E por falar em poligamia…

E por falar em poligamia…

A implícita relação entre poligamia e violência.

Já escrevi aqui no blog sobre a poligamia e a necessidade de reflectirmos acerca deste estilo de vida tão comum em Moçambique.

Falamos em poligamia em termos económicos e em termos políticos, mas pouco ou nada se fala pela perspectiva de afecto: se existe afecto; como é que esse afecto se manifesta; como se constroem as relações de afecto dentro da família; etc.

E há algum tempo chegou-me um artigo (link abaixo) bastante interessante que correlacionava a poligamia à violência. Não é qualquer tipo de poligamia, mas sim a poliginia: um esposo e várias esposas.

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Casamentos múltiplos causam desigualdade e frustração. Fonte: The Economist

Olhando para o nosso contexto, as primeiras reflexões foram, obviamente ver como essa violência se manifesta: uniões forçadas com menores de idade; uso de meios financeiros para aliciar as famílias (lobolo); uso do casamento como forma de obtenção de mão de obra barata (especialmente para trabalhar a terra) e a violência física/ psicológica/ sexual a que muitas destas mulheres estão expostas uma vez casadas.

Mas isso é apenas a superfície da reflexão que nos é proposta. Pois, indo mais a fundo no estudo realizado, vemos que essa violência, que na verdade acontece no seio de várias famílias, dentro das próprias casas dessas mulheres, é apenas um lado da moeda. Existe ainda um outro lado, protagonizado pelos homens solteiros. Estes, frustrados pela sua falta de prestígio, muitas vezes expressam essa violência para fora das suas casas.

A poligina frustra os homens jovens, pois estes são obrigados a competir com os homens mais velhos (que puderam acumular riqueza ao longo do tempo) pelas mesmas mulheres (as que estão ainda em idade fértil).

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A poligamia ameaça a equidade de tratamento entre homens e mulheres. Fonte: Estadão

Cria-se por isso uma dinâmica em que as mulheres são pressionadas a casar cada vez mais cedo e os homens cada vez mais tarde. Por exemplo, se numa família há três rapazes e três raparigas, primeiro devem se casar elas, para que a família através dos lobolos acumule riqueza para então os rapazes escolherem as suas esposas.

E como ficam os rapazes sem irmãs? Ou aqueles cujas irmãs por N motivos não casam?

Esses rapazes casam-se ainda mais tarde, e geralmente com uma única mulher, num meio em que para ter algum prestígio/ reconhecimento é preciso casar mais mulheres. Como consequência, essa geração de homens jovens, pobres e solteiros, sem perspectivas de futuro – quando aliamos isto a outros factores como o fraco acesso a emprego; baixa escolarização; descrença nas lideranças políticas e pouca esperança no futuro – tornam-se muito vulneráveis a manifestações de violência.

No Sudão do Sul, por exemplo, onde o gado é usado quase como moeda e indispensável para a realização do casamento, é comum gangs de homens jovens roubarem cabeças aos homens mais velhos. Estes assaltos ocorrem geralmente com recurso a armas de fogo, e chegam a ser operacionalizados por organizações criminais.

Grupos violentos, como por exemplo Boko Haram/ Talibans/ etc com grande influência na Nigéria e Afeganistão, conseguem recrutar muitos homens jovens também pelas suas aspirações conjugais. Por se sentirem excluídos e desiludidos, é aliciante a sensação de poder e de causa. Para além disso, muitos desses grupos não só prometem valores para o pagamento dos casamentos, como também raptam jovens mulheres para servirem de esposas para os seus integrantes.

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A tradição é a justificativa para a perpetuação da poligamia. Fonte: WLSA

Então, várias ilações podemos tirar desse estudo que se podem aplicar ao nosso contexto… Numa primeira análise, sobre as dinâmicas intrafamiliares, como por exemplo a violência se manifesta através de conflitos; negligência; abusos; etc, e posteriormente sobre as dinâmicas fora da família, tais como conflitos intergeracionais, crime organizado e guerras, entre outros, podem estar relacionados.

 

Ela não anda, ela desfila

Alek Wek, uma das mais bem sucedidas modelos,  é uma refugiada sudanesa que foi descoberta pela agência Models One em Londres na década de 90.

No seu livro, Alek: De Refugiada Sudanesa a Top Model Internacional, ela conta como foi a sua infância e de que forma em tenra idade percebeu os perigos que ameaçavam a sobrevivência da sua família no Sudão.

Alek nasceu e cresceu no Sudão e até aos seus 8 anos viveu em paz. No entanto, momentos de conflito se fizeram sentir e a sua família foi obrigada a sair da vila de Wau. Primeiro caminharam durante 2 semanas até uma aldeia remota no interior do país, e mais tarde partiram para a cidade de Cartum até que por fim deram por eles em Londres, na Inglaterra.

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Alek começou a carreira de modelo aos 19 anos.

Nos anos 90 Alek fez muito sucesso, não só na Inglaterra, mas também no resto da Europa e Estados Unidos da América. Por ser uma modelo com uma tez tão escura e traços tão peculiares, distinguia-se das restantes e marcava a diferença.

Numa passagem, a modelo explica como a narrativa da sua vida por vezes era deturpada para apelar à glorificação do seu sofrimento e da sua Africanidade, rejeitando a sua verdadeira história.

Eu reparei que frequentemente os jornalistas gostavam de dizer que eu tinha sido descoberta ‘no mato’, em África. Como se eu tivesse sido uma inocente primitiva descalça na floresta quando o agente me resgatou e domou, sem destruir a minha beleza ‘selvagem’. Eu trazia jeans no Palácio de Cristal quando fui ‘descoberta’. O arbusto mais próximo era uma azaléia bem cuidada. Eu sou Africana, mas não sou primitiva. 

É o que acontece muitas vezes com as nossas histórias. As histórias de África e de africanos.

A narrativa contada muitas vezes é uma visão deturpada ou incompleta de quem somos. Aliás, no próprio livro a modelo conta como no início teve de fazer trabalhos em que a sua imagem era demasiado exotificada, como no calendário do café Lavazza em 1997 (imagens abaixo).

Alek lutou para vencer esses obstáculos. Para destruir essas barreiras e desconstruir preconceitos.

Procurou fazer amizades com fotógrafos e marcas que a viam como algo para além de uma cara “exótica” com feições diferentes daquelas a que estavam acostumados.

Aos poucos, e à medida que foi ganhando fama, conseguiu trabalhos mais relevantes e através destes mudou a forma como as pessoas olhavam para si.

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Alek Wek foi a primeira negra na capa da revista Elle, em 1997.

Para outras mulheres negras, refugiadas ou não, sudanesas ou não, Alek Wek era um espelho que reflectia a imagem que tinham de si mesmas.

A atriz Lupita Nyon’go numa entrevista afirmou que o facto de ver Alek Wek na passarela e em revistas, fê-la reconhecer a sua própria beleza.

Oprah Winfrey, numa entrevista a Alek Wek no seu programa televisivo, disse:

Que diferença isso teria tido na minha infância se eu tivesse visto alguém que se parecesse consigo na televisão.

Por muito que possamos – e devamos – criticar a indústria da moda, é inegável o impacto que muitas destas caras têm no nosso dia a dia.

Os anúncios que fazem e as marca que representam servem de padrão para muito do nosso consumo.

Quando se fala em representação da mulher negra, fala-se sobretudo da mulher negra que não é vítima. Que não é sofredora. Da mulher negra digna de amor e paixão. A mulher negra que também pode ter um artigo de luxo. Que pode ir à Universidade.

A mulher negra que, tal como Alek, pode passar por momentos difíceis e alcançar o sucesso.