O mundo se despedaça

Ou Things Fall Apart, geralmente em África. Quase sempre em África.
Neste clássico da literatura africana, Chinua Achebe nos traz a história de Okonkwo, um famoso guerreiro Igbo e como a sua vida muda com a chegada dos primeiros missionários britânicos à Nigéria, no  início do séc. XIX.
No livro, o autor consegue resumir as complexidades das sociedades Igbo da época, incluindo provérbios e fábulas, bem como rituais e deuses locais no seu discurso. Ao mesmo tempo, sente-se que essas sociedades transpiram um certo cansaço e vontade de questionar os seus costumes.
Somos constantemente forçados a escolher um lado: o tradicional ou o moderno; o colonialismo ou o tribalismo; o animismo ou o Cristianismo; o masculino ou o feminino; a ignorância ou a consciência. Várias tensões nascem destes contrastes.
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Okonkwo ganhou fama ao ganhar uma aldeia rival em Luta Livre.
Okonkow, o personagem principal é nesse sentido a maior antítese da história.
Ele é um homem misógino, extremamente violento, esposo e pai abusivo, impaciente e intolerante, ambicioso e acima de tudo, tradicionalista.
Um homem que conquistou os seus títulos e respeito com brutalidade. Sem herança do seu pai para ajudá-lo. Colecionador das cabeças das suas vítimas. Ele representa tudo aquilo que a sociedade Igbo exigia do homem da altura.
Ironicamente, ele também sofre bastante sendo um homem Igbo: primeiro, é obrigado a matar o seu filho adoptivo. Mais tarde, é enviado para o exílio durante 7 anos para pagar por um crime que cometeu involuntariamente. E com a chegada dos britânicos, vê-se obrigado a desonrar o seu filho mais velho quando ele se converte.
E porque ele teve de se auto-mutilar emocionalmente, de lutar para ser essa pessoa, ele queria preservar a estrutura que lhe dava poder. Ele não queria mudar as suas visões conservadoras e ser obrigado a confrontar-se com todas as suas imperfeições.
Okonkwo queria garantir a preservação e manutenção da sua masculinidade e da sua posição na sociedade em que estava inserido.
Contudo, apesar das suas falhas – e não são poucas! – Okonkwo é apenas um homem que quer o melhor para a aldeia Umuofia e vê esse futuro ameaçado com a crescente comunidade cristã na região. Numa passagem, ele diz aos outros homens poderosos da aldeia:
“The white man is very clever. He came quietly and peaceably with his religion. We were amused at his foolishness and allowed him to stay. Now he has won our brothers, and our clan can no longer act like one. He has put a knife on the things that held us together and we have fallen apart.” 
 
O homem branco é muito espero. Ele veio calma e pacificamente com a sua religião. Nós nos divertimos com as suas palhaçadas e permitimos que ele ficasse. Agora ele convenceu os nossos irmãos e o nosso clã já não é unido. Ele pôs uma faca nas coisas que nos uniam e nós nos dividimos.
Ao chegar às aldeias, o Cristianismo ofereceu refúgio e amparo àqueles que na sua comunidade viam-se marginalizados ou eram isolados, como eram os gémeos (que se acreditava serem uma maldição); as mulheres incapazes de ter filhos e os homens sem terra nem títulos, entre outros.
Por outro lado, ao desmascarar todos estes mitos e a impôr a Bíblia como base para se aplicar a Justiça, o Cristianismo criou conflitos, separando famílias e tirando a dignidade de muitas pessoas respeitadas na comunidade.
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Praticantes de luta livre na Nigéria. Foto: Jack Picone

Achebe é dos mais premiados e célebres autores africanos.

Através dele, somos obrigados a confrontar a inevitabilidade de mudança das sociedades Igbo da época. No entanto, a violência com essas mudanças foram traçadas e as soluções impostas são igualmente colocadas em perspectiva.
Para o autor, o que se perdeu foi dignidade e isso é o que se deve reconquistar.
“The worst thing that can happen to any people is the loss of their dignity and self-respect. The writer’s duty is to help them regain it by showing in human terms what happened to them.”
 
A pior coisa que pode acontecer a qualquer povo é a perda da sua dignidade e respeito próprio. O dever do escritor é ajudar a reconquistá-los mostrando de uma forma humana o que aconteceu.
E o que foi que aconteceu?
África como uma força com vontade própria e modelos políticos e religiosos sólidos, deixou de existir. Acabou. Finito.
As regras, espíritos, deuses, nomes, datas, lendas e tudo o que faz parte do imaginário de qualquer sociedade foi gradualmente apagado.
No fim, não importa se os colonos eram gentis ou brutos; se eram tolerantes ou vingativos; se chegaram com armas ou com a bíblia. Importa o facto da sua presença ter colocado em causa a ética, filosofia e governação das sociedades Africanas.
Importa o facto dos colonos terem sido intransigentes e austeros na sua presença. Mataram. Roubaram. Bateram. Expulsaram.
A voz de África se silenciou.
O fim trágico com que se fecha a última página do livro deixa claro como a assimilação, total ou parcial, da cultura, hábitos e filosofia dos invasores britânicos mudou para sempre o destino dos Africanos, mesmo daqueles que mais se opuseram ao colonialismo como foi Okonkwo.

Ela não anda, ela desfila

Alek Wek, uma das mais bem sucedidas modelos,  é uma refugiada sudanesa que foi descoberta pela agência Models One em Londres na década de 90.

No seu livro, Alek: De Refugiada Sudanesa a Top Model Internacional, ela conta como foi a sua infância e de que forma em tenra idade percebeu os perigos que ameaçavam a sobrevivência da sua família no Sudão.

Alek nasceu e cresceu no Sudão e até aos seus 8 anos viveu em paz. No entanto, momentos de conflito se fizeram sentir e a sua família foi obrigada a sair da vila de Wau. Primeiro caminharam durante 2 semanas até uma aldeia remota no interior do país, e mais tarde partiram para a cidade de Cartum até que por fim deram por eles em Londres, na Inglaterra.

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Alek começou a carreira de modelo aos 19 anos.

Nos anos 90 Alek fez muito sucesso, não só na Inglaterra, mas também no resto da Europa e Estados Unidos da América. Por ser uma modelo com uma tez tão escura e traços tão peculiares, distinguia-se das restantes e marcava a diferença.

Numa passagem, a modelo explica como a narrativa da sua vida por vezes era deturpada para apelar à glorificação do seu sofrimento e da sua Africanidade, rejeitando a sua verdadeira história.

Eu reparei que frequentemente os jornalistas gostavam de dizer que eu tinha sido descoberta ‘no mato’, em África. Como se eu tivesse sido uma inocente primitiva descalça na floresta quando o agente me resgatou e domou, sem destruir a minha beleza ‘selvagem’. Eu trazia jeans no Palácio de Cristal quando fui ‘descoberta’. O arbusto mais próximo era uma azaléia bem cuidada. Eu sou Africana, mas não sou primitiva. 

É o que acontece muitas vezes com as nossas histórias. As histórias de África e de africanos.

A narrativa contada muitas vezes é uma visão deturpada ou incompleta de quem somos. Aliás, no próprio livro a modelo conta como no início teve de fazer trabalhos em que a sua imagem era demasiado exotificada, como no calendário do café Lavazza em 1997 (imagens abaixo).

Alek lutou para vencer esses obstáculos. Para destruir essas barreiras e desconstruir preconceitos.

Procurou fazer amizades com fotógrafos e marcas que a viam como algo para além de uma cara “exótica” com feições diferentes daquelas a que estavam acostumados.

Aos poucos, e à medida que foi ganhando fama, conseguiu trabalhos mais relevantes e através destes mudou a forma como as pessoas olhavam para si.

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Alek Wek foi a primeira negra na capa da revista Elle, em 1997.

Para outras mulheres negras, refugiadas ou não, sudanesas ou não, Alek Wek era um espelho que reflectia a imagem que tinham de si mesmas.

A atriz Lupita Nyon’go numa entrevista afirmou que o facto de ver Alek Wek na passarela e em revistas, fê-la reconhecer a sua própria beleza.

Oprah Winfrey, numa entrevista a Alek Wek no seu programa televisivo, disse:

Que diferença isso teria tido na minha infância se eu tivesse visto alguém que se parecesse consigo na televisão.

Por muito que possamos – e devamos – criticar a indústria da moda, é inegável o impacto que muitas destas caras têm no nosso dia a dia.

Os anúncios que fazem e as marca que representam servem de padrão para muito do nosso consumo.

Quando se fala em representação da mulher negra, fala-se sobretudo da mulher negra que não é vítima. Que não é sofredora. Da mulher negra digna de amor e paixão. A mulher negra que também pode ter um artigo de luxo. Que pode ir à Universidade.

A mulher negra que, tal como Alek, pode passar por momentos difíceis e alcançar o sucesso.

 

E agora Senhor Ministro?

Um recente espectáculo gratuito de violência nas escolas foi distribuído, via redes sociais para todo o Moçambique. Qual é a resposta do Ministério da Educação? 

Não é surpresa a inexistência de segurança no Ensino Público, mas um caso de esfaqueamento filmado e reenviado vezes sem conta desperta qualquer sociedade. Ou pelo menos devia.

O vídeo, que mostrava dois rapazes numa Escola Secundária a lutarem, ambos a sangrar, ganhou atenção especial por um deles ter sido esfaqueado sem que nenhum professor, guarda ou qualquer outro funcionário do recinto percebesse o que estava a acontecer no momento do incidente.

As deficiências; carências e lacunas do nosso Ensino Público já são por todos nós conhecidas: falta de infraestruturas que promovam o bem-estar do estudante; condições estéreis para o nascimento de ideias e mentes brilhantes; sobrelotação das salas de aula; falta de manuais escolares; escassez de professores; desistência por parte dos alunos; reprovações em massa; etc etc etc.

O cenário é tenebroso. Catastrófico.

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Crianças a estudar ao relento numa manhã de nevoeiro em Maputo. Fonte: Facebook

O Ministério da Educação parece não saber bem por onde pegar. Está mesmo complicado!

No início do ano lectivo, numa tentativa de resgatar a honra e valores de outrora, S. Excia. Senhor Ministro decidiu implementar a obrigatoriedade do uso das maxi-saias.

A medida tem como intuito melhorar o ambiente de ensino e repor a decência nas salas de aula. Ou, por outras palavras, vem devolver ao professor a sua inocência e impedir as meninas de serem violadas – sim, porque a culpa é delas.

Agora enfrentamos outra crise – dentro de todas as outras crises (as mencionadas e as ocultadas): violência nas escolas.

Quando meninas começaram a aparecer grávidas nas escolas encaramos isso como um problema nacional. Aquilo foi um vuku-vuku jamais visto! Primeiro começou-se por tirá-las do curso diurno. Depois veio essa das saias até aos calcanhares.

As pessoas saíram à rua. Gritaram. Manifestaram-se (ou quase isso). Escreveram contra e a favor. Por causa das saias até houve quem fosse deportado de Moçambique.

O Senhor Ministro até já estava cansado de proteger os pedófilos que andam aí disfarçados com batas brancas como se estivessem a ensinar – até porque há um problema de quadros, não podemos mandá-los embora.

Enfim o Senhor Ministro lá geriu a situação e agora vem esta!

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A obrigatoriedade das maxi-saias gerou polémica. Fonte: Comunidade Moçambicana

Dois rapazes foram filmados por outros colegas numa luta violenta da qual um saiu esfaqueado e apenas um dos envolvidos foi expulso e preso (supostamente). O outro certamente também irá tirar contas com a Justiça em tempo útil.

Aguardo ansiosamente a próxima medida do Senhor Ministro.

Já não se fala de um problema de dimensão nacional, embora vários alunos tenham assistido (e até divulgado) o vídeo com conteúdo extremamente violento.

Embora a escola tenha várias pessoas dotadas de poder e competências para impedir que tais episódios aconteçam.

Embora não só naquela escola, mas em todas haja episódios semelhantes diariamente.

Embora a violência seja um problema de todos nós, encaramos o ocorrido como uma manifestação isolada de um possível problema mental, familiar ou social dos envolvidos, falhando na nossa análise.

Esquecemos que a violência e a criminalidade sempre fizeram parte do nosso Ensino Público: as reguadas do professor da Primária; os roubos de canetas, livros, telemóveis e até mesmo mochilas; os abusos de bebidas alcóolicas e estupefacientes; as violações sexuais; os pagamentos para passar de classe;  etc.

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 A discussão sobre a violência nas escolas ainda é uma gota no oceano perto da dimensão do problema.

 

O Senhor Ministro tem uma batata bem quente nas mãos!

Pouco se falou ou discutiu a reabilitação destes meninos. Pouco ou nada se decidiu no que toca a medidas para garantir mais segurança aos alunos nas escolas. Ninguém se pronunciou sobre o controle de instrumentos cortantes nos recintos escolares.

E porquê? Porque vemos a violência masculina como um problema individual. É um assunto de interesse privado, que diz respeito apenas aos envolvidos e às suas famílias. Enquanto olhamos a sexualidade feminina como algo de todos. É um assunto de interesse público no qual ~devemos~ opinar.

Resultado: Obrigamos as meninas a usarem saias compridas para acabar com a gravidez na adolescência, mas expulsamos um rapaz da escola para acabar com a violência nas escolas.

O Senhor Ministro está mesmo mal!

É a cultura da violência; a cultura do estupro; a cultura do deixa-andar… A cultura de tudo menos do estudo e da dedicação. Menos da leitura e da investigação. Menos da segurança; da qualidade e do rigor.

E agora Senhor Ministro?

 

Vamos falar de cabelo outra vez?

Para além de falar das politiquices em torno da carapinha, é importante reconhecer os espaços em que esse cabelo é representado – ou não – e como essa representação é feita.

Já falamos uma vez sobre as politiquices em torno do cabelo crespo e cacheado, e como existe um padrão ideal que nós, pretos, temos de pagar com a nossa própria saúde para atingir.

Aqui em África, onde a grande maioria das pessoas tem o cabelo crespo, dificilmente vemos figuras proeminentes a usar orgulhosamente o seu cabelo natural.

Se vemos, na sua maioria, são mulheres bem mais velhas ou pessoas ligadas às artes e com um estilo excêntrico que lhes confere uma certa liberdade, interdita a nós outros, meros mortais.

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Cantora moçambicana Mingas canta com as suas dreads.

Porém, figuras da cultura pop, com as quais a juventude mais se identifica regem-se sobretudo pelos padrões ocidentais de beleza. E como tal, não só nas suas músicas, e nos seus vídeos, mas também na sua forma de vestir se inspiram nos artistas norte-americanos, sobretudo.

Seria ingénuo e até mesmo infantil ignorar a influência que tais artistas têm na construção de mentalidades.

Assumindo que são estes que dominam a música moçambicana que toca em rádios e discotecas, então o seu papel no crescimento e consciência dos moçambicanos, e especialmente nos jovens moçambicanos, é imensurável.

Se meninas moçambicanas idolatram artistas com cabelos lisos, sentirão, logicamente uma desconexão consigo mesmas. Com as suas raízes. E o mesmo para os meninos.

E procurarão estes grupos formas de afirmação de beleza que se aproximem dos modelos que idolatram. Daí o bilionário mercado da extensões capilares em África apenas. Daí o negócio dos branqueadores de pele (mas isso falamos num outro dia).

Contudo, não podemos deixar tudo nas mãos dos artistas.

Olhemos para outras figuras importantes no nosso país: os nossos professores; os médicos; enfermeiros; ministros; presidentes; etc.

Mesmo nos Estados Unidos da América, a Primeira-Dama Michelle Obama, que é uma mulher negra, não usa os seus cabelos com a textura natural. Para o seu marido, o Presidente Barack Obama essa questão é facilmente contornada, já que ele pode usar o cabelo curto sem causar choque.

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Jacob, de 5 anos, sente o cabelo do Presidente Obama. Fonte: New York Times

E em casa, o que fazemos para que haja essa aceitação? Que trabalho temos feito para valorizar as nossas raízes?

Mesmo nos espaços mais vanguardistas, há ainda a expectativa de “arrumado” (trançado; amarrado; etc). As pessoas nem reparam que isso é fruto desse padrão de beleza europeu, que tem como base ideia errada de que o cabelo natural é sinal de desleixo ou sujidade.

Há sempre um policiamento que se disfarça de preocupação ou conselho.

Esse cabelo parece estar seco, tens de hidratar. Esse cabelo está muito despenteado, tenta organizá-lo. Tenho uma dica para dar mais vida ao teu cabelo. Usa o produto X que o teu cabelo vai ficar como o da Y.

Qualquer fórum sobre cabelos naturais está cheio de receitas e truques para domar o cabelo, como se ele fosse, de facto selvagem.

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Blogueiras My Natural Sisters

Twist out. Braid out. Blow out. Length check. 4A. 4B. 4C.

Uma linguagem codificada para abordar algo tão simples: cabelo. Uns mais, outros menos encarapinhados. Uns mais, outros menos longos. Uns sempre, outros nunca no lugar.

Temos de desconstruir a ideia de que o nosso cabelo natural vem na forma errada. Ou na textura errada. Ou no comprimento errado.

E essa desconstrução leva o seu tempo e requer muito trabalho. Talvez mais do que as pessoas estejam dispostas a dar.

Porque não basta perder uma manhã inteira a lavar o cabelo e aplicar produtos caros para ter um cabelo crespo q.b., e depois perguntar a uma mana de afro:

O que se passa com o teu cabelo?

 

Em defesa da(s) Winnie(s)

 

Winnie Madikizela-Mandela é uma figura que divide opiniões. Há quem a ama e quem a odeie, mas uma coisa é indelével: a marca que esta mulher deixou na luta contra o Apartheid.

Como mulher jovem quase-viúva, Winnie posicionou-se sempre como alguém disposto a arriscar tudo para ver a África do Sul livre do regime do Apartheid.

Sempre foi vilanizada pelo regime, pois era uma mulher que afrontava as autoridades, nunca se tendo vergado perante as suas exigências. Aliás, o próprio Congresso Nacional Africano (ANC) também se serviu dessa imagem de vilã para afastá-la, tirando-lhe os louros da sua luta.

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Winnie é considerada Mãe da Nação na África do Sul

Winnie está longe de ser perfeita. Cometeu os seus erros e admitiu tais erros.
A abordagem de Winnie era mais radical, apelando à violência para pôr um fim definitivo ao Apartheid.

Podemos discordar desta abordagem, mas não há como negar que o uso ou a ameaça de violência é vital para o sucesso de qualquer movimento de libertação. Nenhum regime opressor caiu por se apelar à sua boa vontade e/ou bom senso.

E na África do Sul foi muito pela pressão feita por grupos radicais – muitos aliados ao ANC – e perante o prenúncio de uma guerra civil que o Apartheid terminou. E terminou sobre a condição de fazer de Mandela presidente pois sabiam que nenhum outro líder do ANC seria capaz de assumir uma posição tão pacífica.

Nomes como o de Winnie não aparecem nos livros de História como deve ser.

Na África do Sul: Albertina Sisulu. Fatima Meer. Ruth First. E tantas outras!

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Mulheres sul-africanas protestam durante o Apartheid.

No seu livro 491 Days: Prisoner Number 1363/69, Winnie relata como a sua saúde se deteriorou na cadeia, tanto a nível físico como mental. Ela chega a ficar meses com o ciclo menstrual interrompido e com ataques de pânico constantes, sem assistência médica alguma.

Passa por tortura. Fica em confinamento solitário por mais de 12 meses. Não tem contacto com as suas filhas ou com o marido. Por vezes é privada de falar com o seu advogado. Pouco ou nada come. Enfim!

Winnie foi levada ao limite. E sobreviveu para ver uma África do Sul livre.

Tal como Winnie Madikizela-Mandela, foi também “Mãe da Nação” Josina Machel .

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Josina Machel foi uma das fundadoras do Destacamento Feminino

Josina Machel foi uma combatente na luta de libertação de Moçambique.

Entre os seus 18 e 20 anos foi presa e perseguida por seguir o sonho de combater as forças Portuguesas. Percorreu cerca de 2000km para chegar à Tanzânia, onde passou por treino militar e se juntou à Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO).

Foi ela que, em finais da década de 60, fez questão de posicionar as mulheres como parte integrante da luta pela independência e não meras espectadoras.

Ao morrer aos 25 anos, antes da independência, deixou um grande vazio não só no coração de Samora Machel, seu esposo e futuro Presidente da República, mas também na FRELIMO onde liderava antes de adoecer, o Departamento de Assuntos Sociais.

Embora no dia da sua morte, 7 de Abril, se comemore o Dia da Mulher Moçambicana, pouco se fala e se discute o papel de Josina e os seus ideais.

Antes pelo contrário, pode-se até dizer que usa-se a data para reforçar a posição da Mulher como costela de Samora – Ups! – Adão.

As mulheres que optavam pela carreira política, à semelhança do que acontece hoje, eram recebidas de braços abertos para fazer o trabalho sujo, mas não para ocupar cargos de liderança.

Como presas políticas sofreram vários tipos de violência física característicos apenas de mulheres, para além da esperada tortura, maus-tratos, perseguição e outras formas de intimidação por parte dos regimes que elas ousaram desafiar.

E ainda assim, mesmo no seio dos movimentos que integraram era esperado um comportamento passivo. Esperamos dessas mulheres a manutenção da sua “feminilidade”, baseada na ideia de fragilidade e doçura. Perdão incondicional e amor eterno.

Mesmo casando homens na política, não lhes foi permitida uma saída ao esperado papel da mulher no matrimónio: submissão; maternidade; sociabilidade.

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Hoje está aí Dilma Rousseff, no Brasil sendo destituída num processo misógino e elitista, quase despótico. E ao mesmo tempo assistimos a ascensão de Hillary Clinton – de um background diferente, mais privilegiado -, de quem também se espera uma cara sorridente e maternal.

Às mulheres está interdito o acesso à raiva ou ódio. Muito menos ao rancor. Não podemos guardar mágoa nem podemos ficar zangadas. Senão somos ingratas. Somos loucas. Somos doentes.

Winnie foi privada de circular livremente. Não podia receber visitas. Não podia visitar o marido. Não tinha como trabalhar. Era cidadã de segunda classe no seu próprio país.

Foi lá e gritou. Lutou. Sofreu.

Winnie não é maluca.

 

 

Vamos falar de cabelo?

Para a maioria das pessoas não negras cabelo é algo trivial.

É algo tão comum e ao mesmo tempo significante como unhas: Há pessoas que gostam de unhas curtas; outras de unhas compridas. Há quem pinte as unhas e há que as deixe desnudas. Há também as opções de extensões e tratamentos para as unhas, mas de modo geral, não há um padrão forçado no que toca a unhas. E para essas pessoas o mesmo acontece com o cabelo.

Contudo para as pessoas negras o cabelo é algo muito maior que isso.

Muitas pessoas negras, em especial as mulheres, vêem-se acorrentadas ao cabelo. Se chove ela não pode andar a pé. Se tem um evento, tem necessariamente de perder horas no salão de cabeleireiro. Se tem uma entrevista de emprego, é obrigada a avaliar minuciosamente como irá apresentar o seu cabelo aos potenciais patrões. Se vai conhecer alguém novo; vai a um local diferente; tem de participar de um evento desportivo; ir à piscina; viajar; tudo isso envolve algum tipo de decisão quanto ao cabelo. Esse cuidado vai para além de vaidade. É uma necessidade.

O cabelo torna-se uma espécie de prisão.

O cabelo dos negros, seja ele crespo ou cacheado está carregado de conotações negativas. Entre as mais comuns, há o mito da falta de higiene, este recaindo sobretudo em estilos como as tranças e dreadlocks, e o mito da desorganização e desleixo, mais associado ao afro.

Existe uma pressão para as pessoas negras terem o cabelo liso, que é exactamente o inverso daquilo que cresce naturalmente nas nossas raízes. Para além do processo de alisamento de cabelo ser feito com recurso a químicos prejudiciais à saúde, é muitas vezes doloroso e dispendioso (sobretudo quando associado a extensões capilares).

Recentemente adolescentes sul-africanas ganharam fama com os seus protestos contra a discriminação dos seus cabelos naturais na escola que frequentam.

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Protesto na Escola Secundária de Pretória, na África do Sul

As meninas sofriam pressão diariamente por parte dos professores para a alisarem os seus cabelos sobre a pena de serem privadas de assistirem às aulas por causa dos seus naturais e crespos Afros.

Em Moçambique também vivemos uma ditadura dos padrões ocidentais.

No início do ano lectivo uma mãe publicou no Facebook que teve de cortar as dreads da filha que de outra forma, seria impedida de entrar na escola.

Num outro relato, um cidadão reportou que apesar de ter qualificações para tal e ter sido aceite através de um concurso público, foi impedido de dar aulas na província de Nampula por ter rastas.

Os nossos cabelos na sua forma mais natural são, vezes sem conta, alvo de ataques que nos empurram para um abismo de ódio próprio e auto-destruição.

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Mãe teve de cortar as dreads da filha sobre a ameaça de suspensão.

Estes casos evidenciam como o padrão de beleza ocidental nos é forçado desde cedo e em várias esferas sociais. Também deixa claro que o policiamento dos nossos corpos é mais importante que a nossa educação.

Isto é apenas uma amostra do racismo institucional espalhado um pouco por toda a parte. Os padrões instituídos pelo Imperialismo Ocidental continuam a influenciar aquilo que é esperado nos centros escolares e empresariais, ainda que de forma implícita.

As politiquices em torno do cabelo dos negros não são nada de novo. O cabelo afro, por exemplo, foi usado nos anos 60 pelos Panteras Negras nos E.U.A. como afirmação de identidade. Aquilo que hoje chamados de rastas e o Movimento Rastafari surgiu na Jamaica como manifestação de adoração do Imperador Ras Tafari (Haile Selassie) da Etiópia (anos 30).

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Crente Rastafari

Vivemos sobre códigos de conduta que buscam a uniformidade. A estandardização do ser humano. E o modelo padrão é o modelo ocidental (branco). Assim sendo, para que nos aproximemos desse modelo tem de haver um processo de subjugação. Temos de nos afastar da nossa Negritude.

Quando elementos da nossa Negritude – tal como o cabelo – têm acesso vedado a espaços públicos somos obrigados a abdicar de uma parte da nossa identidade.

E quando este acesso nos é vedado não pelas autoridades coloniais, mas por mentes africanas colonizadas, vemos quão longe foi o projecto imperialista ocidental.

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Vários penteados tradicionais africanos.

Não é só cabelo.

É muito mais que isso. É sobretudo o valor colocado numa ideia. A ideia de que aspectos culturais e estéticos devem se guiar por um padrão do outro lado do espectro onde me encontro. A ideia de que a validade da minha existência mede-se mediante a aproximação a um determinado padrão.

A ideia em como a minha negritude, a minha identidade tem menos valor.

Corre Semeneya, Corre!

 

Lynsey Sharp, que terminou em sexto lugar na corrida dos 800m femininos foi a primeira atleta a contestar a participação de Semeneya na corrida, afirmando que era uma desvantagem correr contra ela. 

Sharp, com todo o seu privilégio de menina branca, nascida e criada na Escócia, filha de um medalhista olímpico, treinada nas melhores Academias, tem a audácia de atribuir a sua  sexta posição, ao facto de competir contra Mokgadi Semeneya.

Semeneya, que vem de uma isolada vila na África do Sul, país onde até 1994 os negros nem sequer tinham direito ao voto, para não falar em oportunidades de crescimento pessoal e profissional, teve de enfrentar mais dificuldades para chegar ao pódio.

Insatisfeita com a sua performance, Sharp desmereceu até todo o investimento feito pelo seu país para o Atletismo.

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Caster Semeneya foi alvo de várias críticas ao terminar em primeiro lugar
Será que haveria tanto alarido caso Semeneya tivesse terminado em último na corrida? E se fosse branca como teriam reagido as suas adversárias?

Atenção que Semeneya não foi acusada de doping, mas sim de ter uma vantagem natural e injusta devido ao seu corpo.

Lynsey Sharp, que não fosse por Semeneya-  vale a pena ressalvar- teria ainda assim terminado atrás de quatro outras pessoas, ou seja, não chegaria ao pódio, sentiu-se no lugar de questionar a presença de Caster Semeneya na competição.

Jarmila Kratochvílová, a actual recordista dos 800m femininos, da República Checa não só tem um físico mais “masculino” que Semeneya, como também já foi acusada de doping, sem nunca no entanto ter sido alvo de exames ou escrutínio por parte do COI ou IAAF.

Os ataques sofridos por Caster Semeneya evidenciam o racismo ainda muito vivo no desporto até no mais alto nível.

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Jarmila Kratochvilova já foi acusada de doping, mas nunca foi provado e mantém a sua inocência
Há aqui, para além de um claro sentido de intitulação por parte de Sharp, que a faz acreditar que era seu DIREITO ganhar uma medalha, a presunção que de alguma forma, Caster Semeneya tem uma vantagem sobrenatural.

Essa vantagem sobrenatural, prende-se, logicamente com o seu corpo e alegações de hiperandrogenismo.

Mulheres negras são tidas como uma espécie sub-humana. Devido à exotificação e hipersexualização do seu corpo, há a expectativa que a Mulher Negra tenha um comportamento semi-animal.

O padrão de Mulher dominante define a Mulher Ideal como branca, cisgénero e heterossexual. De tamanho pequeno, com aspecto frágil e dócil.

É difícil para qualquer mulher viver à altura desses padrões e para uma mulher negra essa luta é ainda pior. Os nossos traços robustos; os nossos ombros e braços largos; as nossas pernas tipicamente grossas; tudo isto apresenta uma inconformidade aos critérios do Imperialismo Branco.

Porque o corpo de Semeneya não corresponde às expectativas do corpo de uma mulher – e leia-se aqui, de uma mulher branca- isso de alguma forma a coloca numa posição em que ela deveria correr contra homens.

A suposição em como o seu corpo, por ter aspectos considerados masculinos, ou na melhor das hipóteses, andróginos, darem-lhe uma vantagem injusta não só reforça a ideia que ela não é mulher, como também, desvaloriza as mulheres, visto que suporta a visão da supremacia da força e corpo masculinos.

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Mokgadi Semeneya levou para a casa o Ouro na corrida dos 800m

 

Os nossos corpos vivem à margem daquilo que se considera “Mulher”. Os nossos corpos sequer se podem intitular “femininos”.

Mas são. Nós somos. Mulheres. Negras.

Mokgadi Caster Semeneya é uma mulher.

Lá porque o seu corpo desafia os padrões pré-definidos como aceitáveis numa Mulher. Porque desafia os limites da força considerável máxima numa Mulher. Porque coloca em perspectiva o nosso conceito de Mulher. Isso não faz dela menos Mulher.

Mokgadi Caster Semeneya é uma mulher.

Uma mulher merecedora da sua medalha. Fruto de todo o seu esforço e treino. Do seu corpo negro maravilhosamente esculturado.

 

 

Para fingir orgasmos

Para fingir orgasmos é preciso ser-se altruísta. É preciso por o outro em primeiro e único lugar, sentir o prazer a fugir-nos pelas mãos e oferecê-lo sempre que possível, em todas as dimensões imagináveis.

Para fingir orgasmos tem de se querer morrer. E matar. É um suicídio lento e mal pensado. Mas necessário.

Para fingir orgasmos o melhor é estar-se embaixo. De olhos fechados. No escuro. Muito escuro. Escuro o suficiente para esconder toda a vergonha e toda a verdade.

Até as melhores atrizes têm dificuldades em fingir orgasmos.

Porque fingir orgasmos requer alguma arte. Encontrar o equilíbrio perfeito entre a vontade de ir embora e a necessidade de alimentar o ego. Um ego qualquer. De quem o ego é pouco importa.

O mais importante é o orgasmo, fingido claro. O orgasmo que em algum momento se quis e agora tanto faz. A bem ou mal, eu tenho de te dar um orgasmo.

Eu tenho de te dar um orgasmo. Eu tenho de te dar um orgasmo. Aliás, eu tenho de te dar dois orgasmos. O meu orgasmo e o teu orgasmo. Eu tenho de te dar dois orgasmos. Eu devo-te dois orgasmos.

Eu devo-te dois orgasmos porque é assim. Sexo faz-se assim. E se tu não tiveres o teu orgasmo então não é sexo. Então eu fiz algo de errado. Então eu não sirvo.

E se eu não tiver o meu orgasmo. Então tu fizeste algo de erro. Então não é sexo. Então tu não serves. Como assim tu não serves. Isso não faz sentido nenhum. Tu és perfeito. Tu és o maior. Tu mereces o meu orgasmo. Eu dou-te o meu orgasmo.

Eu dou-te o meu orgasmo e o teu orgasmo. Toma. Leva os dois orgasmos. Leva o teu orgasmo controlado. Quase mudo. Cínico. O teu orgasmo. Que eu te dei.

E leva também o meu orgasmo. Que eu também te dei. Eu dou-te o meu orgasmo fingido e dissimulado.

Um orgasmo alto. Forte. Que chama a atenção. Um orgasmo com efeitos especiais. Um orgasmo em três dimensões. Tecnologia de ponta. Alta definição. Um orgasmo maior que o próprio orgasmo. Melhor que o verdadeiro.

Para fingir orgasmos tem de ser assim.

 

Senão o melhor é não ter um.

 

 

A árdua tarefa de sofrer

Sobre a forma como usamos o sofrimento dos outros para nosso próprio prazer e criamos uma verdadeira indústria pornográfica em que exploramos as dores e lutas dos que mais precisam de nós.

A pornografia do sofrimento naturaliza as divergências económicas e sociais que vemos todos os dias através da perpetuação de mensagens codificadas que impõem a responsabilidade à pessoa oprimida.

Estas mensagens têm como objectivo libertar-nos do peso do nosso privilégio, atirando para a vítima todos os encargos para sair da sua situação.

Apelam sobretudo ao nosso sentimento de culpa, o pior sentimento de quem tem privilégios, pois evidencia aquilo que nós temos a mais, que conseguimos não por “mérito”, mas por um conjunto de acidentes felizes.

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Instagram Barbie Savior

Com algumas frequência nos cruzamos com imagens virais de pessoas, na sua maioria mulheres, de backgrounds variados fazendo as mais difíceis tarefas do seu dia-a-dia com bebés às costas, crianças de colo ou em outras situações nada favoráveis ao seu sucesso.

Apesar das condições, estas mulheres ultrapassam obstáculos e tentam levar a sua vida da melhor maneira possível, servindo de “ideal de sofredora”.

Usamos estas imagens como bons exemplos a seguir. Gostamos. Partilhamos. Comentamos. E sempre que ouvimos histórias similares nos lembramos “Ah! Não deve ser tão difícil assim, porque eu vi uma foto em que a fulana conseguiu!” ou então “Conheço alguém que passou por isso e muito mais e sobreviveu!”.

Pois é. As pessoas sobrevivem.

Bons sofredores sobrevivem. As pessoas aprendem a sobreviver. A superar. Mas as feridas dessas caminhadas difíceis não desaparecem. Elas existem e elas também merecem reconhecimento.

O sofrimento é algo real e nós nem sempre falamos sobre isso. Preferimos falar da felicidade, de superação e ignoramos as teias manhosas da pobreza e da depressão.

Caímos no erro de olhar para aquele sofrimento como a ordem natural das coisas, sem questionar a sua origem ou possível solução. Nos precipitamos a exibir a alpinista que escalou a montanha sem tentar entender como ela lá chegou ou sequer por que existe uma montanha.

Partilhamos o sofrimento dos outros e perguntamos aos sofredores “Por que é que o vosso sofrimento não é bonito como este? Por que razão vocês não sabem sofrer bem para a foto como esta pessoa? Por que é que o vosso sofrimento me deixa desconfortável?”

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Seremos viciados em Pornografia da Pobreza?

 

O mesmo acontece na Pobreza, quando vemos fotos das crianças com as barrigas inchadas a brincar alegremente no meio de toda a sua pobreza e falta de oportunidades. Olhamos para aquela cena e aplaudimos a coragem que as crianças têm de serem, de facto, crianças apesar do mundo triste que as rodeia.

E perpetuamos assim o ciclo de sofrimento, ou neste caso de pobreza, porque olhamos para casos isolados sem contextualizá-los devidamente. Encaramos aquele sofredor exemplar como a regra do jogo e apelamos aos restantes para que sofram assim:

Não basta sofrer, tem de sofrer de uma forma que não ofenda nem incomode. Sofrer de forma romântica, de preferência sem lágrimas. Chorar? Só se for mesmo necessário e nada de pedir ajuda!

Isso também faz parte da violência a que são expostos os que sofrem.

Usamos da sua vulnerabilidade para a nossa masturbação, ejaculando toda a nossa culpa e o nosso papel na conjuntura que cria essas disparidades nas nossas sociedades.

Os sofredores não precisam de ajuda ou apoio para sofrerem bem, precisam sim de mudanças estruturais que acabem com o seu sofrimento. De pessoas que usem dos seus privilégios para destruir essas montanhas. Para que não haja mais sofrimento.

 

 

 

Genocídios para além do Holocausto

O Holocausto é provavelmente o genocídio mais famoso da História, que decorreu durante a Segunda Guerra Mundial, em que cerca de 6 milhões de judeus foram assassinatos pelo regime Nazi. Mas e em África, não há Genocídio?

Considera-se Genocídio como o assassinato em massa de um grupo de pessoas com base na sua etnia, religião ou cultura. Num sentido mais amplo, fazem parte de um Genocídio não só o assassinato, de facto, mas também todas as acções de perseguição que violem a integridade física e/ou destruam as bases de sobrevivência desse grupo.

Embora o termo Genocídio só tenha sido institucionalizado em 1951, com a Convenção Para a Prevenção e Repressão do Crime do Genocídio pela ONU, muito antes do Holocausto (e depois) estes crimes foram praticados.

Há quem considere a Escravatura como o maior Genocídio da História da Humanidade, atendendo ao facto de mais de 10 milhões de africanos terem sido traficados para a Europa e as Américas; as suas terras foram roubadas (Colonialismo) e apagou-se a suas Histórias e Culturas, impedindo-os de manter a sua identidade.

Genocídios em África – ou contra africanos – até hoje aparecem como pequenas sombras, sem nunca serem lembrados como foram, com a devida solenidade ou sequer reconhecimento.

Quando em 1904, africanos da tribo Herero se revoltaram contra o roubo das suas terras, gado e mulheres por parte dos alemães, os africanos da tribo Nama juntaram-se. A revolta culminou na Batalha de Waterberg, de onde os africanos saíram derrotados.

Como castigo, a Alemanha massacrou entre 70,000 a 100,000 pessoas das tribos Herero e Nama, de onde hoje nós chamamos de Namíbia. Estas pessoas foram levadas para campos no deserto do Namíbe, onde a sua maioria morreu de complicações ligadas à subnutrição e condições de temperaturas extremas. Os seus cadáveres foram depois levados a Berlim para “experiências científicas”.

Apenas recentemente a Alemanha admitiu o crime, devolvendo parte desses esqueletos e prometendo um pedido de desculpas formal (mas sem reparações monetárias para a Namíbia).

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Sobreviventes do Genocídio na Namíbia

Na mesma altura houve também o Massacre de Maji Maji, no qual a Alemanha – sempre a Alemanha! – matou cerca de 75,000 africanos da região daquilo que hoje é a Tanzânia, depois de vários grupos se revoltarem contra a sua presença nos seus territórios. Neste caso, para além dos ataques físicos, os africanos foram também sujeitos a medidas repressivas como a limitação de fornecimento alimentar, através da destruição das suas plantações.

Mas não há Museus ou sequer provas físicas – para além  dos esqueletos recuperados e algum arquivo fotográfico- desses acontecimentos.

Durante o processo de descolonização do Quénia, o Reino Unido promoveu uma forte campanha contra a tribo Kikuyu, pois eram estes os maiores oponentes ao regime imperialista.

Movidos pelo desejo de controlarem os seus próprios destinos e a realidade de uma independência próxima, em 1952 os Kikuyu mobilizaram forças contra a ocupação britânica naquilo que ficou conhecida como a Revolta Mau Mau.

Em resposta, a Grã-Bretanha declarou estado de emergência e começou uma operação forte de ataque a todos aqueles que se presumia fazerem parte da equipa de “rebeldes”.

Campos de detenção foram instaurados e assim, instalou-se uma ordem na qual era legal usar a violência extrema como meio de dominação. Até 1960, data em que os campos foram encerrados, cerca de 90,000 quenianos foram executados, mutilados ou torturados pelas forças britânicas.

Só em 2003 a Grã-Bretanha concordou em pagar reparações a alguns sobreviventes. Depois de anos de dor, trauma e luto por tudo o que aconteceu, muitos deles já idosos serão lembrados apenas pelos seus depoimentos em tribunal.

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Cerca de 150 campos de detenção foram instalados no Quénia.

Mas europeus à parte, genocídios intra-africanos também ocorreram.

O mais gritante é talvez o Genocídio do Ruanda, em que em apenas 100 dias, militantes radicais da tribo Hutu, liderados pelo grupo nacionalista Parmehutu perseguiram, torturaram e assassinaram entre 500,000 a 1,000,000 de Tsutis. Sendo que, mais de 200,000 refugiaram-se em países vizinhos nesse período.

Embora divergências tribais sempre tivessem havido entre os dois grupos, foi sobretudo depois da descolonização e durante a luta pelo poder político que estas diferenças ganharam forma institucionalizada.

Ao contrário dos restantes casos, no Ruanda o genocídio foi documentado via rádio, televisão e telefone. A comunidade internacional, no entanto, fechou os olhos e viu perto de 20% da população ruandesa a ser assassinada, ao vivo e a cores.

O massacre terminou apenas quando a Frente Patriótica do Ruanda, partido com apoio dos Tsutsis conseguiu derrubar o regime do Parmehutu. Nesse período mais de 2 milhões de Hutus fugiram do país, temendo retaliação. Até hoje decorrem julgamentos relacionados ao crime.

Na República Centro-Africana decorre neste momento algo que pode muito em breve aparecer nos nossos livros de História como um dos piores genocídios em África. Não pela dimensão do país, tão pouco pelo número de mortos, mas pelas implicações que tem.

Quando o grupo militar Seleka, muçulmano, foi derrubado em 2014 pelo grupo rebelde Anti-Balaka, cristão, através de um golpe de Estado (o 5o. em 56 anos de independência), uma forte perseguição à minoria islâmica começou.

Desde então, mais de 800,000 pessoas já foram deslocadas e mais de 400,000 refugiaram-se em outros países fugindo da fúria das armas cristãs sobre o Alcorão. A crise na República Centro-Africana é das desgraças mais ignoradas da História recente.

No centro destas questões misturam-se questões religiosas, culturais, étnicas e sobretudo de recursos. É o caso do Darfur, onde mais de 500,000 pessoas já morreram. Da Somália considerada como o pior desastre humanitário do séc. XXI. Do Congo, onde em 2006 apenas, mais de 25,000 violações foram reportadas.

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Mais de 5 milhões já morreram no Congo, um recorde desde a Segunda Guerra Mundial

Mas há um factor comum a todos estes casos: a História repete-se (quase) de forma cíclica. Por não haver um registo, um reconhecimento e por tabela, responsabilização, vive-se um eterno Presente.

Rebeldes contra rebeldes contra civis contra mulheres contra homens contra crianças contra igrejas contra diamantes contra terras contra todos. Todos eles sem memória. Sem Passado.

Precisamos também de construir Museus para os nossos genocídios. Conversar com os nossos pesadelos. Dar cara às nossas desgraças. Chorar os nossos horrores. E nesses processos quem sabe, construir um Passado que sirva para pacificar o Futuro.