Sou mulher e sou moçambicana

Sou mulher e sou moçambicana

No dia da Mulher Moçambicana é importante refletir sobre o que nos torna quem somos. 

É a 7 de Abril, em homenagem a Josina Machel que celebramos o Dia da Mulher Moçambicana. Esta é a data da sua morte, do seu derradeiro sacrifício, e daí tamanha homenagem.

Mas tenho estado a pensar muito sobre o que é ser uma mulher; uma mulher em África; uma mulher em Moçambique é uma Mulher Moçambicana. O que é que faz de mim o que sou? Que partes me ampliam? Que partes me limitam?

Não sei… Mas sei que sou mulher e sou Moçambicana.

  
Mulher que usa roupa curta não presta. É puta. Mulher com muitos amigos homens é oferecida. É puta. Mulher não pode vestir o que quiser, senão é mal interpretada. É puta. Mulher não pode sair para beber um copo e dançar. É puta. Mulher não pode fumar. É puta. Mulher não pode ter quantos parceiros bem entender. É puta. 

Sou puta. Sou mulher e sou Moçambicana.

Mulher que estuda muito não serve para casar. É rebelde. Mulher que expõe a sua opinião não tem respeito. É rebelde. Mulher que vive a sua vida consoante os seus objectivos pessoais quer ser homem. É rebelde. Mulher que se coloca em primeiro lugar na sua vida não está boa. É rebelde. Mulher que se recusa a ser submissa não vai ter um casamento duradouro. É rebelde.

Sou rebelde. Sou mulher e sou Moçambicana. 

Mulher que não segue nenhuma religião tem marido espiritual. É feiticeira. Mulher que fica viúva e não segue os rituais de luto tradicionais quer dar azar à família. É feiticeira. Mulher que tem problemas de fertilidade não pode ser esposa. É feiticeira. Mulher que vive sozinha de forma independente tem algo de errado. É feiticeira.

Sou feiticeira. Sou mulher e sou Moçambicana.

Mulher que dorme muito não sabe gerir uma casa. É preguiçosa. Mulher que não sabe cozinhar vai matar os filhos e o marido à fome. É preguiçosa. Mulher que não fica na cozinha com outras mulheres a cozinhar e falar das lides da casa/ família, não é mulher ainda. É preguiçosa. Mulher que não tem sempre o cabelo arrumado, a maquilhagem feita, não se depila, não se “cuida” é feia. É preguiçosa.

Sou preguiçosa. Sou mulher e sou Moçambicana.

  
Sou uma mulher Moçambicana a viver neste corpo, neste espaço, ocupando um certo lugar na sociedade e exercendo determinados direitos e deveres. 
Veremos este ano, como já é hábito, homenagens bonitas dirigidas a nós, mulheres moçambicanas.

Guerreiras para cá. Mães para lá.

Nossas heroínas. Batalhadoras.

Blá. Blá. Blá.

Mas estas homenagens nada são senão palavras sem nenhum sentido real e sincero que se possa aplicar no nosso dia-a-dia. Afinal de contas Passamos a vida a ouvir cobranças e exigências, a ter de provar a nossa autenticidade. 

Só é Moçambicana se se vestir assado e se falar cozido. Mulher de verdade não faz A, não aceita B. Se queres ser uma mulher de valor, tens de seguir este caminho e não aquele.

Não fica bem uma mulher que não usar capulana. Uma mulher que se preze deve saber usar o pilão e o ralador de côco. Mulher de verdade tem de ter filhos e têm de serbiológicos. Tens de provar que és mulher quando estás entre outras mulheres, especialmente se forem da família do teu parceiro/a. 

 

autoria: Malangatana
 
O 7 de Abril é de todas nós. Das putas. Das rebeldes. Das feiticeiras. Das preguiçosas. Daquelas que já se foram e das que ainda estão por vir.

Uma revolução se aproxima. 

Somos mulheres e somos moçambicanas. 

Há dias assim

Há dias assim,

Invernos longos e frios

Arrastando a massa por dever.

Abrindo os olhos sem nada ver.
Há dias assim

Muitas páginas em branco para enfrentar,

Todos os santos à espera no altar.

Fugir para onde,

Para que lugar?
Há dias assim.

Tempo é tempo sem fim.

Escrever é chorar palavras,

Libertar as dores da cadeia.
Há dias assim.

Fim.

Era uma vez um final feliz

Queria ser uma princesa bonita, como nos filmes, mas na sua torre fazia muito frio.
Lá de cima ninguém a tocava e ela também não tocava ninguém.
Queria ser uma princesa bonita e perfeita, por isso deixava-se estar na sua torre à espera do prometido príncipe.
Os seus olhos passeavam pelos picos das árvores e pelas cores das flores, mas as suas mãos continuavam vazias.
O vento subia as escadas aos berros, invocando espíritos que ela desconhecia. À noite as portas batiam numa sinfonia dançante e ela ouvia vozes desafinadas em louvor.
Tinha muito medo.
Queria ser uma princesa bonita e perfeita e delicada e na sua torre ficava, de pé à janela. Durante o dia falava com os pássaros, à noite com os seus fantasmas, mas nunca com o prometido príncipe. Sempre à espera dele.
Da torre dava para ver toda a cidade, os vales verdes e todos os rios que regavam as flores e florestas.
Dentro da torre era calmo.
O silêncio tomava conta de todos os cantos do espaço, não fosse pelas canções dos fantasmas que a atormentavam.
As paredes eram brancas, ou sem cor. Sei lá. Que diferença fazia?
A torre era uma extensão de si mesma. Um local meio abandonado à espera do calor de um amor e das borboletas da barriga para enfeitar as janelas.
A torre: bonita, perfeita e delicada, mas sem luz própria, dependente do humor do Sol para clarear as suas manhãs.
Um dia decidiu sair da Torre para apreciar de perto o lindo jardim que se tinha formado em baixo da sua janela.
Buganvílias amarelas trepavam as altas paredes da torre e alguns tentáculos se aventuravam numa tentativa de caminhar sozinhos. Ao seu lado, um pequeno arbusto se erguia, meio desengonçado, mas sem desistir.
Os pássaros cantavam alegres, e as abelhas zumbiam livremente, distribuindo beijos pelas flores. Parecia que tudo e todos lhe davam as boas-vindas.
Primeiro sentou-se à porta e respirou o ar de baixo. Ali, tão perto da relva, dava para ver, entre as folhas verdes esticadas para cima, a cor escura da terra. Era quase preta e estava húmida, protegida pelas flores e raízes que nela se apoiavam.
Como é que a mesma terra que sustentava a monstruosa Torre, também servia de casa para aquelas delicadas plantas?
Lá de cima não dava para ver esses detalhes.
Ficou ali sentada, com a cabeça apoiada à entrada a observar apenas. A sombra da Torre ia fugindo de si, e os seus pés já doíam, pedindo movimento. O seu sangue ali parado queria sentir a terra de perto.
Então levantou-se.
Começou a andar e sentiu cócegas nos pés, da relva que lhe ia recebendo os passos alegremente. Só parou quando viu um tapete de jacarandás e ali se deitou.
Quando olhou para cima viu os ramos e neles pequenas folhas, que por sua vez formavam outra folha maior.
Ao seu lado, viu uma flor lilás grande e perfumada a olhar para si e ela também olhou para si própria, princesa e pensou na Torre e nos seus fantasmas. Lembrou-se do escuro e do silêncio da sua espera prolongada.
Decidiu não se levantar hoje. Estava feliz.
Ia ficar por ali durante a noite, talvez até para sempre.

Wangari Maathai na primeira pessoa

Wangari Maathai na primeira pessoa

Foi há 13 anos atrás que Wangari Maathai se tornou na primeira africana a ser premiada com o Prémio Nobel da Paz pelo seu trabalho como ambientalista.

Maathai lutou pela liberdade e paz no Quénia usando o Ambiente como ferramenta para tal.

A sua abordagem multidimensional interligava abordagens científicas, ambientais, e culturais, lembrando as comunidades rurais daquilo que eram as tradições para a conservação da terra.

Estas tradições, que ao pouco foram se perdendo, sobretudo pela influência do capitalismo e do colonialismo, estavam muito ligadas à preservação e respeito pela Terra.

Na sua autobiografia “Unbowed”, percebemos como a sua teimosa dedicação e o seu sentido forte de compromisso foram o seu Norte e o seu Sul para a tomada de decisões.

22281823_10155630428325390_243293201014592235_n

Tendo passado grande parte da infância na parte rural do Quénia, Maathai cresceu rodeada de árvores, plantas e animais.

Qual foi o seu susto, quando anos mais tarde, percebeu que grande parte desses ecossistemas estavam destruídos e que pessoas antes auto-sustentáveis, não só dependiam de doações para se alimentar, como também não tinham condições para plantar os seus alimentos.

Muito do conhecimento foi-se perdendo com o passar do tempo e, muitas áreas aráveis tinham sido cedidas para grandes plantações, como por exemplo do chá.

Foi então que começou um movimento ingénuo e isolado, em 1977, o Green Belt Movement, no sentido de reflorestar essas zonas e resgatar todo o conhecimento que já existia.

Este movimento começou primeiramente por dinamizar grupos de mulheres rurais – responsáveis por cultivar as terras – no sentido de plantar algumas zonas perto das suas casas.

Rapidamente, com o seu tempo e os seus sacrifícios, transformou-se numa verdadeira revolução.

portrait.-Wangari-Maathai-1
Wangari Maathai fundou o “Green Belt Movement” em 1977. Fonte: The Green Belt Movement

Não bastava apenas plantar árvores isoladamente. Era preciso perceber a importância de cada espécie; a pertinência de serem plantadas em determinadas zonas; de regá-las e mantê-las vivas, ainda que seja para as gerações futuras.

“The trees (we) are cutting today were not planted by us, but by those who came before. So we must plant trees that will benefit communities in the future.”/ As plantas que estamos a cortar hoje não foram plantadas por nós, mas por aqueles que vieram antes. Portanto devemos plantar árvores que irão beneficiar comunidades no futuro. 

E para tal era preciso também abordar questões de género; de herança de terras; de cedência de terras a indústrias poderosas; de doenças; de saúde; etc.

Estes grupos começaram portanto a exercer a sua cidadania de forma mais activa, questionando decisões tomadas no topo; exigindo explicações e conhecendo os seus direitos.

Esta abordagem despertou a atenção de quem estava no poder e ela foi obrigada a fazer grandes sacrifícios em nome da sua visão. Perseguida, presa, torturada, nada a parou de seguir os seus objectivos.

04_05_oslo
Maathai foi a primeira mulher africana com o grau de PhD e a primeira a ganhar o Nobel da PAz. Fonte: Nobel Prize

Ela soube ser uma figura pública: a estratégia; a logística; que é preciso saber para se defender e proteger de um regime opressor. O crescimento da sua imagem e da sua legitimidade, permitiram-lhe canalizar mais meios e poder para o movimento.

E mesmo antes disso, é impressionante e inspirador perceber como ela soube maximizar todas as oportunidades que lhe foram dadas: a oportunidade de começar a estudar, mais tarde, de ir para um internato de freiras, posteriormente o ensino superior nos EUA e por fim a sua posição aquando do regresso ao Quênia.

“Education, if it means anything, should not take people away from the land, but instill in them even more respect for it, because educated people are in a position to understand what is being lost.”/ Educação, se significa alguma coisa, não deveria afastar as pessoas da terra, mas incutir nelas ainda mais respeito, porque pessoas educadas estão numa posição de entender o que se está a perder. 

A sua mobilização das comunidades não se limitou somente à plantação de árvores, pois Maathai viu nisso uma oportunidade para criar sinergias entre temas como democracia; género; solidariedade.

Essa teia criada permitiu-lhe não só replicar o modelo, mas criar um impacto gigantesco (mais de 20 milhões de árvores plantadas) e deixar um legado imensurável.

Wangari Maathai fez-nos acreditar na possibilidade de um desenvolvimento sustentável antes de isso estar na moda.

 

Era uma vez… TEDx!

Era uma vez… TEDx!

Karingana wa Karingana- KARINGANA!
Karingana wa Karingana- KARINGANA!

Era uma vez uma menina que falava muito. Sempre lhe diziam:
Eliana tens boca grande!
Eliana estás sempre a falar!

E ela respondia: “A boca não foi feita apenas para comer. Deixem-me falar”.. Como não a deixavam falar à vontade, ela começou a escrever. Escrevia tudo! Escrevia sobre o que lhe deixava triste e o que lhe fazia feliz.

Escrevia o que via e o que imaginava. E foi escrevendo que as pessoas passaram a ouvir-lhe.

IMG_0209.JPG
Foto: Neide Tsenane

No dia 20 de Maio tive o privilégio de subir ao palco como uma das oradoras do TEDxMaputo 2017.

Sim, privilégio. É um privilégio ter uma plataforma como o TEDx para expor as nossas ideias e dar lugar à nossa voz.

E do que foi que eu falei? Eu preferi falar daquilo que me move: a urgência de uma literatura africana que represente todas as africanidades.

Eu sonho com um mundo em que eu possa ter fácil acesso a livros africanos para crianças, para adolescentes, para jovens, adultos, idosos. Livros africanos sobre a vida nas aldeias e nas cidades; nas escolas; nos mercados; nas ruas. Livros africanos que não tenham medo de ser quem somos.

E depois dos livros, que tenhamos também filmes, novelas, bandas desenhadas. Por que não?

IMG_0206
Foto: Neide Tsenane

Tudo começou em 2015 com o desafio dos 12 livros escritos por autores africanos ou afrodescendentes.

Como uma pessoa apaixonada por histórias, esse ano foi o início de muitas descobertas por aqui. Foi o ano em que desvendei histórias escondidas e segredos muito bem guardados, mas que precisavam de ser revelados.

Foi aí que um mundo novo se revelou a mim e com ele uma vontade de continuar com esse compromisso: ler negritude.

De lá para cá já foram mais de 30 livros de autores africanos e afrodescendentes que contaram as nossas histórias das formas mais brilhantes.

“Eram histórias diversas: africanas; americanas; portuguesas; sobre mulheres; sobre homens; sobre liberdade; sobre colonialismo; sobre escravidão… histórias para que eu descobrisse a minha História.”

Então quando recebi o convite para ser uma das oradoras, nada mais me fez tanto sentido como usar esse espaço para contar essa história (ainda em construção).

Os meus 15min de fama já serviram para iniciar conversas interessantes e cheias de impacto com várias pessoas.

Uma, que já começou a escrever um livro e queria trocar impressões. E outra, que começou a ler um livro escrito por um autor africano.

Certamente outras conversas já aconteceram, fora do meu alcance e outras estarão ainda por vir.

Gratidão parece pouco para descrever o que sinto pela oportunidade.

Mais um sonho realizado. Mais um passo na direcção certa.

 

 

Estátua da Mulher Moçambicana

A eternização de uma heroína anónima como todas nós

Há uma estátua na Praça dos Trabalhadores, em Maputo, em frente à estação dos caminhos de ferro em que se pode ver uma mulher de cabeça erguida com uma cobra aos seus pés.

A estátua foi inaugurada pelo regime colonial Português, em 1935, para homenagear todos aqueles que morreram durante a Primeira Guerra Mundial.

Na base da estátua vários relevos fazem referência a batalhas que tiveram lugar em Moçambique, nomeadamente Mecula, Quivambo, Nevala e Quionga, em que os guerreiros têm armas nas mãos e os símbolos da bandeira Portuguesa.

No entanto, a lenda local conta outra história. Muito antes disso havia na região uma cobra em cima de uma árvore que atacava quem por ali passasse.

Memorial Statue, Maputo, Mozambique
O monumento tem duas historias. Fonte: Ídolo MZ

No caminho entre a casa e o rio mulheres e crianças eram atacadas pela cobra e morriam.

Certo dia uma mulher decidiu pôr um fim à situação. Cozinhou uma papa e colocou o seu caldeirão na cabeça, equilibrando-o numa capulana.

Com a papa ainda quente, pôs-se a andar em direcção à àrvore onde se escondia a cobra. A temível cobra ao atacar a mulher entrou no caldeirão da papa, morrendo.

A sábia mulher regressou à sua comunidade certa da sua vitória e todos celebraram a sua coragem. A estátua é por isso, no imaginário dos Moçambicanos, uma homenagem a essa mulher e não àqueles que morreram na Primeira Guerra Mundial.

Hoje, no dia 7 de Abril, Dia da Mulher Moçambicana penso nessa senhora corajosa que enfrentou os seus medos para salvar a sua comunidade. Penso no seu anonimato e no assalto que teve de fazer à História para eternizar o seu heroismo.

Penso nela e em todas as mulheres que, todos os dias, levantam-se e preparam-se para combater vários obstáculos.

Penso nela e em todas as mulheres que, todos os dias, levantam-se e esforçam-se para criar um impacto positivo nas pessoas ao seu redor.

Penso nela e em todas as mulheres que, todos os dias, levantam-se e acreditam que são capazes que fazer a diferença.

E penso também naquelas que são privadas de conhecer as suas forças e seguir os seus sonhos. Penso também naquelas que não sabem que fazem parte de uma História, que podem matar uma cobra.

E espero que neste dia todas nós, Mulheres Moçambicanas, nos sintamos como a estátua: de cabeça erguida; invencível; poderosa; com o olhar maravilhado sobre as nossas vitórias.

Feliz Dia da Mulher Moçambicana.

 

Chimamanda e as mulheres trans

Recentemente a autora nigeriana Chimamanda Adichie levantou polémica ao comentar os privilégios de mulheres trans.

A escritora nigeriana Chimamanda Adichie, autora de Americanah nos últimos cinco anos tem vindo a destacar-se pela forma peculiar como conta a experiência de emigrante africana e de mulher negra no mundo, abordando temas como o feminismo, racismo e africanidade entre outros.

Para quem vive da fama há a exigência de se ser um cidadão exemplar, sempre bem informado e capaz de guiar as massas na direcção certa. Ser fã passou a ser religião. Há uma verdadeira adoração das figuras mais famosas da cultura pop.

Muitos artistas de facto usam do espaço que têm para chamar a atenção a temas importantes e envolvem-se até em campanhas eleitorais.

Vejamos por exemplo Beyoncé, ao longo dos anos ela tem vindo a dar mais do que simples entretenimento, através do seu trabalho ela procura dar mais voz às mulheres e ao movimento negro nos E.U.A.

30FD7E0300000578-0-image-a-42_1455676854874
Beyonce tem vindo a mostrar mais o seu lado activista – Fonte: The Huffington Post

Numa entrevista recente Adichie, ao comentar a experiência de pessoa transgénero fez uma leitura demasiado biológica, partindo de uma clara falta de conhecimento sobre o assunto.

Segundo ela, mulheres transgénero e mulheres cisgénero não devem ser olhadas como uma só. Até aí tudo bem, pois existem especificidades que dizem respeito a apenas um grupo.

A polémica vem por ela afirmar que uma mulher cis, isto é, uma mulher que nasceu biologicamente com um corpo identificado como feminino, cresceu com menos privilégios que uma mulher trans, uma mulher que nasceu biologicamente com um corpo identificado como masculino.

Para a autora as mulheres trans em algum momento usufruem do espaço concedido aos homens cisgénero.

“(…) I don’t think it’s a good thing to talk about women’s issues being exactly the same as the issues of trans women, because I don’t think that’s true./  Eu não acho um boa ideia  falar das questões de mulheres como sendo exactamente as mesmas que mulheres transgénero, porque eu não acho que isso seja verdade.” – Chimamanda Adichie

Sim, ela errou. Ela falou de algo sem entender a complexidade da vida de uma mulher transgénero. Falou de forma equivocada sem antes fazer o trabalho de casa, assumindo até que a expressão “mulher” não inclui a própria mulher trans.

Mas o que mais me surpreendeu foi ler as críticas e julgamentos feitos à pessoa e não ao que a pessoa disse. Houve uma tentativa de desqualificação intelectual, como se tudo o que ela tivesse dito, escrito, feito até à data fosse irrelevante face às suas palavras.

Chimamanda-Ngozi-Adichie_photo1.jpg
Chicanada reforçou a sua defesa pelos direitos LGBT após a polémica – fonte: Facebook Chimamanda Adichie

Calma aí.

Acredito que podemos aproveitar a oportunidade para ter um debate alargado sobre a vida de mulheres trans. Uma oportunidade para perceber como essa realidade é vivida na Nigéria, de onde vem Chimamanda, e em Moçambique, por exemplo, no Brasil, nos E.U.A, em Portugal, etc.

Quem são as mulheres trans? De onde vêm? Onde estão elas?

Laverne Cox, mulher trans norte americana famosa pelo seu trabalho como atriz em “Orange Is The New Black” partiu do comentário de Adichie para reflectir sobre a sua vivência e os seus privilégios.

Segundo ela, na sua infância ela nunca pôde de facto aceder aos privilégios concedidos aos meninos por ter sido sempre demasiado afeminada, de modo que o seu comportamento era constantemente policiado por todos à sua volta.

“There’s no universal experience of gender, of womanhood. / Não existe uma experiência universal de género, de feminilidade.” – Laverne Cox

Acredito que é necessário nos aprofundarmos sobre as diferentes realidades dentro do(s) género(s) em questão.

Tal como existe uma diferença entre nascermos e sermos reconhecidas como mulheres cis negras, também existe uma diferença na forma como as mulheres cis brancas nascem e são reconhecidas. Ou seja, mesmo dentro do grupo de mulheres cis existem experiências variadas marcadas por raça, condição social e mesmo local.

Então não deve ser tão difícil assim conceber um mundo em que as mulheres cis e as mulheres trans tenham experiências diferentes, tal como Chimamanda defende. No entanto essas diferenças vão para além da biologia e englobam factores sociológicos.

LaverneCox_ByLukeFontana21
Laverne Cox sonha com a abolição do sistema binário – Fonte: Twitter Laverne Cox

Vivemos em tempos em que facilmente se parte para a idolatração de certas figuras, como se de verdadeiros Deuses se tratassem, incapazes de cometer erros ou ter ideias pouco populares.

Rapidamente, quando os nossos Deuses nos decepcionam deslegitimizamos todo o trabalho feito ou por fazer.

Tal como Beyonce é muitas vezes questionada e criticada por não se declarar feminista ou por supostamente usar-se do feminismo para lucrar, chegou a vez de Chimamanda Adichie também ter esse banho de pedras.

Um outro ponto relevante é a nossa própria humildade e o reconhecimento do direito ao erro do outro. Não existe perfeição. Todos nós somos criados dentro de uma sociedade com determinados valores e ideais que inevitavelmente moldam a forma como olhamos o mundo, daí não existir um activista perfeito, que sabe tudo e faz tudo bem.

Que possamos aprender com esses erros para nos aprofundarmos sobre assuntos variados dentro dos vários movimentos sociais com os quais nos identificamos.

O grande desafio que temos não é o de os nossos Deuses errarem, mas sim a nossa incapacidade de usar tais erros como catapultas para debates importantes que precisamos de ter enquanto sociedade.