Por onde andas Paulina?

Por onde andas Paulina?

Os homens de caneta na mão enchem as prateleiras empoeiradas das livrarias moribundas.
Os enviados de Deus vendem conhecidas soluções a problemas antigos.
E nada dos teus livros!

Paulina! Paulina!
Choro. Imploro. Grito.

Nas ruas, entre livros adormecidos sobre as raízes teimosas no concreto quebrado,
as páginas soltas de romances à espera de um final feliz me consolam.

Percorro a cidade numa dança frenética batendo em todas as portas à tua procura.

Alguém viu Paulina? Paulina está?

Os meus pés mexem-se ao ritmo de um batuque de esconjuro. Eu corro. Salto. Ando. Tropeço. Caio.

Silêncio.

No fim, uma voz diz-me:
Estou aqui! Estou aqui!

Andava mesmo a pensar em ti.

Ponte minha

Ponte minha,

De ti quero apenas os abraços apertados dos reencontros.

Traz-me boas notícias sobre os teus ombros erguidos,

Nesses braços longos que a todos aperta.

 

Katembe de lá, daqui

Mais perto dos meus olhos.

Deixarei no mar as manhãs longas em fila para chegar,

Mapapai gelados da cacimba matinal,

Terei saudades, mas vou deixar.

 

Ponte minha,

De ti quero só os beijos da Baía

Nos fins de tarde alaranjados de Sol e Lua sobre nós.

De mãos dadas seguir e amar-te até ao meu fim.

 

Katembe hoje e amanhã,

Darei os passos necessários para te descobrir.

Maputo ontem e hoje,

Estarei mais perto para te ver sorrir.

Poemas Africanos para dias de frio

Poemas Africanos para dias de frio

Nos dias que correm, em que a brisa do mar bate forte como o rajar das ondas e as árvores abanam-se ao ritmo rápido do batucar do Tempo, nada melhor que poesia para acalmar a alma.

A poesia, o jogo das palavras, a dança sensual entre o sentir e o escrever ainda consegue transcrever o bater do coração poético em palavras. Hoje deixo a arte de falar escrevendo a eles, os poetas.


1. Adeus à hora da largada – Agostinho Neto

Minha Mãe

(todas as mães negras

cujos filhos partiram)

tu me ensinaste a esperar

como esperaste nas horas difíceis

 

Mas a vida

matou em mim essa mística esperança

 

Eu já não espero

sou aquele por quem se espera

 

Sou eu minha Mãe

a esperança somos nós

os teus filhos

partidos para uma fé que alimenta a vida

 

Hoje

somos as crianças nuas das sanzalas do mato

os garotos sem escola a jogar a bola de trapos

nos areais ao meio-dia

somos nós mesmos

os contratados a queimar vidas nos cafezais

os homens negros ignorantes

que devem respeitar o homem branco

e temer o rico

somos os teus filhos

dos bairros de pretos

além aonde não chega a luz elétrica

os homens bêbedos a cair

abandonados ao ritmo dum batuque de morte

teus filhos

com fome

com sede

com vergonha de te chamarmos Mãe

com medo de atravessar as ruas

com medo dos homens

nós mesmos

 

Amanhã

entoaremos hinos à liberdade

quando comemorarmos

a data da abolição desta escravatura

 

Nós vamos em busca de luz

os teus filhos Mãe

(todas as mães negras

cujos filhos partiram)

Vão em busca de vida.

 (Sagrada esperança)

2. O Chapinhar do tempo– Noémia de Sousa
Tempo para nascer

e também tempo para viver

e morrer

 

É preciso tempo

para crescer nas coisas sérias

nas coisas mescladas de harmonia

tempo para amar a miséria

e as lágrimas derramadas

nos púcaros sagrados da esperança

 

É preciso tempo

para ser aquilo que não nos deixam ser

e também tempo para vencermos

as fadigas e indômitas teimas

vazadas em catadupas

 

É preciso tempo

para se provar à humana criatura

a nossa valia o nosso fervor

na castiça mas chata caminhada

marca vida

 

É preciso tempo

para se repudiarem

ódio e inveja

arrogância e altivez

e também tempo

para nos identificarmos

com os labirintos crassos

emergidos da dor incompreendida

 

É preciso tempo

para incondicionalmente

aliarmos os redondeis

e valermos nas tempestades

como também nas honras e lisonjas

 

Como o chapinhar do tempo

nós seremos e sempre

a filosofia garante do tempo presente.

3. Para lá da praia – Alda Espírito Santo
Baía morena da nossa terra

vem beijar os pézinhos agrestes

das nossas praias sedentas,

e canta, baía minha

os ventres inchados

da minha infância,

sonhos meus, ardentes

da minha gente pequena

lançada na areia

da Praia Gamboa morena

gemendo na areia

da Praia Gamboa.
Canta, criança minha

teu sonho gritante

na areia distante

da praia morena.
Teu teto de andala

à berma da praia.

Teu ninho deserto

em dias de feira.

Mamã tua, menino

na luta da vida

gamã pixi à cabeça

na faina do dia

maninho pequeno, no dorso ambulante

e tu, sonho meu, na areia morena

camisa rasgada,

no lote da vida,

na longa espera, duma perna inchada

Mamã caminhando p’ra venda do peixe

e tu, na canoa das águas marinhas …
— Ai peixe à tardinha

na minha baía…

Mamã minha serena

na venda do peixe.

4. Em que Língua escrever – Odete Simão

Em que língua escrever.
As declarações de amor?
Em que língua cantar
As histórias que ouvi contar?
Em que língua escrever
Contando os feitos das mulheres
E dos homens do meu chão?
Como falar dos velhos

Das passadas e cantigas?
Falarei em crioulo?
Falarei em crioulo!
Mas que sinais deixar
Aos netos deste século?
Ou terei que falar
Nesta língua lusa
E eu sem arte nem musa
Mas assim terei palavras para deixar
Aos herdeiros do nosso século
Em crioulo gritarei
A minha mensagem
Que de boca em boca
Fará a sua viagem
Deixarei o recado
Num pergaminho
Nesta língua lusa
Que mal entendo
E ao longo dos séculos
No caminho da vida
Os netos e herdeiros
Saberão quem fomos