O Mamilo Falador

O Mamilo Falador

Era uma vez um mamilo falador. Estava constantemente a falar só pra se fazer presente. Muitas vezes levantava-se só para dizer:  “Está Frio!” ou “Passou aqui vento!”

O mamilo falador era muito elegante e charmoso. Falava num tom eloquente e por vezes até sedutor.

Isso incomodava muita gente, especialmente as pessoas cujos mamilos não possuíam tais talentos.

Então puseram o mamilo falador na prisão! Já não se ouvia mais o mamilo na praia, nos escritórios, e até dentro de casa ele estava proibido de falar. Na maioria dos casos só o deixavam à vontade na intimidade do quarto ou da casa-de-banho.

Não era uma vida nada fácil pra ele.  Vivia fechado, apertado numa cela escura solitária. Afinal qual era o crime do mamilo falador? Ele não ofendia ninguém, não matava e nem roubava… ele apenas sorria, chorava, saltava, enfim.. existia!

O mamilo falador só queria ser livre.

Libertem o mamilo.

Flores no Concreto

Engraçado como construímos muros, passeios, estradas e achamos que vamos destruir as plantas.

E mais engraçado ainda é que as plantas não recuam, não desistem, não morrem. Elas simplesmente aguardam a altura certa para a sua ressurreição.

Mesmo perante todas as dificuldades há plantas que teimam em crescer no concreto. Com pouca luz, pouca água, por vezes muito lixo e urina, lá estão elas: verdes, brilhantes, firmes.

Muitas vezes sozinhas, muitas vezes isoladas.

“são só ervas daninhas”

“é só capim”

Dizemos nós e quando damos conta, elas se multiplicam, elas florescem.

É assim também que vejo o activismo. Activistas são pessoas que mesmo contra todas as probabilidades teimam em lutar pelas suas causas e ideais. Pessoas que conseguem sobreviver e acima de tudo FLORESCER em ambientes muitas vezes hostis à sua existência.

Agradeço aos activistas que todos os dias me inspiram a manter-me viva. Que continuemos a florescer.

EU ESCOLHI VIVER

Deitei fora o meu batom roxo,
aquele roxo dormente do meu olho inchado
sobre a almofada encharcada de dores secretas,
na constante esperança de reconciliações incertas.

Não quero mais o sapato vermelho,
daquele sangue que manchava a minha face,
enquanto gritava por socorro
e os vizinhos se encondiam.
Não ouviam.
As minhas tias se riam.

Ninguém lhes disse que tínhamos pés
e não raízes a tocar o chão.
Ninguém lhes contou que havia diferença
entre violência e paixão.

Eu escolhi viver.

Eu escolhi viver sem a água salgada
das minhas lágrimas a embalar os meus filhos,
num barco de papel sem destino.

Eu escolhi viver sem a culpa pesada
do véu e grinalda,
do beijo e a chapada.

Desculpem-me,

#EuEscolhiViver.

Por onde andas Paulina?

Por onde andas Paulina?

Os homens de caneta na mão enchem as prateleiras empoeiradas das livrarias moribundas.
Os enviados de Deus vendem conhecidas soluções a problemas antigos.
E nada dos teus livros!

Paulina! Paulina!
Choro. Imploro. Grito.

Nas ruas, entre livros adormecidos sobre as raízes teimosas no concreto quebrado,
as páginas soltas de romances à espera de um final feliz me consolam.

Percorro a cidade numa dança frenética batendo em todas as portas à tua procura.

Alguém viu Paulina? Paulina está?

Os meus pés mexem-se ao ritmo de um batuque de esconjuro. Eu corro. Salto. Ando. Tropeço. Caio.

Silêncio.

No fim, uma voz diz-me:
Estou aqui! Estou aqui!

Andava mesmo a pensar em ti.

Chimamanda, de novo

Chimamanda, de novo

Meu terceiro livro da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, desta vez “Purple Hibicus” (Hibisco Roxo).

Tive o prazer de ler este livro num vôo de 16h e não fosse por ele, não sei se teria sobrevivido à viagem!

A história segue uma família pelos olhos de Kambili, a filha de 15 anos. Apesar de ser um homem respeitado na sua comunidade, o pai é abusivo dentro da sua casa para com a sua esposa e os seus filhos.

Kambili é uma adolescente em conflito: ela idolatra o pai, admira o seu carácter e faz de tudo para ganhar o seu respeito e aprovação, mas por outro lado, também cultiva um medo profundo por ele e sabe que o que ele faz não está certo.

O título do livro vem da flor que a sua tia tinha no seu quintal em Enugu, onde Kambili e o seu irmão Jaja se tornaram livres, o hibisco roxo.

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O livro começa como um filme de suspense. Embora não saibamos ainda o que se passa, dá para sentir que algo está mal. Uma energia pesada no ar. O abuso nunca é directamente referenciado, apenas a descrição do sofrimento: os gritos, as marcas, a loiça partida e todo o trauma que permanecia.

Até o abuso de poder do Estado aparecia apenas como uma força invisível, mas omnipresente.

A religião também aparecia como uma força abusiva e opressiva.

E no olhar de Kambili, a filha mais nova, vamos descobrindo tudo isso na sua inocência. Sem as palavras certas, sem a maturidade para reconhecer as diferentes violências e sem o apoio necessário para denunciá-las.

Eugene ou simplesmente Papa, um homem defensor dos direitos humanos, um empresário de sucesso, um católico exemplar e ao mesmo tempo um esposo abusivo, um pai violento, um filho reprovável, um irmão ausente.

A tirania do pai, Papa, pode ser assemelhar até à tirania da Nigéria, como Estado: em casa, é um homem poderoso e temido por todos, que se usa do seu lugar de poder para abusar física e verbalmente de toda a sua família. E lá fora, é um homem poderoso e admirado por todos, que usa do seu lugar de poder para ajudar e desenvolver a sua comunidade.

Aliás, Papa não se diferente de muitos líderes africanos aplaudidos e premiados internacionalmente, mas déspotas impunes a nível doméstico. Os abusos de muitos desses tiranos eram conhecidos, no entanto, era conveniente ignorar as evidências pelos ganhos individuais (com especial atenção a parcerias econômicas – papo para outro dia).

E Papa, embora tentasse esconder, deixava sempre marcas visíveis do abuso que impunha sobre os seus.

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Embora mais tarde Kambili consiga encontrar as palavras certas, a sua vontade de reconciliação e aprovação são mais fortes.

Eu adorei o livro porque Adichie consegue humanizar até o pior do vilões. É fácil odiar e nos colocarmos num patamar superior, assumirmos que temos um compasso moral mais digno… A prática da empatia é um exercício doloroso. Mas com as palavras de Adichie, é possível entender e quiçá até perdoar o pai abusivo.

Se nós estivéssemos na mesma posição, seríamos diferentes?

 

Que caminhos para as nossas filhas?

Que caminhos para as nossas filhas?

“Daughters who walk this path” de Yejide Kilanko traz a história de Morayo da sua infância à idade adulta

Este é o primeiro livro da autora nigeriana Yejide Kilanko. Morayo, a protagonista, cresce no seio de uma família alargada em Ibadan, rodeada de primos e tios, para além dos colegas e vizinhos que com ela partilham as alegrias da infância ao ar livre.
Aos 12 anos a sua vida muda completamente: ela é violada por um primo. Embora ela e o primo sejam criados como irmãos, o primo ameaça Morayo e força-se a ela repetitivamente.
Enquanto a vida de Morayo parece chegar ao fim mesmo antes de começar, todo o mundo parece alheio às mudanças em si.
Por fim, ela consegue contar aos pais, que rapidamente mandar o primo, Bros T embora. Mas o trauma fica nela como uma cicatriz: sempre com ela, mesmo quando a dor desaparece, a cicatriz esta lá como lembrança.
As mulheres na vida de Morayo ajudam-lhe a viver com o trauma. Até as que se mantiveram imóveis, como a sua mãe, também carregam em si o peso de tamanha violência na vida daquela menina.
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Morato tem de enfrentar o caminho para a vida adulta sozinha. Fonte: Star Tribune
No inicio Morayo não vive bem com a sua cicatriz. Sente-se sozinha, deprimida e rejeitada. Não tem com quem falar e aos poucos vai-se afastando de tudo e de todos.
O silêncio e tabu colocam-lhe em isolamento, presa à sua culpa e vergonha. É precisamente nesse espaço de isolamento, onde em nome da tradição, moral e bons costumes, a segurança e liberdades pessoais (das mulheres) são hipotecadas em nome da paz familiar e manutenção da comunidade.
É aqui onde a rede de mulheres serve de base para o seu crescimento, especialmente a tia Morenike. Tia Morenike entende a dor de Morayo, pois ela também carrega uma cicatriz idêntica. E é o seu exemplo e a sua amizade que em muito servirão Morayo na sua jornada pessoal.
É através da tia Morenike que ela se desprende dessas correntes, tomando o seu papel e assumindo a sua verdade, não como vítima, mas sim como sobrevivente.
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Yejide Kilanko mostra que com o apoio de outras mulheres, sobreviventes podem ter a coragem para continuar em frente. Fonte: Brittle Paper
Kilanko consegue localizar a trama na Nigéria cronologicamente, não ficando alheia ao contexto da história. A autora consegue abordar temas como democracia e corrupção com naturalidade, sem tirar o foco à protagonista.
Na verdade, podemos equiparar o corpo de Morayo ao proprio país. Enganaram-se os que achavam que o inimigo dos nigerianos estava no estrangeiro, pois logo logo conflitos tribais fizeram derramar muito sangue. Da mesma maneira, o tão temido violador não foi um estranho qualquer, mas sim uma pessoa próxima, que dividia o mesmo tecto que a vítima.
A violência que Morayo sofre dentro de casa nada mais é senão reflexo da sociedade violenta em que ela vive.
Num outro momento, esta realidade mostra a sua cara. Morayo está no mercado com a tia Morenike e de repente, a caminho de casa, um camião de soldados pára e todas as mulheres e meninas correm para o mato, pois sabem que os soldados raptam, violam e mutilam mulheres à vontade, protegidos pela impunidade dos seus uniformes.
Na Nigéria – tal como em Moçambique – o pior inimigo não está lá fora, mas sim entre nós.
As tensões e tendências da sociedade reflectem-se directamente na vida das mulheres – que opções de carreira têm; que expectativas são nelas depositadas; que possibilidades existem; que ideia de sucesso carregam; que patrimônio lhes é permitido ter/ acumular; a que espaços têm acesso; etc.
Entrelaçam-se tradição, tribalismo e misoginia, na manutenção do sistema Patriarcal que ameaça diariamente a vida de tantas meninas e mulheres.
Que caminhos para as nossas filhas? Que marcas deixaremos para elas seguirem?

 

Pelo direito a ser “má de cama”

Pelo direito a ser “má de cama”

Mulheres de todas as idades, de todos os estratos sociais, de todos os contextos profissionais contribuem para o crescente mercado de produtos e serviços eróticos. Os produtos e serviços vão desde aulas e sessões de aconselhamento a brinquedos sexuais, óleos e estimulantes e até danças.

Importante referir que eu mesma sou uma pessoa que gosta de se aventurar e de experimentar coisas novas sexualmente. E não me poupo na pesquisa – que envolve também “trabalho de campo” – para melhor perceber o fenómeno.

Em meios progressistas e talvez até feministas o mesmo acontece. Com outros nomes talvez, mas em moldes bastante parecidos. Exercita-se na verdade liberdade sexual (ou a busca disso): a mulher que diz sim, que experimenta, que se permite, que se conecta com o seu lado reprimido – ou, como muitas vezes ouvimos, a mulher sexualmente empoderada.

Mas o que isso significa de facto? Como vive esta mulher? Quem é ela? O que ela quer? Esse tal empoderamento como é que se manifesta?

Tenho visto que a tal mulher empoderada, ‘rainha da porra toda’, muitas é apenas mais uma mulher que hipoteca a sua sexualidade. Ou seja, o tal de empoderamento não trouxe libertação alguma.

Afinal de contas todo o investimento em aulas de rebolado, aulas disto, aulas daquilo, até aulas de broxe não são para ela, mas sim para o parceiro. Sexo é algo que se faz para outrém e não para si. Porque ele é que tem de atingir o clímax, sexo é para ele se satisfazer, ela é apenas um depósito onde ele vai despejar o seu “sagrado” sémen.

A mulher quer apenas ser o melhor depósito de sémen possível. Aquela que rebola mais – já que está em relação de rivalidade com todas as outras mulheres – aquela que lhe chupa mais, a que lhe permite fazer mais, fazer tudo o que ele quiser, mesmo que pague com o seu próprio desprazer.

A “boa de cama” que deixa o homem louco de prazer, praticamente imobilizado – tal acéfalo ser – hipnotizado pelos malabarismos e mutilações corporais daquela mulher, a “boa de cama”.

E nessa fixação em ser a “boa de cama”, caímos na armadilha da alienação da nossa própria sexualidade, do nosso próprio prazer. O nosso orgasmo não passa de um bónus e isso quando temos! Entendemos que “sexo foi bom” porque ele gemeu como nunca tinha gemido, porque ele gozou como nunca tinha gozado. Ou seja, sexo não faço para mim ou por mim, mas sim em relação a ele.

Para quê?

A promessa é simples: Faça o seu parceiro gozar e ele será “seu” para sempre. Ele nunca procurará mais ninguém. E se procurar, sempre vai voltar para si.

Ou seja, continuamos à procura do ‘homem prendido/ domesticado’. É essa mesma lógica que mantém mulheres bem sucedidas reféns de homens que não lhes respeitam porque um dia – um dia! – ele vai mudar.

Manas, não se enganem: Submissão voluntária não deixa de ser submissão.

Então, sejamos más de cama sim. Péssimas até, se for preciso.

Sejamos egoístas na cama. Sejamos preguiçosas. Sejamos nós mesmas, sem restrições nem medo. Sem precisarmos de validação e aprovação alheias.

Sejamos as que não sabem rebolar. Ou sabem e não querem. Ou não sabem e nem querem saber. Sejamos as que não gostam de broxe. Não dão broxe. Não querem saber de broxe.

Sejamos quem nós de facto queremos ser. Na cama. E fora dela.

 

 

 

 

Ilustração: Mickalene Thomas