O dia em que 20 000 rochas marcharam

O dia em que 20 000 rochas marcharam

Abafazi wathint ‘, (Quando se bate numa mulher)
Imbokodo wathint ‘, (Se bate numa rocha)
Uza Kufa! (Você será esmagado)

Fonte: KANDIMBA

 

Foi a 9 de Agosto de 1956 que a força das rochas se fez sentir na África do Sul.

Na altura o país vivia em regime de Apartheid, que privilegiava a minoria branca, em detrimento da maioria negra. E as mulheres caminharam em protesto em Pretória, na sede do Governo.

Aos brancos, detentores do poder, lhes era concedida educação de qualidade, acesso a hospitais e segurança, e o direito de viver e ocupar qualquer espaço. Já os negros não podiam circular livremente no território sul-africano, tendo os seus espaços devidamente delimitados.

Numa histórica marcha, que juntou cerca de 20 000 pessoas em Joanesburgo, as mulheres protestaram contra o uso de passes.

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Os primeiros passes foram instituídos em 1910. Fonte: South African History

Na época, a legislação sul africana exigia que todos os cidadãos não brancos provassem que tinham autorização para frequentar as áreas reservados aos brancos.

Os passes eram documentos que definiam os limites de circulação para os cidadãos não brancos na África do Sul, impedindo-os de andar livremente nos centros urbanos e estipulando zonas e horários onde podiam estar.

Os passes serviam para segregar as cidades através da gestão do meio urbano e do controle do êxodo rural. Com os passes, o regime controlava as entradas/ saídas das cidades, impedindo jovens negros de procurar emprego melhor nas cidades, bem como de encontrar melhores hospitais ou escolas.

Estas leis não só dificultavam o desenvolvimento emocional, social e intelectual das populações não brancas, como também impediam, de forma deliberada, que os poucos que conseguissem quebrar algumas barreiras se sentissem como os brancos.

Muitos homens negros eram presos, torturados ou mesmo assassinados quando encontrados nas zonas reservadas aos brancos sem os passes. Assim, era comum, nas zonas adjacentes às cidades, nos bairros periféricos habitados pela mão-de-obra que durante o dia trabalhava nas zonas reservadas aos brancos, que muitas mulheres ficassem a cargo da subsistência da família.

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As mulheres tiveram um papel central para o fim do Apartheid. Fonte: Africa.com

À semelhança do que aconteceu com outros países, na África do Sul, a ausência dos homens fez com que a estrutura familiar tradicional mudasse radicalmente. Os papéis de género foram desafiados e as mulheres passaram a ter uma posição mais central, com poder de decisão.

Como um sistema racista, capitalista e patriarcal, as mulheres negras eram o grupo mais oprimido. Eram elas que ocupavam os piores postos de trabalho, que viviam nas piores condições e que eram ainda responsáveis pela segurança e subsistência dos seus filhos.

Obrigando as mulheres negras a usarem os passes, o regime estava a empurrá-las para longe das cidades.

We, women, will never carry these passes. This is something that touches my heart. I appeal to you young Africans to come forward and fight. These passes make the road even narrower for us. We have seen unemployment, lack of accommodation and families broken because of passes. We have seen it with our men. Who will look after our children when we go to jail for a small technical offence — not having a pass?//

Nós, as mulheres, jamais andaremos com estes passes. Isto é algo que me toca o coração. Eu apelo a vocês, jovens africanas que avancem e lutem. Estes passes tornam a estrada ainda mais dura para nós. Nós vimos o desemprego; a falta de alojamento e famílias desfeitas por causa dos passes. Nós vimos com os nossos homens! Quem irá olhar pelos nossos filhos quando nós formos para a cadeia por uma pequena infracção- não ter o passe? – Dora Tamana, durante o protesto em 1956

As mulheres não queriam mais ter um papel submisso, pelo contrário, estavam dispostas a ir à luta para ter mais direitos e foi por isso que rapidamente as mulheres estiveram na vanguarda da resistência anti-apartheid.

A opressão racial levou as mulheres a não só ganhar consciência da sua cor de pele, mas também do seu género. Esta consciência deu vida a um movimento que se fortaleceu e não se calou.

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Mulheres de todas as raças e credos juntaram-se ao protesto. Fonte: GENI

Foram mulheres como Lilian Ngoyi, Helen Joseph, Rahima Moosa e Sophia Williams-de Brun, que tornaram o movimento possível, mobilizando mulheres de todo o país para saírem das suas casas e invadirem as ruas em protesto.

As quatro mulheres e o seu exército mostraram o poder que têm quando unidas: foram 100 000 assinaturas numa petição para entregarem ao Primeiro-Ministro da altura.

Mesmo em silêncio com os filhos nas costas, elas não se deixaram intimidar. Mesmo sobre o risco de perderem os seus empregos, mesmo arriscando as próprias vidas, elas foram à rua.

Mesmo enjauladas em cadeias, como Winnie Mandela, estas verdadeiras rochas fizeram uma muralha inquebrável que inevitavelmente derrubou o regime do Apartheid.

Por que importam as políticas afirmativas?

Por que importam as políticas afirmativas?

Recentemente nos Estados Unidos da América tem havido um debate sobre políticas afirmativas no que toca às admissões em Universidades, que de alguma forma podem estar a prejudicar os cidadãos americanos descendentes de asiáticos.

No centro do debate está a questão da necessidade de tais políticas e dos beneficiários.

Mas afinal de contas, o que são políticas afirmativas?

As políticas afirmativas são mecanismos usados para promover a inclusão e/ou protecção de um determinado grupo social que de outra forma, seria excluído e/ou privado de exercer um determinado direito. Geralmente as políticas afirmativas são direcionadas a afrodescendentes; mulheres; homossexuais, idosos; portadores de deficiência; etc.

Estes grupos são tratados de forma desigual em diversos sectores, e por isso as políticas afirmativas visam reparar essas disparidades de modo a criar condições para, a longo prazo, não ser preciso reafirmar os seus direitos.

 

Numa sociedade desigual em que há disparidades entre os diferentes grupos não podemos ignorar que a Constituição por si só é insuficiente para proteger todos os cidadãos.

Bem sabemos que há grupos distintos que sofrem violências diárias e não são protegidos pela Lei, e por isso é preciso criar outras leis para protegê-los e colocá-los em pé de igualdade com os restantes grupos sociais.

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As acções afirmativas no mercado de trabalho. Fonte: JUS

Por exemplo, em 1984 a União Europeia incentivou a inclusão e participação das mulheres no mercado de trabalho, em todos os sectores profissionais e em todos os níveis de liderança.

Desde então todos os Estados Membros têm criado mecanismos não só para encorajar a participação das mulheres, tais como por exemplo premiar empresas, como também para aproximar os salários de homens e mulheres.

A Índia, por sua vez, na primeira metade do séc. XX, aquando da sua independência introduziu um sistema de quotas para garantir acesso a empregos públicos e vagas em universidades a castas desprivilegiadas.

Este ano foi eleito um presidente Dalit, com 65% dos votos, Ram Nath Kovind, que segundo a cultura indiana é a casta mais inferior, dos ‘intocáveis’.

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Implementar políticas afirmativas é negar o princípio de igualdade?

Não, pelo contrário, é admitirmos que existem sim desigualdades e ignorar essas diferenças na nossa sociedade seria admitirmos a nossa cumplicidade com a perpetuação dos modelos actuais.

Se não encararmos a realidade corremos o risco de assistir, tal como aconteceu em séculos passados e começa agora a reaparecer, a manifestações explícitas de intolerância e preconceito. Estas manifestações são levadas a cabo sobretudo por grupos privilegiados  que pretendem manter o status quo, deixando os grupos marginalizados aquém do seu potencial de desenvolvimento.
Por outro lado, há que reconhecer a necessidade de oferecer equidade.

Cada cidadão cresce e se desenvolve num determinado grupo, onde tem acesso a certas oportunidades. Um cidadão que é educado em escolas privadas, nas férias viaja para o exterior; tira cursos de inglês na infância; tem acesso a computadores e internet, já tem uma vantagem na Universidade quando comparado a um cidadão que sempre estudou em escolas públicas, com pouco acesso a outras realidades ou línguas.

Por isso as políticas afirmativas procuram compensar essas circunstâncias que afectam aqueles em desvantagem, criando mais equidade.

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Existe meritocracia numa sociedade desigual? Fonte: Estadão

Por exemplo, um pouco por todo o mundo há que aceitar que existem grupos sistematicamente excluídos do mercado de trabalho, como é o caso dos portadores de deficiência física.

Quando foi a última vez que você viu uma professora com deficiência física? Quantas médicas você conhece que sejam portadores de uma deficiência física?

Talvez se houvesse uma política de afirmação que garantisse a este grupo o acesso a educação superior e/ou o acesso ao emprego, poderíamos ver estas pessoas a ocupar tais postos.

Finalizando, a razão de existir das políticas afirmativas é aumentar as oportunidades para cidadãos historicamente discriminados. As políticas servem para equiparar todos os cidadãos, de forma a assegurar uma vida digna a todos.

 

 

Pêlos, para que te quero!

Tudo começou quando eu tinha mais ou menos 13 anos.

Aos 13 anos eu já usava soutien. O meu corpo estava algures entre uma menina e uma mulher. Umas partes mais menina e outras mais mulher. Enfim, um corpo de quem estava a passar pela Puberdade. Esse corpo incluía pernas relativamente grossas, seios, acne e… pêlos!

Eu ainda me lembrou do dia.

Eu estava a fazer xixi e a minha mãe olhou para mim e imediatamente me informou que tinha chegado a hora de começar a fazer depilação. Ao que parece, a minha zona púbica tinha alcançado um estado socialmente constrangedor, pelo menos para ela.

Eliana, conheça gillette. Gillette, Eliana. Muito prazer.

Apresentações feitas, passámos ao que interessa: tirar os pêlos do meu corpo.

Nos meses seguintes fui descobrindo a arte de me depilar. Os tempos de intervalo; os pêlos encravados; as manchas na pele; os cortes; as partes mais e outras menos sensíveis à lâmina; etc.

Mais tarde descobri os cremes depilatórios; as bandas e finalmente, a temida cera.

 

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A primeira depilação ninguém esquece. Fonte: Pimenta no teu.. é refresco!

Seja com lâmina de barbear; cremes; cera ou laser, uma coisa é certa: depilação feminina é compulsória. Pernas, virilha, axilas e púbis devem ser zonas sem pêlos.A ideia de beleza no corpo feminino tal como ele é simplesmente não existe na nossa sociedade.

As axilas de uma mulher adulta têm pêlos. As pernas de uma mulher adulta têm pêlos. A virilha de uma mulher adulta tem pêlos.

Então por que somos obrigadas a fazer a depilação nessas partes do corpo?

Eu sempre cresci a ouvir explicações ligadas à higiene e cheiro dessas zonas e fui assimilando essas ideias para mim também.

Às minhas amigas ia dando recomendações; íamos trocando ideias e conselhos; encorajando essa guerra quase diária contra os terríveis pêlos.

Mas está mais do que provado que os pêlos têm uma função importante para a nossa saúde.

Os pêlos servem de protecção natural de certas zonas do nosso corpo e são uma resposta fisiológica da nossa espécie face a determinadas bactérias que seja por humidade ou devido ao calor, reproduzem-se mais facilmente nessas partes do corpo. Servem também para diminuir a fricção resultante do contacto de pele com pele (por exemplo ao andar).

Pensarmos que tirar os pêlos torna-nos seres mais limpos ou higiénicos é portanto, no mínimo ingénuo. E esse mesmo padrão de “higiene e cheiro” nunca se aplica aos homens.  Por que será?

Apenas às mulheres é cobrado um corpo sem pêlos. E nós cobramos isso de nós mesmas!

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Os descartáveis pelos das mulheres. Fonte: Casa da mãe Joanna

Por outro lado, há também a questão estética. Vivemos num mundo em que somos bombardeadas diariamente com imagens que correspondem a um padrão de beleza e queremos também segui-lo.

Nos anos recentes, com a internet e a propagação da pornografia houve uma influência daquilo que se vê nos filmes em como as mulheres se vêem na vida real.

Quantas vezes não recorri à minha amiga Gillette ao saber que tinha um encontro romântico nesse dia?

Nas revistas e TV também é raro vermos mulheres com pêlos. A imagem de uma mulher adulta ao natural raramente nos é apresentada.

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Depilação compulsória tem relação com pedofilia enraizada? Fonte: Radicalize
Vemos apenas a mulher infantilizada, sem pêlo algum como se fossse uma criança. Somos expostos a essa imagem vezes sem conta desde a nossa infância. E aprendemos a chamar nomes àquelas que escolhem não se depilar.

E está tão enraizado na nossa cultura patriarcal machista que a mulher acredita que de facto o seu corpo é mais bonito assim, que os seus pêlos são nojentos. Por detrás dessa preferência existe uma construção social que começa bem cedo, quando todas as roupinhas são cor-de-rosa, cheias de flores e lacinhos.

 

Aprendemos a odiar os nossos pêlos; os nossos cheiros; as nossas celulites; nossa menstruação; nosso cabelo natural; etc. E a luta para romper com esses padrões, para amar o nosso corpo tal como ele é, é constante.

O nosso corpo é desde cedo mutilado, manipulado, transformado para ser tudo menos “natural”: desde o furo na orelha quando ainda somos bebês; ao desenho da sobrancelha; passando pelo cabelo liso; o corpo escultural; a pele perfeita; as perna sem pêlos; etc.

E se a partir de hoje nos amássemos tal como somos, quantas indústrias não iriam à falência?

 

Notas sobre o Amor Próprio

Notas sobre o Amor Próprio

Num mundo em que cada vez mais somos levados a aparentar ser algo mais do que o que realmente somos e somos empurrados a perseguir um estilo de vida supostamente universalmente ideal, o amor próprio é cada vez mais raro.

Muito mais facilmente procuramos nos outros coisas que nos façam gostar de nós. Procuramos lá fora motivos para estarmos confortáveis com a nossa essência, criando uma tensão constante dentro de nós.

Por isso o amor próprio é tão importante: dá-nos a confiança para enfrentar o mundo; assumir as nossas decisões; aceitar os nossos limites e procurar a melhor versão de nós todos os dias.

O nosso corpo

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Sobre o amor próprio: eu me basto. Fonte: Casa da Mãe Joanna

Talvez a primeira luta seja aquela por um modelo físico ‘mainstream’, aquele padrão que nos é ditado todos os dias pelas revistas; pela TV; pelas celebridades; etc. Até nas nossas casas: a gordofobia nossa de todos os dias; o colorismo; etc.

Especialmente para a mulher, cujo corpo é policiado constantemente existe muita pressão para fazer alterações ao seu corpo. Estas alterações podem parecer insignificantes/ normais, como é o caso da depilação ou dos furos nas orelhas, mas que também podem assumir facetas mais perigosas como o caso da mutilação genital.

Desde pequenas que somos alimentadas com estas ideias de que o nosso corpo tal como ele é não é suficiente. É como se o nosso corpo estivesse constantemente contra nós e fosse nosso direito (e dever) nos defendermos, mutilando-o.

Aceitar a nossa pele escura; o nosso cabelo crespo; as nossas estrias e os nossos seios assimétricos é a porta de entrada para a aceitação de outras partes mais íntimas de nós mesmas. Fazer as pazes como o espelho não é só libertador, é revolucionário.

Afinal de contas o nosso corpo é o espaço que ocuparemos até à nossa morte.

O nosso tempo

Com os Instagrams e Snapchats da vida parece que o sucesso está apenas a um passo de nós. É como se todos já tivessem encontrado o seu lugar ao Sol e nós ainda estivéssemos à espera da chuva passar, à procura de um guarda-chuva!

Existe um sentido de competição nada amigável que nos leva a apressar os nossos projectos porque não queremos ficar de fora. É essa pressa que nos obriga a ir por corta-matos que não nos permitem aprender as lições que precisaríamos para de facto sermos felizes com o resultado final.

Cada um de nós leva o seu tempo a alcançar as suas próprias metas – que não têm de ser iguais às dos outros – e a sentir-se confortável com a vida que escolheu. O mais importante é estar consciente dessas escolhas e assumir essa liderança do próprio caminho.

O respeito pelo nosso ritmo e processo de aprendizagem já é por si só uma prova de maturidade.

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Amor próprio é o seu primeiro romance. Fonte: Maria Chantal

Quantas vezes não deixamos de fazer certas coisas por medo de não sermos bem vistos/ aceites? O que foi que perdemos por nunca termos sequer tentado verbalizar as nossas vontades?

O amor próprio é uma força que nos liberta, pois permite-nos namorar, conhecer e ouvir o nosso EU.

Claro que mesmo o amor próprio exige negociação constante, pois somos feitos de contradições. Hoje sou amarelo, amanhã quero azul. Então fico-me pelo verde. É importante pautar sempre pela cordialidade e paciência até connosco mesmos.

Pedir ajuda, ouvir conselhos, há espaço para tudo isso, mas a decisão é apenas de uma pessoa.

É urgente amar na primeira pessoa do singular, começando pelo espaço e pelo tempo.

 

Moolaade

Moolaade

No último filme de Sembene, o contador de histórias senegalês traz-nos um tema polémico e bastante actual: circuncisão feminina, ou por outras palavras, a mutilação genital feminina.

O filme “Moolaadé” passa-se numa pacata aldeia do Burkina Faso quando, após fugirem do ritual de purificação, quatro fugitivas se refugiam em casa de Collé, uma mulher que anos antes não deixou que a filha participasse do ritual.

Collé para proteger as meninas lança um feitiço de nome Moolaadé, que funciona como asilo espiritual, impedindo as meninas de voltarem para o local do ritual, até que o feitiço seja quebrado com a palavra mágica que apenas por ela pode ser proferida, sobre o risco de grandes desgraças acontecerem.

 

 A segunda de três esposas, Collé tem de defender e negociar a sua posição primeiro para a sua irmã mais velha (a primeira mulher) e para os restantes habitantes da casa, e depois para as mães das meninas e toda a comunidade em geral.

Collé, com as suas dores e cicatrizes, ameaça a ordem social naquela pacata vila e isso assusta os demais. Ela é acusava de ser demoníaca por defender algo que contradiz os ensinamentos religiosos e as tradições ali instaladas.

Através do conselho de anciões, os homens mais velhos opõem-se ao feitiço lançado por Collé, chamando-a de imprudente e de desequilibrada. E forçam o seu marido, que reconhece a sua força e por ela tem muito amor, a humilhá-la em praça pública para provar o seu domínio sobre a esposa ‘desobediente’.

Evidencia-se aqui o poder que os homens têm – ou procuram ter – sobre as mulheres, os seus corpos e as suas decisões. Seja de marido para esposa; de irmão para irmã; de filho para mãe ou mesmo de um simples desconhecido para uma mulher qualquer.

 


Misturam-se motivos culturais; religiosos; mitos e factos numa trama trágica e simultaneamente cómica que retrata a vida e dinamismo de uma aldeia típica africana.

Sembene traz-nos todos os contrastes e contradições desta vivência.

Se por um lado Collé é uma mãe ousada, com audácia para desafiar as normas impostas, por outro é também uma mulher bastante convencional, que vive um casamento poligâmico e faz um casamento arranjado para a filha.

Se temos de um lado uma vila com uma herança islâmica presente em todas as esferas da vida, temos também uma forte influência das religiões tradicionais africanas, em que o Moolaadé tem muito poder.

E embora a aldeia pareça estar parada no tempo e isolada de tudo, a presença de aparelhos de rádio, que trazem notícias de todo o mundo e do filho do régulo que regressa da França vestindo fato e gravata sempre que sai de casa, provam que não se pode viver fechando os olhos ao que se passa lá fora.
Mais do que um filme político, Moolaadé é um manifesto para a celebração de uma cultura africana que não cause prejuízo às mulheres.

O filme prova-nos como a cultura africana, os seus mitos e tradições não funcionam somente para oprimir, mas também para libertar. A nossa heroína com apenas um acto de resistência leva toda a vila a questionar, debater e conversar sobre um assunto até então tabu.

Sembene, mais uma vez, dá a conhecer uma África para além de toda a sua pobreza e agonia. Uma África de coragem e encanto, cujas respostas estão lá escondidas, no meio de toda a opressão à espera de serem descobertas.

 

Homossexualidade não é importação

Homossexualidade não é importação

A homossexualidade é Africana e não importada, como costumamos ouvir por aí.

No continente Africano é muito hostil com a homossexualidade. Nos anos mais recentes, vários foram os países, tais como o Malawi, Uganda e Nigéria que proativamente aprovaram ou reforçaram leis que proíbam a homossexualidade.

Os motivos para tal prendem-se sobretudo com valores sociais e religiosos.

Do lado social, há dois aspectos a considerar: o primeiro é que vivemos em sociedades em que se valoriza muito o matrimónio e a procriação, e uma vez que as relações homoafetivas não permitem que se viva (pelo menos não da forma tradicional) estes processos, são desvalorizadas e vistas como inválidas; e o segundo é que vivemos em sociedades em que o conceito de indivíduo praticamente não existe, pois todas as decisões, rituais, direitos e deveres são vividos em comunidade.

Nesse sentido, uma vez que a experiência da homossexualidade é muito íntima e pessoal, algo vivido de forma isolada e que não acontece no colectivo, ela passa a ser invisível e até mesmo desprezível.

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A homofobia não é africana. Fonte: Rede Angola

Mas acima de tudo isso, um dos maiores argumentos, senão o maior argumento utilizado para a oposição à garantia de direitos iguais aos casais homossexuais é o facto de se considerar a homossexualidade como algo novo, importado do Ocidente.

Outro argumento comum prende-se com as escrituras sagradas. Seja no Islão ou no Cristianismo, segundo os africanos que praticam estas duas religiões, o seu Deus não aprova relacionamentos homoafetivos. Isso é coisa do Diabo.

Mas se tanto o Islão como o Cristianismo como religiões, isto é, como formas organizadas de se praticar a fé, foram forçados no continente, então temos também de aceitar que não fazem parte da ‘cultura’ africana.

Se supostamente, a homossexualidade é um conceito estrangeiro a África. Então se assim for, também o é a homofobia.

A homofobia foi-se proliferando com o Colonialismo através da formalização do poder europeu na África.

Na Nigéria, tal como em outras ex-colónias britânicas, a lei vitoriana que invoca sodomia e homossexualidade, os homossexuais podem ser condenados a até 14 anos de prisão. Isto, quando aliado às mensagens proliferadas pelos líderes religiosos, cria um ambiente em que ataques violentos a homossexuais são aceitáveis.

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A tradição do casamento entre mulheres nas sociedades Igbo não pode ser negada. Fonte: Black Agenda Report

Contudo, é importante ressalvar que as relações homoafetivas tanto entre homens como entre mulheres já existiam nas sociedades pré-coloniais.

No livro “Boy-wives and Female husbands – Studies in African Homosexualities”, os autores descrevem extensivamente a pluralidade de ‘homossexualidades’ reconhecidas no continente.

Em Angola, naquilo que eram os Reinos de Matamba e do Congo, no séx XVII, eram reconhecidos os supostos homens que se sentiam e viviam como mulheres, ou seja travestis, chamadas de “quimbanda”. Às travestis era permitido vestirem-se e viverem como mulheres, recebendo homens em suas casas para terem relações sexuais.

Na Nigéria, mais precisamente nas sociedades Igbo, era comum relações entre mulheres. Nestas relações, embora uma mulher representasse a figura masculina, tendo de assumir o dote, as divisões de papéis não eram como aquelas que vemos nas relações heterossexuais. Estas relações regiam-se sobre um código próprio e completamente legitimo, reconhecido por toda a comunidade.

Ou seja, a homossexualidade como conhecemos hoje podia não existir. Designávamos por outros nomes e usávamos outros parâmetros, mas estava lá.

Quando os Europeus chegaram à Europa desenharam esta imagem das pessoas africanas como primitivas e sem cultura, filosofia ou conhecimento para dar ao mundo. Nessa linha de pensamento, como seres primitivos, a única razão para nos relacionarmos sexualmente era a procriação. Afinal de contas é assim com os animais.

E nós fomos nos (sub)desenvolvendo com esta imagem de nós mesmos, pensando que em África não existem humanos complexos, com emoções, vivências e ideias progressivas.

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Na África do Sul o casamento entre pessoas do mesmo sexo é previsto por lei. Fonte: BBC

Num continente tão grande e diverso como África, não é de admirar que haja também uma pluradidade de homossexualidades e heterossexualidade. Estes conceitos, bem como os de género nos acompanham há muito tempo e já sofreram alterações face aos processos históricos e ao desenvolvimento das nossas sociedades.

No entanto, não podemos continuar a viver como se não fosse nossa “cultura” abraçar a diversidade e complexidade de vivências que podem existir – e existem! – ao nosso redor.

Como sociedade temos de fazer melhor, precisamos de melhor.

Países como a África do Sul estão na vanguarda dos direitos LGBT+ em África, pois aproveitaram a época de libertação para garantir direitos fundamentais a todos os cidadãos, sem distinção no que toca a raça, credo, género, sexualidade, etc.

Então, mais do que perceber se a vivência da homossexualidade é ou não compatível com o conceito de Africanidade, talvez seja mais importante nos perguntarmos:

Por que é que somos tão resistentes à ideia de existirem africanos homossexuais?

 

Primeiro te amam. Depois te matam.

Em todo o mundo homens heterossexuais matam as suas parceiras em nome do amor. 

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Karabo sofria abusos frequentes do namorado. Fonte: Sunday Times SA

A jovem Katabo Mokoena, sul africana de 27 anos foi encontrada morta, com o corpo totalmente desfigurado, após 10 dias de busca.

A sua cara foi desconfigurada com ácido, e logo a seguir, o seu corpo foi incendiado com o auxílio de um pneu. O seu namorado confessou ter mutilado o seu corpo, embora negue o assassinato em si.

Segundo fontes, ele era um moço do bem, bastante simpático que tinha conquistado até a confiança da família.

No entanto, quando estavam apenas os dois, ele era um homem abusivo, e que a própria namorada já tinha aberto queixa contra ele.

Na África do Sul o risco de feminicídio é dos mais altos do mundo. É o quarto país do mundo em que as mulheres estão mais vulneráveis a serem assassinadas.

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Karabo entra na lista extensa de mulheres assassinadas pelos parceiros na África do Sul. Fonte: Drum SA

Os índices de feminicídio em todo o mundo são assustadores.

Em Moçambique no ano passado, dois casos chamaram a atenção do público em geral à problemática da violência doméstica. Foi o ataque sofrido por Josina Machel, onde a vítima perdeu a vista no olho direito e o assassinato de Valentina Guebuza nas mãos do seu marido.

Este ano, a violência doméstica em Moçambique assumiu outra cara ao se popularizarem casos de mulheres que mataram os seus parceiros. Mas estes casos são de longe marginais, quando analisamos o grande volume de casos em que as mulheres são as vítimas.

Embora seja pertinente apontar a masculinidade tóxica como o ponto central para a problemática e aliarmos isto ao contexto social em que vivem muitas famílias moçambicanas, é igualmente importante falarmos do nosso conceito de amor.

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Romantismo, paixão e atração sexual não são sinónimos de amor. Fonte: Organizando o Caos

No seu livro “Vivendo de Amor”, bell hooks argumenta que não temos uma definição saudável de amor. Existe uma confusão entre amor e fraqueza; atracção sexual; possessão enquanto na verdade para haver amor, é preciso honestidade; respeito mútuo, cuidado e compromisso.

 

Nesse sentido não pode haver verdadeiramente amor num contexto de poder, pois para tal tem de haver submissão de uma das partes. E quando uma das partes é submissa, a possibilidade de se tratarem como iguais termina.

Para mais, a autora defende que o amor deve ser uma escolha.

Em relações de família, amizade, o amor deve ser voluntário e não uma obrigação. Mas pelo contrário, desde a nossa infância somos condicionados a “amar” as pessoas do nosso meio, seja por gratidão ou laços sanguíneos.

Muito do desespero que juventude sente a respeito do amor, vem da crença que eles estão a fazer tudo certo, mas o amor ainda não aconteceu. O esforço para amar e ser amado produz stress, conflito e descontentamento perpétuo. – bell hooks

E porque o nosso conceito de amor está intimamente ligado a esse esforço e a essa impaciência, olhamos para as nossas relações como formas de tapar os nossos vazios e alimentar o nosso ego.

É daí que vem também o sentimento de posse de outrém, que uma vez perdido, procuramos atirar a culpa a factores externos sem reconhecermos o nosso papel e o acordo estabelecido entre as duas partes.

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Amor em tempos de feminismo. Fonte: Capazes

Na cultura pop, seja em músicas ou em filmes, é-nos alimentada essa imagem que prescreve os papéis de cada um dentro de uma relação romântica. Especialmente quando se tratam de relações heterossexuais.

Segundo esse ideal, o homem é o conquistador e a mulher a conquistada. É o homem quem detém o poder e ela que se submete ao poder dele.

Estes padrões, quando aliados a outros factores já mencionados e discutidos, como o conceito de masculinidade e o desamparo social, cria condições férteis para o estabelecimento de relações tóxicas, nada saudáveis, marcadas por disputas entre as partes para haver um dominador e um dominado.

Ninguém mata por amor. O que mata é o poder.