Ponte minha

Ponte minha,

De ti quero apenas os abraços apertados dos reencontros.

Traz-me boas notícias sobre os teus ombros erguidos,

Nesses braços longos que a todos aperta.

 

Katembe de lá, daqui

Mais perto dos meus olhos.

Deixarei no mar as manhãs longas em fila para chegar,

Mapapai gelados da cacimba matinal,

Terei saudades, mas vou deixar.

 

Ponte minha,

De ti quero só os beijos da Baía

Nos fins de tarde alaranjados de Sol e Lua sobre nós.

De mãos dadas seguir e amar-te até ao meu fim.

 

Katembe hoje e amanhã,

Darei os passos necessários para te descobrir.

Maputo ontem e hoje,

Estarei mais perto para te ver sorrir.

Poesia no Feminino

Poesia no Feminino

SÓYA (Conceição Lima)

Há-de nascer de novo o micondó —
belo, imperfeito, no centro do quintal.
À meia-noite, quando as bruxas
povoarem okás milenários
e o kukuku piar pela última vez
na junção dos caminhos.

Sobre as cinzas, contra o vento
bailarão ao amanhecer
ervas e fetos e uma flor de sangue.

Rebentos de milho hão-de nutrir
as gengivas dos velhos
e não mais sonharão as crianças
com gatos pretos e águas turvas
porque a força do marapião
terá voltado para confrontar o mal.

Lianas abraçarão na curva do rio
a insónia dos mortos
quando a primeira mulher
lavar as tranças no leito ressuscitado.

Reabitaremos a casa, nossa intacta morada.

MOÇA DAS DOCAS (Noémia de Sousa)

Somos fugitivas de todos os bairros de zinco e caniço,
Fugitivas das Munhuanas e dos Xipamanines,
viemos do outro lado da cidade
com nossos olhos espantados,
nossas almas trancadas,
nossos corpos submissos escancarados.
De mãos ávidas e vazias,
de ancas bamboleantes lâmpadas vermelhas se acendendo,
de corações amarrados de repulsa,
descemos atraídas pelas luzes da cidade,
acenando convites aliciantes
como sinais luminosos na noite,

Viemos…
Fugitivas dos telhados de zinco pingando cacimba,
do sem sabor do caril de amendoim quotidiano,
do doer de espádua todo o dia vergadas
sobre sedas que outros exibirão,
dos vestidos desbotados de chita,
da certeza terrível do dia de amanhã
retrato fiel do que passou,
sem uma pincelada verde forte
falando de esperança,

Viemos…
E para além de tudo,
por sobre Índico de desespero e revoltas,
fatalismos e repulsas,
trouxemos esperança.
Esperança de que a xituculumucumba já não virá
em noites infindáveis de pesadelo,
sugar com seus lábios de velha
nossos estômagos esfarrapados de fome,
E viemos….
Oh sim, viemos!
Sob o chicote da esperança,
nossos corpos capulanas quentes
embrulharam com carinho marítimos nómadas de outros portos,
saciaram generosamente fomes e sedes violentas…
Nossos corpos pão e água para toda a gente.

Viemos…
Ai mas nossa esperança
venda sobre nossos olhos ignorantes,
partiu desfeita no olhar enfeitiçado de mar
dos homens loiros e tatuados de portos distantes,
partiu no desprezo e no asco salivado
das mulheres de aro de oiro no dedo,
partiu na crueldade fria e tilintante das moedas de cobre
substituindo as de prata,
partiu na indiferença sombria da caderneta…

E agora, sem desespero nem esperança,
seremos em breve fugitivas das ruas marinheiras da cidade…

E regressaremos,
Sombrias, corpos floridos de feridas incuráveis,
rangendo dentes apodrecidos de tabaco e álcool,
voltaremos aos telhados de zinco pingando cacimba,
ao sem sabor do caril de amendoim
e ao doer do corpo todo, mais cruel, mais insuportável…

Mas não é a piedade que pedimos, vida!
Não queremos piedade
daqueles que nos roubaram e nos mataram
valendo-se de nossas almas ignorantes e de nossos corpos macios!
Piedade não trará de volta nossas ilusões
de felicidade e segurança,
não nos dará os filhos e o luar que ambicionávamos.
Poedade não é para nós.

Agora, vida, só queremos que nos dês esperança
para aguardar o dia luminoso que se avizinha
quando mãos molhadas de ternura vierem
erguer nossos corpos doridos submersos no pântano,
quando nossas cabeças se puderem levantar novamente
com dignidade
e formos novamente mulheres!

VIERAM MUITOS (Ana Paula Tavares)

“A massambala cresce a olhos nus”

Vieram muitos
à procura de pasto
traziam olhos rasos da poeira e da sede
e o gado perdido.

Vieram muitos
à promessa de pasto
de capim gordo
das tranqüilas águas do lago.

Vieram de mãos vazias
mas olhos de sede
e sandálias gastas
da procura de pasto.

Ficaram pouco tempo
mas todo o pasto se gastou na sede
enquanto a massambala crescia
a olhos nus.

Partiram com olhos rasos de pasto
limpos de poeira
levaram o gado gordo e as raparigas.

E ASSIM PASSAMOS A TARDE (Cecília Meireles)

E assim passamos a tarde
conversando coisas banais,
da superfície do mundo.

E estamos cheios de mistérios
que não comunicamos.
E assim morreremos, decerto.
E não dais por isso.

SONHO (Beatriz Nascimento)

Seu nome era dor
Seu sorriso dilaceração
Seus braços e pernas, asas
Seu sexo seu escudo
Sua mente libertação
Nada satisfaz seu impulso
De mergulhar em prazer
Contra todas as correntes
Em uma só correnteza
Quem faz rolar quem tu és? Mulher!…
Solitária e sólida
Envolvente e desafiante
Quem te impede de gritar
Do fundo de sua garganta
Único brado que alcança
Que te delimita
Mulher!
Marca de mito embotável
Mistério que a tudo anuncia
E que se expõe dia-a-dia
Quando deverias estar resguardada Seu ritus de alegria
Seus véus entrecruzados de velharias Da inóspita tradição irradias
Mulher!
Há corte e cortes profundos
Em sua pele em seu pelo
Há sulcos em sua face
Que são caminhos do mundo
São mapas indecifráveis
Em cartografia antiga
Precisas de um pirata
De boa pirataria
Que te arranques da selvageria
E te coloque, mais uma vez,
Diante do mundo
Mulher.

Para Titina Silá

Para Titina Silá

Em homenagem a Titina Silá, assassinada a 30 de Janeiro de 1973, guerrilheira do PAIGC, partilho aqui alguns poemas de autores Guineenses.

“Quando te procuro”

Vejo-te em todas as faces quando te procuro.

Entre a multidão, encontro-te

Tão profunda como a esperança

Em cada criança

A tua face desce serena e promissora

Como o futuro.
Quando te procuro

Encontro-te no homem

Que se procura.

Nas lutas

Nas mãos que removem dolorosamente a terra

Nas lágrimas que comovem o sol

Nos passos-passos que caminham como o ferro

Encontro-te como a vida, como flor!
Quando te procuro

Encontro-te nas alamedas verdes que se agigantam

Nas veias da flor

Na cor manda dos lagos

No perfume viril e transparente da atmosfera

No olhar vertical e penetrante da esperança 

Reencontro a tua presença 

Transparente e forte como a paz!
Encontro-te em todas as faces quando te procuro

Na eterna sinfonia da vitória

No canto rubro do Homem

Na aurora que cresce e cresce como a vida

Reencontro-te. Ardente e profunda como o amor!
Entre a multidão que caminha

Entre o canto e o sangue que chora

Procuro-te e encontro tão caro o teu nome

Liberdade!

Hélder Proença 
“Anónimo”

Vida,

Tecido

Ué se desfia

Ao sabor

Dos House

Tristes obtemos

Que desejamos

Eternos amanhãs.

Vida,

Perpétua lida

De fins sem fim

… Encima!

Como ondas do mar

Que nos escapam

E nos escapam

Sem parar

É cada fluxo

É um sorriso

Que o refluxo

Apaga 

Do nosso olhar.

Jorge Cabral


“Eu sou tudo e sou nada”
Eu sou tudo e sou nada.
Mas busco-me incessantemente,
– não me encontro!
Ó farrapos se nuvens, passarões não alados,

Levai -me convosco!

Já não quero esta Cida.

Quero ir nos espaços

Para onde não sei.

Amílcar Cabral
 

The taste of love

As I kiss your skin

seasoned with my salty sweat

I can’t help but wonder

Which spices have brought you here?

What flavours have you tasted like?

The smell of your love on me

fills me inside

like a waterfall

waiting to start

running from its rage

 

Give me a spoonfull of your destiny

So I can delight myself

with your sweet eyes

every day

every night.