Under The Udala Trees, uma Nigéria LGBT+

Under The Udala Trees, uma Nigéria LGBT+

O livro “Under The Udala Trees”  de Chinelo Okparanta retrata uma história nigeriana LGBT+

Este é um dos melhores livros que já li e escrevi um pouco sobre ele em 2016.

Há vários motivos para gostar do livro e um deles é o facto de ser  um livro africano recente que não retrata as vidas de africanos num contexto de emigração, que tem sido uma tendência entre escritores do continente.

Okparanta começa o livro de forma tímida e contida, tornando, na minha opinião, as primeiras páginas aborrecidas, cheias de metáforas e frases bonitas para escrever num caderno de anotações, mas à medida que a história avança, a leitura torna-se mais confortável e as suas frases tornam formas mais naturais.

A autora consegue retratar as experiências de Ijeoma, a protagonista, desde a sua infância à sua idade adulta. Uma mulher numa encruzilhada difícil, obrigada a escolher entre o que ela sente que é certo e o que precisa para sobreviver.

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A autora escreveu para se manifestar contra a opressão vivida pela comunidade LGBT+ na Nigéria. Fonte: The Guardian

 

Seguindo a tradição oral da Nigéria, a narrativa é inspirada pelas histórias e fábulas sobre as diferentes tribos e religiões que coexistem no país.

A puberdade de Ijeoma chega justamente no momento em que começa a guerra civil. Após a morte do pai, a mãe envia a sua filha para uma outra vila mais segura, sobre os cuidados de uma família amiga. Lá, Ijeoma vai descobrir a sua sexualidade, as suas forças e as suas fraquezas.

Decisões complicadas que nos deixam, como leitores, numa luta permanente.

Num país devastado por uma guerra civil e tensões étnicas, o luto é um sentimento constante. As ausências sentem-se ao longo de toda a narrativa. As questões de conflito e tribalismo misturam-se com homofobia, valores tradicionais e xenofobia.

Embora estes temas não sejam o centro da história, tal como na vida real, são componentes que determinam certas crenças e comportamentos. São elementos incorporados de forma tão subtil e bonita!

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Perseguições à comunidade LGBT+ na Nigéria são frequentes. Fonte: The Independent UK

O livro é um interessante começo para termos, como africanos, conversas sinceras sobre as experiências LGBT+ no continente.

Este é um brilhante retrato de histórias queer na Nigéria entre as décadas de 70 e 80, mas não deixa de ser uma história universal: pessoas queer a serem forçadas para espaços marginalizados, tanto física como espiritualmente. Pessoas queer como alvos de violência, tanto física como emocionalmente. Pessoas queer a viverem traumas todos os dias, tanto individualmente como colectivamente.

Na Nigéria, semelhante a outros países é ilegal ser LGBT+. Na base da legislação está a crença em que a homoafetividade é um conceito importado do Ocidente, uma herança nefasta do colonialismo, mas na verdade a homofobia é que na verdade foi importada.

O livro de Okparanta, um manifesto pelo direito a amar, em toda a sua beleza e magnitude, propõe um entendimento mais profundo da questão.

 

 

5 livros para o Ano Novo

Pouco posso dizer sobre o ano que nos despede, e menos ainda sobre o ano que se aproxima. Deixo por isso estes 5 livros que me marcaram muito em 2016, cada um com a sua particularidade mas todos eles especiais e dignos de um espaço nesta lista.

Espero que em 2017 eles tenham o mesmo impacto que tiveram na minha vida, na vida de outra pessoa.

Under the Udala Trees – Chinelo Okparanta

“Com um homem a vida é difícil. Sem um homem a vida é ainda mais difícil”

Esta frase resume bem parte do dilema em que vive Ijeoma: entre viver numa sociedade patriarcal casada com um homem, mesmo sendo infeliz ou viver numa sociedade patriarcal e homofóbica com uma mulher e tentar ser feliz no meio de tanto ódio.

Este livro é um emocionante romance que retrata a vida da jovem Ijeoma, uma menina e mais tarde mulher nigeriana nos anos 70 e 80. Ijeoma vê-se em conflito com a sua religião, a sua família e a sociedade em que vive à medida que vai descobrindo a sua sexualidade.

Nervous Conditions – Tsitsi Dangarembga

“Podes cozinhar livros e alimentá-los ao teu marido? Fica em casa com a tua mãe. Aprende a cozinhar e a limpar. Planta vegetais.”

Durante o período pós-colonial no Zimbabwe, Tambu, uma menina de 14 anos, toma posse da sua voz e conta a sua versão dos factos que lhe levaram a libertar-se do fatídico destino de ser apenas mais uma mulher perdida no mato, sem estudos nem profissão.

Mais do que isso, através de Tambu conhecemos outras mulheres, cada uma com uma história para contar apesar das adversidades de um mundo dominado por homens. O livro permite-nos entender e até perdoar as escolhas de todas elas.

Efuru – Flora Nwapa

“Uma boa mulher é aquela que te cumprimenta vinte vezes se te visse vinte vezes num dia.”

Neste livro, do qual já falei aqui no blog, conhecemos a trajectória de Efuru desde a sua juventude, com o ritual da circuncisão feminina, até ao casamento, a maternidade e por fim a sua resignação face às expectativas da sociedade para com as mulheres.

A tragédia de Efuru é a sua inabilidade de se encaixar no padrão de “Boa Mulher, pois apesar de ser uma mulher carinhosa, prestativa e tradicional, não é mãe.

We Need New Names – NoViolet Bulawayo

“Porque nós não estávamos no nosso país, nós não podíamos usar as nossas próprias línguas, então quando falávamos as nossas vozes saíam feridas.”

Darling narra as aventuras dos seus amigos no Zimbabwe, na era pós-colonial. Toda a primeira parte do livro é-nos descrita pelos olhos inocentes das crianças que nada conhecem para além da sua pobreza e miséria.

Posteriormente Darling viaja para os Estados Unidos da América, onde espera viver longe da tristeza, choque e terror do seu país, no entanto percebe que o sonho americano não passa de uma fantasia e é obrigada a enfrentar a dura realidade de ser imigrante.

Difficult daughters – Manju Kapur

“Uma mulher sem o seu próprio lar e família é uma mulher sem amarras”

O livro segue três gerações de mulheres indianas, partindo da perspectiva da mais nova a tentar descobrir e perceber a sua mãe, Virmati.

A história é acima de tudo sobre a luta pela liberdade: a descolonização da Índia; a possibilidade de estudo para as mulheres e a vontade de poder ser mais do que a sociedade deixa. Virmati é o centro desta encruzilhada entre a tradição e o moderno; o individual e o colectivo, e o futuro e o passado.

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Livro Difficult Daughters na minha cabeceira.

Bónus: Boy, Snow, Bird – Helen Oyeyemi 

“Por razões que cá eu sei, eu tomo nota da forma como as pessoas se comportam quando estão perto de espelhos.”

Este é um conto de fadas muito peculiar que decorre nos EUA, nos anos 60 quando a segregação racial ainda era uma realidade. Os caminhos de três mulheres se cruzam, num mundo mágico e surreal, em que é impossível escapar ao mundano.

A autora consegue explorar temas como o racismo; colorismo e sexualidade, com uma naturalidade envolvente.