Meu voto feminista II

Meu voto feminista II

O meu voto feminista procura um candidato feminista para relacionamento sério e duradouro.

Eu quero um candidato generoso, paciente e solidário. Um candidato sensível às questões de base: saneamento; saúde; educação.

Eu quero um candidato pronto para facilitar as iniciativas dos cidadãos que estão a criar mudanças na nossa comunidade para responder a essas mesmas questões.

Eu quero um candidato que perceba as minhas necessidades e esteja disposto a trabalhar comigo para juntos arranjarmos soluções.

Caro candidato, saiba que para ter o meu voto terá de trabalhar muito. Eu sou mulher de me entregar facilmente quando quero, mas também sei gingar quando não me sinto segura.

E antes de se relacionar comigo deve saber que sou uma mulher feminista e o meu voto vem dessa consciência.

Para ter o meu voto, o candidato tem de me responder:

Existe uma política (e prática) de igualdade de género no seu gabinete? Se sim, qual? Se não, porquê?

Existem mulheres em cargos de decisão na sua equipa? Quantas? Essas mulheres são apostas reais na sua equipa a longo prazo? No fim do mandato, onde estarão estas mulheres? Qual será o resultado esperado?

Como é que o candidato irá abordar as questões de género e cruzá-las com outras discriminações (idade; origem étnica/nacionalidade; sexualidade; capacidade física)?

Mas mais do que um candidato atento aos meus interesses individuais, nós precisamos sobretudo de um candidato que possa fazer muito para um colectivo de pessoas.

E para se relacionar comigo, tem de saber que eu sonho em um dia construir família numa comunidade dinâmica, com actividades culturais e desportivas.

Eu sonho em andar por aí de mãos dadas com quem eu quiser sem ter medo de ser atacada ou ofendida. Como é que o candidato criará condições para tal?

Que tipo de apoio pretende dar às vítimas de violência? E que medidas preventivas serão colocadas em curso para evitar que tal aconteça?

E por falar em violência, como pretende fazer do espaço público um espaço seguro? Um espaço em que todas as mulheres possam exercer o seu direito de ir e vir, a qualquer hora, com qualquer roupa sem correr o risco de ser vítima de algum tipo de violência?

Como é que pretende tornar o espaço público mais limpo, amigo do ambiente e acessível por pessoas portadoras de deficiência?

Gostaria também de saber, como podemos criar condições para as mulheres abrirem negócios próprios, gerando renda para as suas famílias e contribuindo activamente para a nossa economia?

E mais, como ele vê o papel da mulher na economia informal? E o que podemos fazer para assegurar a prosperidade desses negócios?

O meu voto feminista quer um candidato capaz de fazer tudo isso.

Então se você acha que pode ser essa pessoa, que tem o perfil para construir essa relação comigo, me convide para sair.

 

O meu voto feminista

O meu voto feminista

Este ano dos 165 candidatos às 50 autarquias, apenas 5 são mulheres. Por que será?

Segundo dados do INE as mulheres representam mais de metade da população, portanto não podemos ficar excluídas das decisões a nível político. Dos cerca de 28,8 milhões de moçambicanos, 15 milhões são mulheres.

Segundo algumas vozes, as mulheres é que são as culpadas, pois não tomaram iniciativa, isto é, não se candidataram dentro dos próprios Partidos. Elas fazem parte das listas como membros das Assembleias municipais, mas não como cabeças de lista para os Municípios.

Apesar de a nossa Assembleia da República ser presidida por uma mulher e ter 40% de representatividade feminina, as mulheres ainda encontram muitas barreiras para gerarem mudanças. O acesso a posições de liderança ainda é bastante reduzido e isso vai desde o topo (Presidência; Conselho de Ministros; etc) até à base (Secretários de barro; Régulos/ Rainhas; etc).

Para além disso, nem sempre essa representatividade se reflecte em avanços para a vida das mulheres comuns. Não podemos ignorar o facto de as mulheres em posições de poder prestarem contas a instituições que são regradas por interesses que não dão prioridade às questões de género.

Ter mulheres em posições de poder é um passo sim, mas não nos podemos deixar ficar por aí. Devemos cobrar mais, não só a elas mas a todos os dirigentes.

Pois não basta só colocarem mulheres no poder, é importante combater as mentalidades patriarcais e sexistas que alimentam as desigualdades e as discriminações de género em todas as esferas.

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A limitada participação das mulheres tem como causas os factores históricos: a tradição e os parâmetros legais, juntos determinam os limites dos direitos, obrigações e liberdades das mulheres. Fonte: Fórum Mulher

As próprias mulheres no poder são vítimas dos interesses patriarcais que muitas vezes protegem. Elas são expostas a assédio verbal e escrutínio público pelo simples facto de serem mulheres: a roupa que vestem; como falam; como se sentam; se são casadas ou não; se têm filhos ou não; tudo isso é usado para descredibiliza o seu mérito.

Mesmo aquelas que não não entram na política ‘voluntariamente’ como por exemplo a Primeira Dama, são vítimas dessas pessoas defensoras da moral e bons costumes, da “cultura”.

E muitas vezes ouvimos discursos machistas e conversadores, vindos de quem está no poder. Usa-se sobretudo a cultura como escudo para travar avanços para as mulheres.

Em Moçambique as desigualdades de género estão associadas a factores culturais que ditam o papel das mulheres e limitam o nosso acesso à educação, ao mercado de trabalho, a património, etc.

Eu como mulher e como feminista gostaria de ver os meus interesses salvaguardados e não somente porque existem mulheres no poder, mas também porque essas mulheres têm nas suas agendas as questões de género destacadas.

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As taxas de analfabetismo são desproporcionalmente maiores entre mulheres (67%, versus 36% entre os homens) e são também as mulheres o grupo mais afectado pela extrema pobreza. Fonte: Opera Mundi

Uma coisa não podemos esquecer: todas as conquistas das mulheres foram por mérito próprio.

Ninguém “deu” às mulheres o direito ao voto; o direito à educação; à formação militar; etc. Todos os direitos foram reivindicados!

 

E para salvaguardar esses direitos que com tanto esforço, sangue e sacrifícios foram conquistados, devemos nos manter vigilantes e cientes do nosso papel como cidadãs deste país.

Se nós queremos uma sociedade mais justa, mais atenta às questões de género, teremos de fazer valer o nosso voto e cobrar isso de quem nos governar.

Hoje em dia muitas mulheres já têm consciência dos seus direitos e deveres. Contudo, apesar de haver uma moldura legal e uma aparente representatividade, a implementação dessas leis tem-se mostrado bastante frágil.

Não basta só colocarem lá as mulheres se depois vão instrumentalizá-las para favorecer a ordem em vigor.

Os nossos dirigentes precisam de pensar, por exemplo, sobre melhores formas para proteger as vítimas que denunciam violência doméstica; formas de melhor preparar as autoridades que recebem estas vítimas; mais segurança em espaços públicos; etc.

O meu voto é feminista!

 

… Resta saber se existe candidato feminista.

Entre Ela e Deus

Entre Ela e Deus

O documentário “Entre Eu e Deus” de Yara Costa traz-nos importantes reflexões sobre a religião.

Gravado na Ilha de Moçambique, no norte de país, “Entre Eu e Deus” mostra-nos como uma nova forma de viver o Islão, o Wahhabismo, está a mudar a Ilha e quem são os protagonistas destas mudanças.

Tendo como ponto de partida a história de Karen, o filme revela-nos o que há por detrás do seu véu: uma jovem muçulmana estudante de Engenharia Civil, com todos os sonhos e questões de quem tem vinte e poucos anos.

 

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O filme estreou esta semana em maputo. Fonte: Maputo Fast Forward

O Islão chegou no séc. VIII e fundiu-se com a própria cultura macua. Este Islão africano, e talvez diria até, Islão macua, tem as suas raízes no Islão suni e na própria tradição local.

 

No documentário, esta vertente do Islão é personificada por uma velha macua que defende a existência de uma certa flexibilidade da religião tendo em conta a terra de onde a pessoa é. Um muçulmano em Moçambique é diferente de um muçulmano em Portugal. O seu véu é composto por duas capulanas, e na sua face a tradicional máscara de mussiro evidenciam o seu local de origem.

Já o islão Wahhabi defende a interpretação do Alcorão da forma mais pura. E ironicamente, esta visão mais conservadora é personificada por jovens como a Karen, a protagonista.

Estes jovens, ligados ao mundo pela internet e alguns ainda, viajados tendo estudado na Arábia Saudita, trazem um islão diferente que se opõe a alguns traços da tradição macua. Para eles, Deus está acima de tudo: das tradições; dos costumes locais; etc.

A Ilha de Moçambique é um local com muita História e muitas fusões. Foi lá onde se instalaram os primeiros árabes e mais tarde os indianos e portugueses, entre outros povos.

Numa das passagens do filme, vemos uma cerimónia religiosa católica, em que os crentes e o próprio padre usam capulanas com imagens de Nossa Senhora e tocam batuques na missa, enquanto cantam música religiosa.

Noutra, as mulheres muçulmanas macuas vestem-se de capulanas e pintam o mussiro, segurando o Alcorão.

Isto mostra como as diferentes religiões moldaram-se e se misturaram com a cultura local.

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A Ilha foi marcada durante séculos pela cultura swahili e o Islão dos povos da África Oriental. Fonte: DW Africa

A família da Karen, tal como tantas outras, sempre foi praticante do Islão. Então porquê essa busca, essa sede de seguir um “outro” Islão?

Aquilo que à partida é, deixa de o ser. Olhamos para a Karen com as roupas escuras, o hijab, e pensamos que ela é uma jovem alienada, sem sentido de identidade próprio, sem vontades nem quereres. Porém, à medida que ela se vai revelando, vemos uma jovem esclarecida, crente, convicta das suas ideias e do caminho que ela mesma escolheu seguir.

Dúvidas nascem em si como cogumelos sobre os mais diversos temas: Existem gays muçulmanos? Será que a minha mãe (falecida) aceitaria as minhas escolhas?  Os meus amigos ainda sabem quem eu sou?

E como não podia deixar de ser, uma jovem cheia de contradições. E esta é para mim a componente mais bela, mais simples, mais importante deste filme.

Se por um lado, a Karen quer seguir o Islão puro e sonha em conhecer a Arábia Saudita, por outro, reconhece e admira os privilégios de que goza na Ilha: ela pode conduzir, ela escolheu o curso que queria seguir, gere um pequeno negócio de compra e venda de roupas, etc.

Se por um lado a Karen quer terminar a Licenciatura e quiçá até continuar os estudos e/ou ter uma carreira profissional, por outro, sonha em ter um marido e ficar em casa a cuidar dos filhos.

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O filme “Entre Eu e Deus” é um alerta à moderação. Fonte: O País

É esta dimensão humana, individualizada, que me permite olhar para a Karen e me rever nas suas experiências.

Eu também sou uma mulher cheia de contradições. Eu também defendo ao mesmo tempo me oponho a certas coisas.

Eu também acredito e depois desminto. Enfim, eu também sou uma complicada teia de aceitações e rejeições, num mundo em constante mudança ao qual não me posso fechar e do qual não posso fugir, pois faço parte dele.

E isso é entre eu e eu mesma.

 

 

 

 

Vovó Kimpa

Vovó Kimpa

Relembrando Kimpa Vita, profetisa africana do Reino do Kongo, assassinada no séc. XVIII pela Igreja Católica

Kimpa Vita nasceu no Reino do Kongo, filha de uma família nobre e foi baptizada ainda pequena como Beatriz.

Desde a sua infância que apresentava sinais de ser uma pessoa especial e foi treinada como Nganga Marinda, uma curandeira capaz de curar com o poder das plantas e comunicar com o mundo espiritual.

Ainda jovem, começou a frequentar os cultos de Mama Mafuta, uma mulher mais velha, que também profetizava que se tornou sua mestre.

Num dos seus primeiros milagres, Kimpa Vita morreu e ressuscitou. Ao acordar, disse ter conversado com Deus e recebido uma missão: Acordar o povo do Kongo, unir o povo do Kongo e reconstruir a cidade de Mbanza Kongo. Como parte dessa missão, Kimpa deveria também abençoar um rei escolhido pelo povo do Kongo.

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Kimpa Vita foi treinada como curandeira. Fonte: African Heritages

O Reino do Kongo estava a ser ocupado por Portugal e no início do séc. XVII houve muitas guerras entre as duas forças.

Numa das guerras entre o reino do Kongo e Portugal, após a morte do rei Vita manda, o reino dividiu-se em dois, cada um liderado por uma ala da família real: Reino dos Kdompetelo e Reino dos Ndozuao.

A estrutura do reino do Kongo tinha o poder político bastante centralizado e por isso ambas alas disputavam o trono.

Ao mesmo tempo, Portugal solidificava a sua presença no reino e com isso, impunha também a sua religião.

O povo do Kongo era um povo muito ligado às suas tradições e à sua Filosofia, pelo que a Igreja Católica teve um papel importante no seu desmoronamento. Com o fim do cultos aos antepassados e com a separação do reino, o reino fragmentou-se.

O tráfico humano para a escravatura era um dos resultados das múltiplas guerras, pois os povos conquistados eram muitas vezes vendidos. Uma vez que a venda dessas pessoas trazia grandes lucros, as guerras nunca terminavam, criando assim um ciclo vicioso.

No séc. XVII a região do Kongo (actual Angola) era um dos maiores fornecedores de pessoas para a escravidão. Milhares de pessoas eram traficadas para o Brasil, Suriname e Estados Unidos da América.

O desafio de Kimpa Vita era acabar com a guerra civil e reerguer o Reino, encontrando um rei capaz de manter essa união.

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O pensamento religioso de Kimpa Vita continua actual. Fonte: Jornal de Angola

Depois da Batalha de Mbwila, em 1678 a cidade de Mbanza Kongo foi abandonada.

A cidade tinha – e até hoje mantém – um valor simbólico muito grande. Era lá onde estavam enterrados os falecidos reis e onde se localizava também a catedral. A reocupação de Mbanza Kongo representava por isso a restauração do reino do Kongo.

Kimpa começou a pedir a muitos dos seus seguidores para retornarem à capital original do reino e assim, a partir de 1705 a cidade passou a ser habitada novamente.

Até então era uma zona interdita às populações africanas.

Kimpa Vita resgatou o orgulho do povo do Kongo profetizando em Kikongo.

Reinterpretou a Bíblia, fazendo de Jesus um homem negro e disse que Deus falava com ela em Kikongo. Segundo ela, Mbanza Kongo era a antiga Jerusalém onde teria nascido Cristo e todos os profetas eram do Kongo.

Kimpa Vita se opôs à idolatração e adoração dos Santos Católicos e das imagens ocidentais promovidas pela Igreja Católica. Defendia o uso dos nomes originais do povo do Kongo, razão pela qual o seu nome de baptismo, Beatriz, nunca foi aceite por ela.

Profetizou também que, caso o povo do Kongo se convertesse ao Catolicismo acabaria dividido e ocupado, até desaparecer completamente para todo o sempre.

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Kimpa Vita ‘africanizou’ os ensinamentos bīblicos. Fonte: Wizi Kongo

Kimpa Vita foi bastante perseguida, especialmente pela Igreja Católica que gradualmente ocupava um lugar importante no poder político à medida que Portugal solidificava a sua presença no território.

Sofreu várias ameaças, até mesmo no seio do seu povo devido à conjuntura da época. As diferentes alas em disputa pelo trono temiam o seu poder, tendo em conta a sua influência na época.

Aproveitando-se disso, a Igreja Católica acusando-a de heresia e feitiçaria, queimou Kimpa Vita viva em 1706.

O seu legado como uma mulher que lutou pelas injustiças do regime colonial e a perseguição religiosa que sofriam todos aqueles que não seguiam o Catolicismo mantém-se vivo até hoje.

 

Under The Udala Trees, uma Nigéria LGBT+

Under The Udala Trees, uma Nigéria LGBT+

O livro “Under The Udala Trees”  de Chinelo Okparanta retrata uma história nigeriana LGBT+

Este é um dos melhores livros que já li e escrevi um pouco sobre ele em 2016.

Há vários motivos para gostar do livro e um deles é o facto de ser  um livro africano recente que não retrata as vidas de africanos num contexto de emigração, que tem sido uma tendência entre escritores do continente.

Okparanta começa o livro de forma tímida e contida, tornando, na minha opinião, as primeiras páginas aborrecidas, cheias de metáforas e frases bonitas para escrever num caderno de anotações, mas à medida que a história avança, a leitura torna-se mais confortável e as suas frases tornam formas mais naturais.

A autora consegue retratar as experiências de Ijeoma, a protagonista, desde a sua infância à sua idade adulta. Uma mulher numa encruzilhada difícil, obrigada a escolher entre o que ela sente que é certo e o que precisa para sobreviver.

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A autora escreveu para se manifestar contra a opressão vivida pela comunidade LGBT+ na Nigéria. Fonte: The Guardian

 

Seguindo a tradição oral da Nigéria, a narrativa é inspirada pelas histórias e fábulas sobre as diferentes tribos e religiões que coexistem no país.

A puberdade de Ijeoma chega justamente no momento em que começa a guerra civil. Após a morte do pai, a mãe envia a sua filha para uma outra vila mais segura, sobre os cuidados de uma família amiga. Lá, Ijeoma vai descobrir a sua sexualidade, as suas forças e as suas fraquezas.

Decisões complicadas que nos deixam, como leitores, numa luta permanente.

Num país devastado por uma guerra civil e tensões étnicas, o luto é um sentimento constante. As ausências sentem-se ao longo de toda a narrativa. As questões de conflito e tribalismo misturam-se com homofobia, valores tradicionais e xenofobia.

Embora estes temas não sejam o centro da história, tal como na vida real, são componentes que determinam certas crenças e comportamentos. São elementos incorporados de forma tão subtil e bonita!

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Perseguições à comunidade LGBT+ na Nigéria são frequentes. Fonte: The Independent UK

O livro é um interessante começo para termos, como africanos, conversas sinceras sobre as experiências LGBT+ no continente.

Este é um brilhante retrato de histórias queer na Nigéria entre as décadas de 70 e 80, mas não deixa de ser uma história universal: pessoas queer a serem forçadas para espaços marginalizados, tanto física como espiritualmente. Pessoas queer como alvos de violência, tanto física como emocionalmente. Pessoas queer a viverem traumas todos os dias, tanto individualmente como colectivamente.

Na Nigéria, semelhante a outros países é ilegal ser LGBT+. Na base da legislação está a crença em que a homoafetividade é um conceito importado do Ocidente, uma herança nefasta do colonialismo, mas na verdade a homofobia é que na verdade foi importada.

O livro de Okparanta, um manifesto pelo direito a amar, em toda a sua beleza e magnitude, propõe um entendimento mais profundo da questão.

 

 

A Cleópatra do Uganda

A Cleópatra do Uganda

A coragem e vida da activista LGBT ugandesa Cleópatra inspiraram o filme “The Pearl of Africa/ A Pérola de África”

Quando o sueco Johnny Van Wallström começou a procurar material para o seu novo projecto, focou-se inicialmente num casal de dois homens homossexuais do Uganda. No entanto, com o tempo, um deles desistiu por se sentir culpado sabendo da vergonha e perseguição por que passariam os seus amigos e familiares.

Foi assim que o realizador do filme “The Pearl of Africa/ A Pérola de África”, acabou fazendo um documentário sobre Cleópatra, a activista e mulher transsexual que ele acompanha durante os meses que precedem a sua operação para mudança de sexo.

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O documentário surgiu primeiro como minissérie. Fonte: Abstract Friday

O documentário mostra Cleo e o seu namorado Nelson, um homem cis também ugandês e a sua jornada pela descoberta da sua ‘transexualidade’.

Ela reconta a sua infância e como sempre foi um menino afeminado e não se revia em nenhum dos padrões binários prescritos pela sociedade. De uma família grande, 12 irmãos, ela confessa que nunca se sentiu só, apenas se sentia diferente.

Diferente por não se rever em revistas, artistas, na TV ou na rádio. Diferente por sentir uma certa desconexão com o seu corpo. Diferente por não ter com quem partilhar as suas inquietações e sobretudo diferente porque era isso que ela era, diferente.

Na faculdade é que encontrou um nome para se descrever, nome esse que ela confessa não ter certeza se a representa: transexual. E foi assim que ela começou a investigar mais e a conversar com pessoas como ela, primeiro online e depois pessoalmente.

Nelson, o seu namorado, é um adorável rapaz heterossexual que também, através de Cleo, descobriu um pouco mais sobre si, sobre sexualidade e certamente sobre o amor.

Entre brincadeiras, dedos entrelaçados e sorrisos tímidos, é evidente o carinho que ambos têm um pelo outro. No documentário ambos falam das repercussões de assumirem publicamente o seu relacionamento: os comentários dos amigos; o afastamento da família; o julgamento de toda a sociedade.

Como assim uma mulher trans é merecedora de amor? Como assim um homem cis, que poderia ter “qualquer mulher” escolhe uma “menos mulher”? Como assim um homem cis e uma mulher trans de mãos dadas na rua?

Wallström faz-nos questionar tudo isto. Ele subtilmente, aponta a câmara para nós mesmos e confronta-nos com os nossos próprios medos e preconceitos; as nossas vergonhas e os desconfortos.

Há momentos no filme desconfortáveis. Momentos em que Cleo não quer ser filmada. Momentos em que Nelson não quer estar ali. Momentos em que nós queremos sair. Mas todos eles são importantes para sabermos como é a vida da Cleo.

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A activista mantém-se optimista sobre o futuro. Fonte: Huck Magazine

Como mulher trans Cleo é constantemente questionada sobre a sua feminilidade, como se estivesse sempre em fase de teste. Ao viajar, os seus documentos mostram ainda o género masculino e o seu nome dado à nascença, e ambos dados já não correspondem à actualidade.

Apresenta-se assim um problema maior: o Estado.

No Uganda, país onde Cleo nasceu e viver grande parte da sua vida, foi recentemente aprovada uma lei que proíbe e pune severamente quem pratica, protege ou incentiva relacionamentos homoafetivos. É proibido.

O casal vive no Quênia, onde gozam de maior protecção, mas mesmo assim ainda há muita ignorância e preconceito.

Cleo é africana e quer viver em África e permanecer em África a lutar pelos direitos LGBT.

Mais do que um documentário sobre a sua vida, o documentário “Pérola de África” é uma reflexão sobre a vivência da transexualidade numa África onde o ódio está na Lei e sobre as possibilidades de amor mesmo nesse contexto.

Nem todos os tesouros estão no fundo do mar

Nem todos os tesouros estão no fundo do mar

Os maiores tesouros africanos estão em Museus na Europa.  

Desde o início da exploração europeia à África, Américas e Ásia que várias relíquias, tesouros e até mesmo pessoas, foram roubadas dos seus locais de origem.

No fim deste mês alguns itens da colecção de Arte Africana de Liliane e Michel Durant – Dessert irão a leilão em Paris. São artigos provenientes sobretudo da África Oriental que datam do séc. XVI – XVIII e avaliados em milhões de dólares.

Como Liliane e Michel Durant – Dessert conseguiram acumular tais tesouros é-me desconhecido, mas podemos tirar algumas conclusões sobre como esses artigos foram chegar à Europa.

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Museu Britânico exibe acervo de arte africana. Fonte: Afro & Africa

Os primeiros exploradores europeus levaram consigo vários objectos como curiosidades, troféus ou testemunhos antropológicos de culturas exóticas: as roupas, comidas, estatuetas, etc.

Estes artigos foram recolhidos e acumulados ao longo dos séculos de ocupação europeia na África por exploradores, antropólogos, padres, etc e estão catalogados. São colecções inventariadas e protegidas, hoje em dia expostas em prestigiados museus ao redor do mundo.

Muitos dos grandes museus na Europa e das grandes coleções têm artefactos pertencentes a grandes impérios africanos hoje em dia extintos.

Do reino de Dahomey, onde fica actualmente o Benin, foram roubadas estátuas, jóias e até portas que estão actualmente em França.

No Museu Quan Branly, em Paris, estátuas roubadas no séc. XIX pelas tropas do general Alfred Amedee Dodds estão expostas como se tivessem sido oferecidas. Na verdade o general saqueou o palácio de Abomey, após ter vencido o rei Béhanzi e ter imposto o poder francês no reino, tornado-o assim numa colónia francesa.

 

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Segundo o Benin, existem na França entre 4500 a 6000 objetos pertencentes ao país. Fonte: G1

Nessa mesma época, séc. XIX, a Inglaterra invadiu a actual Etiópia e também levou vários tesouros. Entre os mais célebres está uma coroa de ouro, levada durante a campanha Maqdala 1868.

A campanha Maqdala 1868 tinha como objectivo instituir o domínio britânico na região e após a invasão, o imperador suicidou-se. Richard Holmes foi o responsável por recolher todos os objectos de valor e mantê-los em segurança para mais tarde serem expostos em Museus Britânicos, como acabou por acontecer.

A coroa tem um valor muito grande, pois é um importante símbolo para a Igreja Ortodoxa Etíope. Para além da coroa, foram levadas também outras jóias, manuscritos e até mesmo um menino, o filho órfão do imperador cujos restos mortais permanecem no Reino Unido até hoje, embora a Etiópia já tenha pedido a sua repatriação.

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A coroa está há 146 anos na Inglaterra. Fonte: Victoria & Albert Musuem

O Museu Britânico em Londres, fundado no séx. XVIII, também tem uma vasta colecção de arte africana. No total, são cerca de 200 000 itens de vários pontos do continente, a destacar uma cabeça de latão de um soberano iorubá de Ife (Nigéria) e a ourivesaria asante (Gana) entre outras.

Facto curioso é que este Museu reúne também peças pertencentes ao extinto Império Romano, que desde 1980 são disputadas pela Grécia.

Existe em Portugal o Museu Nacional de Etnologia, que tem raras e preciosas peças africanas. Adicionalmente, existe também a Sociedade de Geografia de Lisboa, as colecções privadas (tanto de particulares como de empresas) ligadas ao comércio colonial e os próprios antiquários que têm vindo a ganhar fortunas com a comercialização de arte africana.

A colecção de Liliane e Michel Durand-Dessert é apenas um exemplo precisamente disso.

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A alma africana no exílio. Fonte: Além Mar

Há décadas que têm sido feitas várias reivindicações no sentido de recuperar o património africano espalhado pelo mundo. No ano passado o presidente francês Emmanuel Macron disse no Burkina Faso que em cinco anos as obras de arte africana em França seriam devolvidas aos seus legítimos donos.

Em África existe uma vontade de recuperar o património perdido. Estima-se que mais de 90% dos artefactos que contam a História da África pré-colonial estejam foram do continente.

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Estatueta Mbembe (Nigéria) da colecção Durand-Dessert. Fonte: Blouin Art Info

Seja em Paris, Londres, Lisboa, Berlim, um pouco por toda a Europa existem milhares de artigos africanos em exposição ou leilão.

No dia 27 de Junho, em Paris, lá estará a nossa História, o nosso património, parte de quem somos, mais uma vez em hasta pública para ser comercializada.

E nós, teremos também de comprar a nossa própria Arte para retorná-la a casa?