O escritor Ngūgī Wa Thiong’o desperta como um guerreiro na defesa da Literatura Africana.

Foi em 1959 que o jovem queniano Ngūgī wa Thiong’o, então James Thiong’o, entrou na Universidade Makerere no Uganda para adquirir o Bacharelato em Língua Inglesa.

Na altura tanto o Quénia como o Uganda faziam parte do Império Britânico. James era apenas mais um jovem africano cheio de sonhos, apaixonado por histórias, devorador de livros, ansioso para conquistar o seu espaço no mundo.

É este percurso pela Universidade Makerere e a sua descoberta – ou melhor, revelação- como escritor que nos é contada na primeira pessoa no livro “Birth of a Dream Weaver – A Writer’s Awakening” (algo como “O Nascimento de um Tecedor de Sonhos – O despertar de um escritor”).

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O escritor queniano há anos aguarda o prémio Nobel

Para além das imagens do Uganda e da vida académica nos anos 60 na Universidade de Makerere, Thiong’o oferece também uma descrição da sua transformação intelectual à medida que Uganda, Quénia e o resto da região atravessam mudanças políticas.

Estas duas transformações acontecem em simultâneo: como escritor, Thiong’o vai ganhando mais consciência da sua voz e da Verdade que pretende expor através do seu trabalho e ao mesmo tempo, há o movimento pan-africanista e as guerras de libertação um pouco por todo o continente.

É neste período que Thiong’o se estabelece como escritor e dramaturgo. Ao sair da Universidade em 1963, com apenas 25 anos de idade, já tinha um romance publicado, outro já acordado com a Editora e uma peça teatral exibida com sucesso.

De regresso ao Quénia, Thiong’o esteve envolvido na mudança do “Departamento de Língua Inglesa” na Universidade de Nairobi para “Departamento de Literatura”, colocando assim a Literatura Africana numa posição central.

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Thiong’o abandonou o nome “James” para reafirmar-se como Africano. Fonte: Geledés

Na qualidade de dramaturgo, académico e escritor sempre foi muito crítico das sociedades africanas pós-coloniais e especialmente do Quénia. Por esse motivo Thiong’o foi perseguido e enviado para uma cadeia de segurança máxima, onde decide abandonar o Inglês como sua língua criativa e passa a escrever em Gikuyu, a sua língua materna, a língua do seu povo.

E foi na prisão que escreveu em papel higiénico o seu primeiro livro em Gikuyu, “Caitani Mutharabaini” (Devil on the Cross) em 1981. O seu segundo romance em Gikuyu “Matigari” foi publicado em 1986.

O então presidente queniano, Daniel Moi emitiu um mandado de prisão para a personagem principal, pensando que se tratava de uma história real. Apercebendo-se do ridículo, proíbe então a venda e distribuição do livro em todo o país.

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O autor viveu em exílio por 20 anos. Fonte: Ngugi Wa Thiong’o website

Thiong’o descobre o poder de contar a sua Verdade na sua língua materna, o Gikuyu.

Segundo o autor, só poderemos falar numa autêntica Literatura Africana quando deixarmos de usar línguas coloniais para contar as nossas histórias. Os escritores africanos encontrarão a sua voz, a sua verdade ao falarem a sua língua nativa.

Para ele este é um dos pontos centrais para uma verdadeira descolonização de África.

 

O regime colonial passou por impor o uso da língua do colonizador ao colonizado e chegou até a proibir o uso das línguas nativas dos colonizados. Este processo fez parte da opressão sistemática a que eram expostas as sociedades que foram invadidas e colonizadas pelos projectos Imperialistas Europeus. O processo englobava ainda restrições psicológicas, físicas e culturais que impediram a evolução e desenvolvimento de uma consciência nesses povos.

Nesse sentido, a África pós-colonial deveria usar a língua como arma para a reafirmação da identidade dos povos livres. Contudo, pelo contrário, no contexto pós-colonial usou-se da língua do colonizado como ferramenta para criar uma nova identidade, deixando para trás a original.

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Thiong’o considera-se um contador de histórias. Fonte: Los Angeles Review of Books

Para o queniano a língua é um direito humano, e como tal não existem línguas melhores que outras. Deste modo, todos os povos têm direito a usar a sua língua, seja para conteúdo oral, como escrito: em livros, na academia e em todas as esferas sociais.

“Language as communication and as culture are then products of each other. Communication creates culture: culture is a means of communication. Language carries culture, and culture carries, particularly through orature and literature, the entire body of values by which we come to perceive ourselves and our place in the world. / Língua como comunicação e como cultura são produtos um do outro. A comunicação cria cultura: cultura é um meio para comunicação. A língua transporta a cultura e a cultura transport, particularmente através da oralidade e da literatura, todo o corpo de valores através dos quais nós nos entendemos e o nosso espaço no mundo.”

 

Desde 1959, quando entrou na Universidade Makerere como um jovem africano colonizado a 1964, quando se graduou como cidadão queniano livre, Thiong’o defendeu sempre a pertinência da Verdade africana para Africanos.

De James para Ngūgī, o seu nascimento e crescimento como artista foi profundamente marcado pela crescente consciência do seu papel como criador de Literatura Africana.

 

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