Era uma vez… TEDx!

Era uma vez… TEDx!

Karingana wa Karingana- KARINGANA!
Karingana wa Karingana- KARINGANA!

Era uma vez uma menina que falava muito. Sempre lhe diziam:
Eliana tens boca grande!
Eliana estás sempre a falar!

E ela respondia: “A boca não foi feita apenas para comer. Deixem-me falar”.. Como não a deixavam falar à vontade, ela começou a escrever. Escrevia tudo! Escrevia sobre o que lhe deixava triste e o que lhe fazia feliz.

Escrevia o que via e o que imaginava. E foi escrevendo que as pessoas passaram a ouvir-lhe.

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Foto: Neide Tsenane

No dia 20 de Maio tive o privilégio de subir ao palco como uma das oradoras do TEDxMaputo 2017.

Sim, privilégio. É um privilégio ter uma plataforma como o TEDx para expor as nossas ideias e dar lugar à nossa voz.

E do que foi que eu falei? Eu preferi falar daquilo que me move: a urgência de uma literatura africana que represente todas as africanidades.

Eu sonho com um mundo em que eu possa ter fácil acesso a livros africanos para crianças, para adolescentes, para jovens, adultos, idosos. Livros africanos sobre a vida nas aldeias e nas cidades; nas escolas; nos mercados; nas ruas. Livros africanos que não tenham medo de ser quem somos.

E depois dos livros, que tenhamos também filmes, novelas, bandas desenhadas. Por que não?

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Foto: Neide Tsenane

Tudo começou em 2015 com o desafio dos 12 livros escritos por autores africanos ou afrodescendentes.

Como uma pessoa apaixonada por histórias, esse ano foi o início de muitas descobertas por aqui. Foi o ano em que desvendei histórias escondidas e segredos muito bem guardados, mas que precisavam de ser revelados.

Foi aí que um mundo novo se revelou a mim e com ele uma vontade de continuar com esse compromisso: ler negritude.

De lá para cá já foram mais de 30 livros de autores africanos e afrodescendentes que contaram as nossas histórias das formas mais brilhantes.

“Eram histórias diversas: africanas; americanas; portuguesas; sobre mulheres; sobre homens; sobre liberdade; sobre colonialismo; sobre escravidão… histórias para que eu descobrisse a minha História.”

Então quando recebi o convite para ser uma das oradoras, nada mais me fez tanto sentido como usar esse espaço para contar essa história (ainda em construção).

Os meus 15min de fama já serviram para iniciar conversas interessantes e cheias de impacto com várias pessoas.

Uma, que já começou a escrever um livro e queria trocar impressões. E outra, que começou a ler um livro escrito por um autor africano.

Certamente outras conversas já aconteceram, fora do meu alcance e outras estarão ainda por vir.

Gratidão parece pouco para descrever o que sinto pela oportunidade.

Mais um sonho realizado. Mais um passo na direcção certa.

 

 

Estátua da Mulher Moçambicana

A eternização de uma heroína anónima como todas nós

Há uma estátua na Praça dos Trabalhadores, em Maputo, em frente à estação dos caminhos de ferro em que se pode ver uma mulher de cabeça erguida com uma cobra aos seus pés.

A estátua foi inaugurada pelo regime colonial Português, em 1935, para homenagear todos aqueles que morreram durante a Primeira Guerra Mundial.

Na base da estátua vários relevos fazem referência a batalhas que tiveram lugar em Moçambique, nomeadamente Mecula, Quivambo, Nevala e Quionga, em que os guerreiros têm armas nas mãos e os símbolos da bandeira Portuguesa.

No entanto, a lenda local conta outra história. Muito antes disso havia na região uma cobra em cima de uma árvore que atacava quem por ali passasse.

Memorial Statue, Maputo, Mozambique
O monumento tem duas historias. Fonte: Ídolo MZ

No caminho entre a casa e o rio mulheres e crianças eram atacadas pela cobra e morriam.

Certo dia uma mulher decidiu pôr um fim à situação. Cozinhou uma papa e colocou o seu caldeirão na cabeça, equilibrando-o numa capulana.

Com a papa ainda quente, pôs-se a andar em direcção à àrvore onde se escondia a cobra. A temível cobra ao atacar a mulher entrou no caldeirão da papa, morrendo.

A sábia mulher regressou à sua comunidade certa da sua vitória e todos celebraram a sua coragem. A estátua é por isso, no imaginário dos Moçambicanos, uma homenagem a essa mulher e não àqueles que morreram na Primeira Guerra Mundial.

Hoje, no dia 7 de Abril, Dia da Mulher Moçambicana penso nessa senhora corajosa que enfrentou os seus medos para salvar a sua comunidade. Penso no seu anonimato e no assalto que teve de fazer à História para eternizar o seu heroismo.

Penso nela e em todas as mulheres que, todos os dias, levantam-se e preparam-se para combater vários obstáculos.

Penso nela e em todas as mulheres que, todos os dias, levantam-se e esforçam-se para criar um impacto positivo nas pessoas ao seu redor.

Penso nela e em todas as mulheres que, todos os dias, levantam-se e acreditam que são capazes que fazer a diferença.

E penso também naquelas que são privadas de conhecer as suas forças e seguir os seus sonhos. Penso também naquelas que não sabem que fazem parte de uma História, que podem matar uma cobra.

E espero que neste dia todas nós, Mulheres Moçambicanas, nos sintamos como a estátua: de cabeça erguida; invencível; poderosa; com o olhar maravilhado sobre as nossas vitórias.

Feliz Dia da Mulher Moçambicana.

 

Chimamanda e as mulheres trans

Recentemente a autora nigeriana Chimamanda Adichie levantou polémica ao comentar os privilégios de mulheres trans.

A escritora nigeriana Chimamanda Adichie, autora de Americanah nos últimos cinco anos tem vindo a destacar-se pela forma peculiar como conta a experiência de emigrante africana e de mulher negra no mundo, abordando temas como o feminismo, racismo e africanidade entre outros.

Para quem vive da fama há a exigência de se ser um cidadão exemplar, sempre bem informado e capaz de guiar as massas na direcção certa. Ser fã passou a ser religião. Há uma verdadeira adoração das figuras mais famosas da cultura pop.

Muitos artistas de facto usam do espaço que têm para chamar a atenção a temas importantes e envolvem-se até em campanhas eleitorais.

Vejamos por exemplo Beyoncé, ao longo dos anos ela tem vindo a dar mais do que simples entretenimento, através do seu trabalho ela procura dar mais voz às mulheres e ao movimento negro nos E.U.A.

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Beyonce tem vindo a mostrar mais o seu lado activista – Fonte: The Huffington Post

Numa entrevista recente Adichie, ao comentar a experiência de pessoa transgénero fez uma leitura demasiado biológica, partindo de uma clara falta de conhecimento sobre o assunto.

Segundo ela, mulheres transgénero e mulheres cisgénero não devem ser olhadas como uma só. Até aí tudo bem, pois existem especificidades que dizem respeito a apenas um grupo.

A polémica vem por ela afirmar que uma mulher cis, isto é, uma mulher que nasceu biologicamente com um corpo identificado como feminino, cresceu com menos privilégios que uma mulher trans, uma mulher que nasceu biologicamente com um corpo identificado como masculino.

Para a autora as mulheres trans em algum momento usufruem do espaço concedido aos homens cisgénero.

“(…) I don’t think it’s a good thing to talk about women’s issues being exactly the same as the issues of trans women, because I don’t think that’s true./  Eu não acho um boa ideia  falar das questões de mulheres como sendo exactamente as mesmas que mulheres transgénero, porque eu não acho que isso seja verdade.” – Chimamanda Adichie

Sim, ela errou. Ela falou de algo sem entender a complexidade da vida de uma mulher transgénero. Falou de forma equivocada sem antes fazer o trabalho de casa, assumindo até que a expressão “mulher” não inclui a própria mulher trans.

Mas o que mais me surpreendeu foi ler as críticas e julgamentos feitos à pessoa e não ao que a pessoa disse. Houve uma tentativa de desqualificação intelectual, como se tudo o que ela tivesse dito, escrito, feito até à data fosse irrelevante face às suas palavras.

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Chicanada reforçou a sua defesa pelos direitos LGBT após a polémica – fonte: Facebook Chimamanda Adichie

Calma aí.

Acredito que podemos aproveitar a oportunidade para ter um debate alargado sobre a vida de mulheres trans. Uma oportunidade para perceber como essa realidade é vivida na Nigéria, de onde vem Chimamanda, e em Moçambique, por exemplo, no Brasil, nos E.U.A, em Portugal, etc.

Quem são as mulheres trans? De onde vêm? Onde estão elas?

Laverne Cox, mulher trans norte americana famosa pelo seu trabalho como atriz em “Orange Is The New Black” partiu do comentário de Adichie para reflectir sobre a sua vivência e os seus privilégios.

Segundo ela, na sua infância ela nunca pôde de facto aceder aos privilégios concedidos aos meninos por ter sido sempre demasiado afeminada, de modo que o seu comportamento era constantemente policiado por todos à sua volta.

“There’s no universal experience of gender, of womanhood. / Não existe uma experiência universal de género, de feminilidade.” – Laverne Cox

Acredito que é necessário nos aprofundarmos sobre as diferentes realidades dentro do(s) género(s) em questão.

Tal como existe uma diferença entre nascermos e sermos reconhecidas como mulheres cis negras, também existe uma diferença na forma como as mulheres cis brancas nascem e são reconhecidas. Ou seja, mesmo dentro do grupo de mulheres cis existem experiências variadas marcadas por raça, condição social e mesmo local.

Então não deve ser tão difícil assim conceber um mundo em que as mulheres cis e as mulheres trans tenham experiências diferentes, tal como Chimamanda defende. No entanto essas diferenças vão para além da biologia e englobam factores sociológicos.

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Laverne Cox sonha com a abolição do sistema binário – Fonte: Twitter Laverne Cox

Vivemos em tempos em que facilmente se parte para a idolatração de certas figuras, como se de verdadeiros Deuses se tratassem, incapazes de cometer erros ou ter ideias pouco populares.

Rapidamente, quando os nossos Deuses nos decepcionam deslegitimizamos todo o trabalho feito ou por fazer.

Tal como Beyonce é muitas vezes questionada e criticada por não se declarar feminista ou por supostamente usar-se do feminismo para lucrar, chegou a vez de Chimamanda Adichie também ter esse banho de pedras.

Um outro ponto relevante é a nossa própria humildade e o reconhecimento do direito ao erro do outro. Não existe perfeição. Todos nós somos criados dentro de uma sociedade com determinados valores e ideais que inevitavelmente moldam a forma como olhamos o mundo, daí não existir um activista perfeito, que sabe tudo e faz tudo bem.

Que possamos aprender com esses erros para nos aprofundarmos sobre assuntos variados dentro dos vários movimentos sociais com os quais nos identificamos.

O grande desafio que temos não é o de os nossos Deuses errarem, mas sim a nossa incapacidade de usar tais erros como catapultas para debates importantes que precisamos de ter enquanto sociedade.

 

 

Envelhecer é um privilégio

Envelhecer é um processo valorizado na nossa sociedade, pois como a esperança média de vida é baixa, a velhice representa um estado da vida almejado por todos.

O respeito pelo idoso está muito ligado à visão cíclica da vida e ao conhecimento adquirido ao longo do tempo. Para além disso, visto que a nossa cultura é sobretudo oral em que os conhecimentos são passados de boca a boca, o idoso é visto como uma biblioteca humana.

Em tempos, era o idoso que assumia as funções de líder comunitário; curandeiro; conselheiro; etc. E até hoje no seio da família sempre que existe um problema ou uma grande celebração, é o mais velho, que assume a posição de liderança.

É o idoso quem transmite a cultura tradicional, quem fala sobre antepassados e quem sobretudo tem uma relação de intimidade com a História. Por isso as pessoas idosas têm uma grande responsabilidade.
O respeito pela experiência acumulada tem valor pois é fundamental à sobrevivência de cada indivíduo e da comunidade como um todo.

O poder do ancião garante a estabilidade social, pois ninguém o contraria, já que encaramos que é mais sábio.

 Por outro lado nas sociedades ocidentais o idoso tem um papel marginal. Ele vive abandonado ou praticamente isolado, convivendo apenas com outros idosos. Por não pertencer mais à população activa o idoso é visto como um fardo, tanto para o Estado como para a sua família e comunidade.

Há uma sobrevalorização da juventude, que é vista como o período áureo da vida humana. A juventude representa inovação, proatividade e dinamismo.  É durante este período que as pessoas produzem mais e deixam a sua marca no mundo.

Por isso o prestígio e valor de cada idoso é proporcional às suas conquistas enquanto jovem. Enquanto pelo contrário, nas sociedades africanas a idade por si só já confere certos privilégios.

 No entanto, com a ocidentalização da nossa sociedade e devido às novas dinâmicas que vivenciamos, os idosos já não tem a mesma qualidade de vida de outrora. 

As mulheres, tal como as ocidentais, já procuram as operações plásticas e cosméticas para prolongar a sua desejabilidade sexual. Os homens escondem-se em bens materiais e mulheres mais novas. Os jovens desconsideram os conselhos dos mais velhos. 

Devido às guerras, doenças  e movimentos migratórios, muitos idosos veem-se obrigados a criar os netos mesmo sem ter rendimento para tal. 

É comum vermos muitos mendigos de idade avançada, pedindo esmola ou comida pelas ruas. Nos centros urbanos e suburbanos começam a surgir lares de idosos para apoiar este grupo.

Um dos grandes desafios demográficos que teremos em breve será a garantia de dignidade e direitos básicos aos nossos idosos. Estima-se que cerca de 5% da população de Moçambique actualmente tenha mais de 60 anos, mas com uma população jovem tão grande, em 30 anos este número poderá aumentar.

Sendo a terceira idade aquela em que estamos mais próximos da morte, estamos desta forma, mais ligados àqueles que partiram. Temos sabedoria e discernimento para aproximar o Passado, o Presente e o Futuro.

 O idoso inspira respeito, preserva a memória e a lembrança, relembrando lendas, crenças e mitos de heróis e salvadores. Desta forma, os idosos desempenham um papel importantíssimo de manutenção dos valores e ideais da sociedade, daí a necessidade de integrá-los na comunidade.

Em alguns anos será nossa responsabilidade dar continuidade aos nossos valores e padrões de comportamento. As gerações vindouras precisam de nós para salvaguardarem a nossa cultura e estilos de vida. Seremos nós os idosos que vão partilhar experiência com os mais novos.

Então deixem-me envelhecer em paz. Deixem-me curtir as minhas rugas e as minhas cicatrizes. As minhas roupas fora de moda. Quero ficar amiga íntima do tempo e contar a todos os nossos segredos. Deixem-me envelhecer em paz.

Eu acredito no divórcio

Muitas pessoas encaram o aumento das taxas de divórcio com o fim do matrimónio. E se olharmos por outra perspectiva?

Os motivos que levam ao matrimônio são diversos, e nem sempre o amor está entre as principais razões para um casal tomar esse passo. Há por exemplo a aceitação social; a pressão por parte da família e amigos; a necessidade de “legalizar” uma família (muitas vezes já constituída), entre tantos outros motivos.

Já o divórcio também tem varias razões para existir. Como uma pessoa que nunca foi casada, posso apenas especular tendo em conta as histórias de matrimônio e divórcio que vi e ouvi.

Fala-se bastante na “decadência da família” quando se fala em divórcio. Parece que a instituição do matrimônio é algo perfeito e sagrado cuja inexistência irá automaticamente causar a extinção da espécie humana.

Para mim o divórcio é uma declaração forte, são duas pessoas a dizerem “Isto não é amor, eu não me sinto bem, eu não estou feliz e não foi para isto que eu me casei”. E de certa forma, isso também é uma forma de salvaguardar o matrimónio.

É uma forma de impedir que a instituição que é o matrimónio se corrompa, na medida em que protege o matrimónio de falsos amores e de cinismo desnecessários. É proteger o matrimónio de uma imagem falsa, irreal e que não corresponde às expectativas, promessas e cláuslas acordadas inicialmente.

Não podemos deixar de lembrar também que o direito ao divórcio foi uma grande conquista para as mulheres.

Cada vez mais mulheres se recusam a ser enganadas e abusadas pelos pais dos seus filhos. A verdade por detrás da decadência dos “valores da família” é que essa ilusão de estabilidade; perfeição e harmonia da família margarina tem como base o silêncio de muitas mulheres que sofreram (e sofrem) como reféns dos seus maridos.

Muitas dessas famílias ditas perfeitas só o são às custas da serventia das mulheres que carregam nas costas todo o peso para manter a casa em ordem. Muitas vezes são as esposas que, sem apoio emocional ou financeiro, criam os filhos com muitas dificuldades e ainda são humilhadas pelos maridos.

Nesses casos, as mulheres são reféns do acordo e dessa ideia prescrita pela sociedade. E a verdade é que à medida que as mulheres conquistaram mais espaço e poder foram ganhando confiança para destruir essas prisões.


Estando o matrimónio inserido na sociedade patriarcal, estará explícita ou implicitamente a permitir violências variadas sobre as mulheres, seja este religioso, tradicional ou civil.

E talvez isto sim deva ser questionado. Talvez o problema não seja o divórcio, mas sim o casamento.

Como é que as nossas sociedades vêem os casamentos? O que as duas partes têm como absentada construir essa tal família dentro da estrutura do matrimónio? Quais os comportamentos e valores esperados dos casados?

O divórcio pode ser uma porta para a possibilidade de crescimento e realização pessoal imprescindível para qualquer pessoa ser feliz. O divórcio pode representar a liberdade para muitas pessoas que vivem oprimidas nos seus casamentos. O divórcio pode permitir a constituição de uma família de relações saudáveis.

E acima de tudo, o divórcio protege os casamentos de uma realidade infeliz e desgastante.

Então como pode isso significar o fim do matrimónio?

Divórcio também é amor.

Lobolo aos olhos de hoje

O lobolo é uma cerimónia tradicional em que a família do noivo oferece um dote à família da noiva, celebrando assim a sua união.

Tenho notado já há algum tempo que hoje em dia, especialmente nos meios urbanos, há uma intepretação errada de vários elementos tradicionais da nossa cultura moçambicana.

Desde a chegada dos Europeus a África que houve uma demonização de tudo o que era estranho e bizarro quando comparado aos seus hábitos e costumes. E assim os modos das sociedades africanas foram ridicularizados e até proibidos, motivo pelo qual muitos rituais deixaram de ser praticados.

Um desses elementos mal interpretados aos olhos de hoje é o ritual matrimonial tradicional – o lobolo.

Como é que em Moçambique se dizia “casamento” antes de chegar a Igreja Cristã? Como é que se reconhecia a união entre duas pessoas antes de haver um “Estado”? O que era um “casamento”?

Temos de usar os olhos de ontem para procurarmos interpretações – e validade! – nos rituais hoje ou corremos o risco de viver acorrentados às ideias medievais que o Velho Continente nos passou.

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O lobolo é mutável, variável e adaptável. Fonte: Antropocoiso

A cerimónia do lobolo consiste numa oferta de bens em forma de gado, dinheiro, roupas e alimentos, entre outros à família (clã) da noiva. Após a aceitação e recepção destes bens por parte da sua família, a noiva passa a pertencer à família (clã) do noivo. Por esse motivo, aos olhos do colono, a mulher estaria a ser “vendida” e é essa narrativa que até hoje se mantém para rejeitar o ritual.

O dote oferecido servia de fundo comunitário para aquela família (clã). E de certa forma também de seguro, pois para anular a união seria necessário a devolução do dote, o que poderia pôr em causa toda a economia local.

Sempre ouvi o meu pai contar uma história que aconteceu há muitos anos em Homoíne (província de Inhambane) na aldeia onde ele cresceu. Um homem matou a sua própria irmã à catanada e foi enviado para S. Tomé & Príncipe, onde cumpriu a sua pena trabalhando como escravo para o regime colonial Português.

O motivo do assassinato foi o facto de a sua irmã ter manifestado a sua vontade em querer dissolver o seu matrimónio, o que obrigava a sua família a devolver o dote ao seu esposo. O seu irmão, por sua vez, já tinha usado grande parte do dote para lobolar a sua esposa, então teria ele também de se divorciar para devolver os bens.

Ou seja, o dissolução de uma união criava a dissolução de outras uniões em forma de cadeia, destruindo por completo a harmonia naquela sociedade. A situação levou o irmão à beira do desespero e terminou de forma trágica.

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Na Namíbia, Quénia e África do Sul, o lobolo chama-se lobola. Em Angola é o alambamento.

Estando inserido numa sociedade patriarcal (q.b.) o matrimónio tradicional não deixa de ser um fenómeno económico e de poder – como o matrimónio religioso cristão,- na medida em que serve de regulação social, pois o lobolo legitima a relação do casal e eleva o estatuto dos nubentes.

Para além disso, o lobolo estabelece uma família (garante descendência) e alberga também garantias que asseguram a vida e sobrevivência das famílias envolvidas no caso de morte de uma das partes.

Hoje em dia o lobolo, como qualquer outro ritual, já sofreu alterações na sua forma e no seu conteúdo, no entanto mantém o valor social que representa. É um dos elementos tradicionais que até as famílias mais modernas conseguiram manter, e por isso reforça o nosso sentido de Africanidade.

Por exemplo, no lobolo já se oferece um anel de ouro, que foi incorporado dos rituais da Igreja Cristã. A loiça feita de barro e madeira foi substituída pela porcelana (apesar de não servir para as orações e oferendas aos antepassados). Por outro lado houve símbolos africanos como o gado e as capulanas que sobreviveram a essas mutações.

Nos dias que correm é comum a realização do lobolo seguida do casamento religioso e/ou cerimónia civil, antes do copo d’água. Esta prática tem como objectivo a manutenção do nosso sentido de identidade e de compromisso com os antepassados.

Nas regiões mais rurais, o lobolo é um ritual que confere um reconhecimento social que as outras cerimónias (na Igreja, Mesquita, Conservatória, etc) não oferecem, pela dimensão de envolvimento da comunidade e ligação histórica e espiritual.

Tendo em conta estes factores, a “nova” Lei da Família já prevê o lobolo como uma cerimónia legítima, com o mesmo peso legal que o casamento civil.

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Hoje em dia é comum incorporar elementos tradicionais com os mais modernos.

O lobolo em Moçambique é uma prática que visa o reconhecimento matrimonial, isto é, garante a reprodução, estabilidade, compromisso, e estabelece os direitos e deveres entre um homem e uma mulher perante a comunidade.

Ao conotarmos o lobolo como uma simples transacção de compra e venda tiramos todo o simbolismo e importância que o ritual de facto tem. Estamos a olhar como o Europeu que aqui chegou olhou, sem ter sensibilidade para perceber as estruturas e crenças das sociedades da época.

Tal como entendemos, praticamos – e perdoamos! – o casamento religioso cristão, com todas as suas limitações, devemos também fazer o mesmo exercício ao olharmos para o lobolo.

É nosso dever descolonizar estas ideias ultrapassadas dos nossos próprios hábitos e costumes e encontrar formas de adaptar os rituais à nossa actualidade.

 

Para fingir orgasmos

Para fingir orgasmos é preciso ser-se altruísta. É preciso por o outro em primeiro e único lugar, sentir o prazer a fugir-nos pelas mãos e oferecê-lo sempre que possível, em todas as dimensões imagináveis.

Para fingir orgasmos tem de se querer morrer. E matar. É um suicídio lento e mal pensado. Mas necessário.

Para fingir orgasmos o melhor é estar-se embaixo. De olhos fechados. No escuro. Muito escuro. Escuro o suficiente para esconder toda a vergonha e toda a verdade.

Até as melhores atrizes têm dificuldades em fingir orgasmos.

Porque fingir orgasmos requer alguma arte. Encontrar o equilíbrio perfeito entre a vontade de ir embora e a necessidade de alimentar o ego. Um ego qualquer. De quem o ego é pouco importa.

O mais importante é o orgasmo, fingido claro. O orgasmo que em algum momento se quis e agora tanto faz. A bem ou mal, eu tenho de te dar um orgasmo.

Eu tenho de te dar um orgasmo. Eu tenho de te dar um orgasmo. Aliás, eu tenho de te dar dois orgasmos. O meu orgasmo e o teu orgasmo. Eu tenho de te dar dois orgasmos. Eu devo-te dois orgasmos.

Eu devo-te dois orgasmos porque é assim. Sexo faz-se assim. E se tu não tiveres o teu orgasmo então não é sexo. Então eu fiz algo de errado. Então eu não sirvo.

E se eu não tiver o meu orgasmo. Então tu fizeste algo de erro. Então não é sexo. Então tu não serves. Como assim tu não serves. Isso não faz sentido nenhum. Tu és perfeito. Tu és o maior. Tu mereces o meu orgasmo. Eu dou-te o meu orgasmo.

Eu dou-te o meu orgasmo e o teu orgasmo. Toma. Leva os dois orgasmos. Leva o teu orgasmo controlado. Quase mudo. Cínico. O teu orgasmo. Que eu te dei.

E leva também o meu orgasmo. Que eu também te dei. Eu dou-te o meu orgasmo fingido e dissimulado.

Um orgasmo alto. Forte. Que chama a atenção. Um orgasmo com efeitos especiais. Um orgasmo em três dimensões. Tecnologia de ponta. Alta definição. Um orgasmo maior que o próprio orgasmo. Melhor que o verdadeiro.

Para fingir orgasmos tem de ser assim.

 

Senão o melhor é não ter um.