Alicia Keys e a rejeição das negras escuras

O que os aplausos à campanha #nomakeup /sem maquilhagem de Alicia Keys dizem sobre o grande elefante branco na sala das feministas negras.

A cantora norte-americana Alicia Keys tomou um bravo passo posicionando-se contra a ditadura de beleza que obriga as mulheres a maquilharem-se todos os dias, escondendo as partes de si que menos gostam e realçando os traços que as aproximam ao ideal de beleza que tanto procuramos alcançar.

Para uma artista como ela que serve de inspiração para muitas adolescentes, jovens adultas e mulheres, a manipulação da sua imagem  promove um ideal de perfeição inalcançável. Uma imagem que não corresponde à realidade e que deturpa a imagem que temos de nós mesmas.

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Alicia Keys para Fault Magazine

No entanto, Alicia não é a primeira mulher americana negra a tomar uma posição contra essa cultura.

No ano passado Lupita Nyong’o e Viola Davis, entre outras artistas, fizeram um ensaio fotográfico para a revista Vanity Fair em que posaram completamente desvestidas de maquilhagem.

 

Como mulheres negras e escuras, os seus traços foram imediatamente ridicularizados e as actrizes foram ostracizadas por não estarem “glamurosas” o suficiente.

blog-post-viola-davis-3No seu trabalho em “How To Get Away With Murder/ Como Defender um Assassino”, Viola Davis representa uma sensual advogada negra, com uma carreira de sonho e uma vida abastada e emocionante.
Numa das cenas mais icónicas da série, Viola tira a peruca e a maquilhagem preparando-se para dormir, mostrando essa dualidade que muitas mulheres negras vivem: por um lado são livres e fortes; por outro, são completamente reféns de um padrão de beleza longe da sua verdadeira face que só enfrentam no escuro da sua própria intimidade.

Lupita, por sua vez, escolheu um papel mais discreto às luzes de Hollywwod, para trazer diferentes representações da mulher negra daquelas que estamos cansados de ver.

Para além disso, ambas têm vindo a trazer essa luta para o tapete vermelho, preferindo o cabelo natural e mostrando a versatilidade e beleza que daí pode vir. Um exemplo perfeito é o penteado escolhido por Lupita para a Met Gala, em que a atriz se inspirou na África Ocidental.

Mas infelizmente, o trabalho feito por estas duas é ignorado.

Aparentemente não há espaço no Feminismo Negro para as mulheres escuras. Para mulheres de lábios grossos. Mulheres com carapinha.

O nosso silêncio perante o trabalho destas mulheres evidencia o colorismo que nos orienta, e o racismo aí escondido.

Queremos apenas os traços mais finos: o nariz em bico e lábios discretos. Queremos o cabelo em cachos e a pele mais clara.

Porquê?

Que Feminismo é esse e para quem?