O Rei Vai Nu

Quem dirá ao Rei, cheio da sua vaidade, que ele está na verdade nu?

Era uma vez um rei muito vaidoso que vivia rodeado de luxo num reino em que os plebeus viviam na miséria.

Conhecido pelos seus trajes extravagantes, o rei é abordado por dois aldabrões (certamente moçambicanos) que dizem ter um tecido muito belo, visto apenas por pessoas inteligentes e requintadas.

O Rei permitiu que os dois tirassem-lhe as medidas e dali a alguns dias eles apareceram com o “fato”. O Rei não via nada, mas também não queria dar a entender que não era inteligente ou requintado, por isso confirmou que o tecido de facto tinha uma qualidade superior.

Depois de fingir que vestia o fato, já que era invisível, o Rei encheu os aldrabões de elogios, que em troca aplaudiram a sua elegância. Rapidamente a notícia se espalhou: O Rei tinha um fato especial, de qualidade superior, visível apenas aos olhos de quem fosse inteligente e requintado.

Então certo dia o Rei decide sair às ruas com o seu fato especial. Todos admiraram o fato, pois não queriam passar por ignorantes até que a criançada começou a rir e a gritar “O Rei vai nu! O Rei vai nu!”, e todos se espantaram, porque de facto ele estava nu. E todos se riram dele.

O Rei fugiu envergonhado para o seu Palácio.

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O Presidente sul-africano Zuma vai nu sem alguém que lhe diga a verdade. Fonte: Brett Murray

É assim também por aqui, na vida real, nas nossas pseudo-democracias. Meio-ditaduras. Os nossos reis estão nus. Só que ninguém lhes diz.

Segundo o mais recente relatório sobre a liberdade de imprensa, muitos governos têm usado estratégias mais subtis para ameaçar e intimidar os cidadãos de modo a evitar críticas.

Em África, apesar do avanços nos anos mais recentes ainda temos um longo caminho para fazer.

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A investigadora é acusada de assédio moral contra o Presidente e a Primeira-Dama. Fonte: The Guardian

Esta semana, a activista ugandesa Stella Nyanzi questionou na sua página de Facebook, o que terá sido das crianças que apontaram o óbvio.

Será que foram mortas por ordens do rei? Será que a multidão voltou-se contra elas e tentou fazer com que elas vissem as roupas invisíveis por terem medo do rei? Ou receberam o amor dos amigos? O que acontece a quem diz a verdade em regimes maléficos?

Com um PhD em Antropologia Social, Stella Nyanzi é investigadora nas áreas de sexualidade; saúde sexual e reprodutiva; racismo e medicina alternativa, entre outras.

No Uganda, onde o Presidente Museveni ocupa o mesmo cargo há mais de 30 anos, Nyanzi já foi presa várias vezes por protestos pacíficos e pelas críticas severas ao regime.

Em Moçambique, pelo trauma dos conflitos vividos, temos muito medo de falar, pois não queremos mais violência. A sociedade como um todo promove o silêncio e entretenimento que distraia e não questione o status quo.

No entanto, há sempre quem tenha coragem de levantar a voz. Uma dessas pessoas é o rapper Azagaia, famoso pela música de intervenção que faz.

Depois das manifestações populares de 2008, o músico lançou a música “Povo no Poder” que resultou numa intimação pela Procuradoria Geral da República por supostamente “atentar à segurança do Estado” e “incitar a violência”.

Nos anos mais recentes jornalistas; investigadores; juristas; seqüestradores foram assassinados em circunstâncias duvidosas. É o exemplo de Gilles Cistac, um jurista, baleado em 2015 ao entrar num táxi na cidade de Maputo.

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Gilles Cistac entra para a lista de pessoas assassinadas em Moçambique por motivos políticos. Fonte: The European Magazine

Tal como eles, um pouco por todo o mundo, as liberdades de expressão dos cidadãos são cada vez mais limitadas.

Em Angola por lerem e debaterem um livro, activistas foram presos e julgados no que ficou conhecido como o caso 15+2.

No entanto, no mesmo país recentemente os deputados decidiram importam carros de luxo no valor de mais de 75 milhões de dólares americanos. Simultaneamente, num hospital da capital, Luanda, as mulheres grávidas e recentes mães são obrigadas a partilhar as camas ou dormir no chão.

Os reis estão mesmo nus. E ninguém faz nada.

Em “democracias” frágeis, como grande parte das democracias africanas, as ameaças a quem questiona quem está no Poder são evidentes.

Até quando deixaremos o medo travarem as nossas vozes?

 

Kutchinga ou não Tchinga?

O Kutchinga é um ritual que tem como objectivo purificar a viúva, levado a cabo através de relações sexuais com um dos familiares do falecido (geralmente um cunhado).

 

Pela forma como vivenciamos a vida é comum não encontrarmos respostas para as nossas questões no mundo material. É então que nos viramos para o mundo espiritual para ter explicações para os diversos fenômenos que acontecem no nosso dia-a-dia.

Uma das grandes questões daqueles que estão vivos é precisamente a morte. O que é a morte? Como acontece? Porquê?

No caso das mulheres moçambicanas, ao perderem ao marido têm ainda uma caminhada difícil para enfrentar.

Uma vez que a Mulher representa a vida, a fertilidade, é ela a origem de todas as coisas – boas e más. Quando o seu esposo morre é necessário que se tire a morte dela, isto é, que se purifique.

Como acreditamos que a morte não é um mero acaso, mas sim resultado de uma série de acontecimentos sobrenaturais, o pagamento de dívidas que temos com o Universo, é preciso livrar os vivos das vivências dos mortos.

E a esposa, como parceira de vida, com quem o falecido partilhava os dias, é quem tem de salvaguardar a segurança de todos. A viúva tem de se purificar para evitar mais tragédias; infortúnios; azares para si, os seus filhos; netos; etc.

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O ritual de luto tem três fases. Fonte: Saberes locais

 

Kutchinga, no sul de Moçambique ou Kupitafuka no Centro é o ritual através do qual se faz essa purificação da viúva.

A morte do seu esposo é também o marco do nascimento de energias negativas/ impurezas. Estas energias (ndzaka) quando não são seguidos os devidos rituais, podem causar danos na vida da família e comunidade.

Todos os parentes e pertences do morto – mesmo aqueles que vivem longe – tornam-se impuros no momento da morte. Daí o luto. Essas pessoas devem cumprir os rituais de luto à risca, sobre a pena de consequências terríveis a eles próprios e àqueles ao seu redor.

A purificação da viúva dá-se através do Kutchinga, que deve acontecer entre 8 dias a 2 anos da morte do marido. O Kutchinga em si deve durar por volta de seis noites seguidas, durante as quais a viúva deve manter relações sexuais com um familiar do esposo, geralmente um irmão ou primo mais novo.

Em outros casos, o Kutchinga por ser realizado por um homem alheio à família. Estes homens geralmente são conhecidos na região por serem “purificadores natos”/ “purificadores experientes”/ “purificadores viris” e chegam a ser pagos pelos seus serviços.

 

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O Kutchinga precisa de uma alternativa. Fonte: Sapo

Porque na nossa cultura os nossos mortos estão sempre vivos, a partida física de um ente querido não quer dizer necessariamente o desaparecimento das suas energias; alegrias; tristezas; arrependimentos do mundo material.

Daí a invocação constante aos nossos antepassados em todos os momentos importantes das nossas vidas, pois o mundo espiritual habita no mundo material. Tendo em conta a omnipresença dos nossos antepassados, a viúva e os demais familiares podem se sentir em dívida com o falecido.

Por isso, embora haja situações em que a viúva se recusa a praticar o Kutchinga, muitas vezes o medo da maldição fala mais alto.

Para além de não ser um acto voluntário ou seja, de ser um caso de violação sexual; o ritual valida a ‘transmissão’ da viúva de um homem para o outro dentro da mesma família como se de um bem se tratasse.

Adicionalmente, num contexto de um país com uma das maiores taxas de seroprevalência no mundo, o Kutchinga é também um risco à saúde pública, motivo pelo qual a AMETRAMO – Associação dos Médicos Tradicionais de Moçambique desencoraja a sua prática.

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O Kutchinga é um costume ultrapassado. Fonte: Jornal Notícias

 

Mas tal como outro rituais, como por exemplo o lobolo já sofreram alterações, o Kutchinga também deve acompanhar o tempo e o espaço.

Nenhum ritual está imune a actualizações. Pode-se fazer a purificação através de banhos; chás ou orações. Porquê relações sexuais? Não é esta uma forma de reforçar a submissão da mulher face à família do seu esposo?

E mais, por que um homem não passa pelo ritual do Kutchinga quando a sua esposa morre?

Há que repensar o enquadramento da tradição nos paradigmas da vida actual de modo a mantermos a nossa cultura relevante sem colocar em causa a nossa integridade e os valores pelos quais pretendemos viver.

 

Nem caixão, nem prisão!

A questão da gravidez indesejada é um tema polémico, pois inevitavelmente entra no campo da sexualidade, algo que como sociedade ainda não sabemos bem como abordar.

Uma mulher grávida que está num relacionamento estável é celebrada. Todos aplaudem a possibilidade de uma nova vida! Por vermos esta mulher dentro de um padrão aceitável aos nossos olhos felicitamos a nova vida a caminho e encorajamos a vinda de outras vidas.

Mas uma mulher grávida que não se enquadra nesse padrão é mal vista. Ela é a prova da sexualidade depravada das mulheres. Para as mulheres que optam ter os seus filhos sem um parceiro existe um estigma muito forte associado. São as chamadas “mães solteiras”, como se a palavra “mãe” presumisse por si só um estado civil.

A mensagem por detrás desta expressão é clara: mulher solteira não pode ser mãe. A mulher solteira não pode ter relações sexuais.

E é este também o debate em torno do aborto.

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Em Angola as mulheres foram à rua reivindicar o seu direito à escolha sobre o seu corpo.

Discute-se no Parlamento a penalização do aborto, sem excepções. No centro da discussão  cruzam-se questões religiosas com direitos fundamentais e situações sociais e económicas.

A proposta inicial a ser discutida em Luanda prevê com pena de prisão a interrupção voluntária da gravidez, sem nenhuma excepção. Ou seja, mesmo se a gravidez estiver a colocar em risco a vida da mãe ou se for resultado de uma violação sexual, não poderá ser interrompida. A mulher está entre o caixão e a prisão.

Independentemente do que for decidido em Angola a prática do aborto não vai parar.

A verdade é que por detrás de todo o espectáculo mulheres continuarão a interromper as gravidezes que não desejarem. O 1% que tiver condições para tal irá pagar pessoal médico para as fazer, com alguma segurança enquanto o 99% que não tiver condições para tal vai arriscar a própria vida num local clandestino.

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Os defensores da vida do feto esquecem-se muitas vezes do conceito de “autonomia corporal“.

Autonomia corporal que define a inviolabilidade do corpo humano, isto é, cabe a cada pessoa controlar o seu próprio corpo e este direito não pode ser violado.

Um dos exemplos da supremacia da autonomia corporal é a doação de órgãos. A menos que a pessoa tenha consentido em vida à doação dos seus órgãos, estes não podem ser doados. Ou seja, um cadáver tem autonomia corporal.

O mesmo se verifica na doação de sangue. Existem milhares de pessoas todos os dias a morrer em hospitais devido à falta de sangue, no entanto, cabe a cada um de nós decidir se queremos ou não doar sangue. E até podemos doar especificamente a uma determinada pessoa, impedindo que o sangue por nós doado seja utilizado por outra(s) pessoa(s).

Ao obrigarmos as mulheres a levarem as suas gravidezes até ao fim, estamos a tirar-lhes a autonomia corporal, o poder de decisão sobre o seu próprio corpo. Estamos a aceitar que elas têm menos autonomia corporal que um cadáver. Um cadáver que nem sequer vai precisar dos órgãos a serem doados para salvar uma vida em risco.

Para além disto, os mesmos defensores da vida do feto já não se preocupam com a defesa da vida da mãe ou da vida da criança.

É importante que esta mulher tenha apoio se tiver de facto uma criança para criar. E de igual modo também é essencial garantir e salvaguardar os direitos dessa criança.

Onde estão esses mesmos defensores da vida humana quando mulheres em situações de vulnerabilidade precisam de uma fonte de renda? Quando elas são espancadas e violadas? Quando são privadas de exercer o seu direito de ir e vir sem serem assediadas?

Onde estão esses mesmos defensores da vida humana quando as crianças estudam em baixo de árvores? Quando as crianças vão dormir sem ter pelo menos uma refeição por dia? Quando há crianças presas em cadeias de adultos?

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Em 2015, Moçambique passou a permitir a interrupção voluntária da gravidez até às 12 semanas. Fonte: Por Dentro de África

Por outro lado, há também uma tendência a reduzir o problema da gravidez a um problema da mulher. É verdade que o corpo é dela, e no corpo dela ela tem a decisão final, mas é de extrema importância termos conversas honestas entre homens e mulheres.

As mulheres não fazem filhos sozinhas. Os homens são 50% dessa concepção. E é preciso que abordemos este assunto urgentemente.

Recentemente, a 19 de Março, celebrou-se o Dia do Pai. Uma pesquisa divulgada pela ONU Mulheres Cabo Verde aponta que quase 60% das crianças daquele país vivem sem a presença dos pais e que cerca de 14% não têm o nome do pai registado nos seus documentos.

Acredito que em outros países as situações possam ser diferentes, tanto para melhor, como para pior – como aliás, especulo que seja o caso de Moçambique onde a fuga à paternidade é mais comum do que o que se pensa. E o que fica subjacente aqui é sobretudo a ideia de que a gravidez e a responsabilidade de cuidar e criar os filhos é da mulher.

Ou seja, ela que se vire!

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Num mundo em que a liberdade sexual das mulheres ainda é vivida de forma alienada e heteronormativa, não é de admirar que as mulheres sexualmente activas que engravidam fora dos padrões aceitáveis tenham as suas opções barradas.

A estas mulheres não é permitido decidir o que querem fazer com o próprio corpo.

“A sexualidade da mulher assusta quando não é para o consumo masculino” – Erykah Badu

As mulheres sexualmente activas que engravidam e optam por um aborto não estão à procura de uma saída fácil, pois elas sabem que isso não existe. Elas estão à procura de uma saída que não ponha em causa a sua saúde e estabilidade física, emocional e financeira.

Estão à procura de uma saída de um caminho que não foi o que sonharam. Estão a tomar controle sobre o seu corpo e a decidir sobre aquilo que melhor se adeque às suas situações.

Inhassunge é aqui

Picture-0399.jpgO livro “O advogado de Inhassunge” levanta questões tão actuais hoje como o tempo que retrata, de guerra civil e reconciliação.

Através da obra de Luís Loforte conhecemos Luiz Conde do Lavradio Almeida de Leão, um cidadão moçambicano negro do distrito de Inhassunge, na Zambézia, que almejava ser um português branco e gozar de todos os privilégios associados a esse estatuto.

Luiz Conde do Lavradio Almeida de Leão era um solicitador que pretendia ser assimilado e para tal fazia-se usar de um português caro e elaborado, vestindo-se com as melhores roupas que o seu dinheiro permitia e fingindo até não ser esposo da sua mulher, uma negra camponesa, que chega a dizer ser sua empregada.

Enquanto tratou dos assuntos legais de outros negros não teve problemas, no entanto, no momento em que se passa por advogado de dois brancos é perseguido e por isso tem de fugir para o Norte do país, onde adopta uma nova identidade e passa a ser guerrilheiro da FRELIMO.

Durante a sua vida vai-se adaptando às realidades impostas transformando-se em várias pessoas perdendo-se até de si mesmo. Passa de guerrilheiro a oficial de campo de reeducação,  bêbado vagabundo, herói de libertação nacional e por fim deputado.

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Moçambique tornou-se independente em 1975.

Numa dança entre a História e a ficção, Luís Loforte dá-nos a conhecer algumas figuras anónimas que tornaram o sonho (ou pesadelo) de Moçambique possível e leva-nos a questionar os conceitos de identidade, de guerra e até mesmo de nacionalidade.

Numa das passagens mais emocionantes, o protagonista revela a sua frustração com a vida que é obrigado a levar, descrente de qualquer ideal e sem nenhum sonho pela frente:

“Estou cansado de me iludir […]. Agora quero que os outros se iludam por mim, caso desejem […]. No passado, eu iludia-me que era português puro […], mas tive que fugir deles, porque fizeram-me ver que eu não era português nada, que me iludia. Depois, tentei iludir-me que era moçambicano, forcei-me com essa ilusão […]. Todos estes anos eu fui-me libertando de todo o género de ilusões cuja origem era eu próprio. Nunca ganhei nada com ilusão nenhuma.”

À medida que a trama se desenrola e o advogado assume outras identidades, começa a distanciar-se do cinismo e do egoísmo dos seus camaradas. A sua consciência não lhe permite ser cúmplice da corrupção e falta de humanidade da nova elite política moçambicana, que segundo ele não difere da anterior.

A obra evidencia a falácia da Independência como solução definitiva para a construção de um Moçambique totalmente novo. O Moçambique pós-independência revelou-se não ser necessariamente menos repressivo nem menos violento que o Moçambique colonial.

Uma das grandes falhas foi a ilusão do projecto nacional. De facto, nos anos imediatamente posteriores à independência não havia um sentido de Nação. E um dos grandes cismas era a dicotomia “branco-negro”, uma clara herança do passado colonial.

No livro, o autor descreve-nos este insucesso mais à frente, através de um diálogo profundo:

“Para mim brancos e pretos não agarraram o verdadeiro problema do nosso país. O verdadeiro problema é que uns e outros se tomam como entidades; há entidades de brancos e de pretos; começam agora a aparecer a entidade dos mulatos e a entidade dos indianos. Não há uma entidade dos moçambicanos. […] Falta-nos um projecto de todos”

Assim, sem um sentido de fraternidade Moçambique foi novamente palco de uma guerra sangrenta, desta vez entre moçambicanos (negros) e não contra os portugueses (brancos). Por isso é difícil apontar o dedo à culpa. Quem causou tanta dor? Por que morreram tantas pessoas?

Moçambique pós-independência falhou.

As polaridades binárias continuaram a evidenciar-se, muitas vezes até por incentivo das lideranças que numa tentativa de reposição de dignidade e promoção de igualdade, totalizaram esses campos de identidade.

Nos campos da fé, género, etnia, identificação política e raça, entre outros, moçambicanos foram forçados a escolher o seu lado, mesmo sabendo que nenhuma identidade é absoluta.

Ou és negro, ou és branco. Ou és português, ou és moçambicano. Ou estás connosco, ou estás contra nós.

E estas classificações se perpetuaram até hoje, pois fazem parte de um contexto histórico válido e correspondem também a uma série de privilégios ou privações a que um determinado grupo está sujeito.

O advogado de Inhassunge é simultaneamente um guerrilheiro conhecedor do mato. É Luiz, aspirante a assimilado e é também Ndala, nacionalista. É um mendigo bêbado e é igualmente deputado da maior bancada da Assembleia.

Cada um de nós é muitos eus. Moçambique é todos esses muitos.

 

 

 

Mondlane, um herói improvável

Eduardo Mondlane foi o grande arquitecto da independência de Moçambique.

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Eduardo Mondlane foi fundador e primeiro presidente da Frente de Libertação de Moçambique. Fonte: Frelimo

Um simples pastor filho de um líder local, foi com o apoio da Missão Suíça que teve a possibilidade de seguir os seus estudos na África do Sul, Portugal e por fim Estados Unidos da América, onde se doutorou em Sociologia.

Cresceu, portanto, não tendo outra opção senão se consciencializar sobre a sua posição no mundo: homem, negro, africano, moçambicano. Mas ao mesmo tempo, nascia nele também a consciência de valores e direitos mínimos para a prosperidade de todos os seres humanos.

À semelhança da independência da Tanzânia (1961) e da Zâmbia/ Malawi (1964), Mondlane queria uma independência pacífica. No entanto, o Estado Português não cedeu pacificamente a independência das terras que ocupava ilegalmente.

O seu desejo pela autodeterminação do povo de Moçambique levou-lhe, em 1962, a unir todos os movimentos de libertação num só, formando assim a FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique) e foi ele o seu primeiro presidente.

Concluindo que não seria possível alcançar a independência sem recurso às armas, em 1964 a FRELIMO começa os primeiros ataques de guerrilha. Com o apoio da Tanzânia, da Argélia e de outros países africanos e não só, Mondlane conseguiu desenhar e implementar uma estratégia sólida para derrubar as tropas portuguesas em Moçambique.

Infelizmente Mondlane não viu o seu sonho realizado. Foi assassinado a 3 de Fevereiro de 1969 – motivo pelo qual hoje celebramos o Dia dos Heróis- ao abrir uma encomenda com uma bomba preparada em Lourenço Marques pela PIDE.

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Funeral de Eduardo Mondlane, em Dar Es Salaam, Fev. 1969. Vê-se Julius Nyerere, Presidente da Tanzânia, Janet Mondlane, viúva de Mondlane e os três filhos do casal. Fonte: The Delagoa Bay

É importante referir que com a morte de Mondlane o próprio destino da FRELIMO se alterou drasticamente.

A liderança de Mondlane, um homem religioso, académico, conservador, chocava com os membros mais radicais  da FRELIMO. Mesmo na Tanzânia, onde a FRELIMO tinha a sua base e outros movimentos guerrilheiros se encontravam, vários desses movimentos se voltavam para a esquerda.

Era também da URSS que vinha grande parte do armamento e treino da guerrilha da Frelimo. No entanto, Mondlane, que tinha vivido nos EUA tinha uma posição mais pró-Ocidental. Mas a aproximação com os EUA era praticamente impossível, já que o mundo se dividia em dois blocos distintos e a quebra de alianças poderia pôr em causa todo o projecto de libertação de Moçambique.

Em meados dos anos 60, num contexto de bipolarização global, em que a disputa entre o Ocidente e o Bloco de Leste pelo domínio do Terceiro Mundo se intensificava, a posição neutra e cautelosa de Mondlane destoava do resto. Com a sua morte em 1969, há uma viragem da FRELIMO para uma esquerda radicalizada.

Por outro lado, o seu casamento com Janet Mondlane, uma mulher branca americana, não era bem vista por muitos. A relação interracial evidenciava o cosmopolismo de Mondlane como um jovem africano intelectual, mas também o colocava numa posição de “diplomata” em vez de “guerrilheiro”.

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Eduardo Mondlane era um docente com cara de guerrilheiro e um guerrilheiro com cara de docente. Fonte: Eduardo Mondlane and Social Sciences

É importante recordar Mondlane como o exímio investigador que ele foi. Como um dos primeiros africanos, e certamente um dos poucos moçambicanos que nessa altura chegou tão longe, destacou-se pela sua excelência na vida académica.

A questão racial e identidade nacional na vida social foi o seu grande objeto de estudo, tanto durante o Mestrado como durante o Doutoramento.

Como um jovem africano intelectual, ao sair da sua aldeia na província de Gaza deparou-se com um mundo marcado por choques e contrastes. As suas origens humildes, sem qualquer privilégio permitiram-lhe ter um sentido muito sólido da sua africanidade e da sua cultura.

Foi esse sentido e orgulho da cultura africana que permitiu que ele estudasse, nos E.U.A, a questão racial sem se preocupar em procurar uma identidade negra, ao contrário dos seus colegas afro-americanos. E foi esse mesmo sentido que despontou a necessidade de fazer da independência seu projecto pessoal.

Mondlane era por isso um patriota, no sentido em que tinha um orgulho muito forte das suas raízes e estava disposto a deixar (e deixou) tudo para lutar pelo seu país e também como nacionalista, pois formou um projecto de unificação de Moçambique e de formação de Moçambique como nação.

Pela sua elegância, inteligência e perspicácia Mondlane representava uma ameaça à altura dos líderes ocidentais. Era um líder charmoso, bem educado, bom orador e ciente da sua identidade e dos seus objectivos.

Mondlane seria um líder progressista que teria liderado um movimento pacífico e feito uma transição sem sobressaltos, contudo, a História quis que ele liderasse uma guerrilha impedindo-o de fazer aquilo que era o seu desejo: desenvolver Moçambique e criar uma elite intelectual capaz de governar e elevar o país.

Por não ter tido tempo de fazer tudo isso, por ter sido obrigado a abandonar esse propósito, por não ter tido a chance de ser o herói que ele queria ser, por esses e pelos outros sonhos que ficaram por realizar: Obrigada.

Escolher o Terceiro Mundo

Por que muitos de nós voltaram e alguns nem sequer partiram?

Quando dizemos que somos de um país do Terceiro Mundo, parece que as perspectivas e expectativas que as pessoas têm para nós se fecham.

Primeiro vem a piedade. Apesar de essa denominação ter mudado para “países em desenvolvimento”, ambos os conceitos carrega consigo o mesmo estigma e miséria. Depois da piedade vem a pergunta “E como é viver aí?” ou pior “Por que é que vives aí?”

Por mais estranho que pareça, ainda que haja oportunidades para sair, há quem queira ficar. Ou quem saia e regresse – como eu.

Viver no Terceiro Mundo é diferente de viver no Primeiro Mundo. Essencialmente viver num país em desenvolvimento significa que temos as nossas opções mais limitadas.

Os elementos fundamentais para a sobrevivência de uma determinada comunidade, tais como água; comida; roupa; educação; saúde; electricidade; etc são mais escassos. Também não temos infraestruturas que facilitem a distribuição destes bens, criando um fosso entre as zonas que têm os recursos e aquelas que não têm.

Para além disso, geralmente os países do Terceiro Mundo são famosos pelos altos níveis de corrupção e falta de transparência (e competência) das lideranças.

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Fim do terceiro mundo? Fonte: World Bank
Para quem, como eu, já teve o privilégio de sair e viajar para alguns países eu posso com toda a certeza dizer: há vários Terceiros Mundos. Há países semi-industrializados com um rendimento médio perto da média mundial e há países em conflitos, em bancarrota que são do Terceiro Mundo.
Moçambique, Tailândia e Brasil são países completamente diferentes, mas todos eles estão nessa categoria. Há um espectro enorme de pobreza (e riqueza), mesmo dentro de cada um desses países. Em termos materiais há pobres com casa própria, e ricos sem casa própria. Há ricos desempregados e pobres que trabalham todos os dias.
As pessoas pensam que o sonho de qualquer pessoa de um país em desenvolvimento é fugir, mas isso não é verdade. Há quem seja muito feliz aqui.
De longe parece que nós vivemos muito mal e que não temos qualidade de vida. Parece que o estilo de vida do Primeiro Mundo é a forma correcta de se viver e que nós queremos apenas mimicar isso.
Contudo, a verdade é que o Primeiro Mundo também não é perfeito. Nós sabemos que saindo daqui para viver num país dito desenvolvido não quer necessariamente dizer que os nossos problemas serão eliminados.
O que distingue o Primeiro e o Terceiro Mundo é a proximidade e atenção que se dá à Pobreza. No seu blog, Seth Godin, explica que são esses factores que estão na base desses conceitos.
Nós sabemos que em todos os países existe pobreza, embora no Primeiro Mundo esteja mais camuflada. Para além disso, ir para o Primeiro Mundo muitas vezes significa enfrentar racismo, choque cultural e afastamento da família, para além de todos os entraves institucionais (acesso a saúde; documentação; emprego; etc).
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Criminalização de sem-abrigo avança pela Europa. Fonte: Público
As pessoas chocam-se com a alegria e felicidade de pessoas do Terceiro Mundo, daí todo o sucesso da pornografia da pobreza. Mas não devia ser tão difícil assim entender que as pessoas podem ser felizes na sua realidade, mesmo se essa realidade parecer insuportável.
Muitos de nós adoram a vida que levam e acreditam que aquilo que fazem irá fortalecer e melhorar as condições de vida. Muitos de nós adoram a forma tradicional/ convencional de fazer as coisas, e isso vai desde algo tão simples como levar a loiça (que a maioria das pessoas faz manualmente) até algo maior como celebrar um casamento, em que incorporamos a cerimónia do lobolo.
Eu alegro-me ao saber que, apesar de os nossos hospitais e do sector de saúde como um todo estar cheio de insuficiências, todos os anos milhares de estudantes se candidatam ao curso de Medicina.  
Alegro-me ao perceber que, mesmo sem salas de aula ou carteiras, os professores todos os dias acordam para ensinar  o B-A-BÁ aos seus alunos. 
Alegro-me ao pensar que, mesmo sem dinheiro para comprar uma mochila ou cadernos para as crianças, os pais inscrevem os seus filhos na escola.
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Maputo é uma cidade viva e hospitaleira. Fonte: Alma de viajante
 
Existem muitas, muitas razões para ficar aqui. O sentido de pertença e de comunidade é muito forte, talvez mais forte que o descontentamento com a falta de escolhas.
Eu não trocaria a minha manga saborosa, suculenta, comprada na rua pela manga artificial e cheia de água, cortada e embalada, do supermercado. Não trocaria isso pelas ruas limpas e organizadas do Primeiro Mundo, porque as pessoas são mais impacientes, intolerantes e materialistas.

Apesar dos problemas de acesso à saúde; da escassez de boas opções de escolas; e das péssimas condições urbanas, de habitação e saneamento, eu adoro a vantagem de poder sorrir, abraçar e conversar com virtualmente qualquer pessoa, adoro a força e perseverança das pessoas ao meu redor e do sentimento de conquista global quando um único indivíduo se sai vitorioso.

Amílcar hoje

Amílcar Cabral foi o líder da libertação de Cabo Verde e Guiné Bissau, assassinado a 20 de Janeiro de 1973 antes de ver a independência das (ex) colónias africanas de Portugal.

Agrónomo, revolucionário anti-fascista, guerrilheiro e panafricanista, Amílcar Cabral marcou a História pelo seu papel central na luta pela auto-determinação dos povos de Cabo Verde e de Guiné Bissau que viviam sobre o domínio português.

Como um dos fundadores do PAIGC (Partido Africano da Independência da Guiné Bissau e Cabo Verde), foi um dos mais bem sucedidos líderes de uma revolução de guerrilha, tendo em algum momento dominado grande parte do território guineense (cerca de 70%) antes de Portugal concordar em ceder o poder a quem era de direito.

 

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Amílcar Cabral continua a ter impacto em movimentos contemporâneos. Fonte: Pambazuka

 

Enquanto estudante universitário em Lisboa, estabeleceu contacto com Agostinho Neto e Eduardo Mondlane que viriam a liderar movimentos de libertação em Angola e Moçambique, respectivamente.

Fez parte, em Lisboa, da Casa dos Estudantes do Império, que se tornou num centro de valorização das culturas africanas. Foi aí que se estabeleceu o contacto entre Cabral e outros intelectuais contemporâneos, tais como Marcelino dos Santos, Mário de Andrade, Noémia de Sousa e Alda Espírito Santo, entre outros.

Foi esta elite que deu origem ao Centro de Estudos Africanos e deu início ao processo de consciencialização das então colónias portuguesas, através do qual se estabeleceram movimentos de libertação.

Este pequeno grupo privilegiado de estudantes universitários oriundos de diferentes pontos do continente africano foi capaz de não só questionar a lógica colonial, mas mais do que isso, mobilizar forças para dar um fim definitivo ao colonialismo português.

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A união entre os movimentos de libertação foi uma peça central. Fonte: Via Atlântica

A ligação entre os movimentos de libertação foi de grande importância para o sucesso das lutas pela independência.
Mas Cabral destacou-se sobretudo pela sua articulação e pelo trabalho que fez como questionador do seu tempo, teorizando grande parte das suas visões para África.

O que mais marca Cabral é o papel que ele dá à valorização das culturas nativas. Segundo ele, a cultura é o fundamento da luta anti-colonial na medida em que só se libertam os povos que vêem a sua capacidade de criar e praticar cultura limitada.

Ou seja, a subjugação de uma cultura nativa face à imposição de uma cultura estrangeira é que obriga uma determinada sociedade a lutar pela sua libertação.

 

De uma forma alargada, muito daquilo que se fala hoje sobre a globalização e neo-colonialismo já tinha sido antecipado por Cabral. Só se pode dizer livre um povo que é capaz de negar influências negativas de outras culturas de modo a preservar a sua cultura e a sua identidade.

Na sua compreensão do mundo ele vai para além das ideias do Homem Novo que muitos movimentos revolucionários da época defendem, e projecta um resgate dos valores e hábitos tradicionais africanos.

Para ele é central o papel da cultura para a resistência anti- imperialista e daí a necessidade de criar espaço para a cultura, através da luta, restaurar as pessoas oprimidas e transformá-las em agentes completos da sua própria história e identidade.

 

“Nós queremos entretanto exprimir claramente o seguinte: nós não confundimos a nossa luta, na nossa terra, com a luta do povo português. Estão ligadas, mas nós, no interesse do nosso povo, combatemos contra o colonialismo português. Liquidar o fascismo em Portugal, se ele não se liquidar pela liquidação do colonialismo, isso é função dos próprios portugueses patriotas, que cada dia estão mais conscientes da necessidade de desenvolver a sua luta e de servir o melhor possível o seu povo.”

O desmoronamento do Estado Novo em Portugal, embora não fosse a finalidade do trabalho de Cabral e dos seus contemporâneos, acabou sendo um dos resultados da sua luta.

O colonizador inevitavelmente acabou sendo libertado pelo colonizado. Para Cabral, isso era previsível pois a revolução opunha mais os povos dominados aos dominadores, desafiando a própria essência da ditadura fascista, do que opunha o proletariado (colonizados) à burguesia (colonizadores).

Pode-se dizer, portanto, que não foi Portugal que libertou as colónias, mas sim foram as colónias que libertaram Portugal. Na medida em que através da defesa da sua auto-determinação e da exigência do reconhecimento da sua humanidade plena puseram em causa a própria natureza do Fascismo Português, destruindo-o.

 

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É importante perceber como, para Amílcar Cabral, a luta armada pelo fim do colonialismo, não termina na declaração da independência. Para ele, era preciso compreender dilemas persistentes como a ligação cultural entre os povos africanos e o povo português (que ele sempre separou do Estado Português), bem como as ideias de construção de Estado num contexto de pan-africanismo.

Embora panafricanista, Cabral rejeitava a ideia de se tratar da África Negra como um espaço homogéneo. O panafricanismo de Cabral defendia as especificidades de cada nação africana e o seu estudo de forma isolada.

A dimensão de libertação de Cabral ia para além da auto-determinação a nível da organização política,mas passava também sobre a auto-descoberta da cultura nativa e do seu desenvolvimento. Por isso é tão importante revisitá-lo hoje, 44 anos após o seu assassinato.

O legado político de Amílcar Cabral vai para além do seu estudo crítico dos desafios e ameaças dos movimentos de libertação africanos dos anos 50 e 60.

Ao explorar as a centralidade da cultura e da identidade, bem como ao desafiar as noções de imperialismo e colonialismo, Cabral obriga-nos a observar o panorama social actual e a reconhecer padrões idênticos àqueles que ele lutou para derrubar.

O seu pensamento é relevante e contemporâneo para falarmos de apropriação cultural, de movimentos migratórios e de novas formas de domínio dentro do próprio continente africano.

 

 

Para entender o Feminismo em África

Há um distanciamento ideológico dos africanos face ao Feminismo devido a uma falsa ideia de tradição e um desconhecimento da nossa História pré-colonial.

Sempre fico um pouco triste quando converso com pessoas e percebo o seu desconforto em falar de feminismo ou assumirem-se feministas, porque nós já tínhamos na nossa vivência formas de estar fora do padrão patriarcal.

A arrogância das feministas ocidentais ao debaterem África, assumindo as suas realidades como “certas” ou como “modelos” não dá espaço para o estudo dos nossos feminismos, da nossa filosofia africana tradicional.

As feministas ocidentais sempre falaram em nome de todas as mulheres, como se conhecessem as experiências de todas as mulheres, ou pior, como se as suas experiências fossem universais.

Na verdade as relações de género diferem bastante, daí a necessidade de interseccionalidade. Não existe uma única experiência de mulher, mas sim várias.

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Temos de descolonizar o feminismo.
Embora de forma generalizada possamos todas assumir que vivemos numa sociedade que privilegia o masculino, há que reconhecer as nossas diferenças. Uma das grandes diferenças é a exploração da sexualidade como meio para alcançar o domínio e o poder.

Por exemplo, nas mulheres Makhua os ritos de iniciação e técnicas corporais como o alongamento dos lábios vaginais e o pompoarismo, têm como fins eróticos e estéticos que visavam a maximização do prazer da mulher. Através dos ritos de iniciação era possível passar este papel da sedução e do desejo como ferramentas para fazer política, tanto a nível intra-género, em que as mulheres mais velhas mostravam a sua autoridade pelas mais novas e também a nível inter-género, ao usar a arte do sexo para dominar o masculino.

No feminismo ocidental, pelo papel da Igreja e os conceitos puritanos de moral e de finalidade do sexo, houve uma demonização do sexo e por isso os poderes sexuais são um ponto até hoje de muito debate e polémica. A sexualidade da mulher deve ser reprimida para ser aceite, assim, uma mulher que reconhece, assume e faz uso do seu poder sexual é vista como devassa e é símbolo da degradação moral da sociedade.

Neste caso, o feminismo ocidental ofusca o sexo e o erótico numa nuvem de culpa, medo, vergonha e desprezo que impede uma visão saudável do sexo como ferramenta para fazer política. Daí o falso moralismo e cinismo em torno do trabalho sexual (pornografia; prostituição; etc), visto que é um tema tabu cujas opiniões continuam polarizadas no que diz respeito ao reconhecimento da sua existência e da sua legitimidade.

Outro elemento diferenciador é a existência de sociedades matrilineares. No Norte de Moçambique, especialmente no período pré-colonial, era comum a linhagem/ descendência ser contada pelo lado materno. Eram os homens que abandonavam as suas zonas de origem e passavam a viver com a família da esposa após o matrimónio. Os filhos do casal também levavam o apelido do tio materno e a mulher assumia a liderança na sua comunidade.

Adicionalmente, nas culturas matrinineares, nomeadamente Yao e Makhua, eram (e ainda são) praticados os ritos de iniciação tanto para os meninos como para as meninas, como ritual de passagem da infância à fase adulta. E nestes ritos era onde os conceitos de masculinidade e feminilidade eram passados.

Para as meninas, era um espaço de autonomia onde podiam partilhar as suas dúvidas e inquietações e ouvir das mulheres mais velhas conselhos e informações sobre o seu corpo, gestão do lar, cuidados de saúde; educação dos filhos, etc.

Esses momentos de partilha e sororidade entre mulheres, em privado, longe dos olhares dos homens, eram inexistentes no contexto ocidental. Os ritos de iniciação permitiam incutir na menina um sentido forte de pertença e poder, desde cedo, domando-lhe de ferramentas para liderar a sua família e a sua aldeia.

Havia portanto um poder feminino. Nós tínhamos sociedades lideradas por mulheres em que cada um – homem e mulher – tinha os papéis bem definidos, sem necessariamente haver submissão por parte da mulher (ou sequer do homem).

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Mulheres macuas dançando Tufo. Fonte: Daniel Camacho
É importante enquadrar os paradigmas africanos dentro de um Feminismo que englobe questões específicas das realidades locais. Fará sentido um debate em torno da liberdade da mulher realizar trabalho remunerado, por exemplo? Poderemos encarar isso uma parte central do feminismo em África?

A mulher negra sempre pertenceu à força de trabalho. Aliás, é esta a grande tese de Sojourner Truth no seu discurso “E não sou uma mulher?” (Ain’t I a woman, originalmente), em 1851 na Convenção dos Direitos das Mulheres nos EUA, quando ainda existia a escravatura e as mulheres brancas lutavam para serem vistas como seres humanos capazes de trabalhar e assumir responsabilidades.

Em África, e mais especificamente em Moçambique, o trabalho no campo sempre foi feminino por excelência. Encarava-se a mulher como criadora da vida, e por isso, reprodutora por natureza. Nesse sentido, o seu domínio se estendia também à fertilidade da terra. Por isso a sua participação na produção agrícola era central, não só por uma questão económica, mas também pelo sentido espiritual.

Com a instauração do colonialismo e de um sistema económico monetarizado houve uma desorganização dos modelos tradicionais de autoridade, de género e de organização política. É importante lembrar também que a abertura do mercado de trabalho transnacional nas minas da África do Sul levou à saída de muitos homens jovens, deixando as mulheres sozinhas nas aldeias onde tiveram de assumir papéis tradicionalmente masculinos – mesmo nas sociedades patrilineares.

Os processos de descolonização, por sua vez, pela influência das teorias ocidentais também não permitiram o resgate dos valores tradicionais ou sequer o seu entendimento, pelo contrário, em muitos casos, como em Moçambique o sistema socialista gritou bem alto “abaixo o lobolo! abaixo ao feudalismo! abaixo aos ritos de iniciação!”, esquecendo o papel estruturante destes elementos como a base de identidades moçambicanas.

Numa tentativa de unificação e consolidação de uma Nação, paradoxalmente, ignoraram-se estilos de vida tradicionalmente moçambicanos. Para os arquitectos da nação, o poder masculino representava a modernidade e o progresso, enquanto formas não ocidentais e e/ou não patrilineares representavam o atraso.

Deste modo, em benefício do projecto nacional estabeleceu-se uma ordem patriarcal na qual o homem seria inquestionavelmente o chefe da família, provedor e autoridade máxima, apagando por completo formas alternativas de estrutura social, em prejuízo das mulheres.

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Rainha Nzinga é considerada líder da resistência africana. Fonte: Geledes
Podemos concluir que os processos de modernização podem provocar tanta ou maior exclusão que os padrões tradicionais. Encaram-se as estruturas sociais pré-modernas como fonte de todo atraso e opressão e a modernização como intrinsecamente libertadora, o que não é verdade. Repito: a modernização, ou, por outras palavras, a “ocidentalização” não é necessariamente libertadora.

As dissemetrias de género e as próprias categorias de género e de sexualidade são fruto dessa ocidentalização e em muitos casos não se adequam às tradições africanas, como no caso da cultura Igbo (Nigéria).

 

Já existiam feministas aqui, antes de chamarmos o Feminismo por esse nome. Perguntem só à Rainha Nzinga do reino de Ndongo; à Huda Shaarawi do Egipto; à Funmilayo Anikulapo-Kuti da Nigéria; e a tantas, tantas outras.

E nós ainda estamos aqui.

Lobolo aos olhos de hoje

O lobolo é uma cerimónia tradicional em que a família do noivo oferece um dote à família da noiva, celebrando assim a sua união.

Tenho notado já há algum tempo que hoje em dia, especialmente nos meios urbanos, há uma intepretação errada de vários elementos tradicionais da nossa cultura moçambicana.

Desde a chegada dos Europeus a África que houve uma demonização de tudo o que era estranho e bizarro quando comparado aos seus hábitos e costumes. E assim os modos das sociedades africanas foram ridicularizados e até proibidos, motivo pelo qual muitos rituais deixaram de ser praticados.

Um desses elementos mal interpretados aos olhos de hoje é o ritual matrimonial tradicional – o lobolo.

Como é que em Moçambique se dizia “casamento” antes de chegar a Igreja Cristã? Como é que se reconhecia a união entre duas pessoas antes de haver um “Estado”? O que era um “casamento”?

Temos de usar os olhos de ontem para procurarmos interpretações – e validade! – nos rituais hoje ou corremos o risco de viver acorrentados às ideias medievais que o Velho Continente nos passou.

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O lobolo é mutável, variável e adaptável. Fonte: Antropocoiso

A cerimónia do lobolo consiste numa oferta de bens em forma de gado, dinheiro, roupas e alimentos, entre outros à família (clã) da noiva. Após a aceitação e recepção destes bens por parte da sua família, a noiva passa a pertencer à família (clã) do noivo. Por esse motivo, aos olhos do colono, a mulher estaria a ser “vendida” e é essa narrativa que até hoje se mantém para rejeitar o ritual.

O dote oferecido servia de fundo comunitário para aquela família (clã). E de certa forma também de seguro, pois para anular a união seria necessário a devolução do dote, o que poderia pôr em causa toda a economia local.

Sempre ouvi o meu pai contar uma história que aconteceu há muitos anos em Homoíne (província de Inhambane) na aldeia onde ele cresceu. Um homem matou a sua própria irmã à catanada e foi enviado para S. Tomé & Príncipe, onde cumpriu a sua pena trabalhando como escravo para o regime colonial Português.

O motivo do assassinato foi o facto de a sua irmã ter manifestado a sua vontade em querer dissolver o seu matrimónio, o que obrigava a sua família a devolver o dote ao seu esposo. O seu irmão, por sua vez, já tinha usado grande parte do dote para lobolar a sua esposa, então teria ele também de se divorciar para devolver os bens.

Ou seja, o dissolução de uma união criava a dissolução de outras uniões em forma de cadeia, destruindo por completo a harmonia naquela sociedade. A situação levou o irmão à beira do desespero e terminou de forma trágica.

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Na Namíbia, Quénia e África do Sul, o lobolo chama-se lobola. Em Angola é o alambamento.

Estando inserido numa sociedade patriarcal (q.b.) o matrimónio tradicional não deixa de ser um fenómeno económico e de poder – como o matrimónio religioso cristão,- na medida em que serve de regulação social, pois o lobolo legitima a relação do casal e eleva o estatuto dos nubentes.

Para além disso, o lobolo estabelece uma família (garante descendência) e alberga também garantias que asseguram a vida e sobrevivência das famílias envolvidas no caso de morte de uma das partes.

Hoje em dia o lobolo, como qualquer outro ritual, já sofreu alterações na sua forma e no seu conteúdo, no entanto mantém o valor social que representa. É um dos elementos tradicionais que até as famílias mais modernas conseguiram manter, e por isso reforça o nosso sentido de Africanidade.

Por exemplo, no lobolo já se oferece um anel de ouro, que foi incorporado dos rituais da Igreja Cristã. A loiça feita de barro e madeira foi substituída pela porcelana (apesar de não servir para as orações e oferendas aos antepassados). Por outro lado houve símbolos africanos como o gado e as capulanas que sobreviveram a essas mutações.

Nos dias que correm é comum a realização do lobolo seguida do casamento religioso e/ou cerimónia civil, antes do copo d’água. Esta prática tem como objectivo a manutenção do nosso sentido de identidade e de compromisso com os antepassados.

Nas regiões mais rurais, o lobolo é um ritual que confere um reconhecimento social que as outras cerimónias (na Igreja, Mesquita, Conservatória, etc) não oferecem, pela dimensão de envolvimento da comunidade e ligação histórica e espiritual.

Tendo em conta estes factores, a “nova” Lei da Família já prevê o lobolo como uma cerimónia legítima, com o mesmo peso legal que o casamento civil.

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Hoje em dia é comum incorporar elementos tradicionais com os mais modernos.

O lobolo em Moçambique é uma prática que visa o reconhecimento matrimonial, isto é, garante a reprodução, estabilidade, compromisso, e estabelece os direitos e deveres entre um homem e uma mulher perante a comunidade.

Ao conotarmos o lobolo como uma simples transacção de compra e venda tiramos todo o simbolismo e importância que o ritual de facto tem. Estamos a olhar como o Europeu que aqui chegou olhou, sem ter sensibilidade para perceber as estruturas e crenças das sociedades da época.

Tal como entendemos, praticamos – e perdoamos! – o casamento religioso cristão, com todas as suas limitações, devemos também fazer o mesmo exercício ao olharmos para o lobolo.

É nosso dever descolonizar estas ideias ultrapassadas dos nossos próprios hábitos e costumes e encontrar formas de adaptar os rituais à nossa actualidade.

 

(Des)Virginando Margarida

No filme de Licínio de Azevedo, Virgem Margarida, somos confrontados com a dura realidade do processo revolucionário pós-independência em Moçambique.

Em Junho de 1975, com toda a euforia e esperança do nascimento de uma nova nação dotada de auto-determinação, ideias próprias e controle total sobre o seu domínio Margarida, uma jovem camponesa vai à cidade comprar enxoval e vê-se enrolada numa teia de coincidências infelizes.

Por falta de documentos é levada pela polícia durante uma rusga que resulta também no aprisionamento de várias mulheres da noite, entre prostitutas e dançarinas.

Embora algumas destas aceitem a sua condição de “mulheres da vida”, que trocam sexo por dinheiro, muitas resistem essa denominação, entre elas Margarida, que nega ter estado alguma vez com um homem.

Baseado em factos reais, o filme retrata os contrastes vividos na época.

Para muitos militares, eles mesmos também camponeses, as mulheres da cidade com as suas roupas vistosas eram consideradas prostitutas, embora nem sempre o fossem. Enganos eram comuns.

O ideal de mulher passava por servitude, modéstia e submissão à família. Assim, estas mulheres que saíam para trabalhar à noite, vestidas com roupas brilhantes e com maquilhagem exuberante, eram encaradas como uma ameaça ao futuro virtuoso do país.

No novo Moçambique, as mulheres deviam servir a nação. Eram elas a base para o desenvolvimento da família e para a prosperidade da força de trabalho, já que tinham o papel de fazer e criar os filhos.

Aquelas que fugiam a esse ideal eram levadas forçosamente a campos de reeducação, de onde era suposto sairem mulheres novas, dotadas das qualidades e ambições desejadas numa Mulher Africana no pós-independência para um regime socialista.

Em 1975, num país que precisava de consolidar a sua identidade, era essencial a transformação de mentalidades e o abandono da retórica colonial. Para tal era preciso criar esta ideia do “homem novo” e materializá-la.

Encarava-se a exploração sexual da mulher moçambicana como resultado do colono, que olhava para a mulher negra apenas para satisfazer os seus apetites, sem de facto dignificá-la.

No entanto, essa exploração sente-se em todas as esferas da vida da mulher, tanto no pré e no pós-independência, pois mesmo no seio dos militares havia homens com a mesma mentalidade machista que os colonos.

As intenções revolucionárias, por mais puras e ingénuas que fossem, eram pouco dado o tamanho da missão a que se destinavam cumprir. Como é que se levam centenas, quiçá até milhares, de mulheres urbanas para o campo? Como é que se transformam essas mulheres em novas pessoas? Será possível?

É importante contextualizar os campos de reeducação no contexto revolucionário, e o contexto revolucionário por sua vez no universo de emoções, traumas e idealismos de um povo que foi à guerra para ser livre.

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O filme “A Virgem Margarida” foi premiado internacionalmente.

Por outro lado, no filme o realizador explora também a necessidade da união entre as mulheres para a sua libertação.

A sororidade e o companheirismo entre as reeducandas, movidas pela experiência comum de opressão acaba por vencer as diferenças que as separam.

De uma forma quase literal, o autor mostra que a libertação da mulher moçambicana só será possível quando os grupos abandonarem a sua fidelidade às outras estruturas em que estão inseridas.

Em Virgem Margarida, para as combatentes é necessário abandonarem a estrutura militar e denunciar o abuso de poder e machismo dos seus colegas. Para as reeducandas, é preciso deixarem as alianças tribais e de classe de lado.

É somente neste campo de negociação que se pode falar, depois de uma Mulher Nova, pois essa mulher será livre de escolher o seu próprio destino.

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Segundo Licínio de Azevedo o filme não tem qualquer intenção política. Pelo contrário, interessa aqui o lado humano, o drama da vivência diária nos campos.

As condições reais dos campos e a forma como aos comandantes geriam os recursos de forma despótica, aliadas ao escasso acesso a alternativas, criavam um ambiente em que as ideias nem sempre chegavam.

A visão idealista da época arrastou não só mulheres, mas também homens para os campos de reeducação, destruindo e separando famílias para sempre. Entre prostitutas;  improdutivos; traidores; dançarinas… E virgens, também artistas, certamente outros mal entendidos aí na mistura.

As atrocidades, violência e consequências dos processos revolucionários são temas recorrentes nos filmes de Licínio de Azevedo.

Muito mais que saber o Passado, cabe-nos agora questionar o Presente. Quem seriam as Margaridas de hoje? O que temos feito por elas? E pelas outras? Que correntes nos impedem de alcançar a tal almejada libertação?