.(…) De todas estas zonas vinha dantes o tomate, a couve, o repolho, a cebola, a batata, o arroz, o milho, o feijão, a mandioca, a alface, a banana, tudo aquilo que esta cidade consumia. É isto que vamos produzir!” – Samora Machel

Contudo, é importante realçar que enquanto os reeducandos – os que sobreviviam – que mostravam que tinham mudado o seu estilo de vida podiam voltar para casa, aqueles levados pela Operação Produção não podiam regressar à terra natal.

De tal forma que, muitas famílias até hoje vivem separadas. Muitas pessoas são tidas como mortas. Outras já apagaram da sua memória por completo aquilo que deixaram para trás e reconstruíram a sua vida das cinzas que restaram.

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Estima-se que entre 50 a 100 mil pessoas tenham sido deportadas de Maputo para o meio rural durante a Operação Produção. Fonte: DW 

Hoje em dia há um certo saudosismo ao recordar a pessoa e Presidente que foi Samora Machel, ignorando os erros que cometeu em nome das suas utopias.

Uma dessas utopias é a da “purificação das cidades”, evidenciada através dessas duas estratégias que em muito feriram cidadãos moçambicanos.

Não nos esqueçamos do “último pão”. Nessa foto vemos dois agentes de um regime altamente repressivo a prender uma mulher, levando-a sabe-se lá para onde. O que acontecerá com ela fica na nossa responsabilidade; se ela vive ou se ela morre na nossa memória, na nossa História.

 

Existe casamento feminista?

Existe casamento feminista?

Se o casamento é uma união que reforça os papéis de género, é possível ter um casamento feminista?

O sexismo é algo que aprendemos através da nossa socialização que se manifesta em virtualmente todas as esferas das nossas vidas: em casa; no trabalho; na rua; etc.

Em todos os espaços, em todos os aspectos, muito das nossas escolhas são feitas tendo como base ideias sexistas enraizadas em nós. Eu sou mulher, logo tenho de me comportar de uma certa forma. Eu sou mulher, logo não devo dizer tal coisa. Eu sou mulher, logo preciso de ter determinada característica. Enfim, a forma como eu sinto, vivo e expresso o meu género é adquirida, é uma manifestação do meio onde vivi.

Uma das questões que me ocorre quando penso em mim, como mulher e como feminista, é a vivência do casamento. Na medida em que o feminismo surge da necessidade de abolir por completo a diferença em os géneros, e em que o casamento é uma instituição baseada numa série de costumes e tradições machistas, pode haver um casamento feminista? Se sim, como seria? O que seria de diferente? Ainda poderíamos chamar essa união de ‘casamento’?

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A esposa deve cuidar do seu marido como se fosse filho? Fonte: Flávia Azevedo

Mas talvez antes disso, a pergunta seja: num mundo em que ambos os géneros tenham tratamentos iguais, haverá casamento?

O casamento é o cruzar do Capitalismo e do Sexismo.

O casamento serve para garantir a sobrevivência de ambas as partes e suas famílias. A prova disso são as facilidades em conseguir contractos de arrendamento; compra de imóveis e empréstimos quando somos casados.

Mesmo o casamento tradicional do Sul de Moçambique, o lobolo, prevê certos direitos no caso de separação do casal ou morte de uma das partes. Isto para garantir que nenhuma família saia ‘em prejuízo’.

Já o Sexismo manifesta-se sobretudo na desvalorização da mulher solteira, especialmente a partir de uma certa idade, visto que o valor da mulher assenta sobretudo na sua função reprodutiva e afectiva.

Para além de haver uma pressão generalizada para a mulher em idade fértil casar, há também uma grande responsabilização da mulher no que toca ao sucesso ou insucesso do casamento. O homem é visto como um acessório, e a mulher a peça central na manutenção da casa, educação dos filhos, gestão de conflitos, etc.

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Você ‘não’ tem que casar. Fonte: Blogueiras Feministas

O casamento é, por princípio, a união entre dois cidadãos – geralmente um homem e uma mulher-  para a formação de uma família.

O casamento produz a heteronormatividade. Reforça a heteronormatividade. Valida a heteronormatividade.

Descrevendo direitos e deveres distintos, o casamento prescreve os papéis que cada uma das partes deve exercer. Por um lado formalmente, uma vez que se estabelece por um contracto, e por outro, informalmente, através da nossa socialização que tem expectativas daquilo que uma esposa deve ser/ fazer e daquilo que deve ser/ fazer um esposo.

Mesmo em uniões homossexuais é comum vermos estes papéis sendo reproduzidos.

Por isso, o casamento é uma das ferramentas mais importantes e eficazes para a manutenção do Patriarcado. Afinal de contas, é no casamento que se definem os papéis de homem, mulher, pai, mãe, filho, filha, etc.

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Casamento machista tem salvação? Fonte: Escreva Lola Escreva

Claro que tudo isto é resultado de um processo histórico, mas ainda hoje assumimos que a mulher deixa de ser propriedade do seu pai, para passar a pertencer ao seu esposo. São resquícios de outros tempos que ainda se fazem sentir hoje.

Quando seremos propriedade de nós mesmas?

Eu não sei se eu, como mulher e feminista, poderei ser livre no casamento. Não sei se o casamento é um terreno fértil para as minhas ideias, o meu crescimento, para a mulher que me quero tornar. E mais, como seria o ‘esposo feminista’?

É difícil imaginar de facto um casamento em que um casal partilhe-se na sua essência, sem pensar no seu género, sem pensar nas expectativas criadas para que ‘aquilo’ – seja lá o que for – seja um casamento.

 

 

Assédio nosso de cada dia

Assédio nosso de cada dia

Todos os dias tem ouvimos e vivemos histórias de assédio, no entanto nada muda. Até quando?

Esta semana um caso insólito ocorreu no Brasil, na cidade de São Paulo dentro de uma viatura de transporte público. Um homem ejaculou em cima de uma passageira, e foi apanhado em flagrante e levado pela Polícia.

O que mais de admirou na história, não foi o seu desfecho (o agressor já está em liberdade), mas sim como a sociedade encara tais acontecimentos como normais.

Há alguns meses, a Énia, uma amiga passou por algo semelhante aqui em Maputo. Viajando num chapa apertado, um homem encostado a si, roçou-se no seu corpo e ejaculou para a sua roupa sem que ela tenha reparado ou alguém tenha feito algo para detê-lo.

Ao quebrar o silêncio, começando pelas pessoas mais próximas, surpreendeu-se pelas respostas que ouviu “Como pode isso acontecer sem tu notares?”; “Que roupa usavas quando isso aconteceu?”; “Porque não foste à esquadra naquele momento?”, enfim. Ela, a vítima, apontada como também culpada.

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Énia ousou tornar o seu caso público. Fonte: Énia Lipanga

Devido à natureza das nossas cidades, em que as zonas circundantes às cidades são sobrepovoadas e os centros das cidades são os locais de trabalho, estudo e negócios, é normal nos horários de ponta haver enchentes para os transportes públicos.

Isto, quando aliado à falta de transportes cria um terreno fértil para os operadores excederem livremente a lotação dos seus carros, facilitando situações de assédio entre os passageiros: carros muito cheios; pessoas ensardinhadas; falta de segurança; etc.

Por outro lado, facilita também o assédio por parte dos motoristas e cobradores. Muitos usam-se disso para atrair vítimas, oferecendo pequenos privilégios, como por exemplo o lugar do co-piloto (ao lado do motorista). É só vermos como nesses horários viajam adolescentes, meninas a ir ou vir da escola. Em troca dessa oferta, as mulheres têm de dar o seu contacto, ceder favores sexuais ou pelo menos ‘entreter’ o motorista, correspondendo às suas conversas.

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O assédio sexual no transporte público é um crime silencioso. Fonte: Jornal Notícias

Ou seja, para além das péssimas condições do transporte público (muitas vezes expostas ao Sol e/ou Chuva; sem segurança), as mulheres têm ainda de escolher entre aguardar em filas intermináveis, serem assediadas ou realizar actos sexuais.

No fundo o que aconteceu com a Énia e acontece com todas nós, não se difere daquilo que acontece nas praças públicas.

Diariamente somos bombardeadas com assobios, comentários, palavrões ou olhares ameaçadores. Este tipo de assédio muitas vezes vem disfarçado de elogio, como forma de querer dar um sentimento de culpa a nós mulheres, obrigando-nos a responder.

Seja um homem da classe operária ou um grande empresário; seja pobre ou rico; branco ou preto; todos eles nos impedem de exercer o nosso direito de ir e vir pacificamente.

Só que enquanto na praça pública temos ainda algum espaço para nos afastarmos, no transporte público já não existe essa separação. Somos forçadas a andar apertadas com os agressores, expostas aos seus abusos.

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Globalmente 120 milhões de meninas sofrem violência sexual. Fonte: Reuters

Mas ao passo que estas são formas talvez mais subtis e discretas de assédio, há outras mais violentas que mesmo assim passam impunes e às vezes até com aplausos de quem as assiste.

Uma forma comum de assédio, que acontece sobretudo em mercados ou terminais de grande enchente como por exemplo Xipamanine, Xiquelene e Benfica é levada a cabo por vendedores ambulantes ou controladores de carros, que atacam mulheres que se vestem de uma forma por eles reprovada.

Geralmente acontece com mulheres que usam decotes ou usam saias muito acima do joelho, que ao chamarem a atenção, têm as suas roupas rasgadas, o seu corpo todo apalpado e ainda são insultadas.

Os agressores – e seus cúmplices-  alegam que essas mulheres pedem isso devido aos seus trajes que vão contra os valores da sociedade, no entanto, eles acham-se no direito de atacar violentamente uma pessoa livre de usar o que quer.

Cartaz20_bigMuitas pessoas só assistem, e com sorte, na melhor das hipóteses alguém aparece a oferecer uma capulana para a vítima se cobrir. Contudo, a maioria desses casos nem sequer chega à esquadra.

 

Culpar a vítima é apenas uma forma de legitimar os crimes cometidos pelos agressores, são justificações que implicitamente nos mostram como a nossa sociedade relativiza os actos cometidos por homens adultos e conscientes.

O problema está na forma como construimos a noção de masculinidade, ligando-a à força e violência. O problema está na forma como deixamos os nossos meninos, jovens, homens crescerem e sentirem-se intitulados a ocupar todo e qualquer espaço, mesmo se for o espaço pessoal de alguém. Mesmo se for o corpo de alguém. Especialmente se for o corpo de uma mulher.

Começa com um olhar; uma piada; um comentário e quando damos por nós temos os nossos homens a invadir, violar, abusar dos nossos corpos diariamente.

O dia em que 20 000 rochas marcharam

O dia em que 20 000 rochas marcharam

Abafazi wathint ‘, (Quando se bate numa mulher)
Imbokodo wathint ‘, (Se bate numa rocha)
Uza Kufa! (Você será esmagado)

Fonte: KANDIMBA

 

Foi a 9 de Agosto de 1956 que a força das rochas se fez sentir na África do Sul.

Na altura o país vivia em regime de Apartheid, que privilegiava a minoria branca, em detrimento da maioria negra. E as mulheres caminharam em protesto em Pretória, na sede do Governo.

Aos brancos, detentores do poder, lhes era concedida educação de qualidade, acesso a hospitais e segurança, e o direito de viver e ocupar qualquer espaço. Já os negros não podiam circular livremente no território sul-africano, tendo os seus espaços devidamente delimitados.

Numa histórica marcha, que juntou cerca de 20 000 pessoas em Joanesburgo, as mulheres protestaram contra o uso de passes.

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Os primeiros passes foram instituídos em 1910. Fonte: South African History

Na época, a legislação sul africana exigia que todos os cidadãos não brancos provassem que tinham autorização para frequentar as áreas reservados aos brancos.

Os passes eram documentos que definiam os limites de circulação para os cidadãos não brancos na África do Sul, impedindo-os de andar livremente nos centros urbanos e estipulando zonas e horários onde podiam estar.

Os passes serviam para segregar as cidades através da gestão do meio urbano e do controle do êxodo rural. Com os passes, o regime controlava as entradas/ saídas das cidades, impedindo jovens negros de procurar emprego melhor nas cidades, bem como de encontrar melhores hospitais ou escolas.

Estas leis não só dificultavam o desenvolvimento emocional, social e intelectual das populações não brancas, como também impediam, de forma deliberada, que os poucos que conseguissem quebrar algumas barreiras se sentissem como os brancos.

Muitos homens negros eram presos, torturados ou mesmo assassinados quando encontrados nas zonas reservadas aos brancos sem os passes. Assim, era comum, nas zonas adjacentes às cidades, nos bairros periféricos habitados pela mão-de-obra que durante o dia trabalhava nas zonas reservadas aos brancos, que muitas mulheres ficassem a cargo da subsistência da família.

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As mulheres tiveram um papel central para o fim do Apartheid. Fonte: Africa.com

À semelhança do que aconteceu com outros países, na África do Sul, a ausência dos homens fez com que a estrutura familiar tradicional mudasse radicalmente. Os papéis de género foram desafiados e as mulheres passaram a ter uma posição mais central, com poder de decisão.

Como um sistema racista, capitalista e patriarcal, as mulheres negras eram o grupo mais oprimido. Eram elas que ocupavam os piores postos de trabalho, que viviam nas piores condições e que eram ainda responsáveis pela segurança e subsistência dos seus filhos.

Obrigando as mulheres negras a usarem os passes, o regime estava a empurrá-las para longe das cidades.

We, women, will never carry these passes. This is something that touches my heart. I appeal to you young Africans to come forward and fight. These passes make the road even narrower for us. We have seen unemployment, lack of accommodation and families broken because of passes. We have seen it with our men. Who will look after our children when we go to jail for a small technical offence — not having a pass?//

Nós, as mulheres, jamais andaremos com estes passes. Isto é algo que me toca o coração. Eu apelo a vocês, jovens africanas que avancem e lutem. Estes passes tornam a estrada ainda mais dura para nós. Nós vimos o desemprego; a falta de alojamento e famílias desfeitas por causa dos passes. Nós vimos com os nossos homens! Quem irá olhar pelos nossos filhos quando nós formos para a cadeia por uma pequena infracção- não ter o passe? – Dora Tamana, durante o protesto em 1956

As mulheres não queriam mais ter um papel submisso, pelo contrário, estavam dispostas a ir à luta para ter mais direitos e foi por isso que rapidamente as mulheres estiveram na vanguarda da resistência anti-apartheid.

A opressão racial levou as mulheres a não só ganhar consciência da sua cor de pele, mas também do seu género. Esta consciência deu vida a um movimento que se fortaleceu e não se calou.

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Mulheres de todas as raças e credos juntaram-se ao protesto. Fonte: GENI

Foram mulheres como Lilian Ngoyi, Helen Joseph, Rahima Moosa e Sophia Williams-de Brun, que tornaram o movimento possível, mobilizando mulheres de todo o país para saírem das suas casas e invadirem as ruas em protesto.

As quatro mulheres e o seu exército mostraram o poder que têm quando unidas: foram 100 000 assinaturas numa petição para entregarem ao Primeiro-Ministro da altura.

Mesmo em silêncio com os filhos nas costas, elas não se deixaram intimidar. Mesmo sobre o risco de perderem os seus empregos, mesmo arriscando as próprias vidas, elas foram à rua.

Mesmo enjauladas em cadeias, como Winnie Mandela, estas verdadeiras rochas fizeram uma muralha inquebrável que inevitavelmente derrubou o regime do Apartheid.

Por que importam as políticas afirmativas?

Por que importam as políticas afirmativas?

Recentemente nos Estados Unidos da América tem havido um debate sobre políticas afirmativas no que toca às admissões em Universidades, que de alguma forma podem estar a prejudicar os cidadãos americanos descendentes de asiáticos.

No centro do debate está a questão da necessidade de tais políticas e dos beneficiários.

Mas afinal de contas, o que são políticas afirmativas?

As políticas afirmativas são mecanismos usados para promover a inclusão e/ou protecção de um determinado grupo social que de outra forma, seria excluído e/ou privado de exercer um determinado direito. Geralmente as políticas afirmativas são direcionadas a afrodescendentes; mulheres; homossexuais, idosos; portadores de deficiência; etc.

Estes grupos são tratados de forma desigual em diversos sectores, e por isso as políticas afirmativas visam reparar essas disparidades de modo a criar condições para, a longo prazo, não ser preciso reafirmar os seus direitos.

 

Numa sociedade desigual em que há disparidades entre os diferentes grupos não podemos ignorar que a Constituição por si só é insuficiente para proteger todos os cidadãos.

Bem sabemos que há grupos distintos que sofrem violências diárias e não são protegidos pela Lei, e por isso é preciso criar outras leis para protegê-los e colocá-los em pé de igualdade com os restantes grupos sociais.

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As acções afirmativas no mercado de trabalho. Fonte: JUS

Por exemplo, em 1984 a União Europeia incentivou a inclusão e participação das mulheres no mercado de trabalho, em todos os sectores profissionais e em todos os níveis de liderança.

Desde então todos os Estados Membros têm criado mecanismos não só para encorajar a participação das mulheres, tais como por exemplo premiar empresas, como também para aproximar os salários de homens e mulheres.

A Índia, por sua vez, na primeira metade do séc. XX, aquando da sua independência introduziu um sistema de quotas para garantir acesso a empregos públicos e vagas em universidades a castas desprivilegiadas.

Este ano foi eleito um presidente Dalit, com 65% dos votos, Ram Nath Kovind, que segundo a cultura indiana é a casta mais inferior, dos ‘intocáveis’.

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Implementar políticas afirmativas é negar o princípio de igualdade?

Não, pelo contrário, é admitirmos que existem sim desigualdades e ignorar essas diferenças na nossa sociedade seria admitirmos a nossa cumplicidade com a perpetuação dos modelos actuais.

Se não encararmos a realidade corremos o risco de assistir, tal como aconteceu em séculos passados e começa agora a reaparecer, a manifestações explícitas de intolerância e preconceito. Estas manifestações são levadas a cabo sobretudo por grupos privilegiados  que pretendem manter o status quo, deixando os grupos marginalizados aquém do seu potencial de desenvolvimento.
Por outro lado, há que reconhecer a necessidade de oferecer equidade.

Cada cidadão cresce e se desenvolve num determinado grupo, onde tem acesso a certas oportunidades. Um cidadão que é educado em escolas privadas, nas férias viaja para o exterior; tira cursos de inglês na infância; tem acesso a computadores e internet, já tem uma vantagem na Universidade quando comparado a um cidadão que sempre estudou em escolas públicas, com pouco acesso a outras realidades ou línguas.

Por isso as políticas afirmativas procuram compensar essas circunstâncias que afectam aqueles em desvantagem, criando mais equidade.

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Existe meritocracia numa sociedade desigual? Fonte: Estadão

Por exemplo, um pouco por todo o mundo há que aceitar que existem grupos sistematicamente excluídos do mercado de trabalho, como é o caso dos portadores de deficiência física.

Quando foi a última vez que você viu uma professora com deficiência física? Quantas médicas você conhece que sejam portadores de uma deficiência física?

Talvez se houvesse uma política de afirmação que garantisse a este grupo o acesso a educação superior e/ou o acesso ao emprego, poderíamos ver estas pessoas a ocupar tais postos.

Finalizando, a razão de existir das políticas afirmativas é aumentar as oportunidades para cidadãos historicamente discriminados. As políticas servem para equiparar todos os cidadãos, de forma a assegurar uma vida digna a todos.

 

 

Pêlos, para que te quero!

Tudo começou quando eu tinha mais ou menos 13 anos.

Aos 13 anos eu já usava soutien. O meu corpo estava algures entre uma menina e uma mulher. Umas partes mais menina e outras mais mulher. Enfim, um corpo de quem estava a passar pela Puberdade. Esse corpo incluía pernas relativamente grossas, seios, acne e… pêlos!

Eu ainda me lembrou do dia.

Eu estava a fazer xixi e a minha mãe olhou para mim e imediatamente me informou que tinha chegado a hora de começar a fazer depilação. Ao que parece, a minha zona púbica tinha alcançado um estado socialmente constrangedor, pelo menos para ela.

Eliana, conheça gillette. Gillette, Eliana. Muito prazer.

Apresentações feitas, passámos ao que interessa: tirar os pêlos do meu corpo.

Nos meses seguintes fui descobrindo a arte de me depilar. Os tempos de intervalo; os pêlos encravados; as manchas na pele; os cortes; as partes mais e outras menos sensíveis à lâmina; etc.

Mais tarde descobri os cremes depilatórios; as bandas e finalmente, a temida cera.

 

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A primeira depilação ninguém esquece. Fonte: Pimenta no teu.. é refresco!

Seja com lâmina de barbear; cremes; cera ou laser, uma coisa é certa: depilação feminina é compulsória. Pernas, virilha, axilas e púbis devem ser zonas sem pêlos.A ideia de beleza no corpo feminino tal como ele é simplesmente não existe na nossa sociedade.

As axilas de uma mulher adulta têm pêlos. As pernas de uma mulher adulta têm pêlos. A virilha de uma mulher adulta tem pêlos.

Então por que somos obrigadas a fazer a depilação nessas partes do corpo?

Eu sempre cresci a ouvir explicações ligadas à higiene e cheiro dessas zonas e fui assimilando essas ideias para mim também.

Às minhas amigas ia dando recomendações; íamos trocando ideias e conselhos; encorajando essa guerra quase diária contra os terríveis pêlos.

Mas está mais do que provado que os pêlos têm uma função importante para a nossa saúde.

Os pêlos servem de protecção natural de certas zonas do nosso corpo e são uma resposta fisiológica da nossa espécie face a determinadas bactérias que seja por humidade ou devido ao calor, reproduzem-se mais facilmente nessas partes do corpo. Servem também para diminuir a fricção resultante do contacto de pele com pele (por exemplo ao andar).

Pensarmos que tirar os pêlos torna-nos seres mais limpos ou higiénicos é portanto, no mínimo ingénuo. E esse mesmo padrão de “higiene e cheiro” nunca se aplica aos homens.  Por que será?

Apenas às mulheres é cobrado um corpo sem pêlos. E nós cobramos isso de nós mesmas!

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Os descartáveis pelos das mulheres. Fonte: Casa da mãe Joanna

Por outro lado, há também a questão estética. Vivemos num mundo em que somos bombardeadas diariamente com imagens que correspondem a um padrão de beleza e queremos também segui-lo.

Nos anos recentes, com a internet e a propagação da pornografia houve uma influência daquilo que se vê nos filmes em como as mulheres se vêem na vida real.

Quantas vezes não recorri à minha amiga Gillette ao saber que tinha um encontro romântico nesse dia?

Nas revistas e TV também é raro vermos mulheres com pêlos. A imagem de uma mulher adulta ao natural raramente nos é apresentada.

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Depilação compulsória tem relação com pedofilia enraizada? Fonte: Radicalize
Vemos apenas a mulher infantilizada, sem pêlo algum como se fossse uma criança. Somos expostos a essa imagem vezes sem conta desde a nossa infância. E aprendemos a chamar nomes àquelas que escolhem não se depilar.

E está tão enraizado na nossa cultura patriarcal machista que a mulher acredita que de facto o seu corpo é mais bonito assim, que os seus pêlos são nojentos. Por detrás dessa preferência existe uma construção social que começa bem cedo, quando todas as roupinhas são cor-de-rosa, cheias de flores e lacinhos.

 

Aprendemos a odiar os nossos pêlos; os nossos cheiros; as nossas celulites; nossa menstruação; nosso cabelo natural; etc. E a luta para romper com esses padrões, para amar o nosso corpo tal como ele é, é constante.

O nosso corpo é desde cedo mutilado, manipulado, transformado para ser tudo menos “natural”: desde o furo na orelha quando ainda somos bebês; ao desenho da sobrancelha; passando pelo cabelo liso; o corpo escultural; a pele perfeita; as perna sem pêlos; etc.

E se a partir de hoje nos amássemos tal como somos, quantas indústrias não iriam à falência?