A Cleópatra do Uganda

A Cleópatra do Uganda

A coragem e vida da activista LGBT ugandesa Cleópatra inspiraram o filme “The Pearl of Africa/ A Pérola de África”

Quando o sueco Johnny Van Wallström começou a procurar material para o seu novo projecto, focou-se inicialmente num casal de dois homens homossexuais do Uganda. No entanto, com o tempo, um deles desistiu por se sentir culpado sabendo da vergonha e perseguição por que passariam os seus amigos e familiares.

Foi assim que o realizador do filme “The Pearl of Africa/ A Pérola de África”, acabou fazendo um documentário sobre Cleópatra, a activista e mulher transsexual que ele acompanha durante os meses que precedem a sua operação para mudança de sexo.

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O documentário surgiu primeiro como minissérie. Fonte: Abstract Friday

O documentário mostra Cleo e o seu namorado Nelson, um homem cis também ugandês e a sua jornada pela descoberta da sua ‘transexualidade’.

Ela reconta a sua infância e como sempre foi um menino afeminado e não se revia em nenhum dos padrões binários prescritos pela sociedade. De uma família grande, 12 irmãos, ela confessa que nunca se sentiu só, apenas se sentia diferente.

Diferente por não se rever em revistas, artistas, na TV ou na rádio. Diferente por sentir uma certa desconexão com o seu corpo. Diferente por não ter com quem partilhar as suas inquietações e sobretudo diferente porque era isso que ela era, diferente.

Na faculdade é que encontrou um nome para se descrever, nome esse que ela confessa não ter certeza se a representa: transexual. E foi assim que ela começou a investigar mais e a conversar com pessoas como ela, primeiro online e depois pessoalmente.

Nelson, o seu namorado, é um adorável rapaz heterossexual que também, através de Cleo, descobriu um pouco mais sobre si, sobre sexualidade e certamente sobre o amor.

Entre brincadeiras, dedos entrelaçados e sorrisos tímidos, é evidente o carinho que ambos têm um pelo outro. No documentário ambos falam das repercussões de assumirem publicamente o seu relacionamento: os comentários dos amigos; o afastamento da família; o julgamento de toda a sociedade.

Como assim uma mulher trans é merecedora de amor? Como assim um homem cis, que poderia ter “qualquer mulher” escolhe uma “menos mulher”? Como assim um homem cis e uma mulher trans de mãos dadas na rua?

Wallström faz-nos questionar tudo isto. Ele subtilmente, aponta a câmara para nós mesmos e confronta-nos com os nossos próprios medos e preconceitos; as nossas vergonhas e os desconfortos.

Há momentos no filme desconfortáveis. Momentos em que Cleo não quer ser filmada. Momentos em que Nelson não quer estar ali. Momentos em que nós queremos sair. Mas todos eles são importantes para sabermos como é a vida da Cleo.

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A activista mantém-se optimista sobre o futuro. Fonte: Huck Magazine

Como mulher trans Cleo é constantemente questionada sobre a sua feminilidade, como se estivesse sempre em fase de teste. Ao viajar, os seus documentos mostram ainda o género masculino e o seu nome dado à nascença, e ambos dados já não correspondem à actualidade.

Apresenta-se assim um problema maior: o Estado.

No Uganda, país onde Cleo nasceu e viver grande parte da sua vida, foi recentemente aprovada uma lei que proíbe e pune severamente quem pratica, protege ou incentiva relacionamentos homoafetivos. É proibido.

O casal vive no Quênia, onde gozam de maior protecção, mas mesmo assim ainda há muita ignorância e preconceito.

Cleo é africana e quer viver em África e permanecer em África a lutar pelos direitos LGBT.

Mais do que um documentário sobre a sua vida, o documentário “Pérola de África” é uma reflexão sobre a vivência da transexualidade numa África onde o ódio está na Lei e sobre as possibilidades de amor mesmo nesse contexto.

Despertar com Ngūgī Wa Thiong’o

Despertar com Ngūgī Wa Thiong’o

O escritor Ngūgī Wa Thiong’o desperta como um guerreiro na defesa da Literatura Africana.

Foi em 1959 que o jovem queniano Ngūgī wa Thiong’o, então James Thiong’o, entrou na Universidade Makerere no Uganda para adquirir o Bacharelato em Língua Inglesa.

Na altura tanto o Quénia como o Uganda faziam parte do Império Britânico. James era apenas mais um jovem africano cheio de sonhos, apaixonado por histórias, devorador de livros, ansioso para conquistar o seu espaço no mundo.

É este percurso pela Universidade Makerere e a sua descoberta – ou melhor, revelação- como escritor que nos é contada na primeira pessoa no livro “Birth of a Dream Weaver – A Writer’s Awakening” (algo como “O Nascimento de um Tecedor de Sonhos – O despertar de um escritor”).

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O escritor queniano há anos aguarda o prémio Nobel

Para além das imagens do Uganda e da vida académica nos anos 60 na Universidade de Makerere, Thiong’o oferece também uma descrição da sua transformação intelectual à medida que Uganda, Quénia e o resto da região atravessam mudanças políticas.

Estas duas transformações acontecem em simultâneo: como escritor, Thiong’o vai ganhando mais consciência da sua voz e da Verdade que pretende expor através do seu trabalho e ao mesmo tempo, há o movimento pan-africanista e as guerras de libertação um pouco por todo o continente.

É neste período que Thiong’o se estabelece como escritor e dramaturgo. Ao sair da Universidade em 1963, com apenas 25 anos de idade, já tinha um romance publicado, outro já acordado com a Editora e uma peça teatral exibida com sucesso.

De regresso ao Quénia, Thiong’o esteve envolvido na mudança do “Departamento de Língua Inglesa” na Universidade de Nairobi para “Departamento de Literatura”, colocando assim a Literatura Africana numa posição central.

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Thiong’o abandonou o nome “James” para reafirmar-se como Africano. Fonte: Geledés

Na qualidade de dramaturgo, académico e escritor sempre foi muito crítico das sociedades africanas pós-coloniais e especialmente do Quénia. Por esse motivo Thiong’o foi perseguido e enviado para uma cadeia de segurança máxima, onde decide abandonar o Inglês como sua língua criativa e passa a escrever em Gikuyu, a sua língua materna, a língua do seu povo.

E foi na prisão que escreveu em papel higiénico o seu primeiro livro em Gikuyu, “Caitani Mutharabaini” (Devil on the Cross) em 1981. O seu segundo romance em Gikuyu “Matigari” foi publicado em 1986.

O então presidente queniano, Daniel Moi emitiu um mandado de prisão para a personagem principal, pensando que se tratava de uma história real. Apercebendo-se do ridículo, proíbe então a venda e distribuição do livro em todo o país.

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O autor viveu em exílio por 20 anos. Fonte: Ngugi Wa Thiong’o website

Thiong’o descobre o poder de contar a sua Verdade na sua língua materna, o Gikuyu.

Segundo o autor, só poderemos falar numa autêntica Literatura Africana quando deixarmos de usar línguas coloniais para contar as nossas histórias. Os escritores africanos encontrarão a sua voz, a sua verdade ao falarem a sua língua nativa.

Para ele este é um dos pontos centrais para uma verdadeira descolonização de África.

 

O regime colonial passou por impor o uso da língua do colonizador ao colonizado e chegou até a proibir o uso das línguas nativas dos colonizados. Este processo fez parte da opressão sistemática a que eram expostas as sociedades que foram invadidas e colonizadas pelos projectos Imperialistas Europeus. O processo englobava ainda restrições psicológicas, físicas e culturais que impediram a evolução e desenvolvimento de uma consciência nesses povos.

Nesse sentido, a África pós-colonial deveria usar a língua como arma para a reafirmação da identidade dos povos livres. Contudo, pelo contrário, no contexto pós-colonial usou-se da língua do colonizado como ferramenta para criar uma nova identidade, deixando para trás a original.

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Thiong’o considera-se um contador de histórias. Fonte: Los Angeles Review of Books

Para o queniano a língua é um direito humano, e como tal não existem línguas melhores que outras. Deste modo, todos os povos têm direito a usar a sua língua, seja para conteúdo oral, como escrito: em livros, na academia e em todas as esferas sociais.

“Language as communication and as culture are then products of each other. Communication creates culture: culture is a means of communication. Language carries culture, and culture carries, particularly through orature and literature, the entire body of values by which we come to perceive ourselves and our place in the world. / Língua como comunicação e como cultura são produtos um do outro. A comunicação cria cultura: cultura é um meio para comunicação. A língua transporta a cultura e a cultura transport, particularmente através da oralidade e da literatura, todo o corpo de valores através dos quais nós nos entendemos e o nosso espaço no mundo.”

 

Desde 1959, quando entrou na Universidade Makerere como um jovem africano colonizado a 1964, quando se graduou como cidadão queniano livre, Thiong’o defendeu sempre a pertinência da Verdade africana para Africanos.

De James para Ngūgī, o seu nascimento e crescimento como artista foi profundamente marcado pela crescente consciência do seu papel como criador de Literatura Africana.

 

Que Nobel é esse?

Mais um ano. Mais um Nobel. Mais uma decepção.

Este ano o Nobel não atribuiu nenhum prémio a mulheres. Nem a pessoas negras. Nem tão pouco a pessoas Africanas.

Os poucos prémios que vão tradicionalmente a estes grupos, Nobel da Literatura e Nobel da Paz – já que aparentemente não temos capacidade intelectual e/ou material para produzir inovações técnicas – este ano foram para homens.

A falta de diversidade nas grandes Academias não é novidade.

No início do ano, durante os Óscares houve um boicote pela falta de representatividade de filmes e actores negros nas nomeações. A campanha #OscarsSoWhite desencadeou um debate sobre a falta de diversidade da Academia e das histórias premiadas.

O que acontece é que a premiação de um determinado grupo valida a produção feita por esse grupo e o seu prestígio, possibilitando mais produção. Isto gera um ciclo vicioso em que o mesmo grupo tem sempre oportunidades de crescimento e financiamento para levar à frente aos seus projectos – sejam no cinema; na literatura; na medicina ou em qualquer outra área de intervenção.

Aumenta-se assim o desnível entre esse grupo privilegiado e os restantes que não conseguem ter os prémios como reconhecimento da sua excelência.

Este ano, numa decisão arrojada, o Prémio Nobel da Literatura foi para Bob Dylan, músico e liricista conhecido pela natureza poética das suas canções. Este foi provavelmente o prémio mais comentado de 2016.

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Bob Dylan foi o escolhido para o Nobel da Literatura 2016. Fonte: Nobel Prize

Bob Dylan, ao contrário do que se tem vindo a dizer,  não é o primeiro liricista a ser galardoado com o Prémio Nobel da Literatura. Em 1913, Rabindranath Tagore, poeta, escritor e liricista indiano levou o Nobel da Literatura.

À semelhança de Dylan, Tagore aprendeu muito do seu ofício sozinho. A sua obra influenciou e foi influenciada pelo movimento pacifista na Índia e a sua independência. Embora o Nobel tenha vindo como reconhecimento pelo seu trabalho como poeta, escritor, dramaturgo e romancista, ele escreveu mais de 2000 músicas. Três dessas canções foram usadas para os hinos nacionais da Índia, Bangladesh e Sri Lanka.

Mas Bob Dylan foi premiado justamente pela sua contribuição a nível musical.

Ainda que discorde da atribuição do Nobel a Bob Dylan, tenho de admitir que premiação de alguém que foge à norma daquilo que é um Nobel da Literatura, de certa forma alarga os horizontes para outros artistas que contam as suas histórias de outras maneiras.

Artistas como Youssou N’Dour (Senegal) ou Miriam Makeba (África do Sul) são dois exemplos de músicos com uma forte componente literária e cujas carreiras foram para além da música, marcadas também pela intervenção social que poderiam facilmente ter um Nobel da Literatura para si.

São artistas que conseguiram, tal como Bob Dylan, incorporar um estilo literário nas suas canções, sobretudo devido à longa tradição oral que há em África.

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Miriam Makeba ficou conhecida internacionalmente como “Mama Africa”

Os nossos melhores contadores de histórias nunca publicaram livros, mas deixaram um vasto legado de lendas e epopeias fantásticas, muitas vezes cantadas que foram passadas de geração a geração.

Arrisco-me a dizer que as nossas melhores obras de Literatura jamais serão escritas. Ou talvez, as versões escritas dessas obras jamais serão tão boas como aquelas ditas.

As palavras ditas têm uma dimensão maior, de preservação de sabedoria e de ligação com os antepassados ao mesmo tempo que se interage com a plateia, no Presente. As palavras ganham mais poder com voz.

Foram os contadores de histórias anónimos na História, porém conhecidos entre nós – os nossos avós; mães; tios; médicos tradicionais; líderes comunitários; professores – que sedimentaram as bases para artistas como Wole Soyinka (Nobel da Literatura em 1986) e Chinua Achebe (autor de Things Fall Apart) desenvolverem o seu talento, passando para o papel toda a herança de provérbios, fábulas e lendas milenares.

Achebe, considerado por muitos como o Pai da Literatura Africana, nunca ganhou o Nobel. Até à sua morte, os africanos esperavam ver o prémio nas suas mãos, no entanto ele sabia que o Nobel tinha tanto a ver com talento, como tinha com geopolítica:

“My position is that the Nobel Prize is important. But it is a European prize. It’s not an African prize … Literature is not a heavyweight championship. Nigerians may think, you know, this man has been knocked out. It’s nothing to do with that.”

A minha posição é que o Prémio Nobel é importante. Mas é um prémio Europeu. Não é um prémio Africano… Literatura não é um campeonato de boxe. Os nigerianos podem pensar, sabe, este homem foi derrotado. Não tem nada a ver com isso.

De facto, o Nobel é um Prémio Europeu. Este ano, dos 11 vencedores, apenas três são de fora da Europa: Bob Dylan, Nobel da Literatura, é dos Estados Unidos da América; Yoshinori Ohsumi Nobel da Medicina, é do Japão e o Nobel da Paz, Juan Manuel Santos é colombiano.

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Ngugi wa Thiong’o escreve desde 1962. Fonte: Website Ngugi wa Thiong’o

O queniano Ngugi wa Thiong’o era a aposta africana para o Nobel da Literatura 2016. O autor de 78 anos é um ícone literário, cujo trabalho está intimamente ligado à sociedade queniana pós-colonial e aos conflitos entre as tradições africanas e os costumes ocidentais.

Devido às fortes reacções ao seu trabalho, já foi preso político e viveu exilado por mais de 20 anos. Foi nesse período que mais se debateu com questões de identidade e de resistência ao Imperialismo, o que o levou a decidir, no fim dos anos 70 a parar de usar o Inglês e passar a usar Kikuyu, a sua língua materna, para escrever.

Pela relação difícil no seu país de origem, Thiong’o nunca foi premiado no Quénia. Mesmo na região da África Oriental não existem prémios literários e no geral, pouco foi o reconhecimento dado pelos africanos. Dos dez Doutoramentos Honorários que tem, apenas dois são de Universidades africanas: Universidade de Dar Es Salaam (Tanzania) e Universidade Walter Sisulu (África do Sul).

Seja como dramaturgo ou romancista, Thiong’o incorpora os elementos da tradição oral africana e demonstra qualidades de um exímio contador de histórias: provocante; actual; envolvente; original e expressivo.

Se tivesse ganho o Nobel este ano Thiong’o seria, depois de Naguib Mahfouz que escrevia em Árabe, o segundo autor a ganhar um Nobel da Literatura com obras escritas primeiramente numa língua africana e o primeiro na categoria “dialectos” africanos.

Mas talvez África precise de ser a primeira a reconhecer e premiar Thiong’o pelo seu talento, pela sua sua visão e pelo contributo para o desenvolvimento de uma consciência cultural e moral africana. Só depois disso podemos exigir mais dos outros.

Não nos podemos isentar da luta pela resistência à hegemonia das línguas europeias. Que sejamos nós os promotores de produções nas nossas línguas e sobre as nossas histórias.

 

 

 

Genocídios para além do Holocausto

O Holocausto é provavelmente o genocídio mais famoso da História, que decorreu durante a Segunda Guerra Mundial, em que cerca de 6 milhões de judeus foram assassinatos pelo regime Nazi. Mas e em África, não há Genocídio?

Considera-se Genocídio como o assassinato em massa de um grupo de pessoas com base na sua etnia, religião ou cultura. Num sentido mais amplo, fazem parte de um Genocídio não só o assassinato, de facto, mas também todas as acções de perseguição que violem a integridade física e/ou destruam as bases de sobrevivência desse grupo.

Embora o termo Genocídio só tenha sido institucionalizado em 1951, com a Convenção Para a Prevenção e Repressão do Crime do Genocídio pela ONU, muito antes do Holocausto (e depois) estes crimes foram praticados.

Há quem considere a Escravatura como o maior Genocídio da História da Humanidade, atendendo ao facto de mais de 10 milhões de africanos terem sido traficados para a Europa e as Américas; as suas terras foram roubadas (Colonialismo) e apagou-se a suas Histórias e Culturas, impedindo-os de manter a sua identidade.

Genocídios em África – ou contra africanos – até hoje aparecem como pequenas sombras, sem nunca serem lembrados como foram, com a devida solenidade ou sequer reconhecimento.

Quando em 1904, africanos da tribo Herero se revoltaram contra o roubo das suas terras, gado e mulheres por parte dos alemães, os africanos da tribo Nama juntaram-se. A revolta culminou na Batalha de Waterberg, de onde os africanos saíram derrotados.

Como castigo, a Alemanha massacrou entre 70,000 a 100,000 pessoas das tribos Herero e Nama, de onde hoje nós chamamos de Namíbia. Estas pessoas foram levadas para campos no deserto do Namíbe, onde a sua maioria morreu de complicações ligadas à subnutrição e condições de temperaturas extremas. Os seus cadáveres foram depois levados a Berlim para “experiências científicas”.

Apenas recentemente a Alemanha admitiu o crime, devolvendo parte desses esqueletos e prometendo um pedido de desculpas formal (mas sem reparações monetárias para a Namíbia).

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Sobreviventes do Genocídio na Namíbia

Na mesma altura houve também o Massacre de Maji Maji, no qual a Alemanha – sempre a Alemanha! – matou cerca de 75,000 africanos da região daquilo que hoje é a Tanzânia, depois de vários grupos se revoltarem contra a sua presença nos seus territórios. Neste caso, para além dos ataques físicos, os africanos foram também sujeitos a medidas repressivas como a limitação de fornecimento alimentar, através da destruição das suas plantações.

Mas não há Museus ou sequer provas físicas – para além  dos esqueletos recuperados e algum arquivo fotográfico- desses acontecimentos.

Durante o processo de descolonização do Quénia, o Reino Unido promoveu uma forte campanha contra a tribo Kikuyu, pois eram estes os maiores oponentes ao regime imperialista.

Movidos pelo desejo de controlarem os seus próprios destinos e a realidade de uma independência próxima, em 1952 os Kikuyu mobilizaram forças contra a ocupação britânica naquilo que ficou conhecida como a Revolta Mau Mau.

Em resposta, a Grã-Bretanha declarou estado de emergência e começou uma operação forte de ataque a todos aqueles que se presumia fazerem parte da equipa de “rebeldes”.

Campos de detenção foram instaurados e assim, instalou-se uma ordem na qual era legal usar a violência extrema como meio de dominação. Até 1960, data em que os campos foram encerrados, cerca de 90,000 quenianos foram executados, mutilados ou torturados pelas forças britânicas.

Só em 2003 a Grã-Bretanha concordou em pagar reparações a alguns sobreviventes. Depois de anos de dor, trauma e luto por tudo o que aconteceu, muitos deles já idosos serão lembrados apenas pelos seus depoimentos em tribunal.

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Cerca de 150 campos de detenção foram instalados no Quénia.

Mas europeus à parte, genocídios intra-africanos também ocorreram.

O mais gritante é talvez o Genocídio do Ruanda, em que em apenas 100 dias, militantes radicais da tribo Hutu, liderados pelo grupo nacionalista Parmehutu perseguiram, torturaram e assassinaram entre 500,000 a 1,000,000 de Tsutis. Sendo que, mais de 200,000 refugiaram-se em países vizinhos nesse período.

Embora divergências tribais sempre tivessem havido entre os dois grupos, foi sobretudo depois da descolonização e durante a luta pelo poder político que estas diferenças ganharam forma institucionalizada.

Ao contrário dos restantes casos, no Ruanda o genocídio foi documentado via rádio, televisão e telefone. A comunidade internacional, no entanto, fechou os olhos e viu perto de 20% da população ruandesa a ser assassinada, ao vivo e a cores.

O massacre terminou apenas quando a Frente Patriótica do Ruanda, partido com apoio dos Tsutsis conseguiu derrubar o regime do Parmehutu. Nesse período mais de 2 milhões de Hutus fugiram do país, temendo retaliação. Até hoje decorrem julgamentos relacionados ao crime.

Na República Centro-Africana decorre neste momento algo que pode muito em breve aparecer nos nossos livros de História como um dos piores genocídios em África. Não pela dimensão do país, tão pouco pelo número de mortos, mas pelas implicações que tem.

Quando o grupo militar Seleka, muçulmano, foi derrubado em 2014 pelo grupo rebelde Anti-Balaka, cristão, através de um golpe de Estado (o 5o. em 56 anos de independência), uma forte perseguição à minoria islâmica começou.

Desde então, mais de 800,000 pessoas já foram deslocadas e mais de 400,000 refugiaram-se em outros países fugindo da fúria das armas cristãs sobre o Alcorão. A crise na República Centro-Africana é das desgraças mais ignoradas da História recente.

No centro destas questões misturam-se questões religiosas, culturais, étnicas e sobretudo de recursos. É o caso do Darfur, onde mais de 500,000 pessoas já morreram. Da Somália considerada como o pior desastre humanitário do séc. XXI. Do Congo, onde em 2006 apenas, mais de 25,000 violações foram reportadas.

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Mais de 5 milhões já morreram no Congo, um recorde desde a Segunda Guerra Mundial

Mas há um factor comum a todos estes casos: a História repete-se (quase) de forma cíclica. Por não haver um registo, um reconhecimento e por tabela, responsabilização, vive-se um eterno Presente.

Rebeldes contra rebeldes contra civis contra mulheres contra homens contra crianças contra igrejas contra diamantes contra terras contra todos. Todos eles sem memória. Sem Passado.

Precisamos também de construir Museus para os nossos genocídios. Conversar com os nossos pesadelos. Dar cara às nossas desgraças. Chorar os nossos horrores. E nesses processos quem sabe, construir um Passado que sirva para pacificar o Futuro.