Carta para Mamoudou

Carta para Mamoudou

Querido Mamadou,

Espero que esta carta te encontre bem.

Diz aos teus colegas que nós, imigrantes, levamos na mala apenas amor. É o amor à vida, à esperança, às possibilidades que nos leva a abandonar tudo e a enfrentar muros, grades e cancelas para entrar em outros países.

É o amor que nos faz limpar o chão e carregar blocos, pondo em risco a nossa própria saúde. E é o amor também que te move e que te levou até Paris.

Imagino o teu desespero ao deparares-te com o cenário: uma criança de apenas quatro ano pendurada de uma varanda e uma multidão de espectadores. Certamente alguém terá ligado aos Bombeiros, à Polícia, enfim, a alguém! É assim nos países onde as coisas funcionam: não precisamos de nos mexer muito, porque sempre vem alguém!

E afinal esse alguém foste tu! Quem diria!

Saíste do Mali ainda adolescente e de lá, ao teu passo, numa saga perigosa, quatro anos depois chegaste a França.

Gosto de pensar que, ao veres aquela criança pensaste “Eu não passei por tudo para ver uma criança a morrer assim!” e graças a ti, ela sobreviveu.

Mamoudou, a tua coragem e altruísmo são inspiradores. Mas temo por aquilo que possam fazer de ti.

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Imigrantes não deviam ter de ser Super-Heróis para merecerem respeito. Fonte: Afropunk

Embora reconheça e aplauda o teu acto heróico, não posso deixar de reconhecer também as teias de poder que te levaram até França, e fizeram de ti um cidadão de segunda-categoria.

O teu anonimato anterior ao episódio viral só evidencia o racismo estrutural em que há na França, onde um jovem imigrante não consegue um emprego digno até demonstrar qualidades super-humanas. Onde a cidadania é reservada apenas aos imigrantes que provarem de forma extraordinária que a merecem. Onde um imigrante africano apenas é digno de aplausos e respeito quando arrisca a sua própria vida para salvar um bebê, mas não quando arrisca a sua própria vida para salvar-se a si mesmo.

A narrativa actual que limita os imigrantes a ladrões, preguiçosos, bandidos é tóxica e racista. A narrativa actual que legitima a xenofobia… É só olharmos para o Brexit, para as políticas de migração na era Trump e para todos os muros que se fazem para impedir-nos de chegar ao Ocidente.

A narrativa que nos divide entre os bons e os maus imigrantes. E como tu Mamoudou, passaste para o lado dos bons. Tu agora já nem sequer és imigrante, és um cidadão francês. Tu agora falas com Presidentes.

Mas cuidado, não deixes que te usem como ferramenta para justificar os seus preconceitos, a sua afrofobia, porque nenhum ser humano, nenhum africano precisa de ser herói para ser bem tratado e ter o seu valor reconhecido.

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Governo Francês negligencia campos de imigrantes em Paris. Fonte: The Washington Post

Tu atravessaste perigos e oceanos, traficantes e ladrões e finalmente chegaste a França. Sem documentos e contando apenas com a generosidade daqueles que, como tu, se alimentavam apenas dos seus sonhos, vivias nos apertados arredores de Paris e aceitavas os poucos (e precários) trabalhos a que tinhas acesso.

Por isso não aceites a hipocrisia e cinismo de quem hoje te acolhe de braços abertos, contudo, aprova políticas repressivas contra imigrantes e especialmente contra imigrantes sem documentos.

Quando vemos um jovem imigrante como tu, muitas vezes é a matar ou a morrer, nunca a salvar ou a nascer.

Quando vemos um jovem imigrante como tu, muitas vezes vemos essa força física exibida de forma selvagem, como um defeito e tu mostraste que essa força física é na verdade um sinal de excelência e fonte de bravura.

Quantas vezes a força física dos corpos negros não foi usada para justificar a nossa exploração? Para deslegitimar as nossas conquistas?

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Mamoudou Gassama ganhou um estágio no Corpo dos Bombeiros de Paris. Fonte: The Guardian

Poucos de nós teríamos conseguido fazer o que fizeste. Poucos, mesmo que conseguíssem, talvez nem o tentassem. Por isso, parabéns!

Tu nos representaste na nossa forma mais nobre, delicada e ao mesmo tempo veloz e forte. Obrigada!

Espero que, na plataforma que agora tens, encontres um espaço para que a tua voz seja ouvida e para que outras vozes, que durante muito tempo foram silenciadas, possam também usá-la para que a sua humanidade seja reconhecida.

Com os melhores cumprimentos e um forte abraço,

Eliana N’Zualo

A pequena casa branca (ou o Museu Nacional da Escravatura)

A pequena casa branca (ou o Museu Nacional da Escravatura)

Notas sobre a visita ao Museu Nacional da Escravatura, em Luanda.

Era manhã de sábado e tirando a ressaca da fantástica noite de sexta-feira, o dia estava lindo. Dia de visitar o Museu Nacional da Escravatura.

Logo no primeiro dia visitei a Fortaleza de S. Miguel e fiquei supreendida pela positiva. Devo dizer que, partindo da minha experiência em Museus Moçambicanos, fiquei impressionada com a qualidade dos Museus que pude visitar em Luanda.

Angola teve a sua independência em 1975 depois de longos anos de uma guerra contra Portugal. Depois dessa guerra pela libertação nacional, veio uma sangrenta guerra civil que só terminou em 2002, portanto só muito recentemente Angola, como país, começou a olhar para si.

É excusado dizer que muito se perdeu, tanto em infraestruturas, como em capital humano. E claro, as prioridades de um país em conflito estão mais ligadas à sobrevivência e pouca ou nenhuma importância se dá à História e/ou Filosofia.

Mas o Museu Nacional da Escravatura não me decepcionou. Uma pequena casa branca, aparentemente inofensiva, mas que carrega em si muita história.

Até ao séc. XIX, quando Portugal proibiu o tráfico de pessoas para serem escravizadas, esta casa serviu uma das maiores famílias de comerciantes de africanos.

A casa pertenceu a D. Álvaro de Carvalho Matoso, no séc. XVII, um traficante de pessoas para trabalho escravo. Nesse tempo Luanda era um dos pontos de partida das caravanas dos africanos capturados no continente, que eram depois levados para as Américas.

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A casa é símbolo de barbárie e resistência. Fonte: Rede Angola

Uma pequena casa branca, no topo da colina com vista para a baía, de onde certamente dava para ver os navios a chegar e a partir.

O Museu reúne uma série de utensílios usados para tortura, captura e aprisionamento dos habitantes daquilo que hoje chamamos de Angola, e também objectos de cozinha e caça, entre outros.

Para além disso traz também várias informações, como dados numéricos, datas importantes e até nomes que ajudam a perceber a dimensão da máquina do comércio de pessoas para escravatura.

Mas para mim, a parte mais marcante foi a pequena capela, localizada na parte traseira da casa onde eram baptizados os recém-capturados “escravos”. Era ali onde, com cruzes e terços, água-benta e pai-nossos se fazia a conversão das ‘almas perdidas’ que enviavam para o outro lado do Atlântico.

Da original capela, para além da pequena pia baptismal e das paredes, não há mais nada senão a mudez ensurdecedora daquele pequeno espaço onde mataram os nossos deuses e os nossos anjos. O silêncio da “evangelização”.

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Luanda era uma cidade escravagista. Fonte: Público

Não fosse esta casa assombrada, estas pedras no chão, estes gritos nas paredes, até dava uma casa bonita, a pequena casa branca.

Do lado de fora, olhando para a Ilha do Mussulo com o Sol daquela manhã de sábado a beijar o mar, não queria mais nada – senão curar a ressaca!

Luanda, o que diriam os mais de 5 milhões de africanos que daqui saíram e nunca mais voltaram?

 

 

Ponte minha

Ponte minha,

De ti quero apenas os abraços apertados dos reencontros.

Traz-me boas notícias sobre os teus ombros erguidos,

Nesses braços longos que a todos aperta.

 

Katembe de lá, daqui

Mais perto dos meus olhos.

Deixarei no mar as manhãs longas em fila para chegar,

Mapapai gelados da cacimba matinal,

Terei saudades, mas vou deixar.

 

Ponte minha,

De ti quero só os beijos da Baía

Nos fins de tarde alaranjados de Sol e Lua sobre nós.

De mãos dadas seguir e amar-te até ao meu fim.

 

Katembe hoje e amanhã,

Darei os passos necessários para te descobrir.

Maputo ontem e hoje,

Estarei mais perto para te ver sorrir.

Mulheres com armas na mão

Mulheres com armas na mão

As Mulheres que foram à guerra e pegaram nas armas também merecem ser lembradas

Não podemos falar na emancipação da mulher sem falar na sua importância nas zonas de combate. No caso específico das lutas de libertação em África, vários países africanos se beneficiaram da sua presença em combate.

A presença das mulheres no mato, na guerrilha aconteceu de várias maneiras. Algumas aderiram porque foram com a família, com os parceiros; houve ainda as que aderiram aos movimentos de libertação por uma perspectiva de estudo e estratégia; houve as que foram obrigadas e houve também, como não podia deixar de ser, as que aderiram de foram voluntária por acreditarem na causa da auto-determinação das suas nações.

No entanto, grande parte dessas memórias foram apagadas e ficaram-se apenas as histórias dos heróis homens. E mesmo a história da presença das mulheres acabou sendo ofuscada pelo tom patriarcal que tomou, já que se vivia (ainda se vive) num contexto social de dominação masculina.

Infelizmente muito do que se conta hoje nos leva a crer que as mulheres foram aliciadas ou emparedadas pelos homens a fazerem parte da guerra, enquanto na verdade elas conquistaram esse espaço.

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A Mulher lutou pelo seu espaço na luta armanda. Fonte: Fundação Amílcar Cabral

O líder caboverdiano Amílcar Cabral admitiu, no Seminário de Quadros de 1969 que as mulheres foram se juntando aos homens, meio que de forma desorganizada, e que foram resistindo à pressão que havia para se afastarem. O PAIGC teve então de oficializar a sua presença na luta.

 

 

“(…) Portanto, o partido não pode fazer grande bazófia de que recrutou mulheres. Em geral, as mulheres é que vieram para a luta, o que dá muito mais valor à presença de mulheres no Partido.” – Amílcar Cabral

A mesma retórica encontramos em Moçambique em que se diz que foi o presidente Samora que “permitiu” que as mulheres pegassem nas armas, quando na verdade, elas enfrentaram todo o preconceito e barreiras criadas pelos colegas homens para estarem ali.

E para que os seus feitos não se apaguem da História, é importante que as lembremos delas, que falemos e enalteçamos a sua coragem e determinação. É também graças a elas que hoje usufruímos dos direitos que temos como cidadãos de plenos direitos.

Deolinda Rodrigues

20180324082455deolindaDe nome de guerra Langidila, Deolinda abandonou os estudos para se juntar à luta de libertação de Angola. Em 1961 começou a combater e em 1972 foi uma das co-fundadoras da Organização da Mulher Angola (OMA)

Como guerrilheira passou por Guiné Bissau, Congo Kinshasa e Congo Brazzaville. A 2 de Março de 1968 ao regressar de uma missão no mato foi capturada, juntamente com outras mulheres, por um grupo guerrilheiro angolano e executada em cativeiro. Celebra-se nessa data o Dia da Mulher Angolana.

Deixou os seus diários que relatam os desafios, vitórias e sacrifícios da sua vida como combatente da luta armada.

Emília Daússe

Emília Daússe foi uma guerrilheira moçambicana. Como jovem guerrilheira, foi das mais activas mulheres, tendo recrutado muitos combatentes na província de Tete.

Em pouco tempo alcançou posições de liderança. Após o seu treino político-militar na Tanzania em 1972, comandou um pelotão de cerca de 40 combatentes (homens e mulheres).

Morreu numa emboscada a 11 de Novembro de 1973.

Carmen Pereira

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Foi a primeira mulher presidente de um país africano quando em 1984 assumiu a presidência da Guiné Bissau por 3 dias.

Foi uma figura política importante, tendo lutado para a independência da Guiné Bissau através do PAIGC.

Foi uma líder de alto escalão político no país tendo passado por Presidente da Assembleia Nacional e Vice-Primeira -Ministra, entre outras posições.

 

 

 

Poesia no Feminino

Poesia no Feminino

SÓYA (Conceição Lima)

Há-de nascer de novo o micondó —
belo, imperfeito, no centro do quintal.
À meia-noite, quando as bruxas
povoarem okás milenários
e o kukuku piar pela última vez
na junção dos caminhos.

Sobre as cinzas, contra o vento
bailarão ao amanhecer
ervas e fetos e uma flor de sangue.

Rebentos de milho hão-de nutrir
as gengivas dos velhos
e não mais sonharão as crianças
com gatos pretos e águas turvas
porque a força do marapião
terá voltado para confrontar o mal.

Lianas abraçarão na curva do rio
a insónia dos mortos
quando a primeira mulher
lavar as tranças no leito ressuscitado.

Reabitaremos a casa, nossa intacta morada.

MOÇA DAS DOCAS (Noémia de Sousa)

Somos fugitivas de todos os bairros de zinco e caniço,
Fugitivas das Munhuanas e dos Xipamanines,
viemos do outro lado da cidade
com nossos olhos espantados,
nossas almas trancadas,
nossos corpos submissos escancarados.
De mãos ávidas e vazias,
de ancas bamboleantes lâmpadas vermelhas se acendendo,
de corações amarrados de repulsa,
descemos atraídas pelas luzes da cidade,
acenando convites aliciantes
como sinais luminosos na noite,

Viemos…
Fugitivas dos telhados de zinco pingando cacimba,
do sem sabor do caril de amendoim quotidiano,
do doer de espádua todo o dia vergadas
sobre sedas que outros exibirão,
dos vestidos desbotados de chita,
da certeza terrível do dia de amanhã
retrato fiel do que passou,
sem uma pincelada verde forte
falando de esperança,

Viemos…
E para além de tudo,
por sobre Índico de desespero e revoltas,
fatalismos e repulsas,
trouxemos esperança.
Esperança de que a xituculumucumba já não virá
em noites infindáveis de pesadelo,
sugar com seus lábios de velha
nossos estômagos esfarrapados de fome,
E viemos….
Oh sim, viemos!
Sob o chicote da esperança,
nossos corpos capulanas quentes
embrulharam com carinho marítimos nómadas de outros portos,
saciaram generosamente fomes e sedes violentas…
Nossos corpos pão e água para toda a gente.

Viemos…
Ai mas nossa esperança
venda sobre nossos olhos ignorantes,
partiu desfeita no olhar enfeitiçado de mar
dos homens loiros e tatuados de portos distantes,
partiu no desprezo e no asco salivado
das mulheres de aro de oiro no dedo,
partiu na crueldade fria e tilintante das moedas de cobre
substituindo as de prata,
partiu na indiferença sombria da caderneta…

E agora, sem desespero nem esperança,
seremos em breve fugitivas das ruas marinheiras da cidade…

E regressaremos,
Sombrias, corpos floridos de feridas incuráveis,
rangendo dentes apodrecidos de tabaco e álcool,
voltaremos aos telhados de zinco pingando cacimba,
ao sem sabor do caril de amendoim
e ao doer do corpo todo, mais cruel, mais insuportável…

Mas não é a piedade que pedimos, vida!
Não queremos piedade
daqueles que nos roubaram e nos mataram
valendo-se de nossas almas ignorantes e de nossos corpos macios!
Piedade não trará de volta nossas ilusões
de felicidade e segurança,
não nos dará os filhos e o luar que ambicionávamos.
Poedade não é para nós.

Agora, vida, só queremos que nos dês esperança
para aguardar o dia luminoso que se avizinha
quando mãos molhadas de ternura vierem
erguer nossos corpos doridos submersos no pântano,
quando nossas cabeças se puderem levantar novamente
com dignidade
e formos novamente mulheres!

VIERAM MUITOS (Ana Paula Tavares)

“A massambala cresce a olhos nus”

Vieram muitos
à procura de pasto
traziam olhos rasos da poeira e da sede
e o gado perdido.

Vieram muitos
à promessa de pasto
de capim gordo
das tranqüilas águas do lago.

Vieram de mãos vazias
mas olhos de sede
e sandálias gastas
da procura de pasto.

Ficaram pouco tempo
mas todo o pasto se gastou na sede
enquanto a massambala crescia
a olhos nus.

Partiram com olhos rasos de pasto
limpos de poeira
levaram o gado gordo e as raparigas.

E ASSIM PASSAMOS A TARDE (Cecília Meireles)

E assim passamos a tarde
conversando coisas banais,
da superfície do mundo.

E estamos cheios de mistérios
que não comunicamos.
E assim morreremos, decerto.
E não dais por isso.

SONHO (Beatriz Nascimento)

Seu nome era dor
Seu sorriso dilaceração
Seus braços e pernas, asas
Seu sexo seu escudo
Sua mente libertação
Nada satisfaz seu impulso
De mergulhar em prazer
Contra todas as correntes
Em uma só correnteza
Quem faz rolar quem tu és? Mulher!…
Solitária e sólida
Envolvente e desafiante
Quem te impede de gritar
Do fundo de sua garganta
Único brado que alcança
Que te delimita
Mulher!
Marca de mito embotável
Mistério que a tudo anuncia
E que se expõe dia-a-dia
Quando deverias estar resguardada Seu ritus de alegria
Seus véus entrecruzados de velharias Da inóspita tradição irradias
Mulher!
Há corte e cortes profundos
Em sua pele em seu pelo
Há sulcos em sua face
Que são caminhos do mundo
São mapas indecifráveis
Em cartografia antiga
Precisas de um pirata
De boa pirataria
Que te arranques da selvageria
E te coloque, mais uma vez,
Diante do mundo
Mulher.

Não quero rosas

Não quero rosas

No Dia Internacional da Mulher não quero rosas, quero direitos.

O dia 8 de Março começou sobretudo pela necessidade que (algumas) mulheres sentiram de reivindicar direitos trabalhistas, no séc. XIX e XX.

Ao mesmo que isto acontecia, outras reivindicações foram se tornando mais urgentes: o direito à participação política (eleger e ser eleita);  o direito à liberdade (para as mulheres escravizadas); o direito à independência (para as colonizadas); enfim… Foram vários os processos históricos que definiram estas lutas, mas a verdade é que foram vencidas.

O 8 de Março, mais do que uma celebração, é uma oportunidade para reconhecer e agradecer os sacrifícios feitos em nosso nome, em nome das mulheres que somos hoje para que pudéssemos simplesmente ser e existir.

 

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O Dia Internacional da Mulher é sobre paridade de género. Fonte: IWD

 

De que vale sermos bombardeadas com imagens bonitas e palavras doces no dia 8 de Março se temos menos oportunidades de crescimento pessoal e profissional?

Como se não bastasse, na verdadeira moda capitalista, a data agora é sinónimo de lucro para as empresas de cosméticos, floristas e afins.

Onde quer que estejamos, somos expostas a uma variedade de campanhas direcionadas a mulheres, disfarçadas de empoderamento, mas que na verdade não passam de formas de opressão mais sofisticadas.

Para mais, muitas ofertas e promoções só alimentam as grandes indústrias que não só lucram com as nossas inseguranças e paranóias, como lucram também com a nossa mão de obra barata.

Seja no seio familiar, no ambiente de trabalho, nas instituições de ensino, onde quer que estejamos, nunca estamos a salvo. Há sempre lutas a serem travadas para sermos ouvidas e reconhecidas como seres autónomos e donos das nossas vidas.

Não querendo estragar a festa, já estragando, vamos nos deixar de romantismos por favor. O 8 de Março não é pra ‘esquecermos’ as nossas dores, mas sim para reconhecê-las e quem sabe até curá-las.

Então vamos lá:

Mulheres não são as guardiãs da moral e bons costumes da sociedade.
Nem todas as têm vaginas.
Mulheres em relacionamentos homoafectivos não querem ser homens.
Mulheres podem vestir (e despir) o que quiserem.
Ser mãe e ser mulher não são sinónimos.
Mulheres também fazem cocó e arrotam.

Mulheres aspiram ascensão profissional

Muitas mulheres sentem-se e vivem completas sem um parceiro afectivo.
As mulheres conseguem derivar prazer e plenitude sozinhas.
O orgão sexual masculino não é o sonho de todas as mulheres.
Nem todas as mulheres gostam de cozinhar.
Para ser mãe não precisa de ser esposa de ninguém e nem de ter filhos biológicos

Nem todas mulheres foram feitas para serem donas de casa.
Nem todas as mulheres sonham em casar. Nem todas as mulheres querem ser mães.
Mulheres que usam roupa curta, não são necessariamente prostitutas nem querem a atenção de homens, podem simplesmente gostar.

Nem todas as Mulheres querem ser chamadas de ‘gostosas’ na rua
Nem todas as Mulheres querem ser magras

Nem todas as Mulheres querem ficar a conversar na cozinha com as outras

Nem todas as mulheres gostam de saltos altos ou roupas sexy.
Mulheres podem definir quem pode ou não tocar nos seus corpos.
O ‘não’ da mulher é não, não é sinónimo de charme.
Mulheres não devem obediência a ninguém.
Mulheres podem ser o que quiserem.

Mulheres não devem simpatia a ninguém.
Mulheres podem beber o que e o quanto quiserem.
Mulheres também podem ser ‘chefes de família’

Mulheres não precisam de autorização do marido para tomar qualquer decisão profissional.

Mulheres também gostam de futebol.

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Mulheres ainda enfrentam muitas dificuldades em comparação a homens. Fonte: Médicos Sem Fronteiras

Portanto, não quero rosas.

Não quero apenas ‘Parabéns’. Não quero celebrações. Não quero chocolates. Quero uma reflexão profunda sobre a situação real das mulheres de todo o mundo. Quero o fim de todo e qualquer tipo de discriminação baseada no género. Quero o fim do Patriarcado.

Quero andar na rua em segurança, a qualquer hora, com qualquer roupa. Quero o mesmo salário pelo mesmo trabalho.

Quero o fim das piadinhas machistas, das roupinhas cor-de-rosa, da imposição de um determinado padrão de beleza.

Eu quero apenas ser e existir.

 

Mal-Me-Quer

Mal-Me-Quer

Mal-Me-Quer

Bem-Me-Quer

Mal-Me-Quer

Bem-Me-Quer

Me encheu de rosas, em forma de empurrões e pancadas. Senti em cada toque, uma pétala seca a cair de mim. Toda a vida a fugir.

É assim que me quer: machucada, indefesa. Para guardar no seu vaso frágil e me dar a sua água para dela  eu viver.

É assim me quer. 

Para o meu bem me lança os seus espinhos e rega-me das suas dores. 

Por que me ofereces flores?

Tirei as folhas da flor

E esperei ouvir-te dizer

Mas de ti, apenas silêncio

Só o som vazio da dor.

Bem me quer.

Me quer  para servir os seus prazeres. Me quer para encher o seu meio copo, meio prato, meio vazio. O que eu quero?

Eu quero acreditar que é amor.

Que é preciso lutar, porque é guerra, é violência. Eu quero acreditar que tem de ser assim.

Que amor sem dor, não vale a pena. Eu quero. Eu quero. Bem quero. 

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Bem-Te-Quero

Sempre espero.

Me desespero.

Já não gosto mais de rosas. Agora quero as flores bem assentes na terra, com as pétalas abertas para beijar abelhas. 

Quero um amor de flores vivas e cores brilhantes. 

Agora me quero. Me desejo.  

Ontem quis.

Tudo fiz.

Sou feliz.

 

 

 

 

Querido diário

Querido diário

Ultimamente tenho refletido sobre a retórica do “aconteça o que acontecer” no contexto de relações. Essa retórica basicamente é uma afirmação de compromisso, seja entre amigos, amantes, etc. significa que “aconteça o que acontecer” eu estarei lá; “aconteça o que acontecer” nós continuaremos ligados, que tudo vai ficar bem.

Mas enfim, nós sabemos que isso não é verdade. Cenas acontecem. Cenas horríveis, cenas dolorosas, cenas difíceis de superar. E relações acabam. As pessoas afastam-se.

O problema com essa retórica é que presume que independentemente da situação, a relação está num patamar acima. Como se estivéssemos a assumir que já não há desafios, que essa relação não pode mais ser destruída – isto não só é errado, como é perigoso.

É errado no sentido em que encaramos a outra parte como algo garantido. Assumimos que aquela pessoa estará sempre lá, pois afinal de contas “aconteça o que acontecer” ela estará sempre ao nosso lado, pronta para perdoar e seguir em frente como se nada tivesse acontecido.

É também perigoso, porque ambas as partes estão a dizer que não há limites para as coisas erradas que podem vir a acontecer. Estamos a destruir os nossos limites pessoais. Estou a abdicar do meu poder, do meu sentido de segurança e auto-cuidado, e em troca estou a invadir o espaço de outra pessoa. Isso faz sentido?

É um conceito tão distorcido. Não é possível, a partir desse princípio, construir uma relação saudável. Ou é?

Como proteger o nosso sentido de pessoa própria, a nossa integridade pessoal, numa relação em que não há limites?

Não sei se é possível termos em nós um lugar bonito para receber amor e afecto, quando esse lugar pode facilmente ser invadido e vandalizado.

Então, quando dermos por nós a dizer que iremos estar sempre do lado da pessoa em qualquer circunstância, lembremo-nos dos nossos limites, dos nossos valores e da base sobre a qual queremos viver a nossa vida. E talvez,  enquanto fazemos esse exercício, tenhamos também de avaliar que espaços temos ocupado sem permissão, que lugares desvalorizamos?

Perdida nas memórias de Conceição Evaristo

Perdida nas memórias de Conceição Evaristo

Becos da memórias” é um labirinto lindo para nos perdermos que se revela tão actual hoje como era quando foi escrito

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O livro é baseado nas suas lembranças da sua infância. Fonte: Itaú Cultural

Conceição Evaristo traz-nos, em “Becos da memória”, as emoções de Maria-Nova durante os anos 70, em Belo Horizonte (Brasil) quando o bairro onde vive passa por um processo de desfavelamento.

De forma envolvente e emocionante, Evaristo descreve cada rua, cada pessoa, cada história que compunham a sua favela. Nas suas mãos os becos esquecidos e ignorados ganham vida. Vidas.

Através das suas palavras, descobrimos que a favela é muito mais que um aglomerado de barracos, mais do que uma mancha na cidade, mas sim, uma cidade no seu próprio direito. Um mundo por si só.

Um mundo em que as pessoas vivem, crescem, choram, riem, procriam, educam, relembram, esquecem, morrem. Enfim! E este mundo é-nos revelado por Maria-Nova, uma jovem adolescente que se desespera ao ver o mundo e as pessoas que tão bem conhece a desaparecerem.

O desfavelamento anunciado para breve evidencia o fim de uma era para todos eles. Para onde iriam? De onde vieram? Que histórias deixariam para trás? Quais levariam com eles?

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“Escrevivência” em Becos da Memória. Fonte: Scielo

Entre a ficção e a biografia, Evaristo usa-se de Maria-Nova para narrar a sua história e dos seus, como tinha prometido ainda menina.

Este foi talvez o que mais me marcou, já que eu também, desde sempre me comprometi com a tarefa de contar histórias. Ouvi-las, registá-las e recontá-las.

Maria-Nova (ou será Conceição Evaristo?) descobre a clandestinidade da sua existência e daqueles que consigo existem naquela favela. Aliás, a própria favela é metaforicamente, a prova dessa clandestinidade, pois surge de forma aparentemente desorganizada e os seus moradores vivem de forma isolada e invisível.

As semelhanças entre favela e senzala vão-se evidenciando e a menina sente que ainda tem de se libertar.

“Maria-Nova olhou novamente a professora e a turma. Era uma história muito grande! Uma história viva que nascia das pessoas, do hoje, do agora. Era diferente de ler aquele texto. Assentou-se e, pela primeira vez, veio-lhe um pensamento: quem sabe escreveria esta história um dia? Quem sabe passaria para o papel o que estava escrito, cravado e gravado no seu corpo, na sua alma, na sua mente” (p. 138).

De nada valia aquela liberdade clandestina. Aquelas vidas na miséria. Aquela fome. Aquela saudade. Era preciso uma liberdade plena, que lhe permitisse crescer e sair daquele lugar. Daqueles lugares: Senzala e Favela.

E é desta forma que Maria-Nova, inspirada nas figuras que dentro daquela favela ainda tinham esperança, decide também encontrar o seu papel na luta pela liberdade: escrever.

A ideia da escrita como resistência, como forma de fazer estas histórias sobreviverem-lhe revela-se à medida que a urgência da mudança se intensifica.

“agora ela [Maria-Nova] já sabia qual seria a sua ferramenta, a escrita. Um dia, ela haveria de narrar, de fazer soar, de soltar as vozes, os murmúrios, os silêncios, o grito abafado que existia, que era de cada um e de todos. Maria-Nova, um dia, escreveria a fala de seu povo (p. 161).

A escrita é a ferramenta escolhida para mostrar que naquele amontoado de barracos, há também sonhos, desejos, amores, paixões, planos que caminham de mãos dadas com a violência e os traumas acumulados nos becos da favela.

Naquilo que a autora chama de “escrevivência”, Evaristo traz a tradição da oralidade para o livro escrito, compilando vivências diversas e relacionando-as a complexa teia que compõe por fim a própria História do Brasil.

Maria-Nova mostra-nos o universo íntimo de Tio Totó, mãe Joana, Maria-Velha, Bondade, Negro Alírio e tantos outros, que representam assim as histórias de afrodescendentes nos diferentes espaços e tempos do Brasil.

É desta forma que Maria-Nova e Conceição Evaristo são a mesma pessoa. Menina, Mulher, Negra, Periférica, Favelada, Brasileira. No fundo, a mesma figura em pontos opostos de uma única ponte: o tempo. Entre elas apenas o sonho. Uma é a proposição, e outra a realização do dever de memória e de escrita. A grande missão contar histórias.

 

 

Macacos me mordam

Macacos me mordam
Sobre macacos, bananas e racismo.
É importante criarmos um diálogo entre as várias experiências de “negritude” e de racismo. Alguém como eu, que sempre cresceu num ambiente maioritariamente negro, vive o racismo de uma forma diferente daquela pessoa que cresce sendo uma minoria.
O próprio conceito de raça altera-se consoante o contexto. Eu em Moçambique não penso em mim como negra, não me vejo como tal diariamente, pois não sou obrigada a isso. Talvez se me sentir discriminada sejam mais provável que seja pelo facto de ser mulher e não pelo meu tom de pele.
O que isto significa é que eu percebo que as minhas reacções não são universais. As minhas emoções não são universais. As coisas que me causam comichão não são universais. Contudo, são e sempre serão válidas.
Não cabe a mais ninguém me dizer que o que eu estou a sentir é pouco ou ridículo. E isto é especialmente importante quando falamos em ofensas.
Como contadora de histórias tenho especial interesse em palavras. Acho fascinante como um conjunto de letras e sons conseguem transmitir tanto! A palavra, seja ela falada ou escrita, é de uma importância inestimável.
Palavras têm poder. Palavras carregam consigo uma História, um Passado. Há mil construções feitas de forma inconsciente que fazem as palavras o que são. Por detrás de cada palavra existe um valor, um legado, que vai para além da intenção de quem a proferiu.
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Ilustração da evolução (racista) retirada do livro Anthropogenie (1874) de Haeckel. Fonte: Sala BioQuímica

Por isso é sempre importante perceber que, ofensas, ainda que não sejam intencionais, não deixam de ser ofensas.

A palavra “macaco” durante muito tempo foi usada para denegrir pessoas negras.
Para validar o tráfico humano e exploração da mão de obra de pessoas negras, cientistas chegaram a validar a ideia de que essas pessoas eram mais primitivas, mais aproximadas aos macacos e por isso, sub-humanas.
Como tal, a palavra “macaco”, especialmente no contexto escravagista (nas Américas), sempre esteve associada a algo sub-humano, para justificar os horrores a que eram submetidas as populações afrodescendentes.
“Ah! Mas isso foi há muito tempo! Já passou!”
É verdade. Foi há muito tempo. Mas não se apagam as dores e traumas de pessoas que durante anos foram – e ainda são – tratadas como inferiores, como uma espécia sub-humana.
Vejamos a experiência de uma pessoa negra a viver na Europa, na Ásia, nas Américas, etc. Até mesmo em África, os imigrantes africanos negros são os que fazem o trabalho mais precário e vivem em piores condições.
Então existe sim, hoje, agora, no tempo Presente, uma experiência de negritude, de racismo e essa experiência Presente não se pode desassociar da experiência Passada.
Não há muito tempo atrás, o jogador brasileiro Dani Alves foi alvo de um ataque racista em campo, em Espanha, quando lançaram uma banana para ele.
A banana foi uma clara referência a essa mesma ideia em como as pessoas negras são uma sub-espécie humana, mais parecida com macacos. O ataque teve tanta repercussão que vários jogadores e celebridades formaram um movimento (#SomosTodosMacacos), comendo bananas e tirando fotos em solidariedade ao jogador.
Racismo no futebol continua. Fonte: Terra
Se for preciso ir ainda mais atrás na História, falemos dos Zoológicos Humanos em que pessoas negras eram expostas como animais.
Foi há cerca de 60 anos. Há fotos por aí. Crianças, Mulheres, Homens, negros de todas as idades, com os seus corpos, as suas línguas, as suas roupas, o seu estilo de vida em exibição por serem considerado selvagens.
E essa exotificação das vidas negras não parou por aí. As pessoas negras eram usadas para experiências médicas e atracções de circos.
Mas muito disso foi apagado dos livros de História. E nós não falamos disso porque custa. Dói. É difícil. E como tal, fingimos que os acontecimentos não estão relacionados entre si.
Portanto, não me surpreende que muitos de nós, negros, se ofendam com uma certa recente campanha de uma certa marca. Também não me surpreende que muitos de nós, negros, não se ofendam com uma certa recente campanha de uma certa marca.
Mas, porra! Macacos me mordam, que algo está errado, isso está!