Uma livraria na AEMO

Uma livraria na AEMO

Ouvi dizer que havia uma Livraria na Associação de Escritores Moçambicanos, então fui lá espreitar.

Sucedeu-se que esteve cá em casa uma simpática hóspede brasileira que queria muito o livro ‘Niketche‘ de Paulina Chiziane. Sentada na parte mais badalada da AEMO, o bar, ouviu falar de uma livraria localizada na parte interior do edifício principal, mas infelizmente não conseguiu ir lá antes da sua partida.

Como a boa anfitriã que sou, ficou a promessa em como lá voltaria e mobilizaria esforços para que o livro chegasse ao Rio de Janeiro, local onde ela reside.

Ora bem, o que não lhe disse foi que nunca tinha ouvido falar de tal livraria e que duvidava que houvesse de facto uma livraria dentro da AEMO. Afinal de contas, se houvesse eu saberia, certo? Certo. Errado. Eu não sei tudo. Mas sei que não se pode discutir assuntos “de casa” com as visitas, por isso calei-me. Fiquei-me pela promessa.

Então numa bela manhã, dessas em que o sol parece estar especialmente atento ao que se passa em Maputo, acordei e lá fui.

O que aconteceu entre a minha entrada e a minha saída da AEMO só pode ser classificado como um verdadeiro exorcismo, tamanho foi o cansaço e desgaste que senti após aquela visita.

Não podia prever que, por detrás, daquela imagem do edifício belo e simpático, rodeado de um verde jardim que convida a entrar, escondia-se uma mansão sombria e assombrada.

– Bom dia, tem livraria?

-Livraria? 

-Sim, livraria. Queria ver um livro. 

Senti-me mesmo num filme de terror. Seria a palavra “livraria” um código para desvendar algum mistério? Seria a livraria um lugar de cultos obscuros proibidos?

-Está bem. Aguarde.

Enquanto esperava, de pé, observei aquele pequeno espaço onde me tinham abandonado. À minha direita tinha uma porta para uma sala e à frente um estreito e escuro corredor. As paredes à minha volta tinham algumas fotos a preto e branco legendadas com nomes e datas.

Tirando o televisor enorme colado à parede, tudo ali era Passado. Memórias. Notei um vazio enorme preenchido apenas pelo pó colado em tudo: nas paredes, nos móveis e até mesmo nas pessoas.

A passos lentos e arrastados vem um senhor, pelo corredor, e acompanha-me até uma sala onde uma colega está a trabalhar. Em cima das secretárias vejo montes de cadernos, cadernetas e aquilo que pareciam ser actas, cartas e outros defectos da actividade burocrática. Num canto um amontoado de não mais de 20 livros me é apresentado:

-Pode ver esses aí. Mas está à procura de quê?

Ah, afinal isto é que é a “livraria”! – pensei comigo mesma.

– Só quero ver. Estou à procura de um presente para alguém.

Quando aquela pilha de livros acabou, a colega tirou de uma gaveta outros tantos livros.

-Também tenho estes aqui. Pode procurar à vontade.

Desencantada e impressionada, começo a folhear os cerca de 30 livros adicionais. O teimoso pó, grudava nos meus dedos a passos largos. À medida que eu ia mexendo naqueles livros, o pó invadia-me e o meu corpo, resistia.

Atchim!

A cada espirro uma parte de mim saía desesperada.

Atchim!!

Onde foram parar os nossos livros?

Atchim!!!

Não tem nenhuma obra de Paulina Chiziane?

Atchim!!!!

Por acaso tem algum livro de Lília Momplé?

Atchim!!!!!

Atchim!!!!!!

Alguns livros falam comigo. Eles querem se livrar do pó e abandonar a gaveta moribunda que habitam. Decido então resgatá-los, mas reparo que não têm preço marcado. Pergunto. Informam-me. Desconfio. Mas aceito levar e tiro da minha carteira um cartão do banco, assinalando a minha decisão final.

-Só aceitamos dinheiro.

Peço desculpas aos livros. Não os posso levar. Não assim. Não nestas condições. Num outro dia talvez.

E assim, tão rápido e precoce acabaram-se os livros. Ou melhor, acabou-se a livraria.

-Está bem. Fica para a próxima. Obrigada.

Os mesmos passos lentos e arrastados acompanham-me de volta à entrada. Pelo caminho reparo na porta daquilo que parece ser a Biblioteca. É uma sala triste, escura e está trancada. As suas frágeis portas de vidro seguram os sonhos lá esquecidos e abandonados.

São esses sonhos empoeirados, esses fantasmas do que poderia ter sido, que habitam aquele espaço inerte e apoderam-se das paredes, dos móveis e até mesmo das pessoas.

Atchim!

Cansada, saio daquele lugar e deixo-me banhar pelos raios de Sol.

Um dia volto com um espanador.

Memórias e Sonhos de boll hooks em “Bone Black”

Memórias e Sonhos de boll hooks em “Bone Black”

Reflexões em torno do livro autobiográfico “Bone Black: Memories of Girlhood” da bell hooks

bell hooks é uma escritora e académica norte-americana mais conhecida pelo seu trabalho em torno do Feminismo Negro e Racismo. Em 2014 tive o prazer de ler o livro “Ain’t I a Woman: Black women and Feminism”, quando comecei o meu compromisso com literatura marginalizada.

Bone Black é uma auto-biografia muito diferente das que estamos habituados a ler. Embora siga uma ordem cronológia, o livro não procura contar as coisas tal como elas foram ou colocá-las dentro de uma estrutura temporal, mas sim compilar episódios relevantes da vida de uma menina negra nos EUA dos anos 60 em diante.
bell hooks traz-nos memórias, um pouco factuais e um pouco fantasiadas – porque afinal não nos lembramos das coisas como estas aconteceram, mas sim como as sentimos – contadas ora na primeira, ora na terceira pessoa, mostrando a sua experiência pessoal e também a dimensão cultural da sociedade em que ela estava inserida.
Nesses relatos de duas a três páginas, ela não se poupa em detalhes poéticos e coloridos que dão vida aos episódios que ela vai relatando. Estes episódios ajudam-nos a compôr uma fotografia da sua infância e, enquadrá-la na História dos E.U.A.
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É através da autobiografia que bell hooks encontra o seu espaço no mundo. Fonte: The dialectis of belonging in bell book’s Bone Black
Numa das passagens mais bonitas do livro, ela conta como ela conseguiu ter uma boneca negra.
“deep within myself i had begun to worry that this loving care we gave to the pink and white flesh-colored dolls meant that somewhere left high on the shelves were boxes of unwanted, unloved brown dolls covered in dust. i thought that they would remain there forever, orphaned and alone, unless someone began to want them, to want to give them love and care, to want them more than anything. at first they ignored my wanting. they complained. they pointed out that white dolls were easier to find, cheaper. they never said where they found baby but i know. she was always there high in the shelf, covered in dust, waiting.”// “Dentro de mim, comecei a preocupar-me que esse cuidado e amor que dávamos às bonecas cor-de-rosa e brancas significava que, em algum lugar nas prateleiras, havia caixas de bonecas castanhas indesejadas e não amadas, cobertas de pó. Eu pensei que elas ficariam lá para sempre, órfãs e sozinhas, a menos que alguém começasse a querê-las, a querer dar-lhes amor e carinho, querê-las mais do que qualquer coisa. No começo eles ignoraram o meu desejo. Reclamaram. Disseram que bonecas brancas eram mais fáceis de encontrar, mais baratas. Eles nunca disseram onde encontraram a bebé [castanha], mas eu sei. Ela sempre esteve lá no alto da prateleira, coberta de pó, esperando. ” [tradução livre]
Ela e a boneca eram iguais.
Enquanto menina, ela se sentia (e era!) diferente das expectativas nela depositadas e com o andar do tempo e o desenvolver da sua personalidade essas peculiaridades foram se intensificando.
Aos poucos ela se tornou a ovelha negra da família e foi-se isolando. Foi no seu isolamento que ela descobriu o gosto pela leitura e a possibilidade de imaginar e criar outras realidades. E, tal como a boneca, mesmo nesse isolamento, o amor sempre arranjava formas de chegar – fosse através dos livros, de pessoas ou mesmo Deus.
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bell hooks é autora de mais de 30 livros.
hooks permite-nos pensar como aquela menina pensava, ao observar o mundo e as suas contradições: a sua mãe forte e segura por um lado, mas indefesa face ao esposo. A sua amizade com o irmão e mais tarde a indiferença, à medida que ele acumula privilégios como o único filho homem. O seu amor por Deus e à Igreja, mas também o seu descontentamento por não deixarem mulheres subir ao púlpito.
Bone Black é um testemunho da vida de muitas crianças, e especificamente meninas negras: a descoberta do racismo/ colorismo; a descoberta da pobreza e outras descobertas mais engraçadas como a sexualidade ou o que é ser mulher.
Acompanhamos estes episódios sabendo da sua legitimidade e relevância não só no Passado, mas ainda mais no Presente quando somos confrontados com as mesmas questões.
Na sua escrevivência, bell hooks por fim declara-se escritora, é contando histórias que ela se encontra, onde ela pertence.

Niketche: Uma história de Poligamia… e amor!

Niketche: Uma história de Poligamia… e amor!

No livro “Niketche: Uma história de Poligamia”, Paulina Chiziane conta-nos histórias de amor e redenção.

Contado na primeira pessoa, este romance traz-nos a voz de Rami, uma mulher de meia-idade que se vê infeliz no seu casamento com o ausente Tony, um homem dos altos quadros da polícia, que passa mais tempo fora de casa com outras mulheres.

Rami é uma mulher do Sul de Moçambique, criada com os valores cristãos coloniais, que no momento de crise conjugal, procura entender melhor a cultura tradicional que desconhece.

Rami reconhece que as mulheres são vistas como as culpadas de tudo, como a origem de todos os males que assolam a sociedade e por isso, se ela desistir do casamento, embora saiba que tem motivos de sobra para tal, será acusada de ser ela a causadora dos problemas.

“Quando não chove, a culpa é delas. Quando há cheias, a culpa é delas. Quando há pragas e doenças, a culpa é delas que sentaram no pilão, que abortaram às escondidas, que comeram o ovo e as moelas, que entraram nos campos nos momentos de impureza.”

Por isso, apesar de ter uma consciência do seu lugar subalterno como mulher tanto a nível privado, no seu casamento, na sua casa, na sua família, como a nível público, na sociedade em geral, Rami não quer, à partida, desafiar as normas patriarcais que regem a sua vida.

Rami toma a difícil decisão de procurar as mulheres que tanto afastam o seu marido. Ao início é fácil ver Rami como a vítima, porém, à medida que Julieta, Luísa, Saly e Mauá vão ganhando espaço na trama, as linhas desaparecem e torna-se cada vez mais difícil identificar culpados.

Ao conhecermos as histórias pessoais de cada uma delas, os seus dilemas, as suas dificuldades, as suas lutas e conquistas, evidencia-se que elas também são produtos da mesma ordem patriarcal que “vitimou” Rami e as colocou como rivais.

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‘Niketche’ fala sobre poligamia no Moçambique pós-colonial. Fonte: Desacato

Rami decide então institucionalizar o sistema poligâmico no seu casamento, unindo-se às outras mulheres do Tony, de modo a não perder o seu marido.

Rami, Julieta, Luísa, Saly e Mauá têm visões da vida e do mundo completamente diferentes. A forma como vêem o casamento, o conceito de amor e a experiência da sexualidade oferecem ao leitor uma dimensão de pluralidade cultural, e permite-nos olhar para cada uma delas como seres completos, indivíduos distintos com as suas particularidades.

As mulheres em Moçambique – de Norte a Sul – já nascem e crescem num ambiente em que o homem é o centro do Universo e que apenas através dele, elas podem se afirmar.

Contudo, apesar dos desencontros de costumes, tradições, etnias, apesar do contexto multicultural em que vivemos, as cinco mulheres, todas de origens distintas, mostram que existe um denominador comum: a opressão.

O sistema poligâmico é por si só uma contradição no livro. Pois se por um lado, é através da instauração da poligamia que as mulheres de unem, se ajudam e criam laços entre si, por outro, é também através da poligamia que reforçam a centralidade do Tony nas suas vidas.

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Paulina Chiziane Paulina Chiziane foi a primeira escritora a publicar um livro em Moçambique: Fonte: Nau Literária

Nesta encruzilhada entre os valores modernos e os valores tradicionais, Rami descobre-se, questiona-se, alarga-se. De mulher submissa e obediente, Rami passa a olhar-se ao espelho e a assumir um papel central na sua história, na sua casa, no seu casamento.

Rami passa a ser a primeira esposa, aquela que lidera, a mana mais velha que aconselha e consola as restantes. E neste processo de resgate do amor próprio, Rami ensina as outras mulheres a fazerem o mesmo exercício e a libertarem-se das garras opressoras que lhes limitam.

Por isso Niketche não é somente sobre poligamia, é sobre a força de um grupo de mulheres unidas; sobre a necessidade de auto-aceitação e perdão; sobre o rompimento e a reinvenção de tradições; sobre o diálogo intercultural… e sobretudo sobre amor.

“— Niketche?
— Uma dança nossa, dança macua — explica Mauá —, uma dança do amor, que as raparigas recém- iniciadas executam aos olhos do mundo, para afirmar: somos mulheres. Maduras como frutas. Estamos prontas para a vida! Niketche. A dança do sol e da lua, dança do vento e da chuva, dança da criação. Uma dança que mexe, que aquece. Que imobiliza o corpo e faz a alma voar: As raparigas aparecem de tangas e missangas. Movem o corpo com arte saudando o despertar de todas as primaveras.”

Under The Udala Trees, uma Nigéria LGBT+

Under The Udala Trees, uma Nigéria LGBT+

O livro “Under The Udala Trees”  de Chinelo Okparanta retrata uma história nigeriana LGBT+

Este é um dos melhores livros que já li e escrevi um pouco sobre ele em 2016.

Há vários motivos para gostar do livro e um deles é o facto de ser  um livro africano recente que não retrata as vidas de africanos num contexto de emigração, que tem sido uma tendência entre escritores do continente.

Okparanta começa o livro de forma tímida e contida, tornando, na minha opinião, as primeiras páginas aborrecidas, cheias de metáforas e frases bonitas para escrever num caderno de anotações, mas à medida que a história avança, a leitura torna-se mais confortável e as suas frases tornam formas mais naturais.

A autora consegue retratar as experiências de Ijeoma, a protagonista, desde a sua infância à sua idade adulta. Uma mulher numa encruzilhada difícil, obrigada a escolher entre o que ela sente que é certo e o que precisa para sobreviver.

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A autora escreveu para se manifestar contra a opressão vivida pela comunidade LGBT+ na Nigéria. Fonte: The Guardian

 

Seguindo a tradição oral da Nigéria, a narrativa é inspirada pelas histórias e fábulas sobre as diferentes tribos e religiões que coexistem no país.

A puberdade de Ijeoma chega justamente no momento em que começa a guerra civil. Após a morte do pai, a mãe envia a sua filha para uma outra vila mais segura, sobre os cuidados de uma família amiga. Lá, Ijeoma vai descobrir a sua sexualidade, as suas forças e as suas fraquezas.

Decisões complicadas que nos deixam, como leitores, numa luta permanente.

Num país devastado por uma guerra civil e tensões étnicas, o luto é um sentimento constante. As ausências sentem-se ao longo de toda a narrativa. As questões de conflito e tribalismo misturam-se com homofobia, valores tradicionais e xenofobia.

Embora estes temas não sejam o centro da história, tal como na vida real, são componentes que determinam certas crenças e comportamentos. São elementos incorporados de forma tão subtil e bonita!

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Perseguições à comunidade LGBT+ na Nigéria são frequentes. Fonte: The Independent UK

O livro é um interessante começo para termos, como africanos, conversas sinceras sobre as experiências LGBT+ no continente.

Este é um brilhante retrato de histórias queer na Nigéria entre as décadas de 70 e 80, mas não deixa de ser uma história universal: pessoas queer a serem forçadas para espaços marginalizados, tanto física como espiritualmente. Pessoas queer como alvos de violência, tanto física como emocionalmente. Pessoas queer a viverem traumas todos os dias, tanto individualmente como colectivamente.

Na Nigéria, semelhante a outros países é ilegal ser LGBT+. Na base da legislação está a crença em que a homoafetividade é um conceito importado do Ocidente, uma herança nefasta do colonialismo, mas na verdade a homofobia é que na verdade foi importada.

O livro de Okparanta, um manifesto pelo direito a amar, em toda a sua beleza e magnitude, propõe um entendimento mais profundo da questão.

 

 

Perdida nas memórias de Conceição Evaristo

Perdida nas memórias de Conceição Evaristo

Becos da memórias” é um labirinto lindo para nos perdermos que se revela tão actual hoje como era quando foi escrito

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O livro é baseado nas suas lembranças da sua infância. Fonte: Itaú Cultural

Conceição Evaristo traz-nos, em “Becos da memória”, as emoções de Maria-Nova durante os anos 70, em Belo Horizonte (Brasil) quando o bairro onde vive passa por um processo de desfavelamento.

De forma envolvente e emocionante, Evaristo descreve cada rua, cada pessoa, cada história que compunham a sua favela. Nas suas mãos os becos esquecidos e ignorados ganham vida. Vidas.

Através das suas palavras, descobrimos que a favela é muito mais que um aglomerado de barracos, mais do que uma mancha na cidade, mas sim, uma cidade no seu próprio direito. Um mundo por si só.

Um mundo em que as pessoas vivem, crescem, choram, riem, procriam, educam, relembram, esquecem, morrem. Enfim! E este mundo é-nos revelado por Maria-Nova, uma jovem adolescente que se desespera ao ver o mundo e as pessoas que tão bem conhece a desaparecerem.

O desfavelamento anunciado para breve evidencia o fim de uma era para todos eles. Para onde iriam? De onde vieram? Que histórias deixariam para trás? Quais levariam com eles?

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“Escrevivência” em Becos da Memória. Fonte: Scielo

Entre a ficção e a biografia, Evaristo usa-se de Maria-Nova para narrar a sua história e dos seus, como tinha prometido ainda menina.

Este foi talvez o que mais me marcou, já que eu também, desde sempre me comprometi com a tarefa de contar histórias. Ouvi-las, registá-las e recontá-las.

Maria-Nova (ou será Conceição Evaristo?) descobre a clandestinidade da sua existência e daqueles que consigo existem naquela favela. Aliás, a própria favela é metaforicamente, a prova dessa clandestinidade, pois surge de forma aparentemente desorganizada e os seus moradores vivem de forma isolada e invisível.

As semelhanças entre favela e senzala vão-se evidenciando e a menina sente que ainda tem de se libertar.

“Maria-Nova olhou novamente a professora e a turma. Era uma história muito grande! Uma história viva que nascia das pessoas, do hoje, do agora. Era diferente de ler aquele texto. Assentou-se e, pela primeira vez, veio-lhe um pensamento: quem sabe escreveria esta história um dia? Quem sabe passaria para o papel o que estava escrito, cravado e gravado no seu corpo, na sua alma, na sua mente” (p. 138).

De nada valia aquela liberdade clandestina. Aquelas vidas na miséria. Aquela fome. Aquela saudade. Era preciso uma liberdade plena, que lhe permitisse crescer e sair daquele lugar. Daqueles lugares: Senzala e Favela.

E é desta forma que Maria-Nova, inspirada nas figuras que dentro daquela favela ainda tinham esperança, decide também encontrar o seu papel na luta pela liberdade: escrever.

A ideia da escrita como resistência, como forma de fazer estas histórias sobreviverem-lhe revela-se à medida que a urgência da mudança se intensifica.

“agora ela [Maria-Nova] já sabia qual seria a sua ferramenta, a escrita. Um dia, ela haveria de narrar, de fazer soar, de soltar as vozes, os murmúrios, os silêncios, o grito abafado que existia, que era de cada um e de todos. Maria-Nova, um dia, escreveria a fala de seu povo (p. 161).

A escrita é a ferramenta escolhida para mostrar que naquele amontoado de barracos, há também sonhos, desejos, amores, paixões, planos que caminham de mãos dadas com a violência e os traumas acumulados nos becos da favela.

Naquilo que a autora chama de “escrevivência”, Evaristo traz a tradição da oralidade para o livro escrito, compilando vivências diversas e relacionando-as a complexa teia que compõe por fim a própria História do Brasil.

Maria-Nova mostra-nos o universo íntimo de Tio Totó, mãe Joana, Maria-Velha, Bondade, Negro Alírio e tantos outros, que representam assim as histórias de afrodescendentes nos diferentes espaços e tempos do Brasil.

É desta forma que Maria-Nova e Conceição Evaristo são a mesma pessoa. Menina, Mulher, Negra, Periférica, Favelada, Brasileira. No fundo, a mesma figura em pontos opostos de uma única ponte: o tempo. Entre elas apenas o sonho. Uma é a proposição, e outra a realização do dever de memória e de escrita. A grande missão contar histórias.

 

 

Eduardo Paixão, o vendedor de utopias

Eduardo Paixão, o vendedor de utopias

O olhar do escritor face as utopias vividas em Moçambique nos anos 70.

Publicado em 1972, o livro “Cacimbo”, de Eduardo Paixão descreve os últimos anos de ocupação colonial portuguesa em Lourenço Marques (Maputo) seguindo os amores e dissabores de uma família portuguesa em Moçambique.

Um importante livro na sua época, pois capta as emoções e contradições de uma geração no meio de um conflito intenso e de várias mudanças, em todo o mundo. Assim, o autor explora os conceitos de (des)colonização; socialismo/ comunismo; identidade; nacionalidade e raça.

Nota-se no seu tom que o livro é mais um manifesto do que romance, na medida em que propõe uma acção ao leitor, fazendo denúncias aos princípios ultrapassados que justificavam o Colonialismo e evidenciando a necessidade de se criar uma nova realidade para Moçambique.

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Usando-se dos personagens para representarem determinadas figuras/ valores da sociedade, o autor então vende-nos esta nova realidade, a tal utopia, re-imaginando-os.

Por exemplo, D. Emília de Sucena, representa os valores da família e a figura da mulher-mãe na sociedade colonial: zelosa; ocupada com reuniões sociais, jantares e institutos de beleza.

O seu filho, Artur, representa a revolução: a juventude activa; o inconformismo;  a fúria e desgosto de quem se vê com poucas armas para defender os seus ideais.

Também o narrador, omnisciente, serve de porta-voz para a razão. Ele é que legitima todo o fundamento ideológico ao longo da história, mostrando não só o que o personagem verbaliza, mas também o que pensa.

No entanto, ao se tornar testemunha, o próprio narrador mostra algumas contradições, pois se por um lado condena o Colonialismo e sonha com um mundo em que todas as raças possam viver harmoniosamente, por outro é incapaz de denunciar as atrocidades e a brutalidade do Colonialismo Português.

Ainda que de forma sofisticada, Eduardo Paixão, procura sempre a visão luso-tropicalista do bom colonizador português.

“O nosso tradicional multirracialismo possibilitava-nos um presente de paz e amor” (p.132)

Pela voz de Anabela acrescenta, mais tarde:

“Felizmente nós [os portugueses] não praticamos a segregação racial que leva ao ódio e à destruição.” (p. 244)

A única figura racista no livro é D. Emília, que se vê desconfortável pelo seu filho namorar com uma rapariga negra.

“Era o maior desgosto da minha vida ver o meu filho casado com uma rapariga de cor.” (p. 126)

É por isso interessante cruzar todos os discursos e imaginar a tal utopia que nos tenta vender Eduardo Paixão. Que mundo é esse em que brancos e pretos vivem harmoniosamente? Como construir esse mundo em que brancos e pretos são igualmente livres?

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Literatura colonial em Moçambique: o paradigma submerso – Fonte: USP

Eduardo Paixão, como criador também é, ele próprio, a História. Pois é através do seu olhar que desenhamos a sua época. Por isso temos de digerir essas tensões que tanto o incomodam. Será Portugal um “bom colonizador”? Como repudiar o Colonialismo Português sem ser anti-Portugal?

É esta constante comichão que sentimos ao ler “Cacimbo”: um cansativo e desesperado exercício para defender um ideal sem ferir a realidade que conhece e que o molda.

Inserir os personagens, a narrativa e o próprio autor no devido tempo e espaço, com todas as ideias, preconceitos, contradições e transformações é essencial para perceber a obra.

As utopias descritas em “Cacimbo” continuam actual na medida em que a visão colonial ainda não foi concretizada e precisa de nós, desta actual realidade para se decidir – O que é isto de ser livre, afinal?

Ludo, esquecida e encontrada

Ludo, esquecida e encontrada

Em “Teoria Geral do Esquecimento” conhecemos Ludo, uma mulher esquecida em Luanda e encontrada após 30 anos.

Tudo começa em Luanda, nos anos 70, quando a guerra pela libertação de Angola cria um ambiente de instabilidade e insegurança generalizados, que levam muitas famílias da classe média/ alta a fugir rumo a Portugal.

Ludovica Fernandes Mano (Ludo), portuguesa que vive com a irmã e o cunhado na capital angolana é a protagonista, que sofre de fobia social e não sai de casa. Os três moram num prédio bem situado, na cidade de Luanda e observam calmos o movimento de angolanos e portugueses sem saber se vão ou se ficam.

Numa noite o casal sai para jantar e nunca mais regressa. É aqui onde começa a história de esquecimento de Ludo.

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Foto: ‘Os dias da independência, angola 1975’, de Joaquim Lobo

Através de recortes de diários e anotações da própria Ludo, José Eduardo Agualusa guia-nos pela consciência dela e pelos seus maiores medos e prazeres.

Tendo como escudo o muro que ergueu a separar o seu apartamento do resto do prédio, Ludo mantém-se isolada por quase 30 anos no seu apartamento tendo como única companhia o latir faminto de Fantasma, seu cão.

Ludo revela-se extremamente inteligente, proactiva e até mesmo destemida no conforto do seu limitado habitat. É uma mulher forte, que não se deixa sucumbir pelas incertezas e instabilidades ao seu redor, mas antes, consegue manter uma certa lucidez que, no meio de tanta loucura, pode parecer estranho.

‘Às vezes vejo um macaco passeando-se pelos ramos, lá no fundo, por entre sombra e os pássaros. Deve ter pertencido a alguém, talvez tenha fugido, ou então o dono abandonou-o. Simpatizo com ele. É, como eu, um corpo estranho à cidade.”

Ludo tenta manter a sua sanidade quando tudo parece desmoronar-se à sua volta: o desaparecimento da sua única família; a decadência da cidade; o abandono ao estilo de vida que até então levava; etc.

Ela vê-se numa encruzilhada entre guerra e paz; vida e morte. No meio deste cenário consegue manter um pouco de “normalidade” que lhe garante a sua sobrevivência.

E isso leva-nos à questão: o que é ‘normal’ em tempo de guerra? O que é ‘normal’ no colonialismo’? Nas revoluções?

Existirá forma de passar por estes processos históricos sem esquecer um pouco quem nós somos? Quem nós fomos?

teoria-geral-do-esquecimentoEste é um livro sobre pessoas esquecidas, pessoas que querem esquecer e/ou pessoas que querem ser esquecidas. E claro, sobre os processos de reconstrução ou destruição que devem ser feitos para que isso aconteça.

Rapidamente percebe-se que não há heróis nem vilões, não há Deus nem Diabo e todas as pessoas batalham diariamente para gerir e equilibrar tanto as forças do bem como as forças do mal que têm dentro de si.

Ludovica é uma excelente metáfora para a própria Angola que, por quase 30 anos isolou-se, combatendo guerras com a própria consciência, tendo erguido um muro que a separou do resto do mundo.

Contudo, o mundo lá fora continuou a girar e a mudar na sua original indiferença e um dia Angola – assim como Ludo – teve de enfrentá-lo.

Esses conflitos internos – tanto em Ludo, como em Angola – são-nos descritos com um ritmo que nem sempre é o mesmo, mas que nunca nos é difícil acompanhar.

O autor vai enquadrando todos os acontecimentos na História, trazendo-nos personagens diferentes, em situações por vezes tristes, por vezes contentes, sempre com bastante sarcasmo e ironia – tal como é também na vida real.

Este ritmo da própria história é de tal forma envolvente que o próprio leitor esquece-se do que estará a acontecer. O leitor perde-se no tempo: passado; presente e futuro misturam-se. Não importa.

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O livro garantiu ao autor o Prémio Literário Internacional de Dublin. Fonte: Agualusa

Ao recontar (ou seria reinventar?) a história de Ludo, Agualusa traz à superfície importantes reflexões sobre o racismo, o colonialismo e a xenofobia, e por outro lado, leva-nos também a repensar a depressão, a memória e acima de tudo a justiça.

O autor brinca connosco, como se fôssemos marionetas, puxando-nos para dentro e fora da realidade de Ludovica, não deixando, no entanto de dizer aquilo que quer de nós.

A história ficcionada de Ludo oferece-nos algo entre a vida real e a vida imaginada; a memória individual e a memória colectiva de Angola, começando na guerra pela independência até ao início do séc. XIX.

Nesta brincadeira de faz-de-contas, o autor, de forma cómica e verdadeira dá-nos a conhecer os caminhos difíceis, com muitas quedas e tropeços, da História recente de Angola.