Violências Diárias I

Violências Diárias I

Imagina nascer, crescer e viver toda uma vida sendo bombardeada com mensagens violentas sobre o seu cabelo, a sua aparência, os seus traços, a sua forma de ser e tudo o que você representa.

Na série “Violências Diárias” pretendo retratar um pouco dessas vivências.

Desde pequena que a minha mãe sempre cuidou do meu cabelo. Era ela quem me fazia as tranças e embora eu me lembre de muitas vezes sentir dor, de um modo geral gostava desses momentos em que ela tratava de mim, tocava o meu cabelo, me penteava e me acariciava.

Com o tempo, fui querendo experimentar mais e aí comecei a frequentar salões de beleza. Acho que foi no início da adolescência, eu gostava de tranças mais elaboradas, muitas missangas e a ilusão de cabelo comprido (leia-se liso).

Deve ter sido nessa altura que passei a prestar mais atenção nos cabelos das outras pessoas e a querer o que elas tinham. O cabelo que voa, o cabelo que pode ser molhado sem nenhum problema, o cabelo que não precisa de muitas horas no salão de beleza, o cabelo que é perfeito tal como é, o cabelo que existe sem precisar de manipulações.

Então lá fui eu entregar-me de corpo e alma aos padrões eurocêntricos. Tentei e tentei, mas o meu teimoso cabelo sempre crescia da mesma forma carapinhada. Eram mais horas no salão de beleza. Mais cuidados com o cabelo. Mais precauções. Mais restrições.

Depois desse período de subjugação da minha raiz e dos meus fios aos agressivos tratamentos químicos, decidi deixar o meu cabelo simplesmente ser. Simplesmente ser, tal como ele é e sempre foi.

Mas não deixo de observar, ouvir e notar como essa mesma pressão persiste até hoje. Está em todo o lado: nos nossos salões, nos pentes que nos são vendidos, nas imagens dos produtos capilares disponíveis, nas capas de revistas, na Televisão e até nas pessoas que mais admiramos.

É violência. Diária.

Vamos falar de cabelo outra vez?

Para além de falar das politiquices em torno da carapinha, é importante reconhecer os espaços em que esse cabelo é representado – ou não – e como essa representação é feita.

Já falamos uma vez sobre as politiquices em torno do cabelo crespo e cacheado, e como existe um padrão ideal que nós, pretos, temos de pagar com a nossa própria saúde para atingir.

Aqui em África, onde a grande maioria das pessoas tem o cabelo crespo, dificilmente vemos figuras proeminentes a usar orgulhosamente o seu cabelo natural.

Se vemos, na sua maioria, são mulheres bem mais velhas ou pessoas ligadas às artes e com um estilo excêntrico que lhes confere uma certa liberdade, interdita a nós outros, meros mortais.

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Cantora moçambicana Mingas canta com as suas dreads.

Porém, figuras da cultura pop, com as quais a juventude mais se identifica regem-se sobretudo pelos padrões ocidentais de beleza. E como tal, não só nas suas músicas, e nos seus vídeos, mas também na sua forma de vestir se inspiram nos artistas norte-americanos, sobretudo.

Seria ingénuo e até mesmo infantil ignorar a influência que tais artistas têm na construção de mentalidades.

Assumindo que são estes que dominam a música moçambicana que toca em rádios e discotecas, então o seu papel no crescimento e consciência dos moçambicanos, e especialmente nos jovens moçambicanos, é imensurável.

Se meninas moçambicanas idolatram artistas com cabelos lisos, sentirão, logicamente uma desconexão consigo mesmas. Com as suas raízes. E o mesmo para os meninos.

E procurarão estes grupos formas de afirmação de beleza que se aproximem dos modelos que idolatram. Daí o bilionário mercado da extensões capilares em África apenas. Daí o negócio dos branqueadores de pele (mas isso falamos num outro dia).

Contudo, não podemos deixar tudo nas mãos dos artistas.

Olhemos para outras figuras importantes no nosso país: os nossos professores; os médicos; enfermeiros; ministros; presidentes; etc.

Mesmo nos Estados Unidos da América, a Primeira-Dama Michelle Obama, que é uma mulher negra, não usa os seus cabelos com a textura natural. Para o seu marido, o Presidente Barack Obama essa questão é facilmente contornada, já que ele pode usar o cabelo curto sem causar choque.

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Jacob, de 5 anos, sente o cabelo do Presidente Obama. Fonte: New York Times

E em casa, o que fazemos para que haja essa aceitação? Que trabalho temos feito para valorizar as nossas raízes?

Mesmo nos espaços mais vanguardistas, há ainda a expectativa de “arrumado” (trançado; amarrado; etc). As pessoas nem reparam que isso é fruto desse padrão de beleza europeu, que tem como base ideia errada de que o cabelo natural é sinal de desleixo ou sujidade.

Há sempre um policiamento que se disfarça de preocupação ou conselho.

Esse cabelo parece estar seco, tens de hidratar. Esse cabelo está muito despenteado, tenta organizá-lo. Tenho uma dica para dar mais vida ao teu cabelo. Usa o produto X que o teu cabelo vai ficar como o da Y.

Qualquer fórum sobre cabelos naturais está cheio de receitas e truques para domar o cabelo, como se ele fosse, de facto selvagem.

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Blogueiras My Natural Sisters

Twist out. Braid out. Blow out. Length check. 4A. 4B. 4C.

Uma linguagem codificada para abordar algo tão simples: cabelo. Uns mais, outros menos encarapinhados. Uns mais, outros menos longos. Uns sempre, outros nunca no lugar.

Temos de desconstruir a ideia de que o nosso cabelo natural vem na forma errada. Ou na textura errada. Ou no comprimento errado.

E essa desconstrução leva o seu tempo e requer muito trabalho. Talvez mais do que as pessoas estejam dispostas a dar.

Porque não basta perder uma manhã inteira a lavar o cabelo e aplicar produtos caros para ter um cabelo crespo q.b., e depois perguntar a uma mana de afro:

O que se passa com o teu cabelo?

 

Vamos falar de cabelo?

Para a maioria das pessoas não negras cabelo é algo trivial.

É algo tão comum e ao mesmo tempo significante como unhas: Há pessoas que gostam de unhas curtas; outras de unhas compridas. Há quem pinte as unhas e há que as deixe desnudas. Há também as opções de extensões e tratamentos para as unhas, mas de modo geral, não há um padrão forçado no que toca a unhas. E para essas pessoas o mesmo acontece com o cabelo.

Contudo para as pessoas negras o cabelo é algo muito maior que isso.

Muitas pessoas negras, em especial as mulheres, vêem-se acorrentadas ao cabelo. Se chove ela não pode andar a pé. Se tem um evento, tem necessariamente de perder horas no salão de cabeleireiro. Se tem uma entrevista de emprego, é obrigada a avaliar minuciosamente como irá apresentar o seu cabelo aos potenciais patrões. Se vai conhecer alguém novo; vai a um local diferente; tem de participar de um evento desportivo; ir à piscina; viajar; tudo isso envolve algum tipo de decisão quanto ao cabelo. Esse cuidado vai para além de vaidade. É uma necessidade.

O cabelo torna-se uma espécie de prisão.

O cabelo dos negros, seja ele crespo ou cacheado está carregado de conotações negativas. Entre as mais comuns, há o mito da falta de higiene, este recaindo sobretudo em estilos como as tranças e dreadlocks, e o mito da desorganização e desleixo, mais associado ao afro.

Existe uma pressão para as pessoas negras terem o cabelo liso, que é exactamente o inverso daquilo que cresce naturalmente nas nossas raízes. Para além do processo de alisamento de cabelo ser feito com recurso a químicos prejudiciais à saúde, é muitas vezes doloroso e dispendioso (sobretudo quando associado a extensões capilares).

Recentemente adolescentes sul-africanas ganharam fama com os seus protestos contra a discriminação dos seus cabelos naturais na escola que frequentam.

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Protesto na Escola Secundária de Pretória, na África do Sul

As meninas sofriam pressão diariamente por parte dos professores para a alisarem os seus cabelos sobre a pena de serem privadas de assistirem às aulas por causa dos seus naturais e crespos Afros.

Em Moçambique também vivemos uma ditadura dos padrões ocidentais.

No início do ano lectivo uma mãe publicou no Facebook que teve de cortar as dreads da filha que de outra forma, seria impedida de entrar na escola.

Num outro relato, um cidadão reportou que apesar de ter qualificações para tal e ter sido aceite através de um concurso público, foi impedido de dar aulas na província de Nampula por ter rastas.

Os nossos cabelos na sua forma mais natural são, vezes sem conta, alvo de ataques que nos empurram para um abismo de ódio próprio e auto-destruição.

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Mãe teve de cortar as dreads da filha sobre a ameaça de suspensão.

Estes casos evidenciam como o padrão de beleza ocidental nos é forçado desde cedo e em várias esferas sociais. Também deixa claro que o policiamento dos nossos corpos é mais importante que a nossa educação.

Isto é apenas uma amostra do racismo institucional espalhado um pouco por toda a parte. Os padrões instituídos pelo Imperialismo Ocidental continuam a influenciar aquilo que é esperado nos centros escolares e empresariais, ainda que de forma implícita.

As politiquices em torno do cabelo dos negros não são nada de novo. O cabelo afro, por exemplo, foi usado nos anos 60 pelos Panteras Negras nos E.U.A. como afirmação de identidade. Aquilo que hoje chamados de rastas e o Movimento Rastafari surgiu na Jamaica como manifestação de adoração do Imperador Ras Tafari (Haile Selassie) da Etiópia (anos 30).

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Crente Rastafari

Vivemos sobre códigos de conduta que buscam a uniformidade. A estandardização do ser humano. E o modelo padrão é o modelo ocidental (branco). Assim sendo, para que nos aproximemos desse modelo tem de haver um processo de subjugação. Temos de nos afastar da nossa Negritude.

Quando elementos da nossa Negritude – tal como o cabelo – têm acesso vedado a espaços públicos somos obrigados a abdicar de uma parte da nossa identidade.

E quando este acesso nos é vedado não pelas autoridades coloniais, mas por mentes africanas colonizadas, vemos quão longe foi o projecto imperialista ocidental.

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Vários penteados tradicionais africanos.

Não é só cabelo.

É muito mais que isso. É sobretudo o valor colocado numa ideia. A ideia de que aspectos culturais e estéticos devem se guiar por um padrão do outro lado do espectro onde me encontro. A ideia de que a validade da minha existência mede-se mediante a aproximação a um determinado padrão.

A ideia em como a minha negritude, a minha identidade tem menos valor.