Violências diárias III

Violências diárias III

Eu não sei com quantos anos recebi a minha primeira boneca, mas lembro-me que em criança tinha algumas bonecas e era sempre incentivada a cuidar delas, como se fossem minhas filhas.

Lembro-me também de ver na TV anúncios de bebés de brinquedo que choravam, faziam xixi e alguns até faziam cocó! Eu invejava tanto aqueles bebés de brinquedo. Quando ia a casa de alguma amiga que tivesse um bebé desses, todas as meninas ali presentes faziam questão de tocá-lo e acariciá-lo.

Também havia quem tivesse aquelas cozinhas de brincar em tamanho mini, era tão divertido! Lá íamos nós brincar de ser “dona de casa”, brincar de ser “mãe”.

Os rapazes se ocupavam em sair para “trabalhar”, conduziam os carros (muitas vezes eram apenas volantes improvisados) e davam ordens. Quando chegavam a casa queriam a roupa lavada e a comida pronta.

Quando não estivessem a brincar connosco, os rapazes brincavam com carrinhos, helicópteros e bonecos de super heróis.

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“O sexo do brinquedos” – Fonte: Blue Voador

Hoje noto como essas dinâmicas se perpetuaram e até grande medida nos influenciaram nas nossas escolhas e visões do mundo.

Os rapazes, que desde cedo são encorajados a sair de casa, seja para brincar, passear e de um modo mais amplo para viajar e estudar. Os rapazes que desde cedo são criados para olharem para eles próprios como super heróis, como os chefes de família e as figuras que lideram.

E por outro lado as mulheres, que desde cedo são encorajadas a ficar em casa, a cuidar dos filhos e a encontrarem no espaço físico doméstico as suas maiores realizações pessoais. As mulheres que desde cedo têm como aspirações a maternidade e a lida doméstica.

Já em adultos, estas visões de nós mesmos se mantêm, ainda que de outras formas.

As mulheres são pressionadas a ocupar esse papel no espaço doméstico: fazer filhos, casar, cuidar do marido e dos filhos, esperar o marido, fazer-lhe todas as vontades, etc. E para os homens: não mostrar sentimentos, não se envolverem nas lidas domésticas, trabalharem fora de casa, assumirem a liderança (mesmo que seja através da força) e por aí vai.

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Párem com sexismo na infância! – Fonte: Mãe não dorme

As mulheres que por algum motivo não querem seguir esse padrão são mal vistas e colocadas num canto, impedidas de conviver e/ou interagir com as restantes. Aliás, a rivalidade feminina é bastante encorajada e a mulher solteira, sem filhos ou sem interesse nas conversas sobre tarefas tradicionalmente femininas, é o alvo mais fácil.

Não aceitamos essas mulheres. Não queremos essas mulheres por perto. Não queremos ser essas mulheres. Nos afastamos ao máximo.

E o que fazemos com as nossas filhas? Repetimos o ciclo! Tudo cor-de-rosa, lacinhos e flores, bebés para cuidar, mini cozinhas para cozinhar, marido para educar.

Violências diárias II

Violências diárias II

Tudo começa com “Homem não gosta de mulher X” ou “Homem quer uma mulher Y”.

“Cortaste o cabelo! O que o teu parceiro acha disso?”

“Conseguiste bolsa para estudar fora. Vais deixar o teu parceiro? Vais obrigá-lo a mudar de país, deixar a carreira para te acompanhar?”

“Não podes aceitar esse emprego, senão não terás tempo para cuidar dos teus filhos.”

Às mulheres é esperado um comportamento submisso. Elas são desde cedo treinadas para tal, raramente encorajada a seguir as tuas vontades, assumir os seus ideais com convicção e autonomia.

Mesmo as mulheres economicamente estáveis, escolarizadas e com carreiras de sucesso é  cobrada a “família”. Sempre nos perguntamos se ela consegue conjugar tudo isso, caso contrário, ela está a falhar. Como mulher ela sozinha não basta.

Mulheres são socializadas para aspirarem uma relação heternormativa em que é uma personagem secundária na sua própria história. É encorajada a abdicar dos seus sonhos e metas pessoais pela “família” (leia-se marido e filhos). É pressionada a ceder a todas e quaisquer vontades do seu parceiro, independentemente de concordar, muito menos compreender.

Quando as mulheres tentam sair dessas situações são pressionadas, muitas vezes por familiares e amigos, a tolerarem e aguentarem. As mulheres que saem são tidas como “fracas”, “mulheres de pouca fibra”, pois casamento é assim mesmo, é para ser infeliz e sofrer todos os dias.

E nesse papel de subalternidade, torna-se sujeito de outrem. Propriedade alheia. O que ela quer e o que ela sonha não mais importa. A mulher não tem poder de decisão, não tem opinião, praticamente não existe. Ela nada é senão um corpo, um pedaço de carne ali especado para entretenimento do seu esposo.

É nesse espaço vulnerável que é espancada, agredida, violada e até mesmo assassinada.

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Todos os dias uma mulher morre nas mãos do seu parceiro.

Todos os dias.

Todos os dias somos violadas, espancadas, esquartejadas, assassinadas. Não é só onde eu vivo, é em todo o lado.

A violência contra a mulher tornou-se num espectáculo. Ligamos um telejornal qualquer e lá está mais um nome, mais uma mulher morta nas mãos de quem confiou, mais um número, uma cara anónima no meio de tantas outras.

Depois da notícia, uma outra coisa virá, mais ou menos sensacionalista e logo logo nos esquecemos do sucedido com aquela mulher. A vida segue.

Como sociedade nada fazemos para abordar o assunto de forma efectiva e eficaz, não trazemos soluções específicas para este tipo de violência, não procuramos respostas para fazer frente ao sofrimento de tantas mulheres.

Recentemente em Angola um novo grito, #ParemDeNosMatar fez ecoar o suplico de tantas vítimas. Foi o brutal assassinato da advogada Carolina , de 26 anos que forçou uma tão urgente conversa sobre a violência doméstica.

Entre marido e mulher mete-se a colher sim! O problema da violência doméstica é estrutural e ultrapassa o casal. É um problema que está nas nossas casas, nos gritos que vêm das casas dos vizinhos, nas marcas do corpo das nossas colegas e amigas, no silêncio assustado daquela tia que nem sequer encara o marido nos olhos, na conivência de toda a sociedade que aumenta o volume do som para abafar o grito de socorro que vem da rua.

Todos os dias uma mulher morre nas mãos do seu parceiro.

Todos os dias.

 

 

 

 

 

Violências Diárias I

Violências Diárias I

Imagina nascer, crescer e viver toda uma vida sendo bombardeada com mensagens violentas sobre o seu cabelo, a sua aparência, os seus traços, a sua forma de ser e tudo o que você representa.

Na série “Violências Diárias” pretendo retratar um pouco dessas vivências.

Desde pequena que a minha mãe sempre cuidou do meu cabelo. Era ela quem me fazia as tranças e embora eu me lembre de muitas vezes sentir dor, de um modo geral gostava desses momentos em que ela tratava de mim, tocava o meu cabelo, me penteava e me acariciava.

Com o tempo, fui querendo experimentar mais e aí comecei a frequentar salões de beleza. Acho que foi no início da adolescência, eu gostava de tranças mais elaboradas, muitas missangas e a ilusão de cabelo comprido (leia-se liso).

Deve ter sido nessa altura que passei a prestar mais atenção nos cabelos das outras pessoas e a querer o que elas tinham. O cabelo que voa, o cabelo que pode ser molhado sem nenhum problema, o cabelo que não precisa de muitas horas no salão de beleza, o cabelo que é perfeito tal como é, o cabelo que existe sem precisar de manipulações.

Então lá fui eu entregar-me de corpo e alma aos padrões eurocêntricos. Tentei e tentei, mas o meu teimoso cabelo sempre crescia da mesma forma carapinhada. Eram mais horas no salão de beleza. Mais cuidados com o cabelo. Mais precauções. Mais restrições.

Depois desse período de subjugação da minha raiz e dos meus fios aos agressivos tratamentos químicos, decidi deixar o meu cabelo simplesmente ser. Simplesmente ser, tal como ele é e sempre foi.

Mas não deixo de observar, ouvir e notar como essa mesma pressão persiste até hoje. Está em todo o lado: nos nossos salões, nos pentes que nos são vendidos, nas imagens dos produtos capilares disponíveis, nas capas de revistas, na Televisão e até nas pessoas que mais admiramos.

É violência. Diária.

E por falar em poligamia…

E por falar em poligamia…

A implícita relação entre poligamia e violência.

Já escrevi aqui no blog sobre a poligamia e a necessidade de reflectirmos acerca deste estilo de vida tão comum em Moçambique.

Falamos em poligamia em termos económicos e em termos políticos, mas pouco ou nada se fala pela perspectiva de afecto: se existe afecto; como é que esse afecto se manifesta; como se constroem as relações de afecto dentro da família; etc.

E há algum tempo chegou-me um artigo (link abaixo) bastante interessante que correlacionava a poligamia à violência. Não é qualquer tipo de poligamia, mas sim a poliginia: um esposo e várias esposas.

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Casamentos múltiplos causam desigualdade e frustração. Fonte: The Economist

Olhando para o nosso contexto, as primeiras reflexões foram, obviamente ver como essa violência se manifesta: uniões forçadas com menores de idade; uso de meios financeiros para aliciar as famílias (lobolo); uso do casamento como forma de obtenção de mão de obra barata (especialmente para trabalhar a terra) e a violência física/ psicológica/ sexual a que muitas destas mulheres estão expostas uma vez casadas.

Mas isso é apenas a superfície da reflexão que nos é proposta. Pois, indo mais a fundo no estudo realizado, vemos que essa violência, que na verdade acontece no seio de várias famílias, dentro das próprias casas dessas mulheres, é apenas um lado da moeda. Existe ainda um outro lado, protagonizado pelos homens solteiros. Estes, frustrados pela sua falta de prestígio, muitas vezes expressam essa violência para fora das suas casas.

A poligina frustra os homens jovens, pois estes são obrigados a competir com os homens mais velhos (que puderam acumular riqueza ao longo do tempo) pelas mesmas mulheres (as que estão ainda em idade fértil).

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A poligamia ameaça a equidade de tratamento entre homens e mulheres. Fonte: Estadão

Cria-se por isso uma dinâmica em que as mulheres são pressionadas a casar cada vez mais cedo e os homens cada vez mais tarde. Por exemplo, se numa família há três rapazes e três raparigas, primeiro devem se casar elas, para que a família através dos lobolos acumule riqueza para então os rapazes escolherem as suas esposas.

E como ficam os rapazes sem irmãs? Ou aqueles cujas irmãs por N motivos não casam?

Esses rapazes casam-se ainda mais tarde, e geralmente com uma única mulher, num meio em que para ter algum prestígio/ reconhecimento é preciso casar mais mulheres. Como consequência, essa geração de homens jovens, pobres e solteiros, sem perspectivas de futuro – quando aliamos isto a outros factores como o fraco acesso a emprego; baixa escolarização; descrença nas lideranças políticas e pouca esperança no futuro – tornam-se muito vulneráveis a manifestações de violência.

No Sudão do Sul, por exemplo, onde o gado é usado quase como moeda e indispensável para a realização do casamento, é comum gangs de homens jovens roubarem cabeças aos homens mais velhos. Estes assaltos ocorrem geralmente com recurso a armas de fogo, e chegam a ser operacionalizados por organizações criminais.

Grupos violentos, como por exemplo Boko Haram/ Talibans/ etc com grande influência na Nigéria e Afeganistão, conseguem recrutar muitos homens jovens também pelas suas aspirações conjugais. Por se sentirem excluídos e desiludidos, é aliciante a sensação de poder e de causa. Para além disso, muitos desses grupos não só prometem valores para o pagamento dos casamentos, como também raptam jovens mulheres para servirem de esposas para os seus integrantes.

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A tradição é a justificativa para a perpetuação da poligamia. Fonte: WLSA

Então, várias ilações podemos tirar desse estudo que se podem aplicar ao nosso contexto… Numa primeira análise, sobre as dinâmicas intrafamiliares, como por exemplo a violência se manifesta através de conflitos; negligência; abusos; etc, e posteriormente sobre as dinâmicas fora da família, tais como conflitos intergeracionais, crime organizado e guerras, entre outros, podem estar relacionados.

 

Mal-Me-Quer

Mal-Me-Quer

Mal-Me-Quer

Bem-Me-Quer

Mal-Me-Quer

Bem-Me-Quer

Me encheu de rosas, em forma de empurrões e pancadas. Senti em cada toque, uma pétala seca a cair de mim. Toda a vida a fugir.

É assim que me quer: machucada, indefesa. Para guardar no seu vaso frágil e me dar a sua água para dela  eu viver.

É assim me quer. 

Para o meu bem me lança os seus espinhos e rega-me das suas dores. 

Por que me ofereces flores?

Tirei as folhas da flor

E esperei ouvir-te dizer

Mas de ti, apenas silêncio

Só o som vazio da dor.

Bem me quer.

Me quer  para servir os seus prazeres. Me quer para encher o seu meio copo, meio prato, meio vazio. O que eu quero?

Eu quero acreditar que é amor.

Que é preciso lutar, porque é guerra, é violência. Eu quero acreditar que tem de ser assim.

Que amor sem dor, não vale a pena. Eu quero. Eu quero. Bem quero. 

Mal-Te-Quero

Bem-Te-Quero

Sempre espero.

Me desespero.

Já não gosto mais de rosas. Agora quero as flores bem assentes na terra, com as pétalas abertas para beijar abelhas. 

Quero um amor de flores vivas e cores brilhantes. 

Agora me quero. Me desejo.  

Ontem quis.

Tudo fiz.

Sou feliz.

 

 

 

 

Assédio nosso de cada dia

Assédio nosso de cada dia

Todos os dias tem ouvimos e vivemos histórias de assédio, no entanto nada muda. Até quando?

Esta semana um caso insólito ocorreu no Brasil, na cidade de São Paulo dentro de uma viatura de transporte público. Um homem ejaculou em cima de uma passageira, e foi apanhado em flagrante e levado pela Polícia.

O que mais de admirou na história, não foi o seu desfecho (o agressor já está em liberdade), mas sim como a sociedade encara tais acontecimentos como normais.

Há alguns meses, a Énia, uma amiga passou por algo semelhante aqui em Maputo. Viajando num chapa apertado, um homem encostado a si, roçou-se no seu corpo e ejaculou para a sua roupa sem que ela tenha reparado ou alguém tenha feito algo para detê-lo.

Ao quebrar o silêncio, começando pelas pessoas mais próximas, surpreendeu-se pelas respostas que ouviu “Como pode isso acontecer sem tu notares?”; “Que roupa usavas quando isso aconteceu?”; “Porque não foste à esquadra naquele momento?”, enfim. Ela, a vítima, apontada como também culpada.

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Énia ousou tornar o seu caso público. Fonte: Énia Lipanga

Devido à natureza das nossas cidades, em que as zonas circundantes às cidades são sobrepovoadas e os centros das cidades são os locais de trabalho, estudo e negócios, é normal nos horários de ponta haver enchentes para os transportes públicos.

Isto, quando aliado à falta de transportes cria um terreno fértil para os operadores excederem livremente a lotação dos seus carros, facilitando situações de assédio entre os passageiros: carros muito cheios; pessoas ensardinhadas; falta de segurança; etc.

Por outro lado, facilita também o assédio por parte dos motoristas e cobradores. Muitos usam-se disso para atrair vítimas, oferecendo pequenos privilégios, como por exemplo o lugar do co-piloto (ao lado do motorista). É só vermos como nesses horários viajam adolescentes, meninas a ir ou vir da escola. Em troca dessa oferta, as mulheres têm de dar o seu contacto, ceder favores sexuais ou pelo menos ‘entreter’ o motorista, correspondendo às suas conversas.

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O assédio sexual no transporte público é um crime silencioso. Fonte: Jornal Notícias

Ou seja, para além das péssimas condições do transporte público (muitas vezes expostas ao Sol e/ou Chuva; sem segurança), as mulheres têm ainda de escolher entre aguardar em filas intermináveis, serem assediadas ou realizar actos sexuais.

No fundo o que aconteceu com a Énia e acontece com todas nós, não se difere daquilo que acontece nas praças públicas.

Diariamente somos bombardeadas com assobios, comentários, palavrões ou olhares ameaçadores. Este tipo de assédio muitas vezes vem disfarçado de elogio, como forma de querer dar um sentimento de culpa a nós mulheres, obrigando-nos a responder.

Seja um homem da classe operária ou um grande empresário; seja pobre ou rico; branco ou preto; todos eles nos impedem de exercer o nosso direito de ir e vir pacificamente.

Só que enquanto na praça pública temos ainda algum espaço para nos afastarmos, no transporte público já não existe essa separação. Somos forçadas a andar apertadas com os agressores, expostas aos seus abusos.

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Globalmente 120 milhões de meninas sofrem violência sexual. Fonte: Reuters

Mas ao passo que estas são formas talvez mais subtis e discretas de assédio, há outras mais violentas que mesmo assim passam impunes e às vezes até com aplausos de quem as assiste.

Uma forma comum de assédio, que acontece sobretudo em mercados ou terminais de grande enchente como por exemplo Xipamanine, Xiquelene e Benfica é levada a cabo por vendedores ambulantes ou controladores de carros, que atacam mulheres que se vestem de uma forma por eles reprovada.

Geralmente acontece com mulheres que usam decotes ou usam saias muito acima do joelho, que ao chamarem a atenção, têm as suas roupas rasgadas, o seu corpo todo apalpado e ainda são insultadas.

Os agressores – e seus cúmplices-  alegam que essas mulheres pedem isso devido aos seus trajes que vão contra os valores da sociedade, no entanto, eles acham-se no direito de atacar violentamente uma pessoa livre de usar o que quer.

Cartaz20_bigMuitas pessoas só assistem, e com sorte, na melhor das hipóteses alguém aparece a oferecer uma capulana para a vítima se cobrir. Contudo, a maioria desses casos nem sequer chega à esquadra.

 

Culpar a vítima é apenas uma forma de legitimar os crimes cometidos pelos agressores, são justificações que implicitamente nos mostram como a nossa sociedade relativiza os actos cometidos por homens adultos e conscientes.

O problema está na forma como construimos a noção de masculinidade, ligando-a à força e violência. O problema está na forma como deixamos os nossos meninos, jovens, homens crescerem e sentirem-se intitulados a ocupar todo e qualquer espaço, mesmo se for o espaço pessoal de alguém. Mesmo se for o corpo de alguém. Especialmente se for o corpo de uma mulher.

Começa com um olhar; uma piada; um comentário e quando damos por nós temos os nossos homens a invadir, violar, abusar dos nossos corpos diariamente.

Primeiro te amam. Depois te matam.

Em todo o mundo homens heterossexuais matam as suas parceiras em nome do amor. 

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Karabo sofria abusos frequentes do namorado. Fonte: Sunday Times SA

A jovem Katabo Mokoena, sul africana de 27 anos foi encontrada morta, com o corpo totalmente desfigurado, após 10 dias de busca.

A sua cara foi desconfigurada com ácido, e logo a seguir, o seu corpo foi incendiado com o auxílio de um pneu. O seu namorado confessou ter mutilado o seu corpo, embora negue o assassinato em si.

Segundo fontes, ele era um moço do bem, bastante simpático que tinha conquistado até a confiança da família.

No entanto, quando estavam apenas os dois, ele era um homem abusivo, e que a própria namorada já tinha aberto queixa contra ele.

Na África do Sul o risco de feminicídio é dos mais altos do mundo. É o quarto país do mundo em que as mulheres estão mais vulneráveis a serem assassinadas.

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Karabo entra na lista extensa de mulheres assassinadas pelos parceiros na África do Sul. Fonte: Drum SA

Os índices de feminicídio em todo o mundo são assustadores.

Em Moçambique no ano passado, dois casos chamaram a atenção do público em geral à problemática da violência doméstica. Foi o ataque sofrido por Josina Machel, onde a vítima perdeu a vista no olho direito e o assassinato de Valentina Guebuza nas mãos do seu marido.

Este ano, a violência doméstica em Moçambique assumiu outra cara ao se popularizarem casos de mulheres que mataram os seus parceiros. Mas estes casos são de longe marginais, quando analisamos o grande volume de casos em que as mulheres são as vítimas.

Embora seja pertinente apontar a masculinidade tóxica como o ponto central para a problemática e aliarmos isto ao contexto social em que vivem muitas famílias moçambicanas, é igualmente importante falarmos do nosso conceito de amor.

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Romantismo, paixão e atração sexual não são sinónimos de amor. Fonte: Organizando o Caos

No seu livro “Vivendo de Amor”, bell hooks argumenta que não temos uma definição saudável de amor. Existe uma confusão entre amor e fraqueza; atracção sexual; possessão enquanto na verdade para haver amor, é preciso honestidade; respeito mútuo, cuidado e compromisso.

 

Nesse sentido não pode haver verdadeiramente amor num contexto de poder, pois para tal tem de haver submissão de uma das partes. E quando uma das partes é submissa, a possibilidade de se tratarem como iguais termina.

Para mais, a autora defende que o amor deve ser uma escolha.

Em relações de família, amizade, o amor deve ser voluntário e não uma obrigação. Mas pelo contrário, desde a nossa infância somos condicionados a “amar” as pessoas do nosso meio, seja por gratidão ou laços sanguíneos.

Muito do desespero que juventude sente a respeito do amor, vem da crença que eles estão a fazer tudo certo, mas o amor ainda não aconteceu. O esforço para amar e ser amado produz stress, conflito e descontentamento perpétuo. – bell hooks

E porque o nosso conceito de amor está intimamente ligado a esse esforço e a essa impaciência, olhamos para as nossas relações como formas de tapar os nossos vazios e alimentar o nosso ego.

É daí que vem também o sentimento de posse de outrém, que uma vez perdido, procuramos atirar a culpa a factores externos sem reconhecermos o nosso papel e o acordo estabelecido entre as duas partes.

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Amor em tempos de feminismo. Fonte: Capazes

Na cultura pop, seja em músicas ou em filmes, é-nos alimentada essa imagem que prescreve os papéis de cada um dentro de uma relação romântica. Especialmente quando se tratam de relações heterossexuais.

Segundo esse ideal, o homem é o conquistador e a mulher a conquistada. É o homem quem detém o poder e ela que se submete ao poder dele.

Estes padrões, quando aliados a outros factores já mencionados e discutidos, como o conceito de masculinidade e o desamparo social, cria condições férteis para o estabelecimento de relações tóxicas, nada saudáveis, marcadas por disputas entre as partes para haver um dominador e um dominado.

Ninguém mata por amor. O que mata é o poder.