Memórias e Sonhos de boll hooks em “Bone Black”

Memórias e Sonhos de boll hooks em “Bone Black”

Reflexões em torno do livro autobiográfico “Bone Black: Memories of Girlhood” da bell hooks

bell hooks é uma escritora e académica norte-americana mais conhecida pelo seu trabalho em torno do Feminismo Negro e Racismo. Em 2014 tive o prazer de ler o livro “Ain’t I a Woman: Black women and Feminism”, quando comecei o meu compromisso com literatura marginalizada.

Bone Black é uma auto-biografia muito diferente das que estamos habituados a ler. Embora siga uma ordem cronológia, o livro não procura contar as coisas tal como elas foram ou colocá-las dentro de uma estrutura temporal, mas sim compilar episódios relevantes da vida de uma menina negra nos EUA dos anos 60 em diante.
bell hooks traz-nos memórias, um pouco factuais e um pouco fantasiadas – porque afinal não nos lembramos das coisas como estas aconteceram, mas sim como as sentimos – contadas ora na primeira, ora na terceira pessoa, mostrando a sua experiência pessoal e também a dimensão cultural da sociedade em que ela estava inserida.
Nesses relatos de duas a três páginas, ela não se poupa em detalhes poéticos e coloridos que dão vida aos episódios que ela vai relatando. Estes episódios ajudam-nos a compôr uma fotografia da sua infância e, enquadrá-la na História dos E.U.A.
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É através da autobiografia que bell hooks encontra o seu espaço no mundo. Fonte: The dialectis of belonging in bell book’s Bone Black
Numa das passagens mais bonitas do livro, ela conta como ela conseguiu ter uma boneca negra.
“deep within myself i had begun to worry that this loving care we gave to the pink and white flesh-colored dolls meant that somewhere left high on the shelves were boxes of unwanted, unloved brown dolls covered in dust. i thought that they would remain there forever, orphaned and alone, unless someone began to want them, to want to give them love and care, to want them more than anything. at first they ignored my wanting. they complained. they pointed out that white dolls were easier to find, cheaper. they never said where they found baby but i know. she was always there high in the shelf, covered in dust, waiting.”// “Dentro de mim, comecei a preocupar-me que esse cuidado e amor que dávamos às bonecas cor-de-rosa e brancas significava que, em algum lugar nas prateleiras, havia caixas de bonecas castanhas indesejadas e não amadas, cobertas de pó. Eu pensei que elas ficariam lá para sempre, órfãs e sozinhas, a menos que alguém começasse a querê-las, a querer dar-lhes amor e carinho, querê-las mais do que qualquer coisa. No começo eles ignoraram o meu desejo. Reclamaram. Disseram que bonecas brancas eram mais fáceis de encontrar, mais baratas. Eles nunca disseram onde encontraram a bebé [castanha], mas eu sei. Ela sempre esteve lá no alto da prateleira, coberta de pó, esperando. ” [tradução livre]
Ela e a boneca eram iguais.
Enquanto menina, ela se sentia (e era!) diferente das expectativas nela depositadas e com o andar do tempo e o desenvolver da sua personalidade essas peculiaridades foram se intensificando.
Aos poucos ela se tornou a ovelha negra da família e foi-se isolando. Foi no seu isolamento que ela descobriu o gosto pela leitura e a possibilidade de imaginar e criar outras realidades. E, tal como a boneca, mesmo nesse isolamento, o amor sempre arranjava formas de chegar – fosse através dos livros, de pessoas ou mesmo Deus.
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bell hooks é autora de mais de 30 livros.
hooks permite-nos pensar como aquela menina pensava, ao observar o mundo e as suas contradições: a sua mãe forte e segura por um lado, mas indefesa face ao esposo. A sua amizade com o irmão e mais tarde a indiferença, à medida que ele acumula privilégios como o único filho homem. O seu amor por Deus e à Igreja, mas também o seu descontentamento por não deixarem mulheres subir ao púlpito.
Bone Black é um testemunho da vida de muitas crianças, e especificamente meninas negras: a descoberta do racismo/ colorismo; a descoberta da pobreza e outras descobertas mais engraçadas como a sexualidade ou o que é ser mulher.
Acompanhamos estes episódios sabendo da sua legitimidade e relevância não só no Passado, mas ainda mais no Presente quando somos confrontados com as mesmas questões.
Na sua escrevivência, bell hooks por fim declara-se escritora, é contando histórias que ela se encontra, onde ela pertence.

Wangari Maathai na primeira pessoa

Wangari Maathai na primeira pessoa

Foi há 13 anos atrás que Wangari Maathai se tornou na primeira africana a ser premiada com o Prémio Nobel da Paz pelo seu trabalho como ambientalista.

Maathai lutou pela liberdade e paz no Quénia usando o Ambiente como ferramenta para tal.

A sua abordagem multidimensional interligava abordagens científicas, ambientais, e culturais, lembrando as comunidades rurais daquilo que eram as tradições para a conservação da terra.

Estas tradições, que ao pouco foram se perdendo, sobretudo pela influência do capitalismo e do colonialismo, estavam muito ligadas à preservação e respeito pela Terra.

Na sua autobiografia “Unbowed”, percebemos como a sua teimosa dedicação e o seu sentido forte de compromisso foram o seu Norte e o seu Sul para a tomada de decisões.

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Tendo passado grande parte da infância na parte rural do Quénia, Maathai cresceu rodeada de árvores, plantas e animais.

Qual foi o seu susto, quando anos mais tarde, percebeu que grande parte desses ecossistemas estavam destruídos e que pessoas antes auto-sustentáveis, não só dependiam de doações para se alimentar, como também não tinham condições para plantar os seus alimentos.

Muito do conhecimento foi-se perdendo com o passar do tempo e, muitas áreas aráveis tinham sido cedidas para grandes plantações, como por exemplo do chá.

Foi então que começou um movimento ingénuo e isolado, em 1977, o Green Belt Movement, no sentido de reflorestar essas zonas e resgatar todo o conhecimento que já existia.

Este movimento começou primeiramente por dinamizar grupos de mulheres rurais – responsáveis por cultivar as terras – no sentido de plantar algumas zonas perto das suas casas.

Rapidamente, com o seu tempo e os seus sacrifícios, transformou-se numa verdadeira revolução.

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Wangari Maathai fundou o “Green Belt Movement” em 1977. Fonte: The Green Belt Movement

Não bastava apenas plantar árvores isoladamente. Era preciso perceber a importância de cada espécie; a pertinência de serem plantadas em determinadas zonas; de regá-las e mantê-las vivas, ainda que seja para as gerações futuras.

“The trees (we) are cutting today were not planted by us, but by those who came before. So we must plant trees that will benefit communities in the future.”/ As plantas que estamos a cortar hoje não foram plantadas por nós, mas por aqueles que vieram antes. Portanto devemos plantar árvores que irão beneficiar comunidades no futuro. 

E para tal era preciso também abordar questões de género; de herança de terras; de cedência de terras a indústrias poderosas; de doenças; de saúde; etc.

Estes grupos começaram portanto a exercer a sua cidadania de forma mais activa, questionando decisões tomadas no topo; exigindo explicações e conhecendo os seus direitos.

Esta abordagem despertou a atenção de quem estava no poder e ela foi obrigada a fazer grandes sacrifícios em nome da sua visão. Perseguida, presa, torturada, nada a parou de seguir os seus objectivos.

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Maathai foi a primeira mulher africana com o grau de PhD e a primeira a ganhar o Nobel da PAz. Fonte: Nobel Prize

Ela soube ser uma figura pública: a estratégia; a logística; que é preciso saber para se defender e proteger de um regime opressor. O crescimento da sua imagem e da sua legitimidade, permitiram-lhe canalizar mais meios e poder para o movimento.

E mesmo antes disso, é impressionante e inspirador perceber como ela soube maximizar todas as oportunidades que lhe foram dadas: a oportunidade de começar a estudar, mais tarde, de ir para um internato de freiras, posteriormente o ensino superior nos EUA e por fim a sua posição aquando do regresso ao Quênia.

“Education, if it means anything, should not take people away from the land, but instill in them even more respect for it, because educated people are in a position to understand what is being lost.”/ Educação, se significa alguma coisa, não deveria afastar as pessoas da terra, mas incutir nelas ainda mais respeito, porque pessoas educadas estão numa posição de entender o que se está a perder. 

A sua mobilização das comunidades não se limitou somente à plantação de árvores, pois Maathai viu nisso uma oportunidade para criar sinergias entre temas como democracia; género; solidariedade.

Essa teia criada permitiu-lhe não só replicar o modelo, mas criar um impacto gigantesco (mais de 20 milhões de árvores plantadas) e deixar um legado imensurável.

Wangari Maathai fez-nos acreditar na possibilidade de um desenvolvimento sustentável antes de isso estar na moda.