Precisamos de falar sobre a violência

Fulano espanca mulher até à morte. Sicrano é encontrado esfaqueado no seu carro. Mulher e filhos são mortos por ex-marido ciumento. Grupo de homens viola jovem vizinha.

Isto são apenas recortes de várias notícias e reportagens que já são habituais nos nossos jornais e revistas. Coisas que ocorrem com tanta frequência que de repente deixam de chocar e passam a fazer parte do nosso dia-a-dia.

É normal. Como sociedade concordamos que isto é o que temos e que pouco ou nada podemos fazer para mudar a realidade.

O que estará a acontecer connosco que está a permitir que a violência se normalize? O que estaremos a fazer para permitir que o abuso verbal, físico e/ou sexual continue a acontecer na nossa sociedade?

Vários pensadores; críticos; filósofos; sociólogos e outros investigadores sociais já se debruçaram sobre o tema. Estatisticamente falando, a violência como um todo é levada a cabo por homens. Independentemente do contexto social; económico; étnico; incluindo faixa etária e nível de escolaridade; os crimes mais violentos são na sua maioria cometidos por homens.

Porquê? Que relação existe entre violência e masculinidade?

Serão todos os homens violentos? Não. Mas todos os homens são criados na mesma sociedade patriarcal que exige deles um comportamento violento. Todos os homens são criados para acreditarem que têm acesso ilimitado à violência para reforçar o seu poder. Todos os homens são socializados para acreditar que o uso da violência está acima de qualquer direito ou dever que possam ter na sociedade.

Há um padrão de violência aí que não deve (nem pode) ser ignorado.

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O homem tende a cometer violência contra homens e mulheres para afirmar ou reforçar a sua masculinidade. Fonte: Rede HOPEM

O conceito de masculinidade está intimamente ligado à força e à violência. Temos aquela imagem do homem ideal caçador; protector da família; provedor; forte; atlético; disposto a tudo para defender os seus ideais. Esquecemos que esse homem ideal é capaz de coagir; forçar; manipular; violar; abusar; se fizer uso (ou ameaçar o uso) da violência.

Nos casos de violência doméstica acrescenta-se aqui uma série de estruturas e condutas aceitáveis que facilmente podem sair do limite do saudável.

Há uma glamourização de comportamentos abusivos como o ciúme excessivo; a possessão disfarçada de preocupação; a própria dinâmica de poder entre o casal em que da mulher espera-se submissão e do homem dominação; entre outros sinais que podem por si indicar que o relacionamento não é saudável.

Por outro lado, nós como mulheres somos socializadas para ter uma atitude de auto-sacrifício e resignação face à ‘natureza’ e manutenção dessas dinâmicas nas relações.

Acrescentamos ainda a este “conto de fadas” as pressões sociais e expectativas associadas ao casamento e todo o estigma em torno do divórcio.

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A violência doméstica é normalizada. Fonte: A Verdade

Quando falamos em criminalidade e violência geralmente vemos como cara das estatísticas mulheres pobres, de bairros suburbanos ou zonas rurais com pouca instrução escolar. Olhamos para essas mulheres como as vítimas perfeitas, já que vivem desprovidas de conhecimento sobre os seus direitos e sem apoio para saírem das relações abusivas em que se encontram.

Mas a verdade é que a violência doméstica é um fenómeno que afecta famílias de todos os backgrounds sociais; económicos; étnicos; etc.

No ano passado, a filha de Graça e Samora Machel, Josina Machel, chegou-se à frente relatando que tinha sido vítima de um relacionamento abusivo, tendo perdido a visão no olho direito como resultado de uma agressão que sofreu pelo parceiro.

Esta semana nos chocou o assassinato de Valentina Guebuza, filha do ex-Presidente da República Armando Guebuza, baleada pelo seu próprio marido.

Seria fácil apontar estes como casos isolados, mas infelizmente não é assim. Estes chamam à atenção por mostrarem mulheres emancipadas financeiramente, de famílias privilegiadas, que vivem em locais seguros e com todos os serviços à sua disposição mas que ainda assim não escaparam às teias manhosas da violência doméstica.

A violência doméstica pode acontecer com todo mundo. Acontece com mulheres de diferentes raças, de diferentes níveis educacionais, de diferentes classes sociais. Olhe para mim. Eu perdi um olho. Há tantas outras que perdem a vida. Pelo menos eu pude contar a minha história.Josina Machel

A verdade é que precisamos desses casos mediáticos e sensacionalistas para apontar o dedo à monstruosidade do mundo e esquecer que ela existe nas nossas casas, nas nossas relações e em nós mesmos. Precisamos desse sensacionalismo para validar que esses monstros são desconhecidos e não os nossos pais, primos, vizinhos, colegas.

São situações complexas e demasiado delicadas e por isso é mais fácil olhar desta forma simplificada em que as coisas são pretas e brancas. Ninguém quer olhar para si mesmo e reconhecer padrões de violência, mas eles estão lá.

Nos jornais colocam-nos os agressores como homens sui generis sem estrutura emocional para viver na nossa sociedade. Nós, como espectadores, esperamos desse criminoso toda a crueldade e frieza que possa colocá-lo numa ‘caixa’ catalogada como “monstro/ psicopata/ sociopata/ doente/ etc”.

E por sua vez, a esse criminoso atribuímos a tal vítima perfeita. Precisamos de uma vítima indefesa e frágil para nos colocarmos acima dessa posição e por isso, acima da situação como se algo idêntico apenas acontecesse longe da seguranças das nossas vidas.

Depois de todas as capas de jornais; debates online; programas de TV; reportagens e afins, voltaremos ao nosso conformismo. Voltaremos a acreditar na inocência da violência burguesa.

Quando os nossos filhos baterem nos colegas, diremos que é normal por serem rapazes. Quando as nossas filhas forem assertivas, diremos para elas serem menos intimidantes. Quando ouvirmos gritos de discussões nas portas ao lado, viremos as costas porque “entre marido e mulher não se mete a colher”. E continuaremos na nossa vida até reaparecer um caso idêntico para nos puxar à realidade.

 

 

 

 

 

Eu acredito no divórcio

Muitas pessoas encaram o aumento das taxas de divórcio com o fim do matrimónio. E se olharmos por outra perspectiva?

Os motivos que levam ao matrimônio são diversos, e nem sempre o amor está entre as principais razões para um casal tomar esse passo. Há por exemplo a aceitação social; a pressão por parte da família e amigos; a necessidade de “legalizar” uma família (muitas vezes já constituída), entre tantos outros motivos.

Já o divórcio também tem varias razões para existir. Como uma pessoa que nunca foi casada, posso apenas especular tendo em conta as histórias de matrimônio e divórcio que vi e ouvi.

Fala-se bastante na “decadência da família” quando se fala em divórcio. Parece que a instituição do matrimônio é algo perfeito e sagrado cuja inexistência irá automaticamente causar a extinção da espécie humana.

Para mim o divórcio é uma declaração forte, são duas pessoas a dizerem “Isto não é amor, eu não me sinto bem, eu não estou feliz e não foi para isto que eu me casei”. E de certa forma, isso também é uma forma de salvaguardar o matrimónio.

É uma forma de impedir que a instituição que é o matrimónio se corrompa, na medida em que protege o matrimónio de falsos amores e de cinismo desnecessários. É proteger o matrimónio de uma imagem falsa, irreal e que não corresponde às expectativas, promessas e cláuslas acordadas inicialmente.

Não podemos deixar de lembrar também que o direito ao divórcio foi uma grande conquista para as mulheres.

Cada vez mais mulheres se recusam a ser enganadas e abusadas pelos pais dos seus filhos. A verdade por detrás da decadência dos “valores da família” é que essa ilusão de estabilidade; perfeição e harmonia da família margarina tem como base o silêncio de muitas mulheres que sofreram (e sofrem) como reféns dos seus maridos.

Muitas dessas famílias ditas perfeitas só o são às custas da serventia das mulheres que carregam nas costas todo o peso para manter a casa em ordem. Muitas vezes são as esposas que, sem apoio emocional ou financeiro, criam os filhos com muitas dificuldades e ainda são humilhadas pelos maridos.

Nesses casos, as mulheres são reféns do acordo e dessa ideia prescrita pela sociedade. E a verdade é que à medida que as mulheres conquistaram mais espaço e poder foram ganhando confiança para destruir essas prisões.


Estando o matrimónio inserido na sociedade patriarcal, estará explícita ou implicitamente a permitir violências variadas sobre as mulheres, seja este religioso, tradicional ou civil.

E talvez isto sim deva ser questionado. Talvez o problema não seja o divórcio, mas sim o casamento.

Como é que as nossas sociedades vêem os casamentos? O que as duas partes têm como absentada construir essa tal família dentro da estrutura do matrimónio? Quais os comportamentos e valores esperados dos casados?

O divórcio pode ser uma porta para a possibilidade de crescimento e realização pessoal imprescindível para qualquer pessoa ser feliz. O divórcio pode representar a liberdade para muitas pessoas que vivem oprimidas nos seus casamentos. O divórcio pode permitir a constituição de uma família de relações saudáveis.

E acima de tudo, o divórcio protege os casamentos de uma realidade infeliz e desgastante.

Então como pode isso significar o fim do matrimónio?

Divórcio também é amor.

Deixem a Kizomba em paz!

Já chega de deixarmos a nossa cultura ser apropriada, extraviada e abusada por estrangeiros.

Nos anos recentes tem havido um boom dentro da “Lusofonia” no que toca à Kizomba. Parece que de repente todos acordaram para o ritmo angolano: de Angola a Portugal, Espanha, África do Sul e até mesmo Brasil. O mundo despertou ao som de África.

Até já se diz que Lisboa é a capital da Kizomba. Sim, isso mesmo! Um ritmo angolano, cantado e ensinado por africanos tem a sua capital na Europa. Parece piada, mas há pessoas que acreditam que isso seja verdade.

A kizomba é uma dança de Angola que surgiu nos anos 80, no entanto se popularizou nos últimos cinco anos com grandes nomes tais como Anselmo Ralph (Angola) e Nelson Freitas (Cabo Verde).

As comunidades imigrantes de origem africana em Portugal (e não só) sempre tiveram os seus espaços próprios para dançar as suas músicas e viver a sua cultura. E em Lisboa esses espaços eram o Mussulo e o Sarabanda, entre outros, que essencialmente eram frequentados por africanos de classe média-baixa e alguns brancos atrevidos que lá se iam “desvalorizar”.

Essa vida à margem da sociedade é típica das sociedades imigrantes. Para os lisboetas, esses locais sempre foram antros de perdição já que no seu imaginário os africanos são todos promíscuos, festeiros e dados a grandes bebedeiras, nada aptos para trabalhar e que só se querem divertir. Porquê então o súbito interesse pela kizomba?

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As “noites africanas” estão na moda.

Há muitos elementos mainstream hoje que sempre fizeram parte das culturas africanas e sempre foram considerados de valor e belos, mas que ganharam novos rumos quando outros povos começaram a valorizar.

Os mesmos símbolos e hábitos considerados primitivos ou selvagens, como tatuagens, piercings, rastas, etc, aos poucos criaram espaço na cultura pop. Um cidadão branco de rastas é hippie, alternativo, interessante e tal enquanto as mesmas rastas num cidadão negro causam desconfiança, são marcas de desleixo e pouca higiene.

A verdade é que existe um viés quando um determinado elemento é usado num contexto “tribal” e quando é usado no meio “urbano”. Quando é visto com um plano de fundo africano e quando é visto com um plano de fundo europeu. Parece que tudo precisa de passar por aprovação ocidental para ser considerado bonito e infelizmente nesse movimento de ascensão perde o seu significado.

A este processo de adopção de elementos de uma determinada cultura por um grupo diferente chama-se apropriação cultural. A apropriação cultural só pode acontecer quando um grupo privilegiado rouba elementos tais como arte; estética; língua; religião; música; etc, de  uma cultura de um grupo oprimido.

Quando removemos os elementos culturais do seu contexto original, para além da perda de importância e legado que carregam, muitas vezes reforçamos estereótipos.

No caso da Kizomba a sua valorização deveu-se sobretudo ao facto de haver uma classe africana média-alta que aos poucos conquistou espaços centrais na Europa e ganhou mais poder de compra, criando condições para artistas do seu agrado poderem encher casas de espectáculos além fronteiras.

Assim da marginalidade para a centralidade, a Kizomba manteve o seu ritmo original e compassado, mas ficou hipersexualizada e muito ligada à vida luxuosa, de grandes farras, corpos sensuais e altos carros, correspondendo à expectativa portuguesa daquilo que são as aspirações dos africanos.

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Está na moda ser preto, desde que você não seja preto

À semelhança da Kizomba, a capulana, tecido africano típico de Moçambique também sofreu um ataque de apropriação cultural. Este processo também aconteceu recentemente com a nova vaga de emigração portuguesa, que se deslumbrou com as cores e o brilho da capulana.

O pano que usávamos para amarrar o bebé às costas, para amarrar à nossa cintura, agora ganhou designs europeus, tanto é que hoje ainda é considerado algo negativo, ultrapassado e até certo ponto ‘primitivo’ usar a capulana na sua forma mais tradicional, mas por outro lado, é elegante e chique fazer um vestido de noiva misturando o cetim e a renda branca com a capulana.

A apropriação cultural descontextualiza o elemento em si, distanciando-o das suas origens e da sua simbologia/ valor. De tal forma que pode-se de facto acreditar que Lisboa é a capital da Kizomba, embora a Kizomba seja de Angola, mas porque olhamos para a Kizomba como algo isolado, sem raízes nem ramificações, posicionamos onde melhor nos convém.

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Imigrantes protestam em Lisboa contra regras do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras

Para mais, nos aproveitamos de uma certa cultura sem reconhecer as ruínas que ficam por reconstruir. Ou seja, ouvimos a música; dançamos ao seu ritmo; usamos as suas roupas; mas não nos unimos para apoiar as suas dores e as suas causas.

Quantos lisboetas interagem e se identificam com a Kizomba? Onde estão os portugueses a lutar por uma maior e melhor integração dos imigrantes africanos? O que têm feito essas centenas (talvez até milhares) de instrutores de kizomba europeus pelos dançarinos amadores que criam novos passos e tendências?

Deles ouvimos apenas o silêncio que confirma a sua conivência e satisfação com o status quo. Pode-se falar então em globalização? Podemos encarar estes processos como trocas de experiências, conhecimentos e percepções?

Talvez… Quando houver um equilíbrio na distribuição de poder e quando pudermos reconhecer a humanidade de todos nós sem excepções e não considerarmos umas culturas melhores, mais desenvolvidas e mais apuradas que outras, aí sim, será uma troca sem perdas nem prejuízos.

Lobolo aos olhos de hoje

O lobolo é uma cerimónia tradicional em que a família do noivo oferece um dote à família da noiva, celebrando assim a sua união.

Tenho notado já há algum tempo que hoje em dia, especialmente nos meios urbanos, há uma intepretação errada de vários elementos tradicionais da nossa cultura moçambicana.

Desde a chegada dos Europeus a África que houve uma demonização de tudo o que era estranho e bizarro quando comparado aos seus hábitos e costumes. E assim os modos das sociedades africanas foram ridicularizados e até proibidos, motivo pelo qual muitos rituais deixaram de ser praticados.

Um desses elementos mal interpretados aos olhos de hoje é o ritual matrimonial tradicional – o lobolo.

Como é que em Moçambique se dizia “casamento” antes de chegar a Igreja Cristã? Como é que se reconhecia a união entre duas pessoas antes de haver um “Estado”? O que era um “casamento”?

Temos de usar os olhos de ontem para procurarmos interpretações – e validade! – nos rituais hoje ou corremos o risco de viver acorrentados às ideias medievais que o Velho Continente nos passou.

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O lobolo é mutável, variável e adaptável. Fonte: Antropocoiso

A cerimónia do lobolo consiste numa oferta de bens em forma de gado, dinheiro, roupas e alimentos, entre outros à família (clã) da noiva. Após a aceitação e recepção destes bens por parte da sua família, a noiva passa a pertencer à família (clã) do noivo. Por esse motivo, aos olhos do colono, a mulher estaria a ser “vendida” e é essa narrativa que até hoje se mantém para rejeitar o ritual.

O dote oferecido servia de fundo comunitário para aquela família (clã). E de certa forma também de seguro, pois para anular a união seria necessário a devolução do dote, o que poderia pôr em causa toda a economia local.

Sempre ouvi o meu pai contar uma história que aconteceu há muitos anos em Homoíne (província de Inhambane) na aldeia onde ele cresceu. Um homem matou a sua própria irmã à catanada e foi enviado para S. Tomé & Príncipe, onde cumpriu a sua pena trabalhando como escravo para o regime colonial Português.

O motivo do assassinato foi o facto de a sua irmã ter manifestado a sua vontade em querer dissolver o seu matrimónio, o que obrigava a sua família a devolver o dote ao seu esposo. O seu irmão, por sua vez, já tinha usado grande parte do dote para lobolar a sua esposa, então teria ele também de se divorciar para devolver os bens.

Ou seja, o dissolução de uma união criava a dissolução de outras uniões em forma de cadeia, destruindo por completo a harmonia naquela sociedade. A situação levou o irmão à beira do desespero e terminou de forma trágica.

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Na Namíbia, Quénia e África do Sul, o lobolo chama-se lobola. Em Angola é o alambamento.

Estando inserido numa sociedade patriarcal (q.b.) o matrimónio tradicional não deixa de ser um fenómeno económico e de poder – como o matrimónio religioso cristão,- na medida em que serve de regulação social, pois o lobolo legitima a relação do casal e eleva o estatuto dos nubentes.

Para além disso, o lobolo estabelece uma família (garante descendência) e alberga também garantias que asseguram a vida e sobrevivência das famílias envolvidas no caso de morte de uma das partes.

Hoje em dia o lobolo, como qualquer outro ritual, já sofreu alterações na sua forma e no seu conteúdo, no entanto mantém o valor social que representa. É um dos elementos tradicionais que até as famílias mais modernas conseguiram manter, e por isso reforça o nosso sentido de Africanidade.

Por exemplo, no lobolo já se oferece um anel de ouro, que foi incorporado dos rituais da Igreja Cristã. A loiça feita de barro e madeira foi substituída pela porcelana (apesar de não servir para as orações e oferendas aos antepassados). Por outro lado houve símbolos africanos como o gado e as capulanas que sobreviveram a essas mutações.

Nos dias que correm é comum a realização do lobolo seguida do casamento religioso e/ou cerimónia civil, antes do copo d’água. Esta prática tem como objectivo a manutenção do nosso sentido de identidade e de compromisso com os antepassados.

Nas regiões mais rurais, o lobolo é um ritual que confere um reconhecimento social que as outras cerimónias (na Igreja, Mesquita, Conservatória, etc) não oferecem, pela dimensão de envolvimento da comunidade e ligação histórica e espiritual.

Tendo em conta estes factores, a “nova” Lei da Família já prevê o lobolo como uma cerimónia legítima, com o mesmo peso legal que o casamento civil.

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Hoje em dia é comum incorporar elementos tradicionais com os mais modernos.

O lobolo em Moçambique é uma prática que visa o reconhecimento matrimonial, isto é, garante a reprodução, estabilidade, compromisso, e estabelece os direitos e deveres entre um homem e uma mulher perante a comunidade.

Ao conotarmos o lobolo como uma simples transacção de compra e venda tiramos todo o simbolismo e importância que o ritual de facto tem. Estamos a olhar como o Europeu que aqui chegou olhou, sem ter sensibilidade para perceber as estruturas e crenças das sociedades da época.

Tal como entendemos, praticamos – e perdoamos! – o casamento religioso cristão, com todas as suas limitações, devemos também fazer o mesmo exercício ao olharmos para o lobolo.

É nosso dever descolonizar estas ideias ultrapassadas dos nossos próprios hábitos e costumes e encontrar formas de adaptar os rituais à nossa actualidade.

 

(Des)Virginando Margarida

No filme de Licínio de Azevedo, Virgem Margarida, somos confrontados com a dura realidade do processo revolucionário pós-independência em Moçambique.

Em Junho de 1975, com toda a euforia e esperança do nascimento de uma nova nação dotada de auto-determinação, ideias próprias e controle total sobre o seu domínio Margarida, uma jovem camponesa vai à cidade comprar enxoval e vê-se enrolada numa teia de coincidências infelizes.

Por falta de documentos é levada pela polícia durante uma rusga que resulta também no aprisionamento de várias mulheres da noite, entre prostitutas e dançarinas.

Embora algumas destas aceitem a sua condição de “mulheres da vida”, que trocam sexo por dinheiro, muitas resistem essa denominação, entre elas Margarida, que nega ter estado alguma vez com um homem.

Baseado em factos reais, o filme retrata os contrastes vividos na época.

Para muitos militares, eles mesmos também camponeses, as mulheres da cidade com as suas roupas vistosas eram consideradas prostitutas, embora nem sempre o fossem. Enganos eram comuns.

O ideal de mulher passava por servitude, modéstia e submissão à família. Assim, estas mulheres que saíam para trabalhar à noite, vestidas com roupas brilhantes e com maquilhagem exuberante, eram encaradas como uma ameaça ao futuro virtuoso do país.

No novo Moçambique, as mulheres deviam servir a nação. Eram elas a base para o desenvolvimento da família e para a prosperidade da força de trabalho, já que tinham o papel de fazer e criar os filhos.

Aquelas que fugiam a esse ideal eram levadas forçosamente a campos de reeducação, de onde era suposto sairem mulheres novas, dotadas das qualidades e ambições desejadas numa Mulher Africana no pós-independência para um regime socialista.

Em 1975, num país que precisava de consolidar a sua identidade, era essencial a transformação de mentalidades e o abandono da retórica colonial. Para tal era preciso criar esta ideia do “homem novo” e materializá-la.

Encarava-se a exploração sexual da mulher moçambicana como resultado do colono, que olhava para a mulher negra apenas para satisfazer os seus apetites, sem de facto dignificá-la.

No entanto, essa exploração sente-se em todas as esferas da vida da mulher, tanto no pré e no pós-independência, pois mesmo no seio dos militares havia homens com a mesma mentalidade machista que os colonos.

As intenções revolucionárias, por mais puras e ingénuas que fossem, eram pouco dado o tamanho da missão a que se destinavam cumprir. Como é que se levam centenas, quiçá até milhares, de mulheres urbanas para o campo? Como é que se transformam essas mulheres em novas pessoas? Será possível?

É importante contextualizar os campos de reeducação no contexto revolucionário, e o contexto revolucionário por sua vez no universo de emoções, traumas e idealismos de um povo que foi à guerra para ser livre.

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O filme “A Virgem Margarida” foi premiado internacionalmente.

Por outro lado, no filme o realizador explora também a necessidade da união entre as mulheres para a sua libertação.

A sororidade e o companheirismo entre as reeducandas, movidas pela experiência comum de opressão acaba por vencer as diferenças que as separam.

De uma forma quase literal, o autor mostra que a libertação da mulher moçambicana só será possível quando os grupos abandonarem a sua fidelidade às outras estruturas em que estão inseridas.

Em Virgem Margarida, para as combatentes é necessário abandonarem a estrutura militar e denunciar o abuso de poder e machismo dos seus colegas. Para as reeducandas, é preciso deixarem as alianças tribais e de classe de lado.

É somente neste campo de negociação que se pode falar, depois de uma Mulher Nova, pois essa mulher será livre de escolher o seu próprio destino.

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Segundo Licínio de Azevedo o filme não tem qualquer intenção política. Pelo contrário, interessa aqui o lado humano, o drama da vivência diária nos campos.

As condições reais dos campos e a forma como aos comandantes geriam os recursos de forma despótica, aliadas ao escasso acesso a alternativas, criavam um ambiente em que as ideias nem sempre chegavam.

A visão idealista da época arrastou não só mulheres, mas também homens para os campos de reeducação, destruindo e separando famílias para sempre. Entre prostitutas;  improdutivos; traidores; dançarinas… E virgens, também artistas, certamente outros mal entendidos aí na mistura.

As atrocidades, violência e consequências dos processos revolucionários são temas recorrentes nos filmes de Licínio de Azevedo.

Muito mais que saber o Passado, cabe-nos agora questionar o Presente. Quem seriam as Margaridas de hoje? O que temos feito por elas? E pelas outras? Que correntes nos impedem de alcançar a tal almejada libertação?

Odiar para governar

O ódio como força poderosa de união e governação.

Entre africanos quando nos encontramos é comum competirmos sobre quem tem o pior Presidente. É uma espécie de Jogos Olímpicos espontâneos, bem divertidos, que ocorre sempre que discutimos política.

Oh! O nosso Presidente está no poder há mais de duas décadas!

Mas o nosso tem familiares metidos em todos os negócios

O nosso Presidente é dono de metade do território.

O nosso é o pior, ele demitiu todo o seu gabinete.

E por aí vai.

Nós conversamos sobre a incompetência dos nossos governos e rimos do futuro catastrófico dos nossos países. De certa forma, a natureza dessas conversas está no centro daquilo que é ser africano.

Nós gostamos disso. Gostamos desses momentos descontraídos em que falamos sem culpa ou julgamento das coisas que nos inquietam sobre os nossos governos.

Essas semelhanças tornam as nossas dores menos difíceis. Sossega-nos saber que há alguém tão mal ou quiçá até pior que nós.

Todos nós adoramos odiar, especialmente em grupo. Odiamos mais e melhor quando estamos juntos. As pessoas se unem nos seus ódios partilhados o tempo todo. Quando encontramos pessoas que odeiam ou não gostam das mesmas coisas que nós, nos tornamos amigos instantaneamente.

Por isso não me surpreende que Donald Trump tenha vencido as eleições nos Estados Unidos da América.

Vejamos, ele odeia muitas coisas e fala abertamente sobre isso. Esse diálogo permitiu que outros semelhantes a ele o pudessem eleger. Sim, o ódio venceu. Prevaleceu a força do preconceito e discriminação.

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Robert Mugabe, o presidente do Zimbabwe, é provavelmente o presidente odiado com mais amor.

Na verdade o ódio é uma força com muito poder.

Não há como negar o poder de sentimentos como a raiva e o medo, que estão na raiz daquilo que é o ódio. Essa necessidade de ter o “outro” distante; de ver bem longe tudo o que é diferente; de afastar do nosso reflexo esse contraste está muito enraizado na nossa cultura.

É normal odiar em conjunto. Seja para fazer piadas com a opressão dos outros (piadas homofóbicas; racistas; machistas; etc) ou mesmo para reforçar a nossa posição social, usamos sempre esse afastamento do “outro”.

Mas nós só vemos problemas quando isso aparece de forma oficial, ou seja, quando existe uma liderança declaradamente preconceituosa.

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No início do ano foi a vez dos britânicos mostrarem a sua verdadeira face. O voto “sim” ao Brexit provou que as portas vão se fechar para todos aqueles que não se enquadrarem no perfil ideal de “Britânico”.

Logo após o resultado do referendo, muitas minorias, imigrantes e afins foram alvos de ataques no Reino Unido. E o mesmo aconteceu nos EUA.

O validar do ódio abre espaço para as pessoas para manifestarem todo o seu preconceito e aplicarem violência sobre os grupos que querem afastar.

Aos poucos o Ocidente vai perdendo legitimidade para falar mal da decadência das democracias africanas. Na verdade tal decadência é resultado de séculos de privação cultural e intelectual e de processos de libertação mal paridos.

A onda de ódio e preconceito que marca a decadência das democracias ocidentais é fruto da ignorância e da crescente insegurança económica e social em que vivem muitas pessoas nessas sociedades, apesar da ilusão da vida confortável do “Primeiro Mundo”.

Novos tempos se apresentam perante nós.Seremos governados pelo ódio e pelo medo.

Agora os britânicos, os norte-americanos e demais, se unirão a nós, africanos, quando falarmos sobre as nossas democracias falidas e rirmos dos nossos Presidentes.

Virão para as nossas terras se “expatriar” e viver de regalias, mesmo defendendo a segurança das suas fronteiras.

 

Para que(m) serve a CPLP?

Há alguns meses, aquando do vigésimo aniversário da CPLP, comentei que a CPLP era uma espécie de prisão para nós. 

Vivemos numa ditadura do Português, pois no nosso consciente essa é a nossa Língua e faz parte da nossa identidade como Nação. Mesmo o nosso ensino bilíngue ainda é muito imaturo e não consegue dar resposta aos nossos problemas, pois a grande maioria da população em Moçambique não fala Português, mas sim uma outra língua local.

Por que é que as pessoas que falam, por exemplo, o changana não podem aprender a ler e escrever em changana? Por que é que não criamos alianças com países vizinhos para falarmos as nossas línguas em comum?

Nós metemos na cabeça que a Língua Portuguesa é nossa esposa e todas as outras línguas que falamos são nossas amantes, obrigadas a viver na clandestinidade e longe dos espaços públicos. É a CPLP sustenta essa ideia de nós mesmos, fazemos parte desta “comunidade” e não criamos uma comunidade de países que falam swahili ou makhwua.

Na África do Sul, por exemplo, nos hospitais há cartazes em línguas locais. Isso facilita o acesso a este serviço. Mas as nossas línguas locais são praticamente invisíveis na esfera pública.

Pouca é a nossa literatura em línguas locais e as grandes editoras investem mais em Português. Imaginem quantos escritores já perdemos assim! Temos exímios contadores de histórias, mas o seu legado fica pela oralidade.

Outros jovens de países vários tiveram opiniões semelhantes. Qual é a relevância da CPLP nos dias de hoje?

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O Ministro dos Negócios Estrangeiros Português, Augusto Santos Silva, tem uma opinião diferente. Para ele, a Comunidade baseia-se num princípio de igualdade entre todos:

“São Estados soberanos, iguais em direitos, iguais em responsabilidades. Têm um traço de união fundamental, que é a língua portuguesa, uma língua que pertence a todos, na diversidade com que a usam e enriquecem.” – 20 anos de CPLP: a melhor juventude

No entanto, as bases onde se apoia a CPLP têm origem na teoria do luso-tropicalismo e é por isso que é difícil falarmos numa relação de amizade e apoio mútuos, quando durante todos anos houve – e ainda há – um desequilíbrio na distribuição de poder.

No Brasil, quando participei do Festival do Rio tive o privilégio de assistir o filme moçambicano “Comboio de Sal & Açúcar”, do realizador brasileiro radicado em Moçambique Licínio de Azevedo. Para a minha surpresa o filme, falado em Português de Moçambique, estava legendado para o Português do Brasil. Achei ridículo!

Quando as novelas brasileiras são transmitidas aqui não assistimos com legendas! É como se o nosso Português fosse um dialecto primitivo imperceptível aos outros falantes da Língua Portuguesa. Não sei se os filmes de Portugal tiveram o mesmo tratamento, por exemplo. Mas de qualquer uma das formas já demonstra uma certa arrogância dos brasileiros ao assistir uma obra cinematográfica moçambicana falada em Português.

O mesmo se pode dizer do exame de Português a que estudantes moçambicanos são submetidos quando se candidatam a bolsas de estudo no Brasil.

Para que serve essa tal Comunidade dos Países de Língua Oficial Portuguesa (CPLP) senão para legitimizar a língua como elo comum a todos? Por que então, há uma hierarquia do Português que se fala?

E outra coisa, se a língua é de facto de todos, nós temos tanto direito de alterá-la e usá-la como melhor acharmos no nosso contexto como qualquer outro falante de outro país. Da mesma forma que o Brasil tem palavras e expressões próprias, que nós tentamos entender, nós também temos as nossas e não sinto que estas sirvam de impedimento para quem vê o filme.

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O Novo Acordo Ortográfico gerou polémica na Comunidade.

A propósito, é exactamente esse o grande debate em torno do Novo Acordo Ortográfico. O acordo é um acto violento contra os diferentes léxicos dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP).

Supostamente o objectivo do Acordo é facilitar o intercâmbio cultural e científico e ao mesmo tempo ampliar a divulgação do idioma, no entanto é uma forma de nos obrigar a falar como os brasileiros e os portugueses falam, como se a língua deles tivesse se desenvolvido por auto-combustão e não pelos mesmos processos de transformação que acontecem em todas as línguas (neologismos; estrangeirismos; etc).

Na mais recente cimeira da CPLP, realizada no Brasil, falou-se de um projecto de livre circulação dentro da CPLP.

Neste momento o mais urgente é a facilitação na obtenção de vistos de residência e o reconhecimento de diplomas, o que tem sido especialmente difícil para os Portugueses e Brasileiros a viver em outros países.

Para nós africanos habituados a mendigar para obter vistos e acostumados com a nossa condição de cidadãos de segunda classe, isto é um tema antigo que já deixou até de ser urgente.

Não se sabe como irá funcionar ou quais as implicações da livre circulação para aqueles que aderirem ao projecto, mas certamente não irá beneficiar todos de forma igual.

Há muito que a Europa e a América do Sul beneficiam da migração africana, aliás, não sei o que teria sido do Euro sem os imigrantes (e/ou afrodescendentes) a vestir a camisola dos ex-colonos.

 

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Os imigrantes africanos em Portugal continuam escondidos – Fonte: DW.com 

 

Hoje Portugal surpreende-se pelo talento proveniente dos PALOP. Já não servimos apenas para trabalhar nas obras ou como empregadas domésticas, mas também somos artistas, engenheiros, médicos, etc.

Com muito esforço as comunidades afrodescendentes começam a ganhar espaço central e com as recentes crises na Europa e América do Sul, os movimentos de migração começam a acontecer em várias direcções. Adicionalmente, as descobertas de riquezas mineiras em países como Moçambique e Angola atraem vários empresários, especialmente aqueles que falam o Português.

É importante que esta nova dinâmica fuja do ideal colonial de irmandade e promova o uso de todas as variantes da mesma língua. Agora queremos o Português na ONU. Mas que Português? O “novo” ou o Antigo?

E acima de tudo… Será que quando o Presidente Moçambicano falar na ONU, os restantes Presidentes da CPLP precisarão de legendas também?

Cidadão do mundo, imigrante ou expatriado?

Desde o início da Humanidade que temos uma necessidade de nos movermos. Seja para caçar; para pescar; para fugir de secas ou de cheias, estamos sempre em busca de contextos melhores para o nosso desenvolvimento e para o desenvolvimento das gerações vindouras.

Até hoje existem sociedades nómadas, intimamente ligadas às condições ambientais e actividades pastorais, um pouco por toda a parte do globo.

No que toca ao movimento humano entre fronteiras, há todo um léxico que distingue quem vai de quem vem; de onde vem e para onde vai; porquê e como. Turista e Exilado. Migrante e Refugiado. Imigrante e Expatriado.

Estes dois tipos de viajantes – imigrante e expatriado -, especificamente, sempre me fizeram alguma confusão. Na verdade, nunca percebi muito bem a diferença, porque usam-se as designações de forma mais ou menos arbitrária para distinguir duas coisas na verdade iguais.

Mas essa distinção serve para criar uma hierarquia que legitima uns movimentos e repudia outros. Neste caso, é mau ser imigrante, mas é bom ser expatriado.

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O que distingue um imigrante de um expatriado?

Segundo os dicionários, expatriado é alguém que abandona o seu país de origem, de forma voluntária ou não, geralmente por tempo determinado e para trabalhar. E imigrante é alguém que abandona o seu país de origem e se estabelece num outro, geralmente por tempo indeterminado e para trabalhar.

Ou seja, em linhas gerais, o que distingue um do outro é o período em que esse alguém reside no seu local de destino. Mas no nosso dia-a-dia, o que distingue os dois é o local de origem.

Falamos de expatriados somente para nos referirmos a cidadãos brancos de países ocidentais e falamos de imigrantes para designar cidadãos de todos os outros países.

Trocando em miúdos, um empresário moçambicano a trabalhar em França é imigrante. Mas um empresário francês a trabalhar em Moçambique é expatriado.

O imigrante é visto como alguém pouco instruído que só quer viver dos benefícios do país de destino e trabalha em empregos precários. Enquanto o expatriado é visto como uma pessoa com Ensino Superior feito, que abre oportunidades de emprego no local de destino e que melhora as condições dos locais.

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Imigrantes do Ghana em Harlem, na cidade de Nova Iorque (EUA). Fonte: Damon Winter/ New Tork Times

Vivemos numa era em que se fala de “Globalização” e vende-se a ilusão do “Cidadão do Mundo”, e que supostamente podemos trabalhar e viver em qualquer parte do mundo; e ao mesmo tempo, vemos os países a fecharem-se para si, sozinhos ou em bloco, criando barreiras a estes movimentos.

Essas barreiras, umas vezes mais e outras menos visíveis, têm como objetivo manter o status quo e garantir que os países privilegiados não são infestados pela pobreza dos cidadãos dos países pouco desenvolvidos.

Através de impedimentos aos vistos de entrada; superfaturamento das passagens aéreas e entraves aos pedidos de residência, entre outras medidas, muitos “cidadãos do mundo” ficam retidos nos seus locais de origem ou arriscam a vida nos locais de destino, vivendo de forma precária e aceitando condições desumanas.

As barreiras evidenciam a hipocrisia dos cidadãos do Ocidente que, ao saírem das suas fronteiras esperam viver tão bem ou melhor que nos seus países de origem.

Os “expatriados” fecham-se nas suas comunidades, criando um universo paralelo daquele em que vive o resto da população nos seus locais de destino. Constroem escolas para os seus filhos, onde falam as suas línguas maternas e aprendem a sua História, ignorando a cultura e contexto de onde vivem e relacionam-se apenas com outros expatriados.

No entanto, os “imigrantes” em países ocidentais têm de se assimilar, a eles não lhes é permitido expressar livremente as suas opiniões ou a sua cultura. Os imigrantes são forçados a deixar de falar as suas línguas maternas;  a rejeitar os seus trajes típicos e a frequentar escolas onde não aprendem nada sobre a sua História.

Para além disso, os “imigrantes” ainda trabalham como cidadãos de segunda classe, geralmente fazendo o serviço que mais ninguém quer, por muito pouco dinheiro, sem perspectivas de crescimento nem garantias e ainda são chamados de preguiçosos.

E os “expatriados” geralmente ocupam cargos de liderança onde trabalham e ganham salários muito acima da média, com direito a benefícios como seguro de saúde, educação de qualidade para os filhos (nas tais escolas privadas que eles mesmos constroem) e têm habitação garantida.

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Embora Chinatown esteja ligada ao exoticismo das culturas orientais, representa um santuário para chineses fora da China.

É impossível ficar indiferente ao jogo de poder que acontece nos movimentos entre fronteiras.

As comunidades imigrantes são muitas vezes afastadas para a margem da sociedade, sem muitas chances para alcançarem o sucesso. As suas histórias são muitas vezes contadas como tragédias e as políticas para a sua integração não envolvem as suas contribuições. Enquanto, pelo contrário, os expatriados são colocados no centro da tomada de decisões – pelo menos quando são assuntos que lhes dizem respeito.

Um exemplo claro desta marginalidade das populações imigrantes é o surgimento de zonas nicho, como o caso das Chinatown, locais onde a comunidade chinesa se instala e se expressa.

Cria-se desta forma uma fronteira dentro de tantas outras fronteiras que impede que haja tolerância e compreensão entre os dois grupos, como dois vizinhos que não se entendem mesmo antes de se conhecerem.

As comunidades de imigrantes, ou as comunidades de expatriados, dependendo de como as queiramos chamar, devem poder viver a sua cultura e os seus costumes sem censura alguma. Devem poder se afirmar fora dos seus países de origem sem recear rejeição ou troça.

Afinal de contas, não queremos todos ser cidadãos do mundo?

Que Nobel é esse?

Mais um ano. Mais um Nobel. Mais uma decepção.

Este ano o Nobel não atribuiu nenhum prémio a mulheres. Nem a pessoas negras. Nem tão pouco a pessoas Africanas.

Os poucos prémios que vão tradicionalmente a estes grupos, Nobel da Literatura e Nobel da Paz – já que aparentemente não temos capacidade intelectual e/ou material para produzir inovações técnicas – este ano foram para homens.

A falta de diversidade nas grandes Academias não é novidade.

No início do ano, durante os Óscares houve um boicote pela falta de representatividade de filmes e actores negros nas nomeações. A campanha #OscarsSoWhite desencadeou um debate sobre a falta de diversidade da Academia e das histórias premiadas.

O que acontece é que a premiação de um determinado grupo valida a produção feita por esse grupo e o seu prestígio, possibilitando mais produção. Isto gera um ciclo vicioso em que o mesmo grupo tem sempre oportunidades de crescimento e financiamento para levar à frente aos seus projectos – sejam no cinema; na literatura; na medicina ou em qualquer outra área de intervenção.

Aumenta-se assim o desnível entre esse grupo privilegiado e os restantes que não conseguem ter os prémios como reconhecimento da sua excelência.

Este ano, numa decisão arrojada, o Prémio Nobel da Literatura foi para Bob Dylan, músico e liricista conhecido pela natureza poética das suas canções. Este foi provavelmente o prémio mais comentado de 2016.

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Bob Dylan foi o escolhido para o Nobel da Literatura 2016. Fonte: Nobel Prize

Bob Dylan, ao contrário do que se tem vindo a dizer,  não é o primeiro liricista a ser galardoado com o Prémio Nobel da Literatura. Em 1913, Rabindranath Tagore, poeta, escritor e liricista indiano levou o Nobel da Literatura.

À semelhança de Dylan, Tagore aprendeu muito do seu ofício sozinho. A sua obra influenciou e foi influenciada pelo movimento pacifista na Índia e a sua independência. Embora o Nobel tenha vindo como reconhecimento pelo seu trabalho como poeta, escritor, dramaturgo e romancista, ele escreveu mais de 2000 músicas. Três dessas canções foram usadas para os hinos nacionais da Índia, Bangladesh e Sri Lanka.

Mas Bob Dylan foi premiado justamente pela sua contribuição a nível musical.

Ainda que discorde da atribuição do Nobel a Bob Dylan, tenho de admitir que premiação de alguém que foge à norma daquilo que é um Nobel da Literatura, de certa forma alarga os horizontes para outros artistas que contam as suas histórias de outras maneiras.

Artistas como Youssou N’Dour (Senegal) ou Miriam Makeba (África do Sul) são dois exemplos de músicos com uma forte componente literária e cujas carreiras foram para além da música, marcadas também pela intervenção social que poderiam facilmente ter um Nobel da Literatura para si.

São artistas que conseguiram, tal como Bob Dylan, incorporar um estilo literário nas suas canções, sobretudo devido à longa tradição oral que há em África.

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Miriam Makeba ficou conhecida internacionalmente como “Mama Africa”

Os nossos melhores contadores de histórias nunca publicaram livros, mas deixaram um vasto legado de lendas e epopeias fantásticas, muitas vezes cantadas que foram passadas de geração a geração.

Arrisco-me a dizer que as nossas melhores obras de Literatura jamais serão escritas. Ou talvez, as versões escritas dessas obras jamais serão tão boas como aquelas ditas.

As palavras ditas têm uma dimensão maior, de preservação de sabedoria e de ligação com os antepassados ao mesmo tempo que se interage com a plateia, no Presente. As palavras ganham mais poder com voz.

Foram os contadores de histórias anónimos na História, porém conhecidos entre nós – os nossos avós; mães; tios; médicos tradicionais; líderes comunitários; professores – que sedimentaram as bases para artistas como Wole Soyinka (Nobel da Literatura em 1986) e Chinua Achebe (autor de Things Fall Apart) desenvolverem o seu talento, passando para o papel toda a herança de provérbios, fábulas e lendas milenares.

Achebe, considerado por muitos como o Pai da Literatura Africana, nunca ganhou o Nobel. Até à sua morte, os africanos esperavam ver o prémio nas suas mãos, no entanto ele sabia que o Nobel tinha tanto a ver com talento, como tinha com geopolítica:

“My position is that the Nobel Prize is important. But it is a European prize. It’s not an African prize … Literature is not a heavyweight championship. Nigerians may think, you know, this man has been knocked out. It’s nothing to do with that.”

A minha posição é que o Prémio Nobel é importante. Mas é um prémio Europeu. Não é um prémio Africano… Literatura não é um campeonato de boxe. Os nigerianos podem pensar, sabe, este homem foi derrotado. Não tem nada a ver com isso.

De facto, o Nobel é um Prémio Europeu. Este ano, dos 11 vencedores, apenas três são de fora da Europa: Bob Dylan, Nobel da Literatura, é dos Estados Unidos da América; Yoshinori Ohsumi Nobel da Medicina, é do Japão e o Nobel da Paz, Juan Manuel Santos é colombiano.

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Ngugi wa Thiong’o escreve desde 1962. Fonte: Website Ngugi wa Thiong’o

O queniano Ngugi wa Thiong’o era a aposta africana para o Nobel da Literatura 2016. O autor de 78 anos é um ícone literário, cujo trabalho está intimamente ligado à sociedade queniana pós-colonial e aos conflitos entre as tradições africanas e os costumes ocidentais.

Devido às fortes reacções ao seu trabalho, já foi preso político e viveu exilado por mais de 20 anos. Foi nesse período que mais se debateu com questões de identidade e de resistência ao Imperialismo, o que o levou a decidir, no fim dos anos 70 a parar de usar o Inglês e passar a usar Kikuyu, a sua língua materna, para escrever.

Pela relação difícil no seu país de origem, Thiong’o nunca foi premiado no Quénia. Mesmo na região da África Oriental não existem prémios literários e no geral, pouco foi o reconhecimento dado pelos africanos. Dos dez Doutoramentos Honorários que tem, apenas dois são de Universidades africanas: Universidade de Dar Es Salaam (Tanzania) e Universidade Walter Sisulu (África do Sul).

Seja como dramaturgo ou romancista, Thiong’o incorpora os elementos da tradição oral africana e demonstra qualidades de um exímio contador de histórias: provocante; actual; envolvente; original e expressivo.

Se tivesse ganho o Nobel este ano Thiong’o seria, depois de Naguib Mahfouz que escrevia em Árabe, o segundo autor a ganhar um Nobel da Literatura com obras escritas primeiramente numa língua africana e o primeiro na categoria “dialectos” africanos.

Mas talvez África precise de ser a primeira a reconhecer e premiar Thiong’o pelo seu talento, pela sua sua visão e pelo contributo para o desenvolvimento de uma consciência cultural e moral africana. Só depois disso podemos exigir mais dos outros.

Não nos podemos isentar da luta pela resistência à hegemonia das línguas europeias. Que sejamos nós os promotores de produções nas nossas línguas e sobre as nossas histórias.

 

 

 

Diários do Rio

Ou breve história de encontros e desencontros entre Moçambique e Brasil

Dia #1

Aterrei. Finalmente!

o primeiro chão brasileiro é São Paulo. Chego com uma saudade de quem na verdade nunca esteve aqui, mas já ouviu falar, já ouviu dizer e agora vai saber na primeira pessoa. O aeroporto é enorme. Mas não me posso perder, nem perder o vôo. Check-in. Boa noite. Boa noite, tudo bem? Ela analisa tudo, imprime o bilhete e no fim pergunta: V-O-C-Ê-F-A-L-A-P-O-R-T-U-G-U-Ê-S?

Dia #2

Passeio logo pela manhã.

Hello. Good morning. I’m Eliana.Conheço o Jonathan, do The Hollywood Reporter e Travolta Cooper, um cineasta dos Bahamas. Trav nasceu para fazer filmes. O seu nome é uma homenagem ao actor John Travolta. É sempre um conforto não ser a única pessoa preta no grupo. So, you’re from Mozambique. I’ve been to South Africa, Tanzania, Namibia, all around but haven’t been to Mozambique yet. I know about Samora Machel. Samora, sempre ele. Que encontro feliz.

Dia #3

Luzes. Câmara. Acção.

Vejo um turbante de longe, de costas. Olá, o meu nome é Eliana. Adorei o seu turbante. Eu também faço. Que linda. Muito obrigada. Me add no facebook. Você é de onde? Moçambique. Nossa! Que turbantes lindos. Na 2a feira vai passar o filme moçambicano, vocês querem vir ver? Vamos sim! É às 20h no Museu da República. Eu tenho de ir. Está! Combinado, então. Falamos melhor no Facebook. Nos encontramos.

Dia #4

Na Praça Mauá, enquanto espero a exibição do filme “As Marias” (Joana Mariani), visito as feiras do recinto. Vejo uma senhora preta a vender artesanato africano. Que brincos lindos! Obrigada. Quanto é? Quatro reais. Você é de onde? Senegal, e você? Moçambique. Vive aqui no Brasil? Sim, há cinco anos. Você conhece Senegal? Não, nunca fui. Mas quero muito! Tem de ir. Eu vou, um dia eu vou. Da próxima nos encontramos lá.

Dia #5

A nossa vida é como essa viagem perigosa e imprevisível do filme “Comboio de Sal & Açúcar” (Licínio Azevedo). Viver mata. Morrer dói. A guerra nada mais é senão o homem a forçar comando sobre o tempo. Todos nós teremos a nossa hora. No percurso em busca do açúcar, muitos acabam se amargando. Às vezes esquecemos a nossa estação. Perdemo-nos no batucar dos carris. No entrelaçar das linhas.

Dia #6

Tiroteio em Ipanema ontem à tarde.

Na fila da frente da carrinha a caminho do Festival conversamos sobre isso. Sim, é perigoso. Não, não é nada de mais. O mundo continua a girar na mesma direcção e essa violência vai para além das balas. Sente-se também nas conversas. Nos bares. Em shoppings. E até mesmo no cinema.

Na fila de trás os colegas reagem aos acontecimentos com menos leveza e menos relativismo. É brutal. É violento. É sangrento. É o fim do Rio de Janeiro.

Estou perdida.

Arcos da Lapa, na cidade do Rio de Janeiro
Dia #7 
Fui à Lapa, zona baixa da cidade. Longe do glamour e paisagismo de Copa Cabana.
Descobri Lisboas escondidas por lá: nos prédios; nas calçadas; nas ruas estreitas e também na mendigagem e nas rugas dos edifícios que viram a cidade a mudar.
Um dia serei assim como este espaço, com as minhas cores encardidas e sem brilho, as minhas portas e janelas fora de moda e espero conseguir manter a graça e essência que a Lapa tem.
Dia #8
Depois de meses de conversas e trocas online, finalmente abraço a Maria Chantal, irmã angolana que vive no Rio há 16 anos. Sentamos à beira-mar e partilhamos, para além do calor da areia nos pés, uma vontade incessante de falar de África. De Negritude. De representação. De cabelo. De tudo. Molho os meus pés naquele lado do Atlântico e pergunto: Quantas mulheres como eu não estarão enterradas nessa imensidão?
Sinto naquele mar o salgado das suas lágrimas. Gratidão, como diz a Maria. Estar aqui e não estar. Me perder e me encontrar.