Reflexões em torno da Estátua da Liberdade, em Nova Iorque
Foi numa manhã fria de domingo e Nova Iorque já tinha perdido o seu encanto mas eu queria muito ver aquela mulher.
Eu não queria saber dos Museus com as suas narrativas coloniais e imperialistas, muito menos das obras de arte roubadas. O que eu queria era ver aquela mulher: Liberdade.
Tanto dela se falava, tanto dela se imaginava, mas pouco dela se via.
Foi numa manhã fria de domingo e Nova Iorque já tinha perdido o seu encanto, mas eu só pensava naquela mulher.
Então a ela me dirigi.
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A Estátua da Liberdade não teria sido concebida ou construída se os principais defenders na França e nos EUA não fossem abolicionistas que entendiam a relação entre a Escravatura e a Guerra Civil Americana. Fonte: Black Statue of Liberty | NPS
Não é possível falar de Nova Iorque sem falar em raça – a menos que se seja insensível à cor. A cidade de Nova Iorque é um espaço altamente racializado, em que por exemplo no centro pouco se vêem negros e os que se vêem ocupam na sua maioria posições de servitude (empregados de mesa; motoristas; porteiros; etc). Mas podemos falar disto num outro dia.
Importa falarmos de raça aqui porque nessa fria manhã de domingo eu e outras meninas africanas negras fomos ver a estátua e um jovem senhor, enquanto esperávamos o transporte para lá, aproximou-se de onde estávamos e começou a conversar connosco.
Ele era negro. Nós eramos as outras únicas pessoas negras naquele local.
Depois daquelas perguntas típicas sobre a origem da nossa melanina, o senhor, um homem negro nova iorquino, partilhou tudo o que sabia sobre a estátua.
“Did you know that the Statue of Liberty is a black woman?/ Vocês sabiam que a Estátua da Liberdade é uma mulher negra?” – perguntou, e após a nossa cara de surpresa, ele começou a contar-nos como a Estátua da Liberdade tinha sido concebida pelos franceses com o intuito de alargar o debate sobre a Liberdade, especialmente num contexto em que predominava ainda o sistema escravagista nos EUA.
De facto foi um abolicionista francês, Edouard de Laboulaye que idealizou a estátua e os desenhos iniciais tinham sido inspirados nas mulheres egípcias pelo escultor Auguste Bartholdi.
Os abolicionistas norte-americanos, através das suas campanhas de advocacia e angariação de fundos para o monumento e para a libertação de outras pessoas escravizadas conseguiram por fim, que a estátua chegasse a Nova Iorque.
Nao fosse pelos abolicionistas, um dos maiores pontos turísticos de Nova Iorque sequer existiria.
Era uma manhã fria de domingo e Nova Iorque já tinha perdido o seu encanto, e enquanto ele falava de forma tão apaixonada sobre os povos negros nos EUA, eu pensava em todos os afro-americanos (ou negro- americanos)
“The chain on her feet represents the things that bring us down/ A corrente no pé representa aquilo que nos deita pra baixo”, continuava ele entusiasmado pela atenção que lhe dávamos.
E de facto, a Liberdade continua acorrentada. Quando a vi lá, sozinha e abandonada naquela ilha, rodeada de turistas que não sabiam da sua História, coberta do seu verde nada negro, pensei comigo mesma: Liberdade para quê e para quem?

One thought on “O que é que eu vou fazer com essa tal Liberdade?

  1. A liberdade representada pela estátua é a possibilidade de enriquecimento, negada quando a organização política era de cerne religioso. Com a Revolução Francesa, os burgueses, impedidos pela monarquia de ter lucro, conseguiram enfim a separação entre Estado e religião, obtendo a “liberdade” que tanto almejavam.
    É triste, mas os maiores eventos dos últimos séculos se deram orientados pelos interesses das pessoas ricas que desejavam aumentar seu lucro – a escravidão no Novo Mundo, e o fim dela; a Revolução Francesa, e a Declaração dos Direitos Humanos; as Duas Guerras Mundiais, a Guerra da Coréia, a Guerra do Vietnã, as duas Guerras do Golfo, as ditaduras do século XX por todo o continente americano e seus términos, os embargos aos regimes autocratas atuais, a seletividade dos países com bomba atômica.
    A história macro-política é movida pelos mais ricos, que vendem às massas e aos ingênuos, os valores de “liberdade” e “direitos humanos”.
    A estátua da Liberdade representa a possibilidade de empreender e enriquecer, opção que não havia na Europa monárquica. Não à toa, os EUA nunca tiveram monarquia.
    Quanto mais se estuda História, da antiguidade à contemporaneidade, mais as ilusões se destroçam e o mundo torna-se claro aos olhos então crescidos sob a educação crítica fantasiosa, idealizada e colonialista do ensino oficial.

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