Carta para Mamoudou

Carta para Mamoudou

Querido Mamadou,

Espero que esta carta te encontre bem.

Diz aos teus colegas que nós, imigrantes, levamos na mala apenas amor. É o amor à vida, à esperança, às possibilidades que nos leva a abandonar tudo e a enfrentar muros, grades e cancelas para entrar em outros países.

É o amor que nos faz limpar o chão e carregar blocos, pondo em risco a nossa própria saúde. E é o amor também que te move e que te levou até Paris.

Imagino o teu desespero ao deparares-te com o cenário: uma criança de apenas quatro ano pendurada de uma varanda e uma multidão de espectadores. Certamente alguém terá ligado aos Bombeiros, à Polícia, enfim, a alguém! É assim nos países onde as coisas funcionam: não precisamos de nos mexer muito, porque sempre vem alguém!

E afinal esse alguém foste tu! Quem diria!

Saíste do Mali ainda adolescente e de lá, ao teu passo, numa saga perigosa, quatro anos depois chegaste a França.

Gosto de pensar que, ao veres aquela criança pensaste “Eu não passei por tudo para ver uma criança a morrer assim!” e graças a ti, ela sobreviveu.

Mamoudou, a tua coragem e altruísmo são inspiradores. Mas temo por aquilo que possam fazer de ti.

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Imigrantes não deviam ter de ser Super-Heróis para merecerem respeito. Fonte: Afropunk

Embora reconheça e aplauda o teu acto heróico, não posso deixar de reconhecer também as teias de poder que te levaram até França, e fizeram de ti um cidadão de segunda-categoria.

O teu anonimato anterior ao episódio viral só evidencia o racismo estrutural em que há na França, onde um jovem imigrante não consegue um emprego digno até demonstrar qualidades super-humanas. Onde a cidadania é reservada apenas aos imigrantes que provarem de forma extraordinária que a merecem. Onde um imigrante africano apenas é digno de aplausos e respeito quando arrisca a sua própria vida para salvar um bebê, mas não quando arrisca a sua própria vida para salvar-se a si mesmo.

A narrativa actual que limita os imigrantes a ladrões, preguiçosos, bandidos é tóxica e racista. A narrativa actual que legitima a xenofobia… É só olharmos para o Brexit, para as políticas de migração na era Trump e para todos os muros que se fazem para impedir-nos de chegar ao Ocidente.

A narrativa que nos divide entre os bons e os maus imigrantes. E como tu Mamoudou, passaste para o lado dos bons. Tu agora já nem sequer és imigrante, és um cidadão francês. Tu agora falas com Presidentes.

Mas cuidado, não deixes que te usem como ferramenta para justificar os seus preconceitos, a sua afrofobia, porque nenhum ser humano, nenhum africano precisa de ser herói para ser bem tratado e ter o seu valor reconhecido.

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Governo Francês negligencia campos de imigrantes em Paris. Fonte: The Washington Post

Tu atravessaste perigos e oceanos, traficantes e ladrões e finalmente chegaste a França. Sem documentos e contando apenas com a generosidade daqueles que, como tu, se alimentavam apenas dos seus sonhos, vivias nos apertados arredores de Paris e aceitavas os poucos (e precários) trabalhos a que tinhas acesso.

Por isso não aceites a hipocrisia e cinismo de quem hoje te acolhe de braços abertos, contudo, aprova políticas repressivas contra imigrantes e especialmente contra imigrantes sem documentos.

Quando vemos um jovem imigrante como tu, muitas vezes é a matar ou a morrer, nunca a salvar ou a nascer.

Quando vemos um jovem imigrante como tu, muitas vezes vemos essa força física exibida de forma selvagem, como um defeito e tu mostraste que essa força física é na verdade um sinal de excelência e fonte de bravura.

Quantas vezes a força física dos corpos negros não foi usada para justificar a nossa exploração? Para deslegitimar as nossas conquistas?

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Mamoudou Gassama ganhou um estágio no Corpo dos Bombeiros de Paris. Fonte: The Guardian

Poucos de nós teríamos conseguido fazer o que fizeste. Poucos, mesmo que conseguíssem, talvez nem o tentassem. Por isso, parabéns!

Tu nos representaste na nossa forma mais nobre, delicada e ao mesmo tempo veloz e forte. Obrigada!

Espero que, na plataforma que agora tens, encontres um espaço para que a tua voz seja ouvida e para que outras vozes, que durante muito tempo foram silenciadas, possam também usá-la para que a sua humanidade seja reconhecida.

Com os melhores cumprimentos e um forte abraço,

Eliana N’Zualo

Macacos me mordam

Macacos me mordam
Sobre macacos, bananas e racismo.
É importante criarmos um diálogo entre as várias experiências de “negritude” e de racismo. Alguém como eu, que sempre cresceu num ambiente maioritariamente negro, vive o racismo de uma forma diferente daquela pessoa que cresce sendo uma minoria.
O próprio conceito de raça altera-se consoante o contexto. Eu em Moçambique não penso em mim como negra, não me vejo como tal diariamente, pois não sou obrigada a isso. Talvez se me sentir discriminada sejam mais provável que seja pelo facto de ser mulher e não pelo meu tom de pele.
O que isto significa é que eu percebo que as minhas reacções não são universais. As minhas emoções não são universais. As coisas que me causam comichão não são universais. Contudo, são e sempre serão válidas.
Não cabe a mais ninguém me dizer que o que eu estou a sentir é pouco ou ridículo. E isto é especialmente importante quando falamos em ofensas.
Como contadora de histórias tenho especial interesse em palavras. Acho fascinante como um conjunto de letras e sons conseguem transmitir tanto! A palavra, seja ela falada ou escrita, é de uma importância inestimável.
Palavras têm poder. Palavras carregam consigo uma História, um Passado. Há mil construções feitas de forma inconsciente que fazem as palavras o que são. Por detrás de cada palavra existe um valor, um legado, que vai para além da intenção de quem a proferiu.
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Ilustração da evolução (racista) retirada do livro Anthropogenie (1874) de Haeckel. Fonte: Sala BioQuímica

Por isso é sempre importante perceber que, ofensas, ainda que não sejam intencionais, não deixam de ser ofensas.

A palavra “macaco” durante muito tempo foi usada para denegrir pessoas negras.
Para validar o tráfico humano e exploração da mão de obra de pessoas negras, cientistas chegaram a validar a ideia de que essas pessoas eram mais primitivas, mais aproximadas aos macacos e por isso, sub-humanas.
Como tal, a palavra “macaco”, especialmente no contexto escravagista (nas Américas), sempre esteve associada a algo sub-humano, para justificar os horrores a que eram submetidas as populações afrodescendentes.
“Ah! Mas isso foi há muito tempo! Já passou!”
É verdade. Foi há muito tempo. Mas não se apagam as dores e traumas de pessoas que durante anos foram – e ainda são – tratadas como inferiores, como uma espécia sub-humana.
Vejamos a experiência de uma pessoa negra a viver na Europa, na Ásia, nas Américas, etc. Até mesmo em África, os imigrantes africanos negros são os que fazem o trabalho mais precário e vivem em piores condições.
Então existe sim, hoje, agora, no tempo Presente, uma experiência de negritude, de racismo e essa experiência Presente não se pode desassociar da experiência Passada.
Não há muito tempo atrás, o jogador brasileiro Dani Alves foi alvo de um ataque racista em campo, em Espanha, quando lançaram uma banana para ele.
A banana foi uma clara referência a essa mesma ideia em como as pessoas negras são uma sub-espécie humana, mais parecida com macacos. O ataque teve tanta repercussão que vários jogadores e celebridades formaram um movimento (#SomosTodosMacacos), comendo bananas e tirando fotos em solidariedade ao jogador.
Racismo no futebol continua. Fonte: Terra
Se for preciso ir ainda mais atrás na História, falemos dos Zoológicos Humanos em que pessoas negras eram expostas como animais.
Foi há cerca de 60 anos. Há fotos por aí. Crianças, Mulheres, Homens, negros de todas as idades, com os seus corpos, as suas línguas, as suas roupas, o seu estilo de vida em exibição por serem considerado selvagens.
E essa exotificação das vidas negras não parou por aí. As pessoas negras eram usadas para experiências médicas e atracções de circos.
Mas muito disso foi apagado dos livros de História. E nós não falamos disso porque custa. Dói. É difícil. E como tal, fingimos que os acontecimentos não estão relacionados entre si.
Portanto, não me surpreende que muitos de nós, negros, se ofendam com uma certa recente campanha de uma certa marca. Também não me surpreende que muitos de nós, negros, não se ofendam com uma certa recente campanha de uma certa marca.
Mas, porra! Macacos me mordam, que algo está errado, isso está!

Os Bons & Velhos Tempos

Como a História que nos ensinam deturpa a realidade dos tempos que se foram.

No nosso imaginário a “vida na quinta de escravos” ou a “vida na colónia” era cheia de alegrias e tempo livre para correr, brincar, namorar. Lá as senhoras brancas confidenciavam nas suas amas de leite, que depois de apaixonavam pelos seus patrões brancos e desse amor proibido nasciam filhos mestiços.

As crianças, tanto brancas como negras, eram livres para correr, brincar e comer. Podiam ir à praia ou comer os frutos silvestres que caíam das árvores.

Ah! Como eram bonitos, os bons e velhos tempos!

Esse saudosismo barato que glorifica as atrocidades cometidas pelos países colonizadores e sociedades esclavagistas é muito comum e começa cedo.

Durante a infância, as crianças são ensinadas a fazer uma interpretação romântica da Escravatura e do Colonialismo.

Os livros escolares trivializam as questões de violação de direitos humanos. Adicionalmente, não fazem uma leitura fidedigna da natureza das relações de poder e das violências levadas a cabo pelos países colonizadores.

Assim, as crianças crescem sem uma visão fiel da História e perpetuam os ideais imperialistas e racistas que até hoje regem o mundo.

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Os Portugueses sabem pouco do seu Passado Colonial. Fonte: Diário de Notícias

Na África do Sul recentemente a deputada Helen Zille do principal partido da oposição (Aliança Democrática) elogiou o legado do Colonialismo.

Segundo ela, foi graças ao sistema colonial que a África do Sul conseguiu ter grandes infraestruturas (hospitais; rede de transportes; etc). Mas, para quem eram tais infraestruturas? Quantas pessoas tiveram de morrer para construir tudo isso?  E até hoje, quem tem acesso a tais infraestruturas?

E sobretudo, é importante referir que tais construções tiveram um preço muito alto, demasiado alto. Apenas em 1994 a África do Sul se libertou das correntes do Apartheid, que deixaram a população negra sul-africana estruturalmente desfavorecida.

É a população negra que ocupa os cargos mais precário, que faz o trabalho mais pesado; que vive nas zonas mais vulneráveis tanto para a sua saúde como para a sua segurança e obviamente, é a população negra quem tem menos acesso a Educação Superior.

Taxativamente falando, é esse o legado do Colonialismo.

A imagem e fotografia que se dá ao Colonialismo sempre é aquela dos tempos de glória, em que as cidades andavam limpas e os restaurantes eram bem frequentados (leia-se aqui, na altura em que os pretos não podiam lá estar).

É esta mesma imagem que vemos recriada em hotéis, restaurantes, revistas, filmes, etc.

Essas imagens reforçam a ideia de “exótico” e “étnico” que se usam frequentemente para descrever as populações negras. São retratos que reflectem a saudade e vontade de reviver tempos que na verdade foram sombrios e de muita dor para quem foi oprimido durante séculos.

Essas reconfigurações da memória colonial não só a deturpam, como a validam. O mito vira facto.

Para além disso, reflectem também  como na nossa sociedade o racismo e o colonialismo é visto como algo ultrapassado. É impensável haver um café, num hotel, com nome de “Café Nazi”, como existe em Lisboa o “Café Colonial“.

No entanto, o Colonialismo foi também um sistema de domínio que definia uma determinada raça como superior à outra; um sistema que limitava as liberdades das raças tido como inferiores; um sistema que perseguia, torturava e matava aqueles que se opunham ao poder. Tal como o Nazismo, o Colonialismo foi perverso, violento, nocivo.

Embora com objectivos distintos, ambos sistemas deixaram marcas que se fazem sentir até hoje.

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Designer paquistanesa Aamma Aqeel foi criticada pela coleção “Be My Slave” (Seja meu escravo): Fonte: Clutch Magazine

Mas a nostalgia colonial está também presente nos países hoje independentes.

Por exemplo, até recentemente havia uma discoteca chamada “Sanzala” na Baixa de Maputo. Isto evidencia a insensibilidade com que se trata a escravatura no país e a falta de conhecimento do horror e violência a que as pessoas escravizadas eram submetidas.

No Brasil também são comuns as referências à escravatura. No ano passado uma quinta que fazia encenação da vida dos escravizados (incluindo torturas) foi denunciada e obrigada a encerrar o “entretenimento”.

 

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No Brasil é pertinente explorar melhor a Lei Áurea. Fonte: Brasil Escola

É importante contar a História tal ela aconteceu. Houve exploração, violação, dominação dos povos africanos. Houve desmando e abuso.

O Colonialismo e a Escravatura foram processos dolorosos que não só dizimaram pessoas, mas também culturas. As nações foram roubadas e impedidas de se desenvolverem, de usar os seus nomes e as suas línguas.

Cabe-nos a nós reconhecer e falar das atrocidades cometidas com a devida seriedade sem crises de consciência.

 

Sororidade não é amor incondicional

A sororidade no feminismo quer dizer  o reconhecimento de uma experiência de feminilidade partilhada. Mas será universal?

Essa feminilidade diz respeito a um conjunto de opressões, valores e vivências comuns. A sororidade é um acordo entre as mulheres que se reconhecem como irmãs, e alcança a dimensão emocional, ética e política do feminismo contemporâneo.

Não pode haver de facto feminismo se não houver esse entendimento mútuo.

O Patriarcado é uma instituição que define essencialmente relações de poder em que o homem ocupa o topo da hierarquia. Esse poder é sentido na Ciência, na Academia, na Religião, e em lugares como Escolas, Hospitais, pois está enraizado nos hábitos das pessoas.

A perpetuação do Patriarcado é garantida através da nossa própria cultura, pois somos socializados para normalizar os papéis de género que definem esses lugares de domínio e submissão.

A armadilha do Patriarcado é colocar as mulheres a lutar entre si. E caímos nessa armadilha sempre que fazemos piadas ou comentários machistas. Sempre que expomos negativamente outras mulheres. Sempre que perpetuamos o discurso das vadias vs. virgens.

Mas ao construirmos debates construtivos e diálogos com tolerância fortalecemos a nossa rede.

O Patriarcado defende e promove a fraternidade entre os homens e obriga as mulheres a disputar e sustentar os interesses do desejo masculino, já que são socializadas entre si como inimigas.

É precisamente por isso que o Feminismo existe, para contestar essas definições. O feminismo precisa dessa união entre as mulheres para poder criar uma nova realidade.

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Eu como mulher me solidarizo e simpatizo com todas as mulheres. É este o exercício que sororidade nos exige: empatia; compreensão; fortalecimento.

O reconhecimento dessa feminilidade partilhada, dessa emancipação enquanto grupo é o que transforma o sofrimento em aceitação. A consciência dessa posição traz não só protecção, mas também força e gratidão.

Num mundo em que o masculino sempre é exaltado e a nossa aceitação como mulheres está intrinsicamente ligada ao poder que os homens nos permitem ter, é muito forte sentir que não estamos sozinhas.

Não existe nada melhor que sentir essa amizade vindo de uma outra mulher. Sentir essa entrega e essa energia. Sentir esse refúgio dentro de um mundo que sempre traz as nossas inseguranças à tona.

 

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A banalização da sororidade. Fonte: Não me Kahlo

 

Mas sororidade também pode ser uma maldição. Sororidade tóxica, forçada em nada nos fortalece.

A sororidade pretende a união para combater o patriarcado, isto é, a supremacia do poder masculino. No entanto vivemos num mundo em que reina não só o sexismo, mas também o racismo, a homofobia, classismo; etc. Todas estas opressões estão interligadas.

É preciso olhar para a sororidade sobre a lente da interseccionalidade também.  Porque as mulheres não sofrem apenas por serem mulheres, sofrem também por serem negras – as que são negras, por serem lésbicas – as que são lésbicas, por serem pobres – as que são pobres e por aí vai.

Então como podemos pedir a uma mulher pobre que trabalha como escrava doméstica que esta reconheça uma mulher rica sua patroa como irmã? Como pode haver sororidade num contexto de opressão?

Há que reconhecer os abusos que existem entre as mulheres tendo em conta as redes de opressão em que cada uma de nós está presa.  A sororidade exige também que façamos essa delimitação para que possamos validar as experiências de todas as nossas irmãs.

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A palavra sororidade vem do latim sororis (irmã) e idad (qualidade). Fonte: O Machismo Nosso de Cada Dia

Devemos nos unir para formar uma muralha contra o nosso opressor comum, mas também lutar contra as opressões que cada uma de nós perpetua no seu espaço.

É fundamental que haja essa busca sistemática por um campo de solidariedade entre todas, o que passa inevitavelmente pelo reconhecimento da outra mulher como minha semelhante. E esse reconhecimento facilitará a auto-afirmação da nossa própria força e determinação.

Considerar a sororidade como um factor constante, amor incondicional, valor supremo enfraquece as nossas lutas, pois dilui todos os sofrimentos específicos de cada uma de nós.

O curioso caso das (poucas) negras nos vídeos

A música pop africana tem estado a passar uma fase de ouro, com vários artistas a terem reconhecimento internacional fora daquilo que é a “world music”. No hip hop, na kizomba, no RnB e em vários outros estilos musicais, África começa a destacar-se.

Contudo, apesar do som distinto dos sons de hip hop e de kizomba vindos do nosso continente, comparados àqueles de outros locais do mundo, nos vídeos e nos estilos de vida promovidos nada difere.

A nossa criatividade parece não ir tão longe. A imagem da mulher negra nestes espaços continua a ser usada apenas para reforçar estereótipos.

Na cultura pop, o papel da mulher negra sempre foi muito marginal. Apesar as contribuições de mulheres fora do padrão como a Missy Elliott, a maioria das mulheres negras que vemos na indústria musical estão apenas como acessórios para o sucesso de outras pessoas.

São as suas bailarinas, coristas, maquilhadoras, coreógrafas, mas quase sempre o seu papel é apagado.

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O legado feminista de Missy Elliott é subestimado criminalmente. Fonte: Dazed

Em África esta tendência começa a evidenciar-se. É comum nos vídeos das estrelas vermos as protagonistas sendo mulheres negras claras ou até mesmo brancas, com uma ou outra negra escura no plano de fundo ou geralmente hipersexualizada e exotificada ao extremo.

O padrão que estabelece como belo no feminino como as feições europeias e a pele clara está tão enraizado e é tão penetrante que não pode ser visto como mera coincidência. Fazendo uma pesquisa rápida pelo Youtube e observando os vídeos musicais de artistas africanos mais vistos rapidamente fica claro que não é uma questão pessoal, mas sim estrutural.

É uma manifestação do racismo e colorismo presentes na nossa sociedade.

Enquanto o racismo é a sobrevalorização de todos os aspectos e atributos da cultura branca (leia-se Ocidental), já o colorismo caracteriza-se pela discriminação de uma pessoa negra de acordo com a tonalidade da sua pele, privilegiando os tons mais claros e os traços associados às pessoas brancas (cabelo liso; nariz fino; etc).

O colorismo é um problema do qual já falei aquando da campanha “No Make Up” (Sem maquilhagem) da Alicia Keys.  O colorismo manifesta-se, por exemplo, no excesso de manipulação das fotos das mulheres escuras em capas de revista para que fiquem mais claras e até no preterimento das mulheres negras pelas mulheres mestiças.

A pessoa de pele mais clara é tolerada pois aproxima-se mais à branquitude. E é por isso que o colorismo é resultado do racismo.

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O colorismo é visível nas nossas vidas. Fonte: Beleza Black Power

Os artistas africanos também são produto dessa mesma sociedade e como tal, muitas vezes, talvez até de forma implícita, sem se aperceberem perpetuam estes ideais de beleza eurocêntricos.

Tendo como referência outras figuras proeminentes, da Europa e sobretudo dos Estados Unidos da América, os artistas africanos inspiram-se na linguagem figurativa e no imaginário daquilo que é o sucesso e o que o sucesso representa para elaborar as suas próprias linhas de comunicação.

Desta forma, sem desafiar as produções da indústria que já são habituais, as mulheres no geral e em especial as negras, aparecem como objectos muitas vezes sem uma cara, somente em pedaços.

As mulheres negras são usadas como acessórios para validar a desejabilidade sexual dos artistas, mas não para representar pares românticos.

Não há dúvidas que tudo isto tem repercussões na auto-estima e na imagem que as próprias mulheres têm de si mesmas. Embora claro, não possamos depositar toda a responsabilidade na falta de representação na música, não podemos negar o lugar central que a música tem na cultura pop.

Quando os artistas mais famosos não valorizam as mulheres negras, nem mesmo em África, temos um problema. É um desperdício o papel central que tais figuras têm na construção de mentalidades e no seu papel como veículos e manifestações das crenças e ideias em torno da beleza e valor da mulher.

Onde estão as mulheres negras escuras em África? Fonte: This is Africa

É importante que mulheres que todas as proveniências e com experiências diversificadas se sintam validadas, e como tal mulheres brancas em relações interraciais também merecem algum espaço.

No entanto, com tão poucos espaços para ver e celebrar as mulheres negras, temos de exigir mais dos nossos artistas em África. Queremos dançar e cantar ao som de ritmos que não só nos enalteçam, mas enalteçam também a nossa imagem.

Queremos ver um novo protótipo de mulher negra, uma nova imagem de nós mesmas. Queremos quebrar esse padrão eurocêntrico.

Em busca da liberdade sexual

A luta das mulheres pela soberania da própria sexualidade é constante.

Quando assumimos propriedade da nossa sexualidade e expressamo-la livremente, somos conotadas como vadias, desvalorizadas, contudo é esperado que o sejamos. É aquela velha coisa “Santa na rua. P*ta na cama”.

Somos socializadas para acreditar que devemos ser virgens e que nos devemos afastar de qualquer contacto sexual. No entanto, simultaneamente, nos é exigida uma performance sexual excepcional e sofremos pressão para dar prazer sempre.

Este dilema para as mulheres negras é ainda mais forte. A mulher negra é ao mesmo tempo a figura menos valorizada no que toca à beleza e desejabilidade, e é também aquela mais objectificada e com a sexualidade mais alienada.

 O corpo feminino negro é hipersexualizado e por isso existe a ideia da disponibilidade e perversidade sexual inquestionável da mulher negra. Nesse sentido, o processo para que a soberania sobre a própria sexualidade seja retomada requer um esforço acrescido para incorporar a componente racial.
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Saartjie Baartman foi uma mulher sul-africana traficada e explorada como atracção de circo no séc. XIX devido ao seu corpo

Tal como já tinha referido, aquando da polémica  em torna da vitória de Semeneya nos Jogos Olímpicos, o padrão de mulher dominante define a Mulher Ideal como branca, cisgénero e heterossexual, de tamanho pequeno, com aspecto frágil e dócil. Como tal os traços naturais da Mulher Negra apresentam uma inconformidade aos critérios do Imperialismo Branco.

As feições do corpo da mulher negra são vistas como marcas de algo selvagem. Mas os mesmos lábios grandes e glúteos avantajados, numa mulher branca são desejáveis. Basta vermos como Kim Kardashian e a sua irmã Kylie Jenner fazem sucesso com alguns traços tradicionalmente negros.

O corpo da mulher negra está sempre na posição do “outro”, é exótico; diferente. E a mulher negra é proibida; pecaminosa, inadequada para matrimónio ou monogamia. Em países com forte legado esclavagista, como o caso do Brasil e dos EUA, é gritante o caso de homens negros bem sucedidos casados com mulheres brancas, ou no mínimo negras claras. Isso não pode ser coincidência. Não é uma questão de preferência pessoal, mas sim de discriminação sistemática.

No entanto, esses mesmos homens, usam-se do corpo da mulher negra para fazer dinheiro. A mulher negra está nos seus vídeos, fazendo danças eróticas e deitada com eles na cama. Mas raramente como um ser humano completo, dignificado e real.

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O corpo da mulher negra é o campo de batalha onde se manifestam as contradições e incoerências do Patriarcado.

Por um lado somos invisíveis, pois nas revistas, na TV e até no mercado erótico, prevalecem as mulheres brancas. Elas são o protótipo de corpo desejável. E por outro lado, as características mais desejáveis são comuns nos corpos de pessoas negras (seios largos; bunda grande; lábios carnudos; etc), mas apenas se estas características forem branqueadas. Até existem produtos dedicados ao clareamento de partes do corpo mais escuras (axilas; cotovelos; mamilos; genitais; etc).

Então as qualidades sexualmente desejáveis são sempre aquelas associadas ao corpo da mulher branca e as características são aquelas da mulher negra.

Numa sociedade que lucra com as inseguranças das mulheres, estar confortável com o seu corpo pode ser revolucionário.

É por isso compreensível que para muitas mulheres negras é na exploração da sua sexualidade que se sentem mais empoderadas, pois é aí que reside o seu valor.

É o caso de Bernice Burgos. Ou, já que falamos nas Kardashians, de Blac Chyna. Ambas são mulheres cuja carreira está intimamene ligada ao imaginário da sociedade no que diz respeito à (in)saciabiliade sexual da mulher negra.

A mulher negra é quente. É sexual. É promíscua. É boa de cama. Estas mulheres correspondem às expectativas do corpo da mulher negra.

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Bernice Burgos causou polémica quando visitou Angola. Fonte: Rede Angola

Os espaços de prazer e de desejabilidade não nos são acessíveis, e como tal,  precisam de ser criados outros alternativos longe das noções de inferioridade ou estereótipos previamente definidos.

Num mundo em que o corpo da mulher negra é forçado a ser “domesticado” para se assemelhar à mulher branca, uma tentativa de fazer dessa prisão um espaço de empoderamento pode ser libertador para algumas mulheres.

 

Corre Semeneya, Corre!

 

Lynsey Sharp, que terminou em sexto lugar na corrida dos 800m femininos foi a primeira atleta a contestar a participação de Semeneya na corrida, afirmando que era uma desvantagem correr contra ela. 

Sharp, com todo o seu privilégio de menina branca, nascida e criada na Escócia, filha de um medalhista olímpico, treinada nas melhores Academias, tem a audácia de atribuir a sua  sexta posição, ao facto de competir contra Mokgadi Semeneya.

Semeneya, que vem de uma isolada vila na África do Sul, país onde até 1994 os negros nem sequer tinham direito ao voto, para não falar em oportunidades de crescimento pessoal e profissional, teve de enfrentar mais dificuldades para chegar ao pódio.

Insatisfeita com a sua performance, Sharp desmereceu até todo o investimento feito pelo seu país para o Atletismo.

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Caster Semeneya foi alvo de várias críticas ao terminar em primeiro lugar
Será que haveria tanto alarido caso Semeneya tivesse terminado em último na corrida? E se fosse branca como teriam reagido as suas adversárias?

Atenção que Semeneya não foi acusada de doping, mas sim de ter uma vantagem natural e injusta devido ao seu corpo.

Lynsey Sharp, que não fosse por Semeneya-  vale a pena ressalvar- teria ainda assim terminado atrás de quatro outras pessoas, ou seja, não chegaria ao pódio, sentiu-se no lugar de questionar a presença de Caster Semeneya na competição.

Jarmila Kratochvílová, a actual recordista dos 800m femininos, da República Checa não só tem um físico mais “masculino” que Semeneya, como também já foi acusada de doping, sem nunca no entanto ter sido alvo de exames ou escrutínio por parte do COI ou IAAF.

Os ataques sofridos por Caster Semeneya evidenciam o racismo ainda muito vivo no desporto até no mais alto nível.

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Jarmila Kratochvilova já foi acusada de doping, mas nunca foi provado e mantém a sua inocência
Há aqui, para além de um claro sentido de intitulação por parte de Sharp, que a faz acreditar que era seu DIREITO ganhar uma medalha, a presunção que de alguma forma, Caster Semeneya tem uma vantagem sobrenatural.

Essa vantagem sobrenatural, prende-se, logicamente com o seu corpo e alegações de hiperandrogenismo.

Mulheres negras são tidas como uma espécie sub-humana. Devido à exotificação e hipersexualização do seu corpo, há a expectativa que a Mulher Negra tenha um comportamento semi-animal.

O padrão de Mulher dominante define a Mulher Ideal como branca, cisgénero e heterossexual. De tamanho pequeno, com aspecto frágil e dócil.

É difícil para qualquer mulher viver à altura desses padrões e para uma mulher negra essa luta é ainda pior. Os nossos traços robustos; os nossos ombros e braços largos; as nossas pernas tipicamente grossas; tudo isto apresenta uma inconformidade aos critérios do Imperialismo Branco.

Porque o corpo de Semeneya não corresponde às expectativas do corpo de uma mulher – e leia-se aqui, de uma mulher branca- isso de alguma forma a coloca numa posição em que ela deveria correr contra homens.

A suposição em como o seu corpo, por ter aspectos considerados masculinos, ou na melhor das hipóteses, andróginos, darem-lhe uma vantagem injusta não só reforça a ideia que ela não é mulher, como também, desvaloriza as mulheres, visto que suporta a visão da supremacia da força e corpo masculinos.

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Mokgadi Semeneya levou para a casa o Ouro na corrida dos 800m

 

Os nossos corpos vivem à margem daquilo que se considera “Mulher”. Os nossos corpos sequer se podem intitular “femininos”.

Mas são. Nós somos. Mulheres. Negras.

Mokgadi Caster Semeneya é uma mulher.

Lá porque o seu corpo desafia os padrões pré-definidos como aceitáveis numa Mulher. Porque desafia os limites da força considerável máxima numa Mulher. Porque coloca em perspectiva o nosso conceito de Mulher. Isso não faz dela menos Mulher.

Mokgadi Caster Semeneya é uma mulher.

Uma mulher merecedora da sua medalha. Fruto de todo o seu esforço e treino. Do seu corpo negro maravilhosamente esculturado.