Para fingir orgasmos é preciso ser-se altruísta. É preciso por o outro em primeiro e único lugar, sentir o prazer a fugir-nos pelas mãos e oferecê-lo sempre que possível, em todas as dimensões imagináveis.
Para fingir orgasmos tem de se querer morrer. E matar. É um suicídio lento e mal pensado. Mas necessário.
Para fingir orgasmos o melhor é estar-se embaixo. De olhos fechados. No escuro. Muito escuro. Escuro o suficiente para esconder toda a vergonha e toda a verdade.
Até as melhores atrizes têm dificuldades em fingir orgasmos.
Porque fingir orgasmos requer alguma arte. Encontrar o equilíbrio perfeito entre a vontade de ir embora e a necessidade de alimentar o ego. Um ego qualquer. De quem o ego é pouco importa.
O mais importante é o orgasmo, fingido claro. O orgasmo que em algum momento se quis e agora tanto faz. A bem ou mal, eu tenho de te dar um orgasmo.
Eu tenho de te dar um orgasmo. Eu tenho de te dar um orgasmo. Aliás, eu tenho de te dar dois orgasmos. O meu orgasmo e o teu orgasmo. Eu tenho de te dar dois orgasmos. Eu devo-te dois orgasmos.
Eu devo-te dois orgasmos porque é assim. Sexo faz-se assim. E se tu não tiveres o teu orgasmo então não é sexo. Então eu fiz algo de errado. Então eu não sirvo.
E se eu não tiver o meu orgasmo. Então tu fizeste algo de erro. Então não é sexo. Então tu não serves. Como assim tu não serves. Isso não faz sentido nenhum. Tu és perfeito. Tu és o maior. Tu mereces o meu orgasmo. Eu dou-te o meu orgasmo.
Eu dou-te o meu orgasmo e o teu orgasmo. Toma. Leva os dois orgasmos. Leva o teu orgasmo controlado. Quase mudo. Cínico. O teu orgasmo. Que eu te dei.
E leva também o meu orgasmo. Que eu também te dei. Eu dou-te o meu orgasmo fingido e dissimulado.
Um orgasmo alto. Forte. Que chama a atenção. Um orgasmo com efeitos especiais. Um orgasmo em três dimensões. Tecnologia de ponta. Alta definição. Um orgasmo maior que o próprio orgasmo. Melhor que o verdadeiro.
Sobre a forma como usamos o sofrimento dos outros para nosso próprio prazer e criamos uma verdadeira indústria pornográfica em que exploramos as dores e lutas dos que mais precisam de nós.
A pornografia do sofrimento naturaliza as divergências económicas e sociais que vemos todos os dias através da perpetuação de mensagens codificadas que impõem a responsabilidade à pessoa oprimida.
Estas mensagens têm como objectivo libertar-nos do peso do nosso privilégio, atirando para a vítima todos os encargos para sair da sua situação.
Apelam sobretudo ao nosso sentimento de culpa, o pior sentimento de quem tem privilégios, pois evidencia aquilo que nós temos a mais, que conseguimos não por “mérito”, mas por um conjunto de acidentes felizes.
Com algumas frequência nos cruzamos com imagens virais de pessoas, na sua maioria mulheres, de backgrounds variados fazendo as mais difíceis tarefas do seu dia-a-dia com bebés às costas, crianças de colo ou em outras situações nada favoráveis ao seu sucesso.
Apesar das condições, estas mulheres ultrapassam obstáculos e tentam levar a sua vida da melhor maneira possível, servindo de “ideal de sofredora”.
Usamos estas imagens como bons exemplos a seguir. Gostamos. Partilhamos. Comentamos. E sempre que ouvimos histórias similares nos lembramos “Ah! Não deve ser tão difícil assim, porque eu vi uma foto em que a fulana conseguiu!” ou então “Conheço alguém que passou por isso e muito mais e sobreviveu!”.
Pois é. As pessoas sobrevivem.
Bons sofredores sobrevivem. As pessoas aprendem a sobreviver. A superar. Mas as feridas dessas caminhadas difíceis não desaparecem. Elas existem e elas também merecem reconhecimento.
O sofrimento é algo real e nós nem sempre falamos sobre isso. Preferimos falar da felicidade, de superação e ignoramos as teias manhosas da pobreza e da depressão.
Caímos no erro de olhar para aquele sofrimento como a ordem natural das coisas, sem questionar a sua origem ou possível solução. Nos precipitamos a exibir a alpinista que escalou a montanha sem tentar entender como ela lá chegou ou sequer por que existe uma montanha.
Partilhamos o sofrimento dos outros e perguntamos aos sofredores “Por que é que o vosso sofrimento não é bonito como este? Por que razão vocês não sabem sofrer bem para a foto como esta pessoa? Por que é que o vosso sofrimento me deixa desconfortável?”
O mesmo acontece na Pobreza, quando vemos fotos das crianças com as barrigas inchadas a brincar alegremente no meio de toda a sua pobreza e falta de oportunidades. Olhamos para aquela cena e aplaudimos a coragem que as crianças têm de serem, de facto, crianças apesar do mundo triste que as rodeia.
E perpetuamos assim o ciclo de sofrimento, ou neste caso de pobreza, porque olhamos para casos isolados sem contextualizá-los devidamente. Encaramos aquele sofredor exemplar como a regra do jogo e apelamos aos restantes para que sofram assim:
Não basta sofrer, tem de sofrer de uma forma que não ofenda nem incomode. Sofrer de forma romântica, de preferência sem lágrimas. Chorar? Só se for mesmo necessário e nada de pedir ajuda!
Isso também faz parte da violência a que são expostos os que sofrem.
Usamos da sua vulnerabilidade para a nossa masturbação, ejaculando toda a nossa culpa e o nosso papel na conjuntura que cria essas disparidades nas nossas sociedades.
Os sofredores não precisam de ajuda ou apoio para sofrerem bem, precisam sim de mudanças estruturais que acabem com o seu sofrimento. De pessoas que usem dos seus privilégios para destruir essas montanhas. Para que não haja mais sofrimento.
O Holocausto é provavelmente o genocídio mais famoso da História, que decorreu durante a Segunda Guerra Mundial, em que cerca de 6 milhões de judeus foram assassinatos pelo regime Nazi. Mas e em África, não há Genocídio?
Considera-se Genocídio como o assassinato em massa de um grupo de pessoas com base na sua etnia, religião ou cultura. Num sentido mais amplo, fazem parte de um Genocídio não só o assassinato, de facto, mas também todas as acções de perseguição que violem a integridade física e/ou destruam as bases de sobrevivência desse grupo.
Há quem considere a Escravatura como o maior Genocídio da História da Humanidade, atendendo ao facto de mais de 10 milhões de africanos terem sido traficados para a Europa e as Américas; as suas terras foram roubadas (Colonialismo) e apagou-se a suas Histórias e Culturas, impedindo-os de manter a sua identidade.
Genocídios em África – ou contra africanos – até hoje aparecem como pequenas sombras, sem nunca serem lembrados como foram, com a devida solenidade ou sequer reconhecimento.
Quando em 1904, africanos da tribo Herero se revoltaram contra o roubo das suas terras, gado e mulheres por parte dos alemães, os africanos da tribo Nama juntaram-se. A revolta culminou na Batalha de Waterberg, de onde os africanos saíram derrotados.
Como castigo, a Alemanha massacrou entre 70,000 a 100,000pessoas das tribos Herero e Nama, de onde hoje nós chamamos de Namíbia. Estas pessoas foram levadas para campos no deserto do Namíbe, onde a sua maioria morreu de complicações ligadas à subnutrição e condições de temperaturas extremas. Os seus cadáveres foram depois levados a Berlim para “experiências científicas”.
Apenas recentemente a Alemanha admitiu o crime, devolvendo parte desses esqueletos e prometendo um pedido de desculpas formal (mas sem reparações monetárias para a Namíbia).
Na mesma altura houve também o Massacre de Maji Maji, no qual a Alemanha – sempre a Alemanha! – matou cerca de 75,000 africanos da região daquilo que hoje é a Tanzânia, depois de vários grupos se revoltarem contra a sua presença nos seus territórios. Neste caso, para além dos ataques físicos, os africanos foram também sujeitos a medidas repressivas como a limitação de fornecimento alimentar, através da destruição das suas plantações.
Mas não há Museus ou sequer provas físicas – para além dos esqueletos recuperados e algum arquivo fotográfico- desses acontecimentos.
Durante o processo de descolonização do Quénia, o Reino Unido promoveu uma forte campanha contra a tribo Kikuyu, pois eram estes os maiores oponentes ao regime imperialista.
Movidos pelo desejo de controlarem os seus próprios destinos e a realidade de uma independência próxima, em 1952 os Kikuyu mobilizaram forças contra a ocupação britânica naquilo que ficou conhecida como a Revolta Mau Mau.
Em resposta, a Grã-Bretanha declarou estado de emergência e começou uma operação forte de ataque a todos aqueles que se presumia fazerem parte da equipa de “rebeldes”.
Campos de detenção foram instaurados e assim, instalou-se uma ordem na qual era legal usar a violência extrema como meio de dominação. Até 1960, data em que os campos foram encerrados, cerca de 90,000 quenianos foram executados, mutilados ou torturados pelas forças britânicas.
Só em 2003 a Grã-Bretanha concordou em pagar reparações a alguns sobreviventes. Depois de anos de dor, trauma e luto por tudo o que aconteceu, muitos deles já idosos serão lembrados apenas pelos seus depoimentos em tribunal.
Mas europeus à parte, genocídios intra-africanos também ocorreram.
O mais gritante é talvez o Genocídio do Ruanda, em que em apenas 100 dias, militantes radicais da tribo Hutu, liderados pelo grupo nacionalista Parmehutu perseguiram, torturaram e assassinaram entre 500,000 a 1,000,000 de Tsutis. Sendo que, mais de 200,000 refugiaram-se em países vizinhos nesse período.
Embora divergências tribais sempre tivessem havido entre os dois grupos, foi sobretudo depois da descolonização e durante a luta pelo poder político que estas diferenças ganharam forma institucionalizada.
Ao contrário dos restantes casos, no Ruanda o genocídio foi documentado via rádio, televisão e telefone. A comunidade internacional, no entanto, fechou os olhos e viu perto de 20% da população ruandesa a ser assassinada, ao vivo e a cores.
O massacre terminou apenas quando a Frente Patriótica do Ruanda, partido com apoio dos Tsutsis conseguiu derrubar o regime do Parmehutu. Nesse período mais de 2 milhões de Hutus fugiram do país, temendo retaliação. Até hoje decorrem julgamentos relacionados ao crime.
Na República Centro-Africana decorre neste momento algo que pode muito em breve aparecer nos nossos livros de História como um dos piores genocídios em África. Não pela dimensão do país, tão pouco pelo número de mortos, mas pelas implicações que tem.
Quando o grupo militar Seleka, muçulmano, foi derrubado em 2014 pelo grupo rebelde Anti-Balaka, cristão, através de um golpe de Estado (o 5o. em 56 anos de independência), uma forte perseguição à minoria islâmica começou.
Desde então, mais de 800,000 pessoas já foram deslocadas e mais de 400,000 refugiaram-se em outros países fugindo da fúria das armas cristãs sobre o Alcorão. A crise na República Centro-Africana é das desgraças mais ignoradas da História recente.
No centro destas questões misturam-se questões religiosas, culturais, étnicas e sobretudo de recursos. É o caso do Darfur, onde mais de 500,000 pessoas já morreram. Da Somália considerada como o pior desastre humanitário do séc. XXI. Do Congo, onde em 2006 apenas, mais de 25,000 violações foram reportadas.
Mais de 5 milhões já morreram no Congo, um recorde desde a Segunda Guerra Mundial
Mas há um factor comum a todos estes casos: a História repete-se (quase) de forma cíclica. Por não haver um registo, um reconhecimento e por tabela, responsabilização, vive-se um eterno Presente.
Rebeldes contra rebeldes contra civis contra mulheres contra homens contra crianças contra igrejas contra diamantes contra terras contra todos. Todos eles sem memória. Sem Passado.
Precisamos também de construir Museus para os nossos genocídios. Conversar com os nossos pesadelos. Dar cara às nossas desgraças. Chorar os nossos horrores. E nesses processos quem sabe, construir um Passado que sirva para pacificar o Futuro.
O papel das Igrejas como centros de submissão de povos, estabelecendo controle sobre o imaginário divino para facilitar então o domínio político e social.
Durante toda a História da Humanidade, vários sistemas de comunicação com o Divino foram estabelecidos. E de uma forma ou de outra, esses sistemas criavam sempre uma ordem que devia ser respeitada, sobre a ameaça de consequências catastróficas para os desviantes.
As religiões sempre estiveram ligadas ao poder. Foi com essa desculpa de evangelizar os povos de todos o mundo que as nações ocidentais invadiram continentes e colonizaram nações.
Para os países colonizados, essas feridas até hoje se fazem sentir.
A religião sempre foi utilizada para entrar na mente de uma pessoa, pois para escravizá-la ou colonizá-la é preciso primeiro que ela o permita. E isso é conseguido através do ensino de um sentido de inferioridade.
Seria necessário, para durante séculos dominar um povo inteiro, eliminar qualquer fé que esse povo teria nele próprio e nos seus Deuses. Os Deuses que os protegiam nas grandes batalhas, que os alertavam para os perigos do Futuro; os Deuses para quem esses povos eram importantes e especiais foram então eliminados.
Através da demonização das religiões de matriz africana e da perseguição dos seus praticantes, bem como o baptizado forçado de africanos escravizados ou de qualquer africano que quisesse ter mais oportunidades, aos poucos os povos colonizados esqueceram-se dos seus Deuses.
Passaram adorar um Deus branco. Anjos loiros e de olhos azuis. Profetas de cabelo liso e longo. Foi assim que os colonizadores romperam por completo a ligação que os povos africanos tinham com o Divino e conseguiram, por muito tempo, saquear as suas terras e riquezas.
Mais recentemente, com a febre das igrejas neopentecostais, uma nova Cruzada começou a ser feita.
Hoje em dia os soldados de Cristo já não andam a cavalo nem chegam de navio. Aparecem com os mais recentes modelos de automóveis e andam bem vestidos. Aparentam uma vida de sucesso, com uma família perfeita e um comportamento exemplar.
Segundo a doutrina neopentecostal, a prosperidade na vida de um crente é proporcional à sua entrega a Deus. Assim sendo, a marca da plenitude da fé é muita saúde e aptidão física, estabilidade emocional e prosperidade material.
Não é de admirar que estas Igrejas, a destacar a IURD, têm nos seus crentes pessoas capazes de entregar tudo o que conseguem com o suor do seu trabalho em troca de um pedaço de terra no Céu.
Em África, e mais precisamente em Moçambique, esta linha de pensamento não está muito longe das religiões tradicionais baseadas na ligação histórica aos antepassados. De acordo com a crença tradicional, doenças e azares resultam de maldições e pragas lançadas pelos antepassados insatisfeitos.
Em muitos países infestados por guerras; doenças; fomes e catástrofes naturais, a sociedade como um todo vê-se perdida. As pessoas são deslocadas e abandonam os seus locais sagrados; perdem-se das suas famílias e da sua história e nesses processos, desligam-se também das suas divindades, vivendo com pouca paz espiritual.
Os traumas, dramas e depressões dessas desgraças são presenças constantes no nosso quotidiano, criando um ambiente de desespero e incredulidade generalizados.
Quando cruzamos estes factores, torna-se evidente o sucesso das Igrejas Neopentecostais em Moçambique e em outros países cujas religiões de base se guiam por esse pensamento.
A tudo isso, acrescentam-se ainda as dificuldades económicas e financeiras da vida contemporânea: não tenho dinheiro para cobrir as minhas necessidades básicas; vivo numa casa precária; tenho um emprego que não me satisfaz; os meus filhos não têm o que vestir; etc. Essa crise material, quando se depara com a crise espiritual cria condições para o sucesso dessas Igrejas.
Vejamos que, por exemplo, nas religiões de matriz africana até os locais sagrados são simples e rudimentares, muitas vezes debaixo de árvores e no meio da natureza. Os líderes religiosos usam roupas feitas de materiais baratos e falam línguas ditas “primitivas”, comunicando-se com o Divino através de conchas, ossos ou mesmo a água.
Enquanto essas Igrejas têm templos grandes e robustos, onde se falam línguas célebres no microfone. Os líderes usam fatos e roupas bem vistosas. Andam de carro e vivem em verdadeiros palacetes. Até os seus rituais são mais compostos e sofisticados.
Então eu pobre; desesperada; doente; com fome; com sede; sem tecto; onde vou pedir riqueza?
Por muitos anos foi-nos negada a nossa forma de ver, sentir e falar com Deus. E nós crescemos sem uma imagem sagrada de nós mesmos, sem um sentido positivo das nossas religiões e completamente desligados das nossas raízes.
Curiosamente, alguns países ocidentais estão a resgatar as suas ligações espirituais que ocorrem fora dos padrões da Igreja. Aquilo que chamavam de animismo começaram também a incluir nos seus cultos.
Mas nós negamos essa presença, apesar de nos usarmos de alguns rituais quando nos convém, pois continua no nosso inconsciente a sua veracidade.
A nossa História colectiva foi apagada e com ela a nossa Fé. Essa vulnerabilidade torna-nos superfícies altamente permeáveis, capazes de facilmente adoptar qualquer doutrina de pensamento sem questionar a sua validade para o nosso contexto.
No início chegaram os Árabes, passámos a chamar-nos Zeinab, Mohamed, Catija, como o Profeta e a sua família. Depois invadiram-nos os Portugueses e aos nossos filhos demos nomes como Francisco, Miguel, Maria, como se chamam os seus santos e agora vêm os Brasileiros, e já surgiram os Enzo, Caíque, Nicole… Quando é que os nossos filhos terão os nossos nomes? Nomes da nossa História? Dos heróis? Dos nossos antepassados?
Tudo o que envolve sexualidade ainda é coberto por um nevoeiro espesso composto por tabus e mitos que nos impedem de ter relações saudáveis com os nossos corpos e com os corpos dos outros.
Para além dos riscos de saúde associados à falta de conhecimento sobre sexo, existe também toda uma lavagem cerebral feita para controlar os corpos das mulheres e com isso perpetuar slut-shaming e victim-blaming.
No que toca à sexualidade feminina, é ainda mais difícil um debate construtivo e educativo que promova comportamentos sexuais saudáveis, já que se promove sobretudo a abstinência e a manutenção da virgindade.
Mas afinal, o que é virgindade?
1. Virgindade não existe
Não existe. Virgindade é um termo heteronormativo que classifica sexo apenas como a penetração, excluindo todo o sexo que ocorre longe de formas fálicas.
Há várias formas de contacto sexual que não envolvem um pénis.
E agora, vem a pergunta: E o hímen? Pois é, o hímen! O hímen pode-se romper por uma série de factores como exercício físico ou masturbação; pode se romper na trigésima relação sexual e pode até nem existir! Se considerarmos apenas o rompimento do hímen, então quem não tem hímen permanece virgem? Os homens não têm virgindade?
Outra pergunta: E o tamanho da vagina não muda?
Claro que, sendo a vagina um músculo, a sua elasticidade depende da quantidade de esforço e exercício que lhe for pedido. E assim sendo, pouca actividade sexual significa uma vagina menos elástica que pode dar a sensação de contracção.
Para além do conceito de virgindade estar intimamente ligado à supressão da sexualidade feminina, apenas fomenta a ideia que pénis têm poderes mágicos de transformação.
A ideia que a desvirgindade muda o nosso corpo totalmente, de forma repentina e completamente irreversível é falsa.
2. Ninguém tira a virgindade de ninguém
É sempre vendida a Primeira Vez como um momento memorável e cheio de efeitos especiais. E acima de tudo, com alguém que “valha a pena” porque essa pessoa terá para sempre uma parte de nós e ficará para sempre na nossa memória.
Mas a verdade é que a Primeira Vez nem sempre é assim. Não tem de ser assim. O que deve haver é consentimento e vontade de ambas as partes. Dali para frente vai ser sempre melhor, vamos aprender mais e descobrir mais.
Supostamente, para nós, mulheres, o início da vida sexual, marcado pela Primeira Vez tem de ser milimetricamente avaliado e considerado, visto que estaremos a dar algo do nosso corpo que jamais será recuperada.
A percepção que virgindade é algo que se perde, reforça o mito de pureza da mulher, segundo o qual o seu corpo se desvaloriza e desvirtua sempre que for tocado de forma sexual.
Mas a verdade é que a relação sexual é a dois, consiste numa troca. Ninguém tira nada de ninguém – até porque não se pode tirar algo que não existe!
Então não se perde nada, só se ganha.
3. Desvirgindade não é um evento só
Assumindo virgindade como a acumulação de experiência sexual, esse fenómeno não ocorre de uma única vez.
A desvirgindade, nesse sentido, é um processo. Isto é, deixar de ser virgem envolve toda a descoberta do corpo e da sexualidade, acontece em etapas através de várias experiências sexuais.
E fazem parte desse processo, todas as formas de expressão sexual, começando pela própria masturbação.
Nessa perspectiva, somos todos eternos virgens. Estamos todos em constante crescimento e descoberta no que toca à nossa sexualidade e em busca de mais formas de ter e dar prazer.
Nude Woman Reclining, Seen from the Back by Vincent Van GoghAs mulheres devem ser ensinadas a tomar decisões sobre os seus corpos sem julgamento nem vergonha.
É preciso que haja uma abolição do conceito de virgindade, e com isso, por associação, uma redefinição das ideias de consentimento, de prazer e de saúde sexual e reprodutiva.
Num 16 de Junho, na África do Sul, dia em que se comemora o Dia da Juventude em homenagem ao Soweto Uprising, uma adolescente branca se suicida em casa, numa última selfie em forma de live stream.
Ao contrário do que é habitual vermos nas grandes telas sobre a África so Sul, este filme não retrata o Soweto. O Johannesburgo que se vê no filme “Necktie Youth” mostra toda a vida cosmopolita que ali se vive.
Na era do espectáculo, as juventudes branca e negra se misturam, em inglês. Entre cada grupo uma língua diferente: para uns o afrikaans, para outros o zulu, e todas as outras distâncias que os separam.
Em convívios e namoros, a geração “Born Free”, nascida depois do apartheid desfruta das suas liberdades (supostamente) longe do preconceito racial e das barreiras institucionais que antes os separavam.
Mas será isso verdade?
Numa das cenas que mais mexeu comigo, um rapaz negro é largado no meio da rua depois de ter uma overdose de cocaína em casa de um amigo branco. Um casal interracial abraça-se e namorisca com carinho num parque público em plena luz do dia. Mais tarde, uma rapariga branca embriagada é violada por um amigo negro no meio de uma festa.
Parece muita cor, mas o filme é todo a preto e branco.
O suicídio de Emma chega como surpresa para todos os eus amigos. Tão submersos vivem nas suas existências supérfluas, sem causas para defender para além das suas vontades egoístas, que são incapazes de reconhecer a solidão e desespero em que vivem.
Essa é sem dúvida, a maior distância de todas: A do convívio entre eles sem saberem sequer os seus maiores medos e depressões.
A fuga? Drogas; álcool; sexo.. E por fim, a morte. A derradeira chave para a liberdade, e neste caso também a fama.
A fuga para um final feliz, embora sem aplausos. Mas com a atenção que desesperadamente precisamos, enfim.
Quantos de nós não vivemos assim também?
Presos em amizades e amores que não nos preenchem emocionalmente. Sem a possibilidade de redenção, a morrer por dentro de uma insatisfação crónica sem causa aparente.
Raiva, rancor, ausência, trauma, todas essas energias que carregamos diariamente e nos impossibilitam de estabelecer laços sinceros e profundos com aqueles ao nosso redor.
Vicissitudes de uma Geração Livre, mas ainda escrava do seu Passado. Sem paixões nem idealismos, apenas todas as possibilidades dessa tal Liberdade que não nos leva a lado nenhum.
Em Moçambique a poligamia não está legalizada e nem constitui crime. É algo mais ou menos aceite, com ou sem amor.
Quase sempre que nos referimos à poligamia para definir na verdade “poliginia”, que se caracteriza por uma relação entre um homem e várias esposas. E quase nunca se fala em “poliandria”, uma relação de uma mulher e vários esposos. Este debate foi levantado aquando da discussão da (nova) Lei da Família em 2004, na Assembleia da República.
Aquilo que é mais frequente na nossa sociedade – como em qualquer sociedade patriarcal é a poliginia. Encaramos esta realidade como algo normal, pois crescemos vendo tais situações nas nossas casas, nas casas dos nossos vizinhos, dos nossos tios, primos, etc.
Num país como Moçambique famoso pela variedade de religiões, povos e línguas é de admirar que se fale na poligamia apenas nestes termos. É quase impensável falar de uma relação entre uma mulher e vários homens como algo legítimo. Por que será? Cheira-me a machismo…
Muitos vão invocar factores ‘culturais’, mas a verdade é que a cultura não é algo estático e imutável. A cultura acompanha o tempo e o espaço. Motivo pelo qual uma família moçambicana a viver na África do Sul adopta alguns hábitos da cultura sulafricana, e uma família moçambicana há 30 anos atrás não vivia como uma família moçambicana vive hoje. Aliás, o próprio conceito de família já mudou!
Ngungunhana, o último monarca do Reino de Gaza, com 7 das suas centenas de mulheres em Manjacaze. Séc. XIXFalemos então de factos:
É facto que existe uma valorização dos filhos em Moçambique, tanto é que a taxa de fertilidade é de 5,27 crianças por mulher. Numa relação poligâmica, um homem com várias mulheres consegue gerar muitos mais filhos, por isso é mais respeitado e considera-se com mais “riqueza”.
Outro facto é que em muitas relações poligâmicas, especialmente as que ocorrem à margem da lei, nas comunidades rurais, as próprias esposas concordam e participam activamente na manutenção desta ordem.
Mesmo assumindo a legitimidade e respeito pela agência pessoal destas mulheres, deve-se olhar para o sistema onde esta agência pessoal está inserida. Cada indivíduo faz as suas escolhas dentro de uma rede de opressões e privilégios que delimitam os seus sonhos.
Sabemos que aquela imagem das esposas-irmãs que há muito nos tentam vender não corresponde à vasta maioria das famílias poligâmicas. Aliás, muitas vezes as próprias práticas sócio-culturais criam condições que fomentam o ódio e ressentimento entre as mulheres.
Mesmo entre os filhos, é só perguntar a qualquer um que seja filho de uma segunda ou terceira esposa, existem distinções de tratamento, condições e oportunidades. Este clima acaba impedindo que haja uma relação saudável e de harmonia entre os irmãos.
Poucas são as mulheres que aceitam deliberadamente esse estilo de vida. Para as primeiras esposas, a poligamia é uma forma de manter relativo prestígio e ganhar algum poder sobre as decisões tomadas pelo marido ao arranjar a segunda esposa.
Já para as segundas, o estilo de vida oferece uma certa segurança para si e para os seus filhos, saindo do anonimato de uma relação em que é apenas a “amante”.
Há factores económicos e de poder que se sobrepõem à ideia de se considerar, de facto, amar.
Um elo é comum a todas: a pré-aceitação da fragilidade do sexo masculino face à ameaça de uma outra mulher por perto. A aceitação da irracionalidade do homem e da traição como uma fatalidade à qual não se pode fugir, ficando-se apenas pela salvaguarda da relação “legítima”.
Por isso, embora eu não questione a escolha a nível individual, eu sou obrigada a observar, num todo, como um determinado grupo de mulheres fez essa escolha. O que caracteriza esse grupo? Que opções estavam disponíveis no momento da escolha? De que ferramentas esse grupo dispõe para contestar a ordem em vigor?
E sobretudo: Por que é que essas mulheres que se dizem polígamas não praticam a poliandria, apenas a poliginia?
Não podemos ignorar a vulnerabilidade que estas relações trazem para as mulheres que nelas participam.
Se por um lado, a poligamia surge como uma forma de controlar os danos causados pelo adultério, por outro, traz consigo todas as certezas da superioridade do homem como prémio máximo para qualquer mulher: primeira, segunda ou décima.
Para além dos óbvios perigos de saúde, num país como Moçambique com uma das maiores taxas de HIV do mundo, estas mulheres estão completamente desprovidas de protecção legal.
Ao abrigo da Lei da Família, apenas a esposa que tiver o matrimónio registado no Cartório, ou conseguir provar a união de facto, que geralmente é a primeira, está protegida. Há um vazio no que toca a relações poligâmicas relativamente ao direito de sucessão, herança e transmissão de bens para as restantes viúvas.
Os filhos poderão ser dados como herdeiros, mas isso não os salvará dos olhares de desprezo e comentários desagradáveis nas suas famílias e comunidades.
É fácil falar em poligamia quando isso significa acesso livre ao corpo de várias mulheres. Quando é “poli” a disponibilidade sexual e o aparente respeito que lhe é conferido. E amor, há?
A primeira vez que a menina menstrua é um momento de viragem, em que o mundo parece virar-se contra nós e ao mesmo tempo exigir mais.
Quando era mais nova e ouvia as minhas primas a falarem da sua menstruação, eu queria fazer parte desse mundo. Sempre que conversávamos sobre relacionamentos – da única forma que meninas entre os 10 e os 15 anos o sabem fazer – elas me diziam “As coisas não são bem assim, tu ainda és criança. Quando tiveres o período vais entender.”.
Parecia que todas as minhas opiniões eram inválidas pelo simples facto de eu não menstruar todos os meses como elas. Eu achava que o período era a única forma de dar legitimidade àquilo que pensava, de mostrar que eu era uma menina madura e com ideias boas o suficiente para serem ouvidas.
Na manhã em que vi a minha primeira gota de sangue eu tinha 11 anos e estava prestes a tomar banho para a escola. Fiquei muito feliz, pois finalmente teria o “estatuto” que tanto queria.
Mas a verdade é que depois desse dia tudo mudou.
Eu já não podia mais brincar como as outras meninas que não tinham o período. Não podia ir à praia ou à piscina sempre que me apetecesse. Tinha de usar umas fraldas estranhas sempre que estivesse período. E pior de tudo, tinha de esconder essa realidade de todos. À excepção da minha mãe, ninguém podia saber que eu estava menstruando.
Com a minha mãe aprendi a fazer a tabelinha e prever os dias de menstruação para nunca ser surpreendida. Na escola nos ensinaram os órgãos genitais e como o corpo humano funcionava.
Mas a vergonha e nojo de ter sangue a sair de mim mensalmente fui descobrindo sozinha, despreparada. Ninguém me disse que era bonito. Ninguém me disse que podia ser normal ou até mesmo divertido. Era sempre algo feio, estranho.
Depois fui aprendendo que muitas das minhas amigas, tal como eu, não podiam fazer certas coisas quando estavam menstruadas.
Coisas normais e que lhes davam prazer, mas que pelo simples facto de elas estarem “impuras” durante esses dias do mês não podiam mais fazer. Desde simples tarefas domésticas como cozinhar, até certos rituais religiosos.
Outros mitos foram surgindo ao meu redor, num ambiente de secretismo, sem muita ciência por detrás que pudesse explicar ou segurança para perguntar a outras pessoas: Mulher não pode ficar no secador quando vai ao cabeleireiro de período; mulher não pode ficar muito perto de homens senão aumenta o fluxo; mulher não pode ir a cerimónias fúnebres; não pode ter relações sexuais; etc.
Todo o estigma à volta da menstruação afasta muitas mulheres de elas mesmas.
Faz com que repudiem o seu próprio corpo e todas as maravilhas que ele é capaz de fazer.
Foi apenas na idade adulta em que comecei a ficar mais confortável com a minha própria menstruação. Perdi o medo de esconder que era uma mulher com um útero funcional e um ciclo de 28 dias.
Aprendi a admirar como este corpo é capaz de se manter de pé, de me permitir sorrir e chorar, mesmo a jorrar sangue durante dias. Este corpo consegue amar e ser amado, mesmo depois de tirar lágrimas de sangue por dentro. Este corpo é palco de um espectáculo sangrento todos os meses e ainda não desistiu de viver.
Patrice Lumumba foi o primeiro político democraticamente eleito na República Democrática do Congo ao tornar-se Primeiro-Ministro. Apenas 81 dias depois de fazer História foi assassinado em circunstâncias duvidosas com o envolvimento da Bélgica.
Lumumba foi um dos fundadores do Movimento Nacional Congolês (MNC). Acreditava veemente na independência total e inalienável do Congo e na capacidade do povo congolês de gerir as suas infraestruturas, pessoas e sobretudo recursos.
Ao chegar ao poder, em 1960, Lumumba fez questão de se posicionar como um Pan-Africanista interessado em apoiar a luta pela auto-determinação de outras Nações Africanas. A sua inabalável determinação e carácter incorruptível tornaram-no num alvo a abater pelas forças ocidentais, que viram os seus interesses ameaçados.
Poucos meses depois das eleições, conflitos internos dividiram o Congo em três partes, governadas por líderes distintos (com aliados distintos) e rivais. A situação era insustentável e Patrice Lumumba pediu a intervenção da Organização das Nações Unidas, que nada fez senão olhar de longe o declínio de um Congo próspero, como prova da incompetência dos Africanos de se auto-governarem.
A 17 de Janeiro de 1961, aos 35 anos, depois de ter sido preso e sujeito a tortura, Lumumba foi morto a tiros com o conhecimento dos EUA e apoio da Bélgica. O seu corpo sem vida foi ainda esquartejado e queimado com ácido, de forma a eliminar quaisquer provas do crime.
Hands tied behind his back, deposed Congo ex-premier Patrice Lumumba (center) leaves a plane at Leopoldville airport, Dec. 2, 1960, under guard of Congolese soldiers loyal to Col. Joseph Mobutu. (AP-Photo/File)
A sua trágica morte é considerada por muitos historiadores como o mais importante assassinato do séc. XX, tendo em conta a importância que teria para o futuro do Congo e para descolonização/ democratização de África nos anos posteriores, bem como para o desenrolar da Guerra Fria e desenvolvimento de armas nucleares.
Hoje, em 2016, assistimos a mais uma edição do Euro: a maior festa de futebol da Europa. Este ano em França como foi também em 1960, na primeira edição.
O que é que a História do revolucionário congolês tem a ver com o maior espectáculo de futebol da Europa?
Curiosamente, o Euro tem uma longa história de protestos de motivação política.
Na primeira edição do campeonato, a Inglaterra, a Itália, a Alemanha Ocidental e os Países Baixos retiraram-se da competição por se oporem à participação da União Soviética. A Espanha abandonou nos quartos de final, também por não acreditar numa festa Pan-Europeia com a URSS, que, by the way, levou a taça para casa.
Na edição seguinte, a Grécia abandonou ao ter de jogar contra a Albânia, com quem ainda estava em guerra. E mais uma vez, a Alemanha Ocidental recusou-se a participar.
Já em 1992 a Jugoslávia foi impedida de jogar pela própria UEFA por estar a passar por uma guerra civil.
Não é estranho todas estas Nações se terem calado face às atrocidades que aconteciam em África?
Ironicamente, e como era de se esperar, à medida que as ex-colónias atravessaram momentos de tensão e conflito, a Europa recebia cada vez mais emigrantes africanos.
Mesmo depois de pegarem em armas para se livrarem do domínio belga no seu território, os Congoleses viram-se obrigados a pedir socorro à Bélgica depois da morte de Lumumba.
Com o tempo, uma nova classe de Africanos emergiu, mais consciente e preparada. Talvez até talentosa, tal como sonhava Lumumba, mas longe de África. Na Europa.
E hoje vemos no relvado do Euro a herança do (des)colonialismo em África.
A selecção da Bélgica, destaca-se por ser das que mais descendentes africanos tem na sua equipa: um total de 6, sendo 5 do Congo e 1 do Senegal (colónia francesa).
Irmãos Jordan e Romelu Lukaku de descendência congolesa a representar a selecção da Bélgica.
E por falar em França, a sua selecção tem 9 descendentes de imigrantes africanos. Na sua maioria de países francófonos, como Senegal e Mali.
Em Portugal também há traços desse fracasso nos processo de democratização das suas ex-colónias. E foi esse fracasso que ajudou na manutenção da dependência entre colono e colonizado.
A manutenção de uma relação doentia baseada num sentido de inferioridade reforçado vezes sem conta para sustentar o status quo. Nas palavras de Lumumba: “Nós sabemos os objectivos do Ocidente. Ontem eles dividiram-nos baseando-se na tribo, no clã e na vila. Hoje, com a África a libertar-se, eles querem dividir-nos com base em Estados (…) para perpetuar o seu domínio.”
Por isso um Congolês nunca amará mais Portugal que a Bélgica. Um Moçambicano nunca desejará ser mais do Reino Unido que de Portugal. E um Ganês nunca vai admirar mais a Bélgica que o Reino Unido. E por aí adiante.
Somos reféns do nosso opressor e da nossa opressão.
Quando eu era criança, percebia que fora do contexto da religião e do romance, o amor era visto pelos adultos como um luxo. A luta pela sobrevivência era mais importante do que o amor.
Somente as pessoas mais velhas – nossas avós e bisavós, nossos avôs e bisavôs, nossos padrinhos e madrinhas -pareciam dedicadas a arte e ao ato de amar. Elas nos aceitavam, cuidavam de nós, nos davam atenção e principalmente, afirmavam nossa necessidade de experimentar prazer e felicidade. Eram carinhosas e o demonstravam fisicamente.
Nossos pais e sua geração, que só pensavam em subir na vida, geralmente passavam a impressão de que o amor é uma perda de tempo, um sentimento ou um ato que os impedia de lidar com coisas mais importantes.
Quando eu dava aulas sobre o livro Sula, de Toni Morrison, reparava que minhas alunas se identificavam com um trecho no qual Hannah, uma mulher negra já adulta, pergunta a sua mãe, Eva: “Em algum momento você nos amou?” E Eva responde bruscamente: “Como é que você tem coragem de me fazer essa pergunta? Você não tá aí cheia de saúde? Como não consegue enxergar?” Hannah não se satisfaz com a resposta, pois sabe que a mãe sempre procurou suprir suas necessidades materiais.
Ela está interessada num outro nível de cuidado, de carinho e atenção. E diz para Eva: “Alguma vez você brincou com a gente?” Mais uma vez, Eva responde como se a pergunta fosse totalmente ridícula: Brincar? Ninguém brincava em 1895. Só porque agora as coisas são fáceis, você acha que sempre foram assim? Em 1895 não era nada fácil. Era muito duro. Os negros morriam como moscas… ‘Cê acha que eu ia ficar brincando com crianças? O que é que iam pensar de mim?
A resposta de Eva mostra que a luta pela sobrevivência não significava somente a forma mais importante de carinho, mas estava acima de tudo. Muitos negros ainda pensam assim. Suprir as necessidades materiais é sinônimo de amar. Mas é claro que mesmo quando se possui privilégios materiais, o amor pode estar ausente.
E num contexto de pobreza, quando a luta pela sobrevivência se faz necessária, é possível encontrar espaços para amar e brincar, para se expressar criatividade, para se receber carinho e atenção. Aquele tipo de carinho que alimenta corações, mentes e também estômagos. No nosso processo de resistência coletiva é tão importante atender as necessidades emocionais quanto materiais.
Não é por acaso que o diálogo sobre o amor no livro Sula se dá entre duas mulheres negras, entre mãe e filha. Sua relação simboliza uma herança que será reproduzida em outras gerações. Na verdade Eva não alimenta o crescimento espiritual de Hannah, e Hannah não alimenta o crescimento espiritual de sua filha, Sula.
Mas Eva simboliza um modelo de mulher negra “forte”, de acordo com seu estilo de vida, por sua capacidade de reprimir emoções e garantir sua segurança material. Essa é uma forma prática de se definir nossas necessidades, como naquela canção de Tina Turner: “O que é que o amor tem a ver com isso?”