Ruanda, para sempre

Um olhar sobre o filme “Sometimes in April” (Abril Sangrento) de Raoul Peck, que conta como o genocídio de Ruanda mudou para sempre a vida de dois irmãos. 

O filme começa com imagens lindas e a voz sensual de Idris  Elba a descrever o Ruanda e o clima que se faz sentir em Abril, o mês que marca o início da época chuvosa. É em Abril, ao som do gotejar dos céus que Augustin, interpretado por Idris Elba, lembra-se da crueldade do ser humano e do enorme vazio que sente.

Augustin é um jovem militar em 1994 casado e feliz com dois filhos quando subitamente a tensão entre os tutsi e os hutu aumenta. A sua esposa, uma mulher tutsi, teme pela sua vida e pela proteção da sua família enquanto Augustin, cego pelos seus privilégios não vê a urgência dos seus medos.

É um filme violento e agressivo que sem rodeios nos mostra o que é um genocídio aos olhos de quem o viveu.
No Ruanda , em apenas 100 dias, isto é, pouco mais de três meses, aproximadamente um milhão de pessoas tutsi foram assassinadas por conterrâneos hutu.

 

Augustin e Honoré são dois irmãos em lados opostos no conflito.

Tamanha barbaridade só foi conseguida porque “pessoas do bem”, isto é, pessoas que à partida nunca matariam ninguém, ou desejassem a morte de alguém foram cúmplices.

É o caso de Honoré, irmão de Augustin, interpretado por Oris Erthuero, que na qualidade de locutor apoia as mensagens de ódio da sua emissora, usando o poder da sua voz para falar mal dos tutsi.

É também o caso de um Coronel, denunciado no Tribunal Penal Internacional por não impedir que os seus soldados violassem e mutilassem jovens mulheres e adolescentes tutsi.

Foram “pessoas do bem” que para salvaguardarem os seus interesses pessoais e por acreditarem que faziam parte de um grupo superior usaram do seu espaço de ação para proteger, suportar ou patrocinar actos maléficos.

Foram “pessoas do bem” que, com as armas certas – figurativa e literalmente, tornaram-se em assassinos cruéis.
O director, Raoul Peck, em entrevistas afirma que nunca foi a sua intenção fazer uma versão negra de “A lista de Schindler”(Steven Spielberg, 1993) e de faço tanto na forma como no conteúdo a sua obra consegue nos descrever um genocídio sem apelar tanto à comoção.

Em “Abril sangrento” vemos as catanas, a raiva e a ignorância de quem não tinha outra causa senão a sede de matar.

Também não temos herói, como é comum em filmes que retratam períodos de guerra/ conflito. Em genocídios não há heróis. Há sobreviventes.

Aliás, esta é também uma das grandes diferenças entre “Abril Sangrento” e “Hotel Ruanda”.

“Hotel Ruanda” (Terry George, 2004) consegue ser bonito e romântico, ainda que triste. Já “Abril Sangrento” traz-nos um olhar mais cru e mais real daquilo que foram os 100 dias de genocídio no Ruanda.

Peck não deixa o glamour do cinema tirar da realidade o seu terror. Ele mostra-nos o sangue, o ódio, as violações sexuais, a ganância e a violência sem restrições.

 

Emmanuel (esq) cortou a mão de Alice (dir) em 1994, antes de matar o seu bebé. Fonte: Observador

Ao longo da trama vemos como as Nações Unidas e a comunidade internacional no geral, ignorou a situação completamente. Vemos como os líderes ruandeses viviam longe da chama que eles tinham incendiado.

A vida dos dois irmãos é completamente alterada pela massacre levado a cabo pelos  hutu contra os tutsi. Em lados opostos desse conflito, separam-se e esquecem-se, desconhecem-se. Os seus destinos cruzam-se anos mais tarde.

Somos confrontados com a possibilidade de perdão. É possível? Somos obrigados a encarar a verdade. Que verdade? Por onde começar a sarar tamanha dor?

“Nunca mais” dizemos. Nunca mais deixaremos alguém despido da sua humanidade, exposto a um crime bárbaro. Nunca mais cruzaremos os braços perante conflitos étnicos.

E ainda assim, ainda há genocídios a decorrer em África. Ainda temos essa mesma sede de matar.

Kutchinga ou não Tchinga?

O Kutchinga é um ritual que tem como objectivo purificar a viúva, levado a cabo através de relações sexuais com um dos familiares do falecido (geralmente um cunhado).

 

Pela forma como vivenciamos a vida é comum não encontrarmos respostas para as nossas questões no mundo material. É então que nos viramos para o mundo espiritual para ter explicações para os diversos fenômenos que acontecem no nosso dia-a-dia.

Uma das grandes questões daqueles que estão vivos é precisamente a morte. O que é a morte? Como acontece? Porquê?

No caso das mulheres moçambicanas, ao perderem ao marido têm ainda uma caminhada difícil para enfrentar.

Uma vez que a Mulher representa a vida, a fertilidade, é ela a origem de todas as coisas – boas e más. Quando o seu esposo morre é necessário que se tire a morte dela, isto é, que se purifique.

Como acreditamos que a morte não é um mero acaso, mas sim resultado de uma série de acontecimentos sobrenaturais, o pagamento de dívidas que temos com o Universo, é preciso livrar os vivos das vivências dos mortos.

E a esposa, como parceira de vida, com quem o falecido partilhava os dias, é quem tem de salvaguardar a segurança de todos. A viúva tem de se purificar para evitar mais tragédias; infortúnios; azares para si, os seus filhos; netos; etc.

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O ritual de luto tem três fases. Fonte: Saberes locais

 

Kutchinga, no sul de Moçambique ou Kupitafuka no Centro é o ritual através do qual se faz essa purificação da viúva.

A morte do seu esposo é também o marco do nascimento de energias negativas/ impurezas. Estas energias (ndzaka) quando não são seguidos os devidos rituais, podem causar danos na vida da família e comunidade.

Todos os parentes e pertences do morto – mesmo aqueles que vivem longe – tornam-se impuros no momento da morte. Daí o luto. Essas pessoas devem cumprir os rituais de luto à risca, sobre a pena de consequências terríveis a eles próprios e àqueles ao seu redor.

A purificação da viúva dá-se através do Kutchinga, que deve acontecer entre 8 dias a 2 anos da morte do marido. O Kutchinga em si deve durar por volta de seis noites seguidas, durante as quais a viúva deve manter relações sexuais com um familiar do esposo, geralmente um irmão ou primo mais novo.

Em outros casos, o Kutchinga por ser realizado por um homem alheio à família. Estes homens geralmente são conhecidos na região por serem “purificadores natos”/ “purificadores experientes”/ “purificadores viris” e chegam a ser pagos pelos seus serviços.

 

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O Kutchinga precisa de uma alternativa. Fonte: Sapo

Porque na nossa cultura os nossos mortos estão sempre vivos, a partida física de um ente querido não quer dizer necessariamente o desaparecimento das suas energias; alegrias; tristezas; arrependimentos do mundo material.

Daí a invocação constante aos nossos antepassados em todos os momentos importantes das nossas vidas, pois o mundo espiritual habita no mundo material. Tendo em conta a omnipresença dos nossos antepassados, a viúva e os demais familiares podem se sentir em dívida com o falecido.

Por isso, embora haja situações em que a viúva se recusa a praticar o Kutchinga, muitas vezes o medo da maldição fala mais alto.

Para além de não ser um acto voluntário ou seja, de ser um caso de violação sexual; o ritual valida a ‘transmissão’ da viúva de um homem para o outro dentro da mesma família como se de um bem se tratasse.

Adicionalmente, num contexto de um país com uma das maiores taxas de seroprevalência no mundo, o Kutchinga é também um risco à saúde pública, motivo pelo qual a AMETRAMO – Associação dos Médicos Tradicionais de Moçambique desencoraja a sua prática.

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O Kutchinga é um costume ultrapassado. Fonte: Jornal Notícias

 

Mas tal como outro rituais, como por exemplo o lobolo já sofreram alterações, o Kutchinga também deve acompanhar o tempo e o espaço.

Nenhum ritual está imune a actualizações. Pode-se fazer a purificação através de banhos; chás ou orações. Porquê relações sexuais? Não é esta uma forma de reforçar a submissão da mulher face à família do seu esposo?

E mais, por que um homem não passa pelo ritual do Kutchinga quando a sua esposa morre?

Há que repensar o enquadramento da tradição nos paradigmas da vida actual de modo a mantermos a nossa cultura relevante sem colocar em causa a nossa integridade e os valores pelos quais pretendemos viver.