Inhassunge é aqui

Picture-0399.jpgO livro “O advogado de Inhassunge” levanta questões tão actuais hoje como o tempo que retrata, de guerra civil e reconciliação.

Através da obra de Luís Loforte conhecemos Luiz Conde do Lavradio Almeida de Leão, um cidadão moçambicano negro do distrito de Inhassunge, na Zambézia, que almejava ser um português branco e gozar de todos os privilégios associados a esse estatuto.

Luiz Conde do Lavradio Almeida de Leão era um solicitador que pretendia ser assimilado e para tal fazia-se usar de um português caro e elaborado, vestindo-se com as melhores roupas que o seu dinheiro permitia e fingindo até não ser esposo da sua mulher, uma negra camponesa, que chega a dizer ser sua empregada.

Enquanto tratou dos assuntos legais de outros negros não teve problemas, no entanto, no momento em que se passa por advogado de dois brancos é perseguido e por isso tem de fugir para o Norte do país, onde adopta uma nova identidade e passa a ser guerrilheiro da FRELIMO.

Durante a sua vida vai-se adaptando às realidades impostas transformando-se em várias pessoas perdendo-se até de si mesmo. Passa de guerrilheiro a oficial de campo de reeducação,  bêbado vagabundo, herói de libertação nacional e por fim deputado.

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Moçambique tornou-se independente em 1975.

Numa dança entre a História e a ficção, Luís Loforte dá-nos a conhecer algumas figuras anónimas que tornaram o sonho (ou pesadelo) de Moçambique possível e leva-nos a questionar os conceitos de identidade, de guerra e até mesmo de nacionalidade.

Numa das passagens mais emocionantes, o protagonista revela a sua frustração com a vida que é obrigado a levar, descrente de qualquer ideal e sem nenhum sonho pela frente:

“Estou cansado de me iludir […]. Agora quero que os outros se iludam por mim, caso desejem […]. No passado, eu iludia-me que era português puro […], mas tive que fugir deles, porque fizeram-me ver que eu não era português nada, que me iludia. Depois, tentei iludir-me que era moçambicano, forcei-me com essa ilusão […]. Todos estes anos eu fui-me libertando de todo o género de ilusões cuja origem era eu próprio. Nunca ganhei nada com ilusão nenhuma.”

À medida que a trama se desenrola e o advogado assume outras identidades, começa a distanciar-se do cinismo e do egoísmo dos seus camaradas. A sua consciência não lhe permite ser cúmplice da corrupção e falta de humanidade da nova elite política moçambicana, que segundo ele não difere da anterior.

A obra evidencia a falácia da Independência como solução definitiva para a construção de um Moçambique totalmente novo. O Moçambique pós-independência revelou-se não ser necessariamente menos repressivo nem menos violento que o Moçambique colonial.

Uma das grandes falhas foi a ilusão do projecto nacional. De facto, nos anos imediatamente posteriores à independência não havia um sentido de Nação. E um dos grandes cismas era a dicotomia “branco-negro”, uma clara herança do passado colonial.

No livro, o autor descreve-nos este insucesso mais à frente, através de um diálogo profundo:

“Para mim brancos e pretos não agarraram o verdadeiro problema do nosso país. O verdadeiro problema é que uns e outros se tomam como entidades; há entidades de brancos e de pretos; começam agora a aparecer a entidade dos mulatos e a entidade dos indianos. Não há uma entidade dos moçambicanos. […] Falta-nos um projecto de todos”

Assim, sem um sentido de fraternidade Moçambique foi novamente palco de uma guerra sangrenta, desta vez entre moçambicanos (negros) e não contra os portugueses (brancos). Por isso é difícil apontar o dedo à culpa. Quem causou tanta dor? Por que morreram tantas pessoas?

Moçambique pós-independência falhou.

As polaridades binárias continuaram a evidenciar-se, muitas vezes até por incentivo das lideranças que numa tentativa de reposição de dignidade e promoção de igualdade, totalizaram esses campos de identidade.

Nos campos da fé, género, etnia, identificação política e raça, entre outros, moçambicanos foram forçados a escolher o seu lado, mesmo sabendo que nenhuma identidade é absoluta.

Ou és negro, ou és branco. Ou és português, ou és moçambicano. Ou estás connosco, ou estás contra nós.

E estas classificações se perpetuaram até hoje, pois fazem parte de um contexto histórico válido e correspondem também a uma série de privilégios ou privações a que um determinado grupo está sujeito.

O advogado de Inhassunge é simultaneamente um guerrilheiro conhecedor do mato. É Luiz, aspirante a assimilado e é também Ndala, nacionalista. É um mendigo bêbado e é igualmente deputado da maior bancada da Assembleia.

Cada um de nós é muitos eus. Moçambique é todos esses muitos.

 

 

 

As negras do quintal

Existe trabalho doméstico ou estamos perante situações de escravidão doméstica?

As negras do quintal eram as mulheres que no séc. XIX/ XX vivam em situação de escravidão doméstica “voluntária” trabalhando sem remuneração, em troca de refúgio e um prato de comida.

Estas mulheres, muitas vezes ainda meninas, eram entregues a famílias abastadas devido às situações precárias dos próprios pais, que sem condições para criá-las, deixavam-nas à mercê da sorte (ou azar) vivendo num canto qualquer do quintal de um casarão.

Como escravas trabalhavam toda a vida com a sua identidade alienada, sem espaço para desenvolver vontade própria ou definir objetivos pessoais para além de trabalharem nas tais casas, os seus “patrões” podiam ceder algumas horas do seu tempo a outras famílias e assim fazer dinheiro com a mão-de-obra das suas negras, como se de um aluguer se tratasse. Isso permitia que os patrões tivessem algum “retorno” do investimento tido no sustento e “treino”da sua funcionária.

Avançamos para o séc. XXI e olhando ao nosso redor vemos uma nova versão dessas negras do quintal nos nossos prédios, nos nossos bairros; nos quartinhos de fundo ou mesmo no chão da sala.

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O trabalho doméstico tem origem escravagista. Fonte: Nã0 Me Kahlo

Durante a época colonial ter empregados domésticos era um sinal de prestígio por ser um privilégio de poucos. E para os empregados era uma oportunidade para aprenderem e viverem como cidadãos dignos, aproximando-se ao ideal de “colonizado domesticado”, que apesar de explorado tece uma admiração profunda pelo seu colonizador, uma situação complicada que nos remete à Síndrome de Estocolmo.

Para as vilas e cidades, onde vivia a maior parte das famílias privilegiadas, afluíam sobretudo jovens migrantes do meio rural, em troca de abrigo e comida na esperança de alguma ascensão social. Alguns deles puderam se assimilar, ou se não eles, os seus filhos.

Depois da independência, com a urbanização das vilas e o crescimento das cidades, novamente do meio rural saíam jovens à procura de uma actividade assalariada e muitos a encontraram na forma de trabalho doméstico.

O trabalho braçal sempre esteve a cargo das camadas mais pobres e vulneráveis da população e por isso é visto como inferior. Por esse motivo, o trabalho doméstico é não só desvalorizado, mas menosprezado, evidente pela arbitrariedade na remuneração demasiado baixa; ilegalidades na contratação, jornadas de trabalho longas; assédio moral; abuso sexual e psicológico; entre outros.

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Em Moçambique mais de um milhão de crianças são vítimas de trabalho infantil. Fonte: Jornal Notícias

Não é por acaso que a esmagadora maioria das pessoas que exercem tais funções são mulheres negras provenientes de zonas rurais. Para muitas delas não foi uma escolha, mas sim uma necessidade que as levou a sair do seu local de origem.

Num contexto em que muitos jovens homens migram para outros países, como por exemplo a África do Sul, para trabalharem nas minas e raramente enviam o suficiente para a família, as mulheres vêem-se obrigadas a procurar alternativas para sair da situação de precariedade em que se encontram.

Isto, aliado ao facto de vivermos numa sociedade em que há tão poucas oportunidades de crescimento e desenvolvimento para as mulheres rurais, a possibilidade de garantirem a sua sobrevivência e dos seus filhos pode representar a única opção válida.

Estas mulheres desconhecem os seus direitos elementares, como privacidade e respeito e por isso facilmente aceitam as condições “oferecidas” pelos patrões na cidade. Outras, não têm voz na decisão pois tudo é negociado com os pais, sobre a desculpa de “ajudar a criar”. Assim, desde cedo começam a trabalhar se expondo a todos os tipos de violência, sem direito a educação nem acesso a serviços de saúde.

Enquanto isso os seus filhos continuam sem condições para sair da pobreza extrema em que se encontram, pois são criados na ausência dos pais, num meio em que a sua educação é negligenciada e não têm apoio emocional e psicológico para sequer sonhar.

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A emancipação da trabalhadora doméstica segundo a artista Mary Sibande. Fonte: The Guardian

É possível ver como a lógica colonial se perpetuou até hoje, em tempos em que famílias de quatro ou mesmo três pessoas se dão ao luxo de ter duas empregadas ao seu dispor.

É comum agora vermos em restaurantes e mesmo festas e convívios familiares casais com as suas crianças e as respectivas babás, muitas vezes uniformizadas ou extremamente mal vestidas, destoando totalmente do ambiente para evidenciar que elas pertencem a outro espaço que não aquele.

Até nos domingos e feriados, para muitos pais os únicos dias que podem passar com os filhos, não conseguem dispensar a sua empregada para ela também gozar de um dia de descanso quiçá também ao lado dos filhos dela.

Os abusos são vários.

Quando viajam também levam consigo as empregadas e raramente pagam aquilo que deviam por isso. É normal em qualquer outro emprego receber-se um valor per diem que cobre pelo menos o dinheiro para a alimentação, estadia e transporte, contudo sabemos que para as empregadas domésticas não é assim, elas raramente sequer escolhem o que vão almoçar.

Se forem empregadas domésticas que dormem no local de serviço, é esperado que elas estejam disponíveis 24h por dia, muitas vezes sem um horário fixo. Porquê? Um engenheiro a trabalhar numa estação petrolífera segue um horário, o mesmo para um marinheiro em alto mar.

E mais, haverá de facto necessidade de ela dormir no local de emprego? Que tarefas precisam de ser feitas à noite e os pais não podem fazer? Será que ela não precisa de estar com a própria família?

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O trabalho doméstico é onde sexismo e classismo se convergem. Fonte: Miss Milli B

As negras do quintal mudaram de nome, mas continuam aqui. São as empregadas domésticas, as babás, as secretárias do lar; as ajudantes; etc. São as mulheres que oprimimos em nome da nossa própria ascensão social.

São as mulheres que “são como se fossem da família”, mas a quem privamos de ter uma vida social saudável, manter relações românticas, buscar uma carreira ou prosseguir os estudos. São as mulheres que desde cedo vivem connosco, mas em locais pequenos, pouco arejados e menos confortáveis; vestem as nossas roupas velhas e comem somente aquilo que nós deixamos. São as mulheres que recebem o nosso mau humor de braços abertos, trabalham horas extras sem reclamar e ainda nos põem os filhos para dormir.

Mesmo de forma disfarçada, a verdade é que estas mulheres têm os seus direitos básicos sistematicamente vedados. É uma opressão disfarçada em laços afectivos, já que tratamos o trabalho que fazem com demasiada informalidade e pintado num discurso de caridade e familiaridade.

Estas mulheres, as “negras do quintal”, são invisíveis à nossa vivência burguesa que consegue pagar viagens mas não paga salários dignos. 

 

 

O curioso caso das (poucas) negras nos vídeos

A música pop africana tem estado a passar uma fase de ouro, com vários artistas a terem reconhecimento internacional fora daquilo que é a “world music”. No hip hop, na kizomba, no RnB e em vários outros estilos musicais, África começa a destacar-se.

Contudo, apesar do som distinto dos sons de hip hop e de kizomba vindos do nosso continente, comparados àqueles de outros locais do mundo, nos vídeos e nos estilos de vida promovidos nada difere.

A nossa criatividade parece não ir tão longe. A imagem da mulher negra nestes espaços continua a ser usada apenas para reforçar estereótipos.

Na cultura pop, o papel da mulher negra sempre foi muito marginal. Apesar as contribuições de mulheres fora do padrão como a Missy Elliott, a maioria das mulheres negras que vemos na indústria musical estão apenas como acessórios para o sucesso de outras pessoas.

São as suas bailarinas, coristas, maquilhadoras, coreógrafas, mas quase sempre o seu papel é apagado.

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O legado feminista de Missy Elliott é subestimado criminalmente. Fonte: Dazed

Em África esta tendência começa a evidenciar-se. É comum nos vídeos das estrelas vermos as protagonistas sendo mulheres negras claras ou até mesmo brancas, com uma ou outra negra escura no plano de fundo ou geralmente hipersexualizada e exotificada ao extremo.

O padrão que estabelece como belo no feminino como as feições europeias e a pele clara está tão enraizado e é tão penetrante que não pode ser visto como mera coincidência. Fazendo uma pesquisa rápida pelo Youtube e observando os vídeos musicais de artistas africanos mais vistos rapidamente fica claro que não é uma questão pessoal, mas sim estrutural.

É uma manifestação do racismo e colorismo presentes na nossa sociedade.

Enquanto o racismo é a sobrevalorização de todos os aspectos e atributos da cultura branca (leia-se Ocidental), já o colorismo caracteriza-se pela discriminação de uma pessoa negra de acordo com a tonalidade da sua pele, privilegiando os tons mais claros e os traços associados às pessoas brancas (cabelo liso; nariz fino; etc).

O colorismo é um problema do qual já falei aquando da campanha “No Make Up” (Sem maquilhagem) da Alicia Keys.  O colorismo manifesta-se, por exemplo, no excesso de manipulação das fotos das mulheres escuras em capas de revista para que fiquem mais claras e até no preterimento das mulheres negras pelas mulheres mestiças.

A pessoa de pele mais clara é tolerada pois aproxima-se mais à branquitude. E é por isso que o colorismo é resultado do racismo.

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O colorismo é visível nas nossas vidas. Fonte: Beleza Black Power

Os artistas africanos também são produto dessa mesma sociedade e como tal, muitas vezes, talvez até de forma implícita, sem se aperceberem perpetuam estes ideais de beleza eurocêntricos.

Tendo como referência outras figuras proeminentes, da Europa e sobretudo dos Estados Unidos da América, os artistas africanos inspiram-se na linguagem figurativa e no imaginário daquilo que é o sucesso e o que o sucesso representa para elaborar as suas próprias linhas de comunicação.

Desta forma, sem desafiar as produções da indústria que já são habituais, as mulheres no geral e em especial as negras, aparecem como objectos muitas vezes sem uma cara, somente em pedaços.

As mulheres negras são usadas como acessórios para validar a desejabilidade sexual dos artistas, mas não para representar pares românticos.

Não há dúvidas que tudo isto tem repercussões na auto-estima e na imagem que as próprias mulheres têm de si mesmas. Embora claro, não possamos depositar toda a responsabilidade na falta de representação na música, não podemos negar o lugar central que a música tem na cultura pop.

Quando os artistas mais famosos não valorizam as mulheres negras, nem mesmo em África, temos um problema. É um desperdício o papel central que tais figuras têm na construção de mentalidades e no seu papel como veículos e manifestações das crenças e ideias em torno da beleza e valor da mulher.

Onde estão as mulheres negras escuras em África? Fonte: This is Africa

É importante que mulheres que todas as proveniências e com experiências diversificadas se sintam validadas, e como tal mulheres brancas em relações interraciais também merecem algum espaço.

No entanto, com tão poucos espaços para ver e celebrar as mulheres negras, temos de exigir mais dos nossos artistas em África. Queremos dançar e cantar ao som de ritmos que não só nos enalteçam, mas enalteçam também a nossa imagem.

Queremos ver um novo protótipo de mulher negra, uma nova imagem de nós mesmas. Queremos quebrar esse padrão eurocêntrico.

Mondlane, um herói improvável

Eduardo Mondlane foi o grande arquitecto da independência de Moçambique.

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Eduardo Mondlane foi fundador e primeiro presidente da Frente de Libertação de Moçambique. Fonte: Frelimo

Um simples pastor filho de um líder local, foi com o apoio da Missão Suíça que teve a possibilidade de seguir os seus estudos na África do Sul, Portugal e por fim Estados Unidos da América, onde se doutorou em Sociologia.

Cresceu, portanto, não tendo outra opção senão se consciencializar sobre a sua posição no mundo: homem, negro, africano, moçambicano. Mas ao mesmo tempo, nascia nele também a consciência de valores e direitos mínimos para a prosperidade de todos os seres humanos.

À semelhança da independência da Tanzânia (1961) e da Zâmbia/ Malawi (1964), Mondlane queria uma independência pacífica. No entanto, o Estado Português não cedeu pacificamente a independência das terras que ocupava ilegalmente.

O seu desejo pela autodeterminação do povo de Moçambique levou-lhe, em 1962, a unir todos os movimentos de libertação num só, formando assim a FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique) e foi ele o seu primeiro presidente.

Concluindo que não seria possível alcançar a independência sem recurso às armas, em 1964 a FRELIMO começa os primeiros ataques de guerrilha. Com o apoio da Tanzânia, da Argélia e de outros países africanos e não só, Mondlane conseguiu desenhar e implementar uma estratégia sólida para derrubar as tropas portuguesas em Moçambique.

Infelizmente Mondlane não viu o seu sonho realizado. Foi assassinado a 3 de Fevereiro de 1969 – motivo pelo qual hoje celebramos o Dia dos Heróis- ao abrir uma encomenda com uma bomba preparada em Lourenço Marques pela PIDE.

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Funeral de Eduardo Mondlane, em Dar Es Salaam, Fev. 1969. Vê-se Julius Nyerere, Presidente da Tanzânia, Janet Mondlane, viúva de Mondlane e os três filhos do casal. Fonte: The Delagoa Bay

É importante referir que com a morte de Mondlane o próprio destino da FRELIMO se alterou drasticamente.

A liderança de Mondlane, um homem religioso, académico, conservador, chocava com os membros mais radicais  da FRELIMO. Mesmo na Tanzânia, onde a FRELIMO tinha a sua base e outros movimentos guerrilheiros se encontravam, vários desses movimentos se voltavam para a esquerda.

Era também da URSS que vinha grande parte do armamento e treino da guerrilha da Frelimo. No entanto, Mondlane, que tinha vivido nos EUA tinha uma posição mais pró-Ocidental. Mas a aproximação com os EUA era praticamente impossível, já que o mundo se dividia em dois blocos distintos e a quebra de alianças poderia pôr em causa todo o projecto de libertação de Moçambique.

Em meados dos anos 60, num contexto de bipolarização global, em que a disputa entre o Ocidente e o Bloco de Leste pelo domínio do Terceiro Mundo se intensificava, a posição neutra e cautelosa de Mondlane destoava do resto. Com a sua morte em 1969, há uma viragem da FRELIMO para uma esquerda radicalizada.

Por outro lado, o seu casamento com Janet Mondlane, uma mulher branca americana, não era bem vista por muitos. A relação interracial evidenciava o cosmopolismo de Mondlane como um jovem africano intelectual, mas também o colocava numa posição de “diplomata” em vez de “guerrilheiro”.

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Eduardo Mondlane era um docente com cara de guerrilheiro e um guerrilheiro com cara de docente. Fonte: Eduardo Mondlane and Social Sciences

É importante recordar Mondlane como o exímio investigador que ele foi. Como um dos primeiros africanos, e certamente um dos poucos moçambicanos que nessa altura chegou tão longe, destacou-se pela sua excelência na vida académica.

A questão racial e identidade nacional na vida social foi o seu grande objeto de estudo, tanto durante o Mestrado como durante o Doutoramento.

Como um jovem africano intelectual, ao sair da sua aldeia na província de Gaza deparou-se com um mundo marcado por choques e contrastes. As suas origens humildes, sem qualquer privilégio permitiram-lhe ter um sentido muito sólido da sua africanidade e da sua cultura.

Foi esse sentido e orgulho da cultura africana que permitiu que ele estudasse, nos E.U.A, a questão racial sem se preocupar em procurar uma identidade negra, ao contrário dos seus colegas afro-americanos. E foi esse mesmo sentido que despontou a necessidade de fazer da independência seu projecto pessoal.

Mondlane era por isso um patriota, no sentido em que tinha um orgulho muito forte das suas raízes e estava disposto a deixar (e deixou) tudo para lutar pelo seu país e também como nacionalista, pois formou um projecto de unificação de Moçambique e de formação de Moçambique como nação.

Pela sua elegância, inteligência e perspicácia Mondlane representava uma ameaça à altura dos líderes ocidentais. Era um líder charmoso, bem educado, bom orador e ciente da sua identidade e dos seus objectivos.

Mondlane seria um líder progressista que teria liderado um movimento pacífico e feito uma transição sem sobressaltos, contudo, a História quis que ele liderasse uma guerrilha impedindo-o de fazer aquilo que era o seu desejo: desenvolver Moçambique e criar uma elite intelectual capaz de governar e elevar o país.

Por não ter tido tempo de fazer tudo isso, por ter sido obrigado a abandonar esse propósito, por não ter tido a chance de ser o herói que ele queria ser, por esses e pelos outros sonhos que ficaram por realizar: Obrigada.

Escolher o Terceiro Mundo

Por que muitos de nós voltaram e alguns nem sequer partiram?

Quando dizemos que somos de um país do Terceiro Mundo, parece que as perspectivas e expectativas que as pessoas têm para nós se fecham.

Primeiro vem a piedade. Apesar de essa denominação ter mudado para “países em desenvolvimento”, ambos os conceitos carrega consigo o mesmo estigma e miséria. Depois da piedade vem a pergunta “E como é viver aí?” ou pior “Por que é que vives aí?”

Por mais estranho que pareça, ainda que haja oportunidades para sair, há quem queira ficar. Ou quem saia e regresse – como eu.

Viver no Terceiro Mundo é diferente de viver no Primeiro Mundo. Essencialmente viver num país em desenvolvimento significa que temos as nossas opções mais limitadas.

Os elementos fundamentais para a sobrevivência de uma determinada comunidade, tais como água; comida; roupa; educação; saúde; electricidade; etc são mais escassos. Também não temos infraestruturas que facilitem a distribuição destes bens, criando um fosso entre as zonas que têm os recursos e aquelas que não têm.

Para além disso, geralmente os países do Terceiro Mundo são famosos pelos altos níveis de corrupção e falta de transparência (e competência) das lideranças.

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Fim do terceiro mundo? Fonte: World Bank
Para quem, como eu, já teve o privilégio de sair e viajar para alguns países eu posso com toda a certeza dizer: há vários Terceiros Mundos. Há países semi-industrializados com um rendimento médio perto da média mundial e há países em conflitos, em bancarrota que são do Terceiro Mundo.
Moçambique, Tailândia e Brasil são países completamente diferentes, mas todos eles estão nessa categoria. Há um espectro enorme de pobreza (e riqueza), mesmo dentro de cada um desses países. Em termos materiais há pobres com casa própria, e ricos sem casa própria. Há ricos desempregados e pobres que trabalham todos os dias.
As pessoas pensam que o sonho de qualquer pessoa de um país em desenvolvimento é fugir, mas isso não é verdade. Há quem seja muito feliz aqui.
De longe parece que nós vivemos muito mal e que não temos qualidade de vida. Parece que o estilo de vida do Primeiro Mundo é a forma correcta de se viver e que nós queremos apenas mimicar isso.
Contudo, a verdade é que o Primeiro Mundo também não é perfeito. Nós sabemos que saindo daqui para viver num país dito desenvolvido não quer necessariamente dizer que os nossos problemas serão eliminados.
O que distingue o Primeiro e o Terceiro Mundo é a proximidade e atenção que se dá à Pobreza. No seu blog, Seth Godin, explica que são esses factores que estão na base desses conceitos.
Nós sabemos que em todos os países existe pobreza, embora no Primeiro Mundo esteja mais camuflada. Para além disso, ir para o Primeiro Mundo muitas vezes significa enfrentar racismo, choque cultural e afastamento da família, para além de todos os entraves institucionais (acesso a saúde; documentação; emprego; etc).
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Criminalização de sem-abrigo avança pela Europa. Fonte: Público
As pessoas chocam-se com a alegria e felicidade de pessoas do Terceiro Mundo, daí todo o sucesso da pornografia da pobreza. Mas não devia ser tão difícil assim entender que as pessoas podem ser felizes na sua realidade, mesmo se essa realidade parecer insuportável.
Muitos de nós adoram a vida que levam e acreditam que aquilo que fazem irá fortalecer e melhorar as condições de vida. Muitos de nós adoram a forma tradicional/ convencional de fazer as coisas, e isso vai desde algo tão simples como levar a loiça (que a maioria das pessoas faz manualmente) até algo maior como celebrar um casamento, em que incorporamos a cerimónia do lobolo.
Eu alegro-me ao saber que, apesar de os nossos hospitais e do sector de saúde como um todo estar cheio de insuficiências, todos os anos milhares de estudantes se candidatam ao curso de Medicina.  
Alegro-me ao perceber que, mesmo sem salas de aula ou carteiras, os professores todos os dias acordam para ensinar  o B-A-BÁ aos seus alunos. 
Alegro-me ao pensar que, mesmo sem dinheiro para comprar uma mochila ou cadernos para as crianças, os pais inscrevem os seus filhos na escola.
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Maputo é uma cidade viva e hospitaleira. Fonte: Alma de viajante
 
Existem muitas, muitas razões para ficar aqui. O sentido de pertença e de comunidade é muito forte, talvez mais forte que o descontentamento com a falta de escolhas.
Eu não trocaria a minha manga saborosa, suculenta, comprada na rua pela manga artificial e cheia de água, cortada e embalada, do supermercado. Não trocaria isso pelas ruas limpas e organizadas do Primeiro Mundo, porque as pessoas são mais impacientes, intolerantes e materialistas.

Apesar dos problemas de acesso à saúde; da escassez de boas opções de escolas; e das péssimas condições urbanas, de habitação e saneamento, eu adoro a vantagem de poder sorrir, abraçar e conversar com virtualmente qualquer pessoa, adoro a força e perseverança das pessoas ao meu redor e do sentimento de conquista global quando um único indivíduo se sai vitorioso.

Amílcar hoje

Amílcar Cabral foi o líder da libertação de Cabo Verde e Guiné Bissau, assassinado a 20 de Janeiro de 1973 antes de ver a independência das (ex) colónias africanas de Portugal.

Agrónomo, revolucionário anti-fascista, guerrilheiro e panafricanista, Amílcar Cabral marcou a História pelo seu papel central na luta pela auto-determinação dos povos de Cabo Verde e de Guiné Bissau que viviam sobre o domínio português.

Como um dos fundadores do PAIGC (Partido Africano da Independência da Guiné Bissau e Cabo Verde), foi um dos mais bem sucedidos líderes de uma revolução de guerrilha, tendo em algum momento dominado grande parte do território guineense (cerca de 70%) antes de Portugal concordar em ceder o poder a quem era de direito.

 

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Amílcar Cabral continua a ter impacto em movimentos contemporâneos. Fonte: Pambazuka

 

Enquanto estudante universitário em Lisboa, estabeleceu contacto com Agostinho Neto e Eduardo Mondlane que viriam a liderar movimentos de libertação em Angola e Moçambique, respectivamente.

Fez parte, em Lisboa, da Casa dos Estudantes do Império, que se tornou num centro de valorização das culturas africanas. Foi aí que se estabeleceu o contacto entre Cabral e outros intelectuais contemporâneos, tais como Marcelino dos Santos, Mário de Andrade, Noémia de Sousa e Alda Espírito Santo, entre outros.

Foi esta elite que deu origem ao Centro de Estudos Africanos e deu início ao processo de consciencialização das então colónias portuguesas, através do qual se estabeleceram movimentos de libertação.

Este pequeno grupo privilegiado de estudantes universitários oriundos de diferentes pontos do continente africano foi capaz de não só questionar a lógica colonial, mas mais do que isso, mobilizar forças para dar um fim definitivo ao colonialismo português.

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A união entre os movimentos de libertação foi uma peça central. Fonte: Via Atlântica

A ligação entre os movimentos de libertação foi de grande importância para o sucesso das lutas pela independência.
Mas Cabral destacou-se sobretudo pela sua articulação e pelo trabalho que fez como questionador do seu tempo, teorizando grande parte das suas visões para África.

O que mais marca Cabral é o papel que ele dá à valorização das culturas nativas. Segundo ele, a cultura é o fundamento da luta anti-colonial na medida em que só se libertam os povos que vêem a sua capacidade de criar e praticar cultura limitada.

Ou seja, a subjugação de uma cultura nativa face à imposição de uma cultura estrangeira é que obriga uma determinada sociedade a lutar pela sua libertação.

 

De uma forma alargada, muito daquilo que se fala hoje sobre a globalização e neo-colonialismo já tinha sido antecipado por Cabral. Só se pode dizer livre um povo que é capaz de negar influências negativas de outras culturas de modo a preservar a sua cultura e a sua identidade.

Na sua compreensão do mundo ele vai para além das ideias do Homem Novo que muitos movimentos revolucionários da época defendem, e projecta um resgate dos valores e hábitos tradicionais africanos.

Para ele é central o papel da cultura para a resistência anti- imperialista e daí a necessidade de criar espaço para a cultura, através da luta, restaurar as pessoas oprimidas e transformá-las em agentes completos da sua própria história e identidade.

 

“Nós queremos entretanto exprimir claramente o seguinte: nós não confundimos a nossa luta, na nossa terra, com a luta do povo português. Estão ligadas, mas nós, no interesse do nosso povo, combatemos contra o colonialismo português. Liquidar o fascismo em Portugal, se ele não se liquidar pela liquidação do colonialismo, isso é função dos próprios portugueses patriotas, que cada dia estão mais conscientes da necessidade de desenvolver a sua luta e de servir o melhor possível o seu povo.”

O desmoronamento do Estado Novo em Portugal, embora não fosse a finalidade do trabalho de Cabral e dos seus contemporâneos, acabou sendo um dos resultados da sua luta.

O colonizador inevitavelmente acabou sendo libertado pelo colonizado. Para Cabral, isso era previsível pois a revolução opunha mais os povos dominados aos dominadores, desafiando a própria essência da ditadura fascista, do que opunha o proletariado (colonizados) à burguesia (colonizadores).

Pode-se dizer, portanto, que não foi Portugal que libertou as colónias, mas sim foram as colónias que libertaram Portugal. Na medida em que através da defesa da sua auto-determinação e da exigência do reconhecimento da sua humanidade plena puseram em causa a própria natureza do Fascismo Português, destruindo-o.

 

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É importante perceber como, para Amílcar Cabral, a luta armada pelo fim do colonialismo, não termina na declaração da independência. Para ele, era preciso compreender dilemas persistentes como a ligação cultural entre os povos africanos e o povo português (que ele sempre separou do Estado Português), bem como as ideias de construção de Estado num contexto de pan-africanismo.

Embora panafricanista, Cabral rejeitava a ideia de se tratar da África Negra como um espaço homogéneo. O panafricanismo de Cabral defendia as especificidades de cada nação africana e o seu estudo de forma isolada.

A dimensão de libertação de Cabral ia para além da auto-determinação a nível da organização política,mas passava também sobre a auto-descoberta da cultura nativa e do seu desenvolvimento. Por isso é tão importante revisitá-lo hoje, 44 anos após o seu assassinato.

O legado político de Amílcar Cabral vai para além do seu estudo crítico dos desafios e ameaças dos movimentos de libertação africanos dos anos 50 e 60.

Ao explorar as a centralidade da cultura e da identidade, bem como ao desafiar as noções de imperialismo e colonialismo, Cabral obriga-nos a observar o panorama social actual e a reconhecer padrões idênticos àqueles que ele lutou para derrubar.

O seu pensamento é relevante e contemporâneo para falarmos de apropriação cultural, de movimentos migratórios e de novas formas de domínio dentro do próprio continente africano.

 

 

Para entender o Feminismo em África

Há um distanciamento ideológico dos africanos face ao Feminismo devido a uma falsa ideia de tradição e um desconhecimento da nossa História pré-colonial.

Sempre fico um pouco triste quando converso com pessoas e percebo o seu desconforto em falar de feminismo ou assumirem-se feministas, porque nós já tínhamos na nossa vivência formas de estar fora do padrão patriarcal.

A arrogância das feministas ocidentais ao debaterem África, assumindo as suas realidades como “certas” ou como “modelos” não dá espaço para o estudo dos nossos feminismos, da nossa filosofia africana tradicional.

As feministas ocidentais sempre falaram em nome de todas as mulheres, como se conhecessem as experiências de todas as mulheres, ou pior, como se as suas experiências fossem universais.

Na verdade as relações de género diferem bastante, daí a necessidade de interseccionalidade. Não existe uma única experiência de mulher, mas sim várias.

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Temos de descolonizar o feminismo.
Embora de forma generalizada possamos todas assumir que vivemos numa sociedade que privilegia o masculino, há que reconhecer as nossas diferenças. Uma das grandes diferenças é a exploração da sexualidade como meio para alcançar o domínio e o poder.

Por exemplo, nas mulheres Makhua os ritos de iniciação e técnicas corporais como o alongamento dos lábios vaginais e o pompoarismo, têm como fins eróticos e estéticos que visavam a maximização do prazer da mulher. Através dos ritos de iniciação era possível passar este papel da sedução e do desejo como ferramentas para fazer política, tanto a nível intra-género, em que as mulheres mais velhas mostravam a sua autoridade pelas mais novas e também a nível inter-género, ao usar a arte do sexo para dominar o masculino.

No feminismo ocidental, pelo papel da Igreja e os conceitos puritanos de moral e de finalidade do sexo, houve uma demonização do sexo e por isso os poderes sexuais são um ponto até hoje de muito debate e polémica. A sexualidade da mulher deve ser reprimida para ser aceite, assim, uma mulher que reconhece, assume e faz uso do seu poder sexual é vista como devassa e é símbolo da degradação moral da sociedade.

Neste caso, o feminismo ocidental ofusca o sexo e o erótico numa nuvem de culpa, medo, vergonha e desprezo que impede uma visão saudável do sexo como ferramenta para fazer política. Daí o falso moralismo e cinismo em torno do trabalho sexual (pornografia; prostituição; etc), visto que é um tema tabu cujas opiniões continuam polarizadas no que diz respeito ao reconhecimento da sua existência e da sua legitimidade.

Outro elemento diferenciador é a existência de sociedades matrilineares. No Norte de Moçambique, especialmente no período pré-colonial, era comum a linhagem/ descendência ser contada pelo lado materno. Eram os homens que abandonavam as suas zonas de origem e passavam a viver com a família da esposa após o matrimónio. Os filhos do casal também levavam o apelido do tio materno e a mulher assumia a liderança na sua comunidade.

Adicionalmente, nas culturas matrinineares, nomeadamente Yao e Makhua, eram (e ainda são) praticados os ritos de iniciação tanto para os meninos como para as meninas, como ritual de passagem da infância à fase adulta. E nestes ritos era onde os conceitos de masculinidade e feminilidade eram passados.

Para as meninas, era um espaço de autonomia onde podiam partilhar as suas dúvidas e inquietações e ouvir das mulheres mais velhas conselhos e informações sobre o seu corpo, gestão do lar, cuidados de saúde; educação dos filhos, etc.

Esses momentos de partilha e sororidade entre mulheres, em privado, longe dos olhares dos homens, eram inexistentes no contexto ocidental. Os ritos de iniciação permitiam incutir na menina um sentido forte de pertença e poder, desde cedo, domando-lhe de ferramentas para liderar a sua família e a sua aldeia.

Havia portanto um poder feminino. Nós tínhamos sociedades lideradas por mulheres em que cada um – homem e mulher – tinha os papéis bem definidos, sem necessariamente haver submissão por parte da mulher (ou sequer do homem).

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Mulheres macuas dançando Tufo. Fonte: Daniel Camacho
É importante enquadrar os paradigmas africanos dentro de um Feminismo que englobe questões específicas das realidades locais. Fará sentido um debate em torno da liberdade da mulher realizar trabalho remunerado, por exemplo? Poderemos encarar isso uma parte central do feminismo em África?

A mulher negra sempre pertenceu à força de trabalho. Aliás, é esta a grande tese de Sojourner Truth no seu discurso “E não sou uma mulher?” (Ain’t I a woman, originalmente), em 1851 na Convenção dos Direitos das Mulheres nos EUA, quando ainda existia a escravatura e as mulheres brancas lutavam para serem vistas como seres humanos capazes de trabalhar e assumir responsabilidades.

Em África, e mais especificamente em Moçambique, o trabalho no campo sempre foi feminino por excelência. Encarava-se a mulher como criadora da vida, e por isso, reprodutora por natureza. Nesse sentido, o seu domínio se estendia também à fertilidade da terra. Por isso a sua participação na produção agrícola era central, não só por uma questão económica, mas também pelo sentido espiritual.

Com a instauração do colonialismo e de um sistema económico monetarizado houve uma desorganização dos modelos tradicionais de autoridade, de género e de organização política. É importante lembrar também que a abertura do mercado de trabalho transnacional nas minas da África do Sul levou à saída de muitos homens jovens, deixando as mulheres sozinhas nas aldeias onde tiveram de assumir papéis tradicionalmente masculinos – mesmo nas sociedades patrilineares.

Os processos de descolonização, por sua vez, pela influência das teorias ocidentais também não permitiram o resgate dos valores tradicionais ou sequer o seu entendimento, pelo contrário, em muitos casos, como em Moçambique o sistema socialista gritou bem alto “abaixo o lobolo! abaixo ao feudalismo! abaixo aos ritos de iniciação!”, esquecendo o papel estruturante destes elementos como a base de identidades moçambicanas.

Numa tentativa de unificação e consolidação de uma Nação, paradoxalmente, ignoraram-se estilos de vida tradicionalmente moçambicanos. Para os arquitectos da nação, o poder masculino representava a modernidade e o progresso, enquanto formas não ocidentais e e/ou não patrilineares representavam o atraso.

Deste modo, em benefício do projecto nacional estabeleceu-se uma ordem patriarcal na qual o homem seria inquestionavelmente o chefe da família, provedor e autoridade máxima, apagando por completo formas alternativas de estrutura social, em prejuízo das mulheres.

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Rainha Nzinga é considerada líder da resistência africana. Fonte: Geledes
Podemos concluir que os processos de modernização podem provocar tanta ou maior exclusão que os padrões tradicionais. Encaram-se as estruturas sociais pré-modernas como fonte de todo atraso e opressão e a modernização como intrinsecamente libertadora, o que não é verdade. Repito: a modernização, ou, por outras palavras, a “ocidentalização” não é necessariamente libertadora.

As dissemetrias de género e as próprias categorias de género e de sexualidade são fruto dessa ocidentalização e em muitos casos não se adequam às tradições africanas, como no caso da cultura Igbo (Nigéria).

 

Já existiam feministas aqui, antes de chamarmos o Feminismo por esse nome. Perguntem só à Rainha Nzinga do reino de Ndongo; à Huda Shaarawi do Egipto; à Funmilayo Anikulapo-Kuti da Nigéria; e a tantas, tantas outras.

E nós ainda estamos aqui.

Em busca da liberdade sexual

A luta das mulheres pela soberania da própria sexualidade é constante.

Quando assumimos propriedade da nossa sexualidade e expressamo-la livremente, somos conotadas como vadias, desvalorizadas, contudo é esperado que o sejamos. É aquela velha coisa “Santa na rua. P*ta na cama”.

Somos socializadas para acreditar que devemos ser virgens e que nos devemos afastar de qualquer contacto sexual. No entanto, simultaneamente, nos é exigida uma performance sexual excepcional e sofremos pressão para dar prazer sempre.

Este dilema para as mulheres negras é ainda mais forte. A mulher negra é ao mesmo tempo a figura menos valorizada no que toca à beleza e desejabilidade, e é também aquela mais objectificada e com a sexualidade mais alienada.

 O corpo feminino negro é hipersexualizado e por isso existe a ideia da disponibilidade e perversidade sexual inquestionável da mulher negra. Nesse sentido, o processo para que a soberania sobre a própria sexualidade seja retomada requer um esforço acrescido para incorporar a componente racial.
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Saartjie Baartman foi uma mulher sul-africana traficada e explorada como atracção de circo no séc. XIX devido ao seu corpo

Tal como já tinha referido, aquando da polémica  em torna da vitória de Semeneya nos Jogos Olímpicos, o padrão de mulher dominante define a Mulher Ideal como branca, cisgénero e heterossexual, de tamanho pequeno, com aspecto frágil e dócil. Como tal os traços naturais da Mulher Negra apresentam uma inconformidade aos critérios do Imperialismo Branco.

As feições do corpo da mulher negra são vistas como marcas de algo selvagem. Mas os mesmos lábios grandes e glúteos avantajados, numa mulher branca são desejáveis. Basta vermos como Kim Kardashian e a sua irmã Kylie Jenner fazem sucesso com alguns traços tradicionalmente negros.

O corpo da mulher negra está sempre na posição do “outro”, é exótico; diferente. E a mulher negra é proibida; pecaminosa, inadequada para matrimónio ou monogamia. Em países com forte legado esclavagista, como o caso do Brasil e dos EUA, é gritante o caso de homens negros bem sucedidos casados com mulheres brancas, ou no mínimo negras claras. Isso não pode ser coincidência. Não é uma questão de preferência pessoal, mas sim de discriminação sistemática.

No entanto, esses mesmos homens, usam-se do corpo da mulher negra para fazer dinheiro. A mulher negra está nos seus vídeos, fazendo danças eróticas e deitada com eles na cama. Mas raramente como um ser humano completo, dignificado e real.

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O corpo da mulher negra é o campo de batalha onde se manifestam as contradições e incoerências do Patriarcado.

Por um lado somos invisíveis, pois nas revistas, na TV e até no mercado erótico, prevalecem as mulheres brancas. Elas são o protótipo de corpo desejável. E por outro lado, as características mais desejáveis são comuns nos corpos de pessoas negras (seios largos; bunda grande; lábios carnudos; etc), mas apenas se estas características forem branqueadas. Até existem produtos dedicados ao clareamento de partes do corpo mais escuras (axilas; cotovelos; mamilos; genitais; etc).

Então as qualidades sexualmente desejáveis são sempre aquelas associadas ao corpo da mulher branca e as características são aquelas da mulher negra.

Numa sociedade que lucra com as inseguranças das mulheres, estar confortável com o seu corpo pode ser revolucionário.

É por isso compreensível que para muitas mulheres negras é na exploração da sua sexualidade que se sentem mais empoderadas, pois é aí que reside o seu valor.

É o caso de Bernice Burgos. Ou, já que falamos nas Kardashians, de Blac Chyna. Ambas são mulheres cuja carreira está intimamene ligada ao imaginário da sociedade no que diz respeito à (in)saciabiliade sexual da mulher negra.

A mulher negra é quente. É sexual. É promíscua. É boa de cama. Estas mulheres correspondem às expectativas do corpo da mulher negra.

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Bernice Burgos causou polémica quando visitou Angola. Fonte: Rede Angola

Os espaços de prazer e de desejabilidade não nos são acessíveis, e como tal,  precisam de ser criados outros alternativos longe das noções de inferioridade ou estereótipos previamente definidos.

Num mundo em que o corpo da mulher negra é forçado a ser “domesticado” para se assemelhar à mulher branca, uma tentativa de fazer dessa prisão um espaço de empoderamento pode ser libertador para algumas mulheres.

 

5 livros para o Ano Novo

Pouco posso dizer sobre o ano que nos despede, e menos ainda sobre o ano que se aproxima. Deixo por isso estes 5 livros que me marcaram muito em 2016, cada um com a sua particularidade mas todos eles especiais e dignos de um espaço nesta lista.

Espero que em 2017 eles tenham o mesmo impacto que tiveram na minha vida, na vida de outra pessoa.

Under the Udala Trees – Chinelo Okparanta

“Com um homem a vida é difícil. Sem um homem a vida é ainda mais difícil”

Esta frase resume bem parte do dilema em que vive Ijeoma: entre viver numa sociedade patriarcal casada com um homem, mesmo sendo infeliz ou viver numa sociedade patriarcal e homofóbica com uma mulher e tentar ser feliz no meio de tanto ódio.

Este livro é um emocionante romance que retrata a vida da jovem Ijeoma, uma menina e mais tarde mulher nigeriana nos anos 70 e 80. Ijeoma vê-se em conflito com a sua religião, a sua família e a sociedade em que vive à medida que vai descobrindo a sua sexualidade.

Nervous Conditions – Tsitsi Dangarembga

“Podes cozinhar livros e alimentá-los ao teu marido? Fica em casa com a tua mãe. Aprende a cozinhar e a limpar. Planta vegetais.”

Durante o período pós-colonial no Zimbabwe, Tambu, uma menina de 14 anos, toma posse da sua voz e conta a sua versão dos factos que lhe levaram a libertar-se do fatídico destino de ser apenas mais uma mulher perdida no mato, sem estudos nem profissão.

Mais do que isso, através de Tambu conhecemos outras mulheres, cada uma com uma história para contar apesar das adversidades de um mundo dominado por homens. O livro permite-nos entender e até perdoar as escolhas de todas elas.

Efuru – Flora Nwapa

“Uma boa mulher é aquela que te cumprimenta vinte vezes se te visse vinte vezes num dia.”

Neste livro, do qual já falei aqui no blog, conhecemos a trajectória de Efuru desde a sua juventude, com o ritual da circuncisão feminina, até ao casamento, a maternidade e por fim a sua resignação face às expectativas da sociedade para com as mulheres.

A tragédia de Efuru é a sua inabilidade de se encaixar no padrão de “Boa Mulher, pois apesar de ser uma mulher carinhosa, prestativa e tradicional, não é mãe.

We Need New Names – NoViolet Bulawayo

“Porque nós não estávamos no nosso país, nós não podíamos usar as nossas próprias línguas, então quando falávamos as nossas vozes saíam feridas.”

Darling narra as aventuras dos seus amigos no Zimbabwe, na era pós-colonial. Toda a primeira parte do livro é-nos descrita pelos olhos inocentes das crianças que nada conhecem para além da sua pobreza e miséria.

Posteriormente Darling viaja para os Estados Unidos da América, onde espera viver longe da tristeza, choque e terror do seu país, no entanto percebe que o sonho americano não passa de uma fantasia e é obrigada a enfrentar a dura realidade de ser imigrante.

Difficult daughters – Manju Kapur

“Uma mulher sem o seu próprio lar e família é uma mulher sem amarras”

O livro segue três gerações de mulheres indianas, partindo da perspectiva da mais nova a tentar descobrir e perceber a sua mãe, Virmati.

A história é acima de tudo sobre a luta pela liberdade: a descolonização da Índia; a possibilidade de estudo para as mulheres e a vontade de poder ser mais do que a sociedade deixa. Virmati é o centro desta encruzilhada entre a tradição e o moderno; o individual e o colectivo, e o futuro e o passado.

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Livro Difficult Daughters na minha cabeceira.

Bónus: Boy, Snow, Bird – Helen Oyeyemi 

“Por razões que cá eu sei, eu tomo nota da forma como as pessoas se comportam quando estão perto de espelhos.”

Este é um conto de fadas muito peculiar que decorre nos EUA, nos anos 60 quando a segregação racial ainda era uma realidade. Os caminhos de três mulheres se cruzam, num mundo mágico e surreal, em que é impossível escapar ao mundano.

A autora consegue explorar temas como o racismo; colorismo e sexualidade, com uma naturalidade envolvente.

Ainda sobre a violência

A construção de conceitos de masculinidade tóxicos começa nas nossas casas, mesmo antes dos nossos filhos nascerem.

Estou grávida. É menino. Logo vou a correr comprar uma mantinha azul e uns carrinhos para ele brincar.

Eu sei que ele adora super heróis, o seu quarto será decorado com o Homem Aranha. O tema da sua primeira festa será Super Homem, porque o meu filho é forte e invencível. Todos os seus brinquedos vão reforçar esta imagem dele próprio.

Quando ele for brincar de forma brusca com as amigas meninas, direi que é assim mesmo que se domina uma mulher. E se ele por ventura cair e se magoar, não o deixarei chorar. O que é isso? Homem não chora! Também não permitirei que meu filho seja um rapaz sensível, afinal de contas isso é coisa de mulher.

E terei o meu filho macho perfeito: forte; insensível e frio.

Desde cedo, os nossos rapazes aprendem que masculinidade é um estatuto desejado, pois representa poder, dominância, controle.

“O primeiro acto de violência que o Patriarcado exige dos homens não é violência para com mulheres. Em vez disso, o Patriarcado exige que todos os homens cometam actos de auto-mutilação psicológica, exige que eles matem as partes emocionais deles mesmos. Se um indivíduo não é bem sucedido em se mutilar emocionalmente, ele pode contar com os homens dos Patriarcado para praticarem rituais de poder que assaltarão a sua auto-estima.” – bell hooks

Embora aquilo que chamamos de masculinidade tenha também a sua componente biológica, requer uma constante validação social. Essa validação social basicamente comprova que para “ser homem” não basta “nascer” homem, há uma série de comportamentos e valores que a pessoa deve incorporar na sua vida.

Alguns dos comportamentos mais inofensivos e comuns que promovemos nos homens de modo a validar a sua masculinidade prendem-se com desporto; competitividade e sexualidade. Por exemplo, um homem muito macho geralmente pratica algum desporto e/ou tem várias parceiras sexuais.

Em contraposição, a construção da feminilidade é feita através da sensibilidade; da submissão e da emoção. Uma mulher que se preze é sensível, emociona-se facilmente (passando até por histérica ou louca) e submete-se ao poder masculino.

Sendo a masculinidade algo que só existe se for validado, é importante haver um ritual, um espectáculo. Por isso é comum o uso público da agressão e/ou violência, já que a força física é uma importante componente do conceito de masculinidade.

É geralmente através da força que muitos homens impõem a sua masculinidade na sociedade. E a presença constante da violência é a maior prova disso.

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Os ritos de iniciação são momentos em que se põe à prova, de forma bem clara, o que é permitido dentro desse espaço de “masculinidade”. Fonte: Afritorial

Como sociedade nós colocamos essas expectativas nos nossos homens. Somos cúmplices nessa construção de masculinidade que obriga os homens a silenciar o seu lado emocional e a colocarem-se no lugar de provedores invencíveis.

O que acontece então ao homem que não conseguir corresponder a tais expectativas? O que é do homem que não consegue provar vezes sem conta a sua masculinidade? O que faz o homem para preservar o ‘pouco’ que resta da masculinidade perdida?

É altura de questionar as interacções que ocorrem entre os vários intervenientes e em diversos contextos (casa; escola; trabalho; família; etc) que implicitam noções problemáticas de género e de poder.

Os homens de hoje são criados dentro de um espectro limitado de possibilidades. Através da socialização lhes é ditado o que é e não é permitido ser e sentir. As instituições e papaéis sociais já estão definidos e perpetuam mitos e estereótipos.

A boa notícia é que normas sociais são criadas por nós e por nós aprendidas. Nessa lógica, é possível desaprender também. É possível pensar em modelos de masculinidade que se baseiam em algo para além da força e dominância.

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Homens usam violência para ganhar poder e controle sobre alguém que consideram inferior na hierarquia social (seja mulher; alguém mais novo; filho; etc). Fonte: The African File

Enquanto não desafiarmos visões, valores e crenças que delimitam aquilo que é masculinidade e aquilo que é feminilidade, estaremos sempre a viver em situações perigosas tanto para os homens como para as mulheres.

Procurar mudanças nos conceitos de masculinidade (e por tabela de feminilidade) possibilitará a libertação dos corpos e vidas de mulheres que há muito são os campos de batalha onde estas forças se manifestam.

Uma nova forma de viver -e ensinar- a masculinidade é uma oportunidade para desenvolver nos nossos homens conhecimento e aptidões multi-dimensionais, que lhes permitirão serem pais, filhos, tios, primos, professores, médicos, dançarinos, cantores ou o que quer que eles queiram ser, mais presentes, mais sensíveis, mais compreensivos e sobretudo, mais humanos.