Glamourização da Pobreza

Reynaldo Gianecchini esteve recentemente em Moçambique glamourizando a nossa Pobreza como manda a praxe.

São várias as celebridades que viajam para África com dois objectivos bem distintos: férias de luxo ou trabalho voluntário.

A primeira categoria acontece sobretudo fora das grandes cidades, em ilhas semi-desertas e privadas, de pouco acesso para nós, pobre locais – ainda que sejamos os nacionais.

E geralmente nestes casos não há muitas fotos, à excepção de uma ou duas fotos na redes sociais, pois afinal de contas a proposta de valor desses locais é a oportunidade de os famosos manterem alguma privacidade, longe dos paparazzi e dos olhares dos fãs.

Por outro lado, o trabalho voluntário que essas celebridades vêm fazer envolve muita notícia. Afinal de contas, o que seria caridade se ninguém aplaudisse o gesto do privilegiado que estica a sua mão para os desfavorecidos?

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Garçon!! 😃#FraternidadeSemFronteiras

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Gianecchini não desaponta. Com a mesma dedicação com que a genética desenhou a sua face, ele tira fotos com crianças e idosos, no meio da savana africana, num tal país chamado Moçambique.

E como não podia deixar de ser, emociona-se ao se aperceber da triste felicidade que essas pessoas vivem diariamente. Com tão pouco são tão felizes. Não passam a vida a reclamar. São verdadeiramente ricas. Aos meus olhos não vejo miséria. Têm vidas preenchidas com amor.

Certamente é esse amor e essa tal felicidade que lhes enche a barriga à noite. Que cura as doenças. Que rega as suas machambas e alimenta os animais.

Os moçambicanos partilharam todas as fotos cheios de orgulho pela presença de Sua Majestade, Reynaldo Gianecchini lá no meio do nada, a forçar sorrisos com as pobres crianças.

Esqueceram-se até que por fotos idênticas quase boicotaram um show do Nelson Freitas.

Em 2016, quando Nelson Freitas esteve em Maputo para um espectáculo de lançamento do seu novo álbum, à saída do aeroporto tirou fotos das ruas. Ao publicar a realidade nua e crua foi criticado, chegando até a apagar a foto.

Os seguidores se mostraram desconfortáveis em ver a sua Pobreza exposta.

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Os seguidores moçambicanos do artista cabo-verdeano não gostaram da foto por ele publicada. Fonte: Sapo MZ

Segundo eles Maputo é mais do que aquilo. Moçambique é melhor que aquela foto. Moçambique é lindo, é rico, é limpo. E de facto, somos isso tudo.

Mas somos também essa Pobreza, essa imundice, essa crueldade. Somos – e temos de assumir isso – feitos de contrastes.

Ao negarmos uma Pobreza e aceitarmos a outra evidenciamos a nossa hipocrisia. A nossa preocupação é selectiva. Pouco nos importa quem vê a nossa Pobreza, mas queremos que a Pobreza venha bonita.

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Presidente da República Filipe Nyusi e ex ministro da Educação Jorge Ferrão numa escola primária sem carteiras.

A glamourização da Pobreza valida-a. Naturaliza-a.

Ajuda-nos a olhar para a pobreza como algo normal, como algo que não deve ser corrigido.

Visitamos uma escola onde as crianças estudam sem carteira e aplaudimos as suas notas. Sentamo-nos no chão ao seu lado e sorrimos como se fosse confortável estar naquele lugar e de facto aprender. Rimos e brincamos com elas como se aquilo fosse de facto uma escola.

Olhamos para as mulheres atarefadas, a carregar os filhos, as compras e metade do mundo e dizemos “Parabéns! És tão forte!”, em vez de oferecermos soluções concretas para acabar com o seu sofrimento. Soluções para ela não precisar de ser forte. Para ela se sentir confortável em mostrar vulnerabilidade.

Aplaudimos a Pobreza que nos é exibida de forma glamourizada. Gostamos de ver as pessoas pobres a brincar, sofrendo de forma feliz, de forma a que não perturbe a nossa vida pseudo-burguesa.

Queremos ver uma Pobreza com maquilhagem, cirurgia plástica, filtro do instagram, sorriso falso. Uma Pobreza disfarçada.

Pobreza não é glamour. Não é prémio. Não é benção.

É Pobreza.

 

 

Inhassunge é aqui

Picture-0399.jpgO livro “O advogado de Inhassunge” levanta questões tão actuais hoje como o tempo que retrata, de guerra civil e reconciliação.

Através da obra de Luís Loforte conhecemos Luiz Conde do Lavradio Almeida de Leão, um cidadão moçambicano negro do distrito de Inhassunge, na Zambézia, que almejava ser um português branco e gozar de todos os privilégios associados a esse estatuto.

Luiz Conde do Lavradio Almeida de Leão era um solicitador que pretendia ser assimilado e para tal fazia-se usar de um português caro e elaborado, vestindo-se com as melhores roupas que o seu dinheiro permitia e fingindo até não ser esposo da sua mulher, uma negra camponesa, que chega a dizer ser sua empregada.

Enquanto tratou dos assuntos legais de outros negros não teve problemas, no entanto, no momento em que se passa por advogado de dois brancos é perseguido e por isso tem de fugir para o Norte do país, onde adopta uma nova identidade e passa a ser guerrilheiro da FRELIMO.

Durante a sua vida vai-se adaptando às realidades impostas transformando-se em várias pessoas perdendo-se até de si mesmo. Passa de guerrilheiro a oficial de campo de reeducação,  bêbado vagabundo, herói de libertação nacional e por fim deputado.

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Moçambique tornou-se independente em 1975.

Numa dança entre a História e a ficção, Luís Loforte dá-nos a conhecer algumas figuras anónimas que tornaram o sonho (ou pesadelo) de Moçambique possível e leva-nos a questionar os conceitos de identidade, de guerra e até mesmo de nacionalidade.

Numa das passagens mais emocionantes, o protagonista revela a sua frustração com a vida que é obrigado a levar, descrente de qualquer ideal e sem nenhum sonho pela frente:

“Estou cansado de me iludir […]. Agora quero que os outros se iludam por mim, caso desejem […]. No passado, eu iludia-me que era português puro […], mas tive que fugir deles, porque fizeram-me ver que eu não era português nada, que me iludia. Depois, tentei iludir-me que era moçambicano, forcei-me com essa ilusão […]. Todos estes anos eu fui-me libertando de todo o género de ilusões cuja origem era eu próprio. Nunca ganhei nada com ilusão nenhuma.”

À medida que a trama se desenrola e o advogado assume outras identidades, começa a distanciar-se do cinismo e do egoísmo dos seus camaradas. A sua consciência não lhe permite ser cúmplice da corrupção e falta de humanidade da nova elite política moçambicana, que segundo ele não difere da anterior.

A obra evidencia a falácia da Independência como solução definitiva para a construção de um Moçambique totalmente novo. O Moçambique pós-independência revelou-se não ser necessariamente menos repressivo nem menos violento que o Moçambique colonial.

Uma das grandes falhas foi a ilusão do projecto nacional. De facto, nos anos imediatamente posteriores à independência não havia um sentido de Nação. E um dos grandes cismas era a dicotomia “branco-negro”, uma clara herança do passado colonial.

No livro, o autor descreve-nos este insucesso mais à frente, através de um diálogo profundo:

“Para mim brancos e pretos não agarraram o verdadeiro problema do nosso país. O verdadeiro problema é que uns e outros se tomam como entidades; há entidades de brancos e de pretos; começam agora a aparecer a entidade dos mulatos e a entidade dos indianos. Não há uma entidade dos moçambicanos. […] Falta-nos um projecto de todos”

Assim, sem um sentido de fraternidade Moçambique foi novamente palco de uma guerra sangrenta, desta vez entre moçambicanos (negros) e não contra os portugueses (brancos). Por isso é difícil apontar o dedo à culpa. Quem causou tanta dor? Por que morreram tantas pessoas?

Moçambique pós-independência falhou.

As polaridades binárias continuaram a evidenciar-se, muitas vezes até por incentivo das lideranças que numa tentativa de reposição de dignidade e promoção de igualdade, totalizaram esses campos de identidade.

Nos campos da fé, género, etnia, identificação política e raça, entre outros, moçambicanos foram forçados a escolher o seu lado, mesmo sabendo que nenhuma identidade é absoluta.

Ou és negro, ou és branco. Ou és português, ou és moçambicano. Ou estás connosco, ou estás contra nós.

E estas classificações se perpetuaram até hoje, pois fazem parte de um contexto histórico válido e correspondem também a uma série de privilégios ou privações a que um determinado grupo está sujeito.

O advogado de Inhassunge é simultaneamente um guerrilheiro conhecedor do mato. É Luiz, aspirante a assimilado e é também Ndala, nacionalista. É um mendigo bêbado e é igualmente deputado da maior bancada da Assembleia.

Cada um de nós é muitos eus. Moçambique é todos esses muitos.

 

 

 

Mondlane, um herói improvável

Eduardo Mondlane foi o grande arquitecto da independência de Moçambique.

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Eduardo Mondlane foi fundador e primeiro presidente da Frente de Libertação de Moçambique. Fonte: Frelimo

Um simples pastor filho de um líder local, foi com o apoio da Missão Suíça que teve a possibilidade de seguir os seus estudos na África do Sul, Portugal e por fim Estados Unidos da América, onde se doutorou em Sociologia.

Cresceu, portanto, não tendo outra opção senão se consciencializar sobre a sua posição no mundo: homem, negro, africano, moçambicano. Mas ao mesmo tempo, nascia nele também a consciência de valores e direitos mínimos para a prosperidade de todos os seres humanos.

À semelhança da independência da Tanzânia (1961) e da Zâmbia/ Malawi (1964), Mondlane queria uma independência pacífica. No entanto, o Estado Português não cedeu pacificamente a independência das terras que ocupava ilegalmente.

O seu desejo pela autodeterminação do povo de Moçambique levou-lhe, em 1962, a unir todos os movimentos de libertação num só, formando assim a FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique) e foi ele o seu primeiro presidente.

Concluindo que não seria possível alcançar a independência sem recurso às armas, em 1964 a FRELIMO começa os primeiros ataques de guerrilha. Com o apoio da Tanzânia, da Argélia e de outros países africanos e não só, Mondlane conseguiu desenhar e implementar uma estratégia sólida para derrubar as tropas portuguesas em Moçambique.

Infelizmente Mondlane não viu o seu sonho realizado. Foi assassinado a 3 de Fevereiro de 1969 – motivo pelo qual hoje celebramos o Dia dos Heróis- ao abrir uma encomenda com uma bomba preparada em Lourenço Marques pela PIDE.

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Funeral de Eduardo Mondlane, em Dar Es Salaam, Fev. 1969. Vê-se Julius Nyerere, Presidente da Tanzânia, Janet Mondlane, viúva de Mondlane e os três filhos do casal. Fonte: The Delagoa Bay

É importante referir que com a morte de Mondlane o próprio destino da FRELIMO se alterou drasticamente.

A liderança de Mondlane, um homem religioso, académico, conservador, chocava com os membros mais radicais  da FRELIMO. Mesmo na Tanzânia, onde a FRELIMO tinha a sua base e outros movimentos guerrilheiros se encontravam, vários desses movimentos se voltavam para a esquerda.

Era também da URSS que vinha grande parte do armamento e treino da guerrilha da Frelimo. No entanto, Mondlane, que tinha vivido nos EUA tinha uma posição mais pró-Ocidental. Mas a aproximação com os EUA era praticamente impossível, já que o mundo se dividia em dois blocos distintos e a quebra de alianças poderia pôr em causa todo o projecto de libertação de Moçambique.

Em meados dos anos 60, num contexto de bipolarização global, em que a disputa entre o Ocidente e o Bloco de Leste pelo domínio do Terceiro Mundo se intensificava, a posição neutra e cautelosa de Mondlane destoava do resto. Com a sua morte em 1969, há uma viragem da FRELIMO para uma esquerda radicalizada.

Por outro lado, o seu casamento com Janet Mondlane, uma mulher branca americana, não era bem vista por muitos. A relação interracial evidenciava o cosmopolismo de Mondlane como um jovem africano intelectual, mas também o colocava numa posição de “diplomata” em vez de “guerrilheiro”.

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Eduardo Mondlane era um docente com cara de guerrilheiro e um guerrilheiro com cara de docente. Fonte: Eduardo Mondlane and Social Sciences

É importante recordar Mondlane como o exímio investigador que ele foi. Como um dos primeiros africanos, e certamente um dos poucos moçambicanos que nessa altura chegou tão longe, destacou-se pela sua excelência na vida académica.

A questão racial e identidade nacional na vida social foi o seu grande objeto de estudo, tanto durante o Mestrado como durante o Doutoramento.

Como um jovem africano intelectual, ao sair da sua aldeia na província de Gaza deparou-se com um mundo marcado por choques e contrastes. As suas origens humildes, sem qualquer privilégio permitiram-lhe ter um sentido muito sólido da sua africanidade e da sua cultura.

Foi esse sentido e orgulho da cultura africana que permitiu que ele estudasse, nos E.U.A, a questão racial sem se preocupar em procurar uma identidade negra, ao contrário dos seus colegas afro-americanos. E foi esse mesmo sentido que despontou a necessidade de fazer da independência seu projecto pessoal.

Mondlane era por isso um patriota, no sentido em que tinha um orgulho muito forte das suas raízes e estava disposto a deixar (e deixou) tudo para lutar pelo seu país e também como nacionalista, pois formou um projecto de unificação de Moçambique e de formação de Moçambique como nação.

Pela sua elegância, inteligência e perspicácia Mondlane representava uma ameaça à altura dos líderes ocidentais. Era um líder charmoso, bem educado, bom orador e ciente da sua identidade e dos seus objectivos.

Mondlane seria um líder progressista que teria liderado um movimento pacífico e feito uma transição sem sobressaltos, contudo, a História quis que ele liderasse uma guerrilha impedindo-o de fazer aquilo que era o seu desejo: desenvolver Moçambique e criar uma elite intelectual capaz de governar e elevar o país.

Por não ter tido tempo de fazer tudo isso, por ter sido obrigado a abandonar esse propósito, por não ter tido a chance de ser o herói que ele queria ser, por esses e pelos outros sonhos que ficaram por realizar: Obrigada.

Escolher o Terceiro Mundo

Por que muitos de nós voltaram e alguns nem sequer partiram?

Quando dizemos que somos de um país do Terceiro Mundo, parece que as perspectivas e expectativas que as pessoas têm para nós se fecham.

Primeiro vem a piedade. Apesar de essa denominação ter mudado para “países em desenvolvimento”, ambos os conceitos carrega consigo o mesmo estigma e miséria. Depois da piedade vem a pergunta “E como é viver aí?” ou pior “Por que é que vives aí?”

Por mais estranho que pareça, ainda que haja oportunidades para sair, há quem queira ficar. Ou quem saia e regresse – como eu.

Viver no Terceiro Mundo é diferente de viver no Primeiro Mundo. Essencialmente viver num país em desenvolvimento significa que temos as nossas opções mais limitadas.

Os elementos fundamentais para a sobrevivência de uma determinada comunidade, tais como água; comida; roupa; educação; saúde; electricidade; etc são mais escassos. Também não temos infraestruturas que facilitem a distribuição destes bens, criando um fosso entre as zonas que têm os recursos e aquelas que não têm.

Para além disso, geralmente os países do Terceiro Mundo são famosos pelos altos níveis de corrupção e falta de transparência (e competência) das lideranças.

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Fim do terceiro mundo? Fonte: World Bank
Para quem, como eu, já teve o privilégio de sair e viajar para alguns países eu posso com toda a certeza dizer: há vários Terceiros Mundos. Há países semi-industrializados com um rendimento médio perto da média mundial e há países em conflitos, em bancarrota que são do Terceiro Mundo.
Moçambique, Tailândia e Brasil são países completamente diferentes, mas todos eles estão nessa categoria. Há um espectro enorme de pobreza (e riqueza), mesmo dentro de cada um desses países. Em termos materiais há pobres com casa própria, e ricos sem casa própria. Há ricos desempregados e pobres que trabalham todos os dias.
As pessoas pensam que o sonho de qualquer pessoa de um país em desenvolvimento é fugir, mas isso não é verdade. Há quem seja muito feliz aqui.
De longe parece que nós vivemos muito mal e que não temos qualidade de vida. Parece que o estilo de vida do Primeiro Mundo é a forma correcta de se viver e que nós queremos apenas mimicar isso.
Contudo, a verdade é que o Primeiro Mundo também não é perfeito. Nós sabemos que saindo daqui para viver num país dito desenvolvido não quer necessariamente dizer que os nossos problemas serão eliminados.
O que distingue o Primeiro e o Terceiro Mundo é a proximidade e atenção que se dá à Pobreza. No seu blog, Seth Godin, explica que são esses factores que estão na base desses conceitos.
Nós sabemos que em todos os países existe pobreza, embora no Primeiro Mundo esteja mais camuflada. Para além disso, ir para o Primeiro Mundo muitas vezes significa enfrentar racismo, choque cultural e afastamento da família, para além de todos os entraves institucionais (acesso a saúde; documentação; emprego; etc).
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Criminalização de sem-abrigo avança pela Europa. Fonte: Público
As pessoas chocam-se com a alegria e felicidade de pessoas do Terceiro Mundo, daí todo o sucesso da pornografia da pobreza. Mas não devia ser tão difícil assim entender que as pessoas podem ser felizes na sua realidade, mesmo se essa realidade parecer insuportável.
Muitos de nós adoram a vida que levam e acreditam que aquilo que fazem irá fortalecer e melhorar as condições de vida. Muitos de nós adoram a forma tradicional/ convencional de fazer as coisas, e isso vai desde algo tão simples como levar a loiça (que a maioria das pessoas faz manualmente) até algo maior como celebrar um casamento, em que incorporamos a cerimónia do lobolo.
Eu alegro-me ao saber que, apesar de os nossos hospitais e do sector de saúde como um todo estar cheio de insuficiências, todos os anos milhares de estudantes se candidatam ao curso de Medicina.  
Alegro-me ao perceber que, mesmo sem salas de aula ou carteiras, os professores todos os dias acordam para ensinar  o B-A-BÁ aos seus alunos. 
Alegro-me ao pensar que, mesmo sem dinheiro para comprar uma mochila ou cadernos para as crianças, os pais inscrevem os seus filhos na escola.
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Maputo é uma cidade viva e hospitaleira. Fonte: Alma de viajante
 
Existem muitas, muitas razões para ficar aqui. O sentido de pertença e de comunidade é muito forte, talvez mais forte que o descontentamento com a falta de escolhas.
Eu não trocaria a minha manga saborosa, suculenta, comprada na rua pela manga artificial e cheia de água, cortada e embalada, do supermercado. Não trocaria isso pelas ruas limpas e organizadas do Primeiro Mundo, porque as pessoas são mais impacientes, intolerantes e materialistas.

Apesar dos problemas de acesso à saúde; da escassez de boas opções de escolas; e das péssimas condições urbanas, de habitação e saneamento, eu adoro a vantagem de poder sorrir, abraçar e conversar com virtualmente qualquer pessoa, adoro a força e perseverança das pessoas ao meu redor e do sentimento de conquista global quando um único indivíduo se sai vitorioso.

Amílcar hoje

Amílcar Cabral foi o líder da libertação de Cabo Verde e Guiné Bissau, assassinado a 20 de Janeiro de 1973 antes de ver a independência das (ex) colónias africanas de Portugal.

Agrónomo, revolucionário anti-fascista, guerrilheiro e panafricanista, Amílcar Cabral marcou a História pelo seu papel central na luta pela auto-determinação dos povos de Cabo Verde e de Guiné Bissau que viviam sobre o domínio português.

Como um dos fundadores do PAIGC (Partido Africano da Independência da Guiné Bissau e Cabo Verde), foi um dos mais bem sucedidos líderes de uma revolução de guerrilha, tendo em algum momento dominado grande parte do território guineense (cerca de 70%) antes de Portugal concordar em ceder o poder a quem era de direito.

 

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Amílcar Cabral continua a ter impacto em movimentos contemporâneos. Fonte: Pambazuka

 

Enquanto estudante universitário em Lisboa, estabeleceu contacto com Agostinho Neto e Eduardo Mondlane que viriam a liderar movimentos de libertação em Angola e Moçambique, respectivamente.

Fez parte, em Lisboa, da Casa dos Estudantes do Império, que se tornou num centro de valorização das culturas africanas. Foi aí que se estabeleceu o contacto entre Cabral e outros intelectuais contemporâneos, tais como Marcelino dos Santos, Mário de Andrade, Noémia de Sousa e Alda Espírito Santo, entre outros.

Foi esta elite que deu origem ao Centro de Estudos Africanos e deu início ao processo de consciencialização das então colónias portuguesas, através do qual se estabeleceram movimentos de libertação.

Este pequeno grupo privilegiado de estudantes universitários oriundos de diferentes pontos do continente africano foi capaz de não só questionar a lógica colonial, mas mais do que isso, mobilizar forças para dar um fim definitivo ao colonialismo português.

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A união entre os movimentos de libertação foi uma peça central. Fonte: Via Atlântica

A ligação entre os movimentos de libertação foi de grande importância para o sucesso das lutas pela independência.
Mas Cabral destacou-se sobretudo pela sua articulação e pelo trabalho que fez como questionador do seu tempo, teorizando grande parte das suas visões para África.

O que mais marca Cabral é o papel que ele dá à valorização das culturas nativas. Segundo ele, a cultura é o fundamento da luta anti-colonial na medida em que só se libertam os povos que vêem a sua capacidade de criar e praticar cultura limitada.

Ou seja, a subjugação de uma cultura nativa face à imposição de uma cultura estrangeira é que obriga uma determinada sociedade a lutar pela sua libertação.

 

De uma forma alargada, muito daquilo que se fala hoje sobre a globalização e neo-colonialismo já tinha sido antecipado por Cabral. Só se pode dizer livre um povo que é capaz de negar influências negativas de outras culturas de modo a preservar a sua cultura e a sua identidade.

Na sua compreensão do mundo ele vai para além das ideias do Homem Novo que muitos movimentos revolucionários da época defendem, e projecta um resgate dos valores e hábitos tradicionais africanos.

Para ele é central o papel da cultura para a resistência anti- imperialista e daí a necessidade de criar espaço para a cultura, através da luta, restaurar as pessoas oprimidas e transformá-las em agentes completos da sua própria história e identidade.

 

“Nós queremos entretanto exprimir claramente o seguinte: nós não confundimos a nossa luta, na nossa terra, com a luta do povo português. Estão ligadas, mas nós, no interesse do nosso povo, combatemos contra o colonialismo português. Liquidar o fascismo em Portugal, se ele não se liquidar pela liquidação do colonialismo, isso é função dos próprios portugueses patriotas, que cada dia estão mais conscientes da necessidade de desenvolver a sua luta e de servir o melhor possível o seu povo.”

O desmoronamento do Estado Novo em Portugal, embora não fosse a finalidade do trabalho de Cabral e dos seus contemporâneos, acabou sendo um dos resultados da sua luta.

O colonizador inevitavelmente acabou sendo libertado pelo colonizado. Para Cabral, isso era previsível pois a revolução opunha mais os povos dominados aos dominadores, desafiando a própria essência da ditadura fascista, do que opunha o proletariado (colonizados) à burguesia (colonizadores).

Pode-se dizer, portanto, que não foi Portugal que libertou as colónias, mas sim foram as colónias que libertaram Portugal. Na medida em que através da defesa da sua auto-determinação e da exigência do reconhecimento da sua humanidade plena puseram em causa a própria natureza do Fascismo Português, destruindo-o.

 

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É importante perceber como, para Amílcar Cabral, a luta armada pelo fim do colonialismo, não termina na declaração da independência. Para ele, era preciso compreender dilemas persistentes como a ligação cultural entre os povos africanos e o povo português (que ele sempre separou do Estado Português), bem como as ideias de construção de Estado num contexto de pan-africanismo.

Embora panafricanista, Cabral rejeitava a ideia de se tratar da África Negra como um espaço homogéneo. O panafricanismo de Cabral defendia as especificidades de cada nação africana e o seu estudo de forma isolada.

A dimensão de libertação de Cabral ia para além da auto-determinação a nível da organização política,mas passava também sobre a auto-descoberta da cultura nativa e do seu desenvolvimento. Por isso é tão importante revisitá-lo hoje, 44 anos após o seu assassinato.

O legado político de Amílcar Cabral vai para além do seu estudo crítico dos desafios e ameaças dos movimentos de libertação africanos dos anos 50 e 60.

Ao explorar as a centralidade da cultura e da identidade, bem como ao desafiar as noções de imperialismo e colonialismo, Cabral obriga-nos a observar o panorama social actual e a reconhecer padrões idênticos àqueles que ele lutou para derrubar.

O seu pensamento é relevante e contemporâneo para falarmos de apropriação cultural, de movimentos migratórios e de novas formas de domínio dentro do próprio continente africano.

 

 

Deixem a Kizomba em paz!

Já chega de deixarmos a nossa cultura ser apropriada, extraviada e abusada por estrangeiros.

Nos anos recentes tem havido um boom dentro da “Lusofonia” no que toca à Kizomba. Parece que de repente todos acordaram para o ritmo angolano: de Angola a Portugal, Espanha, África do Sul e até mesmo Brasil. O mundo despertou ao som de África.

Até já se diz que Lisboa é a capital da Kizomba. Sim, isso mesmo! Um ritmo angolano, cantado e ensinado por africanos tem a sua capital na Europa. Parece piada, mas há pessoas que acreditam que isso seja verdade.

A kizomba é uma dança de Angola que surgiu nos anos 80, no entanto se popularizou nos últimos cinco anos com grandes nomes tais como Anselmo Ralph (Angola) e Nelson Freitas (Cabo Verde).

As comunidades imigrantes de origem africana em Portugal (e não só) sempre tiveram os seus espaços próprios para dançar as suas músicas e viver a sua cultura. E em Lisboa esses espaços eram o Mussulo e o Sarabanda, entre outros, que essencialmente eram frequentados por africanos de classe média-baixa e alguns brancos atrevidos que lá se iam “desvalorizar”.

Essa vida à margem da sociedade é típica das sociedades imigrantes. Para os lisboetas, esses locais sempre foram antros de perdição já que no seu imaginário os africanos são todos promíscuos, festeiros e dados a grandes bebedeiras, nada aptos para trabalhar e que só se querem divertir. Porquê então o súbito interesse pela kizomba?

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As “noites africanas” estão na moda.

Há muitos elementos mainstream hoje que sempre fizeram parte das culturas africanas e sempre foram considerados de valor e belos, mas que ganharam novos rumos quando outros povos começaram a valorizar.

Os mesmos símbolos e hábitos considerados primitivos ou selvagens, como tatuagens, piercings, rastas, etc, aos poucos criaram espaço na cultura pop. Um cidadão branco de rastas é hippie, alternativo, interessante e tal enquanto as mesmas rastas num cidadão negro causam desconfiança, são marcas de desleixo e pouca higiene.

A verdade é que existe um viés quando um determinado elemento é usado num contexto “tribal” e quando é usado no meio “urbano”. Quando é visto com um plano de fundo africano e quando é visto com um plano de fundo europeu. Parece que tudo precisa de passar por aprovação ocidental para ser considerado bonito e infelizmente nesse movimento de ascensão perde o seu significado.

A este processo de adopção de elementos de uma determinada cultura por um grupo diferente chama-se apropriação cultural. A apropriação cultural só pode acontecer quando um grupo privilegiado rouba elementos tais como arte; estética; língua; religião; música; etc, de  uma cultura de um grupo oprimido.

Quando removemos os elementos culturais do seu contexto original, para além da perda de importância e legado que carregam, muitas vezes reforçamos estereótipos.

No caso da Kizomba a sua valorização deveu-se sobretudo ao facto de haver uma classe africana média-alta que aos poucos conquistou espaços centrais na Europa e ganhou mais poder de compra, criando condições para artistas do seu agrado poderem encher casas de espectáculos além fronteiras.

Assim da marginalidade para a centralidade, a Kizomba manteve o seu ritmo original e compassado, mas ficou hipersexualizada e muito ligada à vida luxuosa, de grandes farras, corpos sensuais e altos carros, correspondendo à expectativa portuguesa daquilo que são as aspirações dos africanos.

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Está na moda ser preto, desde que você não seja preto

À semelhança da Kizomba, a capulana, tecido africano típico de Moçambique também sofreu um ataque de apropriação cultural. Este processo também aconteceu recentemente com a nova vaga de emigração portuguesa, que se deslumbrou com as cores e o brilho da capulana.

O pano que usávamos para amarrar o bebé às costas, para amarrar à nossa cintura, agora ganhou designs europeus, tanto é que hoje ainda é considerado algo negativo, ultrapassado e até certo ponto ‘primitivo’ usar a capulana na sua forma mais tradicional, mas por outro lado, é elegante e chique fazer um vestido de noiva misturando o cetim e a renda branca com a capulana.

A apropriação cultural descontextualiza o elemento em si, distanciando-o das suas origens e da sua simbologia/ valor. De tal forma que pode-se de facto acreditar que Lisboa é a capital da Kizomba, embora a Kizomba seja de Angola, mas porque olhamos para a Kizomba como algo isolado, sem raízes nem ramificações, posicionamos onde melhor nos convém.

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Imigrantes protestam em Lisboa contra regras do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras

Para mais, nos aproveitamos de uma certa cultura sem reconhecer as ruínas que ficam por reconstruir. Ou seja, ouvimos a música; dançamos ao seu ritmo; usamos as suas roupas; mas não nos unimos para apoiar as suas dores e as suas causas.

Quantos lisboetas interagem e se identificam com a Kizomba? Onde estão os portugueses a lutar por uma maior e melhor integração dos imigrantes africanos? O que têm feito essas centenas (talvez até milhares) de instrutores de kizomba europeus pelos dançarinos amadores que criam novos passos e tendências?

Deles ouvimos apenas o silêncio que confirma a sua conivência e satisfação com o status quo. Pode-se falar então em globalização? Podemos encarar estes processos como trocas de experiências, conhecimentos e percepções?

Talvez… Quando houver um equilíbrio na distribuição de poder e quando pudermos reconhecer a humanidade de todos nós sem excepções e não considerarmos umas culturas melhores, mais desenvolvidas e mais apuradas que outras, aí sim, será uma troca sem perdas nem prejuízos.

Odiar para governar

O ódio como força poderosa de união e governação.

Entre africanos quando nos encontramos é comum competirmos sobre quem tem o pior Presidente. É uma espécie de Jogos Olímpicos espontâneos, bem divertidos, que ocorre sempre que discutimos política.

Oh! O nosso Presidente está no poder há mais de duas décadas!

Mas o nosso tem familiares metidos em todos os negócios

O nosso Presidente é dono de metade do território.

O nosso é o pior, ele demitiu todo o seu gabinete.

E por aí vai.

Nós conversamos sobre a incompetência dos nossos governos e rimos do futuro catastrófico dos nossos países. De certa forma, a natureza dessas conversas está no centro daquilo que é ser africano.

Nós gostamos disso. Gostamos desses momentos descontraídos em que falamos sem culpa ou julgamento das coisas que nos inquietam sobre os nossos governos.

Essas semelhanças tornam as nossas dores menos difíceis. Sossega-nos saber que há alguém tão mal ou quiçá até pior que nós.

Todos nós adoramos odiar, especialmente em grupo. Odiamos mais e melhor quando estamos juntos. As pessoas se unem nos seus ódios partilhados o tempo todo. Quando encontramos pessoas que odeiam ou não gostam das mesmas coisas que nós, nos tornamos amigos instantaneamente.

Por isso não me surpreende que Donald Trump tenha vencido as eleições nos Estados Unidos da América.

Vejamos, ele odeia muitas coisas e fala abertamente sobre isso. Esse diálogo permitiu que outros semelhantes a ele o pudessem eleger. Sim, o ódio venceu. Prevaleceu a força do preconceito e discriminação.

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Robert Mugabe, o presidente do Zimbabwe, é provavelmente o presidente odiado com mais amor.

Na verdade o ódio é uma força com muito poder.

Não há como negar o poder de sentimentos como a raiva e o medo, que estão na raiz daquilo que é o ódio. Essa necessidade de ter o “outro” distante; de ver bem longe tudo o que é diferente; de afastar do nosso reflexo esse contraste está muito enraizado na nossa cultura.

É normal odiar em conjunto. Seja para fazer piadas com a opressão dos outros (piadas homofóbicas; racistas; machistas; etc) ou mesmo para reforçar a nossa posição social, usamos sempre esse afastamento do “outro”.

Mas nós só vemos problemas quando isso aparece de forma oficial, ou seja, quando existe uma liderança declaradamente preconceituosa.

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No início do ano foi a vez dos britânicos mostrarem a sua verdadeira face. O voto “sim” ao Brexit provou que as portas vão se fechar para todos aqueles que não se enquadrarem no perfil ideal de “Britânico”.

Logo após o resultado do referendo, muitas minorias, imigrantes e afins foram alvos de ataques no Reino Unido. E o mesmo aconteceu nos EUA.

O validar do ódio abre espaço para as pessoas para manifestarem todo o seu preconceito e aplicarem violência sobre os grupos que querem afastar.

Aos poucos o Ocidente vai perdendo legitimidade para falar mal da decadência das democracias africanas. Na verdade tal decadência é resultado de séculos de privação cultural e intelectual e de processos de libertação mal paridos.

A onda de ódio e preconceito que marca a decadência das democracias ocidentais é fruto da ignorância e da crescente insegurança económica e social em que vivem muitas pessoas nessas sociedades, apesar da ilusão da vida confortável do “Primeiro Mundo”.

Novos tempos se apresentam perante nós.Seremos governados pelo ódio e pelo medo.

Agora os britânicos, os norte-americanos e demais, se unirão a nós, africanos, quando falarmos sobre as nossas democracias falidas e rirmos dos nossos Presidentes.

Virão para as nossas terras se “expatriar” e viver de regalias, mesmo defendendo a segurança das suas fronteiras.