Eduardo Paixão, o vendedor de utopias

Eduardo Paixão, o vendedor de utopias

O olhar do escritor face as utopias vividas em Moçambique nos anos 70.

Publicado em 1972, o livro “Cacimbo”, de Eduardo Paixão descreve os últimos anos de ocupação colonial portuguesa em Lourenço Marques (Maputo) seguindo os amores e dissabores de uma família portuguesa em Moçambique.

Um importante livro na sua época, pois capta as emoções e contradições de uma geração no meio de um conflito intenso e de várias mudanças, em todo o mundo. Assim, o autor explora os conceitos de (des)colonização; socialismo/ comunismo; identidade; nacionalidade e raça.

Nota-se no seu tom que o livro é mais um manifesto do que romance, na medida em que propõe uma acção ao leitor, fazendo denúncias aos princípios ultrapassados que justificavam o Colonialismo e evidenciando a necessidade de se criar uma nova realidade para Moçambique.

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Usando-se dos personagens para representarem determinadas figuras/ valores da sociedade, o autor então vende-nos esta nova realidade, a tal utopia, re-imaginando-os.

Por exemplo, D. Emília de Sucena, representa os valores da família e a figura da mulher-mãe na sociedade colonial: zelosa; ocupada com reuniões sociais, jantares e institutos de beleza.

O seu filho, Artur, representa a revolução: a juventude activa; o inconformismo;  a fúria e desgosto de quem se vê com poucas armas para defender os seus ideais.

Também o narrador, omnisciente, serve de porta-voz para a razão. Ele é que legitima todo o fundamento ideológico ao longo da história, mostrando não só o que o personagem verbaliza, mas também o que pensa.

No entanto, ao se tornar testemunha, o próprio narrador mostra algumas contradições, pois se por um lado condena o Colonialismo e sonha com um mundo em que todas as raças possam viver harmoniosamente, por outro é incapaz de denunciar as atrocidades e a brutalidade do Colonialismo Português.

Ainda que de forma sofisticada, Eduardo Paixão, procura sempre a visão luso-tropicalista do bom colonizador português.

“O nosso tradicional multirracialismo possibilitava-nos um presente de paz e amor” (p.132)

Pela voz de Anabela acrescenta, mais tarde:

“Felizmente nós [os portugueses] não praticamos a segregação racial que leva ao ódio e à destruição.” (p. 244)

A única figura racista no livro é D. Emília, que se vê desconfortável pelo seu filho namorar com uma rapariga negra.

“Era o maior desgosto da minha vida ver o meu filho casado com uma rapariga de cor.” (p. 126)

É por isso interessante cruzar todos os discursos e imaginar a tal utopia que nos tenta vender Eduardo Paixão. Que mundo é esse em que brancos e pretos vivem harmoniosamente? Como construir esse mundo em que brancos e pretos são igualmente livres?

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Literatura colonial em Moçambique: o paradigma submerso – Fonte: USP

Eduardo Paixão, como criador também é, ele próprio, a História. Pois é através do seu olhar que desenhamos a sua época. Por isso temos de digerir essas tensões que tanto o incomodam. Será Portugal um “bom colonizador”? Como repudiar o Colonialismo Português sem ser anti-Portugal?

É esta constante comichão que sentimos ao ler “Cacimbo”: um cansativo e desesperado exercício para defender um ideal sem ferir a realidade que conhece e que o molda.

Inserir os personagens, a narrativa e o próprio autor no devido tempo e espaço, com todas as ideias, preconceitos, contradições e transformações é essencial para perceber a obra.

As utopias descritas em “Cacimbo” continuam actual na medida em que a visão colonial ainda não foi concretizada e precisa de nós, desta actual realidade para se decidir – O que é isto de ser livre, afinal?

Ludo, esquecida e encontrada

Ludo, esquecida e encontrada

Em “Teoria Geral do Esquecimento” conhecemos Ludo, uma mulher esquecida em Luanda e encontrada após 30 anos.

Tudo começa em Luanda, nos anos 70, quando a guerra pela libertação de Angola cria um ambiente de instabilidade e insegurança generalizados, que levam muitas famílias da classe média/ alta a fugir rumo a Portugal.

Ludovica Fernandes Mano (Ludo), portuguesa que vive com a irmã e o cunhado na capital angolana é a protagonista, que sofre de fobia social e não sai de casa. Os três moram num prédio bem situado, na cidade de Luanda e observam calmos o movimento de angolanos e portugueses sem saber se vão ou se ficam.

Numa noite o casal sai para jantar e nunca mais regressa. É aqui onde começa a história de esquecimento de Ludo.

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Foto: ‘Os dias da independência, angola 1975’, de Joaquim Lobo

Através de recortes de diários e anotações da própria Ludo, José Eduardo Agualusa guia-nos pela consciência dela e pelos seus maiores medos e prazeres.

Tendo como escudo o muro que ergueu a separar o seu apartamento do resto do prédio, Ludo mantém-se isolada por quase 30 anos no seu apartamento tendo como única companhia o latir faminto de Fantasma, seu cão.

Ludo revela-se extremamente inteligente, proactiva e até mesmo destemida no conforto do seu limitado habitat. É uma mulher forte, que não se deixa sucumbir pelas incertezas e instabilidades ao seu redor, mas antes, consegue manter uma certa lucidez que, no meio de tanta loucura, pode parecer estranho.

‘Às vezes vejo um macaco passeando-se pelos ramos, lá no fundo, por entre sombra e os pássaros. Deve ter pertencido a alguém, talvez tenha fugido, ou então o dono abandonou-o. Simpatizo com ele. É, como eu, um corpo estranho à cidade.”

Ludo tenta manter a sua sanidade quando tudo parece desmoronar-se à sua volta: o desaparecimento da sua única família; a decadência da cidade; o abandono ao estilo de vida que até então levava; etc.

Ela vê-se numa encruzilhada entre guerra e paz; vida e morte. No meio deste cenário consegue manter um pouco de “normalidade” que lhe garante a sua sobrevivência.

E isso leva-nos à questão: o que é ‘normal’ em tempo de guerra? O que é ‘normal’ no colonialismo’? Nas revoluções?

Existirá forma de passar por estes processos históricos sem esquecer um pouco quem nós somos? Quem nós fomos?

teoria-geral-do-esquecimentoEste é um livro sobre pessoas esquecidas, pessoas que querem esquecer e/ou pessoas que querem ser esquecidas. E claro, sobre os processos de reconstrução ou destruição que devem ser feitos para que isso aconteça.

Rapidamente percebe-se que não há heróis nem vilões, não há Deus nem Diabo e todas as pessoas batalham diariamente para gerir e equilibrar tanto as forças do bem como as forças do mal que têm dentro de si.

Ludovica é uma excelente metáfora para a própria Angola que, por quase 30 anos isolou-se, combatendo guerras com a própria consciência, tendo erguido um muro que a separou do resto do mundo.

Contudo, o mundo lá fora continuou a girar e a mudar na sua original indiferença e um dia Angola – assim como Ludo – teve de enfrentá-lo.

Esses conflitos internos – tanto em Ludo, como em Angola – são-nos descritos com um ritmo que nem sempre é o mesmo, mas que nunca nos é difícil acompanhar.

O autor vai enquadrando todos os acontecimentos na História, trazendo-nos personagens diferentes, em situações por vezes tristes, por vezes contentes, sempre com bastante sarcasmo e ironia – tal como é também na vida real.

Este ritmo da própria história é de tal forma envolvente que o próprio leitor esquece-se do que estará a acontecer. O leitor perde-se no tempo: passado; presente e futuro misturam-se. Não importa.

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O livro garantiu ao autor o Prémio Literário Internacional de Dublin. Fonte: Agualusa

Ao recontar (ou seria reinventar?) a história de Ludo, Agualusa traz à superfície importantes reflexões sobre o racismo, o colonialismo e a xenofobia, e por outro lado, leva-nos também a repensar a depressão, a memória e acima de tudo a justiça.

O autor brinca connosco, como se fôssemos marionetas, puxando-nos para dentro e fora da realidade de Ludovica, não deixando, no entanto de dizer aquilo que quer de nós.

A história ficcionada de Ludo oferece-nos algo entre a vida real e a vida imaginada; a memória individual e a memória colectiva de Angola, começando na guerra pela independência até ao início do séc. XIX.

Nesta brincadeira de faz-de-contas, o autor, de forma cómica e verdadeira dá-nos a conhecer os caminhos difíceis, com muitas quedas e tropeços, da História recente de Angola.

 

Yaa Gyasi pelo Povo Negro

Yaa Gyasi pelo Povo Negro

O livro “Homegoing” de Yaa Gyasi é um manifesto gritante pela vivência, coragem e preserverança do povo negro.

Não sei exactamente se podemos falar de um “povo negro”, mas o livro de Yaa Gyasi faz um argumento bem interessante sobre essa experiência de trauma, conflito e esperança partilhada que as pessoas negras de todo o mundo têm entre si.

Há livros que terminamos de ler e olhamos para o tecto, com o coração cheio e a certeza que levará muito tempo até lermos um livro tão bom novamente. Homegoing é tudo isso e muito mais!

O livro atravessa séculos e continentes seguindo sete gerações da mesma família.

Tudo começa com duas irmãs, separadas por um grande incêndio e criadas por comunidades distintas – uma pelos Fante e outra pelos Asante – que desconhecem a existência uma da outra e seguem as suas vidas separadas.

Effia casa-se com um oficial britânico, que vive do comércio de africanos escravizados no Castelo da Costa do Cabo e, Esi que é capturada e levada para a masmorra desse mesmo castelo e eventualmente traficada para os Estados Unidos da América, onde é escravizada.

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O livro segue os sonhos e pesadelos das suas irmãs. Fonte: The New York Times

A narrativa segue por ordem cronológica os encontros e desencontros das ramificações dessa família. O fogo, uma presença constante ao longo da história, representa todos os traumas, sacrifícios, dores e alegrias que atravessam os descendentes das duas irmãs.

Em cada capítulo conhecemos um novo rosto, numa nova época, e com isso as mudanças sociais, económicas e culturais tanto no Gana como nos Estados Unidos da América: a escravatura; o colonialismo; o racismo; etc.

“The family is like the forest: if you are outside it is dense; if you are inside you see that each tree has its own position./ A família é como uma floresta: se você está do lado de fore é densa; se você está do lado de dentro, você vê cada árvore na sua própria posição”

A história força-nos a olhar para nós mesmos e para o nosso papel na teia de relações em que estamos inseridos, tanto no tempo como no espaço.

Que segredos e traumas carregamos no nosso DNA? O que teria sido de mim se fosse eu nesse lugar?

Pelo olhar dos personagens, fica evidente como o legado da escravatura e do colonialismo, ditam o decorrer da vida, tanto do lado dos que foram para as Américas, como para aqueles que ficaram em África.

Primeiro as guerras tribais no Gana pré-colonial, no séc. XVIII, os horrores da ocupação britânica e do comércio de africanos escravizados; a promiscuidade entre os líderes ganenses e os britânicos no tráfico de humanos para alimentar a escravatura até à libertação do Gana.

Depois, o sofrimento e dor desses africanos traficados nos Estados Unidos da América, longe daquilo que és é familiar e despidos de toda a dignidade. A fuga, o medo e as perseguições nos anos pré e pós Guerra Civil Americana. O racismo e todos os riscos aliados à vida nos subúrbios das grandes cidades.

Tudo isto tendo o povo negro no centro de todos estes acontecimentos.

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No Castelo da Costa do Cabo de onde partiam os africanos, no Ghana, ainda ecoam as suas vozes. Fonte: The Guardian

Não há dúvidas que a obra envolveu um trabalho árduo de investigação, mas mais do que isso, que obrigou a autora, de origem ganesa, a confrontar-se com os seus próprios fogos, a sua própria origem.

Yaa Gyasi consegue guiar-nos nessa viagem de forma confortável, com as descrições fiéis ao mínimo detalhe, levando-nos à África Ocidental do séc. XVII, ao Sul dos E.U.A. no séc XIV e ao bairro de Harlem no séc. XX, terminando novamente no Gana, mas desta vez no séc. XXI.

“Every moment has a precedent and comes from this other moment, that comes from this other moment, that comes from this other moment./ Cada momento tem um precedente que vem de um outro momento, que vem de um outro momento, que vem de um outro momento.” – Yaa Gyasi

É de aplaudir a ambição de Yaa Gyasi, em re-imaginar os processos históricos e as escolhas de cada indivíduo, de cada árvore, que por sua vez, desencadeia outras reacções e como essas escolhas influenciam toda a comunidade, toda a floresta.

Ela junta-se a Chimamanda Adichie e a outras autoras africanas contemporâneas que fazem uso da História, da tradição oral africana e das vivências reais de pessoas negras para dar protagonismo a estas figuras.

A riqueza, cor e textura das suas palavras tornam esta saga familiar numa experiência universal, de busca por auto-conhecimento, por respostas e sobretudo, por origens. Só podemos evoluir, como indivíduos e como comunidade, se soubermos de onde viemos.

Choriro e a disputa pelo espaço

Choriro e a disputa pelo espaço

O livro Choriro, de Ungulani Ba Ka Khosa descreve o espaço ao Sul do Zambeze no séc. XIX

“Choriro”, que significa choro em língua local, descreve os dramas, as intrigas e esperanças em torno da morte de Nhabezi, um rei branco, que em tempos dominou a região.

Através de uma moldura temporal, Ba Ka Khosa pinta o cenário de mudanças que se faziam sentir, tanto a nível social, como político, cultural e económico. Isto claro, aliado às tradições, mitos, vivência e religiões dos povos locais e à tentativa de construção dos Impérios Britânico e Português.

O cruzamento destes olhares sobre o mundo, infelizmente, foi pago com muita sangue e com esse sangue calaram-se as vozes que podiam manter esse legado vivo.  Deste modo, o escritor, que é também historiador, tenta com a sua obra resgatar estes saberes esquecidos.

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Choriro é o resgatar a alma de um tempo. Fonte: O País

Ao morrer, Nhabezi, também conhecido por Luís António Gregódio, português de origem, tem como sonho tornar-me mpondoro – espírito guia e protector do seu povo. Ele quer transformar-se em:

“espírito de leão como outros soberanos das terras à margem sul do Zambeze se haviam transformado e governado espiritualmente os seus homens. Mas muitos duvidavam da real capacidade de o espírito de Nhabezi em coabitar com outros no selecto reino das divindades africanas.” – p.39

Como um “senhor dos prazos” Nhabezi foi fiel ao seu povo. Era muito respeitado e se acostumou rapidamente à cultura dos achicundas, de modo a que o seu tom de pele não mais representava uma ameaça ou despertava estranheza. Quando morreu, o luto dos seus veio com desorientação, tristeza, desordem.

Coloca-se a questão: Poderá Nhabezi entrar no reino dos mpondoro? Será aceite, como homem branco, no reino dos grandes e imortais reis negros?

Como pode, um chefe branco mesmo tendo assimilado todos os elementos de africanização tornar-se mpondoro?

É esta tensão entre os diferentes espaços que sentimos ao longo de todo o livro.

Os próprios filhos de Nhabezi, uns mais identificados com a cultura portuguesa e inclusivamente funcionários públicos no regime colonial e outros mais ligados à cultura achicunda, exímios caçadores de elefantes, também são exemplos desta constante negociação do sentimento de pertença.

As culturas e tradições locais das pequenas povoações dão espaço a novos costumes à medida que o reino vai-se alargando. Adicionalmente, temos os ingleses e os portugueses a disputar o comércio dos escravos. Em paralelo também há o tráfico de meninas negras virgens; a relação entre as mulheres de Nhabezi; a tensão entre a Igreja Católica e as religiões locais.

E claro, temos também a própria História de Moçambique a lutar pelo seu espaço contra a História de Portugal, e num contexto mais alargado, a História do mundo.

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O autor, em Choriro, evidencia o seu inconformismo em relação à História que nos é contada actualmente. Fonte: O País

Em “Choriro” fica subentendido que as forças que decidem estão para além de nós, ou pelo menos para além do nosso entendimento.

Tantos os conselheiros, como as mulheres, os filhos e os oráculos de Nhabezi choram mergulhados nas suas dúvidas, pois ninguém sabe sobre que regras se organizam esses espaços.

Afinal quem define essas regras? A quem cobramos esses limites?

São essas complexidades e armadilhas dos saberes ancestrais que nos envolvem e questionam. Todos nós nascemos e vivemos e vamos ganhando consciência dos espaços que ocupamos, uns mais e outros menos centrais ou periféricos.

E esses espaços, por sua vez, permitem-nos aceder a certos privilégios ou ter um determinado reconhecimento, como se prevê no caso de Nhabezi. No entanto, as regras não são tão simples assim. Por algum acidente ou coincidência podemos questionar a nossa legitimidade em ocupar tal espaço.

Será que sou digno de estar aqui? Poderei, começando neste degrau, alcançar determinado patamar? Onde pertenço?

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Embora a musa da história seja Nhabezi, por detrás desta sereia, há um mar (ou devia dizer rio?) e as suas ondas balançam, chamando discretamente pela nossa atenção.

Essa sereia seduz, é atraente e vistosa, porém os mistérios guardados pelas ondas são maiores e bem mais interessantes.

A sereia é a caricata história de Nhabezi, o rei branco, polígamo, influente no vale do Zambeze que sonha em tornar-se mpondoro como rezam as lendas locais. O mar é a sombra do colonialismo; o comércio de marfim; o tráfico de escravos; a economia de mercado; a presença cristã, enfim, a fusão que acontece entre estas influências que tragicamente destroem (ou tentam destruir) a cultura nativa.

O vale do Zambeze é, portanto, o campo de batalha onde estas disputas ocorrem.

O espaço, muito mais que o tempo, é que determina o futuro daquilo que hoje chamamos de Moçambique.

Despertar com Ngūgī Wa Thiong’o

Despertar com Ngūgī Wa Thiong’o

O escritor Ngūgī Wa Thiong’o desperta como um guerreiro na defesa da Literatura Africana.

Foi em 1959 que o jovem queniano Ngūgī wa Thiong’o, então James Thiong’o, entrou na Universidade Makerere no Uganda para adquirir o Bacharelato em Língua Inglesa.

Na altura tanto o Quénia como o Uganda faziam parte do Império Britânico. James era apenas mais um jovem africano cheio de sonhos, apaixonado por histórias, devorador de livros, ansioso para conquistar o seu espaço no mundo.

É este percurso pela Universidade Makerere e a sua descoberta – ou melhor, revelação- como escritor que nos é contada na primeira pessoa no livro “Birth of a Dream Weaver – A Writer’s Awakening” (algo como “O Nascimento de um Tecedor de Sonhos – O despertar de um escritor”).

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O escritor queniano há anos aguarda o prémio Nobel

Para além das imagens do Uganda e da vida académica nos anos 60 na Universidade de Makerere, Thiong’o oferece também uma descrição da sua transformação intelectual à medida que Uganda, Quénia e o resto da região atravessam mudanças políticas.

Estas duas transformações acontecem em simultâneo: como escritor, Thiong’o vai ganhando mais consciência da sua voz e da Verdade que pretende expor através do seu trabalho e ao mesmo tempo, há o movimento pan-africanista e as guerras de libertação um pouco por todo o continente.

É neste período que Thiong’o se estabelece como escritor e dramaturgo. Ao sair da Universidade em 1963, com apenas 25 anos de idade, já tinha um romance publicado, outro já acordado com a Editora e uma peça teatral exibida com sucesso.

De regresso ao Quénia, Thiong’o esteve envolvido na mudança do “Departamento de Língua Inglesa” na Universidade de Nairobi para “Departamento de Literatura”, colocando assim a Literatura Africana numa posição central.

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Thiong’o abandonou o nome “James” para reafirmar-se como Africano. Fonte: Geledés

Na qualidade de dramaturgo, académico e escritor sempre foi muito crítico das sociedades africanas pós-coloniais e especialmente do Quénia. Por esse motivo Thiong’o foi perseguido e enviado para uma cadeia de segurança máxima, onde decide abandonar o Inglês como sua língua criativa e passa a escrever em Gikuyu, a sua língua materna, a língua do seu povo.

E foi na prisão que escreveu em papel higiénico o seu primeiro livro em Gikuyu, “Caitani Mutharabaini” (Devil on the Cross) em 1981. O seu segundo romance em Gikuyu “Matigari” foi publicado em 1986.

O então presidente queniano, Daniel Moi emitiu um mandado de prisão para a personagem principal, pensando que se tratava de uma história real. Apercebendo-se do ridículo, proíbe então a venda e distribuição do livro em todo o país.

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O autor viveu em exílio por 20 anos. Fonte: Ngugi Wa Thiong’o website

Thiong’o descobre o poder de contar a sua Verdade na sua língua materna, o Gikuyu.

Segundo o autor, só poderemos falar numa autêntica Literatura Africana quando deixarmos de usar línguas coloniais para contar as nossas histórias. Os escritores africanos encontrarão a sua voz, a sua verdade ao falarem a sua língua nativa.

Para ele este é um dos pontos centrais para uma verdadeira descolonização de África.

 

O regime colonial passou por impor o uso da língua do colonizador ao colonizado e chegou até a proibir o uso das línguas nativas dos colonizados. Este processo fez parte da opressão sistemática a que eram expostas as sociedades que foram invadidas e colonizadas pelos projectos Imperialistas Europeus. O processo englobava ainda restrições psicológicas, físicas e culturais que impediram a evolução e desenvolvimento de uma consciência nesses povos.

Nesse sentido, a África pós-colonial deveria usar a língua como arma para a reafirmação da identidade dos povos livres. Contudo, pelo contrário, no contexto pós-colonial usou-se da língua do colonizado como ferramenta para criar uma nova identidade, deixando para trás a original.

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Thiong’o considera-se um contador de histórias. Fonte: Los Angeles Review of Books

Para o queniano a língua é um direito humano, e como tal não existem línguas melhores que outras. Deste modo, todos os povos têm direito a usar a sua língua, seja para conteúdo oral, como escrito: em livros, na academia e em todas as esferas sociais.

“Language as communication and as culture are then products of each other. Communication creates culture: culture is a means of communication. Language carries culture, and culture carries, particularly through orature and literature, the entire body of values by which we come to perceive ourselves and our place in the world. / Língua como comunicação e como cultura são produtos um do outro. A comunicação cria cultura: cultura é um meio para comunicação. A língua transporta a cultura e a cultura transport, particularmente através da oralidade e da literatura, todo o corpo de valores através dos quais nós nos entendemos e o nosso espaço no mundo.”

 

Desde 1959, quando entrou na Universidade Makerere como um jovem africano colonizado a 1964, quando se graduou como cidadão queniano livre, Thiong’o defendeu sempre a pertinência da Verdade africana para Africanos.

De James para Ngūgī, o seu nascimento e crescimento como artista foi profundamente marcado pela crescente consciência do seu papel como criador de Literatura Africana.

 

Inhassunge é aqui

Picture-0399.jpgO livro “O advogado de Inhassunge” levanta questões tão actuais hoje como o tempo que retrata, de guerra civil e reconciliação.

Através da obra de Luís Loforte conhecemos Luiz Conde do Lavradio Almeida de Leão, um cidadão moçambicano negro do distrito de Inhassunge, na Zambézia, que almejava ser um português branco e gozar de todos os privilégios associados a esse estatuto.

Luiz Conde do Lavradio Almeida de Leão era um solicitador que pretendia ser assimilado e para tal fazia-se usar de um português caro e elaborado, vestindo-se com as melhores roupas que o seu dinheiro permitia e fingindo até não ser esposo da sua mulher, uma negra camponesa, que chega a dizer ser sua empregada.

Enquanto tratou dos assuntos legais de outros negros não teve problemas, no entanto, no momento em que se passa por advogado de dois brancos é perseguido e por isso tem de fugir para o Norte do país, onde adopta uma nova identidade e passa a ser guerrilheiro da FRELIMO.

Durante a sua vida vai-se adaptando às realidades impostas transformando-se em várias pessoas perdendo-se até de si mesmo. Passa de guerrilheiro a oficial de campo de reeducação,  bêbado vagabundo, herói de libertação nacional e por fim deputado.

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Moçambique tornou-se independente em 1975.

Numa dança entre a História e a ficção, Luís Loforte dá-nos a conhecer algumas figuras anónimas que tornaram o sonho (ou pesadelo) de Moçambique possível e leva-nos a questionar os conceitos de identidade, de guerra e até mesmo de nacionalidade.

Numa das passagens mais emocionantes, o protagonista revela a sua frustração com a vida que é obrigado a levar, descrente de qualquer ideal e sem nenhum sonho pela frente:

“Estou cansado de me iludir […]. Agora quero que os outros se iludam por mim, caso desejem […]. No passado, eu iludia-me que era português puro […], mas tive que fugir deles, porque fizeram-me ver que eu não era português nada, que me iludia. Depois, tentei iludir-me que era moçambicano, forcei-me com essa ilusão […]. Todos estes anos eu fui-me libertando de todo o género de ilusões cuja origem era eu próprio. Nunca ganhei nada com ilusão nenhuma.”

À medida que a trama se desenrola e o advogado assume outras identidades, começa a distanciar-se do cinismo e do egoísmo dos seus camaradas. A sua consciência não lhe permite ser cúmplice da corrupção e falta de humanidade da nova elite política moçambicana, que segundo ele não difere da anterior.

A obra evidencia a falácia da Independência como solução definitiva para a construção de um Moçambique totalmente novo. O Moçambique pós-independência revelou-se não ser necessariamente menos repressivo nem menos violento que o Moçambique colonial.

Uma das grandes falhas foi a ilusão do projecto nacional. De facto, nos anos imediatamente posteriores à independência não havia um sentido de Nação. E um dos grandes cismas era a dicotomia “branco-negro”, uma clara herança do passado colonial.

No livro, o autor descreve-nos este insucesso mais à frente, através de um diálogo profundo:

“Para mim brancos e pretos não agarraram o verdadeiro problema do nosso país. O verdadeiro problema é que uns e outros se tomam como entidades; há entidades de brancos e de pretos; começam agora a aparecer a entidade dos mulatos e a entidade dos indianos. Não há uma entidade dos moçambicanos. […] Falta-nos um projecto de todos”

Assim, sem um sentido de fraternidade Moçambique foi novamente palco de uma guerra sangrenta, desta vez entre moçambicanos (negros) e não contra os portugueses (brancos). Por isso é difícil apontar o dedo à culpa. Quem causou tanta dor? Por que morreram tantas pessoas?

Moçambique pós-independência falhou.

As polaridades binárias continuaram a evidenciar-se, muitas vezes até por incentivo das lideranças que numa tentativa de reposição de dignidade e promoção de igualdade, totalizaram esses campos de identidade.

Nos campos da fé, género, etnia, identificação política e raça, entre outros, moçambicanos foram forçados a escolher o seu lado, mesmo sabendo que nenhuma identidade é absoluta.

Ou és negro, ou és branco. Ou és português, ou és moçambicano. Ou estás connosco, ou estás contra nós.

E estas classificações se perpetuaram até hoje, pois fazem parte de um contexto histórico válido e correspondem também a uma série de privilégios ou privações a que um determinado grupo está sujeito.

O advogado de Inhassunge é simultaneamente um guerrilheiro conhecedor do mato. É Luiz, aspirante a assimilado e é também Ndala, nacionalista. É um mendigo bêbado e é igualmente deputado da maior bancada da Assembleia.

Cada um de nós é muitos eus. Moçambique é todos esses muitos.

 

 

 

5 livros para o Ano Novo

Pouco posso dizer sobre o ano que nos despede, e menos ainda sobre o ano que se aproxima. Deixo por isso estes 5 livros que me marcaram muito em 2016, cada um com a sua particularidade mas todos eles especiais e dignos de um espaço nesta lista.

Espero que em 2017 eles tenham o mesmo impacto que tiveram na minha vida, na vida de outra pessoa.

Under the Udala Trees – Chinelo Okparanta

“Com um homem a vida é difícil. Sem um homem a vida é ainda mais difícil”

Esta frase resume bem parte do dilema em que vive Ijeoma: entre viver numa sociedade patriarcal casada com um homem, mesmo sendo infeliz ou viver numa sociedade patriarcal e homofóbica com uma mulher e tentar ser feliz no meio de tanto ódio.

Este livro é um emocionante romance que retrata a vida da jovem Ijeoma, uma menina e mais tarde mulher nigeriana nos anos 70 e 80. Ijeoma vê-se em conflito com a sua religião, a sua família e a sociedade em que vive à medida que vai descobrindo a sua sexualidade.

Nervous Conditions – Tsitsi Dangarembga

“Podes cozinhar livros e alimentá-los ao teu marido? Fica em casa com a tua mãe. Aprende a cozinhar e a limpar. Planta vegetais.”

Durante o período pós-colonial no Zimbabwe, Tambu, uma menina de 14 anos, toma posse da sua voz e conta a sua versão dos factos que lhe levaram a libertar-se do fatídico destino de ser apenas mais uma mulher perdida no mato, sem estudos nem profissão.

Mais do que isso, através de Tambu conhecemos outras mulheres, cada uma com uma história para contar apesar das adversidades de um mundo dominado por homens. O livro permite-nos entender e até perdoar as escolhas de todas elas.

Efuru – Flora Nwapa

“Uma boa mulher é aquela que te cumprimenta vinte vezes se te visse vinte vezes num dia.”

Neste livro, do qual já falei aqui no blog, conhecemos a trajectória de Efuru desde a sua juventude, com o ritual da circuncisão feminina, até ao casamento, a maternidade e por fim a sua resignação face às expectativas da sociedade para com as mulheres.

A tragédia de Efuru é a sua inabilidade de se encaixar no padrão de “Boa Mulher, pois apesar de ser uma mulher carinhosa, prestativa e tradicional, não é mãe.

We Need New Names – NoViolet Bulawayo

“Porque nós não estávamos no nosso país, nós não podíamos usar as nossas próprias línguas, então quando falávamos as nossas vozes saíam feridas.”

Darling narra as aventuras dos seus amigos no Zimbabwe, na era pós-colonial. Toda a primeira parte do livro é-nos descrita pelos olhos inocentes das crianças que nada conhecem para além da sua pobreza e miséria.

Posteriormente Darling viaja para os Estados Unidos da América, onde espera viver longe da tristeza, choque e terror do seu país, no entanto percebe que o sonho americano não passa de uma fantasia e é obrigada a enfrentar a dura realidade de ser imigrante.

Difficult daughters – Manju Kapur

“Uma mulher sem o seu próprio lar e família é uma mulher sem amarras”

O livro segue três gerações de mulheres indianas, partindo da perspectiva da mais nova a tentar descobrir e perceber a sua mãe, Virmati.

A história é acima de tudo sobre a luta pela liberdade: a descolonização da Índia; a possibilidade de estudo para as mulheres e a vontade de poder ser mais do que a sociedade deixa. Virmati é o centro desta encruzilhada entre a tradição e o moderno; o individual e o colectivo, e o futuro e o passado.

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Livro Difficult Daughters na minha cabeceira.

Bónus: Boy, Snow, Bird – Helen Oyeyemi 

“Por razões que cá eu sei, eu tomo nota da forma como as pessoas se comportam quando estão perto de espelhos.”

Este é um conto de fadas muito peculiar que decorre nos EUA, nos anos 60 quando a segregação racial ainda era uma realidade. Os caminhos de três mulheres se cruzam, num mundo mágico e surreal, em que é impossível escapar ao mundano.

A autora consegue explorar temas como o racismo; colorismo e sexualidade, com uma naturalidade envolvente.

Para que(m) serve a CPLP?

Há alguns meses, aquando do vigésimo aniversário da CPLP, comentei que a CPLP era uma espécie de prisão para nós. 

Vivemos numa ditadura do Português, pois no nosso consciente essa é a nossa Língua e faz parte da nossa identidade como Nação. Mesmo o nosso ensino bilíngue ainda é muito imaturo e não consegue dar resposta aos nossos problemas, pois a grande maioria da população em Moçambique não fala Português, mas sim uma outra língua local.

Por que é que as pessoas que falam, por exemplo, o changana não podem aprender a ler e escrever em changana? Por que é que não criamos alianças com países vizinhos para falarmos as nossas línguas em comum?

Nós metemos na cabeça que a Língua Portuguesa é nossa esposa e todas as outras línguas que falamos são nossas amantes, obrigadas a viver na clandestinidade e longe dos espaços públicos. É a CPLP sustenta essa ideia de nós mesmos, fazemos parte desta “comunidade” e não criamos uma comunidade de países que falam swahili ou makhwua.

Na África do Sul, por exemplo, nos hospitais há cartazes em línguas locais. Isso facilita o acesso a este serviço. Mas as nossas línguas locais são praticamente invisíveis na esfera pública.

Pouca é a nossa literatura em línguas locais e as grandes editoras investem mais em Português. Imaginem quantos escritores já perdemos assim! Temos exímios contadores de histórias, mas o seu legado fica pela oralidade.

Outros jovens de países vários tiveram opiniões semelhantes. Qual é a relevância da CPLP nos dias de hoje?

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O Ministro dos Negócios Estrangeiros Português, Augusto Santos Silva, tem uma opinião diferente. Para ele, a Comunidade baseia-se num princípio de igualdade entre todos:

“São Estados soberanos, iguais em direitos, iguais em responsabilidades. Têm um traço de união fundamental, que é a língua portuguesa, uma língua que pertence a todos, na diversidade com que a usam e enriquecem.” – 20 anos de CPLP: a melhor juventude

No entanto, as bases onde se apoia a CPLP têm origem na teoria do luso-tropicalismo e é por isso que é difícil falarmos numa relação de amizade e apoio mútuos, quando durante todos anos houve – e ainda há – um desequilíbrio na distribuição de poder.

No Brasil, quando participei do Festival do Rio tive o privilégio de assistir o filme moçambicano “Comboio de Sal & Açúcar”, do realizador brasileiro radicado em Moçambique Licínio de Azevedo. Para a minha surpresa o filme, falado em Português de Moçambique, estava legendado para o Português do Brasil. Achei ridículo!

Quando as novelas brasileiras são transmitidas aqui não assistimos com legendas! É como se o nosso Português fosse um dialecto primitivo imperceptível aos outros falantes da Língua Portuguesa. Não sei se os filmes de Portugal tiveram o mesmo tratamento, por exemplo. Mas de qualquer uma das formas já demonstra uma certa arrogância dos brasileiros ao assistir uma obra cinematográfica moçambicana falada em Português.

O mesmo se pode dizer do exame de Português a que estudantes moçambicanos são submetidos quando se candidatam a bolsas de estudo no Brasil.

Para que serve essa tal Comunidade dos Países de Língua Oficial Portuguesa (CPLP) senão para legitimizar a língua como elo comum a todos? Por que então, há uma hierarquia do Português que se fala?

E outra coisa, se a língua é de facto de todos, nós temos tanto direito de alterá-la e usá-la como melhor acharmos no nosso contexto como qualquer outro falante de outro país. Da mesma forma que o Brasil tem palavras e expressões próprias, que nós tentamos entender, nós também temos as nossas e não sinto que estas sirvam de impedimento para quem vê o filme.

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O Novo Acordo Ortográfico gerou polémica na Comunidade.

A propósito, é exactamente esse o grande debate em torno do Novo Acordo Ortográfico. O acordo é um acto violento contra os diferentes léxicos dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP).

Supostamente o objectivo do Acordo é facilitar o intercâmbio cultural e científico e ao mesmo tempo ampliar a divulgação do idioma, no entanto é uma forma de nos obrigar a falar como os brasileiros e os portugueses falam, como se a língua deles tivesse se desenvolvido por auto-combustão e não pelos mesmos processos de transformação que acontecem em todas as línguas (neologismos; estrangeirismos; etc).

Na mais recente cimeira da CPLP, realizada no Brasil, falou-se de um projecto de livre circulação dentro da CPLP.

Neste momento o mais urgente é a facilitação na obtenção de vistos de residência e o reconhecimento de diplomas, o que tem sido especialmente difícil para os Portugueses e Brasileiros a viver em outros países.

Para nós africanos habituados a mendigar para obter vistos e acostumados com a nossa condição de cidadãos de segunda classe, isto é um tema antigo que já deixou até de ser urgente.

Não se sabe como irá funcionar ou quais as implicações da livre circulação para aqueles que aderirem ao projecto, mas certamente não irá beneficiar todos de forma igual.

Há muito que a Europa e a América do Sul beneficiam da migração africana, aliás, não sei o que teria sido do Euro sem os imigrantes (e/ou afrodescendentes) a vestir a camisola dos ex-colonos.

 

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Os imigrantes africanos em Portugal continuam escondidos – Fonte: DW.com 

 

Hoje Portugal surpreende-se pelo talento proveniente dos PALOP. Já não servimos apenas para trabalhar nas obras ou como empregadas domésticas, mas também somos artistas, engenheiros, médicos, etc.

Com muito esforço as comunidades afrodescendentes começam a ganhar espaço central e com as recentes crises na Europa e América do Sul, os movimentos de migração começam a acontecer em várias direcções. Adicionalmente, as descobertas de riquezas mineiras em países como Moçambique e Angola atraem vários empresários, especialmente aqueles que falam o Português.

É importante que esta nova dinâmica fuja do ideal colonial de irmandade e promova o uso de todas as variantes da mesma língua. Agora queremos o Português na ONU. Mas que Português? O “novo” ou o Antigo?

E acima de tudo… Será que quando o Presidente Moçambicano falar na ONU, os restantes Presidentes da CPLP precisarão de legendas também?

Que Nobel é esse?

Mais um ano. Mais um Nobel. Mais uma decepção.

Este ano o Nobel não atribuiu nenhum prémio a mulheres. Nem a pessoas negras. Nem tão pouco a pessoas Africanas.

Os poucos prémios que vão tradicionalmente a estes grupos, Nobel da Literatura e Nobel da Paz – já que aparentemente não temos capacidade intelectual e/ou material para produzir inovações técnicas – este ano foram para homens.

A falta de diversidade nas grandes Academias não é novidade.

No início do ano, durante os Óscares houve um boicote pela falta de representatividade de filmes e actores negros nas nomeações. A campanha #OscarsSoWhite desencadeou um debate sobre a falta de diversidade da Academia e das histórias premiadas.

O que acontece é que a premiação de um determinado grupo valida a produção feita por esse grupo e o seu prestígio, possibilitando mais produção. Isto gera um ciclo vicioso em que o mesmo grupo tem sempre oportunidades de crescimento e financiamento para levar à frente aos seus projectos – sejam no cinema; na literatura; na medicina ou em qualquer outra área de intervenção.

Aumenta-se assim o desnível entre esse grupo privilegiado e os restantes que não conseguem ter os prémios como reconhecimento da sua excelência.

Este ano, numa decisão arrojada, o Prémio Nobel da Literatura foi para Bob Dylan, músico e liricista conhecido pela natureza poética das suas canções. Este foi provavelmente o prémio mais comentado de 2016.

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Bob Dylan foi o escolhido para o Nobel da Literatura 2016. Fonte: Nobel Prize

Bob Dylan, ao contrário do que se tem vindo a dizer,  não é o primeiro liricista a ser galardoado com o Prémio Nobel da Literatura. Em 1913, Rabindranath Tagore, poeta, escritor e liricista indiano levou o Nobel da Literatura.

À semelhança de Dylan, Tagore aprendeu muito do seu ofício sozinho. A sua obra influenciou e foi influenciada pelo movimento pacifista na Índia e a sua independência. Embora o Nobel tenha vindo como reconhecimento pelo seu trabalho como poeta, escritor, dramaturgo e romancista, ele escreveu mais de 2000 músicas. Três dessas canções foram usadas para os hinos nacionais da Índia, Bangladesh e Sri Lanka.

Mas Bob Dylan foi premiado justamente pela sua contribuição a nível musical.

Ainda que discorde da atribuição do Nobel a Bob Dylan, tenho de admitir que premiação de alguém que foge à norma daquilo que é um Nobel da Literatura, de certa forma alarga os horizontes para outros artistas que contam as suas histórias de outras maneiras.

Artistas como Youssou N’Dour (Senegal) ou Miriam Makeba (África do Sul) são dois exemplos de músicos com uma forte componente literária e cujas carreiras foram para além da música, marcadas também pela intervenção social que poderiam facilmente ter um Nobel da Literatura para si.

São artistas que conseguiram, tal como Bob Dylan, incorporar um estilo literário nas suas canções, sobretudo devido à longa tradição oral que há em África.

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Miriam Makeba ficou conhecida internacionalmente como “Mama Africa”

Os nossos melhores contadores de histórias nunca publicaram livros, mas deixaram um vasto legado de lendas e epopeias fantásticas, muitas vezes cantadas que foram passadas de geração a geração.

Arrisco-me a dizer que as nossas melhores obras de Literatura jamais serão escritas. Ou talvez, as versões escritas dessas obras jamais serão tão boas como aquelas ditas.

As palavras ditas têm uma dimensão maior, de preservação de sabedoria e de ligação com os antepassados ao mesmo tempo que se interage com a plateia, no Presente. As palavras ganham mais poder com voz.

Foram os contadores de histórias anónimos na História, porém conhecidos entre nós – os nossos avós; mães; tios; médicos tradicionais; líderes comunitários; professores – que sedimentaram as bases para artistas como Wole Soyinka (Nobel da Literatura em 1986) e Chinua Achebe (autor de Things Fall Apart) desenvolverem o seu talento, passando para o papel toda a herança de provérbios, fábulas e lendas milenares.

Achebe, considerado por muitos como o Pai da Literatura Africana, nunca ganhou o Nobel. Até à sua morte, os africanos esperavam ver o prémio nas suas mãos, no entanto ele sabia que o Nobel tinha tanto a ver com talento, como tinha com geopolítica:

“My position is that the Nobel Prize is important. But it is a European prize. It’s not an African prize … Literature is not a heavyweight championship. Nigerians may think, you know, this man has been knocked out. It’s nothing to do with that.”

A minha posição é que o Prémio Nobel é importante. Mas é um prémio Europeu. Não é um prémio Africano… Literatura não é um campeonato de boxe. Os nigerianos podem pensar, sabe, este homem foi derrotado. Não tem nada a ver com isso.

De facto, o Nobel é um Prémio Europeu. Este ano, dos 11 vencedores, apenas três são de fora da Europa: Bob Dylan, Nobel da Literatura, é dos Estados Unidos da América; Yoshinori Ohsumi Nobel da Medicina, é do Japão e o Nobel da Paz, Juan Manuel Santos é colombiano.

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Ngugi wa Thiong’o escreve desde 1962. Fonte: Website Ngugi wa Thiong’o

O queniano Ngugi wa Thiong’o era a aposta africana para o Nobel da Literatura 2016. O autor de 78 anos é um ícone literário, cujo trabalho está intimamente ligado à sociedade queniana pós-colonial e aos conflitos entre as tradições africanas e os costumes ocidentais.

Devido às fortes reacções ao seu trabalho, já foi preso político e viveu exilado por mais de 20 anos. Foi nesse período que mais se debateu com questões de identidade e de resistência ao Imperialismo, o que o levou a decidir, no fim dos anos 70 a parar de usar o Inglês e passar a usar Kikuyu, a sua língua materna, para escrever.

Pela relação difícil no seu país de origem, Thiong’o nunca foi premiado no Quénia. Mesmo na região da África Oriental não existem prémios literários e no geral, pouco foi o reconhecimento dado pelos africanos. Dos dez Doutoramentos Honorários que tem, apenas dois são de Universidades africanas: Universidade de Dar Es Salaam (Tanzania) e Universidade Walter Sisulu (África do Sul).

Seja como dramaturgo ou romancista, Thiong’o incorpora os elementos da tradição oral africana e demonstra qualidades de um exímio contador de histórias: provocante; actual; envolvente; original e expressivo.

Se tivesse ganho o Nobel este ano Thiong’o seria, depois de Naguib Mahfouz que escrevia em Árabe, o segundo autor a ganhar um Nobel da Literatura com obras escritas primeiramente numa língua africana e o primeiro na categoria “dialectos” africanos.

Mas talvez África precise de ser a primeira a reconhecer e premiar Thiong’o pelo seu talento, pela sua sua visão e pelo contributo para o desenvolvimento de uma consciência cultural e moral africana. Só depois disso podemos exigir mais dos outros.

Não nos podemos isentar da luta pela resistência à hegemonia das línguas europeias. Que sejamos nós os promotores de produções nas nossas línguas e sobre as nossas histórias.

 

 

 

O mundo se despedaça

Ou Things Fall Apart, geralmente em África. Quase sempre em África.
Neste clássico da literatura africana, Chinua Achebe nos traz a história de Okonkwo, um famoso guerreiro Igbo e como a sua vida muda com a chegada dos primeiros missionários britânicos à Nigéria, no  início do séc. XIX.
No livro, o autor consegue resumir as complexidades das sociedades Igbo da época, incluindo provérbios e fábulas, bem como rituais e deuses locais no seu discurso. Ao mesmo tempo, sente-se que essas sociedades transpiram um certo cansaço e vontade de questionar os seus costumes.
Somos constantemente forçados a escolher um lado: o tradicional ou o moderno; o colonialismo ou o tribalismo; o animismo ou o Cristianismo; o masculino ou o feminino; a ignorância ou a consciência. Várias tensões nascem destes contrastes.
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Okonkwo ganhou fama ao ganhar uma aldeia rival em Luta Livre.
Okonkow, o personagem principal é nesse sentido a maior antítese da história.
Ele é um homem misógino, extremamente violento, esposo e pai abusivo, impaciente e intolerante, ambicioso e acima de tudo, tradicionalista.
Um homem que conquistou os seus títulos e respeito com brutalidade. Sem herança do seu pai para ajudá-lo. Colecionador das cabeças das suas vítimas. Ele representa tudo aquilo que a sociedade Igbo exigia do homem da altura.
Ironicamente, ele também sofre bastante sendo um homem Igbo: primeiro, é obrigado a matar o seu filho adoptivo. Mais tarde, é enviado para o exílio durante 7 anos para pagar por um crime que cometeu involuntariamente. E com a chegada dos britânicos, vê-se obrigado a desonrar o seu filho mais velho quando ele se converte.
E porque ele teve de se auto-mutilar emocionalmente, de lutar para ser essa pessoa, ele queria preservar a estrutura que lhe dava poder. Ele não queria mudar as suas visões conservadoras e ser obrigado a confrontar-se com todas as suas imperfeições.
Okonkwo queria garantir a preservação e manutenção da sua masculinidade e da sua posição na sociedade em que estava inserido.
Contudo, apesar das suas falhas – e não são poucas! – Okonkwo é apenas um homem que quer o melhor para a aldeia Umuofia e vê esse futuro ameaçado com a crescente comunidade cristã na região. Numa passagem, ele diz aos outros homens poderosos da aldeia:
“The white man is very clever. He came quietly and peaceably with his religion. We were amused at his foolishness and allowed him to stay. Now he has won our brothers, and our clan can no longer act like one. He has put a knife on the things that held us together and we have fallen apart.” 
 
O homem branco é muito espero. Ele veio calma e pacificamente com a sua religião. Nós nos divertimos com as suas palhaçadas e permitimos que ele ficasse. Agora ele convenceu os nossos irmãos e o nosso clã já não é unido. Ele pôs uma faca nas coisas que nos uniam e nós nos dividimos.
Ao chegar às aldeias, o Cristianismo ofereceu refúgio e amparo àqueles que na sua comunidade viam-se marginalizados ou eram isolados, como eram os gémeos (que se acreditava serem uma maldição); as mulheres incapazes de ter filhos e os homens sem terra nem títulos, entre outros.
Por outro lado, ao desmascarar todos estes mitos e a impôr a Bíblia como base para se aplicar a Justiça, o Cristianismo criou conflitos, separando famílias e tirando a dignidade de muitas pessoas respeitadas na comunidade.
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Praticantes de luta livre na Nigéria. Foto: Jack Picone

Achebe é dos mais premiados e célebres autores africanos.

Através dele, somos obrigados a confrontar a inevitabilidade de mudança das sociedades Igbo da época. No entanto, a violência com essas mudanças foram traçadas e as soluções impostas são igualmente colocadas em perspectiva.
Para o autor, o que se perdeu foi dignidade e isso é o que se deve reconquistar.
“The worst thing that can happen to any people is the loss of their dignity and self-respect. The writer’s duty is to help them regain it by showing in human terms what happened to them.”
 
A pior coisa que pode acontecer a qualquer povo é a perda da sua dignidade e respeito próprio. O dever do escritor é ajudar a reconquistá-los mostrando de uma forma humana o que aconteceu.
E o que foi que aconteceu?
África como uma força com vontade própria e modelos políticos e religiosos sólidos, deixou de existir. Acabou. Finito.
As regras, espíritos, deuses, nomes, datas, lendas e tudo o que faz parte do imaginário de qualquer sociedade foi gradualmente apagado.
No fim, não importa se os colonos eram gentis ou brutos; se eram tolerantes ou vingativos; se chegaram com armas ou com a bíblia. Importa o facto da sua presença ter colocado em causa a ética, filosofia e governação das sociedades Africanas.
Importa o facto dos colonos terem sido intransigentes e austeros na sua presença. Mataram. Roubaram. Bateram. Expulsaram.
A voz de África se silenciou.
O fim trágico com que se fecha a última página do livro deixa claro como a assimilação, total ou parcial, da cultura, hábitos e filosofia dos invasores britânicos mudou para sempre o destino dos Africanos, mesmo daqueles que mais se opuseram ao colonialismo como foi Okonkwo.