Chimamanda, de novo

Chimamanda, de novo

Meu terceiro livro da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, desta vez “Purple Hibicus” (Hibisco Roxo).

Tive o prazer de ler este livro num vôo de 16h e não fosse por ele, não sei se teria sobrevivido à viagem!

A história segue uma família pelos olhos de Kambili, a filha de 15 anos. Apesar de ser um homem respeitado na sua comunidade, o pai é abusivo dentro da sua casa para com a sua esposa e os seus filhos.

Kambili é uma adolescente em conflito: ela idolatra o pai, admira o seu carácter e faz de tudo para ganhar o seu respeito e aprovação, mas por outro lado, também cultiva um medo profundo por ele e sabe que o que ele faz não está certo.

O título do livro vem da flor que a sua tia tinha no seu quintal em Enugu, onde Kambili e o seu irmão Jaja se tornaram livres, o hibisco roxo.

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O livro começa como um filme de suspense. Embora não saibamos ainda o que se passa, dá para sentir que algo está mal. Uma energia pesada no ar. O abuso nunca é directamente referenciado, apenas a descrição do sofrimento: os gritos, as marcas, a loiça partida e todo o trauma que permanecia.

Até o abuso de poder do Estado aparecia apenas como uma força invisível, mas omnipresente.

A religião também aparecia como uma força abusiva e opressiva.

E no olhar de Kambili, a filha mais nova, vamos descobrindo tudo isso na sua inocência. Sem as palavras certas, sem a maturidade para reconhecer as diferentes violências e sem o apoio necessário para denunciá-las.

Eugene ou simplesmente Papa, um homem defensor dos direitos humanos, um empresário de sucesso, um católico exemplar e ao mesmo tempo um esposo abusivo, um pai violento, um filho reprovável, um irmão ausente.

A tirania do pai, Papa, pode ser assemelhar até à tirania da Nigéria, como Estado: em casa, é um homem poderoso e temido por todos, que se usa do seu lugar de poder para abusar física e verbalmente de toda a sua família. E lá fora, é um homem poderoso e admirado por todos, que usa do seu lugar de poder para ajudar e desenvolver a sua comunidade.

Aliás, Papa não se diferente de muitos líderes africanos aplaudidos e premiados internacionalmente, mas déspotas impunes a nível doméstico. Os abusos de muitos desses tiranos eram conhecidos, no entanto, era conveniente ignorar as evidências pelos ganhos individuais (com especial atenção a parcerias econômicas – papo para outro dia).

E Papa, embora tentasse esconder, deixava sempre marcas visíveis do abuso que impunha sobre os seus.

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Embora mais tarde Kambili consiga encontrar as palavras certas, a sua vontade de reconciliação e aprovação são mais fortes.

Eu adorei o livro porque Adichie consegue humanizar até o pior do vilões. É fácil odiar e nos colocarmos num patamar superior, assumirmos que temos um compasso moral mais digno… A prática da empatia é um exercício doloroso. Mas com as palavras de Adichie, é possível entender e quiçá até perdoar o pai abusivo.

Se nós estivéssemos na mesma posição, seríamos diferentes?

 

Teju Cole, aqui, lá e em lado nenhum

Teju Cole, aqui, lá e em lado nenhum

Em Every Day Is For The Thief, o narrador, o nosso protagonista anónimo, é um nigeriano que após viver 15 anos nos EUA decide visitar o seu país de origem.

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O livro retrata uma Nigéria em mudança. Fonte: Cassava Republic Press

Em capítulos curtos e profundos, vamos conhecendo a Nigéria – mais precisamente a cidade de Lagos – e a própria história pessoal do narrador, a sua família e o seu percurso.

O objectivo da viagem é pouco claro, tanto para o leitor como para o narrador, o que pode ser frustrante às vezes.

O narrador contempla a ideia de voltar para a Nigéria. Por um lado, ele sente que como escritor teria bastante material e poderia ser bem sucedido centrando-se em Lagos. A vida na cidade parece ser arte por si só e precisar apenas das suas mãos para registar os momentos brilhantes que lá estão diariamente, no quotidiano das buzinas, geradores e caras que cruzam o seu caminho.

Mas por outro, falta-lhe a ligação emocional e o conforto material necessários para estabelecer uma vida em Lagos. Pelo menos o tipo de vida que o narrador gostaria de ter.

O narrador incomoda-se com os preços, os ruídos, as pessoas, os valores, etc. Por vezes parece até que ele se esforça para odiar fielmente o que torna Lagos, Lagos!

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Em “Every Day Is For The Thief” o autor explora tanto Museus como Mercados. Fonte: The Guardian

Os elogios e aplausos que o narrador faz à Nigéria são esporádicos e muitas vezes centrados em Lagos, ou em lugares específicos que, ou remetem o autor a uma lembrança de infância, ou rememtem o autor a essa ideia de “americanização” que ele tanto procura.

Um desses exemplos é o seu elogio a um recente inaugurado espaço artístico, onde crianças nigerianas podem aprender instrumentos musicais e o narrador alegra-se com a possibilidade desse espaço tornar-se a Juilliard da Nigéria.

O narrador é duro demais nas suas críticas. Muitas das suas questões podem-se resurmir a apenas uma: Por que é que a Nigéria não pode ser como os EUA?

Desde as críticas aos espaços culturais, restaurantes/ gastronomia e governo, parece que a Nigéria está sempre a um passo atrás. E mesmo a ideia de inspiração que Nigéria lhe oferece está intimamente ligada a essa suposta inferioridade, já que são as manifestações humanas de pobreza e desespero que mais despertam nele fascínio.

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O livro é uma compilação de cartaz de amor e de maldizer a Lagos. Fonte: The Financial Times

Não acredito que tenhamos de romantizar a Nigéria, mas não acho justo olharmos para Nigéria com um olhar ocidentalizado ignorando factores históricos, económicos e até mesmo geopolíticos.

Por exemplo, a crítica do narrador ao Museu Nacional da Nigéria falha ao compará-lo aos Museus em Nova Iorque, Londres e Berlim, afinal de contas, esses espaços levaram anos a estabelecerem-se como referências e, aliás, se são referências é porque também têm peças roubadas do continente africano.

No entanto, o autor não se dá ao trabalho de explicar as intrínsecas pecularidades da história recene da Nigéria, nem tão pouco de responsabilizar as potências ocidentais pelas suas interferências nos assuntos internos nigerianos, factores que permitiram que a corrupção tomasse conta de virtutalmente todos os aspectos da vida dos nigerianos.

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O autor descreve “casa” como um lugar estranho e ao mesmo tempo familiar. Fonte: The NY Times

Tendo dito isto, o livro capta a essência da vida como emigrante. A leitura é por vezes tão desconfortável e perturbadora como a própria experiência de se entender como um estrangeiro na terra que abandonou e estrangeiro na terra que o acolheu.

Ele mesmo se surpreende com a estranheza que sente ao retornar a Lagos: o calor, os sons, as músicas, etc. Lagos cresceu, mudou e ele também passou por processos de crescimento que o colocaram numa posição peculiar.

Ao ser observador e ao mesmo participante, o narrador explora os sentimentos de pertença e deslocamento tão comuns em emigrantes. É tao estrangeiro na Nigéria como deve ser também nos E.U.A.

O luto, as perdas e as saudades são constantes. Ele ocupa na verdade um “não espaço”, pois pertence a lugar algum.

E por falar em poligamia…

E por falar em poligamia…

A implícita relação entre poligamia e violência.

Já escrevi aqui no blog sobre a poligamia e a necessidade de reflectirmos acerca deste estilo de vida tão comum em Moçambique.

Falamos em poligamia em termos económicos e em termos políticos, mas pouco ou nada se fala pela perspectiva de afecto: se existe afecto; como é que esse afecto se manifesta; como se constroem as relações de afecto dentro da família; etc.

E há algum tempo chegou-me um artigo (link abaixo) bastante interessante que correlacionava a poligamia à violência. Não é qualquer tipo de poligamia, mas sim a poliginia: um esposo e várias esposas.

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Casamentos múltiplos causam desigualdade e frustração. Fonte: The Economist

Olhando para o nosso contexto, as primeiras reflexões foram, obviamente ver como essa violência se manifesta: uniões forçadas com menores de idade; uso de meios financeiros para aliciar as famílias (lobolo); uso do casamento como forma de obtenção de mão de obra barata (especialmente para trabalhar a terra) e a violência física/ psicológica/ sexual a que muitas destas mulheres estão expostas uma vez casadas.

Mas isso é apenas a superfície da reflexão que nos é proposta. Pois, indo mais a fundo no estudo realizado, vemos que essa violência, que na verdade acontece no seio de várias famílias, dentro das próprias casas dessas mulheres, é apenas um lado da moeda. Existe ainda um outro lado, protagonizado pelos homens solteiros. Estes, frustrados pela sua falta de prestígio, muitas vezes expressam essa violência para fora das suas casas.

A poligina frustra os homens jovens, pois estes são obrigados a competir com os homens mais velhos (que puderam acumular riqueza ao longo do tempo) pelas mesmas mulheres (as que estão ainda em idade fértil).

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A poligamia ameaça a equidade de tratamento entre homens e mulheres. Fonte: Estadão

Cria-se por isso uma dinâmica em que as mulheres são pressionadas a casar cada vez mais cedo e os homens cada vez mais tarde. Por exemplo, se numa família há três rapazes e três raparigas, primeiro devem se casar elas, para que a família através dos lobolos acumule riqueza para então os rapazes escolherem as suas esposas.

E como ficam os rapazes sem irmãs? Ou aqueles cujas irmãs por N motivos não casam?

Esses rapazes casam-se ainda mais tarde, e geralmente com uma única mulher, num meio em que para ter algum prestígio/ reconhecimento é preciso casar mais mulheres. Como consequência, essa geração de homens jovens, pobres e solteiros, sem perspectivas de futuro – quando aliamos isto a outros factores como o fraco acesso a emprego; baixa escolarização; descrença nas lideranças políticas e pouca esperança no futuro – tornam-se muito vulneráveis a manifestações de violência.

No Sudão do Sul, por exemplo, onde o gado é usado quase como moeda e indispensável para a realização do casamento, é comum gangs de homens jovens roubarem cabeças aos homens mais velhos. Estes assaltos ocorrem geralmente com recurso a armas de fogo, e chegam a ser operacionalizados por organizações criminais.

Grupos violentos, como por exemplo Boko Haram/ Talibans/ etc com grande influência na Nigéria e Afeganistão, conseguem recrutar muitos homens jovens também pelas suas aspirações conjugais. Por se sentirem excluídos e desiludidos, é aliciante a sensação de poder e de causa. Para além disso, muitos desses grupos não só prometem valores para o pagamento dos casamentos, como também raptam jovens mulheres para servirem de esposas para os seus integrantes.

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A tradição é a justificativa para a perpetuação da poligamia. Fonte: WLSA

Então, várias ilações podemos tirar desse estudo que se podem aplicar ao nosso contexto… Numa primeira análise, sobre as dinâmicas intrafamiliares, como por exemplo a violência se manifesta através de conflitos; negligência; abusos; etc, e posteriormente sobre as dinâmicas fora da família, tais como conflitos intergeracionais, crime organizado e guerras, entre outros, podem estar relacionados.

 

Under The Udala Trees, uma Nigéria LGBT+

Under The Udala Trees, uma Nigéria LGBT+

O livro “Under The Udala Trees”  de Chinelo Okparanta retrata uma história nigeriana LGBT+

Este é um dos melhores livros que já li e escrevi um pouco sobre ele em 2016.

Há vários motivos para gostar do livro e um deles é o facto de ser  um livro africano recente que não retrata as vidas de africanos num contexto de emigração, que tem sido uma tendência entre escritores do continente.

Okparanta começa o livro de forma tímida e contida, tornando, na minha opinião, as primeiras páginas aborrecidas, cheias de metáforas e frases bonitas para escrever num caderno de anotações, mas à medida que a história avança, a leitura torna-se mais confortável e as suas frases tornam formas mais naturais.

A autora consegue retratar as experiências de Ijeoma, a protagonista, desde a sua infância à sua idade adulta. Uma mulher numa encruzilhada difícil, obrigada a escolher entre o que ela sente que é certo e o que precisa para sobreviver.

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A autora escreveu para se manifestar contra a opressão vivida pela comunidade LGBT+ na Nigéria. Fonte: The Guardian

 

Seguindo a tradição oral da Nigéria, a narrativa é inspirada pelas histórias e fábulas sobre as diferentes tribos e religiões que coexistem no país.

A puberdade de Ijeoma chega justamente no momento em que começa a guerra civil. Após a morte do pai, a mãe envia a sua filha para uma outra vila mais segura, sobre os cuidados de uma família amiga. Lá, Ijeoma vai descobrir a sua sexualidade, as suas forças e as suas fraquezas.

Decisões complicadas que nos deixam, como leitores, numa luta permanente.

Num país devastado por uma guerra civil e tensões étnicas, o luto é um sentimento constante. As ausências sentem-se ao longo de toda a narrativa. As questões de conflito e tribalismo misturam-se com homofobia, valores tradicionais e xenofobia.

Embora estes temas não sejam o centro da história, tal como na vida real, são componentes que determinam certas crenças e comportamentos. São elementos incorporados de forma tão subtil e bonita!

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Perseguições à comunidade LGBT+ na Nigéria são frequentes. Fonte: The Independent UK

O livro é um interessante começo para termos, como africanos, conversas sinceras sobre as experiências LGBT+ no continente.

Este é um brilhante retrato de histórias queer na Nigéria entre as décadas de 70 e 80, mas não deixa de ser uma história universal: pessoas queer a serem forçadas para espaços marginalizados, tanto física como espiritualmente. Pessoas queer como alvos de violência, tanto física como emocionalmente. Pessoas queer a viverem traumas todos os dias, tanto individualmente como colectivamente.

Na Nigéria, semelhante a outros países é ilegal ser LGBT+. Na base da legislação está a crença em que a homoafetividade é um conceito importado do Ocidente, uma herança nefasta do colonialismo, mas na verdade a homofobia é que na verdade foi importada.

O livro de Okparanta, um manifesto pelo direito a amar, em toda a sua beleza e magnitude, propõe um entendimento mais profundo da questão.

 

 

Nem todos os tesouros estão no fundo do mar

Nem todos os tesouros estão no fundo do mar

Os maiores tesouros africanos estão em Museus na Europa.  

Desde o início da exploração europeia à África, Américas e Ásia que várias relíquias, tesouros e até mesmo pessoas, foram roubadas dos seus locais de origem.

No fim deste mês alguns itens da colecção de Arte Africana de Liliane e Michel Durant – Dessert irão a leilão em Paris. São artigos provenientes sobretudo da África Oriental que datam do séc. XVI – XVIII e avaliados em milhões de dólares.

Como Liliane e Michel Durant – Dessert conseguiram acumular tais tesouros é-me desconhecido, mas podemos tirar algumas conclusões sobre como esses artigos foram chegar à Europa.

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Museu Britânico exibe acervo de arte africana. Fonte: Afro & Africa

Os primeiros exploradores europeus levaram consigo vários objectos como curiosidades, troféus ou testemunhos antropológicos de culturas exóticas: as roupas, comidas, estatuetas, etc.

Estes artigos foram recolhidos e acumulados ao longo dos séculos de ocupação europeia na África por exploradores, antropólogos, padres, etc e estão catalogados. São colecções inventariadas e protegidas, hoje em dia expostas em prestigiados museus ao redor do mundo.

Muitos dos grandes museus na Europa e das grandes coleções têm artefactos pertencentes a grandes impérios africanos hoje em dia extintos.

Do reino de Dahomey, onde fica actualmente o Benin, foram roubadas estátuas, jóias e até portas que estão actualmente em França.

No Museu Quan Branly, em Paris, estátuas roubadas no séc. XIX pelas tropas do general Alfred Amedee Dodds estão expostas como se tivessem sido oferecidas. Na verdade o general saqueou o palácio de Abomey, após ter vencido o rei Béhanzi e ter imposto o poder francês no reino, tornado-o assim numa colónia francesa.

 

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Segundo o Benin, existem na França entre 4500 a 6000 objetos pertencentes ao país. Fonte: G1

Nessa mesma época, séc. XIX, a Inglaterra invadiu a actual Etiópia e também levou vários tesouros. Entre os mais célebres está uma coroa de ouro, levada durante a campanha Maqdala 1868.

A campanha Maqdala 1868 tinha como objectivo instituir o domínio britânico na região e após a invasão, o imperador suicidou-se. Richard Holmes foi o responsável por recolher todos os objectos de valor e mantê-los em segurança para mais tarde serem expostos em Museus Britânicos, como acabou por acontecer.

A coroa tem um valor muito grande, pois é um importante símbolo para a Igreja Ortodoxa Etíope. Para além da coroa, foram levadas também outras jóias, manuscritos e até mesmo um menino, o filho órfão do imperador cujos restos mortais permanecem no Reino Unido até hoje, embora a Etiópia já tenha pedido a sua repatriação.

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A coroa está há 146 anos na Inglaterra. Fonte: Victoria & Albert Musuem

O Museu Britânico em Londres, fundado no séx. XVIII, também tem uma vasta colecção de arte africana. No total, são cerca de 200 000 itens de vários pontos do continente, a destacar uma cabeça de latão de um soberano iorubá de Ife (Nigéria) e a ourivesaria asante (Gana) entre outras.

Facto curioso é que este Museu reúne também peças pertencentes ao extinto Império Romano, que desde 1980 são disputadas pela Grécia.

Existe em Portugal o Museu Nacional de Etnologia, que tem raras e preciosas peças africanas. Adicionalmente, existe também a Sociedade de Geografia de Lisboa, as colecções privadas (tanto de particulares como de empresas) ligadas ao comércio colonial e os próprios antiquários que têm vindo a ganhar fortunas com a comercialização de arte africana.

A colecção de Liliane e Michel Durand-Dessert é apenas um exemplo precisamente disso.

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A alma africana no exílio. Fonte: Além Mar

Há décadas que têm sido feitas várias reivindicações no sentido de recuperar o património africano espalhado pelo mundo. No ano passado o presidente francês Emmanuel Macron disse no Burkina Faso que em cinco anos as obras de arte africana em França seriam devolvidas aos seus legítimos donos.

Em África existe uma vontade de recuperar o património perdido. Estima-se que mais de 90% dos artefactos que contam a História da África pré-colonial estejam foram do continente.

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Estatueta Mbembe (Nigéria) da colecção Durand-Dessert. Fonte: Blouin Art Info

Seja em Paris, Londres, Lisboa, Berlim, um pouco por toda a Europa existem milhares de artigos africanos em exposição ou leilão.

No dia 27 de Junho, em Paris, lá estará a nossa História, o nosso património, parte de quem somos, mais uma vez em hasta pública para ser comercializada.

E nós, teremos também de comprar a nossa própria Arte para retorná-la a casa?

 

As nossas colonialices

As nossas colonialices

Foi há 40 anos que Moçambique se tornou um país independente, governado tendo em conta os seus próprios interesses e para o seu próprio povo.

No entanto, a herança colonial até hoje está bastante presente.

A auto-imagem que temos é na verdade um reflexo do que nos foi ensinado sobre nós mesmos durante os anos de ocupação europeia no território Africano.

 

É comum entre nós, especialmente para as pessoas mais velhas que viveram o período colonial, reforçarem alguns mitos sobre os africanos: os africanos são preguiçosos; os africanos não têm tanta capacidade intelectual como os europeus; os africanos servem apenas para trabalho braçal; etc.

Por outro lado, também existe um discurso de saudosismo ao tempo colonial, que glorifica os horrores e opressões por que passavam todos os dias as populações africanas durante esse período.

E acima de tudo, herdamos muito da forma de estar, de ser e fazer do colono.

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A luta pela descolonização continua. Fonte: Público

Embora exista a União Africana, os blocos regionais e aqueles definidos pela língua são os que têm mais peso. Ainda nos definimos como lusófonos (os que falam Português); francófonos (os que falam Francês) e Anglófonos (os que falam inglês), e deixamos de lado as nossas restantes línguas, que representam a maioria da população e provavelmente os elos mais fortes que nos ligam.

A recente crise nos Camarões centra-se sobretudo na fricção entre camaronenses “francófocos” e camaronenses “anglófonos”, o que evidencia até que ponto essas identidades forjadas até hoje se fazem sentir.

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A crise dos Camarões prende-se com identidade. Fonte: Crisis Group

A verdade é que as próprias fronteiras não existiam e por isso, juntaram-se nações, repartiram-se outras para formar os países que hoje conhecemos.

Os poderes coloniais impuseram desta forma as suas línguas, costumes e culturas nos povos africanos. Desse processo houve mudanças sociais políticas e económicas que alteraram para sempre o destino dessas nações.

Portanto os conflitos étnicos/ tribais surgem como resultado dessas disputas: espaço legitimidade; recursos; etc.

Um outro exemplo marcante do colonialismo europeu é a réplica do funcionamento das insituições do Estado, até nas suas vestes.

Nos países outrora ocupados pela Grã-Bretanha, por exemplo, as formas de tratamento nos tribunais, o funcionamento dos mesmos e até mesmo o vestuário dos Juízes parecem ter saído do séc. XIX.

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Membros do Poder Judiciário no Malawi, Nigéria e Ghana, entre outros países africanos ainda usam o traje tradicional britânico. Fonte: The Independent UK

Uma das marcas mais fortes do colonialismo europeu em Moçambique é a institucionalização das “boas maneiras” e da “decência” especialmente na Função Pública, que é claramente herança do puritanismo católico.

As instituições públicas, na altura em que Moçambique estava ocupado pelos Portugueses, eram reservadas apenas aos europeus ou a alguns negros – os assimilados, que tinham alguns privilégios uma vez que eram “civilizados”.

Até hoje nas repartições públicas não se pode ir de calções, chinelos, blusas de alças ou saias acima do joelho. Estas medidas também são reforçadas em Escolas e até mesmo Universidades.

foto hospitalRecentemente uma imagem tornou-se viral por se tratar do aviso de um hospital. O aviso restringia o vestuário permitido aos utentes, o que é um absurdo, tendo em conta que se trata de um hospital.

Isto é novamente a reprodução do discurso do colono. O cidadão comum, pobre, camponês, tem desta forma o acesso vedado a estes serviços pois não tem roupas para entrar na Esquadra ou no Hospital, nem tão pouco para tratar o seu Bilhete de Identidade. Aliás, nem o rei da Swazi, com as suas roupas tradicionais seria admitido no Hospital!

Este falso moralismo sente-se um pouco por todo o lado. Estas noções de decência e civilização ultrapassadas são usadas até hoje nas nossas sociedades.

 

Ainda hoje nos inspiramos na legislação, educação, etc das potências europeias para edificar os nossos países “independentes”.

E como resultado, continuamos a reproduzir mecanismos de exclusão e a atrasar o nosso desenvolvimento.

Homossexualidade não é importação

Homossexualidade não é importação

A homossexualidade é Africana e não importada, como costumamos ouvir por aí.

No continente Africano é muito hostil com a homossexualidade. Nos anos mais recentes, vários foram os países, tais como o Malawi, Uganda e Nigéria que proativamente aprovaram ou reforçaram leis que proíbam a homossexualidade.

Os motivos para tal prendem-se sobretudo com valores sociais e religiosos.

Do lado social, há dois aspectos a considerar: o primeiro é que vivemos em sociedades em que se valoriza muito o matrimónio e a procriação, e uma vez que as relações homoafetivas não permitem que se viva (pelo menos não da forma tradicional) estes processos, são desvalorizadas e vistas como inválidas; e o segundo é que vivemos em sociedades em que o conceito de indivíduo praticamente não existe, pois todas as decisões, rituais, direitos e deveres são vividos em comunidade.

Nesse sentido, uma vez que a experiência da homossexualidade é muito íntima e pessoal, algo vivido de forma isolada e que não acontece no colectivo, ela passa a ser invisível e até mesmo desprezível.

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A homofobia não é africana. Fonte: Rede Angola

Mas acima de tudo isso, um dos maiores argumentos, senão o maior argumento utilizado para a oposição à garantia de direitos iguais aos casais homossexuais é o facto de se considerar a homossexualidade como algo novo, importado do Ocidente.

Outro argumento comum prende-se com as escrituras sagradas. Seja no Islão ou no Cristianismo, segundo os africanos que praticam estas duas religiões, o seu Deus não aprova relacionamentos homoafetivos. Isso é coisa do Diabo.

Mas se tanto o Islão como o Cristianismo como religiões, isto é, como formas organizadas de se praticar a fé, foram forçados no continente, então temos também de aceitar que não fazem parte da ‘cultura’ africana.

Se supostamente, a homossexualidade é um conceito estrangeiro a África. Então se assim for, também o é a homofobia.

A homofobia foi-se proliferando com o Colonialismo através da formalização do poder europeu na África.

Na Nigéria, tal como em outras ex-colónias britânicas, a lei vitoriana que invoca sodomia e homossexualidade, os homossexuais podem ser condenados a até 14 anos de prisão. Isto, quando aliado às mensagens proliferadas pelos líderes religiosos, cria um ambiente em que ataques violentos a homossexuais são aceitáveis.

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A tradição do casamento entre mulheres nas sociedades Igbo não pode ser negada. Fonte: Black Agenda Report

Contudo, é importante ressalvar que as relações homoafetivas tanto entre homens como entre mulheres já existiam nas sociedades pré-coloniais.

No livro “Boy-wives and Female husbands – Studies in African Homosexualities”, os autores descrevem extensivamente a pluralidade de ‘homossexualidades’ reconhecidas no continente.

Em Angola, naquilo que eram os Reinos de Matamba e do Congo, no séx XVII, eram reconhecidos os supostos homens que se sentiam e viviam como mulheres, ou seja travestis, chamadas de “quimbanda”. Às travestis era permitido vestirem-se e viverem como mulheres, recebendo homens em suas casas para terem relações sexuais.

Na Nigéria, mais precisamente nas sociedades Igbo, era comum relações entre mulheres. Nestas relações, embora uma mulher representasse a figura masculina, tendo de assumir o dote, as divisões de papéis não eram como aquelas que vemos nas relações heterossexuais. Estas relações regiam-se sobre um código próprio e completamente legitimo, reconhecido por toda a comunidade.

Ou seja, a homossexualidade como conhecemos hoje podia não existir. Designávamos por outros nomes e usávamos outros parâmetros, mas estava lá.

Quando os Europeus chegaram à Europa desenharam esta imagem das pessoas africanas como primitivas e sem cultura, filosofia ou conhecimento para dar ao mundo. Nessa linha de pensamento, como seres primitivos, a única razão para nos relacionarmos sexualmente era a procriação. Afinal de contas é assim com os animais.

E nós fomos nos (sub)desenvolvendo com esta imagem de nós mesmos, pensando que em África não existem humanos complexos, com emoções, vivências e ideias progressivas.

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Na África do Sul o casamento entre pessoas do mesmo sexo é previsto por lei. Fonte: BBC

Num continente tão grande e diverso como África, não é de admirar que haja também uma pluradidade de homossexualidades e heterossexualidade. Estes conceitos, bem como os de género nos acompanham há muito tempo e já sofreram alterações face aos processos históricos e ao desenvolvimento das nossas sociedades.

No entanto, não podemos continuar a viver como se não fosse nossa “cultura” abraçar a diversidade e complexidade de vivências que podem existir – e existem! – ao nosso redor.

Como sociedade temos de fazer melhor, precisamos de melhor.

Países como a África do Sul estão na vanguarda dos direitos LGBT+ em África, pois aproveitaram a época de libertação para garantir direitos fundamentais a todos os cidadãos, sem distinção no que toca a raça, credo, género, sexualidade, etc.

Então, mais do que perceber se a vivência da homossexualidade é ou não compatível com o conceito de Africanidade, talvez seja mais importante nos perguntarmos:

Por que é que somos tão resistentes à ideia de existirem africanos homossexuais?