Monsieur Macron, vamos lá falar!

Monsieur Macron, vamos lá falar!

O Presidente francês fez alguns comentários recentemente sobre o estado actual de África que despontaram grandes debates.

Durante a cimeira dos G20, quando um jornalista da Costa do Marfim perguntou sobre a possibilidade da implementação de um programa em África como o Plano Marshall (Europa) , o Emmanuel Macron afirmou que os problemas enfrentados actualmente pelo continente africano são completamente diferentes, pois são civilizacionais e mais tarde ainda refere-se ao facto de as mulheres terem 7 a 8 filhos como um factor central para o sub-desenvolvimento do continente.

Bem, primeiramente, a taxa de fecundidade a nível do continente é de 4,45 filhos por mulher segundo dados da ONU de 2009. O único país Africano perto do número referido por Macron é o Níger, em que cada mulher tem em média 7,6 filhos.

Depois, vários foram os estudiosos que confirmaram que não é o sobre-povoamento que causa pobreza, mas sim a pobreza que causa sobre-povoamento. Ou seja, sociedades com níveis de literacia baixos e pouco acesso a serviços de saúde de qualidade estão mais predispostas a fazer muitos filhos. Pelo contrário, se esses “muitos filhos” conseguirem viver num ambiente mais propício ao seu desenvolvimento, provavelmente farão menos filhos.

Para além disso, a ideia em como recai na mulher todo o peso do desenvolvimento de um país inteiro é não só machista, como distrai-nos de questionar o papel de políticas imperialistas e neo-colonislistas em vigor nos países africanos.

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Macron não é diferente dos restantes líderes ocidentais. Fonte: This is Africa

Macron, ainda nessa resposta fala no combate à corrupção e em melhor governação.

Nos últimos 50 anos África assistiu a mais de 26 golpes de Estado (ou quase isso) sendo que 16 destes aconteceram em países que tinham sido colónias francesas.

Adicionalmente, até hoje 14 países africanos “francófonos” pagam €440 bilhões anualmente para a França. Estes países devem pagar 85% das suas reservas em moeda estrangeira ao Banco Central Francês.

Ou seja, a política externa da França no que toca aos países africanos mostra que ainda é baseada numa visão colonialista, em que os países “francófonos” são uma extensão do seu território na Europa.

O papel da França no genocídio de Ruanda, no assassinato de Thomas Sankara e mais recentemente na morte de Gaddafi, ainda que por esclarecer, mostra como a França tem agido tendo em conta os seus próprios interesses e não o crescimento e desenvolvimento do continente africano.

Isto evidencia o papel da França no sub-desenvolvimento de África e de África no desenvolvimento da França.

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Por que são tão importantes as ex-colónias africanas para a França? Fonte: Mail & Guardian

A instalibilidade do continente é em grande parte resultado da interferência ocidental em África.

Tudo o que foi dito por Macron – ou grande parte – é verdade, mas não é o problema, não é a doença. São apenas sintomas: Estados descredibilizados; conflitos armados constantes; fraco controle da natalidade; etc.

Estas verdades são a parte material, a parte visível. Mesmo se esses sintomas não estivessem lá teríamos outros, e precisaríamos de ajuda à mesma.

Foi o Ocidente que instalou estes regimes corruptos para melhor manipularem os povos e servirem os seus interesses e depois vêm aqui falar em corrupção e boa governação. Isto para não mencionar as medidas racistas anti-imigração que implementam na Europa para impedir-nos de fugir à Pobreza e miséria.

É muita hipocrisia – ou ignorância – Macron sentar-se no topo da montanha de dinheiro arrancada aos países africanos, com o seu vinho francês e falar de África como um fardo que ele carrega.

Macron não vê os países africanos como parceiros de negócios, mas sim como bebés ricos que precisam de ajuda a gerir os recursos.

Quando a França começar a falar em reparações pelos danos humanos e materiais que causou com a sua ocupação no continente africano; quando a França parar de deixar africanos morrerem no Mediterrâneo em busca de uma vida melhor; quando a França devolver o dinheiro de África que tem nos seus cofres, bem como arte nos seus museus, aí sim vamos falar em “civilização“.

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O problema com o “complexo de salvador branco” em África. Fonte: Ventures Africa

Contudo, a maior decepção acho que foi mesmo para quem aplaudiu e se jubilou com a sua eleição.

Afinal de contas, Emmanuel Macron criou esta imagem carismática, com os seus olhos claros e sorriso fácil. Quebrando protocolo de vez em quando, para lembrar ao público da sua humanidade e sejamos francos, com o oponentes que ele tinha, seria difícil se não tivéssemos caído no seu jogo de sedução.

Mas a verdade é que ele é apenas tão liberal como outro presidente ocidental branco qualquer. Ele provavelmente só não diz as coisas racistas e xenófobas que o Trump diz para não ferir susceptibilidades, mas ri-se das piadas no seu íntimo e agradece por haver alguém que diga essas coisas em voz alta.

Macron não é diferente dos nossos amigos estrangeiros, brancos, imigrantes (ou talvez diria expatriados)  vindos do Ocidente que adoram África e contam histórias fantásticas de todos os países africanos que visitaram e do trabalho que as ONGs para quem trabalham/ trabalharam faz e até lêem Chimamanda Adichie ou Chinua Achebe porque “literatura africana é fascinante”.

Mas esses nossos amigos vivem nos melhores bairros das nossas cidades; recebem muito acima da média e têm regalias que lhes permitem viver de forma luxuosa, mesmo no meio de tanta Pobreza e sendo a ‘voz dos desfavorecidos’.

Ao jantar com amigos falam das decepções de viver num país em que nada funciona e em que não se pode confiar sequer na polícia, e levam as empregadas fardadas aos restaurantes enquanto discutem os direitos das mulheres.

Macron se encaixaria perfeitamente nessas conversas e provavelmente falaria da crise da caça furtiva e da pena que é ir aos safaris e não ver elefantes. Falaria também do quão gosta da comida local e da hospitalidade onde quer que vá, mas jamais faria a relação entre isso e a cor da sua pele.

Enfim, Emmanuel Macron, aquele amigo europeu branco que contribuiu 1 dólar para uma ONG qualquer, daquelas com fotos de crianças mal nutridas nas assinaturas dos emails para limpar a sua alma da culpa que o seu capitalismo e condescendência lhe trazem.

 

Moolaade

Moolaade

No último filme de Sembene, o contador de histórias senegalês traz-nos um tema polémico e bastante actual: circuncisão feminina, ou por outras palavras, a mutilação genital feminina.

O filme “Moolaadé” passa-se numa pacata aldeia do Burkina Faso quando, após fugirem do ritual de purificação, quatro fugitivas se refugiam em casa de Collé, uma mulher que anos antes não deixou que a filha participasse do ritual.

Collé para proteger as meninas lança um feitiço de nome Moolaadé, que funciona como asilo espiritual, impedindo as meninas de voltarem para o local do ritual, até que o feitiço seja quebrado com a palavra mágica que apenas por ela pode ser proferida, sobre o risco de grandes desgraças acontecerem.

 

 A segunda de três esposas, Collé tem de defender e negociar a sua posição primeiro para a sua irmã mais velha (a primeira mulher) e para os restantes habitantes da casa, e depois para as mães das meninas e toda a comunidade em geral.

Collé, com as suas dores e cicatrizes, ameaça a ordem social naquela pacata vila e isso assusta os demais. Ela é acusava de ser demoníaca por defender algo que contradiz os ensinamentos religiosos e as tradições ali instaladas.

Através do conselho de anciões, os homens mais velhos opõem-se ao feitiço lançado por Collé, chamando-a de imprudente e de desequilibrada. E forçam o seu marido, que reconhece a sua força e por ela tem muito amor, a humilhá-la em praça pública para provar o seu domínio sobre a esposa ‘desobediente’.

Evidencia-se aqui o poder que os homens têm – ou procuram ter – sobre as mulheres, os seus corpos e as suas decisões. Seja de marido para esposa; de irmão para irmã; de filho para mãe ou mesmo de um simples desconhecido para uma mulher qualquer.

 


Misturam-se motivos culturais; religiosos; mitos e factos numa trama trágica e simultaneamente cómica que retrata a vida e dinamismo de uma aldeia típica africana.

Sembene traz-nos todos os contrastes e contradições desta vivência.

Se por um lado Collé é uma mãe ousada, com audácia para desafiar as normas impostas, por outro é também uma mulher bastante convencional, que vive um casamento poligâmico e faz um casamento arranjado para a filha.

Se temos de um lado uma vila com uma herança islâmica presente em todas as esferas da vida, temos também uma forte influência das religiões tradicionais africanas, em que o Moolaadé tem muito poder.

E embora a aldeia pareça estar parada no tempo e isolada de tudo, a presença de aparelhos de rádio, que trazem notícias de todo o mundo e do filho do régulo que regressa da França vestindo fato e gravata sempre que sai de casa, provam que não se pode viver fechando os olhos ao que se passa lá fora.
Mais do que um filme político, Moolaadé é um manifesto para a celebração de uma cultura africana que não cause prejuízo às mulheres.

O filme prova-nos como a cultura africana, os seus mitos e tradições não funcionam somente para oprimir, mas também para libertar. A nossa heroína com apenas um acto de resistência leva toda a vila a questionar, debater e conversar sobre um assunto até então tabu.

Sembene, mais uma vez, dá a conhecer uma África para além de toda a sua pobreza e agonia. Uma África de coragem e encanto, cujas respostas estão lá escondidas, no meio de toda a opressão à espera de serem descobertas.

 

Homossexualidade não é importação

Homossexualidade não é importação

A homossexualidade é Africana e não importada, como costumamos ouvir por aí.

No continente Africano é muito hostil com a homossexualidade. Nos anos mais recentes, vários foram os países, tais como o Malawi, Uganda e Nigéria que proativamente aprovaram ou reforçaram leis que proíbam a homossexualidade.

Os motivos para tal prendem-se sobretudo com valores sociais e religiosos.

Do lado social, há dois aspectos a considerar: o primeiro é que vivemos em sociedades em que se valoriza muito o matrimónio e a procriação, e uma vez que as relações homoafetivas não permitem que se viva (pelo menos não da forma tradicional) estes processos, são desvalorizadas e vistas como inválidas; e o segundo é que vivemos em sociedades em que o conceito de indivíduo praticamente não existe, pois todas as decisões, rituais, direitos e deveres são vividos em comunidade.

Nesse sentido, uma vez que a experiência da homossexualidade é muito íntima e pessoal, algo vivido de forma isolada e que não acontece no colectivo, ela passa a ser invisível e até mesmo desprezível.

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A homofobia não é africana. Fonte: Rede Angola

Mas acima de tudo isso, um dos maiores argumentos, senão o maior argumento utilizado para a oposição à garantia de direitos iguais aos casais homossexuais é o facto de se considerar a homossexualidade como algo novo, importado do Ocidente.

Outro argumento comum prende-se com as escrituras sagradas. Seja no Islão ou no Cristianismo, segundo os africanos que praticam estas duas religiões, o seu Deus não aprova relacionamentos homoafetivos. Isso é coisa do Diabo.

Mas se tanto o Islão como o Cristianismo como religiões, isto é, como formas organizadas de se praticar a fé, foram forçados no continente, então temos também de aceitar que não fazem parte da ‘cultura’ africana.

Se supostamente, a homossexualidade é um conceito estrangeiro a África. Então se assim for, também o é a homofobia.

A homofobia foi-se proliferando com o Colonialismo através da formalização do poder europeu na África.

Na Nigéria, tal como em outras ex-colónias britânicas, a lei vitoriana que invoca sodomia e homossexualidade, os homossexuais podem ser condenados a até 14 anos de prisão. Isto, quando aliado às mensagens proliferadas pelos líderes religiosos, cria um ambiente em que ataques violentos a homossexuais são aceitáveis.

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A tradição do casamento entre mulheres nas sociedades Igbo não pode ser negada. Fonte: Black Agenda Report

Contudo, é importante ressalvar que as relações homoafetivas tanto entre homens como entre mulheres já existiam nas sociedades pré-coloniais.

No livro “Boy-wives and Female husbands – Studies in African Homosexualities”, os autores descrevem extensivamente a pluralidade de ‘homossexualidades’ reconhecidas no continente.

Em Angola, naquilo que eram os Reinos de Matamba e do Congo, no séx XVII, eram reconhecidos os supostos homens que se sentiam e viviam como mulheres, ou seja travestis, chamadas de “quimbanda”. Às travestis era permitido vestirem-se e viverem como mulheres, recebendo homens em suas casas para terem relações sexuais.

Na Nigéria, mais precisamente nas sociedades Igbo, era comum relações entre mulheres. Nestas relações, embora uma mulher representasse a figura masculina, tendo de assumir o dote, as divisões de papéis não eram como aquelas que vemos nas relações heterossexuais. Estas relações regiam-se sobre um código próprio e completamente legitimo, reconhecido por toda a comunidade.

Ou seja, a homossexualidade como conhecemos hoje podia não existir. Designávamos por outros nomes e usávamos outros parâmetros, mas estava lá.

Quando os Europeus chegaram à Europa desenharam esta imagem das pessoas africanas como primitivas e sem cultura, filosofia ou conhecimento para dar ao mundo. Nessa linha de pensamento, como seres primitivos, a única razão para nos relacionarmos sexualmente era a procriação. Afinal de contas é assim com os animais.

E nós fomos nos (sub)desenvolvendo com esta imagem de nós mesmos, pensando que em África não existem humanos complexos, com emoções, vivências e ideias progressivas.

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Na África do Sul o casamento entre pessoas do mesmo sexo é previsto por lei. Fonte: BBC

Num continente tão grande e diverso como África, não é de admirar que haja também uma pluradidade de homossexualidades e heterossexualidade. Estes conceitos, bem como os de género nos acompanham há muito tempo e já sofreram alterações face aos processos históricos e ao desenvolvimento das nossas sociedades.

No entanto, não podemos continuar a viver como se não fosse nossa “cultura” abraçar a diversidade e complexidade de vivências que podem existir – e existem! – ao nosso redor.

Como sociedade temos de fazer melhor, precisamos de melhor.

Países como a África do Sul estão na vanguarda dos direitos LGBT+ em África, pois aproveitaram a época de libertação para garantir direitos fundamentais a todos os cidadãos, sem distinção no que toca a raça, credo, género, sexualidade, etc.

Então, mais do que perceber se a vivência da homossexualidade é ou não compatível com o conceito de Africanidade, talvez seja mais importante nos perguntarmos:

Por que é que somos tão resistentes à ideia de existirem africanos homossexuais?

 

Perceber a Medicina Tradicional Africana

A Medicina Tradicional Africana é muitas vezes vista como uma ciência subdesenvolvida, mas é uma ciência milenar

Segundo a Organização Mundial da Saúde, aMedicina Tradicional é “a combinação total de conhecimentos e práticas, sejam elas aplicáveis ou não, usadas no diagnóstico, prevenção e eliminação de doenças físicas, mentais e sociais que podem assentar-se em experiências passadas, e na observação transmitida de geração em geração, de forma oral ou escrita.”

Ou seja, é isto que constitui a Medicina Tradicional tanto em África como na China, por exemplo. No entanto, a Medicina Tradicional Africana é talvez a expessão mais visível do Pensamento Filosófico Africano, que vê o ser humano como resultado de condições materiais (corpo; terra; sol; água; etc) e imateriais (antepassados; crenças; etc).

Apesar de África ser um continente vasto que engloba várias culturas, etnias e nações, tem uma Filosofia peculiar que perdurou milhares de anos. Na Filosofia Africana a comunidade prevalece o indivíduo, ou seja, o sentido de pertença e partilha, de respeito e mutualidade entre o “eu” e os “outros” é um principio máximo.

Deste modo, a Medicina Tradicional Africana é interdisciplinar. Engloba a biologia, farmacologia, biomedicina, mas também a justiça e a religião, formando um código complexo de saberes tradicionais.

 

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A Medicina Tradicional deve ser incorporada nos sistemas de saúde publica. Fonte: The conversation

Tal como outras Civilizações, as Civilizações Africanas foram, ao longo dos anos, afectadas por várias pragas e doenças e tiveram de usar-se da Natureza para se protegerem e sobreviverem.

Dessas experiências surge uma ciência forte, assentada na farmacopeia tradicional, mas também composta por crenças religiosas que dura até hoje.

Durante o período colonial a Medicina Tradicional Africana, como várias outras componentes da cultura africana, foi tratada como um “não saber”. Por ser uma prática que incorpora em si superstições, nunca se olhou para ela como ciência.

Os colonialistas, que tinham uma forte herança católica, designaram a Medicina Tradicional de obscurantismo e feitiçaria, acusando os médicos tradicionais de burlões e mafiosos – fama que dura até hoje – e desencorajando, com penas fortes, a consulta e acesso a estes serviços.

Contudo, vale lembrar que vários médicos e investigadores europeus durante essa época foram recolhendo informações e observando como os médicos tradicionais africanos faziam o uso das plantas e aplicavam as suas técnicas.

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O povo Banyoro já fazia cesarianas quando era raro na Europa. Fonte: Black & African History

É o caso do médico Robert Felkin que em 1878, chega ao actual Uganda como missionário e surpreende-se ao ver a agilidade com que os médicos locais faziam cesarianas em mulheres grávidas com sucesso, salvando a mãe e o bebé, o que era raro na Europa.

Num tempo em que o conceito de propriedade intelectual não se debatia como actualmente se faz,  muitos foram os cientistas europeus que, com os seus jardins e herbanários, apropriaram-se desses conhecimentos, compilando muito dessa ciência e incorporando-a na Medicina Ocidental.

Uma vez que a Medicina Tradicional Africana entende a vida humana como multidimensional, a saúde – e consequentemente a doença – também é encarada sobre esse olhar.

Uma pessoa saudável é aquela que não só está bem fisicamente, mas também está bem com a sua comunidade, é respeitada e segue os princípios que regem o mundo, dentro desta moldura ética.

Deste modo, entende-se a doença, seja esta física ou mental, como um sinal de desequilíbrio no Universo. E a doença de um indivíduo afecta por isso toda a comunidade.

A doença é a manifestação física, mas o sofrimento ultrapassa essa dimensão e é aí que entra a força religiosa.

Por exemplo, alguém que abandona certas tradições e não segue certos rituais que são vistos como essenciais, pode vir a sofrer de doença grave como resultado da sua desobediência. Romper com tradições significa quebrar uma ligação milenar com os seus antepassados.

O médico tradicional é por isso mais do que um simples farmacêutico, ele é também psicólogo, juiz e até mesmo padre. É ele quem faz o diagnóstico e define a cura a saúde física, espiritual e psicológica, bem a salvaguarda dos princípios éticos e morais daquela pessoa que na verdade afectam toda a comunidade.

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O médico tradicional é preparado para ser além de responsável e eficiente, um bom ouvinte, orgulhoso de si mesmo, de sua tradição e cultura. Fonte: Afreaka

Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 80% da população africana deixa os seus cuidados médicos a cargo de médicos tradicionais.

Os médicos tradicionais são educados desde cedo, durante anos, para exercerem a sua profissão. Ser médico tradicional não é algo voluntário, mas sim um dom com o qual a pessoa nasce e que deve ser treinado.

Infelizmente, com os fluxos migratórios e o êxodo rural, muitos jovens abandonaram as suas vilas e aldeias. Esta factor quando combinado à demonização das religiões africanas, resultou num abandono também desta profissão.

Os médicos tradicionais já não têm o mesmo prestígio nem lhes é conferido o mesmo respeito que antigamente. Pelo contrário, especialmente nas zonas mais urbanas, são ridicularizados e existe uma descrença generalizada no seu papel. Ainda é tabu falar sobre o assunto.

Embora estes vivam praticamente na marginalidade e em alguns casos clandestinidade, a OMS reconhece a sua importância para os serviços de saúde materno-infantil, cuidados gerais e doenças não agudas.

Num tempo em que a ciência actual começa a abrir portas para soluções alternativas e cala-se perante doenças sem cura e epidemias que dizimam milhares de pessoas todos os anos, é essencial reconhecermos e aprendermos mais com a Medicina Tradicional Africana.

Sembene para além das histórias

Sembene para além das histórias

O documentário Sembene! é um retrato do contador de histórias senegalês Ousmane Sembene, considerado o Pai do Cinema Africano.

Como contador de histórias Sembene sempre procurou trazer ao centro alternativas ao discurso dominante, que até então encontravam-se à margem da sociedade.

São estas histórias alternativas as suas musas, mas o filme não é só sobre isso.

O entrelaçar da sua biografia, com o panorama geopolítico internacional e as suas produções, oferece-nos uma ideia do compasso moral e daquilo que Sembene pretendia ao escrever e realizar cada um dos seus filmes.

É promíscua e até certo ponto pornográfica a relação entre política e o seu trabalho. Sembene não tem o privilégio de contar histórias de amor, ele traz-nos guerras; massacres; mutilação genital; corrupção. É daí que vem a sua força criativa.

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Sembene inventou um novo Cinema para África. Fonte: Africa Is A Country

Ousmane Sembene nasceu em 1923 no Senegal, em Ziguïnchor, filho de um pescador, profissão que abraçou na adolescência ao abandonar a escola.

Decidiu depois sair da sua vila, realizando vários trabalhos manuais e por fim chegou a França aos 24 anos. Foi nas docas de Marselha, como estivador, que conheceu a vida como operário e se envolveu no movimento trabalhista.

Após uma grave lesão na coluna durante o trabalho, passou vários meses no hospital e aí começou a ler bastante.

Foi nesse período que se acorda nele a consciência do seu lugar no mundo.

Passa a activista sindical e autodidacta compulsivo, procurando conhecimento sobre tudo um pouco, mas especialmente sobre a vivência da Negritude.

“It’s a long-term job to change ideas held for centuries. My aim is to make a film for Africans. And, if it’s done well, people will like it everywhere else too./ Mudar ideias centenárias é um trabalho a longo prazo. O meu objectivo é fazer um filme para Africanos. E, se for bem feito, pessoas de outras partes do mundo também vão gostar.”

Começou por escrever pequenos contos e romances, mas rapidamente apercebe-se das limitações da escrita no Senegal, onde a taxa de alfabetização era muito baixa. É assim que surge a sua paixão pelo cinema: a necessidade de contar as suas histórias a pessoas como ele, numa linguagem que percebessem.

Durante os seus 40 anos de carreira, Sembene explorou destemidamente temas como o colonialismo, a corrupção dos movimentos de libertação no período pós-independência; o Islão e o racismo.

Foram filmes como “La noire de…” (1966) e “Moolaadé” (2004) que colocaram o cinema Africano no radar dos grandes festivais internacionais de cinema como o de Cannes e Berlim.

Mas com essa atenção, vieram também algumas punições. Em França, por exemplo, o seu filme “Camp de Thiaroye” (1988) foi banido e no Senegal, vários trabalhos dele foram banidos e/ou censurados como é o caso de “Ceddo” (1977) e “Emitaï” (1971).

 

O filme Sembene! tenta ser um retrato fiel do realizador que sacrificou as suas relações na indústria; com a sua família; com os seus amigos e até amantes pela sua causa.

Sembene aparece no filme como um artista que nunca quis – ou talvez nunca pôde – respirar, comer, dormir e amar outra coisa senão a própria arte. E é esta humanização, que serve ao mesmo tempo de demonização que coloca o espectador como juiz.

A dada altura Sembene confessa que seria capaz de atropelar certos princípios e mesmo valores em nome da sua arte. E que nós, os juízes, devíamos julgar a sua arte e não os processos que permitiram que tal arte fosse feita.

Ao enfrentar a câmara, Sembene olha-nos com uma certa arrogância e prepotência, mas atrás dela, o seu olhar capta compaixão, gentileza e procura sempre o mais puro e verdadeiro.

É por isso irónico que através do seu trabalho tenha sempre criticado a forma absoluta como o poder dominante era uma força intolerante, no entanto, ele fez o mesmo.

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Sembene faleceu e deixou projectos inacabados. Fonte: Telegraph

Mas apesar das contradições que o filme nos mostra entre o homem e o seu ego, Sembene! é ainda um retrato amável do realizador. Nele, nos é pintado um rebelde com uma causa nobre.

Para um homem que entregou a sua vida à arte de contar histórias à moda Africana, nenhum filme seria suficiente, contudo o documentário Sembene! fica bem perto.

Somos obrigados a aceitar os limites da humanidade deste grande senhor, Ousmane Sembene pois nem ele tem todas as respostas. Quando confrontado com as suas provocações, ele também treme.

Ficam claras as suas intenções: o contador de histórias não tem respostas, apenas perguntas.

Os Bons & Velhos Tempos

Como a História que nos ensinam deturpa a realidade dos tempos que se foram.

No nosso imaginário a “vida na quinta de escravos” ou a “vida na colónia” era cheia de alegrias e tempo livre para correr, brincar, namorar. Lá as senhoras brancas confidenciavam nas suas amas de leite, que depois de apaixonavam pelos seus patrões brancos e desse amor proibido nasciam filhos mestiços.

As crianças, tanto brancas como negras, eram livres para correr, brincar e comer. Podiam ir à praia ou comer os frutos silvestres que caíam das árvores.

Ah! Como eram bonitos, os bons e velhos tempos!

Esse saudosismo barato que glorifica as atrocidades cometidas pelos países colonizadores e sociedades esclavagistas é muito comum e começa cedo.

Durante a infância, as crianças são ensinadas a fazer uma interpretação romântica da Escravatura e do Colonialismo.

Os livros escolares trivializam as questões de violação de direitos humanos. Adicionalmente, não fazem uma leitura fidedigna da natureza das relações de poder e das violências levadas a cabo pelos países colonizadores.

Assim, as crianças crescem sem uma visão fiel da História e perpetuam os ideais imperialistas e racistas que até hoje regem o mundo.

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Os Portugueses sabem pouco do seu Passado Colonial. Fonte: Diário de Notícias

Na África do Sul recentemente a deputada Helen Zille do principal partido da oposição (Aliança Democrática) elogiou o legado do Colonialismo.

Segundo ela, foi graças ao sistema colonial que a África do Sul conseguiu ter grandes infraestruturas (hospitais; rede de transportes; etc). Mas, para quem eram tais infraestruturas? Quantas pessoas tiveram de morrer para construir tudo isso?  E até hoje, quem tem acesso a tais infraestruturas?

E sobretudo, é importante referir que tais construções tiveram um preço muito alto, demasiado alto. Apenas em 1994 a África do Sul se libertou das correntes do Apartheid, que deixaram a população negra sul-africana estruturalmente desfavorecida.

É a população negra que ocupa os cargos mais precário, que faz o trabalho mais pesado; que vive nas zonas mais vulneráveis tanto para a sua saúde como para a sua segurança e obviamente, é a população negra quem tem menos acesso a Educação Superior.

Taxativamente falando, é esse o legado do Colonialismo.

A imagem e fotografia que se dá ao Colonialismo sempre é aquela dos tempos de glória, em que as cidades andavam limpas e os restaurantes eram bem frequentados (leia-se aqui, na altura em que os pretos não podiam lá estar).

É esta mesma imagem que vemos recriada em hotéis, restaurantes, revistas, filmes, etc.

Essas imagens reforçam a ideia de “exótico” e “étnico” que se usam frequentemente para descrever as populações negras. São retratos que reflectem a saudade e vontade de reviver tempos que na verdade foram sombrios e de muita dor para quem foi oprimido durante séculos.

Essas reconfigurações da memória colonial não só a deturpam, como a validam. O mito vira facto.

Para além disso, reflectem também  como na nossa sociedade o racismo e o colonialismo é visto como algo ultrapassado. É impensável haver um café, num hotel, com nome de “Café Nazi”, como existe em Lisboa o “Café Colonial“.

No entanto, o Colonialismo foi também um sistema de domínio que definia uma determinada raça como superior à outra; um sistema que limitava as liberdades das raças tido como inferiores; um sistema que perseguia, torturava e matava aqueles que se opunham ao poder. Tal como o Nazismo, o Colonialismo foi perverso, violento, nocivo.

Embora com objectivos distintos, ambos sistemas deixaram marcas que se fazem sentir até hoje.

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Designer paquistanesa Aamma Aqeel foi criticada pela coleção “Be My Slave” (Seja meu escravo): Fonte: Clutch Magazine

Mas a nostalgia colonial está também presente nos países hoje independentes.

Por exemplo, até recentemente havia uma discoteca chamada “Sanzala” na Baixa de Maputo. Isto evidencia a insensibilidade com que se trata a escravatura no país e a falta de conhecimento do horror e violência a que as pessoas escravizadas eram submetidas.

No Brasil também são comuns as referências à escravatura. No ano passado uma quinta que fazia encenação da vida dos escravizados (incluindo torturas) foi denunciada e obrigada a encerrar o “entretenimento”.

 

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No Brasil é pertinente explorar melhor a Lei Áurea. Fonte: Brasil Escola

É importante contar a História tal ela aconteceu. Houve exploração, violação, dominação dos povos africanos. Houve desmando e abuso.

O Colonialismo e a Escravatura foram processos dolorosos que não só dizimaram pessoas, mas também culturas. As nações foram roubadas e impedidas de se desenvolverem, de usar os seus nomes e as suas línguas.

Cabe-nos a nós reconhecer e falar das atrocidades cometidas com a devida seriedade sem crises de consciência.

 

Era uma vez… TEDx!

Era uma vez… TEDx!

Karingana wa Karingana- KARINGANA!
Karingana wa Karingana- KARINGANA!

Era uma vez uma menina que falava muito. Sempre lhe diziam:
Eliana tens boca grande!
Eliana estás sempre a falar!

E ela respondia: “A boca não foi feita apenas para comer. Deixem-me falar”.. Como não a deixavam falar à vontade, ela começou a escrever. Escrevia tudo! Escrevia sobre o que lhe deixava triste e o que lhe fazia feliz.

Escrevia o que via e o que imaginava. E foi escrevendo que as pessoas passaram a ouvir-lhe.

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Foto: Neide Tsenane

No dia 20 de Maio tive o privilégio de subir ao palco como uma das oradoras do TEDxMaputo 2017.

Sim, privilégio. É um privilégio ter uma plataforma como o TEDx para expor as nossas ideias e dar lugar à nossa voz.

E do que foi que eu falei? Eu preferi falar daquilo que me move: a urgência de uma literatura africana que represente todas as africanidades.

Eu sonho com um mundo em que eu possa ter fácil acesso a livros africanos para crianças, para adolescentes, para jovens, adultos, idosos. Livros africanos sobre a vida nas aldeias e nas cidades; nas escolas; nos mercados; nas ruas. Livros africanos que não tenham medo de ser quem somos.

E depois dos livros, que tenhamos também filmes, novelas, bandas desenhadas. Por que não?

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Foto: Neide Tsenane

Tudo começou em 2015 com o desafio dos 12 livros escritos por autores africanos ou afrodescendentes.

Como uma pessoa apaixonada por histórias, esse ano foi o início de muitas descobertas por aqui. Foi o ano em que desvendei histórias escondidas e segredos muito bem guardados, mas que precisavam de ser revelados.

Foi aí que um mundo novo se revelou a mim e com ele uma vontade de continuar com esse compromisso: ler negritude.

De lá para cá já foram mais de 30 livros de autores africanos e afrodescendentes que contaram as nossas histórias das formas mais brilhantes.

“Eram histórias diversas: africanas; americanas; portuguesas; sobre mulheres; sobre homens; sobre liberdade; sobre colonialismo; sobre escravidão… histórias para que eu descobrisse a minha História.”

Então quando recebi o convite para ser uma das oradoras, nada mais me fez tanto sentido como usar esse espaço para contar essa história (ainda em construção).

Os meus 15min de fama já serviram para iniciar conversas interessantes e cheias de impacto com várias pessoas.

Uma, que já começou a escrever um livro e queria trocar impressões. E outra, que começou a ler um livro escrito por um autor africano.

Certamente outras conversas já aconteceram, fora do meu alcance e outras estarão ainda por vir.

Gratidão parece pouco para descrever o que sinto pela oportunidade.

Mais um sonho realizado. Mais um passo na direcção certa.

 

 

O Rei Vai Nu

Quem dirá ao Rei, cheio da sua vaidade, que ele está na verdade nu?

Era uma vez um rei muito vaidoso que vivia rodeado de luxo num reino em que os plebeus viviam na miséria.

Conhecido pelos seus trajes extravagantes, o rei é abordado por dois aldabrões (certamente moçambicanos) que dizem ter um tecido muito belo, visto apenas por pessoas inteligentes e requintadas.

O Rei permitiu que os dois tirassem-lhe as medidas e dali a alguns dias eles apareceram com o “fato”. O Rei não via nada, mas também não queria dar a entender que não era inteligente ou requintado, por isso confirmou que o tecido de facto tinha uma qualidade superior.

Depois de fingir que vestia o fato, já que era invisível, o Rei encheu os aldrabões de elogios, que em troca aplaudiram a sua elegância. Rapidamente a notícia se espalhou: O Rei tinha um fato especial, de qualidade superior, visível apenas aos olhos de quem fosse inteligente e requintado.

Então certo dia o Rei decide sair às ruas com o seu fato especial. Todos admiraram o fato, pois não queriam passar por ignorantes até que a criançada começou a rir e a gritar “O Rei vai nu! O Rei vai nu!”, e todos se espantaram, porque de facto ele estava nu. E todos se riram dele.

O Rei fugiu envergonhado para o seu Palácio.

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O Presidente sul-africano Zuma vai nu sem alguém que lhe diga a verdade. Fonte: Brett Murray

É assim também por aqui, na vida real, nas nossas pseudo-democracias. Meio-ditaduras. Os nossos reis estão nus. Só que ninguém lhes diz.

Segundo o mais recente relatório sobre a liberdade de imprensa, muitos governos têm usado estratégias mais subtis para ameaçar e intimidar os cidadãos de modo a evitar críticas.

Em África, apesar do avanços nos anos mais recentes ainda temos um longo caminho para fazer.

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A investigadora é acusada de assédio moral contra o Presidente e a Primeira-Dama. Fonte: The Guardian

Esta semana, a activista ugandesa Stella Nyanzi questionou na sua página de Facebook, o que terá sido das crianças que apontaram o óbvio.

Será que foram mortas por ordens do rei? Será que a multidão voltou-se contra elas e tentou fazer com que elas vissem as roupas invisíveis por terem medo do rei? Ou receberam o amor dos amigos? O que acontece a quem diz a verdade em regimes maléficos?

Com um PhD em Antropologia Social, Stella Nyanzi é investigadora nas áreas de sexualidade; saúde sexual e reprodutiva; racismo e medicina alternativa, entre outras.

No Uganda, onde o Presidente Museveni ocupa o mesmo cargo há mais de 30 anos, Nyanzi já foi presa várias vezes por protestos pacíficos e pelas críticas severas ao regime.

Em Moçambique, pelo trauma dos conflitos vividos, temos muito medo de falar, pois não queremos mais violência. A sociedade como um todo promove o silêncio e entretenimento que distraia e não questione o status quo.

No entanto, há sempre quem tenha coragem de levantar a voz. Uma dessas pessoas é o rapper Azagaia, famoso pela música de intervenção que faz.

Depois das manifestações populares de 2008, o músico lançou a música “Povo no Poder” que resultou numa intimação pela Procuradoria Geral da República por supostamente “atentar à segurança do Estado” e “incitar a violência”.

Nos anos mais recentes jornalistas; investigadores; juristas; seqüestradores foram assassinados em circunstâncias duvidosas. É o exemplo de Gilles Cistac, um jurista, baleado em 2015 ao entrar num táxi na cidade de Maputo.

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Gilles Cistac entra para a lista de pessoas assassinadas em Moçambique por motivos políticos. Fonte: The European Magazine

Tal como eles, um pouco por todo o mundo, as liberdades de expressão dos cidadãos são cada vez mais limitadas.

Em Angola por lerem e debaterem um livro, activistas foram presos e julgados no que ficou conhecido como o caso 15+2.

No entanto, no mesmo país recentemente os deputados decidiram importam carros de luxo no valor de mais de 75 milhões de dólares americanos. Simultaneamente, num hospital da capital, Luanda, as mulheres grávidas e recentes mães são obrigadas a partilhar as camas ou dormir no chão.

Os reis estão mesmo nus. E ninguém faz nada.

Em “democracias” frágeis, como grande parte das democracias africanas, as ameaças a quem questiona quem está no Poder são evidentes.

Até quando deixaremos o medo travarem as nossas vozes?

 

Primeiro te amam. Depois te matam.

Em todo o mundo homens heterossexuais matam as suas parceiras em nome do amor. 

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Karabo sofria abusos frequentes do namorado. Fonte: Sunday Times SA

A jovem Katabo Mokoena, sul africana de 27 anos foi encontrada morta, com o corpo totalmente desfigurado, após 10 dias de busca.

A sua cara foi desconfigurada com ácido, e logo a seguir, o seu corpo foi incendiado com o auxílio de um pneu. O seu namorado confessou ter mutilado o seu corpo, embora negue o assassinato em si.

Segundo fontes, ele era um moço do bem, bastante simpático que tinha conquistado até a confiança da família.

No entanto, quando estavam apenas os dois, ele era um homem abusivo, e que a própria namorada já tinha aberto queixa contra ele.

Na África do Sul o risco de feminicídio é dos mais altos do mundo. É o quarto país do mundo em que as mulheres estão mais vulneráveis a serem assassinadas.

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Karabo entra na lista extensa de mulheres assassinadas pelos parceiros na África do Sul. Fonte: Drum SA

Os índices de feminicídio em todo o mundo são assustadores.

Em Moçambique no ano passado, dois casos chamaram a atenção do público em geral à problemática da violência doméstica. Foi o ataque sofrido por Josina Machel, onde a vítima perdeu a vista no olho direito e o assassinato de Valentina Guebuza nas mãos do seu marido.

Este ano, a violência doméstica em Moçambique assumiu outra cara ao se popularizarem casos de mulheres que mataram os seus parceiros. Mas estes casos são de longe marginais, quando analisamos o grande volume de casos em que as mulheres são as vítimas.

Embora seja pertinente apontar a masculinidade tóxica como o ponto central para a problemática e aliarmos isto ao contexto social em que vivem muitas famílias moçambicanas, é igualmente importante falarmos do nosso conceito de amor.

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Romantismo, paixão e atração sexual não são sinónimos de amor. Fonte: Organizando o Caos

No seu livro “Vivendo de Amor”, bell hooks argumenta que não temos uma definição saudável de amor. Existe uma confusão entre amor e fraqueza; atracção sexual; possessão enquanto na verdade para haver amor, é preciso honestidade; respeito mútuo, cuidado e compromisso.

 

Nesse sentido não pode haver verdadeiramente amor num contexto de poder, pois para tal tem de haver submissão de uma das partes. E quando uma das partes é submissa, a possibilidade de se tratarem como iguais termina.

Para mais, a autora defende que o amor deve ser uma escolha.

Em relações de família, amizade, o amor deve ser voluntário e não uma obrigação. Mas pelo contrário, desde a nossa infância somos condicionados a “amar” as pessoas do nosso meio, seja por gratidão ou laços sanguíneos.

Muito do desespero que juventude sente a respeito do amor, vem da crença que eles estão a fazer tudo certo, mas o amor ainda não aconteceu. O esforço para amar e ser amado produz stress, conflito e descontentamento perpétuo. – bell hooks

E porque o nosso conceito de amor está intimamente ligado a esse esforço e a essa impaciência, olhamos para as nossas relações como formas de tapar os nossos vazios e alimentar o nosso ego.

É daí que vem também o sentimento de posse de outrém, que uma vez perdido, procuramos atirar a culpa a factores externos sem reconhecermos o nosso papel e o acordo estabelecido entre as duas partes.

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Amor em tempos de feminismo. Fonte: Capazes

Na cultura pop, seja em músicas ou em filmes, é-nos alimentada essa imagem que prescreve os papéis de cada um dentro de uma relação romântica. Especialmente quando se tratam de relações heterossexuais.

Segundo esse ideal, o homem é o conquistador e a mulher a conquistada. É o homem quem detém o poder e ela que se submete ao poder dele.

Estes padrões, quando aliados a outros factores já mencionados e discutidos, como o conceito de masculinidade e o desamparo social, cria condições férteis para o estabelecimento de relações tóxicas, nada saudáveis, marcadas por disputas entre as partes para haver um dominador e um dominado.

Ninguém mata por amor. O que mata é o poder.

Ruanda, para sempre

Um olhar sobre o filme “Sometimes in April” (Abril Sangrento) de Raoul Peck, que conta como o genocídio de Ruanda mudou para sempre a vida de dois irmãos. 

O filme começa com imagens lindas e a voz sensual de Idris  Elba a descrever o Ruanda e o clima que se faz sentir em Abril, o mês que marca o início da época chuvosa. É em Abril, ao som do gotejar dos céus que Augustin, interpretado por Idris Elba, lembra-se da crueldade do ser humano e do enorme vazio que sente.

Augustin é um jovem militar em 1994 casado e feliz com dois filhos quando subitamente a tensão entre os tutsi e os hutu aumenta. A sua esposa, uma mulher tutsi, teme pela sua vida e pela proteção da sua família enquanto Augustin, cego pelos seus privilégios não vê a urgência dos seus medos.

É um filme violento e agressivo que sem rodeios nos mostra o que é um genocídio aos olhos de quem o viveu.
No Ruanda , em apenas 100 dias, isto é, pouco mais de três meses, aproximadamente um milhão de pessoas tutsi foram assassinadas por conterrâneos hutu.

 

Augustin e Honoré são dois irmãos em lados opostos no conflito.

Tamanha barbaridade só foi conseguida porque “pessoas do bem”, isto é, pessoas que à partida nunca matariam ninguém, ou desejassem a morte de alguém foram cúmplices.

É o caso de Honoré, irmão de Augustin, interpretado por Oris Erthuero, que na qualidade de locutor apoia as mensagens de ódio da sua emissora, usando o poder da sua voz para falar mal dos tutsi.

É também o caso de um Coronel, denunciado no Tribunal Penal Internacional por não impedir que os seus soldados violassem e mutilassem jovens mulheres e adolescentes tutsi.

Foram “pessoas do bem” que para salvaguardarem os seus interesses pessoais e por acreditarem que faziam parte de um grupo superior usaram do seu espaço de ação para proteger, suportar ou patrocinar actos maléficos.

Foram “pessoas do bem” que, com as armas certas – figurativa e literalmente, tornaram-se em assassinos cruéis.
O director, Raoul Peck, em entrevistas afirma que nunca foi a sua intenção fazer uma versão negra de “A lista de Schindler”(Steven Spielberg, 1993) e de faço tanto na forma como no conteúdo a sua obra consegue nos descrever um genocídio sem apelar tanto à comoção.

Em “Abril sangrento” vemos as catanas, a raiva e a ignorância de quem não tinha outra causa senão a sede de matar.

Também não temos herói, como é comum em filmes que retratam períodos de guerra/ conflito. Em genocídios não há heróis. Há sobreviventes.

Aliás, esta é também uma das grandes diferenças entre “Abril Sangrento” e “Hotel Ruanda”.

“Hotel Ruanda” (Terry George, 2004) consegue ser bonito e romântico, ainda que triste. Já “Abril Sangrento” traz-nos um olhar mais cru e mais real daquilo que foram os 100 dias de genocídio no Ruanda.

Peck não deixa o glamour do cinema tirar da realidade o seu terror. Ele mostra-nos o sangue, o ódio, as violações sexuais, a ganância e a violência sem restrições.

 

Emmanuel (esq) cortou a mão de Alice (dir) em 1994, antes de matar o seu bebé. Fonte: Observador

Ao longo da trama vemos como as Nações Unidas e a comunidade internacional no geral, ignorou a situação completamente. Vemos como os líderes ruandeses viviam longe da chama que eles tinham incendiado.

A vida dos dois irmãos é completamente alterada pela massacre levado a cabo pelos  hutu contra os tutsi. Em lados opostos desse conflito, separam-se e esquecem-se, desconhecem-se. Os seus destinos cruzam-se anos mais tarde.

Somos confrontados com a possibilidade de perdão. É possível? Somos obrigados a encarar a verdade. Que verdade? Por onde começar a sarar tamanha dor?

“Nunca mais” dizemos. Nunca mais deixaremos alguém despido da sua humanidade, exposto a um crime bárbaro. Nunca mais cruzaremos os braços perante conflitos étnicos.

E ainda assim, ainda há genocídios a decorrer em África. Ainda temos essa mesma sede de matar.