Efuru e o dilema da “Boa Mulher”

Como pode uma jovem se encaixar num padrão de “boa mulher” numa sociedade que nunca se satisfaz?

12961610_10153996600625390_3130144373034788956_nTerminei há alguns dias de ler este livro que retrata a história de uma mulher chamada Efuru numa vila Igbo na Nigéria antes da independência.

Durante a sua vida, Efuru sofre uma grande pressão para se encaixar no padrão de “boa mulher”.

Nas suas relações amorosas, ela mostra-se disponível e prestativa. Sempre demonstrando afecto e mantendo uma boa relação com todos os envolvidos.

Na família é bem vista e procura sempre ajudar todos ao seu redor.

No entanto, no desenrolar da história é evidente que ela jamais será completamente feliz procurando ser essa “boa mulher”.

Mesmo quando encontra alguém e eles têm uma relação muito boa, saudável e invejável, as pessoas da sua vila condenam o relacionamento alegando atropelos à tradição, pois o casal deve dormir em quartos separados; têm tarefas específicas para a mulher e para o homem e  sofrem pressão para ter um filho, entre outros aspectos.

O conceito de “boa mulher”, no contexto africano exige super poderes: maternidade; altruísmo; amor incondicional; força física e emocional; perdão; etc.

Esse conceito arranca-nos a humanidade, a capacidade de cometer erros; de chorar; de ter sonhos próprios. E como uma mulher negra eu sinto essa pressão diariamente: Estuda. Casa. Tem filhos. Sê bem sucedida, mas não demais. Respeita o teu esposo. Respeita os teus pais. Dá tudo aos teus filhos. Sê paciente. Não mostres sofrimento. Suporta toda a dor. Mantem-te como sempre foste.

 

Até quando?

“Americanah” de Chimamanda Adichie

Eu acho importante ler este livro porque…

Chimamanda Ngozi Adichie by Beowulf Sheehan

Este livro conta a história de uma jovem nigeriana nos Estados Unidos da América, que devido à instabilidade política é levada a abandonar a Universidade no seu país de origem.

À medida que o drama se vai desenrolando Ifemelu, a protagonista, é levada a confrontar-se com o desespero de se querer integrar, com a obrigatoriedade de fugir de estereótipos e com a necessidade de descobrir quem ela é para além da cor da pele ou da textura do cabelo.

A prosa da nigeriana Adichie, rica em poesia, consegue retratar a complexidade das partidas e chegadas de quem vive imigrantemente. Uma das minhas passagens favoritas é a seguinte:

[“Alexa and the other guests, and perhaps even Georgina, all understood the fleeing from war, from the kind of poverty that crushed human souls, but they would not understand the need to escape from the oppressive lethargy of choicelessness. They would not understand why people like him who were raised well fed and watered but mired in dissatisfaction, conditioned from birth to look towards somewhere else, eternally convinced that real lives happened in that somewhere else, were now resolved to do dangerous things, illegal things, so as to leave, none of them starving, or raped, or from burned villages, but merely hungry for choice and certainty.”

Alexa e os outros hóspedes, e talvez até mesmo Georgina, todos entendiam a fuga da guerra, do tipo de pobreza que esmaga as almas humanas, mas eles não entendiam a necessidade de escapar da letargia opressiva da não-escolha. Elas não entendiam por que pessoas como ele que foram criadas bem, alimentadas e com água para beber mas que estavam mergulhadas na insatisfação, condicionadas desde o nascimento a olhar para outro lugar, eternamente convencidas de que a vida real acontecia em algum outro lugar, estavam agora decididas a fazer coisas perigosas, coisas ilegais, de modo a partir, nenhum deles faminto, ou violado, ou vindo de aldeias queimadas, mas apenas famintos por ter escolhas e certezas.]

A autora consegue, com muito humor e elegância, debater racismo e xenofobia de um modo atrevido.

 

(Continua aqui)

Notas sobre Big Brother, Sexualidade Feminina e Afins

Por que a sociedade se choca com uma mulher a explorar livremente o seu corpo e não se choca quando esse corpo é invadido sem a sua permissão?

 

Tem havido muito alarido em torno de fotos de algo que aconteceu no Big Brother Xtremo Angola/ Moçambique. Em fóruns tanto de Angola como de Moçambique as pessoas mostraram-se indignadas, chateadas e até envergonhadas por verem algumas colegas da casa com os seios à mostra; fazendo danças sensuais ou trocando carícias com outros na casa.

 
O facto é que o programa posiciona-se como M18 e está a ser transmitido via DStv, em que os usuários podem bloquear o conteúdo de um determinado canal caso achem inapropriado. Adicionalmente, todos os participantes são adultos e estão conscientes que todos os seus passos são gravados 24h diariamente em todos os cantos da casa.


Ainda assim, houve um desfile de discursos moralistas e de defesa dos valores “culturais” das nossas sociedades. As moças foram apedrejadas virtualmente, praticamente queimadas na fogueira como as “bruxas” da Idade Média perseguidas pela Inquisição.

Mas a mim não enganam: esse discurso cheira a machismo! 


Por que é que essa mesma sociedade não se choca quando surgem fotos de menores nuas ou seminuas a circular? Por que é que não nos chocamos quando alguém divulga um vídeo intimo filmado às escondidas? Por que é que até reencaminhados essas imagens?

A sexualidade feminina só choca quando é livre.

 

Quando o parceiro zanga-se e publica fotos íntimas da mulher, isso não nos choca. Quando numa novela a mulher é coagida a ter relações; quando é forçada a beijar alguém; quando usa o sexo para “prender” o homem, aí está tudo bem.


O choque não está em ver os seios das mulheres; nem em saber que elas são sexualmente activas, mas sim em ver uma mulher em plena TV a assumir a sua sexualidade e demonstrando prazer de forma autónoma.

 

Aquelas mulheres não se deixaram intimidar pelos olhos da sociedade machista que lhes assistem. Elas rejeitaram a posição de mulheres submissas, não se curvando aos padrões patriarcais em que vivemos e puseram o seu prazer em primeiro lugar.


O choque está em verem uma mulher a consentir e a assumir-se como um ser sexual em toda a plenitude sem pudor algum.

12 Tons de Negro

Um Ano Em Busca Da Minha Negritude

2015 livrariaContar histórias é uma arte que descobri na escola ao ler escritores como sophia de mello breyner andressen; luis de camões; josé saramago; luís de stau monteiro e eça de queirós, entre outros que certamente muitos afrolisboetas devem reconhecer dos livros de leitura obrigatória do currículo português.

Aliás, é uma pena que em Portugal, um país cuja História passa por África, não se cultive mais a literatura africana (ou pelo menos lusófona).
E infelizmente os nomes que acompanharam a minha infância, à semelhança de outros africanos na diáspora, são nomes de quem conta histórias de pessoas brancas; de meios urbanos; de famílias aristocratas; histórias de situações e realidades que negam ou ignoram uma parte de mim.

Então decidi: vou ler negritude.

 

 

 

 

(Continua aqui)

The taste of love

As I kiss your skin

seasoned with my salty sweat

I can’t help but wonder

Which spices have brought you here?

What flavours have you tasted like?

The smell of your love on me

fills me inside

like a waterfall

waiting to start

running from its rage

 

Give me a spoonfull of your destiny

So I can delight myself

with your sweet eyes

every day

every night.