Perdida nas memórias de Conceição Evaristo

Perdida nas memórias de Conceição Evaristo

Becos da memórias” é um labirinto lindo para nos perdermos que se revela tão actual hoje como era quando foi escrito

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O livro é baseado nas suas lembranças da sua infância. Fonte: Itaú Cultural

Conceição Evaristo traz-nos, em “Becos da memória”, as emoções de Maria-Nova durante os anos 70, em Belo Horizonte (Brasil) quando o bairro onde vive passa por um processo de desfavelamento.

De forma envolvente e emocionante, Evaristo descreve cada rua, cada pessoa, cada história que compunham a sua favela. Nas suas mãos os becos esquecidos e ignorados ganham vida. Vidas.

Através das suas palavras, descobrimos que a favela é muito mais que um aglomerado de barracos, mais do que uma mancha na cidade, mas sim, uma cidade no seu próprio direito. Um mundo por si só.

Um mundo em que as pessoas vivem, crescem, choram, riem, procriam, educam, relembram, esquecem, morrem. Enfim! E este mundo é-nos revelado por Maria-Nova, uma jovem adolescente que se desespera ao ver o mundo e as pessoas que tão bem conhece a desaparecerem.

O desfavelamento anunciado para breve evidencia o fim de uma era para todos eles. Para onde iriam? De onde vieram? Que histórias deixariam para trás? Quais levariam com eles?

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“Escrevivência” em Becos da Memória. Fonte: Scielo

Entre a ficção e a biografia, Evaristo usa-se de Maria-Nova para narrar a sua história e dos seus, como tinha prometido ainda menina.

Este foi talvez o que mais me marcou, já que eu também, desde sempre me comprometi com a tarefa de contar histórias. Ouvi-las, registá-las e recontá-las.

Maria-Nova (ou será Conceição Evaristo?) descobre a clandestinidade da sua existência e daqueles que consigo existem naquela favela. Aliás, a própria favela é metaforicamente, a prova dessa clandestinidade, pois surge de forma aparentemente desorganizada e os seus moradores vivem de forma isolada e invisível.

As semelhanças entre favela e senzala vão-se evidenciando e a menina sente que ainda tem de se libertar.

“Maria-Nova olhou novamente a professora e a turma. Era uma história muito grande! Uma história viva que nascia das pessoas, do hoje, do agora. Era diferente de ler aquele texto. Assentou-se e, pela primeira vez, veio-lhe um pensamento: quem sabe escreveria esta história um dia? Quem sabe passaria para o papel o que estava escrito, cravado e gravado no seu corpo, na sua alma, na sua mente” (p. 138).

De nada valia aquela liberdade clandestina. Aquelas vidas na miséria. Aquela fome. Aquela saudade. Era preciso uma liberdade plena, que lhe permitisse crescer e sair daquele lugar. Daqueles lugares: Senzala e Favela.

E é desta forma que Maria-Nova, inspirada nas figuras que dentro daquela favela ainda tinham esperança, decide também encontrar o seu papel na luta pela liberdade: escrever.

A ideia da escrita como resistência, como forma de fazer estas histórias sobreviverem-lhe revela-se à medida que a urgência da mudança se intensifica.

“agora ela [Maria-Nova] já sabia qual seria a sua ferramenta, a escrita. Um dia, ela haveria de narrar, de fazer soar, de soltar as vozes, os murmúrios, os silêncios, o grito abafado que existia, que era de cada um e de todos. Maria-Nova, um dia, escreveria a fala de seu povo (p. 161).

A escrita é a ferramenta escolhida para mostrar que naquele amontoado de barracos, há também sonhos, desejos, amores, paixões, planos que caminham de mãos dadas com a violência e os traumas acumulados nos becos da favela.

Naquilo que a autora chama de “escrevivência”, Evaristo traz a tradição da oralidade para o livro escrito, compilando vivências diversas e relacionando-as a complexa teia que compõe por fim a própria História do Brasil.

Maria-Nova mostra-nos o universo íntimo de Tio Totó, mãe Joana, Maria-Velha, Bondade, Negro Alírio e tantos outros, que representam assim as histórias de afrodescendentes nos diferentes espaços e tempos do Brasil.

É desta forma que Maria-Nova e Conceição Evaristo são a mesma pessoa. Menina, Mulher, Negra, Periférica, Favelada, Brasileira. No fundo, a mesma figura em pontos opostos de uma única ponte: o tempo. Entre elas apenas o sonho. Uma é a proposição, e outra a realização do dever de memória e de escrita. A grande missão contar histórias.

 

 

Macacos me mordam

Macacos me mordam
Sobre macacos, bananas e racismo.
É importante criarmos um diálogo entre as várias experiências de “negritude” e de racismo. Alguém como eu, que sempre cresceu num ambiente maioritariamente negro, vive o racismo de uma forma diferente daquela pessoa que cresce sendo uma minoria.
O próprio conceito de raça altera-se consoante o contexto. Eu em Moçambique não penso em mim como negra, não me vejo como tal diariamente, pois não sou obrigada a isso. Talvez se me sentir discriminada sejam mais provável que seja pelo facto de ser mulher e não pelo meu tom de pele.
O que isto significa é que eu percebo que as minhas reacções não são universais. As minhas emoções não são universais. As coisas que me causam comichão não são universais. Contudo, são e sempre serão válidas.
Não cabe a mais ninguém me dizer que o que eu estou a sentir é pouco ou ridículo. E isto é especialmente importante quando falamos em ofensas.
Como contadora de histórias tenho especial interesse em palavras. Acho fascinante como um conjunto de letras e sons conseguem transmitir tanto! A palavra, seja ela falada ou escrita, é de uma importância inestimável.
Palavras têm poder. Palavras carregam consigo uma História, um Passado. Há mil construções feitas de forma inconsciente que fazem as palavras o que são. Por detrás de cada palavra existe um valor, um legado, que vai para além da intenção de quem a proferiu.
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Ilustração da evolução (racista) retirada do livro Anthropogenie (1874) de Haeckel. Fonte: Sala BioQuímica

Por isso é sempre importante perceber que, ofensas, ainda que não sejam intencionais, não deixam de ser ofensas.

A palavra “macaco” durante muito tempo foi usada para denegrir pessoas negras.
Para validar o tráfico humano e exploração da mão de obra de pessoas negras, cientistas chegaram a validar a ideia de que essas pessoas eram mais primitivas, mais aproximadas aos macacos e por isso, sub-humanas.
Como tal, a palavra “macaco”, especialmente no contexto escravagista (nas Américas), sempre esteve associada a algo sub-humano, para justificar os horrores a que eram submetidas as populações afrodescendentes.
“Ah! Mas isso foi há muito tempo! Já passou!”
É verdade. Foi há muito tempo. Mas não se apagam as dores e traumas de pessoas que durante anos foram – e ainda são – tratadas como inferiores, como uma espécia sub-humana.
Vejamos a experiência de uma pessoa negra a viver na Europa, na Ásia, nas Américas, etc. Até mesmo em África, os imigrantes africanos negros são os que fazem o trabalho mais precário e vivem em piores condições.
Então existe sim, hoje, agora, no tempo Presente, uma experiência de negritude, de racismo e essa experiência Presente não se pode desassociar da experiência Passada.
Não há muito tempo atrás, o jogador brasileiro Dani Alves foi alvo de um ataque racista em campo, em Espanha, quando lançaram uma banana para ele.
A banana foi uma clara referência a essa mesma ideia em como as pessoas negras são uma sub-espécie humana, mais parecida com macacos. O ataque teve tanta repercussão que vários jogadores e celebridades formaram um movimento (#SomosTodosMacacos), comendo bananas e tirando fotos em solidariedade ao jogador.
Racismo no futebol continua. Fonte: Terra
Se for preciso ir ainda mais atrás na História, falemos dos Zoológicos Humanos em que pessoas negras eram expostas como animais.
Foi há cerca de 60 anos. Há fotos por aí. Crianças, Mulheres, Homens, negros de todas as idades, com os seus corpos, as suas línguas, as suas roupas, o seu estilo de vida em exibição por serem considerado selvagens.
E essa exotificação das vidas negras não parou por aí. As pessoas negras eram usadas para experiências médicas e atracções de circos.
Mas muito disso foi apagado dos livros de História. E nós não falamos disso porque custa. Dói. É difícil. E como tal, fingimos que os acontecimentos não estão relacionados entre si.
Portanto, não me surpreende que muitos de nós, negros, se ofendam com uma certa recente campanha de uma certa marca. Também não me surpreende que muitos de nós, negros, não se ofendam com uma certa recente campanha de uma certa marca.
Mas, porra! Macacos me mordam, que algo está errado, isso está!

Afro-ismos e outras cenas

Afro-ismos e outras cenas

O “Negro” e o “Africano” são criações da ocupação europeia.

Antes dos colonizadores europeus chegarem a África não havia negros. Os negros apareceram como categoria para se distinguir o branco europeu.

O continente Africano existia como uma pluralidade de culturas e nações e não um bloco homogéneo. Havia muita produção científica e economias robustas.

Também havia conflitos, forças que queriam alargar o seu poder, saqueios, perseguições e assassinatos.

Mas não havia negros.

Esses apareceram pela necessidade de criar um sistema de domínio económico, político e mais tarde social, de imposição de uma cultura em outra.

Para tal, o uso da violência foi imprescindível e a justificação para tal foi precisamente essa dicotomia: branco vs. negro; civilizado vs. selvagem.

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Achille Mbembe e o que herdamos do Colonialismo e do Imperialismo Ocidentais. Fonte: Comunidade Cultura & Arte

E por isso, sentimos a necessidade de reforçar a nossa identidade, de fazer deste “não-espaço” um lugar confortável, seguro.

Nesse processo de auto-afirmação, acabamos por reforçar essas categorias que na verdade nunca nos pertenceram.

Longe de ser espontânea, esta crença [na raça] foi cultivada, alimentada, reproduzida e disseminada através de um conjunto de dispositivos teológicos, culturais, políticos, económicos e institucionais, dos quais a história e a teoria crítica da raça acompanharam a evolução e as consequências ao longo dos séculos.” – Achille Mbembe

 

Até hoje deixamos esta crença na raça dominar a nossa cultura. Embora já não seja algo institucionalizado, como era por exemplo o colonialismo ou o apartheid, há resquícios disso no nosso dia-a-dia.

Para além da religião e das nossas colonialices de estimação, notamos até nas coisas mais pequenas.

Vamos ao mercado, e chamamos o inhame de “batata africana”. Enquanto a batata sul americana, que nos chegou através dos europeus e asiáticos é simplesmente “batata”.

A pessoa quando fala em Medicina Africana, diz “Medicina Tradicional”, mas trata a Medicina Ocidental/ Moderna somente por “Medicina”.

O mesmo certamente se aplica em mil e outros casos! Por defeito, tratamo-nos como se fôssemos os “outros”, pois enquanto o branco europeu olha para si apenas como uma pessoa, nós aprendemos a olhar para nós como africanos.

Não somos somente “chiques”, como “afrochiques”.

“Afro-empreendedores”

“Afro-fashion”

“Afro-cosmopolitas”

“Afro-descendentes”

“Afro-qualquer coisa”

Enfim… E por falar em “Afro”, por que o meu cabelo quando está solto é “Afro”? Existe cabelo “Euro”?

É como se o meu cabelo não pudesse ser simplesmente “cabelo”!

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Empoderamento não é sobre o tamanho do seu black power. Fonte: Geledés

Na sua TED Talk, Edgar Cubaliwa tocou num ponto importante quanto a este assunto: Por que é que quando vamos a um sítio bonito aqui no nosso país, dizemos “Nem parece Moçambique”?

A nossa auto-imagem é tal que não nos achamos merecedores de locais paradisíacos. Aqui no nosso país só pode haver pobreza, guerra, miséria.

África não pode ter coisas boas. Os africanos negros complexos, com ideias progressistas ou simplesmente diferentes “querem ser brancos”.

Parece-nos difícil olhar para quem somos e reconhecer diversidade, inteligência, riqueza. Não conseguimos ver valor, unicidade nas nossas coisas.

E o motivo é provavelmente o facto de estarmos a olhar para o mundo através de determinadas lentes.

Esse é o nosso desafio: tirar as lentes e sair desse “não-espaço”.

Criemos as nossas visões. Os nossos modelos. As nossas próprias batatas e cabelos.

 

 

Tio António Quando Trabalhava

Tio António Quando Trabalhava

Tio Antônio quando travalhaba
Nas obras numa plantação
Que pertenciam a um colono
Tio Antônio era contratado

Sob um sol ardente do Mocaba
Ele apanhou um pau nas costas
Um capataz pretendia
Que ele era demasiado lento

Tio Antônio era contratado/ Antônio kumbe kumbala

Antônio wayenda ku Zombo
Ngwa nkazi wayenda mu n’tonga
Elumbu kesinga vutuka/ Festa na aldeia

Esta música angolana, narra a triste história do Tio António, um camponês que durante o tempo colonial trabalha arduamente todos os dias e é abusado pelo capataz pois supostamente é muito preguiçoso.

[A sua família fica para trás, aguardando ansiosamente o seu regresso para fazer uma grande festa na aldeia.]

Tio Antônio quando trabalhava
Nas obras numa plantação
Que pertencia a um colono
Tio Antônio era contratado

Por ter recusado
Foi deportado
Deportado longe de sua terra
Tio Antônio
Tinha deixado
A família em sua terra

Actualmente têm circulado imagens de viajantes africanos a serem vendidos publicamente algures na Líbia. A comoção é geral, e é de se louvar. Os gritos destas pessoas – sim, PESSOAS – que foram raptadas, exploradas, manipuladas ao ponto de serem vendidas como objectos, foram ouvidos.

Então, ouçamos esses gritos. O que nos dizem? De onde vêm? Como é que esses gritos surgiram e se multiplicaram até chegarem aos nossos ouvidos?

Para quem acredita em tudo o que lê nos livros de História, os gritos surgiram subitamente, pois a escravatura terminou há séculos atrás. Para quem achava que o tráfico de seres humanos era um problema pequeno, os gritos mostraram que é um problema gigante. Para quem defendia que hoje em dia, no séc. XXI, todos os seres humanos são tratados com a mesma dignidade, os gritos colocaram em evidência a realidade falsa.

Os gritos e lágrimas que nos chegam hoje, vêm de pessoas e lugares que nunca deixaram de existir: mercados de pessoas; traficantes de pessoas; exploradores… Onde miséria, pobreza e ilegalidade caminham de mãos dadas, e as linhas da criminalidade se confundem.

Não é só na Líbia.

Tio Antônio foi empregado
Em Madeira, São Tomé, Cabo Verde
No dia do seu regresso
No dia do seu regresso, Festa na aldeia!

[Mais tarde, Tio António revolta-se e é deportado e assim viaja pelas plantações da Madeira, São Tomé e Cabo Verde.]

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Centenas de migrantes africanos estão a ser vendidos na Líbia. Fonte: Al Jazeera

 

Esses gritos existem também nas nossas casas.

A necessidade da escravatura está tão presente hoje como estava no séc. XVIII, quando começou o movimento abolicionista, pois vivemos numa sociedade capitalista em que queremos adquirir o numero máximo de produtos e serviços pelo preço mais baixo e produzir tudo isso com mais lucro possível.

Tem de haver uma mudança no nosso consumo para que possamos de facto abolir a escravatura. Estaremos prontos para isso?

Queremos prazer ao máximo, consumo ao máximo, o melhor estilo de vida, o melhor conforto e tudo isso da forma mais barata possível. É por isso que durante as campanhas “Black Friday” invadimos lojas de marca como a Zara e Bershka como vândalos.

Em 2013, no Bangladesh mais de 100 pessoas morreram quando duas fábricas ficaram arruinadas. Nessas fábricas os “trabalhadores” faziam roupas para essas mesmas marcas em condições deploráveis.

No Brasil, essas mesmas marcas subcontractam empresas que contratam funcionários menores de idade que trabalham em turnos de 16h diárias.

Sim, porque para que essas marcas possam fazer as roupas que nós tanto gostamos – e descartamos sazonalmente – é necessário que haja pessoas a trabalhar como escravas.

A ganância e egoísmo que nos rege hoje é um dos mais importantes factores que impulsiona o trabalho escravo e o tráfico de humanos.

O nosso erro é nos calarmos face a estes abusos. O nosso erro é não procurarmos saber de onde vêm os produtos e serviços que consumimos (ou aspiramos consumir) . O nosso erro é não querermos saber qual o prejuízo humano para cada item que temos na nossa casa.

Se realmente queremos acabar com o trabalho escravo, temos de começar por reconhecer a nossa cumplicidade.

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Como nós nos tornamos parte do problema da escravidão moderna. Fonte: Insight & Opinion

Nas nossas próprias casas, nos nossos locais de trabalho, nos nossos bairros, quantas pessoas vivem em situação de escravidão? Quão permitidos somos com essas situações?

Comecemos pelas nossas empregadas domésticas, que dignidade lhes conferimos? As crianças a quem compramos amendoins na rua, que direitos têm garantidos? Os guardas/ seguranças, em que condições trabalham?

Comecemos por aí.

Não é uma questão de culpa ou vergonha, mas sim de responsabilidade. Temos de assumir o poder que está nas nossas mãos para mudar alguma coisa.

Em vez de culparmos os governos e grandes corporações; em vez de exigirmos melhor legislação, melhor controle de fronteiras, trabalhemos este espaço que ocupamos agora.

A nossa indiferença faz-me pensar no Tio António, cuja história deu uma boa música para as nossas festas.

Embora a música seja animada, narra vivências reais de muita dor e sofrimento. Não podemos deixar que isso continue a acontecer no séc. XXI.

Não podemos dançar ao som dos gritos dos escravizados.

Antônio wayenda ku Zombo
Ngwa nkazi wayenda mu n’tonga
Elumbu kesinga vutuka/ Festa na aldea

Bu ukuenda ku Zombo tata Antônio/ Antônio kumbe kumbalala
Buku toma siminina/ Antônio…
Kuikila mfumu Yisu/ Antônio…
Elumbu kesinga vutuka/ Festa na aldea

O que aconteceu Lumumba?

O que aconteceu Lumumba?

O filme “Lumumba, a morte de um Profeta” de Raoul Peck descreve os acontecimentos em torno da ascensão, declínio e assassinato do Primeiro Ministro democraticamente eleito no Congo.

Com o intuito nem de criar uma imagem idealista e heróica de Lumumba e nem de o crucificar, ou de crucificar as pessoas que permitiram que o seu assassinato acontecesse, o realizador haitiano Raoul Peck criou um filme histórico e comovente sobre a pessoa que foi Lumumba.

Patrice Lumumba lutou por um Congo unido. Para ele, não havia liberdade com divisões tribais ou territoriais e essa era uma das grandes discussões para os partidos da altura.

No filme, Peck consegue contextualizar todos os acontecimentos desde a luta de libertação travada pelo Congo, as figuras políticas que o protagonizaram e os resultados conseguidos.

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R. Peck viveu em exílio no Congo e viveu a morte de Lumumba de perto. Fonte: The Culture Trip

Com apenas 12 semanas no poder, Lumumba foi assassinado.

O filme começa com dois homens brancos a carregar cadáveres, a beberem algum licor barato pelo gargalo e posteriormente a equartejarem os corpos sem vida.

Já mais para o fim, vemos esses corpos a arderem. Os restos mortais de Patrice Lumumba até hoje não foram encontrados.

Patrice Lumumba foi um dos fundadores do Movimento Nacional Congolês, o primeiro partido político nativo do Congo em 1958. E desde esse primeiro momento, aliou-se a vários líderes Pan-Africanistas, o que moldou muito a sua visão e ideais nacionalistas.

Por essa altura, outros partidos com ideais variados surgiram no Congo, no entanto nenhum líder era tão carismático, perspicaz e radical como Lumumba.

Na defesa da independência do Congo, ele foi preso e torturado, libertado apenas para participar da conferência em Bruxelas onde se preparou a transição política do Congo. E assim foi, as eleições foram em Maio de 1960, em que o partido de Lumumba saiu como grande vencedor, no entanto não conseguiu formar uma coalizão no Parlamento.

O seu rival, Joseph Kasavubu, ficou então como Presidente e convidou-lhe a ficar como Primeiro-Ministro.

Os dois são completamente diferentes: enquanto Kasavubu é calmo, e tenta manter a relação com a Bélgica pacífica e cordial, Lumumba é impulsivo, orgulhoso e revolucionário.

Uma das cenas em que estas diferenças melhor se manifestam é durante a tomada de posse, em que a Bélgica entrega o poder aos Congoleses, com um discurso condescendente e paternalista, mesmo depois de todas as atrocidades cometidas.

Kasavubu, como Presidente, agradece a bondade e liderança da Bélgica durante os anos de ocupação, e promete não decepcionar enquanto Lumumba, logo a seguir, movido pela raiva e dor do povo congolês, relembra a Bélgica de todo o sangue derramado pela independência e reafirma-se como um líder

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O filme capta alguns raros momentos de glória de Lumumba. Fonte: NY Times

Com um território de cerca de 2 345 000 km2 e mais de 80 milhões pessoas, o Congo é um país com diversos grupos étnicos distintos. Esta diversidade sempre foi usada pela Bélgica para separar o povo congolês.

De tal forma que, após independência os principais rivais de Patrice Lumumba e os respectivos partidos criaram várias manifestações e distúrbios para defenderem a libertação de vários territórios tidos como de uma única etnia.

Após a independência o Congo entra em crise.

Moise Tshombe, da etnia Lunda, liderou um movimento separatista com o apoio da Bélgica, chegando a declarar a independência da província de Katanga a 11 de Julho de 1960. Esta província é rica em cobre, urânio e diamantes, entre outros recursos.

Peck mostra-nos como esta crise afecta Lumumba. Ele fica cada vez mais ansioso, dorme pouco, mexe-se muito. Sem apoio dos E.U.A. nem das Nações Unidas, ele recorre à União Soviética para controlar a crise, sem o consentimento do Presidente Kasavubu nem de Joseph Mobutu, Secretário de Estado.

Lumumba fica isolado.

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Lumumba foi capturado e assassinado com o apoio da Bélgica, Reino Unido e EUA. Fonte: BBC

Raoul Peck consegue contar todos estes factos históricos de uma forma envolvente e emotiva.

 

Fica claro que não foi apenas a promiscuidade entre o poder militar e a Bélgica e outras potências ocidentais mas também a própria indisciplina do Exército e o contexto da Guerra Fria, combinados com o temperamento de Patrice Lumumba e sua ingenuidade que culminaram no seu afastamento.

O filme não é apenas sobre o caos e sobre a guerra, é também sobre as forças maiores que qualquer homem e qualquer ideal que ele possa defender: é sobre um pai que não consegue estar lá quando o seu filho ainda bebé morre, sobre um esposo que não está presente quando a mulher precisa.

Patrice Lumumba teve a coragem de se posicionar contra a condescendência ocidental. Ele ousou defender a causa Africana, mesmo sobre o risco de morrer – e morreu. A sua vida foi o seu maior sacrifício.

Morreu herói sim, mas a sua ausência causou prejuízos inestimáveis ao Congo que se fazem sentir até hoje.

 

 

Por que precisamos de falar de Leopoldo II?

Por que precisamos de falar de Leopoldo II?

Leopold_ii_garter_knightFoi a 19 de Setembro de 1903 que o rei Leopoldo II da Bélgica negou as acusações de brutalidade no Estado Livre do Congo e avisou os restantes países europeus para não interferirem no seu projecto.

Aquando da Conferência de Berlim, em 1884/85, o rei fez questão de segurar “o coração de África”. Este era um projecto pessoal e não da coroa belga, como se de um animal de estimação se tratasse.

Com 2 344 milhões de km2, a área do Estado Livre do Congo era 76 vezes maior que a Bélgica. Na altura os estimados 30 milhões de habitantes da região passaram a responder ao rei Leopoldo II, sem nunca sequer ter ouvido falar dele, como aconteceu com grandes nações africanas.

Sem uma constituição nem supervisão internacional, o rei conseguiu domínio sobre o território. Conseguiu fazê-lo por um lado através de jogos de poder, aproveitando os egos frágeis dos outros monarcas europeus. E por outro, usando o discurso paternalista e missionário, afirmando que o Congo era na verdade um Protectorado seu, que vivia sobre a ameaça de invasão árabe.

Na verdade o Congo era domínio seu, pessoal, rico em matéria prima valiosa como borracha e marfim, entre outros recursos naturais, que lhe permitiram acumular bastante riqueza e alimentar os seus vícios fartos.

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Por mais de 20 anos o rei Leopoldo causou danos anos no Congo que ecoam até hoje. Fonte: The Espresso Stalinist

Para cada região quem não cumprisse com as exigências do rei era penalizado severamente. As mãos e em algumas circunstâncias os pés dos filhos e mulheres dos homens que não conseguiam atingir as ambiciosas metas de extracção de borracha era cortados.

Este era o castigo mais comuns no Estado Livre do Congo, de tal forma que, as mãos passaram a ser usados como verdadeira moeda. Nas vilas em que a meta não era alcançada, os seus habitantes sacrificavam as mãos das famílias que menos contribuíam.

Guerras e assaltos a vilas vizinhas passaram a ser comuns, fosse para roubar a matéria prima, ou cortar os membros dos seus habitantes para pagar o prejuízo.

Sobre o domínio do rei Leopoldo II, estima-se que o Congo tenha tido a sua população reduzida à metade. Isto deveu-se sobretudo devido a guerras múltiplas; fome; redução da taxa de natalidade e epidemias.

A administração imperialista do rei belga criou mudanças drásticas na forma de viver do povo nativo, trazendo novas doenças; forçando movimentos migratórios; alterando a demografia das vilas e claro, deixando rastos de trauma.

Isto para não mencionar, claro, as situações precárias e brutais a que eram subjugadas as populações. Estas eram obrigadas a vender, a um preço fixo, aquilo que conseguiam e trabalhavam nas minas em tempo integral, como escravos, não recebendo nada por isso.

Adicionalmente eram também obrigados a fornecer comida aos seus colonos e eram proibidos de vender qualquer produto.

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O terror e violência eram usados para dominar os habitantes do Congo. Fonte: NY Times

John Harris de Baringa, um missionário em visita ao Congo ficou tão chocado pelo que viu que escreveu uma carta ao Comissário Residente:

“I have just returned from a journey inland to the village of Insongo Mboyo. The abject misery and utter abandon is positively indescribable. I was so moved, Your Excellency, by the people’s stories that I took the liberty of promising them that in future you will only kill them for crimes they commit./ Acabo de regressar de uma viagem pelo interior do país para a vila Insongo Mboyo. A miséria e o abandono total são indiscritíveis. Fiquei tão comovido pelas histórias do povo, Sua Excelência, que tomei a liberdade de promoter-lhes que no futuro haverá mortes somente por crimes que eles cometerem.”

No início do séc. XX, face à pressão externa, o rei Leopoldo II vendeu o Estado Livre do Congo à Bélgica e queimou grande parte do acervo histórico referente ao seu Protectorado.

Nem mesmo no Museu de África, construído pelo rei na Bélgica tem vestígios dos massacres e atrocidades cometidos no Estado Livre do Congo. Ainda prevalece o discurso condescendente dos tempos de glória do colonialismo europeu.

E a República Democrática do Congo, berço de Patrice Lumumba, continua assombrada pelos fantasmas daqueles que sofreram nas mãos do rei belga e tal como outros genocídios em África, este permanece ausente dos livros de História.

 

Yaa Gyasi pelo Povo Negro

Yaa Gyasi pelo Povo Negro

O livro “Homegoing” de Yaa Gyasi é um manifesto gritante pela vivência, coragem e preserverança do povo negro.

Não sei exactamente se podemos falar de um “povo negro”, mas o livro de Yaa Gyasi faz um argumento bem interessante sobre essa experiência de trauma, conflito e esperança partilhada que as pessoas negras de todo o mundo têm entre si.

Há livros que terminamos de ler e olhamos para o tecto, com o coração cheio e a certeza que levará muito tempo até lermos um livro tão bom novamente. Homegoing é tudo isso e muito mais!

O livro atravessa séculos e continentes seguindo sete gerações da mesma família.

Tudo começa com duas irmãs, separadas por um grande incêndio e criadas por comunidades distintas – uma pelos Fante e outra pelos Asante – que desconhecem a existência uma da outra e seguem as suas vidas separadas.

Effia casa-se com um oficial britânico, que vive do comércio de africanos escravizados no Castelo da Costa do Cabo e, Esi que é capturada e levada para a masmorra desse mesmo castelo e eventualmente traficada para os Estados Unidos da América, onde é escravizada.

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O livro segue os sonhos e pesadelos das suas irmãs. Fonte: The New York Times

A narrativa segue por ordem cronológica os encontros e desencontros das ramificações dessa família. O fogo, uma presença constante ao longo da história, representa todos os traumas, sacrifícios, dores e alegrias que atravessam os descendentes das duas irmãs.

Em cada capítulo conhecemos um novo rosto, numa nova época, e com isso as mudanças sociais, económicas e culturais tanto no Gana como nos Estados Unidos da América: a escravatura; o colonialismo; o racismo; etc.

“The family is like the forest: if you are outside it is dense; if you are inside you see that each tree has its own position./ A família é como uma floresta: se você está do lado de fore é densa; se você está do lado de dentro, você vê cada árvore na sua própria posição”

A história força-nos a olhar para nós mesmos e para o nosso papel na teia de relações em que estamos inseridos, tanto no tempo como no espaço.

Que segredos e traumas carregamos no nosso DNA? O que teria sido de mim se fosse eu nesse lugar?

Pelo olhar dos personagens, fica evidente como o legado da escravatura e do colonialismo, ditam o decorrer da vida, tanto do lado dos que foram para as Américas, como para aqueles que ficaram em África.

Primeiro as guerras tribais no Gana pré-colonial, no séc. XVIII, os horrores da ocupação britânica e do comércio de africanos escravizados; a promiscuidade entre os líderes ganenses e os britânicos no tráfico de humanos para alimentar a escravatura até à libertação do Gana.

Depois, o sofrimento e dor desses africanos traficados nos Estados Unidos da América, longe daquilo que és é familiar e despidos de toda a dignidade. A fuga, o medo e as perseguições nos anos pré e pós Guerra Civil Americana. O racismo e todos os riscos aliados à vida nos subúrbios das grandes cidades.

Tudo isto tendo o povo negro no centro de todos estes acontecimentos.

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No Castelo da Costa do Cabo de onde partiam os africanos, no Ghana, ainda ecoam as suas vozes. Fonte: The Guardian

Não há dúvidas que a obra envolveu um trabalho árduo de investigação, mas mais do que isso, que obrigou a autora, de origem ganesa, a confrontar-se com os seus próprios fogos, a sua própria origem.

Yaa Gyasi consegue guiar-nos nessa viagem de forma confortável, com as descrições fiéis ao mínimo detalhe, levando-nos à África Ocidental do séc. XVII, ao Sul dos E.U.A. no séc XIV e ao bairro de Harlem no séc. XX, terminando novamente no Gana, mas desta vez no séc. XXI.

“Every moment has a precedent and comes from this other moment, that comes from this other moment, that comes from this other moment./ Cada momento tem um precedente que vem de um outro momento, que vem de um outro momento, que vem de um outro momento.” – Yaa Gyasi

É de aplaudir a ambição de Yaa Gyasi, em re-imaginar os processos históricos e as escolhas de cada indivíduo, de cada árvore, que por sua vez, desencadeia outras reacções e como essas escolhas influenciam toda a comunidade, toda a floresta.

Ela junta-se a Chimamanda Adichie e a outras autoras africanas contemporâneas que fazem uso da História, da tradição oral africana e das vivências reais de pessoas negras para dar protagonismo a estas figuras.

A riqueza, cor e textura das suas palavras tornam esta saga familiar numa experiência universal, de busca por auto-conhecimento, por respostas e sobretudo, por origens. Só podemos evoluir, como indivíduos e como comunidade, se soubermos de onde viemos.