Girlhood: a ilusão da realidade

Girlhood é um filme escrito e realizado por uma mulher branca, francesa que pretendeu retratar a vida de jovens mulheres negras da periferia francesa.

Costuma-se dizer que “percepção é realidade” e não poderia estar mais de acordo. Cada indivíduo vive numa realidade completamente diferente, pois sente e absorve o seu ambiente de formas diferentes.

Esse seja talvez o maior desafio para quem faz um filme: como criar uma imagem que represente a realidade ?

No filme Girlhood, da realizadora francesa Céline Sciamma, é quase impossível não sentir essa distinção entre a percepção dela e a realidade que procura retratar. Ou pelo menos para quem conhece minimamente essa realidade!

A história acompanha o desenvolvimento de Mariéme, desde uma tímida e solitária menina negra a uma adolescente rebelde e conflituosa.

A intenção do filme é de despertar um sentimento de culpa face à indiferença da sociedade francesa às comunidades imigrantes que vivem à margem de tudo: da cidade; da lei e até mesmo da “francofonia”.

 

Infelizmente, o que o filme tem de real é pouco.

A realidade familiar é praticamente secundária à situação da adolescente durante o filme, evidenciando o desconhecimento da realizadora no que toca às especificidades de uma família imigrante.

O pai não aparece. A mãe trabalha como empregada doméstica e quase não passa tempo com os filhos. O irmão é extremamente abusivo. A irmã mais nova está à procura de um ídolo. E Mariéme tem apenas 16 anos e aparentemente nenhum sonho.

O que a realizadora consegue- e muito bem- é descrever a força que vem de um grupo de mulheres unidas. É essencial para a auto-afirmação de qualquer mulher que esta se rodeie de mulheres como ela.

No entanto, rapidamente o grupo de amigas torna-se destrutivo, trazendo à superfície tudo o que há de pior na protagonista: inveja; raiva; tristeza; carência.

Outro ponto positivo é a gradual evolução das tentações a que Mariéme está exposta. O que começa por ser uma vontade de estar na moda e usar roupas trendy, rapidamente transforma-se numa porta para um mundo de drogas e prostituição.

Note-se que este lado está intimamente ligado à exploração da sexualidade da adolescente. A adolescente vê-se dividida entre o seu desejo e curiosidade e os olhos incriminadores da sociedade machista.

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O filme é uma obra interessante na medida em que, embora carregada de estereótipos, permite-nos olhar (de uma forma unidimensional) para a realidade de muitas raparigas descendentes de africanos imigrantes na Europa.

Para a maioria dos adolescentes nessas condições, a construção da sua identidade passa muito pela descoberta da sua Africanidade, e depois pela rejeição ou aceitação desta. Pela manutenção das relações familiares, que se estendem às outras famílias em situações similares.  E pela resposta à pressão das estruturas da sociedade onde estão inseridos: escola; mercado de trabalho; oportunidades de crescimento; etc.

Infelizmente para Céline Sciamma a sua percepção não lhe permitiu chegar tão longe. Ela ficou-se pelo que estava à superfície da realidade: pela armadilha fácil do crime e justiça de rua.

A Mariéme de França, que poderia muito bem ser a Mariana em Portugal, empurrada para a marginalidade sem uma chance de saber quem é ou quer ser.

 

 

 

 

 

 

Vivendo de Amor

Em Algum Momento Você Nos Amou?

Quando eu era criança, percebia que fora do contexto da religião e do romance, o amor era visto pelos adultos como um luxo. A luta pela sobrevivência era mais importante do que o amor.

Somente as pessoas mais velhas – nossas avós e bisavós, nossos avôs e bisavôs, nossos padrinhos e madrinhas -pareciam dedicadas a arte e ao ato de amar. Elas nos aceitavam, cuidavam de nós, nos davam atenção e principalmente, afirmavam nossa necessidade de experimentar prazer e felicidade. Eram carinhosas e o demonstravam fisicamente.

Nossos pais e sua geração, que só pensavam em subir na vida, geralmente passavam a impressão de que o amor é uma perda de tempo, um sentimento ou um ato que os impedia de lidar com coisas mais importantes.

Quando eu dava aulas sobre o livro Sula, de Toni Morrison, reparava que minhas alunas se identificavam com um trecho no qual Hannah, uma mulher negra já adulta, pergunta a sua mãe, Eva: “Em algum momento você nos amou?” E Eva responde bruscamente: “Como é que você tem coragem de me fazer essa pergunta? Você não tá aí cheia de saúde? Como não consegue enxergar?” Hannah não se satisfaz com a resposta, pois sabe que a mãe sempre procurou suprir suas necessidades materiais.

Ela está interessada num outro nível de cuidado, de carinho e atenção. E diz para Eva: “Alguma vez você brincou com a gente?” Mais uma vez, Eva responde como se a pergunta fosse totalmente ridícula: Brincar? Ninguém brincava em 1895. Só porque agora as coisas são fáceis, você acha que sempre foram assim? Em 1895 não era nada fácil. Era muito duro. Os negros morriam como moscas… ‘Cê acha que eu ia ficar brincando com crianças? O que é que iam pensar de mim?

A resposta de Eva mostra que a luta pela sobrevivência não significava somente a forma mais importante de carinho, mas estava acima de tudo. Muitos negros ainda pensam assim. Suprir as necessidades materiais é sinônimo de amar. Mas é claro que mesmo quando se possui privilégios materiais, o amor pode estar ausente.

E num contexto de pobreza, quando a luta pela sobrevivência se faz necessária, é possível encontrar espaços para amar e brincar, para se expressar criatividade, para se receber carinho e atenção. Aquele tipo de carinho que alimenta corações, mentes e também estômagos. No nosso processo de resistência coletiva é tão importante atender as necessidades emocionais quanto materiais.

Não é por acaso que o diálogo sobre o amor no livro Sula se dá entre duas mulheres negras, entre mãe e filha. Sua relação simboliza uma herança que será reproduzida em outras gerações. Na verdade Eva não alimenta o crescimento espiritual de Hannah, e Hannah não alimenta o crescimento espiritual de sua filha, Sula.

Mas Eva simboliza um modelo de mulher negra “forte”, de acordo com seu estilo de vida, por sua capacidade de reprimir emoções e garantir sua segurança material. Essa é uma forma prática de se definir nossas necessidades, como naquela canção de Tina Turner: “O que é que o amor tem a ver com isso?”

 
Por: Bell Hooks – Tradução de Maísa Mendonça

(Continua aqui.)

 

Efuru e o dilema da “Boa Mulher”

Como pode uma jovem se encaixar num padrão de “boa mulher” numa sociedade que nunca se satisfaz?

12961610_10153996600625390_3130144373034788956_nTerminei há alguns dias de ler este livro que retrata a história de uma mulher chamada Efuru numa vila Igbo na Nigéria antes da independência.

Durante a sua vida, Efuru sofre uma grande pressão para se encaixar no padrão de “boa mulher”.

Nas suas relações amorosas, ela mostra-se disponível e prestativa. Sempre demonstrando afecto e mantendo uma boa relação com todos os envolvidos.

Na família é bem vista e procura sempre ajudar todos ao seu redor.

No entanto, no desenrolar da história é evidente que ela jamais será completamente feliz procurando ser essa “boa mulher”.

Mesmo quando encontra alguém e eles têm uma relação muito boa, saudável e invejável, as pessoas da sua vila condenam o relacionamento alegando atropelos à tradição, pois o casal deve dormir em quartos separados; têm tarefas específicas para a mulher e para o homem e  sofrem pressão para ter um filho, entre outros aspectos.

O conceito de “boa mulher”, no contexto africano exige super poderes: maternidade; altruísmo; amor incondicional; força física e emocional; perdão; etc.

Esse conceito arranca-nos a humanidade, a capacidade de cometer erros; de chorar; de ter sonhos próprios. E como uma mulher negra eu sinto essa pressão diariamente: Estuda. Casa. Tem filhos. Sê bem sucedida, mas não demais. Respeita o teu esposo. Respeita os teus pais. Dá tudo aos teus filhos. Sê paciente. Não mostres sofrimento. Suporta toda a dor. Mantem-te como sempre foste.

 

Até quando?

“Americanah” de Chimamanda Adichie

Eu acho importante ler este livro porque…

Chimamanda Ngozi Adichie by Beowulf Sheehan

Este livro conta a história de uma jovem nigeriana nos Estados Unidos da América, que devido à instabilidade política é levada a abandonar a Universidade no seu país de origem.

À medida que o drama se vai desenrolando Ifemelu, a protagonista, é levada a confrontar-se com o desespero de se querer integrar, com a obrigatoriedade de fugir de estereótipos e com a necessidade de descobrir quem ela é para além da cor da pele ou da textura do cabelo.

A prosa da nigeriana Adichie, rica em poesia, consegue retratar a complexidade das partidas e chegadas de quem vive imigrantemente. Uma das minhas passagens favoritas é a seguinte:

[“Alexa and the other guests, and perhaps even Georgina, all understood the fleeing from war, from the kind of poverty that crushed human souls, but they would not understand the need to escape from the oppressive lethargy of choicelessness. They would not understand why people like him who were raised well fed and watered but mired in dissatisfaction, conditioned from birth to look towards somewhere else, eternally convinced that real lives happened in that somewhere else, were now resolved to do dangerous things, illegal things, so as to leave, none of them starving, or raped, or from burned villages, but merely hungry for choice and certainty.”

Alexa e os outros hóspedes, e talvez até mesmo Georgina, todos entendiam a fuga da guerra, do tipo de pobreza que esmaga as almas humanas, mas eles não entendiam a necessidade de escapar da letargia opressiva da não-escolha. Elas não entendiam por que pessoas como ele que foram criadas bem, alimentadas e com água para beber mas que estavam mergulhadas na insatisfação, condicionadas desde o nascimento a olhar para outro lugar, eternamente convencidas de que a vida real acontecia em algum outro lugar, estavam agora decididas a fazer coisas perigosas, coisas ilegais, de modo a partir, nenhum deles faminto, ou violado, ou vindo de aldeias queimadas, mas apenas famintos por ter escolhas e certezas.]

A autora consegue, com muito humor e elegância, debater racismo e xenofobia de um modo atrevido.

 

(Continua aqui)

Notas sobre Big Brother, Sexualidade Feminina e Afins

Por que a sociedade se choca com uma mulher a explorar livremente o seu corpo e não se choca quando esse corpo é invadido sem a sua permissão?

 

Tem havido muito alarido em torno de fotos de algo que aconteceu no Big Brother Xtremo Angola/ Moçambique. Em fóruns tanto de Angola como de Moçambique as pessoas mostraram-se indignadas, chateadas e até envergonhadas por verem algumas colegas da casa com os seios à mostra; fazendo danças sensuais ou trocando carícias com outros na casa.

 
O facto é que o programa posiciona-se como M18 e está a ser transmitido via DStv, em que os usuários podem bloquear o conteúdo de um determinado canal caso achem inapropriado. Adicionalmente, todos os participantes são adultos e estão conscientes que todos os seus passos são gravados 24h diariamente em todos os cantos da casa.


Ainda assim, houve um desfile de discursos moralistas e de defesa dos valores “culturais” das nossas sociedades. As moças foram apedrejadas virtualmente, praticamente queimadas na fogueira como as “bruxas” da Idade Média perseguidas pela Inquisição.

Mas a mim não enganam: esse discurso cheira a machismo! 


Por que é que essa mesma sociedade não se choca quando surgem fotos de menores nuas ou seminuas a circular? Por que é que não nos chocamos quando alguém divulga um vídeo intimo filmado às escondidas? Por que é que até reencaminhados essas imagens?

A sexualidade feminina só choca quando é livre.

 

Quando o parceiro zanga-se e publica fotos íntimas da mulher, isso não nos choca. Quando numa novela a mulher é coagida a ter relações; quando é forçada a beijar alguém; quando usa o sexo para “prender” o homem, aí está tudo bem.


O choque não está em ver os seios das mulheres; nem em saber que elas são sexualmente activas, mas sim em ver uma mulher em plena TV a assumir a sua sexualidade e demonstrando prazer de forma autónoma.

 

Aquelas mulheres não se deixaram intimidar pelos olhos da sociedade machista que lhes assistem. Elas rejeitaram a posição de mulheres submissas, não se curvando aos padrões patriarcais em que vivemos e puseram o seu prazer em primeiro lugar.


O choque está em verem uma mulher a consentir e a assumir-se como um ser sexual em toda a plenitude sem pudor algum.