Às Maranzas como eu

Marandza, puta, vadia, interesseira… santa, púdica, convencida. No fim do dia, apenas mulher.

Essas classificações que nos dividem, nos categorizam e separam como as boas pra fuder e as boas pra casar. Isso é apenas uma manifestação da moralidade machista-patriarcal que tenta, desde o momento em que nascemos, até o momento da nossa morte, controlar os nossos corpos.

Afinal de contas quem nos define? Quem decide quem eu sou?

Se sou violada e exponho o meu violador, sou acusada de ser promíscua, de provocar, sou culpabilizada por deixar um criminoso cometer um crime! Se me assumo como um ser sexual que busca prazer de forma consensual e consciente, sou chamada de puta, oferecida, marandza.

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“Marandza”: pessoa que gosta; gostadeira.. Gosto sim. Sou marandza. Adoro abraços, beijos, presentes, elogios. Sou marandza. Gosto de livros, de um bom copo, uma boa festa.

E gosto de sexo também. Gosto de buscar prazer. Gosto de sentir o meu corpo ferver em contacto com outro corpo. Gosto do suor misturado, da saliva, dos gemidos, dos orgasmos.

Gosto e assumo o meu direito de dizer sim. Sim ao sexo, sim ao prazer, sim à minha liberdade sexual, sim ao meu direito de decidir sobre o meu corpo, sim, sim sim!

Sou marandza mesmo.

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Seja uma mulher livre. Fonte: CONTI outra

Às marandzas como eu, um brinde na conta do mano que pagou o Moet.

Um brinde às mulheres que não se deixam calar, que não se reprimem face aos ataques diários de quem não as conhece.

Um brinde às putas. Às que se vendem. Às que se trocam.

Um brinde àquelas que se dão só por dar. E não só dão, como também levam. Não só entregam, como também arrancam.

 

Brindemos. A nós.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sororidade não é amor incondicional

A sororidade no feminismo quer dizer  o reconhecimento de uma experiência de feminilidade partilhada. Mas será universal?

Essa feminilidade diz respeito a um conjunto de opressões, valores e vivências comuns. A sororidade é um acordo entre as mulheres que se reconhecem como irmãs, e alcança a dimensão emocional, ética e política do feminismo contemporâneo.

Não pode haver de facto feminismo se não houver esse entendimento mútuo.

O Patriarcado é uma instituição que define essencialmente relações de poder em que o homem ocupa o topo da hierarquia. Esse poder é sentido na Ciência, na Academia, na Religião, e em lugares como Escolas, Hospitais, pois está enraizado nos hábitos das pessoas.

A perpetuação do Patriarcado é garantida através da nossa própria cultura, pois somos socializados para normalizar os papéis de género que definem esses lugares de domínio e submissão.

A armadilha do Patriarcado é colocar as mulheres a lutar entre si. E caímos nessa armadilha sempre que fazemos piadas ou comentários machistas. Sempre que expomos negativamente outras mulheres. Sempre que perpetuamos o discurso das vadias vs. virgens.

Mas ao construirmos debates construtivos e diálogos com tolerância fortalecemos a nossa rede.

O Patriarcado defende e promove a fraternidade entre os homens e obriga as mulheres a disputar e sustentar os interesses do desejo masculino, já que são socializadas entre si como inimigas.

É precisamente por isso que o Feminismo existe, para contestar essas definições. O feminismo precisa dessa união entre as mulheres para poder criar uma nova realidade.

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Eu como mulher me solidarizo e simpatizo com todas as mulheres. É este o exercício que sororidade nos exige: empatia; compreensão; fortalecimento.

O reconhecimento dessa feminilidade partilhada, dessa emancipação enquanto grupo é o que transforma o sofrimento em aceitação. A consciência dessa posição traz não só protecção, mas também força e gratidão.

Num mundo em que o masculino sempre é exaltado e a nossa aceitação como mulheres está intrinsicamente ligada ao poder que os homens nos permitem ter, é muito forte sentir que não estamos sozinhas.

Não existe nada melhor que sentir essa amizade vindo de uma outra mulher. Sentir essa entrega e essa energia. Sentir esse refúgio dentro de um mundo que sempre traz as nossas inseguranças à tona.

 

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A banalização da sororidade. Fonte: Não me Kahlo

 

Mas sororidade também pode ser uma maldição. Sororidade tóxica, forçada em nada nos fortalece.

A sororidade pretende a união para combater o patriarcado, isto é, a supremacia do poder masculino. No entanto vivemos num mundo em que reina não só o sexismo, mas também o racismo, a homofobia, classismo; etc. Todas estas opressões estão interligadas.

É preciso olhar para a sororidade sobre a lente da interseccionalidade também.  Porque as mulheres não sofrem apenas por serem mulheres, sofrem também por serem negras – as que são negras, por serem lésbicas – as que são lésbicas, por serem pobres – as que são pobres e por aí vai.

Então como podemos pedir a uma mulher pobre que trabalha como escrava doméstica que esta reconheça uma mulher rica sua patroa como irmã? Como pode haver sororidade num contexto de opressão?

Há que reconhecer os abusos que existem entre as mulheres tendo em conta as redes de opressão em que cada uma de nós está presa.  A sororidade exige também que façamos essa delimitação para que possamos validar as experiências de todas as nossas irmãs.

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A palavra sororidade vem do latim sororis (irmã) e idad (qualidade). Fonte: O Machismo Nosso de Cada Dia

Devemos nos unir para formar uma muralha contra o nosso opressor comum, mas também lutar contra as opressões que cada uma de nós perpetua no seu espaço.

É fundamental que haja essa busca sistemática por um campo de solidariedade entre todas, o que passa inevitavelmente pelo reconhecimento da outra mulher como minha semelhante. E esse reconhecimento facilitará a auto-afirmação da nossa própria força e determinação.

Considerar a sororidade como um factor constante, amor incondicional, valor supremo enfraquece as nossas lutas, pois dilui todos os sofrimentos específicos de cada uma de nós.