Entre Ela e Deus

Entre Ela e Deus

O documentário “Entre Eu e Deus” de Yara Costa traz-nos importantes reflexões sobre a religião.

Gravado na Ilha de Moçambique, no norte de país, “Entre Eu e Deus” mostra-nos como uma nova forma de viver o Islão, o Wahhabismo, está a mudar a Ilha e quem são os protagonistas destas mudanças.

Tendo como ponto de partida a história de Karen, o filme revela-nos o que há por detrás do seu véu: uma jovem muçulmana estudante de Engenharia Civil, com todos os sonhos e questões de quem tem vinte e poucos anos.

 

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O filme estreou esta semana em maputo. Fonte: Maputo Fast Forward

O Islão chegou no séc. VIII e fundiu-se com a própria cultura macua. Este Islão africano, e talvez diria até, Islão macua, tem as suas raízes no Islão suni e na própria tradição local.

 

No documentário, esta vertente do Islão é personificada por uma velha macua que defende a existência de uma certa flexibilidade da religião tendo em conta a terra de onde a pessoa é. Um muçulmano em Moçambique é diferente de um muçulmano em Portugal. O seu véu é composto por duas capulanas, e na sua face a tradicional máscara de mussiro evidenciam o seu local de origem.

Já o islão Wahhabi defende a interpretação do Alcorão da forma mais pura. E ironicamente, esta visão mais conservadora é personificada por jovens como a Karen, a protagonista.

Estes jovens, ligados ao mundo pela internet e alguns ainda, viajados tendo estudado na Arábia Saudita, trazem um islão diferente que se opõe a alguns traços da tradição macua. Para eles, Deus está acima de tudo: das tradições; dos costumes locais; etc.

A Ilha de Moçambique é um local com muita História e muitas fusões. Foi lá onde se instalaram os primeiros árabes e mais tarde os indianos e portugueses, entre outros povos.

Numa das passagens do filme, vemos uma cerimónia religiosa católica, em que os crentes e o próprio padre usam capulanas com imagens de Nossa Senhora e tocam batuques na missa, enquanto cantam música religiosa.

Noutra, as mulheres muçulmanas macuas vestem-se de capulanas e pintam o mussiro, segurando o Alcorão.

Isto mostra como as diferentes religiões moldaram-se e se misturaram com a cultura local.

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A Ilha foi marcada durante séculos pela cultura swahili e o Islão dos povos da África Oriental. Fonte: DW Africa

A família da Karen, tal como tantas outras, sempre foi praticante do Islão. Então porquê essa busca, essa sede de seguir um “outro” Islão?

Aquilo que à partida é, deixa de o ser. Olhamos para a Karen com as roupas escuras, o hijab, e pensamos que ela é uma jovem alienada, sem sentido de identidade próprio, sem vontades nem quereres. Porém, à medida que ela se vai revelando, vemos uma jovem esclarecida, crente, convicta das suas ideias e do caminho que ela mesma escolheu seguir.

Dúvidas nascem em si como cogumelos sobre os mais diversos temas: Existem gays muçulmanos? Será que a minha mãe (falecida) aceitaria as minhas escolhas?  Os meus amigos ainda sabem quem eu sou?

E como não podia deixar de ser, uma jovem cheia de contradições. E esta é para mim a componente mais bela, mais simples, mais importante deste filme.

Se por um lado, a Karen quer seguir o Islão puro e sonha em conhecer a Arábia Saudita, por outro, reconhece e admira os privilégios de que goza na Ilha: ela pode conduzir, ela escolheu o curso que queria seguir, gere um pequeno negócio de compra e venda de roupas, etc.

Se por um lado a Karen quer terminar a Licenciatura e quiçá até continuar os estudos e/ou ter uma carreira profissional, por outro, sonha em ter um marido e ficar em casa a cuidar dos filhos.

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O filme “Entre Eu e Deus” é um alerta à moderação. Fonte: O País

É esta dimensão humana, individualizada, que me permite olhar para a Karen e me rever nas suas experiências.

Eu também sou uma mulher cheia de contradições. Eu também defendo ao mesmo tempo me oponho a certas coisas.

Eu também acredito e depois desminto. Enfim, eu também sou uma complicada teia de aceitações e rejeições, num mundo em constante mudança ao qual não me posso fechar e do qual não posso fugir, pois faço parte dele.

E isso é entre eu e eu mesma.

 

 

 

 

Será que eu sou uma bruxa?

Será que eu sou uma bruxa?

Ou “A história de como descobrir a bruxa que há dentro de nós”.

O filme “Eu não sou uma bruxa“, da realizadora zambiana Rungano Nyoni, traz-nos a história de uma menina que dá por si assumindo-se como bruxa num campo de bruxas.

Shula é apenas uma tímida criança que, com provas circunstanciais é acusada de bruxaria pelos habitantes da vila por onde vagueia, sozinha. As autoridades locais são chamadas a intervir e Shula é rapidamente enviada para um campo de bruxas, onde é acolhida por mulheres bem mais velhas, que a recebem de braços abertos. No fim da festa de boas-vindas ela é confrontada com um dilema: ou aceita ser bruxa e ficar no campo ou rejeita a bruxaria e transforma-se numa cabra.

Sem ferramentas para provar a sua inocência nem para os outros e nem para si, a pequena Shula aceita.

No campo, as mulheres são obrigadas a cultivar a terra e a posar para turistas que as visitam. Shula recebe delas o amor maternal que não tem em mais nenhum local.

Por algum tempo as coisas parecem correr bem.

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O filme é inspirado nos campos de bruxas da Zâmbia e Gana. Fonte: Independent

Num mundo em que o Cristianismo se diz dono da verdade, as formas de expressão de espiritualidade tradicionalmente africanas são demonizadas e é neste contexto em que se cria estigma e rejeição em relação a pessoas que são vistas como bruxas.

A disputa pela fé é incessante.

Numa caricata cena, Shula é colocada como juíza numa espécie de tribunal local em que um velho homem procura o ladrão do seu dinheiro. Todos os homens jovens são tidos como suspeitos e dizem-se inocentes. Shula tem de identificar o ladrão, então pede ao oficial do Governo que a acompanha que ligue a uma das mulheres no campo.

Esta mulher, uma das avós, diz-lhe para escolher o homem que for mais escuro e mais nervoso. E, curiosamente, confirma-se que esse é de facto o ladrão.

Sorte? Coincidência? Bruxaria?

Ninguém sabe.

Os poderes de Shula são requisitados por todo o lado e ela é vista como a galinha de ovos de ouro, já que a sua bruxaria é tão poderosa.

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Shula, de apenas nove anos tem um dilema para enfrentar. Fonte: Berlin Feminist Film Week

Mas antes de tudo, o que é afinal ser bruxa?

Ela será bruxa porque anda sempre sozinha? Será bruxa por não se fazer ouvir?

Que caminhos terão levado aquelas velhas para o campo de bruxas? Por que são as bruxas tão perigosas?

Shula vai descobrir tudo isto à medida que o mundo se vai revelando a si. Com a sua infantil e limitada visão do que acontece ao seu redor, as alegrias e tristezas de carregar consigo essa denominação vão mudar tudo para si.

No filme há constantes dicotomias em disputa.

A mais óbvia é a relação que a comunidade em geral tem com a bruxaria. Mesmo os mais cépticos vêem-se incomodados com a possibilidade de haver de facto esse poder.

Se por um lado não querem as bruxas por perto, por outro os habitantes recorrem às bruxas para resolver casos de roubos e outros mistérios.

Como não acreditar em bruxas num meio carregado de superstições?

E mais do que isso, como curar as bruxas do seu fatídico destino sem cometer bruxarias, lançando maldições contra elas?

Outra dicotomia é o Feminino e o Masculino.

A percepção é sempre como a mulher é a fonte de todo o mal. Ela é a causadora dos problemas da sociedade, e o homem, pelo contrário é visto como o dono incontestável da verdade.

A misoginia está em quase todo o lado, mas na sua manifestação mais gritante, vemos os bruxos a circularem livremente, inclusivamente providos de algum prestígio enquanto as mulheres bruxas são obrigadas a viver isoladas da sociedade. Um exemplo claro é o bruxo que aparece para comprovar o facto de Shula ser de facto uma bruxa.

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Através do humor e sarcasmo, somos confrontados com vários tipos de opressão. Fonte: BFI

Entre o real e o fantástico, Rungano Nyoni descreve-nos tudo o que Shula sente na sua mudez sempre presente.

Uma criança bruxa que não pode circular livremente no mundo, mas que ao mesmo tempo é chamada para resolver problemas como a seca na sua região.

Uma criança bruxa que não vai à escola, mas que ouve os professores de longe e sonha com as brincadeiras ao recreio.

Uma criança obrigada a escolher entre ser uma bruxa ou morrer como uma cabra.

 

 

 

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sara- FREEDOM!

O filme Sarafina! de Darrell Roodt retrata uma geração de Freedom Fighters na África do Sul durante o apartheid.

De madrugada, um grupo de sombras atravessa sorrateiramente o percurso para a escola do bairro. Passando pela linha férrea, saltando muros, a escuridão como cúmplice, galopando até que chegam ao destino: uma escola.

Atiram uma “bomba” caseira, que incendeia uma sala de aulas inteira.

À partida, parece que estamos perante um grupo de jovens vândalos sem nenhuma causa senão o prazer de estragar propriedade pública.

Mas à medida que a história se revela, percebemos que na verdade os jovens vândalos estão a protestar contra um sistema de ensino que em nada os favorece. Estão a protestar contra o racismo institucional que lhes oprime diariamente. Estão a protestar contra a falta de condições para crescerem e se desenvolverem.

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SARAFINA! conta com as estrelas Whoopi Goldberg e Leleti Khumalo. 1992, (c)Buena Vista Pictures. Fonte: TimeOut

Sarafina, a nossa protagonista é uma jovem estudante que se vê no meio destes conflitos.

Como uma menina negra que vive sobre o regime do apartheid, encontra no exemplo de Nelson Mandela a sua inspiração. É nele que desabafa as suas angústias e anseios.

Mandela é uma presença constante, a liderança forte e fidedigna de que ela precisa para manter-se sã e seguir os sonhos.

Em forma de musical, o filme mostra por um lado a esperança e alegria de Sarafina, que sonha em ser famosa, e por outro, a violência e perversidade do regime do apartheid.

Mesmo sem ser explícito no que toca às leis e repressão em que viviam os negros sul-africanos, sente-se ao longo do filme como a opressão ecoava em todas as esferas das suas vidas.

Desde o quarto em que dorme, Sarafina e os seus irmãos, apertados na única cama e no chão até ao medo constante de uma palavra, um olhar ou mesmo um sonho fora do lugar.

Desde as ruas não alcatroadas; o fraco saneamento até ao sistema de ensino que limitava as opções dos jovens estudantes negros.

A covardice da classe opressora, representada pela patroa da mãe de Sarafina, que vive indiferente aos desafios enfrentados pela sua empregada doméstica, que sozinha e à distância, sustenta a sua família.

 

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Sarafina! é inspirado numa história verífica. Fonte: LA Times

Embora o filme não mostre quem eram os brancos no poder, o filme evidencia como todos os brancos sul africanos eram apáticos, não questionando nem desafiando o status quo, pelo contrário até o fortaleciam.

Os negros viram-se contra eles mesmos, roubando, matando, extorquindo.

As alianças quebram-se e as fraquezas de cada lado revelam-se. Não há vilões e nem heróis.

Sarafina e os seus amigos vêem-se perdidos, sem um rumo próspero. Despidos da sua humanidade, vêem-se também eles próprios, a despirem os outros do seu lado humano.

Perante isto, as linhas que separam a paz da guerra; o certo do errado e o impensável do possível tornam-se turvas.

O filme é um importante testemunho, feito por sul-africanos, daquilo que se viveu e aconteceu durante os finais anos sangrentos do apartheid, oferecendo um olhar real e intemporal da África do Sul, a nação arco-íris.

Moolaade

Moolaade

No último filme de Sembene, o contador de histórias senegalês traz-nos um tema polémico e bastante actual: circuncisão feminina, ou por outras palavras, a mutilação genital feminina.

O filme “Moolaadé” passa-se numa pacata aldeia do Burkina Faso quando, após fugirem do ritual de purificação, quatro fugitivas se refugiam em casa de Collé, uma mulher que anos antes não deixou que a filha participasse do ritual.

Collé para proteger as meninas lança um feitiço de nome Moolaadé, que funciona como asilo espiritual, impedindo as meninas de voltarem para o local do ritual, até que o feitiço seja quebrado com a palavra mágica que apenas por ela pode ser proferida, sobre o risco de grandes desgraças acontecerem.

 

 A segunda de três esposas, Collé tem de defender e negociar a sua posição primeiro para a sua irmã mais velha (a primeira mulher) e para os restantes habitantes da casa, e depois para as mães das meninas e toda a comunidade em geral.

Collé, com as suas dores e cicatrizes, ameaça a ordem social naquela pacata vila e isso assusta os demais. Ela é acusava de ser demoníaca por defender algo que contradiz os ensinamentos religiosos e as tradições ali instaladas.

Através do conselho de anciões, os homens mais velhos opõem-se ao feitiço lançado por Collé, chamando-a de imprudente e de desequilibrada. E forçam o seu marido, que reconhece a sua força e por ela tem muito amor, a humilhá-la em praça pública para provar o seu domínio sobre a esposa ‘desobediente’.

Evidencia-se aqui o poder que os homens têm – ou procuram ter – sobre as mulheres, os seus corpos e as suas decisões. Seja de marido para esposa; de irmão para irmã; de filho para mãe ou mesmo de um simples desconhecido para uma mulher qualquer.

 


Misturam-se motivos culturais; religiosos; mitos e factos numa trama trágica e simultaneamente cómica que retrata a vida e dinamismo de uma aldeia típica africana.

Sembene traz-nos todos os contrastes e contradições desta vivência.

Se por um lado Collé é uma mãe ousada, com audácia para desafiar as normas impostas, por outro é também uma mulher bastante convencional, que vive um casamento poligâmico e faz um casamento arranjado para a filha.

Se temos de um lado uma vila com uma herança islâmica presente em todas as esferas da vida, temos também uma forte influência das religiões tradicionais africanas, em que o Moolaadé tem muito poder.

E embora a aldeia pareça estar parada no tempo e isolada de tudo, a presença de aparelhos de rádio, que trazem notícias de todo o mundo e do filho do régulo que regressa da França vestindo fato e gravata sempre que sai de casa, provam que não se pode viver fechando os olhos ao que se passa lá fora.
Mais do que um filme político, Moolaadé é um manifesto para a celebração de uma cultura africana que não cause prejuízo às mulheres.

O filme prova-nos como a cultura africana, os seus mitos e tradições não funcionam somente para oprimir, mas também para libertar. A nossa heroína com apenas um acto de resistência leva toda a vila a questionar, debater e conversar sobre um assunto até então tabu.

Sembene, mais uma vez, dá a conhecer uma África para além de toda a sua pobreza e agonia. Uma África de coragem e encanto, cujas respostas estão lá escondidas, no meio de toda a opressão à espera de serem descobertas.

 

Sembene para além das histórias

Sembene para além das histórias

O documentário Sembene! é um retrato do contador de histórias senegalês Ousmane Sembene, considerado o Pai do Cinema Africano.

Como contador de histórias Sembene sempre procurou trazer ao centro alternativas ao discurso dominante, que até então encontravam-se à margem da sociedade.

São estas histórias alternativas as suas musas, mas o filme não é só sobre isso.

O entrelaçar da sua biografia, com o panorama geopolítico internacional e as suas produções, oferece-nos uma ideia do compasso moral e daquilo que Sembene pretendia ao escrever e realizar cada um dos seus filmes.

É promíscua e até certo ponto pornográfica a relação entre política e o seu trabalho. Sembene não tem o privilégio de contar histórias de amor, ele traz-nos guerras; massacres; mutilação genital; corrupção. É daí que vem a sua força criativa.

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Sembene inventou um novo Cinema para África. Fonte: Africa Is A Country

Ousmane Sembene nasceu em 1923 no Senegal, em Ziguïnchor, filho de um pescador, profissão que abraçou na adolescência ao abandonar a escola.

Decidiu depois sair da sua vila, realizando vários trabalhos manuais e por fim chegou a França aos 24 anos. Foi nas docas de Marselha, como estivador, que conheceu a vida como operário e se envolveu no movimento trabalhista.

Após uma grave lesão na coluna durante o trabalho, passou vários meses no hospital e aí começou a ler bastante.

Foi nesse período que se acorda nele a consciência do seu lugar no mundo.

Passa a activista sindical e autodidacta compulsivo, procurando conhecimento sobre tudo um pouco, mas especialmente sobre a vivência da Negritude.

“It’s a long-term job to change ideas held for centuries. My aim is to make a film for Africans. And, if it’s done well, people will like it everywhere else too./ Mudar ideias centenárias é um trabalho a longo prazo. O meu objectivo é fazer um filme para Africanos. E, se for bem feito, pessoas de outras partes do mundo também vão gostar.”

Começou por escrever pequenos contos e romances, mas rapidamente apercebe-se das limitações da escrita no Senegal, onde a taxa de alfabetização era muito baixa. É assim que surge a sua paixão pelo cinema: a necessidade de contar as suas histórias a pessoas como ele, numa linguagem que percebessem.

Durante os seus 40 anos de carreira, Sembene explorou destemidamente temas como o colonialismo, a corrupção dos movimentos de libertação no período pós-independência; o Islão e o racismo.

Foram filmes como “La noire de…” (1966) e “Moolaadé” (2004) que colocaram o cinema Africano no radar dos grandes festivais internacionais de cinema como o de Cannes e Berlim.

Mas com essa atenção, vieram também algumas punições. Em França, por exemplo, o seu filme “Camp de Thiaroye” (1988) foi banido e no Senegal, vários trabalhos dele foram banidos e/ou censurados como é o caso de “Ceddo” (1977) e “Emitaï” (1971).

 

O filme Sembene! tenta ser um retrato fiel do realizador que sacrificou as suas relações na indústria; com a sua família; com os seus amigos e até amantes pela sua causa.

Sembene aparece no filme como um artista que nunca quis – ou talvez nunca pôde – respirar, comer, dormir e amar outra coisa senão a própria arte. E é esta humanização, que serve ao mesmo tempo de demonização que coloca o espectador como juiz.

A dada altura Sembene confessa que seria capaz de atropelar certos princípios e mesmo valores em nome da sua arte. E que nós, os juízes, devíamos julgar a sua arte e não os processos que permitiram que tal arte fosse feita.

Ao enfrentar a câmara, Sembene olha-nos com uma certa arrogância e prepotência, mas atrás dela, o seu olhar capta compaixão, gentileza e procura sempre o mais puro e verdadeiro.

É por isso irónico que através do seu trabalho tenha sempre criticado a forma absoluta como o poder dominante era uma força intolerante, no entanto, ele fez o mesmo.

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Sembene faleceu e deixou projectos inacabados. Fonte: Telegraph

Mas apesar das contradições que o filme nos mostra entre o homem e o seu ego, Sembene! é ainda um retrato amável do realizador. Nele, nos é pintado um rebelde com uma causa nobre.

Para um homem que entregou a sua vida à arte de contar histórias à moda Africana, nenhum filme seria suficiente, contudo o documentário Sembene! fica bem perto.

Somos obrigados a aceitar os limites da humanidade deste grande senhor, Ousmane Sembene pois nem ele tem todas as respostas. Quando confrontado com as suas provocações, ele também treme.

Ficam claras as suas intenções: o contador de histórias não tem respostas, apenas perguntas.