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O filme Sarafina! de Darrell Roodt retrata uma geração de Freedom Fighters na África do Sul durante o apartheid.

De madrugada, um grupo de sombras atravessa sorrateiramente o percurso para a escola do bairro. Passando pela linha férrea, saltando muros, a escuridão como cúmplice, galopando até que chegam ao destino: uma escola.

Atiram uma “bomba” caseira, que incendeia uma sala de aulas inteira.

À partida, parece que estamos perante um grupo de jovens vândalos sem nenhuma causa senão o prazer de estragar propriedade pública.

Mas à medida que a história se revela, percebemos que na verdade os jovens vândalos estão a protestar contra um sistema de ensino que em nada os favorece. Estão a protestar contra o racismo institucional que lhes oprime diariamente. Estão a protestar contra a falta de condições para crescerem e se desenvolverem.

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SARAFINA! conta com as estrelas Whoopi Goldberg e Leleti Khumalo. 1992, (c)Buena Vista Pictures. Fonte: TimeOut

Sarafina, a nossa protagonista é uma jovem estudante que se vê no meio destes conflitos.

Como uma menina negra que vive sobre o regime do apartheid, encontra no exemplo de Nelson Mandela a sua inspiração. É nele que desabafa as suas angústias e anseios.

Mandela é uma presença constante, a liderança forte e fidedigna de que ela precisa para manter-se sã e seguir os sonhos.

Em forma de musical, o filme mostra por um lado a esperança e alegria de Sarafina, que sonha em ser famosa, e por outro, a violência e perversidade do regime do apartheid.

Mesmo sem ser explícito no que toca às leis e repressão em que viviam os negros sul-africanos, sente-se ao longo do filme como a opressão ecoava em todas as esferas das suas vidas.

Desde o quarto em que dorme, Sarafina e os seus irmãos, apertados na única cama e no chão até ao medo constante de uma palavra, um olhar ou mesmo um sonho fora do lugar.

Desde as ruas não alcatroadas; o fraco saneamento até ao sistema de ensino que limitava as opções dos jovens estudantes negros.

A covardice da classe opressora, representada pela patroa da mãe de Sarafina, que vive indiferente aos desafios enfrentados pela sua empregada doméstica, que sozinha e à distância, sustenta a sua família.

 

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Sarafina! é inspirado numa história verífica. Fonte: LA Times

Embora o filme não mostre quem eram os brancos no poder, o filme evidencia como todos os brancos sul africanos eram apáticos, não questionando nem desafiando o status quo, pelo contrário até o fortaleciam.

Os negros viram-se contra eles mesmos, roubando, matando, extorquindo.

As alianças quebram-se e as fraquezas de cada lado revelam-se. Não há vilões e nem heróis.

Sarafina e os seus amigos vêem-se perdidos, sem um rumo próspero. Despidos da sua humanidade, vêem-se também eles próprios, a despirem os outros do seu lado humano.

Perante isto, as linhas que separam a paz da guerra; o certo do errado e o impensável do possível tornam-se turvas.

O filme é um importante testemunho, feito por sul-africanos, daquilo que se viveu e aconteceu durante os finais anos sangrentos do apartheid, oferecendo um olhar real e intemporal da África do Sul, a nação arco-íris.

O que aconteceu Lumumba?

O que aconteceu Lumumba?

O filme “Lumumba, a morte de um Profeta” de Raoul Peck descreve os acontecimentos em torno da ascensão, declínio e assassinato do Primeiro Ministro democraticamente eleito no Congo.

Com o intuito nem de criar uma imagem idealista e heróica de Lumumba e nem de o crucificar, ou de crucificar as pessoas que permitiram que o seu assassinato acontecesse, o realizador haitiano Raoul Peck criou um filme histórico e comovente sobre a pessoa que foi Lumumba.

Patrice Lumumba lutou por um Congo unido. Para ele, não havia liberdade com divisões tribais ou territoriais e essa era uma das grandes discussões para os partidos da altura.

No filme, Peck consegue contextualizar todos os acontecimentos desde a luta de libertação travada pelo Congo, as figuras políticas que o protagonizaram e os resultados conseguidos.

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R. Peck viveu em exílio no Congo e viveu a morte de Lumumba de perto. Fonte: The Culture Trip

Com apenas 12 semanas no poder, Lumumba foi assassinado.

O filme começa com dois homens brancos a carregar cadáveres, a beberem algum licor barato pelo gargalo e posteriormente a equartejarem os corpos sem vida.

Já mais para o fim, vemos esses corpos a arderem. Os restos mortais de Patrice Lumumba até hoje não foram encontrados.

Patrice Lumumba foi um dos fundadores do Movimento Nacional Congolês, o primeiro partido político nativo do Congo em 1958. E desde esse primeiro momento, aliou-se a vários líderes Pan-Africanistas, o que moldou muito a sua visão e ideais nacionalistas.

Por essa altura, outros partidos com ideais variados surgiram no Congo, no entanto nenhum líder era tão carismático, perspicaz e radical como Lumumba.

Na defesa da independência do Congo, ele foi preso e torturado, libertado apenas para participar da conferência em Bruxelas onde se preparou a transição política do Congo. E assim foi, as eleições foram em Maio de 1960, em que o partido de Lumumba saiu como grande vencedor, no entanto não conseguiu formar uma coalizão no Parlamento.

O seu rival, Joseph Kasavubu, ficou então como Presidente e convidou-lhe a ficar como Primeiro-Ministro.

Os dois são completamente diferentes: enquanto Kasavubu é calmo, e tenta manter a relação com a Bélgica pacífica e cordial, Lumumba é impulsivo, orgulhoso e revolucionário.

Uma das cenas em que estas diferenças melhor se manifestam é durante a tomada de posse, em que a Bélgica entrega o poder aos Congoleses, com um discurso condescendente e paternalista, mesmo depois de todas as atrocidades cometidas.

Kasavubu, como Presidente, agradece a bondade e liderança da Bélgica durante os anos de ocupação, e promete não decepcionar enquanto Lumumba, logo a seguir, movido pela raiva e dor do povo congolês, relembra a Bélgica de todo o sangue derramado pela independência e reafirma-se como um líder

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O filme capta alguns raros momentos de glória de Lumumba. Fonte: NY Times

Com um território de cerca de 2 345 000 km2 e mais de 80 milhões pessoas, o Congo é um país com diversos grupos étnicos distintos. Esta diversidade sempre foi usada pela Bélgica para separar o povo congolês.

De tal forma que, após independência os principais rivais de Patrice Lumumba e os respectivos partidos criaram várias manifestações e distúrbios para defenderem a libertação de vários territórios tidos como de uma única etnia.

Após a independência o Congo entra em crise.

Moise Tshombe, da etnia Lunda, liderou um movimento separatista com o apoio da Bélgica, chegando a declarar a independência da província de Katanga a 11 de Julho de 1960. Esta província é rica em cobre, urânio e diamantes, entre outros recursos.

Peck mostra-nos como esta crise afecta Lumumba. Ele fica cada vez mais ansioso, dorme pouco, mexe-se muito. Sem apoio dos E.U.A. nem das Nações Unidas, ele recorre à União Soviética para controlar a crise, sem o consentimento do Presidente Kasavubu nem de Joseph Mobutu, Secretário de Estado.

Lumumba fica isolado.

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Lumumba foi capturado e assassinado com o apoio da Bélgica, Reino Unido e EUA. Fonte: BBC

Raoul Peck consegue contar todos estes factos históricos de uma forma envolvente e emotiva.

 

Fica claro que não foi apenas a promiscuidade entre o poder militar e a Bélgica e outras potências ocidentais mas também a própria indisciplina do Exército e o contexto da Guerra Fria, combinados com o temperamento de Patrice Lumumba e sua ingenuidade que culminaram no seu afastamento.

O filme não é apenas sobre o caos e sobre a guerra, é também sobre as forças maiores que qualquer homem e qualquer ideal que ele possa defender: é sobre um pai que não consegue estar lá quando o seu filho ainda bebé morre, sobre um esposo que não está presente quando a mulher precisa.

Patrice Lumumba teve a coragem de se posicionar contra a condescendência ocidental. Ele ousou defender a causa Africana, mesmo sobre o risco de morrer – e morreu. A sua vida foi o seu maior sacrifício.

Morreu herói sim, mas a sua ausência causou prejuízos inestimáveis ao Congo que se fazem sentir até hoje.

 

 

Moolaade

Moolaade

No último filme de Sembene, o contador de histórias senegalês traz-nos um tema polémico e bastante actual: circuncisão feminina, ou por outras palavras, a mutilação genital feminina.

O filme “Moolaadé” passa-se numa pacata aldeia do Burkina Faso quando, após fugirem do ritual de purificação, quatro fugitivas se refugiam em casa de Collé, uma mulher que anos antes não deixou que a filha participasse do ritual.

Collé para proteger as meninas lança um feitiço de nome Moolaadé, que funciona como asilo espiritual, impedindo as meninas de voltarem para o local do ritual, até que o feitiço seja quebrado com a palavra mágica que apenas por ela pode ser proferida, sobre o risco de grandes desgraças acontecerem.

 

 A segunda de três esposas, Collé tem de defender e negociar a sua posição primeiro para a sua irmã mais velha (a primeira mulher) e para os restantes habitantes da casa, e depois para as mães das meninas e toda a comunidade em geral.

Collé, com as suas dores e cicatrizes, ameaça a ordem social naquela pacata vila e isso assusta os demais. Ela é acusava de ser demoníaca por defender algo que contradiz os ensinamentos religiosos e as tradições ali instaladas.

Através do conselho de anciões, os homens mais velhos opõem-se ao feitiço lançado por Collé, chamando-a de imprudente e de desequilibrada. E forçam o seu marido, que reconhece a sua força e por ela tem muito amor, a humilhá-la em praça pública para provar o seu domínio sobre a esposa ‘desobediente’.

Evidencia-se aqui o poder que os homens têm – ou procuram ter – sobre as mulheres, os seus corpos e as suas decisões. Seja de marido para esposa; de irmão para irmã; de filho para mãe ou mesmo de um simples desconhecido para uma mulher qualquer.

 


Misturam-se motivos culturais; religiosos; mitos e factos numa trama trágica e simultaneamente cómica que retrata a vida e dinamismo de uma aldeia típica africana.

Sembene traz-nos todos os contrastes e contradições desta vivência.

Se por um lado Collé é uma mãe ousada, com audácia para desafiar as normas impostas, por outro é também uma mulher bastante convencional, que vive um casamento poligâmico e faz um casamento arranjado para a filha.

Se temos de um lado uma vila com uma herança islâmica presente em todas as esferas da vida, temos também uma forte influência das religiões tradicionais africanas, em que o Moolaadé tem muito poder.

E embora a aldeia pareça estar parada no tempo e isolada de tudo, a presença de aparelhos de rádio, que trazem notícias de todo o mundo e do filho do régulo que regressa da França vestindo fato e gravata sempre que sai de casa, provam que não se pode viver fechando os olhos ao que se passa lá fora.
Mais do que um filme político, Moolaadé é um manifesto para a celebração de uma cultura africana que não cause prejuízo às mulheres.

O filme prova-nos como a cultura africana, os seus mitos e tradições não funcionam somente para oprimir, mas também para libertar. A nossa heroína com apenas um acto de resistência leva toda a vila a questionar, debater e conversar sobre um assunto até então tabu.

Sembene, mais uma vez, dá a conhecer uma África para além de toda a sua pobreza e agonia. Uma África de coragem e encanto, cujas respostas estão lá escondidas, no meio de toda a opressão à espera de serem descobertas.

 

Sembene para além das histórias

Sembene para além das histórias

O documentário Sembene! é um retrato do contador de histórias senegalês Ousmane Sembene, considerado o Pai do Cinema Africano.

Como contador de histórias Sembene sempre procurou trazer ao centro alternativas ao discurso dominante, que até então encontravam-se à margem da sociedade.

São estas histórias alternativas as suas musas, mas o filme não é só sobre isso.

O entrelaçar da sua biografia, com o panorama geopolítico internacional e as suas produções, oferece-nos uma ideia do compasso moral e daquilo que Sembene pretendia ao escrever e realizar cada um dos seus filmes.

É promíscua e até certo ponto pornográfica a relação entre política e o seu trabalho. Sembene não tem o privilégio de contar histórias de amor, ele traz-nos guerras; massacres; mutilação genital; corrupção. É daí que vem a sua força criativa.

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Sembene inventou um novo Cinema para África. Fonte: Africa Is A Country

Ousmane Sembene nasceu em 1923 no Senegal, em Ziguïnchor, filho de um pescador, profissão que abraçou na adolescência ao abandonar a escola.

Decidiu depois sair da sua vila, realizando vários trabalhos manuais e por fim chegou a França aos 24 anos. Foi nas docas de Marselha, como estivador, que conheceu a vida como operário e se envolveu no movimento trabalhista.

Após uma grave lesão na coluna durante o trabalho, passou vários meses no hospital e aí começou a ler bastante.

Foi nesse período que se acorda nele a consciência do seu lugar no mundo.

Passa a activista sindical e autodidacta compulsivo, procurando conhecimento sobre tudo um pouco, mas especialmente sobre a vivência da Negritude.

“It’s a long-term job to change ideas held for centuries. My aim is to make a film for Africans. And, if it’s done well, people will like it everywhere else too./ Mudar ideias centenárias é um trabalho a longo prazo. O meu objectivo é fazer um filme para Africanos. E, se for bem feito, pessoas de outras partes do mundo também vão gostar.”

Começou por escrever pequenos contos e romances, mas rapidamente apercebe-se das limitações da escrita no Senegal, onde a taxa de alfabetização era muito baixa. É assim que surge a sua paixão pelo cinema: a necessidade de contar as suas histórias a pessoas como ele, numa linguagem que percebessem.

Durante os seus 40 anos de carreira, Sembene explorou destemidamente temas como o colonialismo, a corrupção dos movimentos de libertação no período pós-independência; o Islão e o racismo.

Foram filmes como “La noire de…” (1966) e “Moolaadé” (2004) que colocaram o cinema Africano no radar dos grandes festivais internacionais de cinema como o de Cannes e Berlim.

Mas com essa atenção, vieram também algumas punições. Em França, por exemplo, o seu filme “Camp de Thiaroye” (1988) foi banido e no Senegal, vários trabalhos dele foram banidos e/ou censurados como é o caso de “Ceddo” (1977) e “Emitaï” (1971).

 

O filme Sembene! tenta ser um retrato fiel do realizador que sacrificou as suas relações na indústria; com a sua família; com os seus amigos e até amantes pela sua causa.

Sembene aparece no filme como um artista que nunca quis – ou talvez nunca pôde – respirar, comer, dormir e amar outra coisa senão a própria arte. E é esta humanização, que serve ao mesmo tempo de demonização que coloca o espectador como juiz.

A dada altura Sembene confessa que seria capaz de atropelar certos princípios e mesmo valores em nome da sua arte. E que nós, os juízes, devíamos julgar a sua arte e não os processos que permitiram que tal arte fosse feita.

Ao enfrentar a câmara, Sembene olha-nos com uma certa arrogância e prepotência, mas atrás dela, o seu olhar capta compaixão, gentileza e procura sempre o mais puro e verdadeiro.

É por isso irónico que através do seu trabalho tenha sempre criticado a forma absoluta como o poder dominante era uma força intolerante, no entanto, ele fez o mesmo.

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Sembene faleceu e deixou projectos inacabados. Fonte: Telegraph

Mas apesar das contradições que o filme nos mostra entre o homem e o seu ego, Sembene! é ainda um retrato amável do realizador. Nele, nos é pintado um rebelde com uma causa nobre.

Para um homem que entregou a sua vida à arte de contar histórias à moda Africana, nenhum filme seria suficiente, contudo o documentário Sembene! fica bem perto.

Somos obrigados a aceitar os limites da humanidade deste grande senhor, Ousmane Sembene pois nem ele tem todas as respostas. Quando confrontado com as suas provocações, ele também treme.

Ficam claras as suas intenções: o contador de histórias não tem respostas, apenas perguntas.

Ruanda, para sempre

Um olhar sobre o filme “Sometimes in April” (Abril Sangrento) de Raoul Peck, que conta como o genocídio de Ruanda mudou para sempre a vida de dois irmãos. 

O filme começa com imagens lindas e a voz sensual de Idris  Elba a descrever o Ruanda e o clima que se faz sentir em Abril, o mês que marca o início da época chuvosa. É em Abril, ao som do gotejar dos céus que Augustin, interpretado por Idris Elba, lembra-se da crueldade do ser humano e do enorme vazio que sente.

Augustin é um jovem militar em 1994 casado e feliz com dois filhos quando subitamente a tensão entre os tutsi e os hutu aumenta. A sua esposa, uma mulher tutsi, teme pela sua vida e pela proteção da sua família enquanto Augustin, cego pelos seus privilégios não vê a urgência dos seus medos.

É um filme violento e agressivo que sem rodeios nos mostra o que é um genocídio aos olhos de quem o viveu.
No Ruanda , em apenas 100 dias, isto é, pouco mais de três meses, aproximadamente um milhão de pessoas tutsi foram assassinadas por conterrâneos hutu.

 

Augustin e Honoré são dois irmãos em lados opostos no conflito.

Tamanha barbaridade só foi conseguida porque “pessoas do bem”, isto é, pessoas que à partida nunca matariam ninguém, ou desejassem a morte de alguém foram cúmplices.

É o caso de Honoré, irmão de Augustin, interpretado por Oris Erthuero, que na qualidade de locutor apoia as mensagens de ódio da sua emissora, usando o poder da sua voz para falar mal dos tutsi.

É também o caso de um Coronel, denunciado no Tribunal Penal Internacional por não impedir que os seus soldados violassem e mutilassem jovens mulheres e adolescentes tutsi.

Foram “pessoas do bem” que para salvaguardarem os seus interesses pessoais e por acreditarem que faziam parte de um grupo superior usaram do seu espaço de ação para proteger, suportar ou patrocinar actos maléficos.

Foram “pessoas do bem” que, com as armas certas – figurativa e literalmente, tornaram-se em assassinos cruéis.
O director, Raoul Peck, em entrevistas afirma que nunca foi a sua intenção fazer uma versão negra de “A lista de Schindler”(Steven Spielberg, 1993) e de faço tanto na forma como no conteúdo a sua obra consegue nos descrever um genocídio sem apelar tanto à comoção.

Em “Abril sangrento” vemos as catanas, a raiva e a ignorância de quem não tinha outra causa senão a sede de matar.

Também não temos herói, como é comum em filmes que retratam períodos de guerra/ conflito. Em genocídios não há heróis. Há sobreviventes.

Aliás, esta é também uma das grandes diferenças entre “Abril Sangrento” e “Hotel Ruanda”.

“Hotel Ruanda” (Terry George, 2004) consegue ser bonito e romântico, ainda que triste. Já “Abril Sangrento” traz-nos um olhar mais cru e mais real daquilo que foram os 100 dias de genocídio no Ruanda.

Peck não deixa o glamour do cinema tirar da realidade o seu terror. Ele mostra-nos o sangue, o ódio, as violações sexuais, a ganância e a violência sem restrições.

 

Emmanuel (esq) cortou a mão de Alice (dir) em 1994, antes de matar o seu bebé. Fonte: Observador

Ao longo da trama vemos como as Nações Unidas e a comunidade internacional no geral, ignorou a situação completamente. Vemos como os líderes ruandeses viviam longe da chama que eles tinham incendiado.

A vida dos dois irmãos é completamente alterada pela massacre levado a cabo pelos  hutu contra os tutsi. Em lados opostos desse conflito, separam-se e esquecem-se, desconhecem-se. Os seus destinos cruzam-se anos mais tarde.

Somos confrontados com a possibilidade de perdão. É possível? Somos obrigados a encarar a verdade. Que verdade? Por onde começar a sarar tamanha dor?

“Nunca mais” dizemos. Nunca mais deixaremos alguém despido da sua humanidade, exposto a um crime bárbaro. Nunca mais cruzaremos os braços perante conflitos étnicos.

E ainda assim, ainda há genocídios a decorrer em África. Ainda temos essa mesma sede de matar.

(Des)Virginando Margarida

No filme de Licínio de Azevedo, Virgem Margarida, somos confrontados com a dura realidade do processo revolucionário pós-independência em Moçambique.

Em Junho de 1975, com toda a euforia e esperança do nascimento de uma nova nação dotada de auto-determinação, ideias próprias e controle total sobre o seu domínio Margarida, uma jovem camponesa vai à cidade comprar enxoval e vê-se enrolada numa teia de coincidências infelizes.

Por falta de documentos é levada pela polícia durante uma rusga que resulta também no aprisionamento de várias mulheres da noite, entre prostitutas e dançarinas.

Embora algumas destas aceitem a sua condição de “mulheres da vida”, que trocam sexo por dinheiro, muitas resistem essa denominação, entre elas Margarida, que nega ter estado alguma vez com um homem.

Baseado em factos reais, o filme retrata os contrastes vividos na época.

Para muitos militares, eles mesmos também camponeses, as mulheres da cidade com as suas roupas vistosas eram consideradas prostitutas, embora nem sempre o fossem. Enganos eram comuns.

O ideal de mulher passava por servitude, modéstia e submissão à família. Assim, estas mulheres que saíam para trabalhar à noite, vestidas com roupas brilhantes e com maquilhagem exuberante, eram encaradas como uma ameaça ao futuro virtuoso do país.

No novo Moçambique, as mulheres deviam servir a nação. Eram elas a base para o desenvolvimento da família e para a prosperidade da força de trabalho, já que tinham o papel de fazer e criar os filhos.

Aquelas que fugiam a esse ideal eram levadas forçosamente a campos de reeducação, de onde era suposto sairem mulheres novas, dotadas das qualidades e ambições desejadas numa Mulher Africana no pós-independência para um regime socialista.

Em 1975, num país que precisava de consolidar a sua identidade, era essencial a transformação de mentalidades e o abandono da retórica colonial. Para tal era preciso criar esta ideia do “homem novo” e materializá-la.

Encarava-se a exploração sexual da mulher moçambicana como resultado do colono, que olhava para a mulher negra apenas para satisfazer os seus apetites, sem de facto dignificá-la.

No entanto, essa exploração sente-se em todas as esferas da vida da mulher, tanto no pré e no pós-independência, pois mesmo no seio dos militares havia homens com a mesma mentalidade machista que os colonos.

As intenções revolucionárias, por mais puras e ingénuas que fossem, eram pouco dado o tamanho da missão a que se destinavam cumprir. Como é que se levam centenas, quiçá até milhares, de mulheres urbanas para o campo? Como é que se transformam essas mulheres em novas pessoas? Será possível?

É importante contextualizar os campos de reeducação no contexto revolucionário, e o contexto revolucionário por sua vez no universo de emoções, traumas e idealismos de um povo que foi à guerra para ser livre.

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O filme “A Virgem Margarida” foi premiado internacionalmente.

Por outro lado, no filme o realizador explora também a necessidade da união entre as mulheres para a sua libertação.

A sororidade e o companheirismo entre as reeducandas, movidas pela experiência comum de opressão acaba por vencer as diferenças que as separam.

De uma forma quase literal, o autor mostra que a libertação da mulher moçambicana só será possível quando os grupos abandonarem a sua fidelidade às outras estruturas em que estão inseridas.

Em Virgem Margarida, para as combatentes é necessário abandonarem a estrutura militar e denunciar o abuso de poder e machismo dos seus colegas. Para as reeducandas, é preciso deixarem as alianças tribais e de classe de lado.

É somente neste campo de negociação que se pode falar, depois de uma Mulher Nova, pois essa mulher será livre de escolher o seu próprio destino.

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Segundo Licínio de Azevedo o filme não tem qualquer intenção política. Pelo contrário, interessa aqui o lado humano, o drama da vivência diária nos campos.

As condições reais dos campos e a forma como aos comandantes geriam os recursos de forma despótica, aliadas ao escasso acesso a alternativas, criavam um ambiente em que as ideias nem sempre chegavam.

A visão idealista da época arrastou não só mulheres, mas também homens para os campos de reeducação, destruindo e separando famílias para sempre. Entre prostitutas;  improdutivos; traidores; dançarinas… E virgens, também artistas, certamente outros mal entendidos aí na mistura.

As atrocidades, violência e consequências dos processos revolucionários são temas recorrentes nos filmes de Licínio de Azevedo.

Muito mais que saber o Passado, cabe-nos agora questionar o Presente. Quem seriam as Margaridas de hoje? O que temos feito por elas? E pelas outras? Que correntes nos impedem de alcançar a tal almejada libertação?