Perceber a Medicina Tradicional Africana

A Medicina Tradicional Africana é muitas vezes vista como uma ciência subdesenvolvida, mas é uma ciência milenar

Segundo a Organização Mundial da Saúde, aMedicina Tradicional é “a combinação total de conhecimentos e práticas, sejam elas aplicáveis ou não, usadas no diagnóstico, prevenção e eliminação de doenças físicas, mentais e sociais que podem assentar-se em experiências passadas, e na observação transmitida de geração em geração, de forma oral ou escrita.”

Ou seja, é isto que constitui a Medicina Tradicional tanto em África como na China, por exemplo. No entanto, a Medicina Tradicional Africana é talvez a expessão mais visível do Pensamento Filosófico Africano, que vê o ser humano como resultado de condições materiais (corpo; terra; sol; água; etc) e imateriais (antepassados; crenças; etc).

Apesar de África ser um continente vasto que engloba várias culturas, etnias e nações, tem uma Filosofia peculiar que perdurou milhares de anos. Na Filosofia Africana a comunidade prevalece o indivíduo, ou seja, o sentido de pertença e partilha, de respeito e mutualidade entre o “eu” e os “outros” é um principio máximo.

Deste modo, a Medicina Tradicional Africana é interdisciplinar. Engloba a biologia, farmacologia, biomedicina, mas também a justiça e a religião, formando um código complexo de saberes tradicionais.

 

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A Medicina Tradicional deve ser incorporada nos sistemas de saúde publica. Fonte: The conversation

Tal como outras Civilizações, as Civilizações Africanas foram, ao longo dos anos, afectadas por várias pragas e doenças e tiveram de usar-se da Natureza para se protegerem e sobreviverem.

Dessas experiências surge uma ciência forte, assentada na farmacopeia tradicional, mas também composta por crenças religiosas que dura até hoje.

Durante o período colonial a Medicina Tradicional Africana, como várias outras componentes da cultura africana, foi tratada como um “não saber”. Por ser uma prática que incorpora em si superstições, nunca se olhou para ela como ciência.

Os colonialistas, que tinham uma forte herança católica, designaram a Medicina Tradicional de obscurantismo e feitiçaria, acusando os médicos tradicionais de burlões e mafiosos – fama que dura até hoje – e desencorajando, com penas fortes, a consulta e acesso a estes serviços.

Contudo, vale lembrar que vários médicos e investigadores europeus durante essa época foram recolhendo informações e observando como os médicos tradicionais africanos faziam o uso das plantas e aplicavam as suas técnicas.

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O povo Banyoro já fazia cesarianas quando era raro na Europa. Fonte: Black & African History

É o caso do médico Robert Felkin que em 1878, chega ao actual Uganda como missionário e surpreende-se ao ver a agilidade com que os médicos locais faziam cesarianas em mulheres grávidas com sucesso, salvando a mãe e o bebé, o que era raro na Europa.

Num tempo em que o conceito de propriedade intelectual não se debatia como actualmente se faz,  muitos foram os cientistas europeus que, com os seus jardins e herbanários, apropriaram-se desses conhecimentos, compilando muito dessa ciência e incorporando-a na Medicina Ocidental.

Uma vez que a Medicina Tradicional Africana entende a vida humana como multidimensional, a saúde – e consequentemente a doença – também é encarada sobre esse olhar.

Uma pessoa saudável é aquela que não só está bem fisicamente, mas também está bem com a sua comunidade, é respeitada e segue os princípios que regem o mundo, dentro desta moldura ética.

Deste modo, entende-se a doença, seja esta física ou mental, como um sinal de desequilíbrio no Universo. E a doença de um indivíduo afecta por isso toda a comunidade.

A doença é a manifestação física, mas o sofrimento ultrapassa essa dimensão e é aí que entra a força religiosa.

Por exemplo, alguém que abandona certas tradições e não segue certos rituais que são vistos como essenciais, pode vir a sofrer de doença grave como resultado da sua desobediência. Romper com tradições significa quebrar uma ligação milenar com os seus antepassados.

O médico tradicional é por isso mais do que um simples farmacêutico, ele é também psicólogo, juiz e até mesmo padre. É ele quem faz o diagnóstico e define a cura a saúde física, espiritual e psicológica, bem a salvaguarda dos princípios éticos e morais daquela pessoa que na verdade afectam toda a comunidade.

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O médico tradicional é preparado para ser além de responsável e eficiente, um bom ouvinte, orgulhoso de si mesmo, de sua tradição e cultura. Fonte: Afreaka

Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 80% da população africana deixa os seus cuidados médicos a cargo de médicos tradicionais.

Os médicos tradicionais são educados desde cedo, durante anos, para exercerem a sua profissão. Ser médico tradicional não é algo voluntário, mas sim um dom com o qual a pessoa nasce e que deve ser treinado.

Infelizmente, com os fluxos migratórios e o êxodo rural, muitos jovens abandonaram as suas vilas e aldeias. Esta factor quando combinado à demonização das religiões africanas, resultou num abandono também desta profissão.

Os médicos tradicionais já não têm o mesmo prestígio nem lhes é conferido o mesmo respeito que antigamente. Pelo contrário, especialmente nas zonas mais urbanas, são ridicularizados e existe uma descrença generalizada no seu papel. Ainda é tabu falar sobre o assunto.

Embora estes vivam praticamente na marginalidade e em alguns casos clandestinidade, a OMS reconhece a sua importância para os serviços de saúde materno-infantil, cuidados gerais e doenças não agudas.

Num tempo em que a ciência actual começa a abrir portas para soluções alternativas e cala-se perante doenças sem cura e epidemias que dizimam milhares de pessoas todos os anos, é essencial reconhecermos e aprendermos mais com a Medicina Tradicional Africana.

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