O meu voto feminista

O meu voto feminista

Este ano dos 165 candidatos às 50 autarquias, apenas 5 são mulheres. Por que será?

Segundo dados do INE as mulheres representam mais de metade da população, portanto não podemos ficar excluídas das decisões a nível político. Dos cerca de 28,8 milhões de moçambicanos, 15 milhões são mulheres.

Segundo algumas vozes, as mulheres é que são as culpadas, pois não tomaram iniciativa, isto é, não se candidataram dentro dos próprios Partidos. Elas fazem parte das listas como membros das Assembleias municipais, mas não como cabeças de lista para os Municípios.

Apesar de a nossa Assembleia da República ser presidida por uma mulher e ter 40% de representatividade feminina, as mulheres ainda encontram muitas barreiras para gerarem mudanças. O acesso a posições de liderança ainda é bastante reduzido e isso vai desde o topo (Presidência; Conselho de Ministros; etc) até à base (Secretários de barro; Régulos/ Rainhas; etc).

Para além disso, nem sempre essa representatividade se reflecte em avanços para a vida das mulheres comuns. Não podemos ignorar o facto de as mulheres em posições de poder prestarem contas a instituições que são regradas por interesses que não dão prioridade às questões de género.

Ter mulheres em posições de poder é um passo sim, mas não nos podemos deixar ficar por aí. Devemos cobrar mais, não só a elas mas a todos os dirigentes.

Pois não basta só colocarem mulheres no poder, é importante combater as mentalidades patriarcais e sexistas que alimentam as desigualdades e as discriminações de género em todas as esferas.

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A limitada participação das mulheres tem como causas os factores históricos: a tradição e os parâmetros legais, juntos determinam os limites dos direitos, obrigações e liberdades das mulheres. Fonte: Fórum Mulher

As próprias mulheres no poder são vítimas dos interesses patriarcais que muitas vezes protegem. Elas são expostas a assédio verbal e escrutínio público pelo simples facto de serem mulheres: a roupa que vestem; como falam; como se sentam; se são casadas ou não; se têm filhos ou não; tudo isso é usado para descredibiliza o seu mérito.

Mesmo aquelas que não não entram na política ‘voluntariamente’ como por exemplo a Primeira Dama, são vítimas dessas pessoas defensoras da moral e bons costumes, da “cultura”.

E muitas vezes ouvimos discursos machistas e conversadores, vindos de quem está no poder. Usa-se sobretudo a cultura como escudo para travar avanços para as mulheres.

Em Moçambique as desigualdades de género estão associadas a factores culturais que ditam o papel das mulheres e limitam o nosso acesso à educação, ao mercado de trabalho, a património, etc.

Eu como mulher e como feminista gostaria de ver os meus interesses salvaguardados e não somente porque existem mulheres no poder, mas também porque essas mulheres têm nas suas agendas as questões de género destacadas.

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As taxas de analfabetismo são desproporcionalmente maiores entre mulheres (67%, versus 36% entre os homens) e são também as mulheres o grupo mais afectado pela extrema pobreza. Fonte: Opera Mundi

Uma coisa não podemos esquecer: todas as conquistas das mulheres foram por mérito próprio.

Ninguém “deu” às mulheres o direito ao voto; o direito à educação; à formação militar; etc. Todos os direitos foram reivindicados!

 

E para salvaguardar esses direitos que com tanto esforço, sangue e sacrifícios foram conquistados, devemos nos manter vigilantes e cientes do nosso papel como cidadãs deste país.

Se nós queremos uma sociedade mais justa, mais atenta às questões de género, teremos de fazer valer o nosso voto e cobrar isso de quem nos governar.

Hoje em dia muitas mulheres já têm consciência dos seus direitos e deveres. Contudo, apesar de haver uma moldura legal e uma aparente representatividade, a implementação dessas leis tem-se mostrado bastante frágil.

Não basta só colocarem lá as mulheres se depois vão instrumentalizá-las para favorecer a ordem em vigor.

Os nossos dirigentes precisam de pensar, por exemplo, sobre melhores formas para proteger as vítimas que denunciam violência doméstica; formas de melhor preparar as autoridades que recebem estas vítimas; mais segurança em espaços públicos; etc.

O meu voto é feminista!

 

… Resta saber se existe candidato feminista.

Por que importam as políticas afirmativas?

Por que importam as políticas afirmativas?

Recentemente nos Estados Unidos da América tem havido um debate sobre políticas afirmativas no que toca às admissões em Universidades, que de alguma forma podem estar a prejudicar os cidadãos americanos descendentes de asiáticos.

No centro do debate está a questão da necessidade de tais políticas e dos beneficiários.

Mas afinal de contas, o que são políticas afirmativas?

As políticas afirmativas são mecanismos usados para promover a inclusão e/ou protecção de um determinado grupo social que de outra forma, seria excluído e/ou privado de exercer um determinado direito. Geralmente as políticas afirmativas são direcionadas a afrodescendentes; mulheres; homossexuais, idosos; portadores de deficiência; etc.

Estes grupos são tratados de forma desigual em diversos sectores, e por isso as políticas afirmativas visam reparar essas disparidades de modo a criar condições para, a longo prazo, não ser preciso reafirmar os seus direitos.

 

Numa sociedade desigual em que há disparidades entre os diferentes grupos não podemos ignorar que a Constituição por si só é insuficiente para proteger todos os cidadãos.

Bem sabemos que há grupos distintos que sofrem violências diárias e não são protegidos pela Lei, e por isso é preciso criar outras leis para protegê-los e colocá-los em pé de igualdade com os restantes grupos sociais.

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As acções afirmativas no mercado de trabalho. Fonte: JUS

Por exemplo, em 1984 a União Europeia incentivou a inclusão e participação das mulheres no mercado de trabalho, em todos os sectores profissionais e em todos os níveis de liderança.

Desde então todos os Estados Membros têm criado mecanismos não só para encorajar a participação das mulheres, tais como por exemplo premiar empresas, como também para aproximar os salários de homens e mulheres.

A Índia, por sua vez, na primeira metade do séc. XX, aquando da sua independência introduziu um sistema de quotas para garantir acesso a empregos públicos e vagas em universidades a castas desprivilegiadas.

Este ano foi eleito um presidente Dalit, com 65% dos votos, Ram Nath Kovind, que segundo a cultura indiana é a casta mais inferior, dos ‘intocáveis’.

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Implementar políticas afirmativas é negar o princípio de igualdade?

Não, pelo contrário, é admitirmos que existem sim desigualdades e ignorar essas diferenças na nossa sociedade seria admitirmos a nossa cumplicidade com a perpetuação dos modelos actuais.

Se não encararmos a realidade corremos o risco de assistir, tal como aconteceu em séculos passados e começa agora a reaparecer, a manifestações explícitas de intolerância e preconceito. Estas manifestações são levadas a cabo sobretudo por grupos privilegiados  que pretendem manter o status quo, deixando os grupos marginalizados aquém do seu potencial de desenvolvimento.
Por outro lado, há que reconhecer a necessidade de oferecer equidade.

Cada cidadão cresce e se desenvolve num determinado grupo, onde tem acesso a certas oportunidades. Um cidadão que é educado em escolas privadas, nas férias viaja para o exterior; tira cursos de inglês na infância; tem acesso a computadores e internet, já tem uma vantagem na Universidade quando comparado a um cidadão que sempre estudou em escolas públicas, com pouco acesso a outras realidades ou línguas.

Por isso as políticas afirmativas procuram compensar essas circunstâncias que afectam aqueles em desvantagem, criando mais equidade.

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Existe meritocracia numa sociedade desigual? Fonte: Estadão

Por exemplo, um pouco por todo o mundo há que aceitar que existem grupos sistematicamente excluídos do mercado de trabalho, como é o caso dos portadores de deficiência física.

Quando foi a última vez que você viu uma professora com deficiência física? Quantas médicas você conhece que sejam portadores de uma deficiência física?

Talvez se houvesse uma política de afirmação que garantisse a este grupo o acesso a educação superior e/ou o acesso ao emprego, poderíamos ver estas pessoas a ocupar tais postos.

Finalizando, a razão de existir das políticas afirmativas é aumentar as oportunidades para cidadãos historicamente discriminados. As políticas servem para equiparar todos os cidadãos, de forma a assegurar uma vida digna a todos.