Meu voto feminista II

Meu voto feminista II

O meu voto feminista procura um candidato feminista para relacionamento sério e duradouro.

Eu quero um candidato generoso, paciente e solidário. Um candidato sensível às questões de base: saneamento; saúde; educação.

Eu quero um candidato pronto para facilitar as iniciativas dos cidadãos que estão a criar mudanças na nossa comunidade para responder a essas mesmas questões.

Eu quero um candidato que perceba as minhas necessidades e esteja disposto a trabalhar comigo para juntos arranjarmos soluções.

Caro candidato, saiba que para ter o meu voto terá de trabalhar muito. Eu sou mulher de me entregar facilmente quando quero, mas também sei gingar quando não me sinto segura.

E antes de se relacionar comigo deve saber que sou uma mulher feminista e o meu voto vem dessa consciência.

Para ter o meu voto, o candidato tem de me responder:

Existe uma política (e prática) de igualdade de género no seu gabinete? Se sim, qual? Se não, porquê?

Existem mulheres em cargos de decisão na sua equipa? Quantas? Essas mulheres são apostas reais na sua equipa a longo prazo? No fim do mandato, onde estarão estas mulheres? Qual será o resultado esperado?

Como é que o candidato irá abordar as questões de género e cruzá-las com outras discriminações (idade; origem étnica/nacionalidade; sexualidade; capacidade física)?

Mas mais do que um candidato atento aos meus interesses individuais, nós precisamos sobretudo de um candidato que possa fazer muito para um colectivo de pessoas.

E para se relacionar comigo, tem de saber que eu sonho em um dia construir família numa comunidade dinâmica, com actividades culturais e desportivas.

Eu sonho em andar por aí de mãos dadas com quem eu quiser sem ter medo de ser atacada ou ofendida. Como é que o candidato criará condições para tal?

Que tipo de apoio pretende dar às vítimas de violência? E que medidas preventivas serão colocadas em curso para evitar que tal aconteça?

E por falar em violência, como pretende fazer do espaço público um espaço seguro? Um espaço em que todas as mulheres possam exercer o seu direito de ir e vir, a qualquer hora, com qualquer roupa sem correr o risco de ser vítima de algum tipo de violência?

Como é que pretende tornar o espaço público mais limpo, amigo do ambiente e acessível por pessoas portadoras de deficiência?

Gostaria também de saber, como podemos criar condições para as mulheres abrirem negócios próprios, gerando renda para as suas famílias e contribuindo activamente para a nossa economia?

E mais, como ele vê o papel da mulher na economia informal? E o que podemos fazer para assegurar a prosperidade desses negócios?

O meu voto feminista quer um candidato capaz de fazer tudo isso.

Então se você acha que pode ser essa pessoa, que tem o perfil para construir essa relação comigo, me convide para sair.

 

O meu voto feminista

O meu voto feminista

Este ano dos 165 candidatos às 50 autarquias, apenas 5 são mulheres. Por que será?

Segundo dados do INE as mulheres representam mais de metade da população, portanto não podemos ficar excluídas das decisões a nível político. Dos cerca de 28,8 milhões de moçambicanos, 15 milhões são mulheres.

Segundo algumas vozes, as mulheres é que são as culpadas, pois não tomaram iniciativa, isto é, não se candidataram dentro dos próprios Partidos. Elas fazem parte das listas como membros das Assembleias municipais, mas não como cabeças de lista para os Municípios.

Apesar de a nossa Assembleia da República ser presidida por uma mulher e ter 40% de representatividade feminina, as mulheres ainda encontram muitas barreiras para gerarem mudanças. O acesso a posições de liderança ainda é bastante reduzido e isso vai desde o topo (Presidência; Conselho de Ministros; etc) até à base (Secretários de barro; Régulos/ Rainhas; etc).

Para além disso, nem sempre essa representatividade se reflecte em avanços para a vida das mulheres comuns. Não podemos ignorar o facto de as mulheres em posições de poder prestarem contas a instituições que são regradas por interesses que não dão prioridade às questões de género.

Ter mulheres em posições de poder é um passo sim, mas não nos podemos deixar ficar por aí. Devemos cobrar mais, não só a elas mas a todos os dirigentes.

Pois não basta só colocarem mulheres no poder, é importante combater as mentalidades patriarcais e sexistas que alimentam as desigualdades e as discriminações de género em todas as esferas.

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A limitada participação das mulheres tem como causas os factores históricos: a tradição e os parâmetros legais, juntos determinam os limites dos direitos, obrigações e liberdades das mulheres. Fonte: Fórum Mulher

As próprias mulheres no poder são vítimas dos interesses patriarcais que muitas vezes protegem. Elas são expostas a assédio verbal e escrutínio público pelo simples facto de serem mulheres: a roupa que vestem; como falam; como se sentam; se são casadas ou não; se têm filhos ou não; tudo isso é usado para descredibiliza o seu mérito.

Mesmo aquelas que não não entram na política ‘voluntariamente’ como por exemplo a Primeira Dama, são vítimas dessas pessoas defensoras da moral e bons costumes, da “cultura”.

E muitas vezes ouvimos discursos machistas e conversadores, vindos de quem está no poder. Usa-se sobretudo a cultura como escudo para travar avanços para as mulheres.

Em Moçambique as desigualdades de género estão associadas a factores culturais que ditam o papel das mulheres e limitam o nosso acesso à educação, ao mercado de trabalho, a património, etc.

Eu como mulher e como feminista gostaria de ver os meus interesses salvaguardados e não somente porque existem mulheres no poder, mas também porque essas mulheres têm nas suas agendas as questões de género destacadas.

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As taxas de analfabetismo são desproporcionalmente maiores entre mulheres (67%, versus 36% entre os homens) e são também as mulheres o grupo mais afectado pela extrema pobreza. Fonte: Opera Mundi

Uma coisa não podemos esquecer: todas as conquistas das mulheres foram por mérito próprio.

Ninguém “deu” às mulheres o direito ao voto; o direito à educação; à formação militar; etc. Todos os direitos foram reivindicados!

 

E para salvaguardar esses direitos que com tanto esforço, sangue e sacrifícios foram conquistados, devemos nos manter vigilantes e cientes do nosso papel como cidadãs deste país.

Se nós queremos uma sociedade mais justa, mais atenta às questões de género, teremos de fazer valer o nosso voto e cobrar isso de quem nos governar.

Hoje em dia muitas mulheres já têm consciência dos seus direitos e deveres. Contudo, apesar de haver uma moldura legal e uma aparente representatividade, a implementação dessas leis tem-se mostrado bastante frágil.

Não basta só colocarem lá as mulheres se depois vão instrumentalizá-las para favorecer a ordem em vigor.

Os nossos dirigentes precisam de pensar, por exemplo, sobre melhores formas para proteger as vítimas que denunciam violência doméstica; formas de melhor preparar as autoridades que recebem estas vítimas; mais segurança em espaços públicos; etc.

O meu voto é feminista!

 

… Resta saber se existe candidato feminista.

Carta para Mamoudou

Carta para Mamoudou

Querido Mamadou,

Espero que esta carta te encontre bem.

Diz aos teus colegas que nós, imigrantes, levamos na mala apenas amor. É o amor à vida, à esperança, às possibilidades que nos leva a abandonar tudo e a enfrentar muros, grades e cancelas para entrar em outros países.

É o amor que nos faz limpar o chão e carregar blocos, pondo em risco a nossa própria saúde. E é o amor também que te move e que te levou até Paris.

Imagino o teu desespero ao deparares-te com o cenário: uma criança de apenas quatro ano pendurada de uma varanda e uma multidão de espectadores. Certamente alguém terá ligado aos Bombeiros, à Polícia, enfim, a alguém! É assim nos países onde as coisas funcionam: não precisamos de nos mexer muito, porque sempre vem alguém!

E afinal esse alguém foste tu! Quem diria!

Saíste do Mali ainda adolescente e de lá, ao teu passo, numa saga perigosa, quatro anos depois chegaste a França.

Gosto de pensar que, ao veres aquela criança pensaste “Eu não passei por tudo para ver uma criança a morrer assim!” e graças a ti, ela sobreviveu.

Mamoudou, a tua coragem e altruísmo são inspiradores. Mas temo por aquilo que possam fazer de ti.

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Imigrantes não deviam ter de ser Super-Heróis para merecerem respeito. Fonte: Afropunk

Embora reconheça e aplauda o teu acto heróico, não posso deixar de reconhecer também as teias de poder que te levaram até França, e fizeram de ti um cidadão de segunda-categoria.

O teu anonimato anterior ao episódio viral só evidencia o racismo estrutural em que há na França, onde um jovem imigrante não consegue um emprego digno até demonstrar qualidades super-humanas. Onde a cidadania é reservada apenas aos imigrantes que provarem de forma extraordinária que a merecem. Onde um imigrante africano apenas é digno de aplausos e respeito quando arrisca a sua própria vida para salvar um bebê, mas não quando arrisca a sua própria vida para salvar-se a si mesmo.

A narrativa actual que limita os imigrantes a ladrões, preguiçosos, bandidos é tóxica e racista. A narrativa actual que legitima a xenofobia… É só olharmos para o Brexit, para as políticas de migração na era Trump e para todos os muros que se fazem para impedir-nos de chegar ao Ocidente.

A narrativa que nos divide entre os bons e os maus imigrantes. E como tu Mamoudou, passaste para o lado dos bons. Tu agora já nem sequer és imigrante, és um cidadão francês. Tu agora falas com Presidentes.

Mas cuidado, não deixes que te usem como ferramenta para justificar os seus preconceitos, a sua afrofobia, porque nenhum ser humano, nenhum africano precisa de ser herói para ser bem tratado e ter o seu valor reconhecido.

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Governo Francês negligencia campos de imigrantes em Paris. Fonte: The Washington Post

Tu atravessaste perigos e oceanos, traficantes e ladrões e finalmente chegaste a França. Sem documentos e contando apenas com a generosidade daqueles que, como tu, se alimentavam apenas dos seus sonhos, vivias nos apertados arredores de Paris e aceitavas os poucos (e precários) trabalhos a que tinhas acesso.

Por isso não aceites a hipocrisia e cinismo de quem hoje te acolhe de braços abertos, contudo, aprova políticas repressivas contra imigrantes e especialmente contra imigrantes sem documentos.

Quando vemos um jovem imigrante como tu, muitas vezes é a matar ou a morrer, nunca a salvar ou a nascer.

Quando vemos um jovem imigrante como tu, muitas vezes vemos essa força física exibida de forma selvagem, como um defeito e tu mostraste que essa força física é na verdade um sinal de excelência e fonte de bravura.

Quantas vezes a força física dos corpos negros não foi usada para justificar a nossa exploração? Para deslegitimar as nossas conquistas?

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Mamoudou Gassama ganhou um estágio no Corpo dos Bombeiros de Paris. Fonte: The Guardian

Poucos de nós teríamos conseguido fazer o que fizeste. Poucos, mesmo que conseguíssem, talvez nem o tentassem. Por isso, parabéns!

Tu nos representaste na nossa forma mais nobre, delicada e ao mesmo tempo veloz e forte. Obrigada!

Espero que, na plataforma que agora tens, encontres um espaço para que a tua voz seja ouvida e para que outras vozes, que durante muito tempo foram silenciadas, possam também usá-la para que a sua humanidade seja reconhecida.

Com os melhores cumprimentos e um forte abraço,

Eliana N’Zualo

Mulheres com armas na mão

Mulheres com armas na mão

As Mulheres que foram à guerra e pegaram nas armas também merecem ser lembradas

Não podemos falar na emancipação da mulher sem falar na sua importância nas zonas de combate. No caso específico das lutas de libertação em África, vários países africanos se beneficiaram da sua presença em combate.

A presença das mulheres no mato, na guerrilha aconteceu de várias maneiras. Algumas aderiram porque foram com a família, com os parceiros; houve ainda as que aderiram aos movimentos de libertação por uma perspectiva de estudo e estratégia; houve as que foram obrigadas e houve também, como não podia deixar de ser, as que aderiram de foram voluntária por acreditarem na causa da auto-determinação das suas nações.

No entanto, grande parte dessas memórias foram apagadas e ficaram-se apenas as histórias dos heróis homens. E mesmo a história da presença das mulheres acabou sendo ofuscada pelo tom patriarcal que tomou, já que se vivia (ainda se vive) num contexto social de dominação masculina.

Infelizmente muito do que se conta hoje nos leva a crer que as mulheres foram aliciadas ou emparedadas pelos homens a fazerem parte da guerra, enquanto na verdade elas conquistaram esse espaço.

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A Mulher lutou pelo seu espaço na luta armanda. Fonte: Fundação Amílcar Cabral

O líder caboverdiano Amílcar Cabral admitiu, no Seminário de Quadros de 1969 que as mulheres foram se juntando aos homens, meio que de forma desorganizada, e que foram resistindo à pressão que havia para se afastarem. O PAIGC teve então de oficializar a sua presença na luta.

 

 

“(…) Portanto, o partido não pode fazer grande bazófia de que recrutou mulheres. Em geral, as mulheres é que vieram para a luta, o que dá muito mais valor à presença de mulheres no Partido.” – Amílcar Cabral

A mesma retórica encontramos em Moçambique em que se diz que foi o presidente Samora que “permitiu” que as mulheres pegassem nas armas, quando na verdade, elas enfrentaram todo o preconceito e barreiras criadas pelos colegas homens para estarem ali.

E para que os seus feitos não se apaguem da História, é importante que as lembremos delas, que falemos e enalteçamos a sua coragem e determinação. É também graças a elas que hoje usufruímos dos direitos que temos como cidadãos de plenos direitos.

Deolinda Rodrigues

20180324082455deolindaDe nome de guerra Langidila, Deolinda abandonou os estudos para se juntar à luta de libertação de Angola. Em 1961 começou a combater e em 1972 foi uma das co-fundadoras da Organização da Mulher Angola (OMA)

Como guerrilheira passou por Guiné Bissau, Congo Kinshasa e Congo Brazzaville. A 2 de Março de 1968 ao regressar de uma missão no mato foi capturada, juntamente com outras mulheres, por um grupo guerrilheiro angolano e executada em cativeiro. Celebra-se nessa data o Dia da Mulher Angolana.

Deixou os seus diários que relatam os desafios, vitórias e sacrifícios da sua vida como combatente da luta armada.

Emília Daússe

Emília Daússe foi uma guerrilheira moçambicana. Como jovem guerrilheira, foi das mais activas mulheres, tendo recrutado muitos combatentes na província de Tete.

Em pouco tempo alcançou posições de liderança. Após o seu treino político-militar na Tanzania em 1972, comandou um pelotão de cerca de 40 combatentes (homens e mulheres).

Morreu numa emboscada a 11 de Novembro de 1973.

Carmen Pereira

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Foi a primeira mulher presidente de um país africano quando em 1984 assumiu a presidência da Guiné Bissau por 3 dias.

Foi uma figura política importante, tendo lutado para a independência da Guiné Bissau através do PAIGC.

Foi uma líder de alto escalão político no país tendo passado por Presidente da Assembleia Nacional e Vice-Primeira -Ministra, entre outras posições.

 

 

 

Não quero rosas

Não quero rosas

No Dia Internacional da Mulher não quero rosas, quero direitos.

O dia 8 de Março começou sobretudo pela necessidade que (algumas) mulheres sentiram de reivindicar direitos trabalhistas, no séc. XIX e XX.

Ao mesmo que isto acontecia, outras reivindicações foram se tornando mais urgentes: o direito à participação política (eleger e ser eleita);  o direito à liberdade (para as mulheres escravizadas); o direito à independência (para as colonizadas); enfim… Foram vários os processos históricos que definiram estas lutas, mas a verdade é que foram vencidas.

O 8 de Março, mais do que uma celebração, é uma oportunidade para reconhecer e agradecer os sacrifícios feitos em nosso nome, em nome das mulheres que somos hoje para que pudéssemos simplesmente ser e existir.

 

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O Dia Internacional da Mulher é sobre paridade de género. Fonte: IWD

 

De que vale sermos bombardeadas com imagens bonitas e palavras doces no dia 8 de Março se temos menos oportunidades de crescimento pessoal e profissional?

Como se não bastasse, na verdadeira moda capitalista, a data agora é sinónimo de lucro para as empresas de cosméticos, floristas e afins.

Onde quer que estejamos, somos expostas a uma variedade de campanhas direcionadas a mulheres, disfarçadas de empoderamento, mas que na verdade não passam de formas de opressão mais sofisticadas.

Para mais, muitas ofertas e promoções só alimentam as grandes indústrias que não só lucram com as nossas inseguranças e paranóias, como lucram também com a nossa mão de obra barata.

Seja no seio familiar, no ambiente de trabalho, nas instituições de ensino, onde quer que estejamos, nunca estamos a salvo. Há sempre lutas a serem travadas para sermos ouvidas e reconhecidas como seres autónomos e donos das nossas vidas.

Não querendo estragar a festa, já estragando, vamos nos deixar de romantismos por favor. O 8 de Março não é pra ‘esquecermos’ as nossas dores, mas sim para reconhecê-las e quem sabe até curá-las.

Então vamos lá:

Mulheres não são as guardiãs da moral e bons costumes da sociedade.
Nem todas as têm vaginas.
Mulheres em relacionamentos homoafectivos não querem ser homens.
Mulheres podem vestir (e despir) o que quiserem.
Ser mãe e ser mulher não são sinónimos.
Mulheres também fazem cocó e arrotam.

Mulheres aspiram ascensão profissional

Muitas mulheres sentem-se e vivem completas sem um parceiro afectivo.
As mulheres conseguem derivar prazer e plenitude sozinhas.
O orgão sexual masculino não é o sonho de todas as mulheres.
Nem todas as mulheres gostam de cozinhar.
Para ser mãe não precisa de ser esposa de ninguém e nem de ter filhos biológicos

Nem todas mulheres foram feitas para serem donas de casa.
Nem todas as mulheres sonham em casar. Nem todas as mulheres querem ser mães.
Mulheres que usam roupa curta, não são necessariamente prostitutas nem querem a atenção de homens, podem simplesmente gostar.

Nem todas as Mulheres querem ser chamadas de ‘gostosas’ na rua
Nem todas as Mulheres querem ser magras

Nem todas as Mulheres querem ficar a conversar na cozinha com as outras

Nem todas as mulheres gostam de saltos altos ou roupas sexy.
Mulheres podem definir quem pode ou não tocar nos seus corpos.
O ‘não’ da mulher é não, não é sinónimo de charme.
Mulheres não devem obediência a ninguém.
Mulheres podem ser o que quiserem.

Mulheres não devem simpatia a ninguém.
Mulheres podem beber o que e o quanto quiserem.
Mulheres também podem ser ‘chefes de família’

Mulheres não precisam de autorização do marido para tomar qualquer decisão profissional.

Mulheres também gostam de futebol.

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Mulheres ainda enfrentam muitas dificuldades em comparação a homens. Fonte: Médicos Sem Fronteiras

Portanto, não quero rosas.

Não quero apenas ‘Parabéns’. Não quero celebrações. Não quero chocolates. Quero uma reflexão profunda sobre a situação real das mulheres de todo o mundo. Quero o fim de todo e qualquer tipo de discriminação baseada no género. Quero o fim do Patriarcado.

Quero andar na rua em segurança, a qualquer hora, com qualquer roupa. Quero o mesmo salário pelo mesmo trabalho.

Quero o fim das piadinhas machistas, das roupinhas cor-de-rosa, da imposição de um determinado padrão de beleza.

Eu quero apenas ser e existir.

 

Para Titina Silá

Para Titina Silá

Em homenagem a Titina Silá, assassinada a 30 de Janeiro de 1973, guerrilheira do PAIGC, partilho aqui alguns poemas de autores Guineenses.

“Quando te procuro”

Vejo-te em todas as faces quando te procuro.

Entre a multidão, encontro-te

Tão profunda como a esperança

Em cada criança

A tua face desce serena e promissora

Como o futuro.
Quando te procuro

Encontro-te no homem

Que se procura.

Nas lutas

Nas mãos que removem dolorosamente a terra

Nas lágrimas que comovem o sol

Nos passos-passos que caminham como o ferro

Encontro-te como a vida, como flor!
Quando te procuro

Encontro-te nas alamedas verdes que se agigantam

Nas veias da flor

Na cor manda dos lagos

No perfume viril e transparente da atmosfera

No olhar vertical e penetrante da esperança 

Reencontro a tua presença 

Transparente e forte como a paz!
Encontro-te em todas as faces quando te procuro

Na eterna sinfonia da vitória

No canto rubro do Homem

Na aurora que cresce e cresce como a vida

Reencontro-te. Ardente e profunda como o amor!
Entre a multidão que caminha

Entre o canto e o sangue que chora

Procuro-te e encontro tão caro o teu nome

Liberdade!

Hélder Proença 
“Anónimo”

Vida,

Tecido

Ué se desfia

Ao sabor

Dos House

Tristes obtemos

Que desejamos

Eternos amanhãs.

Vida,

Perpétua lida

De fins sem fim

… Encima!

Como ondas do mar

Que nos escapam

E nos escapam

Sem parar

É cada fluxo

É um sorriso

Que o refluxo

Apaga 

Do nosso olhar.

Jorge Cabral


“Eu sou tudo e sou nada”
Eu sou tudo e sou nada.
Mas busco-me incessantemente,
– não me encontro!
Ó farrapos se nuvens, passarões não alados,

Levai -me convosco!

Já não quero esta Cida.

Quero ir nos espaços

Para onde não sei.

Amílcar Cabral
 

Eduardo Paixão, o vendedor de utopias

Eduardo Paixão, o vendedor de utopias

O olhar do escritor face as utopias vividas em Moçambique nos anos 70.

Publicado em 1972, o livro “Cacimbo”, de Eduardo Paixão descreve os últimos anos de ocupação colonial portuguesa em Lourenço Marques (Maputo) seguindo os amores e dissabores de uma família portuguesa em Moçambique.

Um importante livro na sua época, pois capta as emoções e contradições de uma geração no meio de um conflito intenso e de várias mudanças, em todo o mundo. Assim, o autor explora os conceitos de (des)colonização; socialismo/ comunismo; identidade; nacionalidade e raça.

Nota-se no seu tom que o livro é mais um manifesto do que romance, na medida em que propõe uma acção ao leitor, fazendo denúncias aos princípios ultrapassados que justificavam o Colonialismo e evidenciando a necessidade de se criar uma nova realidade para Moçambique.

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Usando-se dos personagens para representarem determinadas figuras/ valores da sociedade, o autor então vende-nos esta nova realidade, a tal utopia, re-imaginando-os.

Por exemplo, D. Emília de Sucena, representa os valores da família e a figura da mulher-mãe na sociedade colonial: zelosa; ocupada com reuniões sociais, jantares e institutos de beleza.

O seu filho, Artur, representa a revolução: a juventude activa; o inconformismo;  a fúria e desgosto de quem se vê com poucas armas para defender os seus ideais.

Também o narrador, omnisciente, serve de porta-voz para a razão. Ele é que legitima todo o fundamento ideológico ao longo da história, mostrando não só o que o personagem verbaliza, mas também o que pensa.

No entanto, ao se tornar testemunha, o próprio narrador mostra algumas contradições, pois se por um lado condena o Colonialismo e sonha com um mundo em que todas as raças possam viver harmoniosamente, por outro é incapaz de denunciar as atrocidades e a brutalidade do Colonialismo Português.

Ainda que de forma sofisticada, Eduardo Paixão, procura sempre a visão luso-tropicalista do bom colonizador português.

“O nosso tradicional multirracialismo possibilitava-nos um presente de paz e amor” (p.132)

Pela voz de Anabela acrescenta, mais tarde:

“Felizmente nós [os portugueses] não praticamos a segregação racial que leva ao ódio e à destruição.” (p. 244)

A única figura racista no livro é D. Emília, que se vê desconfortável pelo seu filho namorar com uma rapariga negra.

“Era o maior desgosto da minha vida ver o meu filho casado com uma rapariga de cor.” (p. 126)

É por isso interessante cruzar todos os discursos e imaginar a tal utopia que nos tenta vender Eduardo Paixão. Que mundo é esse em que brancos e pretos vivem harmoniosamente? Como construir esse mundo em que brancos e pretos são igualmente livres?

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Literatura colonial em Moçambique: o paradigma submerso – Fonte: USP

Eduardo Paixão, como criador também é, ele próprio, a História. Pois é através do seu olhar que desenhamos a sua época. Por isso temos de digerir essas tensões que tanto o incomodam. Será Portugal um “bom colonizador”? Como repudiar o Colonialismo Português sem ser anti-Portugal?

É esta constante comichão que sentimos ao ler “Cacimbo”: um cansativo e desesperado exercício para defender um ideal sem ferir a realidade que conhece e que o molda.

Inserir os personagens, a narrativa e o próprio autor no devido tempo e espaço, com todas as ideias, preconceitos, contradições e transformações é essencial para perceber a obra.

As utopias descritas em “Cacimbo” continuam actual na medida em que a visão colonial ainda não foi concretizada e precisa de nós, desta actual realidade para se decidir – O que é isto de ser livre, afinal?