As nossas colonialices

As nossas colonialices

Foi há 40 anos que Moçambique se tornou um país independente, governado tendo em conta os seus próprios interesses e para o seu próprio povo.

No entanto, a herança colonial até hoje está bastante presente.

A auto-imagem que temos é na verdade um reflexo do que nos foi ensinado sobre nós mesmos durante os anos de ocupação europeia no território Africano.

 

É comum entre nós, especialmente para as pessoas mais velhas que viveram o período colonial, reforçarem alguns mitos sobre os africanos: os africanos são preguiçosos; os africanos não têm tanta capacidade intelectual como os europeus; os africanos servem apenas para trabalho braçal; etc.

Por outro lado, também existe um discurso de saudosismo ao tempo colonial, que glorifica os horrores e opressões por que passavam todos os dias as populações africanas durante esse período.

E acima de tudo, herdamos muito da forma de estar, de ser e fazer do colono.

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A luta pela descolonização continua. Fonte: Público

Embora exista a União Africana, os blocos regionais e aqueles definidos pela língua são os que têm mais peso. Ainda nos definimos como lusófonos (os que falam Português); francófonos (os que falam Francês) e Anglófonos (os que falam inglês), e deixamos de lado as nossas restantes línguas, que representam a maioria da população e provavelmente os elos mais fortes que nos ligam.

A recente crise nos Camarões centra-se sobretudo na fricção entre camaronenses “francófocos” e camaronenses “anglófonos”, o que evidencia até que ponto essas identidades forjadas até hoje se fazem sentir.

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A crise dos Camarões prende-se com identidade. Fonte: Crisis Group

A verdade é que as próprias fronteiras não existiam e por isso, juntaram-se nações, repartiram-se outras para formar os países que hoje conhecemos.

Os poderes coloniais impuseram desta forma as suas línguas, costumes e culturas nos povos africanos. Desse processo houve mudanças sociais políticas e económicas que alteraram para sempre o destino dessas nações.

Portanto os conflitos étnicos/ tribais surgem como resultado dessas disputas: espaço legitimidade; recursos; etc.

Um outro exemplo marcante do colonialismo europeu é a réplica do funcionamento das insituições do Estado, até nas suas vestes.

Nos países outrora ocupados pela Grã-Bretanha, por exemplo, as formas de tratamento nos tribunais, o funcionamento dos mesmos e até mesmo o vestuário dos Juízes parecem ter saído do séc. XIX.

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Membros do Poder Judiciário no Malawi, Nigéria e Ghana, entre outros países africanos ainda usam o traje tradicional britânico. Fonte: The Independent UK

Uma das marcas mais fortes do colonialismo europeu em Moçambique é a institucionalização das “boas maneiras” e da “decência” especialmente na Função Pública, que é claramente herança do puritanismo católico.

As instituições públicas, na altura em que Moçambique estava ocupado pelos Portugueses, eram reservadas apenas aos europeus ou a alguns negros – os assimilados, que tinham alguns privilégios uma vez que eram “civilizados”.

Até hoje nas repartições públicas não se pode ir de calções, chinelos, blusas de alças ou saias acima do joelho. Estas medidas também são reforçadas em Escolas e até mesmo Universidades.

foto hospitalRecentemente uma imagem tornou-se viral por se tratar do aviso de um hospital. O aviso restringia o vestuário permitido aos utentes, o que é um absurdo, tendo em conta que se trata de um hospital.

Isto é novamente a reprodução do discurso do colono. O cidadão comum, pobre, camponês, tem desta forma o acesso vedado a estes serviços pois não tem roupas para entrar na Esquadra ou no Hospital, nem tão pouco para tratar o seu Bilhete de Identidade. Aliás, nem o rei da Swazi, com as suas roupas tradicionais seria admitido no Hospital!

Este falso moralismo sente-se um pouco por todo o lado. Estas noções de decência e civilização ultrapassadas são usadas até hoje nas nossas sociedades.

 

Ainda hoje nos inspiramos na legislação, educação, etc das potências europeias para edificar os nossos países “independentes”.

E como resultado, continuamos a reproduzir mecanismos de exclusão e a atrasar o nosso desenvolvimento.

Choriro e a disputa pelo espaço

Choriro e a disputa pelo espaço

O livro Choriro, de Ungulani Ba Ka Khosa descreve o espaço ao Sul do Zambeze no séc. XIX

“Choriro”, que significa choro em língua local, descreve os dramas, as intrigas e esperanças em torno da morte de Nhabezi, um rei branco, que em tempos dominou a região.

Através de uma moldura temporal, Ba Ka Khosa pinta o cenário de mudanças que se faziam sentir, tanto a nível social, como político, cultural e económico. Isto claro, aliado às tradições, mitos, vivência e religiões dos povos locais e à tentativa de construção dos Impérios Britânico e Português.

O cruzamento destes olhares sobre o mundo, infelizmente, foi pago com muita sangue e com esse sangue calaram-se as vozes que podiam manter esse legado vivo.  Deste modo, o escritor, que é também historiador, tenta com a sua obra resgatar estes saberes esquecidos.

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Choriro é o resgatar a alma de um tempo. Fonte: O País

Ao morrer, Nhabezi, também conhecido por Luís António Gregódio, português de origem, tem como sonho tornar-me mpondoro – espírito guia e protector do seu povo. Ele quer transformar-se em:

“espírito de leão como outros soberanos das terras à margem sul do Zambeze se haviam transformado e governado espiritualmente os seus homens. Mas muitos duvidavam da real capacidade de o espírito de Nhabezi em coabitar com outros no selecto reino das divindades africanas.” – p.39

Como um “senhor dos prazos” Nhabezi foi fiel ao seu povo. Era muito respeitado e se acostumou rapidamente à cultura dos achicundas, de modo a que o seu tom de pele não mais representava uma ameaça ou despertava estranheza. Quando morreu, o luto dos seus veio com desorientação, tristeza, desordem.

Coloca-se a questão: Poderá Nhabezi entrar no reino dos mpondoro? Será aceite, como homem branco, no reino dos grandes e imortais reis negros?

Como pode, um chefe branco mesmo tendo assimilado todos os elementos de africanização tornar-se mpondoro?

É esta tensão entre os diferentes espaços que sentimos ao longo de todo o livro.

Os próprios filhos de Nhabezi, uns mais identificados com a cultura portuguesa e inclusivamente funcionários públicos no regime colonial e outros mais ligados à cultura achicunda, exímios caçadores de elefantes, também são exemplos desta constante negociação do sentimento de pertença.

As culturas e tradições locais das pequenas povoações dão espaço a novos costumes à medida que o reino vai-se alargando. Adicionalmente, temos os ingleses e os portugueses a disputar o comércio dos escravos. Em paralelo também há o tráfico de meninas negras virgens; a relação entre as mulheres de Nhabezi; a tensão entre a Igreja Católica e as religiões locais.

E claro, temos também a própria História de Moçambique a lutar pelo seu espaço contra a História de Portugal, e num contexto mais alargado, a História do mundo.

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O autor, em Choriro, evidencia o seu inconformismo em relação à História que nos é contada actualmente. Fonte: O País

Em “Choriro” fica subentendido que as forças que decidem estão para além de nós, ou pelo menos para além do nosso entendimento.

Tantos os conselheiros, como as mulheres, os filhos e os oráculos de Nhabezi choram mergulhados nas suas dúvidas, pois ninguém sabe sobre que regras se organizam esses espaços.

Afinal quem define essas regras? A quem cobramos esses limites?

São essas complexidades e armadilhas dos saberes ancestrais que nos envolvem e questionam. Todos nós nascemos e vivemos e vamos ganhando consciência dos espaços que ocupamos, uns mais e outros menos centrais ou periféricos.

E esses espaços, por sua vez, permitem-nos aceder a certos privilégios ou ter um determinado reconhecimento, como se prevê no caso de Nhabezi. No entanto, as regras não são tão simples assim. Por algum acidente ou coincidência podemos questionar a nossa legitimidade em ocupar tal espaço.

Será que sou digno de estar aqui? Poderei, começando neste degrau, alcançar determinado patamar? Onde pertenço?

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Embora a musa da história seja Nhabezi, por detrás desta sereia, há um mar (ou devia dizer rio?) e as suas ondas balançam, chamando discretamente pela nossa atenção.

Essa sereia seduz, é atraente e vistosa, porém os mistérios guardados pelas ondas são maiores e bem mais interessantes.

A sereia é a caricata história de Nhabezi, o rei branco, polígamo, influente no vale do Zambeze que sonha em tornar-se mpondoro como rezam as lendas locais. O mar é a sombra do colonialismo; o comércio de marfim; o tráfico de escravos; a economia de mercado; a presença cristã, enfim, a fusão que acontece entre estas influências que tragicamente destroem (ou tentam destruir) a cultura nativa.

O vale do Zambeze é, portanto, o campo de batalha onde estas disputas ocorrem.

O espaço, muito mais que o tempo, é que determina o futuro daquilo que hoje chamamos de Moçambique.

Os Bons & Velhos Tempos

Como a História que nos ensinam deturpa a realidade dos tempos que se foram.

No nosso imaginário a “vida na quinta de escravos” ou a “vida na colónia” era cheia de alegrias e tempo livre para correr, brincar, namorar. Lá as senhoras brancas confidenciavam nas suas amas de leite, que depois de apaixonavam pelos seus patrões brancos e desse amor proibido nasciam filhos mestiços.

As crianças, tanto brancas como negras, eram livres para correr, brincar e comer. Podiam ir à praia ou comer os frutos silvestres que caíam das árvores.

Ah! Como eram bonitos, os bons e velhos tempos!

Esse saudosismo barato que glorifica as atrocidades cometidas pelos países colonizadores e sociedades esclavagistas é muito comum e começa cedo.

Durante a infância, as crianças são ensinadas a fazer uma interpretação romântica da Escravatura e do Colonialismo.

Os livros escolares trivializam as questões de violação de direitos humanos. Adicionalmente, não fazem uma leitura fidedigna da natureza das relações de poder e das violências levadas a cabo pelos países colonizadores.

Assim, as crianças crescem sem uma visão fiel da História e perpetuam os ideais imperialistas e racistas que até hoje regem o mundo.

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Os Portugueses sabem pouco do seu Passado Colonial. Fonte: Diário de Notícias

Na África do Sul recentemente a deputada Helen Zille do principal partido da oposição (Aliança Democrática) elogiou o legado do Colonialismo.

Segundo ela, foi graças ao sistema colonial que a África do Sul conseguiu ter grandes infraestruturas (hospitais; rede de transportes; etc). Mas, para quem eram tais infraestruturas? Quantas pessoas tiveram de morrer para construir tudo isso?  E até hoje, quem tem acesso a tais infraestruturas?

E sobretudo, é importante referir que tais construções tiveram um preço muito alto, demasiado alto. Apenas em 1994 a África do Sul se libertou das correntes do Apartheid, que deixaram a população negra sul-africana estruturalmente desfavorecida.

É a população negra que ocupa os cargos mais precário, que faz o trabalho mais pesado; que vive nas zonas mais vulneráveis tanto para a sua saúde como para a sua segurança e obviamente, é a população negra quem tem menos acesso a Educação Superior.

Taxativamente falando, é esse o legado do Colonialismo.

A imagem e fotografia que se dá ao Colonialismo sempre é aquela dos tempos de glória, em que as cidades andavam limpas e os restaurantes eram bem frequentados (leia-se aqui, na altura em que os pretos não podiam lá estar).

É esta mesma imagem que vemos recriada em hotéis, restaurantes, revistas, filmes, etc.

Essas imagens reforçam a ideia de “exótico” e “étnico” que se usam frequentemente para descrever as populações negras. São retratos que reflectem a saudade e vontade de reviver tempos que na verdade foram sombrios e de muita dor para quem foi oprimido durante séculos.

Essas reconfigurações da memória colonial não só a deturpam, como a validam. O mito vira facto.

Para além disso, reflectem também  como na nossa sociedade o racismo e o colonialismo é visto como algo ultrapassado. É impensável haver um café, num hotel, com nome de “Café Nazi”, como existe em Lisboa o “Café Colonial“.

No entanto, o Colonialismo foi também um sistema de domínio que definia uma determinada raça como superior à outra; um sistema que limitava as liberdades das raças tido como inferiores; um sistema que perseguia, torturava e matava aqueles que se opunham ao poder. Tal como o Nazismo, o Colonialismo foi perverso, violento, nocivo.

Embora com objectivos distintos, ambos sistemas deixaram marcas que se fazem sentir até hoje.

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Designer paquistanesa Aamma Aqeel foi criticada pela coleção “Be My Slave” (Seja meu escravo): Fonte: Clutch Magazine

Mas a nostalgia colonial está também presente nos países hoje independentes.

Por exemplo, até recentemente havia uma discoteca chamada “Sanzala” na Baixa de Maputo. Isto evidencia a insensibilidade com que se trata a escravatura no país e a falta de conhecimento do horror e violência a que as pessoas escravizadas eram submetidas.

No Brasil também são comuns as referências à escravatura. No ano passado uma quinta que fazia encenação da vida dos escravizados (incluindo torturas) foi denunciada e obrigada a encerrar o “entretenimento”.

 

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No Brasil é pertinente explorar melhor a Lei Áurea. Fonte: Brasil Escola

É importante contar a História tal ela aconteceu. Houve exploração, violação, dominação dos povos africanos. Houve desmando e abuso.

O Colonialismo e a Escravatura foram processos dolorosos que não só dizimaram pessoas, mas também culturas. As nações foram roubadas e impedidas de se desenvolverem, de usar os seus nomes e as suas línguas.

Cabe-nos a nós reconhecer e falar das atrocidades cometidas com a devida seriedade sem crises de consciência.

 

O Rei Vai Nu

Quem dirá ao Rei, cheio da sua vaidade, que ele está na verdade nu?

Era uma vez um rei muito vaidoso que vivia rodeado de luxo num reino em que os plebeus viviam na miséria.

Conhecido pelos seus trajes extravagantes, o rei é abordado por dois aldabrões (certamente moçambicanos) que dizem ter um tecido muito belo, visto apenas por pessoas inteligentes e requintadas.

O Rei permitiu que os dois tirassem-lhe as medidas e dali a alguns dias eles apareceram com o “fato”. O Rei não via nada, mas também não queria dar a entender que não era inteligente ou requintado, por isso confirmou que o tecido de facto tinha uma qualidade superior.

Depois de fingir que vestia o fato, já que era invisível, o Rei encheu os aldrabões de elogios, que em troca aplaudiram a sua elegância. Rapidamente a notícia se espalhou: O Rei tinha um fato especial, de qualidade superior, visível apenas aos olhos de quem fosse inteligente e requintado.

Então certo dia o Rei decide sair às ruas com o seu fato especial. Todos admiraram o fato, pois não queriam passar por ignorantes até que a criançada começou a rir e a gritar “O Rei vai nu! O Rei vai nu!”, e todos se espantaram, porque de facto ele estava nu. E todos se riram dele.

O Rei fugiu envergonhado para o seu Palácio.

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O Presidente sul-africano Zuma vai nu sem alguém que lhe diga a verdade. Fonte: Brett Murray

É assim também por aqui, na vida real, nas nossas pseudo-democracias. Meio-ditaduras. Os nossos reis estão nus. Só que ninguém lhes diz.

Segundo o mais recente relatório sobre a liberdade de imprensa, muitos governos têm usado estratégias mais subtis para ameaçar e intimidar os cidadãos de modo a evitar críticas.

Em África, apesar do avanços nos anos mais recentes ainda temos um longo caminho para fazer.

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A investigadora é acusada de assédio moral contra o Presidente e a Primeira-Dama. Fonte: The Guardian

Esta semana, a activista ugandesa Stella Nyanzi questionou na sua página de Facebook, o que terá sido das crianças que apontaram o óbvio.

Será que foram mortas por ordens do rei? Será que a multidão voltou-se contra elas e tentou fazer com que elas vissem as roupas invisíveis por terem medo do rei? Ou receberam o amor dos amigos? O que acontece a quem diz a verdade em regimes maléficos?

Com um PhD em Antropologia Social, Stella Nyanzi é investigadora nas áreas de sexualidade; saúde sexual e reprodutiva; racismo e medicina alternativa, entre outras.

No Uganda, onde o Presidente Museveni ocupa o mesmo cargo há mais de 30 anos, Nyanzi já foi presa várias vezes por protestos pacíficos e pelas críticas severas ao regime.

Em Moçambique, pelo trauma dos conflitos vividos, temos muito medo de falar, pois não queremos mais violência. A sociedade como um todo promove o silêncio e entretenimento que distraia e não questione o status quo.

No entanto, há sempre quem tenha coragem de levantar a voz. Uma dessas pessoas é o rapper Azagaia, famoso pela música de intervenção que faz.

Depois das manifestações populares de 2008, o músico lançou a música “Povo no Poder” que resultou numa intimação pela Procuradoria Geral da República por supostamente “atentar à segurança do Estado” e “incitar a violência”.

Nos anos mais recentes jornalistas; investigadores; juristas; seqüestradores foram assassinados em circunstâncias duvidosas. É o exemplo de Gilles Cistac, um jurista, baleado em 2015 ao entrar num táxi na cidade de Maputo.

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Gilles Cistac entra para a lista de pessoas assassinadas em Moçambique por motivos políticos. Fonte: The European Magazine

Tal como eles, um pouco por todo o mundo, as liberdades de expressão dos cidadãos são cada vez mais limitadas.

Em Angola por lerem e debaterem um livro, activistas foram presos e julgados no que ficou conhecido como o caso 15+2.

No entanto, no mesmo país recentemente os deputados decidiram importam carros de luxo no valor de mais de 75 milhões de dólares americanos. Simultaneamente, num hospital da capital, Luanda, as mulheres grávidas e recentes mães são obrigadas a partilhar as camas ou dormir no chão.

Os reis estão mesmo nus. E ninguém faz nada.

Em “democracias” frágeis, como grande parte das democracias africanas, as ameaças a quem questiona quem está no Poder são evidentes.

Até quando deixaremos o medo travarem as nossas vozes?

 

Kutchinga ou não Tchinga?

O Kutchinga é um ritual que tem como objectivo purificar a viúva, levado a cabo através de relações sexuais com um dos familiares do falecido (geralmente um cunhado).

 

Pela forma como vivenciamos a vida é comum não encontrarmos respostas para as nossas questões no mundo material. É então que nos viramos para o mundo espiritual para ter explicações para os diversos fenômenos que acontecem no nosso dia-a-dia.

Uma das grandes questões daqueles que estão vivos é precisamente a morte. O que é a morte? Como acontece? Porquê?

No caso das mulheres moçambicanas, ao perderem ao marido têm ainda uma caminhada difícil para enfrentar.

Uma vez que a Mulher representa a vida, a fertilidade, é ela a origem de todas as coisas – boas e más. Quando o seu esposo morre é necessário que se tire a morte dela, isto é, que se purifique.

Como acreditamos que a morte não é um mero acaso, mas sim resultado de uma série de acontecimentos sobrenaturais, o pagamento de dívidas que temos com o Universo, é preciso livrar os vivos das vivências dos mortos.

E a esposa, como parceira de vida, com quem o falecido partilhava os dias, é quem tem de salvaguardar a segurança de todos. A viúva tem de se purificar para evitar mais tragédias; infortúnios; azares para si, os seus filhos; netos; etc.

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O ritual de luto tem três fases. Fonte: Saberes locais

 

Kutchinga, no sul de Moçambique ou Kupitafuka no Centro é o ritual através do qual se faz essa purificação da viúva.

A morte do seu esposo é também o marco do nascimento de energias negativas/ impurezas. Estas energias (ndzaka) quando não são seguidos os devidos rituais, podem causar danos na vida da família e comunidade.

Todos os parentes e pertences do morto – mesmo aqueles que vivem longe – tornam-se impuros no momento da morte. Daí o luto. Essas pessoas devem cumprir os rituais de luto à risca, sobre a pena de consequências terríveis a eles próprios e àqueles ao seu redor.

A purificação da viúva dá-se através do Kutchinga, que deve acontecer entre 8 dias a 2 anos da morte do marido. O Kutchinga em si deve durar por volta de seis noites seguidas, durante as quais a viúva deve manter relações sexuais com um familiar do esposo, geralmente um irmão ou primo mais novo.

Em outros casos, o Kutchinga por ser realizado por um homem alheio à família. Estes homens geralmente são conhecidos na região por serem “purificadores natos”/ “purificadores experientes”/ “purificadores viris” e chegam a ser pagos pelos seus serviços.

 

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O Kutchinga precisa de uma alternativa. Fonte: Sapo

Porque na nossa cultura os nossos mortos estão sempre vivos, a partida física de um ente querido não quer dizer necessariamente o desaparecimento das suas energias; alegrias; tristezas; arrependimentos do mundo material.

Daí a invocação constante aos nossos antepassados em todos os momentos importantes das nossas vidas, pois o mundo espiritual habita no mundo material. Tendo em conta a omnipresença dos nossos antepassados, a viúva e os demais familiares podem se sentir em dívida com o falecido.

Por isso, embora haja situações em que a viúva se recusa a praticar o Kutchinga, muitas vezes o medo da maldição fala mais alto.

Para além de não ser um acto voluntário ou seja, de ser um caso de violação sexual; o ritual valida a ‘transmissão’ da viúva de um homem para o outro dentro da mesma família como se de um bem se tratasse.

Adicionalmente, num contexto de um país com uma das maiores taxas de seroprevalência no mundo, o Kutchinga é também um risco à saúde pública, motivo pelo qual a AMETRAMO – Associação dos Médicos Tradicionais de Moçambique desencoraja a sua prática.

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O Kutchinga é um costume ultrapassado. Fonte: Jornal Notícias

 

Mas tal como outro rituais, como por exemplo o lobolo já sofreram alterações, o Kutchinga também deve acompanhar o tempo e o espaço.

Nenhum ritual está imune a actualizações. Pode-se fazer a purificação através de banhos; chás ou orações. Porquê relações sexuais? Não é esta uma forma de reforçar a submissão da mulher face à família do seu esposo?

E mais, por que um homem não passa pelo ritual do Kutchinga quando a sua esposa morre?

Há que repensar o enquadramento da tradição nos paradigmas da vida actual de modo a mantermos a nossa cultura relevante sem colocar em causa a nossa integridade e os valores pelos quais pretendemos viver.

 

Nem caixão, nem prisão!

A questão da gravidez indesejada é um tema polémico, pois inevitavelmente entra no campo da sexualidade, algo que como sociedade ainda não sabemos bem como abordar.

Uma mulher grávida que está num relacionamento estável é celebrada. Todos aplaudem a possibilidade de uma nova vida! Por vermos esta mulher dentro de um padrão aceitável aos nossos olhos felicitamos a nova vida a caminho e encorajamos a vinda de outras vidas.

Mas uma mulher grávida que não se enquadra nesse padrão é mal vista. Ela é a prova da sexualidade depravada das mulheres. Para as mulheres que optam ter os seus filhos sem um parceiro existe um estigma muito forte associado. São as chamadas “mães solteiras”, como se a palavra “mãe” presumisse por si só um estado civil.

A mensagem por detrás desta expressão é clara: mulher solteira não pode ser mãe. A mulher solteira não pode ter relações sexuais.

E é este também o debate em torno do aborto.

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Em Angola as mulheres foram à rua reivindicar o seu direito à escolha sobre o seu corpo.

Discute-se no Parlamento a penalização do aborto, sem excepções. No centro da discussão  cruzam-se questões religiosas com direitos fundamentais e situações sociais e económicas.

A proposta inicial a ser discutida em Luanda prevê com pena de prisão a interrupção voluntária da gravidez, sem nenhuma excepção. Ou seja, mesmo se a gravidez estiver a colocar em risco a vida da mãe ou se for resultado de uma violação sexual, não poderá ser interrompida. A mulher está entre o caixão e a prisão.

Independentemente do que for decidido em Angola a prática do aborto não vai parar.

A verdade é que por detrás de todo o espectáculo mulheres continuarão a interromper as gravidezes que não desejarem. O 1% que tiver condições para tal irá pagar pessoal médico para as fazer, com alguma segurança enquanto o 99% que não tiver condições para tal vai arriscar a própria vida num local clandestino.

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Os defensores da vida do feto esquecem-se muitas vezes do conceito de “autonomia corporal“.

Autonomia corporal que define a inviolabilidade do corpo humano, isto é, cabe a cada pessoa controlar o seu próprio corpo e este direito não pode ser violado.

Um dos exemplos da supremacia da autonomia corporal é a doação de órgãos. A menos que a pessoa tenha consentido em vida à doação dos seus órgãos, estes não podem ser doados. Ou seja, um cadáver tem autonomia corporal.

O mesmo se verifica na doação de sangue. Existem milhares de pessoas todos os dias a morrer em hospitais devido à falta de sangue, no entanto, cabe a cada um de nós decidir se queremos ou não doar sangue. E até podemos doar especificamente a uma determinada pessoa, impedindo que o sangue por nós doado seja utilizado por outra(s) pessoa(s).

Ao obrigarmos as mulheres a levarem as suas gravidezes até ao fim, estamos a tirar-lhes a autonomia corporal, o poder de decisão sobre o seu próprio corpo. Estamos a aceitar que elas têm menos autonomia corporal que um cadáver. Um cadáver que nem sequer vai precisar dos órgãos a serem doados para salvar uma vida em risco.

Para além disto, os mesmos defensores da vida do feto já não se preocupam com a defesa da vida da mãe ou da vida da criança.

É importante que esta mulher tenha apoio se tiver de facto uma criança para criar. E de igual modo também é essencial garantir e salvaguardar os direitos dessa criança.

Onde estão esses mesmos defensores da vida humana quando mulheres em situações de vulnerabilidade precisam de uma fonte de renda? Quando elas são espancadas e violadas? Quando são privadas de exercer o seu direito de ir e vir sem serem assediadas?

Onde estão esses mesmos defensores da vida humana quando as crianças estudam em baixo de árvores? Quando as crianças vão dormir sem ter pelo menos uma refeição por dia? Quando há crianças presas em cadeias de adultos?

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Em 2015, Moçambique passou a permitir a interrupção voluntária da gravidez até às 12 semanas. Fonte: Por Dentro de África

Por outro lado, há também uma tendência a reduzir o problema da gravidez a um problema da mulher. É verdade que o corpo é dela, e no corpo dela ela tem a decisão final, mas é de extrema importância termos conversas honestas entre homens e mulheres.

As mulheres não fazem filhos sozinhas. Os homens são 50% dessa concepção. E é preciso que abordemos este assunto urgentemente.

Recentemente, a 19 de Março, celebrou-se o Dia do Pai. Uma pesquisa divulgada pela ONU Mulheres Cabo Verde aponta que quase 60% das crianças daquele país vivem sem a presença dos pais e que cerca de 14% não têm o nome do pai registado nos seus documentos.

Acredito que em outros países as situações possam ser diferentes, tanto para melhor, como para pior – como aliás, especulo que seja o caso de Moçambique onde a fuga à paternidade é mais comum do que o que se pensa. E o que fica subjacente aqui é sobretudo a ideia de que a gravidez e a responsabilidade de cuidar e criar os filhos é da mulher.

Ou seja, ela que se vire!

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Num mundo em que a liberdade sexual das mulheres ainda é vivida de forma alienada e heteronormativa, não é de admirar que as mulheres sexualmente activas que engravidam fora dos padrões aceitáveis tenham as suas opções barradas.

A estas mulheres não é permitido decidir o que querem fazer com o próprio corpo.

“A sexualidade da mulher assusta quando não é para o consumo masculino” – Erykah Badu

As mulheres sexualmente activas que engravidam e optam por um aborto não estão à procura de uma saída fácil, pois elas sabem que isso não existe. Elas estão à procura de uma saída que não ponha em causa a sua saúde e estabilidade física, emocional e financeira.

Estão à procura de uma saída de um caminho que não foi o que sonharam. Estão a tomar controle sobre o seu corpo e a decidir sobre aquilo que melhor se adeque às suas situações.

Inhassunge é aqui

Picture-0399.jpgO livro “O advogado de Inhassunge” levanta questões tão actuais hoje como o tempo que retrata, de guerra civil e reconciliação.

Através da obra de Luís Loforte conhecemos Luiz Conde do Lavradio Almeida de Leão, um cidadão moçambicano negro do distrito de Inhassunge, na Zambézia, que almejava ser um português branco e gozar de todos os privilégios associados a esse estatuto.

Luiz Conde do Lavradio Almeida de Leão era um solicitador que pretendia ser assimilado e para tal fazia-se usar de um português caro e elaborado, vestindo-se com as melhores roupas que o seu dinheiro permitia e fingindo até não ser esposo da sua mulher, uma negra camponesa, que chega a dizer ser sua empregada.

Enquanto tratou dos assuntos legais de outros negros não teve problemas, no entanto, no momento em que se passa por advogado de dois brancos é perseguido e por isso tem de fugir para o Norte do país, onde adopta uma nova identidade e passa a ser guerrilheiro da FRELIMO.

Durante a sua vida vai-se adaptando às realidades impostas transformando-se em várias pessoas perdendo-se até de si mesmo. Passa de guerrilheiro a oficial de campo de reeducação,  bêbado vagabundo, herói de libertação nacional e por fim deputado.

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Moçambique tornou-se independente em 1975.

Numa dança entre a História e a ficção, Luís Loforte dá-nos a conhecer algumas figuras anónimas que tornaram o sonho (ou pesadelo) de Moçambique possível e leva-nos a questionar os conceitos de identidade, de guerra e até mesmo de nacionalidade.

Numa das passagens mais emocionantes, o protagonista revela a sua frustração com a vida que é obrigado a levar, descrente de qualquer ideal e sem nenhum sonho pela frente:

“Estou cansado de me iludir […]. Agora quero que os outros se iludam por mim, caso desejem […]. No passado, eu iludia-me que era português puro […], mas tive que fugir deles, porque fizeram-me ver que eu não era português nada, que me iludia. Depois, tentei iludir-me que era moçambicano, forcei-me com essa ilusão […]. Todos estes anos eu fui-me libertando de todo o género de ilusões cuja origem era eu próprio. Nunca ganhei nada com ilusão nenhuma.”

À medida que a trama se desenrola e o advogado assume outras identidades, começa a distanciar-se do cinismo e do egoísmo dos seus camaradas. A sua consciência não lhe permite ser cúmplice da corrupção e falta de humanidade da nova elite política moçambicana, que segundo ele não difere da anterior.

A obra evidencia a falácia da Independência como solução definitiva para a construção de um Moçambique totalmente novo. O Moçambique pós-independência revelou-se não ser necessariamente menos repressivo nem menos violento que o Moçambique colonial.

Uma das grandes falhas foi a ilusão do projecto nacional. De facto, nos anos imediatamente posteriores à independência não havia um sentido de Nação. E um dos grandes cismas era a dicotomia “branco-negro”, uma clara herança do passado colonial.

No livro, o autor descreve-nos este insucesso mais à frente, através de um diálogo profundo:

“Para mim brancos e pretos não agarraram o verdadeiro problema do nosso país. O verdadeiro problema é que uns e outros se tomam como entidades; há entidades de brancos e de pretos; começam agora a aparecer a entidade dos mulatos e a entidade dos indianos. Não há uma entidade dos moçambicanos. […] Falta-nos um projecto de todos”

Assim, sem um sentido de fraternidade Moçambique foi novamente palco de uma guerra sangrenta, desta vez entre moçambicanos (negros) e não contra os portugueses (brancos). Por isso é difícil apontar o dedo à culpa. Quem causou tanta dor? Por que morreram tantas pessoas?

Moçambique pós-independência falhou.

As polaridades binárias continuaram a evidenciar-se, muitas vezes até por incentivo das lideranças que numa tentativa de reposição de dignidade e promoção de igualdade, totalizaram esses campos de identidade.

Nos campos da fé, género, etnia, identificação política e raça, entre outros, moçambicanos foram forçados a escolher o seu lado, mesmo sabendo que nenhuma identidade é absoluta.

Ou és negro, ou és branco. Ou és português, ou és moçambicano. Ou estás connosco, ou estás contra nós.

E estas classificações se perpetuaram até hoje, pois fazem parte de um contexto histórico válido e correspondem também a uma série de privilégios ou privações a que um determinado grupo está sujeito.

O advogado de Inhassunge é simultaneamente um guerrilheiro conhecedor do mato. É Luiz, aspirante a assimilado e é também Ndala, nacionalista. É um mendigo bêbado e é igualmente deputado da maior bancada da Assembleia.

Cada um de nós é muitos eus. Moçambique é todos esses muitos.