Mondlane, um herói improvável

Eduardo Mondlane foi o grande arquitecto da independência de Moçambique.

mondlane-at-oberlin
Eduardo Mondlane foi fundador e primeiro presidente da Frente de Libertação de Moçambique. Fonte: Frelimo

Um simples pastor filho de um líder local, foi com o apoio da Missão Suíça que teve a possibilidade de seguir os seus estudos na África do Sul, Portugal e por fim Estados Unidos da América, onde se doutorou em Sociologia.

Cresceu, portanto, não tendo outra opção senão se consciencializar sobre a sua posição no mundo: homem, negro, africano, moçambicano. Mas ao mesmo tempo, nascia nele também a consciência de valores e direitos mínimos para a prosperidade de todos os seres humanos.

À semelhança da independência da Tanzânia (1961) e da Zâmbia/ Malawi (1964), Mondlane queria uma independência pacífica. No entanto, o Estado Português não cedeu pacificamente a independência das terras que ocupava ilegalmente.

O seu desejo pela autodeterminação do povo de Moçambique levou-lhe, em 1962, a unir todos os movimentos de libertação num só, formando assim a FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique) e foi ele o seu primeiro presidente.

Concluindo que não seria possível alcançar a independência sem recurso às armas, em 1964 a FRELIMO começa os primeiros ataques de guerrilha. Com o apoio da Tanzânia, da Argélia e de outros países africanos e não só, Mondlane conseguiu desenhar e implementar uma estratégia sólida para derrubar as tropas portuguesas em Moçambique.

Infelizmente Mondlane não viu o seu sonho realizado. Foi assassinado a 3 de Fevereiro de 1969 – motivo pelo qual hoje celebramos o Dia dos Heróis- ao abrir uma encomenda com uma bomba preparada em Lourenço Marques pela PIDE.

mondlane-funeral-1969
Funeral de Eduardo Mondlane, em Dar Es Salaam, Fev. 1969. Vê-se Julius Nyerere, Presidente da Tanzânia, Janet Mondlane, viúva de Mondlane e os três filhos do casal. Fonte: The Delagoa Bay

É importante referir que com a morte de Mondlane o próprio destino da FRELIMO se alterou drasticamente.

A liderança de Mondlane, um homem religioso, académico, conservador, chocava com os membros mais radicais  da FRELIMO. Mesmo na Tanzânia, onde a FRELIMO tinha a sua base e outros movimentos guerrilheiros se encontravam, vários desses movimentos se voltavam para a esquerda.

Era também da URSS que vinha grande parte do armamento e treino da guerrilha da Frelimo. No entanto, Mondlane, que tinha vivido nos EUA tinha uma posição mais pró-Ocidental. Mas a aproximação com os EUA era praticamente impossível, já que o mundo se dividia em dois blocos distintos e a quebra de alianças poderia pôr em causa todo o projecto de libertação de Moçambique.

Em meados dos anos 60, num contexto de bipolarização global, em que a disputa entre o Ocidente e o Bloco de Leste pelo domínio do Terceiro Mundo se intensificava, a posição neutra e cautelosa de Mondlane destoava do resto. Com a sua morte em 1969, há uma viragem da FRELIMO para uma esquerda radicalizada.

Por outro lado, o seu casamento com Janet Mondlane, uma mulher branca americana, não era bem vista por muitos. A relação interracial evidenciava o cosmopolismo de Mondlane como um jovem africano intelectual, mas também o colocava numa posição de “diplomata” em vez de “guerrilheiro”.

4acb5f4590b110153dc201411317a0a1
Eduardo Mondlane era um docente com cara de guerrilheiro e um guerrilheiro com cara de docente. Fonte: Eduardo Mondlane and Social Sciences

É importante recordar Mondlane como o exímio investigador que ele foi. Como um dos primeiros africanos, e certamente um dos poucos moçambicanos que nessa altura chegou tão longe, destacou-se pela sua excelência na vida académica.

A questão racial e identidade nacional na vida social foi o seu grande objeto de estudo, tanto durante o Mestrado como durante o Doutoramento.

Como um jovem africano intelectual, ao sair da sua aldeia na província de Gaza deparou-se com um mundo marcado por choques e contrastes. As suas origens humildes, sem qualquer privilégio permitiram-lhe ter um sentido muito sólido da sua africanidade e da sua cultura.

Foi esse sentido e orgulho da cultura africana que permitiu que ele estudasse, nos E.U.A, a questão racial sem se preocupar em procurar uma identidade negra, ao contrário dos seus colegas afro-americanos. E foi esse mesmo sentido que despontou a necessidade de fazer da independência seu projecto pessoal.

Mondlane era por isso um patriota, no sentido em que tinha um orgulho muito forte das suas raízes e estava disposto a deixar (e deixou) tudo para lutar pelo seu país e também como nacionalista, pois formou um projecto de unificação de Moçambique e de formação de Moçambique como nação.

Pela sua elegância, inteligência e perspicácia Mondlane representava uma ameaça à altura dos líderes ocidentais. Era um líder charmoso, bem educado, bom orador e ciente da sua identidade e dos seus objectivos.

Mondlane seria um líder progressista que teria liderado um movimento pacífico e feito uma transição sem sobressaltos, contudo, a História quis que ele liderasse uma guerrilha impedindo-o de fazer aquilo que era o seu desejo: desenvolver Moçambique e criar uma elite intelectual capaz de governar e elevar o país.

Por não ter tido tempo de fazer tudo isso, por ter sido obrigado a abandonar esse propósito, por não ter tido a chance de ser o herói que ele queria ser, por esses e pelos outros sonhos que ficaram por realizar: Obrigada.

Escolher o Terceiro Mundo

Por que muitos de nós voltaram e alguns nem sequer partiram?

Quando dizemos que somos de um país do Terceiro Mundo, parece que as perspectivas e expectativas que as pessoas têm para nós se fecham.

Primeiro vem a piedade. Apesar de essa denominação ter mudado para “países em desenvolvimento”, ambos os conceitos carrega consigo o mesmo estigma e miséria. Depois da piedade vem a pergunta “E como é viver aí?” ou pior “Por que é que vives aí?”

Por mais estranho que pareça, ainda que haja oportunidades para sair, há quem queira ficar. Ou quem saia e regresse – como eu.

Viver no Terceiro Mundo é diferente de viver no Primeiro Mundo. Essencialmente viver num país em desenvolvimento significa que temos as nossas opções mais limitadas.

Os elementos fundamentais para a sobrevivência de uma determinada comunidade, tais como água; comida; roupa; educação; saúde; electricidade; etc são mais escassos. Também não temos infraestruturas que facilitem a distribuição destes bens, criando um fosso entre as zonas que têm os recursos e aquelas que não têm.

Para além disso, geralmente os países do Terceiro Mundo são famosos pelos altos níveis de corrupção e falta de transparência (e competência) das lideranças.

rio-de-janeiro-1024x440-2-618x338
Fim do terceiro mundo? Fonte: World Bank
Para quem, como eu, já teve o privilégio de sair e viajar para alguns países eu posso com toda a certeza dizer: há vários Terceiros Mundos. Há países semi-industrializados com um rendimento médio perto da média mundial e há países em conflitos, em bancarrota que são do Terceiro Mundo.
Moçambique, Tailândia e Brasil são países completamente diferentes, mas todos eles estão nessa categoria. Há um espectro enorme de pobreza (e riqueza), mesmo dentro de cada um desses países. Em termos materiais há pobres com casa própria, e ricos sem casa própria. Há ricos desempregados e pobres que trabalham todos os dias.
As pessoas pensam que o sonho de qualquer pessoa de um país em desenvolvimento é fugir, mas isso não é verdade. Há quem seja muito feliz aqui.
De longe parece que nós vivemos muito mal e que não temos qualidade de vida. Parece que o estilo de vida do Primeiro Mundo é a forma correcta de se viver e que nós queremos apenas mimicar isso.
Contudo, a verdade é que o Primeiro Mundo também não é perfeito. Nós sabemos que saindo daqui para viver num país dito desenvolvido não quer necessariamente dizer que os nossos problemas serão eliminados.
O que distingue o Primeiro e o Terceiro Mundo é a proximidade e atenção que se dá à Pobreza. No seu blog, Seth Godin, explica que são esses factores que estão na base desses conceitos.
Nós sabemos que em todos os países existe pobreza, embora no Primeiro Mundo esteja mais camuflada. Para além disso, ir para o Primeiro Mundo muitas vezes significa enfrentar racismo, choque cultural e afastamento da família, para além de todos os entraves institucionais (acesso a saúde; documentação; emprego; etc).
860323
Criminalização de sem-abrigo avança pela Europa. Fonte: Público
As pessoas chocam-se com a alegria e felicidade de pessoas do Terceiro Mundo, daí todo o sucesso da pornografia da pobreza. Mas não devia ser tão difícil assim entender que as pessoas podem ser felizes na sua realidade, mesmo se essa realidade parecer insuportável.
Muitos de nós adoram a vida que levam e acreditam que aquilo que fazem irá fortalecer e melhorar as condições de vida. Muitos de nós adoram a forma tradicional/ convencional de fazer as coisas, e isso vai desde algo tão simples como levar a loiça (que a maioria das pessoas faz manualmente) até algo maior como celebrar um casamento, em que incorporamos a cerimónia do lobolo.
Eu alegro-me ao saber que, apesar de os nossos hospitais e do sector de saúde como um todo estar cheio de insuficiências, todos os anos milhares de estudantes se candidatam ao curso de Medicina.  
Alegro-me ao perceber que, mesmo sem salas de aula ou carteiras, os professores todos os dias acordam para ensinar  o B-A-BÁ aos seus alunos. 
Alegro-me ao pensar que, mesmo sem dinheiro para comprar uma mochila ou cadernos para as crianças, os pais inscrevem os seus filhos na escola.
mocambique_free
Maputo é uma cidade viva e hospitaleira. Fonte: Alma de viajante
 
Existem muitas, muitas razões para ficar aqui. O sentido de pertença e de comunidade é muito forte, talvez mais forte que o descontentamento com a falta de escolhas.
Eu não trocaria a minha manga saborosa, suculenta, comprada na rua pela manga artificial e cheia de água, cortada e embalada, do supermercado. Não trocaria isso pelas ruas limpas e organizadas do Primeiro Mundo, porque as pessoas são mais impacientes, intolerantes e materialistas.

Apesar dos problemas de acesso à saúde; da escassez de boas opções de escolas; e das péssimas condições urbanas, de habitação e saneamento, eu adoro a vantagem de poder sorrir, abraçar e conversar com virtualmente qualquer pessoa, adoro a força e perseverança das pessoas ao meu redor e do sentimento de conquista global quando um único indivíduo se sai vitorioso.

Amílcar hoje

Amílcar Cabral foi o líder da libertação de Cabo Verde e Guiné Bissau, assassinado a 20 de Janeiro de 1973 antes de ver a independência das (ex) colónias africanas de Portugal.

Agrónomo, revolucionário anti-fascista, guerrilheiro e panafricanista, Amílcar Cabral marcou a História pelo seu papel central na luta pela auto-determinação dos povos de Cabo Verde e de Guiné Bissau que viviam sobre o domínio português.

Como um dos fundadores do PAIGC (Partido Africano da Independência da Guiné Bissau e Cabo Verde), foi um dos mais bem sucedidos líderes de uma revolução de guerrilha, tendo em algum momento dominado grande parte do território guineense (cerca de 70%) antes de Portugal concordar em ceder o poder a quem era de direito.

 

amilcar_cabral
Amílcar Cabral continua a ter impacto em movimentos contemporâneos. Fonte: Pambazuka

 

Enquanto estudante universitário em Lisboa, estabeleceu contacto com Agostinho Neto e Eduardo Mondlane que viriam a liderar movimentos de libertação em Angola e Moçambique, respectivamente.

Fez parte, em Lisboa, da Casa dos Estudantes do Império, que se tornou num centro de valorização das culturas africanas. Foi aí que se estabeleceu o contacto entre Cabral e outros intelectuais contemporâneos, tais como Marcelino dos Santos, Mário de Andrade, Noémia de Sousa e Alda Espírito Santo, entre outros.

Foi esta elite que deu origem ao Centro de Estudos Africanos e deu início ao processo de consciencialização das então colónias portuguesas, através do qual se estabeleceram movimentos de libertação.

Este pequeno grupo privilegiado de estudantes universitários oriundos de diferentes pontos do continente africano foi capaz de não só questionar a lógica colonial, mas mais do que isso, mobilizar forças para dar um fim definitivo ao colonialismo português.

badge
A união entre os movimentos de libertação foi uma peça central. Fonte: Via Atlântica

A ligação entre os movimentos de libertação foi de grande importância para o sucesso das lutas pela independência.
Mas Cabral destacou-se sobretudo pela sua articulação e pelo trabalho que fez como questionador do seu tempo, teorizando grande parte das suas visões para África.

O que mais marca Cabral é o papel que ele dá à valorização das culturas nativas. Segundo ele, a cultura é o fundamento da luta anti-colonial na medida em que só se libertam os povos que vêem a sua capacidade de criar e praticar cultura limitada.

Ou seja, a subjugação de uma cultura nativa face à imposição de uma cultura estrangeira é que obriga uma determinada sociedade a lutar pela sua libertação.

 

De uma forma alargada, muito daquilo que se fala hoje sobre a globalização e neo-colonialismo já tinha sido antecipado por Cabral. Só se pode dizer livre um povo que é capaz de negar influências negativas de outras culturas de modo a preservar a sua cultura e a sua identidade.

Na sua compreensão do mundo ele vai para além das ideias do Homem Novo que muitos movimentos revolucionários da época defendem, e projecta um resgate dos valores e hábitos tradicionais africanos.

Para ele é central o papel da cultura para a resistência anti- imperialista e daí a necessidade de criar espaço para a cultura, através da luta, restaurar as pessoas oprimidas e transformá-las em agentes completos da sua própria história e identidade.

 

“Nós queremos entretanto exprimir claramente o seguinte: nós não confundimos a nossa luta, na nossa terra, com a luta do povo português. Estão ligadas, mas nós, no interesse do nosso povo, combatemos contra o colonialismo português. Liquidar o fascismo em Portugal, se ele não se liquidar pela liquidação do colonialismo, isso é função dos próprios portugueses patriotas, que cada dia estão mais conscientes da necessidade de desenvolver a sua luta e de servir o melhor possível o seu povo.”

O desmoronamento do Estado Novo em Portugal, embora não fosse a finalidade do trabalho de Cabral e dos seus contemporâneos, acabou sendo um dos resultados da sua luta.

O colonizador inevitavelmente acabou sendo libertado pelo colonizado. Para Cabral, isso era previsível pois a revolução opunha mais os povos dominados aos dominadores, desafiando a própria essência da ditadura fascista, do que opunha o proletariado (colonizados) à burguesia (colonizadores).

Pode-se dizer, portanto, que não foi Portugal que libertou as colónias, mas sim foram as colónias que libertaram Portugal. Na medida em que através da defesa da sua auto-determinação e da exigência do reconhecimento da sua humanidade plena puseram em causa a própria natureza do Fascismo Português, destruindo-o.

 

cabral-and-fighters.jpg

É importante perceber como, para Amílcar Cabral, a luta armada pelo fim do colonialismo, não termina na declaração da independência. Para ele, era preciso compreender dilemas persistentes como a ligação cultural entre os povos africanos e o povo português (que ele sempre separou do Estado Português), bem como as ideias de construção de Estado num contexto de pan-africanismo.

Embora panafricanista, Cabral rejeitava a ideia de se tratar da África Negra como um espaço homogéneo. O panafricanismo de Cabral defendia as especificidades de cada nação africana e o seu estudo de forma isolada.

A dimensão de libertação de Cabral ia para além da auto-determinação a nível da organização política,mas passava também sobre a auto-descoberta da cultura nativa e do seu desenvolvimento. Por isso é tão importante revisitá-lo hoje, 44 anos após o seu assassinato.

O legado político de Amílcar Cabral vai para além do seu estudo crítico dos desafios e ameaças dos movimentos de libertação africanos dos anos 50 e 60.

Ao explorar as a centralidade da cultura e da identidade, bem como ao desafiar as noções de imperialismo e colonialismo, Cabral obriga-nos a observar o panorama social actual e a reconhecer padrões idênticos àqueles que ele lutou para derrubar.

O seu pensamento é relevante e contemporâneo para falarmos de apropriação cultural, de movimentos migratórios e de novas formas de domínio dentro do próprio continente africano.

 

 

5 livros para o Ano Novo

Pouco posso dizer sobre o ano que nos despede, e menos ainda sobre o ano que se aproxima. Deixo por isso estes 5 livros que me marcaram muito em 2016, cada um com a sua particularidade mas todos eles especiais e dignos de um espaço nesta lista.

Espero que em 2017 eles tenham o mesmo impacto que tiveram na minha vida, na vida de outra pessoa.

Under the Udala Trees – Chinelo Okparanta

“Com um homem a vida é difícil. Sem um homem a vida é ainda mais difícil”

Esta frase resume bem parte do dilema em que vive Ijeoma: entre viver numa sociedade patriarcal casada com um homem, mesmo sendo infeliz ou viver numa sociedade patriarcal e homofóbica com uma mulher e tentar ser feliz no meio de tanto ódio.

Este livro é um emocionante romance que retrata a vida da jovem Ijeoma, uma menina e mais tarde mulher nigeriana nos anos 70 e 80. Ijeoma vê-se em conflito com a sua religião, a sua família e a sociedade em que vive à medida que vai descobrindo a sua sexualidade.

Nervous Conditions – Tsitsi Dangarembga

“Podes cozinhar livros e alimentá-los ao teu marido? Fica em casa com a tua mãe. Aprende a cozinhar e a limpar. Planta vegetais.”

Durante o período pós-colonial no Zimbabwe, Tambu, uma menina de 14 anos, toma posse da sua voz e conta a sua versão dos factos que lhe levaram a libertar-se do fatídico destino de ser apenas mais uma mulher perdida no mato, sem estudos nem profissão.

Mais do que isso, através de Tambu conhecemos outras mulheres, cada uma com uma história para contar apesar das adversidades de um mundo dominado por homens. O livro permite-nos entender e até perdoar as escolhas de todas elas.

Efuru – Flora Nwapa

“Uma boa mulher é aquela que te cumprimenta vinte vezes se te visse vinte vezes num dia.”

Neste livro, do qual já falei aqui no blog, conhecemos a trajectória de Efuru desde a sua juventude, com o ritual da circuncisão feminina, até ao casamento, a maternidade e por fim a sua resignação face às expectativas da sociedade para com as mulheres.

A tragédia de Efuru é a sua inabilidade de se encaixar no padrão de “Boa Mulher, pois apesar de ser uma mulher carinhosa, prestativa e tradicional, não é mãe.

We Need New Names – NoViolet Bulawayo

“Porque nós não estávamos no nosso país, nós não podíamos usar as nossas próprias línguas, então quando falávamos as nossas vozes saíam feridas.”

Darling narra as aventuras dos seus amigos no Zimbabwe, na era pós-colonial. Toda a primeira parte do livro é-nos descrita pelos olhos inocentes das crianças que nada conhecem para além da sua pobreza e miséria.

Posteriormente Darling viaja para os Estados Unidos da América, onde espera viver longe da tristeza, choque e terror do seu país, no entanto percebe que o sonho americano não passa de uma fantasia e é obrigada a enfrentar a dura realidade de ser imigrante.

Difficult daughters – Manju Kapur

“Uma mulher sem o seu próprio lar e família é uma mulher sem amarras”

O livro segue três gerações de mulheres indianas, partindo da perspectiva da mais nova a tentar descobrir e perceber a sua mãe, Virmati.

A história é acima de tudo sobre a luta pela liberdade: a descolonização da Índia; a possibilidade de estudo para as mulheres e a vontade de poder ser mais do que a sociedade deixa. Virmati é o centro desta encruzilhada entre a tradição e o moderno; o individual e o colectivo, e o futuro e o passado.

img_6708
Livro Difficult Daughters na minha cabeceira.

Bónus: Boy, Snow, Bird – Helen Oyeyemi 

“Por razões que cá eu sei, eu tomo nota da forma como as pessoas se comportam quando estão perto de espelhos.”

Este é um conto de fadas muito peculiar que decorre nos EUA, nos anos 60 quando a segregação racial ainda era uma realidade. Os caminhos de três mulheres se cruzam, num mundo mágico e surreal, em que é impossível escapar ao mundano.

A autora consegue explorar temas como o racismo; colorismo e sexualidade, com uma naturalidade envolvente.

Ainda sobre a violência

A construção de conceitos de masculinidade tóxicos começa nas nossas casas, mesmo antes dos nossos filhos nascerem.

Estou grávida. É menino. Logo vou a correr comprar uma mantinha azul e uns carrinhos para ele brincar.

Eu sei que ele adora super heróis, o seu quarto será decorado com o Homem Aranha. O tema da sua primeira festa será Super Homem, porque o meu filho é forte e invencível. Todos os seus brinquedos vão reforçar esta imagem dele próprio.

Quando ele for brincar de forma brusca com as amigas meninas, direi que é assim mesmo que se domina uma mulher. E se ele por ventura cair e se magoar, não o deixarei chorar. O que é isso? Homem não chora! Também não permitirei que meu filho seja um rapaz sensível, afinal de contas isso é coisa de mulher.

E terei o meu filho macho perfeito: forte; insensível e frio.

Desde cedo, os nossos rapazes aprendem que masculinidade é um estatuto desejado, pois representa poder, dominância, controle.

“O primeiro acto de violência que o Patriarcado exige dos homens não é violência para com mulheres. Em vez disso, o Patriarcado exige que todos os homens cometam actos de auto-mutilação psicológica, exige que eles matem as partes emocionais deles mesmos. Se um indivíduo não é bem sucedido em se mutilar emocionalmente, ele pode contar com os homens dos Patriarcado para praticarem rituais de poder que assaltarão a sua auto-estima.” – bell hooks

Embora aquilo que chamamos de masculinidade tenha também a sua componente biológica, requer uma constante validação social. Essa validação social basicamente comprova que para “ser homem” não basta “nascer” homem, há uma série de comportamentos e valores que a pessoa deve incorporar na sua vida.

Alguns dos comportamentos mais inofensivos e comuns que promovemos nos homens de modo a validar a sua masculinidade prendem-se com desporto; competitividade e sexualidade. Por exemplo, um homem muito macho geralmente pratica algum desporto e/ou tem várias parceiras sexuais.

Em contraposição, a construção da feminilidade é feita através da sensibilidade; da submissão e da emoção. Uma mulher que se preze é sensível, emociona-se facilmente (passando até por histérica ou louca) e submete-se ao poder masculino.

Sendo a masculinidade algo que só existe se for validado, é importante haver um ritual, um espectáculo. Por isso é comum o uso público da agressão e/ou violência, já que a força física é uma importante componente do conceito de masculinidade.

É geralmente através da força que muitos homens impõem a sua masculinidade na sociedade. E a presença constante da violência é a maior prova disso.

fb-brave
Os ritos de iniciação são momentos em que se põe à prova, de forma bem clara, o que é permitido dentro desse espaço de “masculinidade”. Fonte: Afritorial

Como sociedade nós colocamos essas expectativas nos nossos homens. Somos cúmplices nessa construção de masculinidade que obriga os homens a silenciar o seu lado emocional e a colocarem-se no lugar de provedores invencíveis.

O que acontece então ao homem que não conseguir corresponder a tais expectativas? O que é do homem que não consegue provar vezes sem conta a sua masculinidade? O que faz o homem para preservar o ‘pouco’ que resta da masculinidade perdida?

É altura de questionar as interacções que ocorrem entre os vários intervenientes e em diversos contextos (casa; escola; trabalho; família; etc) que implicitam noções problemáticas de género e de poder.

Os homens de hoje são criados dentro de um espectro limitado de possibilidades. Através da socialização lhes é ditado o que é e não é permitido ser e sentir. As instituições e papaéis sociais já estão definidos e perpetuam mitos e estereótipos.

A boa notícia é que normas sociais são criadas por nós e por nós aprendidas. Nessa lógica, é possível desaprender também. É possível pensar em modelos de masculinidade que se baseiam em algo para além da força e dominância.

Women with black eye following inter-partners violence
Homens usam violência para ganhar poder e controle sobre alguém que consideram inferior na hierarquia social (seja mulher; alguém mais novo; filho; etc). Fonte: The African File

Enquanto não desafiarmos visões, valores e crenças que delimitam aquilo que é masculinidade e aquilo que é feminilidade, estaremos sempre a viver em situações perigosas tanto para os homens como para as mulheres.

Procurar mudanças nos conceitos de masculinidade (e por tabela de feminilidade) possibilitará a libertação dos corpos e vidas de mulheres que há muito são os campos de batalha onde estas forças se manifestam.

Uma nova forma de viver -e ensinar- a masculinidade é uma oportunidade para desenvolver nos nossos homens conhecimento e aptidões multi-dimensionais, que lhes permitirão serem pais, filhos, tios, primos, professores, médicos, dançarinos, cantores ou o que quer que eles queiram ser, mais presentes, mais sensíveis, mais compreensivos e sobretudo, mais humanos.

 

 

Precisamos de falar sobre a violência

Fulano espanca mulher até à morte. Sicrano é encontrado esfaqueado no seu carro. Mulher e filhos são mortos por ex-marido ciumento. Grupo de homens viola jovem vizinha.

Isto são apenas recortes de várias notícias e reportagens que já são habituais nos nossos jornais e revistas. Coisas que ocorrem com tanta frequência que de repente deixam de chocar e passam a fazer parte do nosso dia-a-dia.

É normal. Como sociedade concordamos que isto é o que temos e que pouco ou nada podemos fazer para mudar a realidade.

O que estará a acontecer connosco que está a permitir que a violência se normalize? O que estaremos a fazer para permitir que o abuso verbal, físico e/ou sexual continue a acontecer na nossa sociedade?

Vários pensadores; críticos; filósofos; sociólogos e outros investigadores sociais já se debruçaram sobre o tema. Estatisticamente falando, a violência como um todo é levada a cabo por homens. Independentemente do contexto social; económico; étnico; incluindo faixa etária e nível de escolaridade; os crimes mais violentos são na sua maioria cometidos por homens.

Porquê? Que relação existe entre violência e masculinidade?

Serão todos os homens violentos? Não. Mas todos os homens são criados na mesma sociedade patriarcal que exige deles um comportamento violento. Todos os homens são criados para acreditarem que têm acesso ilimitado à violência para reforçar o seu poder. Todos os homens são socializados para acreditar que o uso da violência está acima de qualquer direito ou dever que possam ter na sociedade.

Há um padrão de violência aí que não deve (nem pode) ser ignorado.

violencia_mundo.jpg
O homem tende a cometer violência contra homens e mulheres para afirmar ou reforçar a sua masculinidade. Fonte: Rede HOPEM

O conceito de masculinidade está intimamente ligado à força e à violência. Temos aquela imagem do homem ideal caçador; protector da família; provedor; forte; atlético; disposto a tudo para defender os seus ideais. Esquecemos que esse homem ideal é capaz de coagir; forçar; manipular; violar; abusar; se fizer uso (ou ameaçar o uso) da violência.

Nos casos de violência doméstica acrescenta-se aqui uma série de estruturas e condutas aceitáveis que facilmente podem sair do limite do saudável.

Há uma glamourização de comportamentos abusivos como o ciúme excessivo; a possessão disfarçada de preocupação; a própria dinâmica de poder entre o casal em que da mulher espera-se submissão e do homem dominação; entre outros sinais que podem por si indicar que o relacionamento não é saudável.

Por outro lado, nós como mulheres somos socializadas para ter uma atitude de auto-sacrifício e resignação face à ‘natureza’ e manutenção dessas dinâmicas nas relações.

Acrescentamos ainda a este “conto de fadas” as pressões sociais e expectativas associadas ao casamento e todo o estigma em torno do divórcio.

violencia2
A violência doméstica é normalizada. Fonte: A Verdade

Quando falamos em criminalidade e violência geralmente vemos como cara das estatísticas mulheres pobres, de bairros suburbanos ou zonas rurais com pouca instrução escolar. Olhamos para essas mulheres como as vítimas perfeitas, já que vivem desprovidas de conhecimento sobre os seus direitos e sem apoio para saírem das relações abusivas em que se encontram.

Mas a verdade é que a violência doméstica é um fenómeno que afecta famílias de todos os backgrounds sociais; económicos; étnicos; etc.

No ano passado, a filha de Graça e Samora Machel, Josina Machel, chegou-se à frente relatando que tinha sido vítima de um relacionamento abusivo, tendo perdido a visão no olho direito como resultado de uma agressão que sofreu pelo parceiro.

Esta semana nos chocou o assassinato de Valentina Guebuza, filha do ex-Presidente da República Armando Guebuza, baleada pelo seu próprio marido.

Seria fácil apontar estes como casos isolados, mas infelizmente não é assim. Estes chamam à atenção por mostrarem mulheres emancipadas financeiramente, de famílias privilegiadas, que vivem em locais seguros e com todos os serviços à sua disposição mas que ainda assim não escaparam às teias manhosas da violência doméstica.

A violência doméstica pode acontecer com todo mundo. Acontece com mulheres de diferentes raças, de diferentes níveis educacionais, de diferentes classes sociais. Olhe para mim. Eu perdi um olho. Há tantas outras que perdem a vida. Pelo menos eu pude contar a minha história.Josina Machel

A verdade é que precisamos desses casos mediáticos e sensacionalistas para apontar o dedo à monstruosidade do mundo e esquecer que ela existe nas nossas casas, nas nossas relações e em nós mesmos. Precisamos desse sensacionalismo para validar que esses monstros são desconhecidos e não os nossos pais, primos, vizinhos, colegas.

São situações complexas e demasiado delicadas e por isso é mais fácil olhar desta forma simplificada em que as coisas são pretas e brancas. Ninguém quer olhar para si mesmo e reconhecer padrões de violência, mas eles estão lá.

Nos jornais colocam-nos os agressores como homens sui generis sem estrutura emocional para viver na nossa sociedade. Nós, como espectadores, esperamos desse criminoso toda a crueldade e frieza que possa colocá-lo numa ‘caixa’ catalogada como “monstro/ psicopata/ sociopata/ doente/ etc”.

E por sua vez, a esse criminoso atribuímos a tal vítima perfeita. Precisamos de uma vítima indefesa e frágil para nos colocarmos acima dessa posição e por isso, acima da situação como se algo idêntico apenas acontecesse longe da seguranças das nossas vidas.

Depois de todas as capas de jornais; debates online; programas de TV; reportagens e afins, voltaremos ao nosso conformismo. Voltaremos a acreditar na inocência da violência burguesa.

Quando os nossos filhos baterem nos colegas, diremos que é normal por serem rapazes. Quando as nossas filhas forem assertivas, diremos para elas serem menos intimidantes. Quando ouvirmos gritos de discussões nas portas ao lado, viremos as costas porque “entre marido e mulher não se mete a colher”. E continuaremos na nossa vida até reaparecer um caso idêntico para nos puxar à realidade.

 

 

 

 

 

Deixem a Kizomba em paz!

Já chega de deixarmos a nossa cultura ser apropriada, extraviada e abusada por estrangeiros.

Nos anos recentes tem havido um boom dentro da “Lusofonia” no que toca à Kizomba. Parece que de repente todos acordaram para o ritmo angolano: de Angola a Portugal, Espanha, África do Sul e até mesmo Brasil. O mundo despertou ao som de África.

Até já se diz que Lisboa é a capital da Kizomba. Sim, isso mesmo! Um ritmo angolano, cantado e ensinado por africanos tem a sua capital na Europa. Parece piada, mas há pessoas que acreditam que isso seja verdade.

A kizomba é uma dança de Angola que surgiu nos anos 80, no entanto se popularizou nos últimos cinco anos com grandes nomes tais como Anselmo Ralph (Angola) e Nelson Freitas (Cabo Verde).

As comunidades imigrantes de origem africana em Portugal (e não só) sempre tiveram os seus espaços próprios para dançar as suas músicas e viver a sua cultura. E em Lisboa esses espaços eram o Mussulo e o Sarabanda, entre outros, que essencialmente eram frequentados por africanos de classe média-baixa e alguns brancos atrevidos que lá se iam “desvalorizar”.

Essa vida à margem da sociedade é típica das sociedades imigrantes. Para os lisboetas, esses locais sempre foram antros de perdição já que no seu imaginário os africanos são todos promíscuos, festeiros e dados a grandes bebedeiras, nada aptos para trabalhar e que só se querem divertir. Porquê então o súbito interesse pela kizomba?

maxresdefault_kizomba.jpg
As “noites africanas” estão na moda.

Há muitos elementos mainstream hoje que sempre fizeram parte das culturas africanas e sempre foram considerados de valor e belos, mas que ganharam novos rumos quando outros povos começaram a valorizar.

Os mesmos símbolos e hábitos considerados primitivos ou selvagens, como tatuagens, piercings, rastas, etc, aos poucos criaram espaço na cultura pop. Um cidadão branco de rastas é hippie, alternativo, interessante e tal enquanto as mesmas rastas num cidadão negro causam desconfiança, são marcas de desleixo e pouca higiene.

A verdade é que existe um viés quando um determinado elemento é usado num contexto “tribal” e quando é usado no meio “urbano”. Quando é visto com um plano de fundo africano e quando é visto com um plano de fundo europeu. Parece que tudo precisa de passar por aprovação ocidental para ser considerado bonito e infelizmente nesse movimento de ascensão perde o seu significado.

A este processo de adopção de elementos de uma determinada cultura por um grupo diferente chama-se apropriação cultural. A apropriação cultural só pode acontecer quando um grupo privilegiado rouba elementos tais como arte; estética; língua; religião; música; etc, de  uma cultura de um grupo oprimido.

Quando removemos os elementos culturais do seu contexto original, para além da perda de importância e legado que carregam, muitas vezes reforçamos estereótipos.

No caso da Kizomba a sua valorização deveu-se sobretudo ao facto de haver uma classe africana média-alta que aos poucos conquistou espaços centrais na Europa e ganhou mais poder de compra, criando condições para artistas do seu agrado poderem encher casas de espectáculos além fronteiras.

Assim da marginalidade para a centralidade, a Kizomba manteve o seu ritmo original e compassado, mas ficou hipersexualizada e muito ligada à vida luxuosa, de grandes farras, corpos sensuais e altos carros, correspondendo à expectativa portuguesa daquilo que são as aspirações dos africanos.

16271479_303.jpg
Está na moda ser preto, desde que você não seja preto

À semelhança da Kizomba, a capulana, tecido africano típico de Moçambique também sofreu um ataque de apropriação cultural. Este processo também aconteceu recentemente com a nova vaga de emigração portuguesa, que se deslumbrou com as cores e o brilho da capulana.

O pano que usávamos para amarrar o bebé às costas, para amarrar à nossa cintura, agora ganhou designs europeus, tanto é que hoje ainda é considerado algo negativo, ultrapassado e até certo ponto ‘primitivo’ usar a capulana na sua forma mais tradicional, mas por outro lado, é elegante e chique fazer um vestido de noiva misturando o cetim e a renda branca com a capulana.

A apropriação cultural descontextualiza o elemento em si, distanciando-o das suas origens e da sua simbologia/ valor. De tal forma que pode-se de facto acreditar que Lisboa é a capital da Kizomba, embora a Kizomba seja de Angola, mas porque olhamos para a Kizomba como algo isolado, sem raízes nem ramificações, posicionamos onde melhor nos convém.

1060134
Imigrantes protestam em Lisboa contra regras do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras

Para mais, nos aproveitamos de uma certa cultura sem reconhecer as ruínas que ficam por reconstruir. Ou seja, ouvimos a música; dançamos ao seu ritmo; usamos as suas roupas; mas não nos unimos para apoiar as suas dores e as suas causas.

Quantos lisboetas interagem e se identificam com a Kizomba? Onde estão os portugueses a lutar por uma maior e melhor integração dos imigrantes africanos? O que têm feito essas centenas (talvez até milhares) de instrutores de kizomba europeus pelos dançarinos amadores que criam novos passos e tendências?

Deles ouvimos apenas o silêncio que confirma a sua conivência e satisfação com o status quo. Pode-se falar então em globalização? Podemos encarar estes processos como trocas de experiências, conhecimentos e percepções?

Talvez… Quando houver um equilíbrio na distribuição de poder e quando pudermos reconhecer a humanidade de todos nós sem excepções e não considerarmos umas culturas melhores, mais desenvolvidas e mais apuradas que outras, aí sim, será uma troca sem perdas nem prejuízos.

Lobolo aos olhos de hoje

O lobolo é uma cerimónia tradicional em que a família do noivo oferece um dote à família da noiva, celebrando assim a sua união.

Tenho notado já há algum tempo que hoje em dia, especialmente nos meios urbanos, há uma intepretação errada de vários elementos tradicionais da nossa cultura moçambicana.

Desde a chegada dos Europeus a África que houve uma demonização de tudo o que era estranho e bizarro quando comparado aos seus hábitos e costumes. E assim os modos das sociedades africanas foram ridicularizados e até proibidos, motivo pelo qual muitos rituais deixaram de ser praticados.

Um desses elementos mal interpretados aos olhos de hoje é o ritual matrimonial tradicional – o lobolo.

Como é que em Moçambique se dizia “casamento” antes de chegar a Igreja Cristã? Como é que se reconhecia a união entre duas pessoas antes de haver um “Estado”? O que era um “casamento”?

Temos de usar os olhos de ontem para procurarmos interpretações – e validade! – nos rituais hoje ou corremos o risco de viver acorrentados às ideias medievais que o Velho Continente nos passou.

maxresdefault-2
O lobolo é mutável, variável e adaptável. Fonte: Antropocoiso

A cerimónia do lobolo consiste numa oferta de bens em forma de gado, dinheiro, roupas e alimentos, entre outros à família (clã) da noiva. Após a aceitação e recepção destes bens por parte da sua família, a noiva passa a pertencer à família (clã) do noivo. Por esse motivo, aos olhos do colono, a mulher estaria a ser “vendida” e é essa narrativa que até hoje se mantém para rejeitar o ritual.

O dote oferecido servia de fundo comunitário para aquela família (clã). E de certa forma também de seguro, pois para anular a união seria necessário a devolução do dote, o que poderia pôr em causa toda a economia local.

Sempre ouvi o meu pai contar uma história que aconteceu há muitos anos em Homoíne (província de Inhambane) na aldeia onde ele cresceu. Um homem matou a sua própria irmã à catanada e foi enviado para S. Tomé & Príncipe, onde cumpriu a sua pena trabalhando como escravo para o regime colonial Português.

O motivo do assassinato foi o facto de a sua irmã ter manifestado a sua vontade em querer dissolver o seu matrimónio, o que obrigava a sua família a devolver o dote ao seu esposo. O seu irmão, por sua vez, já tinha usado grande parte do dote para lobolar a sua esposa, então teria ele também de se divorciar para devolver os bens.

Ou seja, o dissolução de uma união criava a dissolução de outras uniões em forma de cadeia, destruindo por completo a harmonia naquela sociedade. A situação levou o irmão à beira do desespero e terminou de forma trágica.

lobola.jpg
Na Namíbia, Quénia e África do Sul, o lobolo chama-se lobola. Em Angola é o alambamento.

Estando inserido numa sociedade patriarcal (q.b.) o matrimónio tradicional não deixa de ser um fenómeno económico e de poder – como o matrimónio religioso cristão,- na medida em que serve de regulação social, pois o lobolo legitima a relação do casal e eleva o estatuto dos nubentes.

Para além disso, o lobolo estabelece uma família (garante descendência) e alberga também garantias que asseguram a vida e sobrevivência das famílias envolvidas no caso de morte de uma das partes.

Hoje em dia o lobolo, como qualquer outro ritual, já sofreu alterações na sua forma e no seu conteúdo, no entanto mantém o valor social que representa. É um dos elementos tradicionais que até as famílias mais modernas conseguiram manter, e por isso reforça o nosso sentido de Africanidade.

Por exemplo, no lobolo já se oferece um anel de ouro, que foi incorporado dos rituais da Igreja Cristã. A loiça feita de barro e madeira foi substituída pela porcelana (apesar de não servir para as orações e oferendas aos antepassados). Por outro lado houve símbolos africanos como o gado e as capulanas que sobreviveram a essas mutações.

Nos dias que correm é comum a realização do lobolo seguida do casamento religioso e/ou cerimónia civil, antes do copo d’água. Esta prática tem como objectivo a manutenção do nosso sentido de identidade e de compromisso com os antepassados.

Nas regiões mais rurais, o lobolo é um ritual que confere um reconhecimento social que as outras cerimónias (na Igreja, Mesquita, Conservatória, etc) não oferecem, pela dimensão de envolvimento da comunidade e ligação histórica e espiritual.

Tendo em conta estes factores, a “nova” Lei da Família já prevê o lobolo como uma cerimónia legítima, com o mesmo peso legal que o casamento civil.

noiva - vestidis de noiva da Africa.jpg
Hoje em dia é comum incorporar elementos tradicionais com os mais modernos.

O lobolo em Moçambique é uma prática que visa o reconhecimento matrimonial, isto é, garante a reprodução, estabilidade, compromisso, e estabelece os direitos e deveres entre um homem e uma mulher perante a comunidade.

Ao conotarmos o lobolo como uma simples transacção de compra e venda tiramos todo o simbolismo e importância que o ritual de facto tem. Estamos a olhar como o Europeu que aqui chegou olhou, sem ter sensibilidade para perceber as estruturas e crenças das sociedades da época.

Tal como entendemos, praticamos – e perdoamos! – o casamento religioso cristão, com todas as suas limitações, devemos também fazer o mesmo exercício ao olharmos para o lobolo.

É nosso dever descolonizar estas ideias ultrapassadas dos nossos próprios hábitos e costumes e encontrar formas de adaptar os rituais à nossa actualidade.

 

Odiar para governar

O ódio como força poderosa de união e governação.

Entre africanos quando nos encontramos é comum competirmos sobre quem tem o pior Presidente. É uma espécie de Jogos Olímpicos espontâneos, bem divertidos, que ocorre sempre que discutimos política.

Oh! O nosso Presidente está no poder há mais de duas décadas!

Mas o nosso tem familiares metidos em todos os negócios

O nosso Presidente é dono de metade do território.

O nosso é o pior, ele demitiu todo o seu gabinete.

E por aí vai.

Nós conversamos sobre a incompetência dos nossos governos e rimos do futuro catastrófico dos nossos países. De certa forma, a natureza dessas conversas está no centro daquilo que é ser africano.

Nós gostamos disso. Gostamos desses momentos descontraídos em que falamos sem culpa ou julgamento das coisas que nos inquietam sobre os nossos governos.

Essas semelhanças tornam as nossas dores menos difíceis. Sossega-nos saber que há alguém tão mal ou quiçá até pior que nós.

Todos nós adoramos odiar, especialmente em grupo. Odiamos mais e melhor quando estamos juntos. As pessoas se unem nos seus ódios partilhados o tempo todo. Quando encontramos pessoas que odeiam ou não gostam das mesmas coisas que nós, nos tornamos amigos instantaneamente.

Por isso não me surpreende que Donald Trump tenha vencido as eleições nos Estados Unidos da América.

Vejamos, ele odeia muitas coisas e fala abertamente sobre isso. Esse diálogo permitiu que outros semelhantes a ele o pudessem eleger. Sim, o ódio venceu. Prevaleceu a força do preconceito e discriminação.

robert-mugabe-sleeping-in-nigeria
Robert Mugabe, o presidente do Zimbabwe, é provavelmente o presidente odiado com mais amor.

Na verdade o ódio é uma força com muito poder.

Não há como negar o poder de sentimentos como a raiva e o medo, que estão na raiz daquilo que é o ódio. Essa necessidade de ter o “outro” distante; de ver bem longe tudo o que é diferente; de afastar do nosso reflexo esse contraste está muito enraizado na nossa cultura.

É normal odiar em conjunto. Seja para fazer piadas com a opressão dos outros (piadas homofóbicas; racistas; machistas; etc) ou mesmo para reforçar a nossa posição social, usamos sempre esse afastamento do “outro”.

Mas nós só vemos problemas quando isso aparece de forma oficial, ou seja, quando existe uma liderança declaradamente preconceituosa.

Donald-Trump-Rally-in-Alabama02.jpg

No início do ano foi a vez dos britânicos mostrarem a sua verdadeira face. O voto “sim” ao Brexit provou que as portas vão se fechar para todos aqueles que não se enquadrarem no perfil ideal de “Britânico”.

Logo após o resultado do referendo, muitas minorias, imigrantes e afins foram alvos de ataques no Reino Unido. E o mesmo aconteceu nos EUA.

O validar do ódio abre espaço para as pessoas para manifestarem todo o seu preconceito e aplicarem violência sobre os grupos que querem afastar.

Aos poucos o Ocidente vai perdendo legitimidade para falar mal da decadência das democracias africanas. Na verdade tal decadência é resultado de séculos de privação cultural e intelectual e de processos de libertação mal paridos.

A onda de ódio e preconceito que marca a decadência das democracias ocidentais é fruto da ignorância e da crescente insegurança económica e social em que vivem muitas pessoas nessas sociedades, apesar da ilusão da vida confortável do “Primeiro Mundo”.

Novos tempos se apresentam perante nós.Seremos governados pelo ódio e pelo medo.

Agora os britânicos, os norte-americanos e demais, se unirão a nós, africanos, quando falarmos sobre as nossas democracias falidas e rirmos dos nossos Presidentes.

Virão para as nossas terras se “expatriar” e viver de regalias, mesmo defendendo a segurança das suas fronteiras.

 

Para que(m) serve a CPLP?

Há alguns meses, aquando do vigésimo aniversário da CPLP, comentei que a CPLP era uma espécie de prisão para nós. 

Vivemos numa ditadura do Português, pois no nosso consciente essa é a nossa Língua e faz parte da nossa identidade como Nação. Mesmo o nosso ensino bilíngue ainda é muito imaturo e não consegue dar resposta aos nossos problemas, pois a grande maioria da população em Moçambique não fala Português, mas sim uma outra língua local.

Por que é que as pessoas que falam, por exemplo, o changana não podem aprender a ler e escrever em changana? Por que é que não criamos alianças com países vizinhos para falarmos as nossas línguas em comum?

Nós metemos na cabeça que a Língua Portuguesa é nossa esposa e todas as outras línguas que falamos são nossas amantes, obrigadas a viver na clandestinidade e longe dos espaços públicos. É a CPLP sustenta essa ideia de nós mesmos, fazemos parte desta “comunidade” e não criamos uma comunidade de países que falam swahili ou makhwua.

Na África do Sul, por exemplo, nos hospitais há cartazes em línguas locais. Isso facilita o acesso a este serviço. Mas as nossas línguas locais são praticamente invisíveis na esfera pública.

Pouca é a nossa literatura em línguas locais e as grandes editoras investem mais em Português. Imaginem quantos escritores já perdemos assim! Temos exímios contadores de histórias, mas o seu legado fica pela oralidade.

Outros jovens de países vários tiveram opiniões semelhantes. Qual é a relevância da CPLP nos dias de hoje?

2b71cba739f1e002f4d8a33b4b0e6ac8da37acc6

O Ministro dos Negócios Estrangeiros Português, Augusto Santos Silva, tem uma opinião diferente. Para ele, a Comunidade baseia-se num princípio de igualdade entre todos:

“São Estados soberanos, iguais em direitos, iguais em responsabilidades. Têm um traço de união fundamental, que é a língua portuguesa, uma língua que pertence a todos, na diversidade com que a usam e enriquecem.” – 20 anos de CPLP: a melhor juventude

No entanto, as bases onde se apoia a CPLP têm origem na teoria do luso-tropicalismo e é por isso que é difícil falarmos numa relação de amizade e apoio mútuos, quando durante todos anos houve – e ainda há – um desequilíbrio na distribuição de poder.

No Brasil, quando participei do Festival do Rio tive o privilégio de assistir o filme moçambicano “Comboio de Sal & Açúcar”, do realizador brasileiro radicado em Moçambique Licínio de Azevedo. Para a minha surpresa o filme, falado em Português de Moçambique, estava legendado para o Português do Brasil. Achei ridículo!

Quando as novelas brasileiras são transmitidas aqui não assistimos com legendas! É como se o nosso Português fosse um dialecto primitivo imperceptível aos outros falantes da Língua Portuguesa. Não sei se os filmes de Portugal tiveram o mesmo tratamento, por exemplo. Mas de qualquer uma das formas já demonstra uma certa arrogância dos brasileiros ao assistir uma obra cinematográfica moçambicana falada em Português.

O mesmo se pode dizer do exame de Português a que estudantes moçambicanos são submetidos quando se candidatam a bolsas de estudo no Brasil.

Para que serve essa tal Comunidade dos Países de Língua Oficial Portuguesa (CPLP) senão para legitimizar a língua como elo comum a todos? Por que então, há uma hierarquia do Português que se fala?

E outra coisa, se a língua é de facto de todos, nós temos tanto direito de alterá-la e usá-la como melhor acharmos no nosso contexto como qualquer outro falante de outro país. Da mesma forma que o Brasil tem palavras e expressões próprias, que nós tentamos entender, nós também temos as nossas e não sinto que estas sirvam de impedimento para quem vê o filme.

premio-camoes.jpg
O Novo Acordo Ortográfico gerou polémica na Comunidade.

A propósito, é exactamente esse o grande debate em torno do Novo Acordo Ortográfico. O acordo é um acto violento contra os diferentes léxicos dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP).

Supostamente o objectivo do Acordo é facilitar o intercâmbio cultural e científico e ao mesmo tempo ampliar a divulgação do idioma, no entanto é uma forma de nos obrigar a falar como os brasileiros e os portugueses falam, como se a língua deles tivesse se desenvolvido por auto-combustão e não pelos mesmos processos de transformação que acontecem em todas as línguas (neologismos; estrangeirismos; etc).

Na mais recente cimeira da CPLP, realizada no Brasil, falou-se de um projecto de livre circulação dentro da CPLP.

Neste momento o mais urgente é a facilitação na obtenção de vistos de residência e o reconhecimento de diplomas, o que tem sido especialmente difícil para os Portugueses e Brasileiros a viver em outros países.

Para nós africanos habituados a mendigar para obter vistos e acostumados com a nossa condição de cidadãos de segunda classe, isto é um tema antigo que já deixou até de ser urgente.

Não se sabe como irá funcionar ou quais as implicações da livre circulação para aqueles que aderirem ao projecto, mas certamente não irá beneficiar todos de forma igual.

Há muito que a Europa e a América do Sul beneficiam da migração africana, aliás, não sei o que teria sido do Euro sem os imigrantes (e/ou afrodescendentes) a vestir a camisola dos ex-colonos.

 

18994548_401
Os imigrantes africanos em Portugal continuam escondidos – Fonte: DW.com 

 

Hoje Portugal surpreende-se pelo talento proveniente dos PALOP. Já não servimos apenas para trabalhar nas obras ou como empregadas domésticas, mas também somos artistas, engenheiros, médicos, etc.

Com muito esforço as comunidades afrodescendentes começam a ganhar espaço central e com as recentes crises na Europa e América do Sul, os movimentos de migração começam a acontecer em várias direcções. Adicionalmente, as descobertas de riquezas mineiras em países como Moçambique e Angola atraem vários empresários, especialmente aqueles que falam o Português.

É importante que esta nova dinâmica fuja do ideal colonial de irmandade e promova o uso de todas as variantes da mesma língua. Agora queremos o Português na ONU. Mas que Português? O “novo” ou o Antigo?

E acima de tudo… Será que quando o Presidente Moçambicano falar na ONU, os restantes Presidentes da CPLP precisarão de legendas também?