O que é que eu vou fazer com essa Liberdade? – parte II

O que é que eu vou fazer com essa Liberdade? – parte II
Reflexões em torno da Estátua da Liberdade, em Nova Iorque
Foi numa manhã fria de domingo e Nova Iorque já tinha perdido o seu encanto mas eu queria ver muito aquela mulher.
Olhava os arranha-céus, ouvia os pássaros e sentia aquele vento gelado na minha cara e pensava na Liberdade.
Como seria a Liberdade se de facto existisse? O que diria? Que histórias contaria?
Pensava na Liberdade a falar da ironia que era o tal debate sobre a escravatura nos E.U.A na altura da sua colocação em Nova Iorque enquanto, em simultâneo, nós em África continuávamos a viver sobre o violento regime do Colonialismo.
Ela dir-me-ia que não se sentia nada bem com aquilo e que a vontade dela era de sair a correr para o nosso socorro, mas que a corrente no pé a impedia.
Ela falaria de França e dos franceses, das colónias e dos massacres.
Iríamos tomar um chá, talvez. E ela me confessaria que tinha muita vontade de nos conhecer em África e não ali, e que queria sentir o ar quente do Índico. Que também queria ser deixada em paz e de viver a sua longa vida longe de visitas constantes.
Olhei para a a Liberdade, tão idolatrada e isolada, e ao mesmo tempo distante e desconhecida. As pessoas que lhe chegavam perto quase não a tocavam, não a compreendiam.
E ela ali parada, imóvel e acorrentada.
Foi numa manhã fria de domingo e Nova Iorque já tinha perdido o seu encanto mas eu queria ver muito aquela mulher.
Na verdade eu só conseguia pensar nela.
Estava mesmo obcecada, ansiosa pelo momento em que o meu olhar e o olhar dela se cruzariam.
Queria conversar com ela.
Queria levá-la comigo pela mão. Eu e a Liberdade juntas teríamos uma tribo, ou um exército, não sei, qualquer coisa. Juntas iríamos conquistar o mundo. Mas espera, como pode a Liberdade conquistar o mundo? Não é contra-intuitivo a Liberdade se impôr? Conquistar?
O que é que eu vou fazer com essa tal Liberdade?

Não visitem o Museu do Apartheid

Não visitem o Museu do Apartheid

IMG_9409O Museu do Apartheid é dedicado à história do regime segregacionista sul-africano que durou de 1948 a 1994.

Apartheid literalmente significa “separação” ou “estar separado” e durante décadas o Partido Nacional da África do Sul implementou políticas para garantir a separação de raças no país, hipotecando as vidas de todos os não brancos.

Na bilheteira ao comprarmos um bilhete somos atribuídos um título: Black (preto) ou White (branco) e devemos entrar para o museu pela porta indicada para a nossa raça.

Só isso só mostra o quão forte foi o Apartheid e como presente ele estava em todos os momentos da vida quotidiana dos sul-africanos.

Não visitem o Museu do Apartheid.

Não bastassem os números, a legislação e estatísticas disponíveis ao longo de todas as salas, o Museu traz ainda histórias reais de pessoas ‘anónimas’ que viveram os traumas e as opressões do regime do Apartheid.

São essas histórias, acompanhadas muitas vezes de fotografias e objetos pessoais que dão uma cara, um elemento humano à chuva de informação a que somos expostos.

Não fossem essas pessoas e as suas pequenas revoluções diárias, seria muito difícil compreender o quanto o Apartheid afectou e limitou o futuro das gerações que hoje vivem na África do Sul.

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Visitar o Museu do Apartheid é abrir a porta para o desespero, raiva e medo em nós.

Eu chorei.

Chorei quando li o poema “A Human Being Died That Night” de Pulma Gobodo-Madikizela. Chorei ao ver um trecho do depoimento de Winnie Mandela aquando do seu julgamento na Comissão da Verdade e Reconciliação. Chorei ao ver fotos do Soweto Uprising e ler mais sobre os sacrifícios que os jovens fizeram para ver uma África do Sul livre.

Chorei mesmo.

Não visitem o Museu do Apartheid.

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Pelo menos não o façam sem terem pelo menos 2h para de facto se entregarem à obra extraordinária e muito bem conseguida que todo o museu é.

Para além de uma extensa exposição sobre Nelson Mandela, desde a sua entrada no ANC até à chegada à Presidência, o Museu conta com uma exposição permanente de Ernest Kole, fotojornalista sul-africano cujo trabalho foi banido na época.

Ernest Kole, para além de ter registado em imagens importantes momentos da vida da população negra na África do Sul, fez também questão de escrever várias notas, ensaios e depoimentos.

Visitar o Museu do Apartheid é fazer uma viagem pelos dramas e dilemas da vida num sistema extremamente opressor. Através de fotos, relatos, vídeos, textos e objectos, somos convidados – convidados, não – convocados! a questionar e perceber como essas estruturas e categorias se alteraram e ao mesmo tempo, perpetuaram.

Se existem fantasmas – e eu acredito que eles existam – o fantasma do Apartheid certamente frequenta aquele lugar. É um edifício sombrio, sóbrio, gigante e pesado, um pouco como o Apartheid… acredito.

Não seria justo nem correcto dizer que este Museu é bonito. Museu do Apartheid bonito? Não, obrigada. Este Museu é horrível, brutal e violento.

Não visitem o Museu do Apartheid!

A Cleópatra do Uganda

A Cleópatra do Uganda

A coragem e vida da activista LGBT ugandesa Cleópatra inspiraram o filme “The Pearl of Africa/ A Pérola de África”

Quando o sueco Johnny Van Wallström começou a procurar material para o seu novo projecto, focou-se inicialmente num casal de dois homens homossexuais do Uganda. No entanto, com o tempo, um deles desistiu por se sentir culpado sabendo da vergonha e perseguição por que passariam os seus amigos e familiares.

Foi assim que o realizador do filme “The Pearl of Africa/ A Pérola de África”, acabou fazendo um documentário sobre Cleópatra, a activista e mulher transsexual que ele acompanha durante os meses que precedem a sua operação para mudança de sexo.

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O documentário surgiu primeiro como minissérie. Fonte: Abstract Friday

O documentário mostra Cleo e o seu namorado Nelson, um homem cis também ugandês e a sua jornada pela descoberta da sua ‘transexualidade’.

Ela reconta a sua infância e como sempre foi um menino afeminado e não se revia em nenhum dos padrões binários prescritos pela sociedade. De uma família grande, 12 irmãos, ela confessa que nunca se sentiu só, apenas se sentia diferente.

Diferente por não se rever em revistas, artistas, na TV ou na rádio. Diferente por sentir uma certa desconexão com o seu corpo. Diferente por não ter com quem partilhar as suas inquietações e sobretudo diferente porque era isso que ela era, diferente.

Na faculdade é que encontrou um nome para se descrever, nome esse que ela confessa não ter certeza se a representa: transexual. E foi assim que ela começou a investigar mais e a conversar com pessoas como ela, primeiro online e depois pessoalmente.

Nelson, o seu namorado, é um adorável rapaz heterossexual que também, através de Cleo, descobriu um pouco mais sobre si, sobre sexualidade e certamente sobre o amor.

Entre brincadeiras, dedos entrelaçados e sorrisos tímidos, é evidente o carinho que ambos têm um pelo outro. No documentário ambos falam das repercussões de assumirem publicamente o seu relacionamento: os comentários dos amigos; o afastamento da família; o julgamento de toda a sociedade.

Como assim uma mulher trans é merecedora de amor? Como assim um homem cis, que poderia ter “qualquer mulher” escolhe uma “menos mulher”? Como assim um homem cis e uma mulher trans de mãos dadas na rua?

Wallström faz-nos questionar tudo isto. Ele subtilmente, aponta a câmara para nós mesmos e confronta-nos com os nossos próprios medos e preconceitos; as nossas vergonhas e os desconfortos.

Há momentos no filme desconfortáveis. Momentos em que Cleo não quer ser filmada. Momentos em que Nelson não quer estar ali. Momentos em que nós queremos sair. Mas todos eles são importantes para sabermos como é a vida da Cleo.

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A activista mantém-se optimista sobre o futuro. Fonte: Huck Magazine

Como mulher trans Cleo é constantemente questionada sobre a sua feminilidade, como se estivesse sempre em fase de teste. Ao viajar, os seus documentos mostram ainda o género masculino e o seu nome dado à nascença, e ambos dados já não correspondem à actualidade.

Apresenta-se assim um problema maior: o Estado.

No Uganda, país onde Cleo nasceu e viver grande parte da sua vida, foi recentemente aprovada uma lei que proíbe e pune severamente quem pratica, protege ou incentiva relacionamentos homoafetivos. É proibido.

O casal vive no Quênia, onde gozam de maior protecção, mas mesmo assim ainda há muita ignorância e preconceito.

Cleo é africana e quer viver em África e permanecer em África a lutar pelos direitos LGBT.

Mais do que um documentário sobre a sua vida, o documentário “Pérola de África” é uma reflexão sobre a vivência da transexualidade numa África onde o ódio está na Lei e sobre as possibilidades de amor mesmo nesse contexto.

Nem todos os tesouros estão no fundo do mar

Nem todos os tesouros estão no fundo do mar

Os maiores tesouros africanos estão em Museus na Europa.  

Desde o início da exploração europeia à África, Américas e Ásia que várias relíquias, tesouros e até mesmo pessoas, foram roubadas dos seus locais de origem.

No fim deste mês alguns itens da colecção de Arte Africana de Liliane e Michel Durant – Dessert irão a leilão em Paris. São artigos provenientes sobretudo da África Oriental que datam do séc. XVI – XVIII e avaliados em milhões de dólares.

Como Liliane e Michel Durant – Dessert conseguiram acumular tais tesouros é-me desconhecido, mas podemos tirar algumas conclusões sobre como esses artigos foram chegar à Europa.

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Museu Britânico exibe acervo de arte africana. Fonte: Afro & Africa

Os primeiros exploradores europeus levaram consigo vários objectos como curiosidades, troféus ou testemunhos antropológicos de culturas exóticas: as roupas, comidas, estatuetas, etc.

Estes artigos foram recolhidos e acumulados ao longo dos séculos de ocupação europeia na África por exploradores, antropólogos, padres, etc e estão catalogados. São colecções inventariadas e protegidas, hoje em dia expostas em prestigiados museus ao redor do mundo.

Muitos dos grandes museus na Europa e das grandes coleções têm artefactos pertencentes a grandes impérios africanos hoje em dia extintos.

Do reino de Dahomey, onde fica actualmente o Benin, foram roubadas estátuas, jóias e até portas que estão actualmente em França.

No Museu Quan Branly, em Paris, estátuas roubadas no séc. XIX pelas tropas do general Alfred Amedee Dodds estão expostas como se tivessem sido oferecidas. Na verdade o general saqueou o palácio de Abomey, após ter vencido o rei Béhanzi e ter imposto o poder francês no reino, tornado-o assim numa colónia francesa.

 

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Segundo o Benin, existem na França entre 4500 a 6000 objetos pertencentes ao país. Fonte: G1

Nessa mesma época, séc. XIX, a Inglaterra invadiu a actual Etiópia e também levou vários tesouros. Entre os mais célebres está uma coroa de ouro, levada durante a campanha Maqdala 1868.

A campanha Maqdala 1868 tinha como objectivo instituir o domínio britânico na região e após a invasão, o imperador suicidou-se. Richard Holmes foi o responsável por recolher todos os objectos de valor e mantê-los em segurança para mais tarde serem expostos em Museus Britânicos, como acabou por acontecer.

A coroa tem um valor muito grande, pois é um importante símbolo para a Igreja Ortodoxa Etíope. Para além da coroa, foram levadas também outras jóias, manuscritos e até mesmo um menino, o filho órfão do imperador cujos restos mortais permanecem no Reino Unido até hoje, embora a Etiópia já tenha pedido a sua repatriação.

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A coroa está há 146 anos na Inglaterra. Fonte: Victoria & Albert Musuem

O Museu Britânico em Londres, fundado no séx. XVIII, também tem uma vasta colecção de arte africana. No total, são cerca de 200 000 itens de vários pontos do continente, a destacar uma cabeça de latão de um soberano iorubá de Ife (Nigéria) e a ourivesaria asante (Gana) entre outras.

Facto curioso é que este Museu reúne também peças pertencentes ao extinto Império Romano, que desde 1980 são disputadas pela Grécia.

Existe em Portugal o Museu Nacional de Etnologia, que tem raras e preciosas peças africanas. Adicionalmente, existe também a Sociedade de Geografia de Lisboa, as colecções privadas (tanto de particulares como de empresas) ligadas ao comércio colonial e os próprios antiquários que têm vindo a ganhar fortunas com a comercialização de arte africana.

A colecção de Liliane e Michel Durand-Dessert é apenas um exemplo precisamente disso.

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A alma africana no exílio. Fonte: Além Mar

Há décadas que têm sido feitas várias reivindicações no sentido de recuperar o património africano espalhado pelo mundo. No ano passado o presidente francês Emmanuel Macron disse no Burkina Faso que em cinco anos as obras de arte africana em França seriam devolvidas aos seus legítimos donos.

Em África existe uma vontade de recuperar o património perdido. Estima-se que mais de 90% dos artefactos que contam a História da África pré-colonial estejam foram do continente.

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Estatueta Mbembe (Nigéria) da colecção Durand-Dessert. Fonte: Blouin Art Info

Seja em Paris, Londres, Lisboa, Berlim, um pouco por toda a Europa existem milhares de artigos africanos em exposição ou leilão.

No dia 27 de Junho, em Paris, lá estará a nossa História, o nosso património, parte de quem somos, mais uma vez em hasta pública para ser comercializada.

E nós, teremos também de comprar a nossa própria Arte para retorná-la a casa?

 

Mulheres com armas na mão

Mulheres com armas na mão

As Mulheres que foram à guerra e pegaram nas armas também merecem ser lembradas

Não podemos falar na emancipação da mulher sem falar na sua importância nas zonas de combate. No caso específico das lutas de libertação em África, vários países africanos se beneficiaram da sua presença em combate.

A presença das mulheres no mato, na guerrilha aconteceu de várias maneiras. Algumas aderiram porque foram com a família, com os parceiros; houve ainda as que aderiram aos movimentos de libertação por uma perspectiva de estudo e estratégia; houve as que foram obrigadas e houve também, como não podia deixar de ser, as que aderiram de foram voluntária por acreditarem na causa da auto-determinação das suas nações.

No entanto, grande parte dessas memórias foram apagadas e ficaram-se apenas as histórias dos heróis homens. E mesmo a história da presença das mulheres acabou sendo ofuscada pelo tom patriarcal que tomou, já que se vivia (ainda se vive) num contexto social de dominação masculina.

Infelizmente muito do que se conta hoje nos leva a crer que as mulheres foram aliciadas ou emparedadas pelos homens a fazerem parte da guerra, enquanto na verdade elas conquistaram esse espaço.

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A Mulher lutou pelo seu espaço na luta armanda. Fonte: Fundação Amílcar Cabral

O líder caboverdiano Amílcar Cabral admitiu, no Seminário de Quadros de 1969 que as mulheres foram se juntando aos homens, meio que de forma desorganizada, e que foram resistindo à pressão que havia para se afastarem. O PAIGC teve então de oficializar a sua presença na luta.

 

 

“(…) Portanto, o partido não pode fazer grande bazófia de que recrutou mulheres. Em geral, as mulheres é que vieram para a luta, o que dá muito mais valor à presença de mulheres no Partido.” – Amílcar Cabral

A mesma retórica encontramos em Moçambique em que se diz que foi o presidente Samora que “permitiu” que as mulheres pegassem nas armas, quando na verdade, elas enfrentaram todo o preconceito e barreiras criadas pelos colegas homens para estarem ali.

E para que os seus feitos não se apaguem da História, é importante que as lembremos delas, que falemos e enalteçamos a sua coragem e determinação. É também graças a elas que hoje usufruímos dos direitos que temos como cidadãos de plenos direitos.

Deolinda Rodrigues

20180324082455deolindaDe nome de guerra Langidila, Deolinda abandonou os estudos para se juntar à luta de libertação de Angola. Em 1961 começou a combater e em 1972 foi uma das co-fundadoras da Organização da Mulher Angola (OMA)

Como guerrilheira passou por Guiné Bissau, Congo Kinshasa e Congo Brazzaville. A 2 de Março de 1968 ao regressar de uma missão no mato foi capturada, juntamente com outras mulheres, por um grupo guerrilheiro angolano e executada em cativeiro. Celebra-se nessa data o Dia da Mulher Angolana.

Deixou os seus diários que relatam os desafios, vitórias e sacrifícios da sua vida como combatente da luta armada.

Emília Daússe

Emília Daússe foi uma guerrilheira moçambicana. Como jovem guerrilheira, foi das mais activas mulheres, tendo recrutado muitos combatentes na província de Tete.

Em pouco tempo alcançou posições de liderança. Após o seu treino político-militar na Tanzania em 1972, comandou um pelotão de cerca de 40 combatentes (homens e mulheres).

Morreu numa emboscada a 11 de Novembro de 1973.

Carmen Pereira

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Foi a primeira mulher presidente de um país africano quando em 1984 assumiu a presidência da Guiné Bissau por 3 dias.

Foi uma figura política importante, tendo lutado para a independência da Guiné Bissau através do PAIGC.

Foi uma líder de alto escalão político no país tendo passado por Presidente da Assembleia Nacional e Vice-Primeira -Ministra, entre outras posições.

 

 

 

Afro-ismos e outras cenas

Afro-ismos e outras cenas

O “Negro” e o “Africano” são criações da ocupação europeia.

Antes dos colonizadores europeus chegarem a África não havia negros. Os negros apareceram como categoria para se distinguir o branco europeu.

O continente Africano existia como uma pluralidade de culturas e nações e não um bloco homogéneo. Havia muita produção científica e economias robustas.

Também havia conflitos, forças que queriam alargar o seu poder, saqueios, perseguições e assassinatos.

Mas não havia negros.

Esses apareceram pela necessidade de criar um sistema de domínio económico, político e mais tarde social, de imposição de uma cultura em outra.

Para tal, o uso da violência foi imprescindível e a justificação para tal foi precisamente essa dicotomia: branco vs. negro; civilizado vs. selvagem.

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Achille Mbembe e o que herdamos do Colonialismo e do Imperialismo Ocidentais. Fonte: Comunidade Cultura & Arte

E por isso, sentimos a necessidade de reforçar a nossa identidade, de fazer deste “não-espaço” um lugar confortável, seguro.

Nesse processo de auto-afirmação, acabamos por reforçar essas categorias que na verdade nunca nos pertenceram.

Longe de ser espontânea, esta crença [na raça] foi cultivada, alimentada, reproduzida e disseminada através de um conjunto de dispositivos teológicos, culturais, políticos, económicos e institucionais, dos quais a história e a teoria crítica da raça acompanharam a evolução e as consequências ao longo dos séculos.” – Achille Mbembe

 

Até hoje deixamos esta crença na raça dominar a nossa cultura. Embora já não seja algo institucionalizado, como era por exemplo o colonialismo ou o apartheid, há resquícios disso no nosso dia-a-dia.

Para além da religião e das nossas colonialices de estimação, notamos até nas coisas mais pequenas.

Vamos ao mercado, e chamamos o inhame de “batata africana”. Enquanto a batata sul americana, que nos chegou através dos europeus e asiáticos é simplesmente “batata”.

A pessoa quando fala em Medicina Africana, diz “Medicina Tradicional”, mas trata a Medicina Ocidental/ Moderna somente por “Medicina”.

O mesmo certamente se aplica em mil e outros casos! Por defeito, tratamo-nos como se fôssemos os “outros”, pois enquanto o branco europeu olha para si apenas como uma pessoa, nós aprendemos a olhar para nós como africanos.

Não somos somente “chiques”, como “afrochiques”.

“Afro-empreendedores”

“Afro-fashion”

“Afro-cosmopolitas”

“Afro-descendentes”

“Afro-qualquer coisa”

Enfim… E por falar em “Afro”, por que o meu cabelo quando está solto é “Afro”? Existe cabelo “Euro”?

É como se o meu cabelo não pudesse ser simplesmente “cabelo”!

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Empoderamento não é sobre o tamanho do seu black power. Fonte: Geledés

Na sua TED Talk, Edgar Cubaliwa tocou num ponto importante quanto a este assunto: Por que é que quando vamos a um sítio bonito aqui no nosso país, dizemos “Nem parece Moçambique”?

A nossa auto-imagem é tal que não nos achamos merecedores de locais paradisíacos. Aqui no nosso país só pode haver pobreza, guerra, miséria.

África não pode ter coisas boas. Os africanos negros complexos, com ideias progressistas ou simplesmente diferentes “querem ser brancos”.

Parece-nos difícil olhar para quem somos e reconhecer diversidade, inteligência, riqueza. Não conseguimos ver valor, unicidade nas nossas coisas.

E o motivo é provavelmente o facto de estarmos a olhar para o mundo através de determinadas lentes.

Esse é o nosso desafio: tirar as lentes e sair desse “não-espaço”.

Criemos as nossas visões. Os nossos modelos. As nossas próprias batatas e cabelos.

 

 

Tio António Quando Trabalhava

Tio António Quando Trabalhava

Tio Antônio quando travalhaba
Nas obras numa plantação
Que pertenciam a um colono
Tio Antônio era contratado

Sob um sol ardente do Mocaba
Ele apanhou um pau nas costas
Um capataz pretendia
Que ele era demasiado lento

Tio Antônio era contratado/ Antônio kumbe kumbala

Antônio wayenda ku Zombo
Ngwa nkazi wayenda mu n’tonga
Elumbu kesinga vutuka/ Festa na aldeia

Esta música angolana, narra a triste história do Tio António, um camponês que durante o tempo colonial trabalha arduamente todos os dias e é abusado pelo capataz pois supostamente é muito preguiçoso.

[A sua família fica para trás, aguardando ansiosamente o seu regresso para fazer uma grande festa na aldeia.]

Tio Antônio quando trabalhava
Nas obras numa plantação
Que pertencia a um colono
Tio Antônio era contratado

Por ter recusado
Foi deportado
Deportado longe de sua terra
Tio Antônio
Tinha deixado
A família em sua terra

Actualmente têm circulado imagens de viajantes africanos a serem vendidos publicamente algures na Líbia. A comoção é geral, e é de se louvar. Os gritos destas pessoas – sim, PESSOAS – que foram raptadas, exploradas, manipuladas ao ponto de serem vendidas como objectos, foram ouvidos.

Então, ouçamos esses gritos. O que nos dizem? De onde vêm? Como é que esses gritos surgiram e se multiplicaram até chegarem aos nossos ouvidos?

Para quem acredita em tudo o que lê nos livros de História, os gritos surgiram subitamente, pois a escravatura terminou há séculos atrás. Para quem achava que o tráfico de seres humanos era um problema pequeno, os gritos mostraram que é um problema gigante. Para quem defendia que hoje em dia, no séc. XXI, todos os seres humanos são tratados com a mesma dignidade, os gritos colocaram em evidência a realidade falsa.

Os gritos e lágrimas que nos chegam hoje, vêm de pessoas e lugares que nunca deixaram de existir: mercados de pessoas; traficantes de pessoas; exploradores… Onde miséria, pobreza e ilegalidade caminham de mãos dadas, e as linhas da criminalidade se confundem.

Não é só na Líbia.

Tio Antônio foi empregado
Em Madeira, São Tomé, Cabo Verde
No dia do seu regresso
No dia do seu regresso, Festa na aldeia!

[Mais tarde, Tio António revolta-se e é deportado e assim viaja pelas plantações da Madeira, São Tomé e Cabo Verde.]

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Centenas de migrantes africanos estão a ser vendidos na Líbia. Fonte: Al Jazeera

 

Esses gritos existem também nas nossas casas.

A necessidade da escravatura está tão presente hoje como estava no séc. XVIII, quando começou o movimento abolicionista, pois vivemos numa sociedade capitalista em que queremos adquirir o numero máximo de produtos e serviços pelo preço mais baixo e produzir tudo isso com mais lucro possível.

Tem de haver uma mudança no nosso consumo para que possamos de facto abolir a escravatura. Estaremos prontos para isso?

Queremos prazer ao máximo, consumo ao máximo, o melhor estilo de vida, o melhor conforto e tudo isso da forma mais barata possível. É por isso que durante as campanhas “Black Friday” invadimos lojas de marca como a Zara e Bershka como vândalos.

Em 2013, no Bangladesh mais de 100 pessoas morreram quando duas fábricas ficaram arruinadas. Nessas fábricas os “trabalhadores” faziam roupas para essas mesmas marcas em condições deploráveis.

No Brasil, essas mesmas marcas subcontractam empresas que contratam funcionários menores de idade que trabalham em turnos de 16h diárias.

Sim, porque para que essas marcas possam fazer as roupas que nós tanto gostamos – e descartamos sazonalmente – é necessário que haja pessoas a trabalhar como escravas.

A ganância e egoísmo que nos rege hoje é um dos mais importantes factores que impulsiona o trabalho escravo e o tráfico de humanos.

O nosso erro é nos calarmos face a estes abusos. O nosso erro é não procurarmos saber de onde vêm os produtos e serviços que consumimos (ou aspiramos consumir) . O nosso erro é não querermos saber qual o prejuízo humano para cada item que temos na nossa casa.

Se realmente queremos acabar com o trabalho escravo, temos de começar por reconhecer a nossa cumplicidade.

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Como nós nos tornamos parte do problema da escravidão moderna. Fonte: Insight & Opinion

Nas nossas próprias casas, nos nossos locais de trabalho, nos nossos bairros, quantas pessoas vivem em situação de escravidão? Quão permitidos somos com essas situações?

Comecemos pelas nossas empregadas domésticas, que dignidade lhes conferimos? As crianças a quem compramos amendoins na rua, que direitos têm garantidos? Os guardas/ seguranças, em que condições trabalham?

Comecemos por aí.

Não é uma questão de culpa ou vergonha, mas sim de responsabilidade. Temos de assumir o poder que está nas nossas mãos para mudar alguma coisa.

Em vez de culparmos os governos e grandes corporações; em vez de exigirmos melhor legislação, melhor controle de fronteiras, trabalhemos este espaço que ocupamos agora.

A nossa indiferença faz-me pensar no Tio António, cuja história deu uma boa música para as nossas festas.

Embora a música seja animada, narra vivências reais de muita dor e sofrimento. Não podemos deixar que isso continue a acontecer no séc. XXI.

Não podemos dançar ao som dos gritos dos escravizados.

Antônio wayenda ku Zombo
Ngwa nkazi wayenda mu n’tonga
Elumbu kesinga vutuka/ Festa na aldea

Bu ukuenda ku Zombo tata Antônio/ Antônio kumbe kumbalala
Buku toma siminina/ Antônio…
Kuikila mfumu Yisu/ Antônio…
Elumbu kesinga vutuka/ Festa na aldea