Novas Igrejas, Colonialismos Antigos

O papel das Igrejas como centros de submissão de povos, estabelecendo controle sobre o imaginário divino para facilitar então o domínio político e social.

Durante toda a História da Humanidade, vários sistemas de comunicação com o Divino foram estabelecidos. E de uma forma ou de outra, esses sistemas criavam sempre uma ordem que devia ser respeitada, sobre a ameaça de consequências catastróficas para os desviantes.

As religiões sempre estiveram ligadas ao poder. Foi com essa desculpa de evangelizar os povos de todos o mundo que as nações ocidentais invadiram continentes e colonizaram nações.

Para os países colonizados, essas feridas até hoje se fazem sentir.

A religião sempre foi utilizada para entrar na mente de uma pessoa, pois para escravizá-la ou colonizá-la é preciso primeiro que ela o permita. E isso é conseguido através do ensino de um sentido de inferioridade.

Seria necessário, para durante séculos dominar um povo inteiro, eliminar qualquer fé que esse povo teria nele próprio e nos seus Deuses. Os Deuses que os protegiam nas grandes batalhas, que os alertavam para os perigos do Futuro; os Deuses para quem esses povos eram importantes e especiais foram então eliminados.

Através da demonização das religiões de matriz africana e da perseguição dos seus praticantes, bem como o baptizado forçado de africanos escravizados ou de qualquer africano que quisesse ter mais oportunidades, aos poucos os povos colonizados esqueceram-se dos seus Deuses.

Passaram adorar um Deus branco. Anjos loiros e de olhos azuis. Profetas de cabelo liso e longo. Foi assim que os colonizadores romperam por completo a ligação que os povos africanos tinham com o Divino e conseguiram, por muito tempo, saquear as suas terras e riquezas.

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Missionários no Séc. XIV convertendo crianças para o Cristianismo.

Mais recentemente, com a febre das igrejas neopentecostais, uma nova Cruzada começou a ser feita.

Hoje em dia os soldados de Cristo já não andam a cavalo nem chegam de navio. Aparecem com os mais recentes modelos de automóveis e andam bem vestidos. Aparentam uma vida de sucesso, com uma família perfeita e um comportamento exemplar.

Segundo a doutrina neopentecostal, a prosperidade na vida de um crente é proporcional à sua entrega a Deus. Assim sendo, a marca da plenitude da fé é muita saúde e aptidão física, estabilidade emocional e prosperidade material.

Não é de admirar que estas Igrejas, a destacar a IURD, têm nos seus crentes pessoas capazes de entregar tudo o que conseguem com o suor do seu trabalho em troca de um pedaço de terra no Céu.

Em África, e mais precisamente em Moçambique, esta linha de pensamento não está muito longe das religiões tradicionais baseadas na ligação histórica aos antepassados. De acordo com a crença tradicional, doenças e azares resultam de maldições e pragas lançadas pelos antepassados insatisfeitos.

Em muitos países infestados por guerras; doenças; fomes e catástrofes naturais, a sociedade como um todo vê-se perdida. As pessoas são deslocadas e abandonam os seus locais sagrados; perdem-se das suas famílias e da sua história e nesses processos, desligam-se também das suas divindades, vivendo com pouca paz espiritual.

Os traumas, dramas e depressões dessas desgraças são presenças constantes no nosso quotidiano, criando um ambiente de desespero e incredulidade generalizados.

Quando cruzamos estes factores, torna-se evidente o sucesso das Igrejas Neopentecostais em Moçambique e em outros países cujas religiões de base se guiam por esse pensamento.

A tudo isso, acrescentam-se ainda as dificuldades económicas e financeiras da vida contemporânea: não tenho dinheiro para cobrir as minhas necessidades básicas; vivo numa casa precária; tenho um emprego que não me satisfaz; os meus filhos não têm o que vestir; etc. Essa crise material, quando se depara com a crise espiritual cria condições para o sucesso dessas Igrejas.

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Fonte: Facebook Igreja Universal do Reino de Deus

Vejamos que, por exemplo, nas religiões de matriz africana até os locais sagrados são simples e rudimentares, muitas vezes debaixo de árvores e no meio da natureza. Os líderes religiosos usam roupas feitas de materiais baratos e falam línguas ditas “primitivas”, comunicando-se com o Divino através de conchas, ossos ou mesmo a água.

Enquanto essas Igrejas têm templos grandes e robustos, onde se falam línguas célebres no microfone. Os líderes usam fatos e roupas bem vistosas. Andam de carro e vivem em verdadeiros palacetes. Até os seus rituais são mais compostos e sofisticados.

Então eu pobre; desesperada; doente; com fome; com sede; sem tecto; onde vou pedir riqueza?

Por muitos anos foi-nos negada a nossa forma de ver, sentir e falar com Deus. E nós crescemos sem uma imagem sagrada de nós mesmos, sem um sentido positivo das nossas religiões e completamente desligados das nossas raízes.

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Celebrações do Dia de VooDoo no Benin

Curiosamente, alguns países ocidentais estão a resgatar as suas ligações espirituais que ocorrem fora dos padrões da Igreja. Aquilo que chamavam de animismo começaram também a incluir nos seus cultos.

Mas nós negamos essa presença, apesar de nos usarmos de alguns rituais quando nos convém, pois continua no nosso inconsciente a sua veracidade.

A nossa História colectiva foi apagada e com ela a nossa Fé. Essa vulnerabilidade torna-nos superfícies altamente permeáveis, capazes de facilmente adoptar qualquer doutrina de pensamento sem questionar a sua validade para o nosso contexto.

No início chegaram os Árabes, passámos a chamar-nos Zeinab, Mohamed, Catija, como o Profeta e a sua família. Depois invadiram-nos os Portugueses e aos nossos filhos demos nomes como Francisco, Miguel, Maria, como se chamam os seus santos e agora vêm os Brasileiros, e já surgiram os Enzo, Caíque, Nicole… Quando é que os nossos filhos terão os nossos nomes? Nomes da nossa História? Dos heróis? Dos nossos antepassados?

 

3 coisas sobre virgindade que todos deviam saber

Tudo o que envolve sexualidade ainda é coberto por um nevoeiro espesso composto por tabus e mitos que nos impedem de ter relações saudáveis com os nossos corpos e com os corpos dos outros.

Para além dos riscos de saúde associados à falta de conhecimento sobre sexo, existe também toda uma lavagem cerebral feita para controlar os corpos das mulheres e com isso perpetuar slut-shaming e victim-blaming.

No que toca à sexualidade feminina, é ainda mais difícil um debate construtivo e educativo que promova comportamentos sexuais saudáveis, já que se promove sobretudo a abstinência e a manutenção da virgindade.

Mas afinal, o que é virgindade?

1. Virgindade não existe 

Não existe. Virgindade é um termo heteronormativo que classifica sexo apenas como a penetração, excluindo todo o sexo que ocorre longe de formas fálicas.

Há várias formas de contacto sexual que não envolvem um pénis.

E agora, vem a pergunta: E o hímen? Pois é, o hímen! O hímen pode-se romper por uma série de factores como exercício físico ou masturbação; pode se romper na trigésima relação sexual e pode até nem existir! Se considerarmos apenas o rompimento do hímen, então quem não tem hímen permanece virgem? Os homens não têm virgindade?

Outra pergunta: E o tamanho da vagina não muda?

Claro que, sendo a vagina um músculo, a sua elasticidade depende da quantidade de esforço e exercício que lhe for pedido. E assim sendo, pouca actividade sexual significa uma vagina menos elástica que pode dar a sensação de contracção.

Para além do conceito de virgindade estar intimamente ligado à supressão da sexualidade feminina, apenas fomenta a ideia que pénis têm poderes mágicos de transformação.

A ideia que a desvirgindade muda o nosso corpo totalmente, de forma repentina e completamente irreversível é falsa.

2. Ninguém tira a virgindade de ninguém

É sempre vendida a Primeira Vez como um momento memorável e cheio de efeitos especiais. E acima de tudo, com alguém que “valha a pena” porque essa pessoa terá para sempre uma parte de nós e ficará para sempre na nossa memória.

Mas a verdade é que a Primeira Vez nem sempre é assim. Não tem de ser assim. O que deve haver é consentimento e vontade de ambas as partes. Dali para frente vai ser sempre melhor, vamos aprender mais e descobrir mais.

Supostamente, para nós, mulheres, o início da vida sexual, marcado pela Primeira Vez tem de ser milimetricamente avaliado e considerado, visto que estaremos a dar algo do nosso corpo que jamais será recuperada.

A percepção que virgindade é algo que se perde, reforça o mito de pureza da mulher, segundo o qual o seu corpo se desvaloriza e desvirtua sempre que for tocado de forma sexual.

Mas a verdade é que a relação sexual é a dois, consiste numa troca. Ninguém tira nada de ninguém – até porque não se pode tirar algo que não existe!

Então não se perde nada, só se ganha.

3. Desvirgindade não é um evento só

Assumindo virgindade como a acumulação de experiência  sexual, esse fenómeno não ocorre de uma única vez.

A desvirgindade, nesse sentido, é um processo. Isto é, deixar de ser virgem envolve toda a descoberta do corpo e da sexualidade, acontece em etapas através de várias experiências sexuais.

E fazem parte desse processo, todas as formas de expressão sexual, começando pela própria masturbação.

Nessa perspectiva, somos todos eternos virgens. Estamos todos em constante crescimento e descoberta no que toca à nossa sexualidade e em busca de mais formas de ter e dar prazer.

 

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Nude Woman Reclining, Seen from the Back by Vincent Van Gogh
As mulheres devem ser ensinadas a tomar decisões sobre os seus corpos sem julgamento nem vergonha.

É preciso que haja uma abolição do conceito de virgindade, e com isso, por associação, uma redefinição das ideias de consentimento, de prazer e de saúde sexual e reprodutiva.

 

 

 

 

 

A corda no pescoço da juventude

Num 16 de Junho, na África do Sul, dia em que se comemora o Dia da Juventude em homenagem ao Soweto Uprising, uma adolescente branca se suicida em casa, numa última selfie em forma de live stream.

Ao contrário do que é habitual vermos nas grandes telas sobre a África so Sul, este filme não retrata o Soweto. O Johannesburgo que se vê no filme “Necktie Youth” mostra toda a vida cosmopolita que ali se vive.

Na era do espectáculo, as juventudes branca e negra se misturam, em inglês. Entre cada grupo uma língua diferente: para uns o afrikaans, para outros o zulu, e todas as outras distâncias que os separam.

Em convívios e namoros, a geração “Born Free”, nascida depois do apartheid desfruta das suas liberdades (supostamente) longe do preconceito racial e das barreiras institucionais que antes os separavam.

 

Mas será isso verdade?

 

Numa das cenas que mais mexeu comigo, um rapaz negro é largado no meio da rua depois de ter uma overdose de cocaína em casa de um amigo branco. Um casal interracial abraça-se e namorisca com carinho num parque público em plena luz do dia. Mais tarde, uma rapariga branca embriagada é violada por um amigo negro no meio de uma festa.

Parece muita cor, mas o filme é todo a preto e branco.

O suicídio de Emma chega como surpresa para todos os eus amigos. Tão submersos vivem nas suas existências supérfluas, sem causas para defender para além das suas vontades egoístas, que são incapazes de reconhecer a solidão e desespero em que vivem.

Essa é sem dúvida, a maior distância de todas: A do convívio entre eles sem saberem sequer os seus maiores medos e depressões.

A fuga? Drogas; álcool; sexo.. E por fim, a morte. A derradeira chave para a liberdade, e neste caso também a fama.

A fuga para um final feliz, embora sem aplausos. Mas com a atenção que desesperadamente precisamos, enfim.

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Quantos de nós não vivemos assim também?

Presos em amizades e amores que não nos preenchem emocionalmente. Sem a possibilidade de redenção, a morrer por dentro de uma insatisfação crónica sem causa aparente.

Raiva, rancor, ausência, trauma, todas essas energias que carregamos diariamente e nos impossibilitam de estabelecer laços sinceros e profundos com aqueles ao nosso redor.

Vicissitudes de uma Geração Livre, mas ainda escrava do seu Passado. Sem paixões nem idealismos, apenas todas as possibilidades dessa tal Liberdade que não nos leva a lado nenhum.

 

 

Poliamor africano em tempos de crise

Em Moçambique a poligamia não está legalizada e nem constitui crime. É algo mais ou menos aceite, com ou sem amor.

Quase sempre que nos referimos à poligamia para definir na verdade “poliginia”, que se caracteriza por uma relação entre um homem e várias esposas. E quase nunca se fala em “poliandria”, uma relação de uma mulher e vários esposos. Este debate foi levantado aquando da discussão da (nova) Lei da Família em 2004, na Assembleia da República.

Aquilo que é mais frequente na nossa sociedade – como em qualquer sociedade patriarcal é a poliginia. Encaramos esta realidade como algo normal, pois crescemos vendo tais situações nas nossas casas, nas casas dos nossos vizinhos, dos nossos tios, primos, etc.

Num país como Moçambique famoso pela variedade de religiões, povos e línguas é de admirar que se fale na poligamia apenas nestes termos. É quase impensável falar de uma relação entre uma mulher e vários homens como algo legítimo. Por que será? Cheira-me a machismo…

Muitos vão invocar factores ‘culturais’, mas a verdade é que a cultura não é algo estático e imutável. A cultura acompanha o tempo e o espaço. Motivo pelo qual uma família moçambicana a viver na África do Sul adopta alguns hábitos da cultura sulafricana, e uma família moçambicana há 30 anos atrás não vivia como uma família moçambicana vive hoje. Aliás, o próprio conceito de família já mudou!

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Ngungunhana, o último monarca do Reino de Gaza, com 7 das suas centenas de mulheres em Manjacaze. Séc. XIX
Falemos então de factos:

É facto que existe uma valorização dos filhos em Moçambique, tanto é que a taxa de fertilidade é de 5,27 crianças por mulher. Numa relação poligâmica, um homem com várias mulheres consegue gerar muitos mais filhos, por isso é mais respeitado e considera-se com mais “riqueza”.

Outro facto é que em muitas relações poligâmicas, especialmente as que ocorrem à margem da lei, nas comunidades rurais, as próprias esposas concordam e participam activamente na manutenção desta ordem.

Mesmo assumindo a legitimidade e respeito pela agência pessoal destas mulheres, deve-se olhar para o sistema onde esta agência pessoal está inserida. Cada indivíduo faz as suas escolhas dentro de uma rede de opressões e privilégios que delimitam os seus sonhos.

Sabemos que aquela imagem das esposas-irmãs que há muito nos tentam vender não corresponde à vasta maioria das famílias poligâmicas. Aliás, muitas vezes as próprias práticas sócio-culturais criam condições que fomentam o ódio e ressentimento entre as mulheres.

Mesmo entre os filhos, é só perguntar a qualquer um que seja filho de uma segunda ou terceira esposa, existem distinções de tratamento, condições e oportunidades. Este clima acaba impedindo que haja uma relação saudável e de harmonia entre os irmãos.

Poucas são as mulheres que aceitam deliberadamente esse estilo de vida. Para as primeiras esposas, a poligamia é uma forma de manter relativo prestígio e ganhar algum poder sobre as decisões tomadas pelo marido ao arranjar a segunda esposa.

Já para as segundas, o estilo de vida oferece uma certa segurança para si e para os seus filhos, saindo do anonimato de uma relação em que é apenas a “amante”.

Há factores económicos e de poder que se sobrepõem à ideia de se considerar, de facto, amar.

Um elo é comum a todas: a pré-aceitação da fragilidade do sexo masculino face à ameaça de uma outra mulher por perto. A aceitação da irracionalidade do homem e da traição como uma fatalidade à qual não se pode fugir, ficando-se apenas pela salvaguarda da relação “legítima”.

Por isso, embora eu não questione a escolha a nível individual, eu sou obrigada a observar, num todo, como um determinado grupo de mulheres fez essa escolha. O que caracteriza esse grupo? Que opções estavam disponíveis no momento da escolha? De que ferramentas esse grupo dispõe para contestar a ordem em vigor?

E sobretudo: Por que é que essas mulheres que se dizem polígamas não praticam a poliandria, apenas a poliginia?

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Não podemos ignorar a vulnerabilidade que estas relações trazem para as mulheres que nelas participam.

Se por um lado, a poligamia surge como uma forma de controlar os danos causados pelo adultério, por outro, traz consigo todas as certezas da superioridade do homem como prémio máximo para qualquer mulher: primeira, segunda ou décima.

Para além dos óbvios perigos de saúde, num país como Moçambique com uma das maiores taxas de HIV do mundo, estas mulheres estão completamente desprovidas de protecção legal.

Ao abrigo da Lei da Família, apenas a esposa que tiver o matrimónio registado no Cartório, ou conseguir provar a união de facto, que geralmente é a primeira, está protegida. Há um vazio no que toca a relações poligâmicas relativamente ao direito de sucessão, herança e transmissão de bens para as restantes viúvas.

Os filhos poderão ser dados como herdeiros, mas isso não os salvará dos olhares de desprezo e comentários desagradáveis nas suas famílias e comunidades.

É fácil falar em poligamia quando isso significa acesso livre ao corpo de várias mulheres. Quando é “poli” a disponibilidade sexual e o aparente respeito que lhe é conferido. E amor, há?

 

 

Para mais informações/ opiniões sobre o assunto:

Tendências e Factores Associados à Poligamia em Moçambique

Apanágio em Caso de União Polígama (art. 426º LF)

Menstruar é bom, e eu gosto!

A primeira vez que a menina menstrua é um momento de viragem, em que o mundo parece virar-se contra nós e ao mesmo tempo exigir mais.

Quando era mais nova e ouvia as minhas primas a falarem da sua menstruação, eu queria fazer parte desse mundo. Sempre que conversávamos sobre relacionamentos – da única forma que meninas entre os 10 e os 15 anos o sabem fazer – elas me diziam “As coisas não são bem assim, tu ainda és criança. Quando tiveres o período vais entender.”.

Parecia que todas as minhas opiniões eram inválidas pelo simples facto de eu não menstruar todos os meses como elas. Eu achava que o período era a única forma de dar legitimidade àquilo que pensava, de mostrar que eu era uma menina madura e com ideias boas o suficiente para serem ouvidas.

Na manhã em que vi a minha primeira gota de sangue eu tinha 11 anos e estava prestes a tomar banho para a escola. Fiquei muito feliz, pois finalmente teria o “estatuto” que tanto queria.

Mas a verdade é que depois desse dia tudo mudou.

Eu já não podia mais brincar como as outras meninas que não tinham o período. Não podia ir à praia ou à piscina sempre que me apetecesse. Tinha de usar umas fraldas estranhas sempre que estivesse período. E pior de tudo, tinha de esconder essa realidade de todos. À excepção da minha mãe, ninguém podia saber que eu estava menstruando.

Esse silêncio é o pior de tudo.

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Projecto “Period” pela artista Rupi Kaur.

Com a minha mãe aprendi a fazer a tabelinha e prever os dias de menstruação para nunca ser surpreendida. Na escola nos ensinaram os órgãos genitais e como o corpo humano funcionava.

Mas a vergonha e nojo de ter sangue a sair de mim mensalmente fui descobrindo sozinha, despreparada. Ninguém me disse que era bonito. Ninguém me disse que podia ser normal ou até mesmo divertido. Era sempre algo feio, estranho.

Depois fui aprendendo que muitas das minhas amigas, tal como eu, não podiam fazer certas coisas quando estavam menstruadas.

Coisas normais e que lhes davam prazer, mas que pelo simples facto de elas estarem “impuras” durante esses dias do mês não podiam mais fazer. Desde simples tarefas domésticas como cozinhar, até certos rituais religiosos.

Outros mitos foram surgindo ao meu redor, num ambiente de secretismo, sem muita ciência por detrás que pudesse explicar ou segurança para perguntar a outras pessoas: Mulher não pode ficar no secador quando vai ao cabeleireiro de período; mulher não pode ficar muito perto de homens senão aumenta o fluxo; mulher não pode ir a cerimónias fúnebres; não pode ter relações sexuais; etc.

Todo o estigma à volta da menstruação afasta muitas mulheres de elas mesmas.

Faz com que repudiem o seu próprio corpo e todas as maravilhas que ele é capaz de fazer.

Foi apenas na idade adulta em que comecei a ficar mais confortável com a minha própria menstruação. Perdi o medo de esconder que era uma mulher com um útero funcional e um ciclo de 28 dias.

Aprendi a admirar como este corpo é capaz de se manter de pé, de me permitir sorrir e chorar, mesmo a jorrar sangue durante dias. Este corpo consegue amar e ser amado, mesmo depois de tirar lágrimas de sangue por dentro. Este corpo é palco de um espectáculo sangrento todos os meses e ainda não desistiu de viver.

O meu corpo faz tudo isso e muito mais.

 

40 Regras para quem não sabe amar sem manual

“The 40 rules of love” é uma obra para quem se interessa por espiritualidade, muito mais que religião e procura em si razões para acreditar em algo maior, numa força capaz de mudar o rumo das nossas vidas. O amor.

IMG_5030Para os mais distraídos este livro é apenas a interpretação sufista do amor. E embora o Sufismo seja uma peça fundamental para o desenrolar da história, não é, de todo o porquê de ela existir.

Certamente, para os praticamente do Islão, o livro terá um sentido mais íntimo. Repleto de referências corânicas, o livro é para muçulmanos, critãos, budistas, agnósticos e até mesmo ateus.

Dois tempos se cruzam: por um lado o séc. XXI e a vida perfeita de uma mulher casada com três filhos, num subúrbio norte-americano. Ella, a mulher, à beira dos 40 anos e submersa numa vida cheia de futilidades mas sem sentido. E por outro lado, Shamz of Tabriz no séc. XIII e a busca por um aprendiz, que encontra em Rumi, o famoso poeta sufi.

Não nos deixemos enganar, este livro é sobre o amor nas suas mais diversas formas.

Para além da óbvia ideia romântica do amor, que a Disney nos vendeu a infância toda, a autora consegue explorar com sucesso todas as formas de amor à nossa disposição que poucas vezes nos atrevemos a aceitar por medo: o amor aos nossos pais e irmãos; a Deus; aos nossos amigos; às nossas experiências; etc.

O que mais me surpreendeu foi forma tão crua e quase sensual em que Shamz of Tabriz e Rumi se envolveram. Ambos dependiam um do outro. Eram almas gémeas, nas suas próprias palavras.

Um amor puro e inocente. Um amor que despertou em Rumi o poeta que havia em si.

Dois homens completamente apaixonados pelo conhecimento e sonhos que partilhavam. Uma amizade tão forte que despertou sentimentos de vergonha, ciúmes e raiva por parte de quem via o seu envolvimento.

E estes sentimentos negativos, alimentados por dogmas, evidenciam o perigo de violência face à liberdade, ao amor e à vida. Através destes episódios, a autora desafia quaisquer verdades absolutas que possam estar enraizadas na nossa forma de ver o mundo.

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Outro aspecto interessante foi a forma como o amor na família de Ella era quase inexistente entre as pessoas. A mãe que desconhecia os filhos. Os filhos que desconheciam os pais. O casal que não se reconhecia.

Não podia haver amor, pois eles estavam demasiado presos àquilo que deveriam ser. À ideia de família perfeita que queriam manter, mas que não correspondia à realidade. Uma família ligada por laços de sangue e conveniência, mas não por amor.

Isso Ella encontra por acaso num estranho, por acaso (ou não) à distância de uma ligação à internet. E com todas as consequências iminentes, ela arrisca-se a amar.

Só uma coisa é certa na vida: a morte. E o livro ilustra esse fim perfeitamente, desde o início

O amor que partilhamos permanece no mundo dos vivos, sobrevive-nos.

 

 

O que diria Lumumba sobre o EURO?

Patrice Lumumba foi o primeiro político democraticamente eleito na República Democrática do Congo ao tornar-se Primeiro-Ministro. Apenas 81 dias depois de fazer História foi assassinado em circunstâncias duvidosas com o envolvimento da Bélgica.

Lumumba foi um dos fundadores do Movimento Nacional Congolês (MNC). Acreditava veemente na independência total e inalienável do Congo e na capacidade do povo congolês de gerir as suas infraestruturas, pessoas e sobretudo recursos.

Ao chegar ao poder, em 1960, Lumumba fez questão de se posicionar como um Pan-Africanista interessado em apoiar a luta pela auto-determinação de outras Nações Africanas. A sua inabalável determinação e carácter incorruptível tornaram-no num alvo a abater pelas forças ocidentais, que viram os seus interesses ameaçados.

Poucos meses depois das eleições, conflitos internos dividiram o Congo em três partes, governadas por líderes distintos (com aliados distintos) e rivais. A situação era insustentável e Patrice Lumumba pediu a intervenção da Organização das Nações Unidas, que nada fez senão olhar de longe o declínio de um Congo próspero, como prova da incompetência dos Africanos de se auto-governarem.

A 17 de Janeiro de 1961, aos 35 anos, depois de ter sido preso e sujeito a tortura, Lumumba foi morto a tiros com o conhecimento dos EUA e apoio da Bélgica. O seu corpo sem vida foi ainda esquartejado e queimado com ácido, de forma a eliminar quaisquer provas do crime.

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Hands tied behind his back, deposed Congo ex-premier Patrice Lumumba (center) leaves a plane at Leopoldville airport, Dec. 2, 1960, under guard of Congolese soldiers loyal to Col. Joseph Mobutu. (AP-Photo/File)

A sua trágica morte é considerada por muitos historiadores como o mais importante assassinato do séc. XX, tendo em conta a importância que teria para o futuro do Congo e para descolonização/ democratização de África nos anos posteriores, bem como para o desenrolar da Guerra Fria e desenvolvimento de armas nucleares.

Hoje, em 2016, assistimos a mais uma edição do Euro: a maior festa de futebol da Europa. Este ano em França como foi também em 1960, na primeira edição.

O que é que a História do revolucionário congolês tem a ver com o maior espectáculo de futebol da Europa?

Curiosamente, o Euro tem uma longa história de protestos de motivação política.

Na primeira edição do campeonato, a Inglaterra, a Itália, a Alemanha Ocidental e os Países Baixos retiraram-se da competição por se oporem à participação da União Soviética. A Espanha abandonou nos quartos de final, também por não acreditar numa festa Pan-Europeia com a URSS, que, by the way, levou a taça para casa.

Na edição seguinte, a Grécia abandonou ao ter de jogar contra a Albânia, com quem ainda estava em guerra. E mais uma vez, a Alemanha Ocidental recusou-se a participar.

Já em 1992 a Jugoslávia foi impedida de jogar pela própria UEFA por estar a passar por uma guerra civil.

Não é estranho todas estas Nações se terem calado face às atrocidades que aconteciam em África?

Ironicamente, e como era de se esperar, à medida que as ex-colónias atravessaram momentos de tensão e conflito, a Europa recebia cada vez mais emigrantes africanos.

Mesmo depois de pegarem em armas para se livrarem do domínio belga no seu território, os Congoleses viram-se obrigados a pedir socorro à Bélgica depois da morte de Lumumba.

Com o tempo, uma nova classe de Africanos emergiu, mais consciente e preparada.  Talvez até talentosa, tal como sonhava Lumumba, mas longe de África. Na Europa.

E hoje vemos no relvado do Euro a herança do (des)colonialismo em África.

A selecção da  Bélgica, destaca-se por ser das que mais descendentes africanos tem na sua equipa: um total de 6, sendo 5 do Congo e 1 do Senegal (colónia francesa).

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Irmãos Jordan e Romelu Lukaku de descendência congolesa a representar a selecção da Bélgica.

E por falar em França, a sua selecção tem 9 descendentes de imigrantes africanos. Na sua maioria de países francófonos, como Senegal e Mali.

Em Portugal também há traços desse fracasso nos processo de democratização das suas ex-colónias. E foi esse fracasso que ajudou na manutenção da dependência entre colono e colonizado.

A manutenção de uma relação doentia baseada num sentido de inferioridade reforçado vezes sem conta para sustentar o status quo. Nas palavras de Lumumba: “Nós sabemos os objectivos do Ocidente. Ontem eles dividiram-nos baseando-se na tribo, no clã e na vila. Hoje, com a África a libertar-se, eles querem dividir-nos com base em Estados (…) para perpetuar o seu domínio.”

Por isso um Congolês nunca amará mais Portugal que a Bélgica. Um Moçambicano nunca desejará ser mais do Reino Unido que de Portugal. E um Ganês nunca vai admirar mais a Bélgica que o Reino Unido. E por aí adiante.

Somos reféns do nosso opressor e da nossa opressão.

 

Girlhood: a ilusão da realidade

Girlhood é um filme escrito e realizado por uma mulher branca, francesa que pretendeu retratar a vida de jovens mulheres negras da periferia francesa.

Costuma-se dizer que “percepção é realidade” e não poderia estar mais de acordo. Cada indivíduo vive numa realidade completamente diferente, pois sente e absorve o seu ambiente de formas diferentes.

Esse seja talvez o maior desafio para quem faz um filme: como criar uma imagem que represente a realidade ?

No filme Girlhood, da realizadora francesa Céline Sciamma, é quase impossível não sentir essa distinção entre a percepção dela e a realidade que procura retratar. Ou pelo menos para quem conhece minimamente essa realidade!

A história acompanha o desenvolvimento de Mariéme, desde uma tímida e solitária menina negra a uma adolescente rebelde e conflituosa.

A intenção do filme é de despertar um sentimento de culpa face à indiferença da sociedade francesa às comunidades imigrantes que vivem à margem de tudo: da cidade; da lei e até mesmo da “francofonia”.

 

Infelizmente, o que o filme tem de real é pouco.

A realidade familiar é praticamente secundária à situação da adolescente durante o filme, evidenciando o desconhecimento da realizadora no que toca às especificidades de uma família imigrante.

O pai não aparece. A mãe trabalha como empregada doméstica e quase não passa tempo com os filhos. O irmão é extremamente abusivo. A irmã mais nova está à procura de um ídolo. E Mariéme tem apenas 16 anos e aparentemente nenhum sonho.

O que a realizadora consegue- e muito bem- é descrever a força que vem de um grupo de mulheres unidas. É essencial para a auto-afirmação de qualquer mulher que esta se rodeie de mulheres como ela.

No entanto, rapidamente o grupo de amigas torna-se destrutivo, trazendo à superfície tudo o que há de pior na protagonista: inveja; raiva; tristeza; carência.

Outro ponto positivo é a gradual evolução das tentações a que Mariéme está exposta. O que começa por ser uma vontade de estar na moda e usar roupas trendy, rapidamente transforma-se numa porta para um mundo de drogas e prostituição.

Note-se que este lado está intimamente ligado à exploração da sexualidade da adolescente. A adolescente vê-se dividida entre o seu desejo e curiosidade e os olhos incriminadores da sociedade machista.

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O filme é uma obra interessante na medida em que, embora carregada de estereótipos, permite-nos olhar (de uma forma unidimensional) para a realidade de muitas raparigas descendentes de africanos imigrantes na Europa.

Para a maioria dos adolescentes nessas condições, a construção da sua identidade passa muito pela descoberta da sua Africanidade, e depois pela rejeição ou aceitação desta. Pela manutenção das relações familiares, que se estendem às outras famílias em situações similares.  E pela resposta à pressão das estruturas da sociedade onde estão inseridos: escola; mercado de trabalho; oportunidades de crescimento; etc.

Infelizmente para Céline Sciamma a sua percepção não lhe permitiu chegar tão longe. Ela ficou-se pelo que estava à superfície da realidade: pela armadilha fácil do crime e justiça de rua.

A Mariéme de França, que poderia muito bem ser a Mariana em Portugal, empurrada para a marginalidade sem uma chance de saber quem é ou quer ser.

 

 

 

 

 

 

Alicia Keys e a rejeição das negras escuras

O que os aplausos à campanha #nomakeup /sem maquilhagem de Alicia Keys dizem sobre o grande elefante branco na sala das feministas negras.

A cantora norte-americana Alicia Keys tomou um bravo passo posicionando-se contra a ditadura de beleza que obriga as mulheres a maquilharem-se todos os dias, escondendo as partes de si que menos gostam e realçando os traços que as aproximam ao ideal de beleza que tanto procuramos alcançar.

Para uma artista como ela que serve de inspiração para muitas adolescentes, jovens adultas e mulheres, a manipulação da sua imagem  promove um ideal de perfeição inalcançável. Uma imagem que não corresponde à realidade e que deturpa a imagem que temos de nós mesmas.

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Alicia Keys para Fault Magazine

No entanto, Alicia não é a primeira mulher americana negra a tomar uma posição contra essa cultura.

No ano passado Lupita Nyong’o e Viola Davis, entre outras artistas, fizeram um ensaio fotográfico para a revista Vanity Fair em que posaram completamente desvestidas de maquilhagem.

 

Como mulheres negras e escuras, os seus traços foram imediatamente ridicularizados e as actrizes foram ostracizadas por não estarem “glamurosas” o suficiente.

blog-post-viola-davis-3No seu trabalho em “How To Get Away With Murder/ Como Defender um Assassino”, Viola Davis representa uma sensual advogada negra, com uma carreira de sonho e uma vida abastada e emocionante.
Numa das cenas mais icónicas da série, Viola tira a peruca e a maquilhagem preparando-se para dormir, mostrando essa dualidade que muitas mulheres negras vivem: por um lado são livres e fortes; por outro, são completamente reféns de um padrão de beleza longe da sua verdadeira face que só enfrentam no escuro da sua própria intimidade.

Lupita, por sua vez, escolheu um papel mais discreto às luzes de Hollywwod, para trazer diferentes representações da mulher negra daquelas que estamos cansados de ver.

Para além disso, ambas têm vindo a trazer essa luta para o tapete vermelho, preferindo o cabelo natural e mostrando a versatilidade e beleza que daí pode vir. Um exemplo perfeito é o penteado escolhido por Lupita para a Met Gala, em que a atriz se inspirou na África Ocidental.

Mas infelizmente, o trabalho feito por estas duas é ignorado.

Aparentemente não há espaço no Feminismo Negro para as mulheres escuras. Para mulheres de lábios grossos. Mulheres com carapinha.

O nosso silêncio perante o trabalho destas mulheres evidencia o colorismo que nos orienta, e o racismo aí escondido.

Queremos apenas os traços mais finos: o nariz em bico e lábios discretos. Queremos o cabelo em cachos e a pele mais clara.

Porquê?

Que Feminismo é esse e para quem?

Vivendo de Amor

Em Algum Momento Você Nos Amou?

Quando eu era criança, percebia que fora do contexto da religião e do romance, o amor era visto pelos adultos como um luxo. A luta pela sobrevivência era mais importante do que o amor.

Somente as pessoas mais velhas – nossas avós e bisavós, nossos avôs e bisavôs, nossos padrinhos e madrinhas -pareciam dedicadas a arte e ao ato de amar. Elas nos aceitavam, cuidavam de nós, nos davam atenção e principalmente, afirmavam nossa necessidade de experimentar prazer e felicidade. Eram carinhosas e o demonstravam fisicamente.

Nossos pais e sua geração, que só pensavam em subir na vida, geralmente passavam a impressão de que o amor é uma perda de tempo, um sentimento ou um ato que os impedia de lidar com coisas mais importantes.

Quando eu dava aulas sobre o livro Sula, de Toni Morrison, reparava que minhas alunas se identificavam com um trecho no qual Hannah, uma mulher negra já adulta, pergunta a sua mãe, Eva: “Em algum momento você nos amou?” E Eva responde bruscamente: “Como é que você tem coragem de me fazer essa pergunta? Você não tá aí cheia de saúde? Como não consegue enxergar?” Hannah não se satisfaz com a resposta, pois sabe que a mãe sempre procurou suprir suas necessidades materiais.

Ela está interessada num outro nível de cuidado, de carinho e atenção. E diz para Eva: “Alguma vez você brincou com a gente?” Mais uma vez, Eva responde como se a pergunta fosse totalmente ridícula: Brincar? Ninguém brincava em 1895. Só porque agora as coisas são fáceis, você acha que sempre foram assim? Em 1895 não era nada fácil. Era muito duro. Os negros morriam como moscas… ‘Cê acha que eu ia ficar brincando com crianças? O que é que iam pensar de mim?

A resposta de Eva mostra que a luta pela sobrevivência não significava somente a forma mais importante de carinho, mas estava acima de tudo. Muitos negros ainda pensam assim. Suprir as necessidades materiais é sinônimo de amar. Mas é claro que mesmo quando se possui privilégios materiais, o amor pode estar ausente.

E num contexto de pobreza, quando a luta pela sobrevivência se faz necessária, é possível encontrar espaços para amar e brincar, para se expressar criatividade, para se receber carinho e atenção. Aquele tipo de carinho que alimenta corações, mentes e também estômagos. No nosso processo de resistência coletiva é tão importante atender as necessidades emocionais quanto materiais.

Não é por acaso que o diálogo sobre o amor no livro Sula se dá entre duas mulheres negras, entre mãe e filha. Sua relação simboliza uma herança que será reproduzida em outras gerações. Na verdade Eva não alimenta o crescimento espiritual de Hannah, e Hannah não alimenta o crescimento espiritual de sua filha, Sula.

Mas Eva simboliza um modelo de mulher negra “forte”, de acordo com seu estilo de vida, por sua capacidade de reprimir emoções e garantir sua segurança material. Essa é uma forma prática de se definir nossas necessidades, como naquela canção de Tina Turner: “O que é que o amor tem a ver com isso?”

 
Por: Bell Hooks – Tradução de Maísa Mendonça

(Continua aqui.)