Em busca da liberdade sexual

A luta das mulheres pela soberania da própria sexualidade é constante.

Quando assumimos propriedade da nossa sexualidade e expressamo-la livremente, somos conotadas como vadias, desvalorizadas, contudo é esperado que o sejamos. É aquela velha coisa “Santa na rua. P*ta na cama”.

Somos socializadas para acreditar que devemos ser virgens e que nos devemos afastar de qualquer contacto sexual. No entanto, simultaneamente, nos é exigida uma performance sexual excepcional e sofremos pressão para dar prazer sempre.

Este dilema para as mulheres negras é ainda mais forte. A mulher negra é ao mesmo tempo a figura menos valorizada no que toca à beleza e desejabilidade, e é também aquela mais objectificada e com a sexualidade mais alienada.

 O corpo feminino negro é hipersexualizado e por isso existe a ideia da disponibilidade e perversidade sexual inquestionável da mulher negra. Nesse sentido, o processo para que a soberania sobre a própria sexualidade seja retomada requer um esforço acrescido para incorporar a componente racial.
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Saartjie Baartman foi uma mulher sul-africana traficada e explorada como atracção de circo no séc. XIX devido ao seu corpo

Tal como já tinha referido, aquando da polémica  em torna da vitória de Semeneya nos Jogos Olímpicos, o padrão de mulher dominante define a Mulher Ideal como branca, cisgénero e heterossexual, de tamanho pequeno, com aspecto frágil e dócil. Como tal os traços naturais da Mulher Negra apresentam uma inconformidade aos critérios do Imperialismo Branco.

As feições do corpo da mulher negra são vistas como marcas de algo selvagem. Mas os mesmos lábios grandes e glúteos avantajados, numa mulher branca são desejáveis. Basta vermos como Kim Kardashian e a sua irmã Kylie Jenner fazem sucesso com alguns traços tradicionalmente negros.

O corpo da mulher negra está sempre na posição do “outro”, é exótico; diferente. E a mulher negra é proibida; pecaminosa, inadequada para matrimónio ou monogamia. Em países com forte legado esclavagista, como o caso do Brasil e dos EUA, é gritante o caso de homens negros bem sucedidos casados com mulheres brancas, ou no mínimo negras claras. Isso não pode ser coincidência. Não é uma questão de preferência pessoal, mas sim de discriminação sistemática.

No entanto, esses mesmos homens, usam-se do corpo da mulher negra para fazer dinheiro. A mulher negra está nos seus vídeos, fazendo danças eróticas e deitada com eles na cama. Mas raramente como um ser humano completo, dignificado e real.

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O corpo da mulher negra é o campo de batalha onde se manifestam as contradições e incoerências do Patriarcado.

Por um lado somos invisíveis, pois nas revistas, na TV e até no mercado erótico, prevalecem as mulheres brancas. Elas são o protótipo de corpo desejável. E por outro lado, as características mais desejáveis são comuns nos corpos de pessoas negras (seios largos; bunda grande; lábios carnudos; etc), mas apenas se estas características forem branqueadas. Até existem produtos dedicados ao clareamento de partes do corpo mais escuras (axilas; cotovelos; mamilos; genitais; etc).

Então as qualidades sexualmente desejáveis são sempre aquelas associadas ao corpo da mulher branca e as características são aquelas da mulher negra.

Numa sociedade que lucra com as inseguranças das mulheres, estar confortável com o seu corpo pode ser revolucionário.

É por isso compreensível que para muitas mulheres negras é na exploração da sua sexualidade que se sentem mais empoderadas, pois é aí que reside o seu valor.

É o caso de Bernice Burgos. Ou, já que falamos nas Kardashians, de Blac Chyna. Ambas são mulheres cuja carreira está intimamene ligada ao imaginário da sociedade no que diz respeito à (in)saciabiliade sexual da mulher negra.

A mulher negra é quente. É sexual. É promíscua. É boa de cama. Estas mulheres correspondem às expectativas do corpo da mulher negra.

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Bernice Burgos causou polémica quando visitou Angola. Fonte: Rede Angola

Os espaços de prazer e de desejabilidade não nos são acessíveis, e como tal,  precisam de ser criados outros alternativos longe das noções de inferioridade ou estereótipos previamente definidos.

Num mundo em que o corpo da mulher negra é forçado a ser “domesticado” para se assemelhar à mulher branca, uma tentativa de fazer dessa prisão um espaço de empoderamento pode ser libertador para algumas mulheres.

 

3 coisas sobre virgindade que todos deviam saber

Tudo o que envolve sexualidade ainda é coberto por um nevoeiro espesso composto por tabus e mitos que nos impedem de ter relações saudáveis com os nossos corpos e com os corpos dos outros.

Para além dos riscos de saúde associados à falta de conhecimento sobre sexo, existe também toda uma lavagem cerebral feita para controlar os corpos das mulheres e com isso perpetuar slut-shaming e victim-blaming.

No que toca à sexualidade feminina, é ainda mais difícil um debate construtivo e educativo que promova comportamentos sexuais saudáveis, já que se promove sobretudo a abstinência e a manutenção da virgindade.

Mas afinal, o que é virgindade?

1. Virgindade não existe 

Não existe. Virgindade é um termo heteronormativo que classifica sexo apenas como a penetração, excluindo todo o sexo que ocorre longe de formas fálicas.

Há várias formas de contacto sexual que não envolvem um pénis.

E agora, vem a pergunta: E o hímen? Pois é, o hímen! O hímen pode-se romper por uma série de factores como exercício físico ou masturbação; pode se romper na trigésima relação sexual e pode até nem existir! Se considerarmos apenas o rompimento do hímen, então quem não tem hímen permanece virgem? Os homens não têm virgindade?

Outra pergunta: E o tamanho da vagina não muda?

Claro que, sendo a vagina um músculo, a sua elasticidade depende da quantidade de esforço e exercício que lhe for pedido. E assim sendo, pouca actividade sexual significa uma vagina menos elástica que pode dar a sensação de contracção.

Para além do conceito de virgindade estar intimamente ligado à supressão da sexualidade feminina, apenas fomenta a ideia que pénis têm poderes mágicos de transformação.

A ideia que a desvirgindade muda o nosso corpo totalmente, de forma repentina e completamente irreversível é falsa.

2. Ninguém tira a virgindade de ninguém

É sempre vendida a Primeira Vez como um momento memorável e cheio de efeitos especiais. E acima de tudo, com alguém que “valha a pena” porque essa pessoa terá para sempre uma parte de nós e ficará para sempre na nossa memória.

Mas a verdade é que a Primeira Vez nem sempre é assim. Não tem de ser assim. O que deve haver é consentimento e vontade de ambas as partes. Dali para frente vai ser sempre melhor, vamos aprender mais e descobrir mais.

Supostamente, para nós, mulheres, o início da vida sexual, marcado pela Primeira Vez tem de ser milimetricamente avaliado e considerado, visto que estaremos a dar algo do nosso corpo que jamais será recuperada.

A percepção que virgindade é algo que se perde, reforça o mito de pureza da mulher, segundo o qual o seu corpo se desvaloriza e desvirtua sempre que for tocado de forma sexual.

Mas a verdade é que a relação sexual é a dois, consiste numa troca. Ninguém tira nada de ninguém – até porque não se pode tirar algo que não existe!

Então não se perde nada, só se ganha.

3. Desvirgindade não é um evento só

Assumindo virgindade como a acumulação de experiência  sexual, esse fenómeno não ocorre de uma única vez.

A desvirgindade, nesse sentido, é um processo. Isto é, deixar de ser virgem envolve toda a descoberta do corpo e da sexualidade, acontece em etapas através de várias experiências sexuais.

E fazem parte desse processo, todas as formas de expressão sexual, começando pela própria masturbação.

Nessa perspectiva, somos todos eternos virgens. Estamos todos em constante crescimento e descoberta no que toca à nossa sexualidade e em busca de mais formas de ter e dar prazer.

 

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Nude Woman Reclining, Seen from the Back by Vincent Van Gogh
As mulheres devem ser ensinadas a tomar decisões sobre os seus corpos sem julgamento nem vergonha.

É preciso que haja uma abolição do conceito de virgindade, e com isso, por associação, uma redefinição das ideias de consentimento, de prazer e de saúde sexual e reprodutiva.

 

 

 

 

 

The female condom and feminism: love or contradiction? (Part II)

My first experience with the female condom was couple of months ago. I was approached by a sales promoter of the Cupid on my way home and she convinced me to buy it: I bought two, one for me and another for a very close friend of mine.

For weeks I would stare at the package, squeeze it and read the instructions. The curiosity was either going to kill me or make me stronger, so I decided to try it.

My male partner had never used a female condom before either, so we made the executive decision to start off with the male condom and then swapping to the female condom. I didn’t feel at ease inserting it by myself, so I asked him to do it. I figured that if a woman can insert a male condom on her partner, why can’t the opposite happen?

Even though I had read the instructions many times before, we had to actually stop for a few minutes and read them again. The thing has 10 steps, 8 of which being directly connected to its insertion and use! It was only then that I realized that the sponge stays inside the entire time. We managed to get it right eventually but then there was another problem: something was hurting the penis- I’m guessing it was the sponge- and it was too uncomfortable so we went back to the male condom after a couple of minutes.

I was disappointed at it: too much discomfort and not that much fun, after all. The friend I bought the other condom for has yet to try hers and I’m guessing she never will.

Other friends gave it a try and the stories are not that different from mine.

On a conversation, one friend rhetorically asked why the sponge on the Cupid had to be so big. She says it was painful to put it in, in fact, she too asked her boyfriend to help her, but the worst part was taking it out because the sponge goes out opened.

For men who enjoy giving and women who enjoy receiving oral sex, it can be challenging since a significant part of the vulva remains covered and female condoms usually are not flavored. Although based on my personal experience, this is not a deal breaker, in fact, some guys will be happy to use this as an excuse not to perform oral sex – but this is another post, for another day.

What could be a deal breaker though, is the fact that, according to our male partners, the female condom acts as an obstruction to feel the woman’s lubrication. Whereas the male condom hugs the penis not affecting its sensitivity, the female one stands loose, making it difficult to assess the woman’s sexual arousal.

A third friend, that tried after that conversation, based on the things she had heard decided to surprise her boyfriend, inserting it before they were together. She said “It’s not a matter of having a device that CAN be inserted hours before use; it SHOULD be inserted hours before, actually because it will take you quite a while to get it right.” She adds that she had to use a significant amount of lube. For her boyfriend it didn’t appeal him visually, they don’t plan on repeating the experience.

Sexual intercourse is about mutual pleasure, but the design of the FC seems to inhibit pleasure for the women due to the stress of having to hold it, as a recent study in South Africa points out. Said study highlights that using a condom for the prevention of pregnancy or infections or HIV/AIDS should not mean that the women are not free to enjoy their sexuality.

The experience of sex when wearing a female condom should be as important as the sense of self-empowerment. Regardless of condom performance or efficiency, sex is supposed to be fun and easy, not full of preparation and mechanical maneuvers.

As a feminist myself, I do believe in giving women the correct tools to engage in honest and opened conversations with their partners about their sexuality. For us, women that don’t have problems discussing the topic of sex with our partners; our schoolmates; friends; doctors and more and more with our sisters and/or mothers, the experience of the female condom was a materialization of our sexual freedom: we wanted to try something different; we had the option to do so and we didn’t feel bad about it.  Our male partners were a big part of the decision to use the female condom and even helped, just like this other lady so we should engage men more.

Personally I think healthy sex lives, and ultimately healthy relationships, have to be based on effective communication and fair negotiation and this too has to be part of the feminist agenda along with the female condom. If the female condom acts as a counter attack for women whose partners refuse to use the male condom, than we’re only legitimizing toxic and hostile environments.

There can’t be a Feminism without choice, and in that sense an option for the male condom is a better option than no option at all, and of course, people should try it for themselves and make their judgments. However we should do better than the current available female condoms there is and the female condom has to be a part of a larger strategy to empower women to engage in healthier relationships.

Maybe a male condom is a much better feminist condom than the female one: it causes no discomfort; it’s marketed at both men and women, encouraging couples to share the responsibility; and most of all, it comes in enough shapes, sizes, textures and materials to accommodate everyone’s needs.

Read the Part I here.

The female condom and feminism: love or contradiction? (Part I)

In a country like Mozambique, where HIV prevalence in women is 13,1% versus 9,2% for men, a female condom would indubitably increase the negotiation power for women and offer a different option for safe sex that didn’t depend on the men.

As BBC stated recently, the biggest advantages are the fact that it can be inserted hours before sexual intercourse and that it gives the vulva more protection than a male condom and unlike the first generation of female condoms, the ones currently available don’t make a lot of noise nor have a flawed design.

In Maputo there are female condoms available and although not as much as male condoms, most women have heard about it and even tried it.

A local sales promoter tells me that her male clients are willing to try something new and take a few days off from the male condom. For them, it is an escape. Women, on the other hand, find it intriguing and usually buy it because of the packaging or prizes associated with promotional campaigns.

When talking about female condoms there is a focus on the liberation of women and their empowerment, almost ignoring the very basic nature of a condom: sex. A condom is supposed to be functional for both parties and if anything, add something to their users and not take it away.

The female condom however, is a one-size-fits-all tool. There hasn’t been a lot of investment in terms of different sizes, flavors, textures, materials or even colors.

The main concern seems to be the fact that foreplay won’t be interrupted and male sexual arousal will not be affected by the insertion of a condom. By doing this, men are only offered the fun parts of it, leaving women with all the worries.

On the BBC article, it reads “The female condom is not as tight for men” and the Origami website says “[it can] accommodate a range of penis sizes”. These statements focus sexual pleasure for women, and on a broader level the health of women’s sex lives, on the satisfaction of the men.

Implicitly, if women want safe sex then they should take all the responsibility. Is that what feminism is really about?

There’s the insinuation that female condoms are just for women and male condoms are just for men, when in reality both parts can and should participate on the decision of using a condom and which one to use.

More so, the rhetoric is always about developing countries. Whether it is India or Nigeria, female condoms seem to be good for third world women only. Western women are never the target for female condom use campaigns.

This exposes the reality of the aid industry and the power dynamics that play when it comes to strategic thinking and program designing for HIV prevention in poor/ rural areas. The decision makers, mostly western white middle-class women are unaware of the class differences, racial discrimination and even the fight for democratic governments that play a part in the lives of the women they so want to help, and often impose a feminism centered exclusively on gender inequality.

As bell hooks beautifully said “feminism is for everybody”, but everybody needs to be aware of the environment and people to which they want to direct feminist agenda to and the issues said feminism will tackle.

The relationship between our politics and our sexualities is not always peaceful. Emotionally and intellectually the female condom may appeal to most women – I love the idea of the female condom, but the practicality of it is another story.