Às Maranzas como eu

Marandza, puta, vadia, interesseira… santa, púdica, convencida. No fim do dia, apenas mulher.

Essas classificações que nos dividem, nos categorizam e separam como as boas pra fuder e as boas pra casar. Isso é apenas uma manifestação da moralidade machista-patriarcal que tenta, desde o momento em que nascemos, até o momento da nossa morte, controlar os nossos corpos.

Afinal de contas quem nos define? Quem decide quem eu sou?

Se sou violada e exponho o meu violador, sou acusada de ser promíscua, de provocar, sou culpabilizada por deixar um criminoso cometer um crime! Se me assumo como um ser sexual que busca prazer de forma consensual e consciente, sou chamada de puta, oferecida, marandza.

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“Marandza”: pessoa que gosta; gostadeira.. Gosto sim. Sou marandza. Adoro abraços, beijos, presentes, elogios. Sou marandza. Gosto de livros, de um bom copo, uma boa festa.

E gosto de sexo também. Gosto de buscar prazer. Gosto de sentir o meu corpo ferver em contacto com outro corpo. Gosto do suor misturado, da saliva, dos gemidos, dos orgasmos.

Gosto e assumo o meu direito de dizer sim. Sim ao sexo, sim ao prazer, sim à minha liberdade sexual, sim ao meu direito de decidir sobre o meu corpo, sim, sim sim!

Sou marandza mesmo.

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Seja uma mulher livre. Fonte: CONTI outra

Às marandzas como eu, um brinde na conta do mano que pagou o Moet.

Um brinde às mulheres que não se deixam calar, que não se reprimem face aos ataques diários de quem não as conhece.

Um brinde às putas. Às que se vendem. Às que se trocam.

Um brinde àquelas que se dão só por dar. E não só dão, como também levam. Não só entregam, como também arrancam.

 

Brindemos. A nós.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

E por falar em poligamia…

E por falar em poligamia…

A implícita relação entre poligamia e violência.

Já escrevi aqui no blog sobre a poligamia e a necessidade de reflectirmos acerca deste estilo de vida tão comum em Moçambique.

Falamos em poligamia em termos económicos e em termos políticos, mas pouco ou nada se fala pela perspectiva de afecto: se existe afecto; como é que esse afecto se manifesta; como se constroem as relações de afecto dentro da família; etc.

E há algum tempo chegou-me um artigo (link abaixo) bastante interessante que correlacionava a poligamia à violência. Não é qualquer tipo de poligamia, mas sim a poliginia: um esposo e várias esposas.

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Casamentos múltiplos causam desigualdade e frustração. Fonte: The Economist

Olhando para o nosso contexto, as primeiras reflexões foram, obviamente ver como essa violência se manifesta: uniões forçadas com menores de idade; uso de meios financeiros para aliciar as famílias (lobolo); uso do casamento como forma de obtenção de mão de obra barata (especialmente para trabalhar a terra) e a violência física/ psicológica/ sexual a que muitas destas mulheres estão expostas uma vez casadas.

Mas isso é apenas a superfície da reflexão que nos é proposta. Pois, indo mais a fundo no estudo realizado, vemos que essa violência, que na verdade acontece no seio de várias famílias, dentro das próprias casas dessas mulheres, é apenas um lado da moeda. Existe ainda um outro lado, protagonizado pelos homens solteiros. Estes, frustrados pela sua falta de prestígio, muitas vezes expressam essa violência para fora das suas casas.

A poligina frustra os homens jovens, pois estes são obrigados a competir com os homens mais velhos (que puderam acumular riqueza ao longo do tempo) pelas mesmas mulheres (as que estão ainda em idade fértil).

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A poligamia ameaça a equidade de tratamento entre homens e mulheres. Fonte: Estadão

Cria-se por isso uma dinâmica em que as mulheres são pressionadas a casar cada vez mais cedo e os homens cada vez mais tarde. Por exemplo, se numa família há três rapazes e três raparigas, primeiro devem se casar elas, para que a família através dos lobolos acumule riqueza para então os rapazes escolherem as suas esposas.

E como ficam os rapazes sem irmãs? Ou aqueles cujas irmãs por N motivos não casam?

Esses rapazes casam-se ainda mais tarde, e geralmente com uma única mulher, num meio em que para ter algum prestígio/ reconhecimento é preciso casar mais mulheres. Como consequência, essa geração de homens jovens, pobres e solteiros, sem perspectivas de futuro – quando aliamos isto a outros factores como o fraco acesso a emprego; baixa escolarização; descrença nas lideranças políticas e pouca esperança no futuro – tornam-se muito vulneráveis a manifestações de violência.

No Sudão do Sul, por exemplo, onde o gado é usado quase como moeda e indispensável para a realização do casamento, é comum gangs de homens jovens roubarem cabeças aos homens mais velhos. Estes assaltos ocorrem geralmente com recurso a armas de fogo, e chegam a ser operacionalizados por organizações criminais.

Grupos violentos, como por exemplo Boko Haram/ Talibans/ etc com grande influência na Nigéria e Afeganistão, conseguem recrutar muitos homens jovens também pelas suas aspirações conjugais. Por se sentirem excluídos e desiludidos, é aliciante a sensação de poder e de causa. Para além disso, muitos desses grupos não só prometem valores para o pagamento dos casamentos, como também raptam jovens mulheres para servirem de esposas para os seus integrantes.

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A tradição é a justificativa para a perpetuação da poligamia. Fonte: WLSA

Então, várias ilações podemos tirar desse estudo que se podem aplicar ao nosso contexto… Numa primeira análise, sobre as dinâmicas intrafamiliares, como por exemplo a violência se manifesta através de conflitos; negligência; abusos; etc, e posteriormente sobre as dinâmicas fora da família, tais como conflitos intergeracionais, crime organizado e guerras, entre outros, podem estar relacionados.

 

Niketche: Uma história de Poligamia… e amor!

Niketche: Uma história de Poligamia… e amor!

No livro “Niketche: Uma história de Poligamia”, Paulina Chiziane conta-nos histórias de amor e redenção.

Contado na primeira pessoa, este romance traz-nos a voz de Rami, uma mulher de meia-idade que se vê infeliz no seu casamento com o ausente Tony, um homem dos altos quadros da polícia, que passa mais tempo fora de casa com outras mulheres.

Rami é uma mulher do Sul de Moçambique, criada com os valores cristãos coloniais, que no momento de crise conjugal, procura entender melhor a cultura tradicional que desconhece.

Rami reconhece que as mulheres são vistas como as culpadas de tudo, como a origem de todos os males que assolam a sociedade e por isso, se ela desistir do casamento, embora saiba que tem motivos de sobra para tal, será acusada de ser ela a causadora dos problemas.

“Quando não chove, a culpa é delas. Quando há cheias, a culpa é delas. Quando há pragas e doenças, a culpa é delas que sentaram no pilão, que abortaram às escondidas, que comeram o ovo e as moelas, que entraram nos campos nos momentos de impureza.”

Por isso, apesar de ter uma consciência do seu lugar subalterno como mulher tanto a nível privado, no seu casamento, na sua casa, na sua família, como a nível público, na sociedade em geral, Rami não quer, à partida, desafiar as normas patriarcais que regem a sua vida.

Rami toma a difícil decisão de procurar as mulheres que tanto afastam o seu marido. Ao início é fácil ver Rami como a vítima, porém, à medida que Julieta, Luísa, Saly e Mauá vão ganhando espaço na trama, as linhas desaparecem e torna-se cada vez mais difícil identificar culpados.

Ao conhecermos as histórias pessoais de cada uma delas, os seus dilemas, as suas dificuldades, as suas lutas e conquistas, evidencia-se que elas também são produtos da mesma ordem patriarcal que “vitimou” Rami e as colocou como rivais.

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‘Niketche’ fala sobre poligamia no Moçambique pós-colonial. Fonte: Desacato

Rami decide então institucionalizar o sistema poligâmico no seu casamento, unindo-se às outras mulheres do Tony, de modo a não perder o seu marido.

Rami, Julieta, Luísa, Saly e Mauá têm visões da vida e do mundo completamente diferentes. A forma como vêem o casamento, o conceito de amor e a experiência da sexualidade oferecem ao leitor uma dimensão de pluralidade cultural, e permite-nos olhar para cada uma delas como seres completos, indivíduos distintos com as suas particularidades.

As mulheres em Moçambique – de Norte a Sul – já nascem e crescem num ambiente em que o homem é o centro do Universo e que apenas através dele, elas podem se afirmar.

Contudo, apesar dos desencontros de costumes, tradições, etnias, apesar do contexto multicultural em que vivemos, as cinco mulheres, todas de origens distintas, mostram que existe um denominador comum: a opressão.

O sistema poligâmico é por si só uma contradição no livro. Pois se por um lado, é através da instauração da poligamia que as mulheres de unem, se ajudam e criam laços entre si, por outro, é também através da poligamia que reforçam a centralidade do Tony nas suas vidas.

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Paulina Chiziane Paulina Chiziane foi a primeira escritora a publicar um livro em Moçambique: Fonte: Nau Literária

Nesta encruzilhada entre os valores modernos e os valores tradicionais, Rami descobre-se, questiona-se, alarga-se. De mulher submissa e obediente, Rami passa a olhar-se ao espelho e a assumir um papel central na sua história, na sua casa, no seu casamento.

Rami passa a ser a primeira esposa, aquela que lidera, a mana mais velha que aconselha e consola as restantes. E neste processo de resgate do amor próprio, Rami ensina as outras mulheres a fazerem o mesmo exercício e a libertarem-se das garras opressoras que lhes limitam.

Por isso Niketche não é somente sobre poligamia, é sobre a força de um grupo de mulheres unidas; sobre a necessidade de auto-aceitação e perdão; sobre o rompimento e a reinvenção de tradições; sobre o diálogo intercultural… e sobretudo sobre amor.

“— Niketche?
— Uma dança nossa, dança macua — explica Mauá —, uma dança do amor, que as raparigas recém- iniciadas executam aos olhos do mundo, para afirmar: somos mulheres. Maduras como frutas. Estamos prontas para a vida! Niketche. A dança do sol e da lua, dança do vento e da chuva, dança da criação. Uma dança que mexe, que aquece. Que imobiliza o corpo e faz a alma voar: As raparigas aparecem de tangas e missangas. Movem o corpo com arte saudando o despertar de todas as primaveras.”

Meu voto feminista II

Meu voto feminista II

O meu voto feminista procura um candidato feminista para relacionamento sério e duradouro.

Eu quero um candidato generoso, paciente e solidário. Um candidato sensível às questões de base: saneamento; saúde; educação.

Eu quero um candidato pronto para facilitar as iniciativas dos cidadãos que estão a criar mudanças na nossa comunidade para responder a essas mesmas questões.

Eu quero um candidato que perceba as minhas necessidades e esteja disposto a trabalhar comigo para juntos arranjarmos soluções.

Caro candidato, saiba que para ter o meu voto terá de trabalhar muito. Eu sou mulher de me entregar facilmente quando quero, mas também sei gingar quando não me sinto segura.

E antes de se relacionar comigo deve saber que sou uma mulher feminista e o meu voto vem dessa consciência.

Para ter o meu voto, o candidato tem de me responder:

Existe uma política (e prática) de igualdade de género no seu gabinete? Se sim, qual? Se não, porquê?

Existem mulheres em cargos de decisão na sua equipa? Quantas? Essas mulheres são apostas reais na sua equipa a longo prazo? No fim do mandato, onde estarão estas mulheres? Qual será o resultado esperado?

Como é que o candidato irá abordar as questões de género e cruzá-las com outras discriminações (idade; origem étnica/nacionalidade; sexualidade; capacidade física)?

Mas mais do que um candidato atento aos meus interesses individuais, nós precisamos sobretudo de um candidato que possa fazer muito para um colectivo de pessoas.

E para se relacionar comigo, tem de saber que eu sonho em um dia construir família numa comunidade dinâmica, com actividades culturais e desportivas.

Eu sonho em andar por aí de mãos dadas com quem eu quiser sem ter medo de ser atacada ou ofendida. Como é que o candidato criará condições para tal?

Que tipo de apoio pretende dar às vítimas de violência? E que medidas preventivas serão colocadas em curso para evitar que tal aconteça?

E por falar em violência, como pretende fazer do espaço público um espaço seguro? Um espaço em que todas as mulheres possam exercer o seu direito de ir e vir, a qualquer hora, com qualquer roupa sem correr o risco de ser vítima de algum tipo de violência?

Como é que pretende tornar o espaço público mais limpo, amigo do ambiente e acessível por pessoas portadoras de deficiência?

Gostaria também de saber, como podemos criar condições para as mulheres abrirem negócios próprios, gerando renda para as suas famílias e contribuindo activamente para a nossa economia?

E mais, como ele vê o papel da mulher na economia informal? E o que podemos fazer para assegurar a prosperidade desses negócios?

O meu voto feminista quer um candidato capaz de fazer tudo isso.

Então se você acha que pode ser essa pessoa, que tem o perfil para construir essa relação comigo, me convide para sair.

 

O meu voto feminista

O meu voto feminista

Este ano dos 165 candidatos às 50 autarquias, apenas 5 são mulheres. Por que será?

Segundo dados do INE as mulheres representam mais de metade da população, portanto não podemos ficar excluídas das decisões a nível político. Dos cerca de 28,8 milhões de moçambicanos, 15 milhões são mulheres.

Segundo algumas vozes, as mulheres é que são as culpadas, pois não tomaram iniciativa, isto é, não se candidataram dentro dos próprios Partidos. Elas fazem parte das listas como membros das Assembleias municipais, mas não como cabeças de lista para os Municípios.

Apesar de a nossa Assembleia da República ser presidida por uma mulher e ter 40% de representatividade feminina, as mulheres ainda encontram muitas barreiras para gerarem mudanças. O acesso a posições de liderança ainda é bastante reduzido e isso vai desde o topo (Presidência; Conselho de Ministros; etc) até à base (Secretários de barro; Régulos/ Rainhas; etc).

Para além disso, nem sempre essa representatividade se reflecte em avanços para a vida das mulheres comuns. Não podemos ignorar o facto de as mulheres em posições de poder prestarem contas a instituições que são regradas por interesses que não dão prioridade às questões de género.

Ter mulheres em posições de poder é um passo sim, mas não nos podemos deixar ficar por aí. Devemos cobrar mais, não só a elas mas a todos os dirigentes.

Pois não basta só colocarem mulheres no poder, é importante combater as mentalidades patriarcais e sexistas que alimentam as desigualdades e as discriminações de género em todas as esferas.

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A limitada participação das mulheres tem como causas os factores históricos: a tradição e os parâmetros legais, juntos determinam os limites dos direitos, obrigações e liberdades das mulheres. Fonte: Fórum Mulher

As próprias mulheres no poder são vítimas dos interesses patriarcais que muitas vezes protegem. Elas são expostas a assédio verbal e escrutínio público pelo simples facto de serem mulheres: a roupa que vestem; como falam; como se sentam; se são casadas ou não; se têm filhos ou não; tudo isso é usado para descredibiliza o seu mérito.

Mesmo aquelas que não não entram na política ‘voluntariamente’ como por exemplo a Primeira Dama, são vítimas dessas pessoas defensoras da moral e bons costumes, da “cultura”.

E muitas vezes ouvimos discursos machistas e conversadores, vindos de quem está no poder. Usa-se sobretudo a cultura como escudo para travar avanços para as mulheres.

Em Moçambique as desigualdades de género estão associadas a factores culturais que ditam o papel das mulheres e limitam o nosso acesso à educação, ao mercado de trabalho, a património, etc.

Eu como mulher e como feminista gostaria de ver os meus interesses salvaguardados e não somente porque existem mulheres no poder, mas também porque essas mulheres têm nas suas agendas as questões de género destacadas.

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As taxas de analfabetismo são desproporcionalmente maiores entre mulheres (67%, versus 36% entre os homens) e são também as mulheres o grupo mais afectado pela extrema pobreza. Fonte: Opera Mundi

Uma coisa não podemos esquecer: todas as conquistas das mulheres foram por mérito próprio.

Ninguém “deu” às mulheres o direito ao voto; o direito à educação; à formação militar; etc. Todos os direitos foram reivindicados!

 

E para salvaguardar esses direitos que com tanto esforço, sangue e sacrifícios foram conquistados, devemos nos manter vigilantes e cientes do nosso papel como cidadãs deste país.

Se nós queremos uma sociedade mais justa, mais atenta às questões de género, teremos de fazer valer o nosso voto e cobrar isso de quem nos governar.

Hoje em dia muitas mulheres já têm consciência dos seus direitos e deveres. Contudo, apesar de haver uma moldura legal e uma aparente representatividade, a implementação dessas leis tem-se mostrado bastante frágil.

Não basta só colocarem lá as mulheres se depois vão instrumentalizá-las para favorecer a ordem em vigor.

Os nossos dirigentes precisam de pensar, por exemplo, sobre melhores formas para proteger as vítimas que denunciam violência doméstica; formas de melhor preparar as autoridades que recebem estas vítimas; mais segurança em espaços públicos; etc.

O meu voto é feminista!

 

… Resta saber se existe candidato feminista.

Vovó Kimpa

Vovó Kimpa

Relembrando Kimpa Vita, profetisa africana do Reino do Kongo, assassinada no séc. XVIII pela Igreja Católica

Kimpa Vita nasceu no Reino do Kongo, filha de uma família nobre e foi baptizada ainda pequena como Beatriz.

Desde a sua infância que apresentava sinais de ser uma pessoa especial e foi treinada como Nganga Marinda, uma curandeira capaz de curar com o poder das plantas e comunicar com o mundo espiritual.

Ainda jovem, começou a frequentar os cultos de Mama Mafuta, uma mulher mais velha, que também profetizava que se tornou sua mestre.

Num dos seus primeiros milagres, Kimpa Vita morreu e ressuscitou. Ao acordar, disse ter conversado com Deus e recebido uma missão: Acordar o povo do Kongo, unir o povo do Kongo e reconstruir a cidade de Mbanza Kongo. Como parte dessa missão, Kimpa deveria também abençoar um rei escolhido pelo povo do Kongo.

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Kimpa Vita foi treinada como curandeira. Fonte: African Heritages

O Reino do Kongo estava a ser ocupado por Portugal e no início do séc. XVII houve muitas guerras entre as duas forças.

Numa das guerras entre o reino do Kongo e Portugal, após a morte do rei Vita manda, o reino dividiu-se em dois, cada um liderado por uma ala da família real: Reino dos Kdompetelo e Reino dos Ndozuao.

A estrutura do reino do Kongo tinha o poder político bastante centralizado e por isso ambas alas disputavam o trono.

Ao mesmo tempo, Portugal solidificava a sua presença no reino e com isso, impunha também a sua religião.

O povo do Kongo era um povo muito ligado às suas tradições e à sua Filosofia, pelo que a Igreja Católica teve um papel importante no seu desmoronamento. Com o fim do cultos aos antepassados e com a separação do reino, o reino fragmentou-se.

O tráfico humano para a escravatura era um dos resultados das múltiplas guerras, pois os povos conquistados eram muitas vezes vendidos. Uma vez que a venda dessas pessoas trazia grandes lucros, as guerras nunca terminavam, criando assim um ciclo vicioso.

No séc. XVII a região do Kongo (actual Angola) era um dos maiores fornecedores de pessoas para a escravidão. Milhares de pessoas eram traficadas para o Brasil, Suriname e Estados Unidos da América.

O desafio de Kimpa Vita era acabar com a guerra civil e reerguer o Reino, encontrando um rei capaz de manter essa união.

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O pensamento religioso de Kimpa Vita continua actual. Fonte: Jornal de Angola

Depois da Batalha de Mbwila, em 1678 a cidade de Mbanza Kongo foi abandonada.

A cidade tinha – e até hoje mantém – um valor simbólico muito grande. Era lá onde estavam enterrados os falecidos reis e onde se localizava também a catedral. A reocupação de Mbanza Kongo representava por isso a restauração do reino do Kongo.

Kimpa começou a pedir a muitos dos seus seguidores para retornarem à capital original do reino e assim, a partir de 1705 a cidade passou a ser habitada novamente.

Até então era uma zona interdita às populações africanas.

Kimpa Vita resgatou o orgulho do povo do Kongo profetizando em Kikongo.

Reinterpretou a Bíblia, fazendo de Jesus um homem negro e disse que Deus falava com ela em Kikongo. Segundo ela, Mbanza Kongo era a antiga Jerusalém onde teria nascido Cristo e todos os profetas eram do Kongo.

Kimpa Vita se opôs à idolatração e adoração dos Santos Católicos e das imagens ocidentais promovidas pela Igreja Católica. Defendia o uso dos nomes originais do povo do Kongo, razão pela qual o seu nome de baptismo, Beatriz, nunca foi aceite por ela.

Profetizou também que, caso o povo do Kongo se convertesse ao Catolicismo acabaria dividido e ocupado, até desaparecer completamente para todo o sempre.

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Kimpa Vita ‘africanizou’ os ensinamentos bīblicos. Fonte: Wizi Kongo

Kimpa Vita foi bastante perseguida, especialmente pela Igreja Católica que gradualmente ocupava um lugar importante no poder político à medida que Portugal solidificava a sua presença no território.

Sofreu várias ameaças, até mesmo no seio do seu povo devido à conjuntura da época. As diferentes alas em disputa pelo trono temiam o seu poder, tendo em conta a sua influência na época.

Aproveitando-se disso, a Igreja Católica acusando-a de heresia e feitiçaria, queimou Kimpa Vita viva em 1706.

O seu legado como uma mulher que lutou pelas injustiças do regime colonial e a perseguição religiosa que sofriam todos aqueles que não seguiam o Catolicismo mantém-se vivo até hoje.

 

A Cleópatra do Uganda

A Cleópatra do Uganda

A coragem e vida da activista LGBT ugandesa Cleópatra inspiraram o filme “The Pearl of Africa/ A Pérola de África”

Quando o sueco Johnny Van Wallström começou a procurar material para o seu novo projecto, focou-se inicialmente num casal de dois homens homossexuais do Uganda. No entanto, com o tempo, um deles desistiu por se sentir culpado sabendo da vergonha e perseguição por que passariam os seus amigos e familiares.

Foi assim que o realizador do filme “The Pearl of Africa/ A Pérola de África”, acabou fazendo um documentário sobre Cleópatra, a activista e mulher transsexual que ele acompanha durante os meses que precedem a sua operação para mudança de sexo.

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O documentário surgiu primeiro como minissérie. Fonte: Abstract Friday

O documentário mostra Cleo e o seu namorado Nelson, um homem cis também ugandês e a sua jornada pela descoberta da sua ‘transexualidade’.

Ela reconta a sua infância e como sempre foi um menino afeminado e não se revia em nenhum dos padrões binários prescritos pela sociedade. De uma família grande, 12 irmãos, ela confessa que nunca se sentiu só, apenas se sentia diferente.

Diferente por não se rever em revistas, artistas, na TV ou na rádio. Diferente por sentir uma certa desconexão com o seu corpo. Diferente por não ter com quem partilhar as suas inquietações e sobretudo diferente porque era isso que ela era, diferente.

Na faculdade é que encontrou um nome para se descrever, nome esse que ela confessa não ter certeza se a representa: transexual. E foi assim que ela começou a investigar mais e a conversar com pessoas como ela, primeiro online e depois pessoalmente.

Nelson, o seu namorado, é um adorável rapaz heterossexual que também, através de Cleo, descobriu um pouco mais sobre si, sobre sexualidade e certamente sobre o amor.

Entre brincadeiras, dedos entrelaçados e sorrisos tímidos, é evidente o carinho que ambos têm um pelo outro. No documentário ambos falam das repercussões de assumirem publicamente o seu relacionamento: os comentários dos amigos; o afastamento da família; o julgamento de toda a sociedade.

Como assim uma mulher trans é merecedora de amor? Como assim um homem cis, que poderia ter “qualquer mulher” escolhe uma “menos mulher”? Como assim um homem cis e uma mulher trans de mãos dadas na rua?

Wallström faz-nos questionar tudo isto. Ele subtilmente, aponta a câmara para nós mesmos e confronta-nos com os nossos próprios medos e preconceitos; as nossas vergonhas e os desconfortos.

Há momentos no filme desconfortáveis. Momentos em que Cleo não quer ser filmada. Momentos em que Nelson não quer estar ali. Momentos em que nós queremos sair. Mas todos eles são importantes para sabermos como é a vida da Cleo.

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A activista mantém-se optimista sobre o futuro. Fonte: Huck Magazine

Como mulher trans Cleo é constantemente questionada sobre a sua feminilidade, como se estivesse sempre em fase de teste. Ao viajar, os seus documentos mostram ainda o género masculino e o seu nome dado à nascença, e ambos dados já não correspondem à actualidade.

Apresenta-se assim um problema maior: o Estado.

No Uganda, país onde Cleo nasceu e viver grande parte da sua vida, foi recentemente aprovada uma lei que proíbe e pune severamente quem pratica, protege ou incentiva relacionamentos homoafetivos. É proibido.

O casal vive no Quênia, onde gozam de maior protecção, mas mesmo assim ainda há muita ignorância e preconceito.

Cleo é africana e quer viver em África e permanecer em África a lutar pelos direitos LGBT.

Mais do que um documentário sobre a sua vida, o documentário “Pérola de África” é uma reflexão sobre a vivência da transexualidade numa África onde o ódio está na Lei e sobre as possibilidades de amor mesmo nesse contexto.