Odiar para governar

O ódio como força poderosa de união e governação.

Entre africanos quando nos encontramos é comum competirmos sobre quem tem o pior Presidente. É uma espécie de Jogos Olímpicos espontâneos, bem divertidos, que ocorre sempre que discutimos política.

Oh! O nosso Presidente está no poder há mais de duas décadas!

Mas o nosso tem familiares metidos em todos os negócios

O nosso Presidente é dono de metade do território.

O nosso é o pior, ele demitiu todo o seu gabinete.

E por aí vai.

Nós conversamos sobre a incompetência dos nossos governos e rimos do futuro catastrófico dos nossos países. De certa forma, a natureza dessas conversas está no centro daquilo que é ser africano.

Nós gostamos disso. Gostamos desses momentos descontraídos em que falamos sem culpa ou julgamento das coisas que nos inquietam sobre os nossos governos.

Essas semelhanças tornam as nossas dores menos difíceis. Sossega-nos saber que há alguém tão mal ou quiçá até pior que nós.

Todos nós adoramos odiar, especialmente em grupo. Odiamos mais e melhor quando estamos juntos. As pessoas se unem nos seus ódios partilhados o tempo todo. Quando encontramos pessoas que odeiam ou não gostam das mesmas coisas que nós, nos tornamos amigos instantaneamente.

Por isso não me surpreende que Donald Trump tenha vencido as eleições nos Estados Unidos da América.

Vejamos, ele odeia muitas coisas e fala abertamente sobre isso. Esse diálogo permitiu que outros semelhantes a ele o pudessem eleger. Sim, o ódio venceu. Prevaleceu a força do preconceito e discriminação.

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Robert Mugabe, o presidente do Zimbabwe, é provavelmente o presidente odiado com mais amor.

Na verdade o ódio é uma força com muito poder.

Não há como negar o poder de sentimentos como a raiva e o medo, que estão na raiz daquilo que é o ódio. Essa necessidade de ter o “outro” distante; de ver bem longe tudo o que é diferente; de afastar do nosso reflexo esse contraste está muito enraizado na nossa cultura.

É normal odiar em conjunto. Seja para fazer piadas com a opressão dos outros (piadas homofóbicas; racistas; machistas; etc) ou mesmo para reforçar a nossa posição social, usamos sempre esse afastamento do “outro”.

Mas nós só vemos problemas quando isso aparece de forma oficial, ou seja, quando existe uma liderança declaradamente preconceituosa.

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No início do ano foi a vez dos britânicos mostrarem a sua verdadeira face. O voto “sim” ao Brexit provou que as portas vão se fechar para todos aqueles que não se enquadrarem no perfil ideal de “Britânico”.

Logo após o resultado do referendo, muitas minorias, imigrantes e afins foram alvos de ataques no Reino Unido. E o mesmo aconteceu nos EUA.

O validar do ódio abre espaço para as pessoas para manifestarem todo o seu preconceito e aplicarem violência sobre os grupos que querem afastar.

Aos poucos o Ocidente vai perdendo legitimidade para falar mal da decadência das democracias africanas. Na verdade tal decadência é resultado de séculos de privação cultural e intelectual e de processos de libertação mal paridos.

A onda de ódio e preconceito que marca a decadência das democracias ocidentais é fruto da ignorância e da crescente insegurança económica e social em que vivem muitas pessoas nessas sociedades, apesar da ilusão da vida confortável do “Primeiro Mundo”.

Novos tempos se apresentam perante nós.Seremos governados pelo ódio e pelo medo.

Agora os britânicos, os norte-americanos e demais, se unirão a nós, africanos, quando falarmos sobre as nossas democracias falidas e rirmos dos nossos Presidentes.

Virão para as nossas terras se “expatriar” e viver de regalias, mesmo defendendo a segurança das suas fronteiras.

 

One thought on “Odiar para governar

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