Ela não anda, ela desfila

Alek Wek, uma das mais bem sucedidas modelos,  é uma refugiada sudanesa que foi descoberta pela agência Models One em Londres na década de 90.

No seu livro, Alek: De Refugiada Sudanesa a Top Model Internacional, ela conta como foi a sua infância e de que forma em tenra idade percebeu os perigos que ameaçavam a sobrevivência da sua família no Sudão.

Alek nasceu e cresceu no Sudão e até aos seus 8 anos viveu em paz. No entanto, momentos de conflito se fizeram sentir e a sua família foi obrigada a sair da vila de Wau. Primeiro caminharam durante 2 semanas até uma aldeia remota no interior do país, e mais tarde partiram para a cidade de Cartum até que por fim deram por eles em Londres, na Inglaterra.

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Alek começou a carreira de modelo aos 19 anos.

Nos anos 90 Alek fez muito sucesso, não só na Inglaterra, mas também no resto da Europa e Estados Unidos da América. Por ser uma modelo com uma tez tão escura e traços tão peculiares, distinguia-se das restantes e marcava a diferença.

Numa passagem, a modelo explica como a narrativa da sua vida por vezes era deturpada para apelar à glorificação do seu sofrimento e da sua Africanidade, rejeitando a sua verdadeira história.

Eu reparei que frequentemente os jornalistas gostavam de dizer que eu tinha sido descoberta ‘no mato’, em África. Como se eu tivesse sido uma inocente primitiva descalça na floresta quando o agente me resgatou e domou, sem destruir a minha beleza ‘selvagem’. Eu trazia jeans no Palácio de Cristal quando fui ‘descoberta’. O arbusto mais próximo era uma azaléia bem cuidada. Eu sou Africana, mas não sou primitiva. 

É o que acontece muitas vezes com as nossas histórias. As histórias de África e de africanos.

A narrativa contada muitas vezes é uma visão deturpada ou incompleta de quem somos. Aliás, no próprio livro a modelo conta como no início teve de fazer trabalhos em que a sua imagem era demasiado exotificada, como no calendário do café Lavazza em 1997 (imagens abaixo).

Alek lutou para vencer esses obstáculos. Para destruir essas barreiras e desconstruir preconceitos.

Procurou fazer amizades com fotógrafos e marcas que a viam como algo para além de uma cara “exótica” com feições diferentes daquelas a que estavam acostumados.

Aos poucos, e à medida que foi ganhando fama, conseguiu trabalhos mais relevantes e através destes mudou a forma como as pessoas olhavam para si.

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Alek Wek foi a primeira negra na capa da revista Elle, em 1997.

Para outras mulheres negras, refugiadas ou não, sudanesas ou não, Alek Wek era um espelho que reflectia a imagem que tinham de si mesmas.

A atriz Lupita Nyon’go numa entrevista afirmou que o facto de ver Alek Wek na passarela e em revistas, fê-la reconhecer a sua própria beleza.

Oprah Winfrey, numa entrevista a Alek Wek no seu programa televisivo, disse:

Que diferença isso teria tido na minha infância se eu tivesse visto alguém que se parecesse consigo na televisão.

Por muito que possamos – e devamos – criticar a indústria da moda, é inegável o impacto que muitas destas caras têm no nosso dia a dia.

Os anúncios que fazem e as marca que representam servem de padrão para muito do nosso consumo.

Quando se fala em representação da mulher negra, fala-se sobretudo da mulher negra que não é vítima. Que não é sofredora. Da mulher negra digna de amor e paixão. A mulher negra que também pode ter um artigo de luxo. Que pode ir à Universidade.

A mulher negra que, tal como Alek, pode passar por momentos difíceis e alcançar o sucesso.

 

Vamos falar de cabelo outra vez?

Para além de falar das politiquices em torno da carapinha, é importante reconhecer os espaços em que esse cabelo é representado – ou não – e como essa representação é feita.

Já falamos uma vez sobre as politiquices em torno do cabelo crespo e cacheado, e como existe um padrão ideal que nós, pretos, temos de pagar com a nossa própria saúde para atingir.

Aqui em África, onde a grande maioria das pessoas tem o cabelo crespo, dificilmente vemos figuras proeminentes a usar orgulhosamente o seu cabelo natural.

Se vemos, na sua maioria, são mulheres bem mais velhas ou pessoas ligadas às artes e com um estilo excêntrico que lhes confere uma certa liberdade, interdita a nós outros, meros mortais.

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Cantora moçambicana Mingas canta com as suas dreads.

Porém, figuras da cultura pop, com as quais a juventude mais se identifica regem-se sobretudo pelos padrões ocidentais de beleza. E como tal, não só nas suas músicas, e nos seus vídeos, mas também na sua forma de vestir se inspiram nos artistas norte-americanos, sobretudo.

Seria ingénuo e até mesmo infantil ignorar a influência que tais artistas têm na construção de mentalidades.

Assumindo que são estes que dominam a música moçambicana que toca em rádios e discotecas, então o seu papel no crescimento e consciência dos moçambicanos, e especialmente nos jovens moçambicanos, é imensurável.

Se meninas moçambicanas idolatram artistas com cabelos lisos, sentirão, logicamente uma desconexão consigo mesmas. Com as suas raízes. E o mesmo para os meninos.

E procurarão estes grupos formas de afirmação de beleza que se aproximem dos modelos que idolatram. Daí o bilionário mercado da extensões capilares em África apenas. Daí o negócio dos branqueadores de pele (mas isso falamos num outro dia).

Contudo, não podemos deixar tudo nas mãos dos artistas.

Olhemos para outras figuras importantes no nosso país: os nossos professores; os médicos; enfermeiros; ministros; presidentes; etc.

Mesmo nos Estados Unidos da América, a Primeira-Dama Michelle Obama, que é uma mulher negra, não usa os seus cabelos com a textura natural. Para o seu marido, o Presidente Barack Obama essa questão é facilmente contornada, já que ele pode usar o cabelo curto sem causar choque.

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Jacob, de 5 anos, sente o cabelo do Presidente Obama. Fonte: New York Times

E em casa, o que fazemos para que haja essa aceitação? Que trabalho temos feito para valorizar as nossas raízes?

Mesmo nos espaços mais vanguardistas, há ainda a expectativa de “arrumado” (trançado; amarrado; etc). As pessoas nem reparam que isso é fruto desse padrão de beleza europeu, que tem como base ideia errada de que o cabelo natural é sinal de desleixo ou sujidade.

Há sempre um policiamento que se disfarça de preocupação ou conselho.

Esse cabelo parece estar seco, tens de hidratar. Esse cabelo está muito despenteado, tenta organizá-lo. Tenho uma dica para dar mais vida ao teu cabelo. Usa o produto X que o teu cabelo vai ficar como o da Y.

Qualquer fórum sobre cabelos naturais está cheio de receitas e truques para domar o cabelo, como se ele fosse, de facto selvagem.

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Blogueiras My Natural Sisters

Twist out. Braid out. Blow out. Length check. 4A. 4B. 4C.

Uma linguagem codificada para abordar algo tão simples: cabelo. Uns mais, outros menos encarapinhados. Uns mais, outros menos longos. Uns sempre, outros nunca no lugar.

Temos de desconstruir a ideia de que o nosso cabelo natural vem na forma errada. Ou na textura errada. Ou no comprimento errado.

E essa desconstrução leva o seu tempo e requer muito trabalho. Talvez mais do que as pessoas estejam dispostas a dar.

Porque não basta perder uma manhã inteira a lavar o cabelo e aplicar produtos caros para ter um cabelo crespo q.b., e depois perguntar a uma mana de afro:

O que se passa com o teu cabelo?

 

A árdua tarefa de sofrer

Sobre a forma como usamos o sofrimento dos outros para nosso próprio prazer e criamos uma verdadeira indústria pornográfica em que exploramos as dores e lutas dos que mais precisam de nós.

A pornografia do sofrimento naturaliza as divergências económicas e sociais que vemos todos os dias através da perpetuação de mensagens codificadas que impõem a responsabilidade à pessoa oprimida.

Estas mensagens têm como objectivo libertar-nos do peso do nosso privilégio, atirando para a vítima todos os encargos para sair da sua situação.

Apelam sobretudo ao nosso sentimento de culpa, o pior sentimento de quem tem privilégios, pois evidencia aquilo que nós temos a mais, que conseguimos não por “mérito”, mas por um conjunto de acidentes felizes.

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Instagram Barbie Savior

Com algumas frequência nos cruzamos com imagens virais de pessoas, na sua maioria mulheres, de backgrounds variados fazendo as mais difíceis tarefas do seu dia-a-dia com bebés às costas, crianças de colo ou em outras situações nada favoráveis ao seu sucesso.

Apesar das condições, estas mulheres ultrapassam obstáculos e tentam levar a sua vida da melhor maneira possível, servindo de “ideal de sofredora”.

Usamos estas imagens como bons exemplos a seguir. Gostamos. Partilhamos. Comentamos. E sempre que ouvimos histórias similares nos lembramos “Ah! Não deve ser tão difícil assim, porque eu vi uma foto em que a fulana conseguiu!” ou então “Conheço alguém que passou por isso e muito mais e sobreviveu!”.

Pois é. As pessoas sobrevivem.

Bons sofredores sobrevivem. As pessoas aprendem a sobreviver. A superar. Mas as feridas dessas caminhadas difíceis não desaparecem. Elas existem e elas também merecem reconhecimento.

O sofrimento é algo real e nós nem sempre falamos sobre isso. Preferimos falar da felicidade, de superação e ignoramos as teias manhosas da pobreza e da depressão.

Caímos no erro de olhar para aquele sofrimento como a ordem natural das coisas, sem questionar a sua origem ou possível solução. Nos precipitamos a exibir a alpinista que escalou a montanha sem tentar entender como ela lá chegou ou sequer por que existe uma montanha.

Partilhamos o sofrimento dos outros e perguntamos aos sofredores “Por que é que o vosso sofrimento não é bonito como este? Por que razão vocês não sabem sofrer bem para a foto como esta pessoa? Por que é que o vosso sofrimento me deixa desconfortável?”

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Seremos viciados em Pornografia da Pobreza?

 

O mesmo acontece na Pobreza, quando vemos fotos das crianças com as barrigas inchadas a brincar alegremente no meio de toda a sua pobreza e falta de oportunidades. Olhamos para aquela cena e aplaudimos a coragem que as crianças têm de serem, de facto, crianças apesar do mundo triste que as rodeia.

E perpetuamos assim o ciclo de sofrimento, ou neste caso de pobreza, porque olhamos para casos isolados sem contextualizá-los devidamente. Encaramos aquele sofredor exemplar como a regra do jogo e apelamos aos restantes para que sofram assim:

Não basta sofrer, tem de sofrer de uma forma que não ofenda nem incomode. Sofrer de forma romântica, de preferência sem lágrimas. Chorar? Só se for mesmo necessário e nada de pedir ajuda!

Isso também faz parte da violência a que são expostos os que sofrem.

Usamos da sua vulnerabilidade para a nossa masturbação, ejaculando toda a nossa culpa e o nosso papel na conjuntura que cria essas disparidades nas nossas sociedades.

Os sofredores não precisam de ajuda ou apoio para sofrerem bem, precisam sim de mudanças estruturais que acabem com o seu sofrimento. De pessoas que usem dos seus privilégios para destruir essas montanhas. Para que não haja mais sofrimento.

 

 

 

A corda no pescoço da juventude

Num 16 de Junho, na África do Sul, dia em que se comemora o Dia da Juventude em homenagem ao Soweto Uprising, uma adolescente branca se suicida em casa, numa última selfie em forma de live stream.

Ao contrário do que é habitual vermos nas grandes telas sobre a África so Sul, este filme não retrata o Soweto. O Johannesburgo que se vê no filme “Necktie Youth” mostra toda a vida cosmopolita que ali se vive.

Na era do espectáculo, as juventudes branca e negra se misturam, em inglês. Entre cada grupo uma língua diferente: para uns o afrikaans, para outros o zulu, e todas as outras distâncias que os separam.

Em convívios e namoros, a geração “Born Free”, nascida depois do apartheid desfruta das suas liberdades (supostamente) longe do preconceito racial e das barreiras institucionais que antes os separavam.

 

Mas será isso verdade?

 

Numa das cenas que mais mexeu comigo, um rapaz negro é largado no meio da rua depois de ter uma overdose de cocaína em casa de um amigo branco. Um casal interracial abraça-se e namorisca com carinho num parque público em plena luz do dia. Mais tarde, uma rapariga branca embriagada é violada por um amigo negro no meio de uma festa.

Parece muita cor, mas o filme é todo a preto e branco.

O suicídio de Emma chega como surpresa para todos os eus amigos. Tão submersos vivem nas suas existências supérfluas, sem causas para defender para além das suas vontades egoístas, que são incapazes de reconhecer a solidão e desespero em que vivem.

Essa é sem dúvida, a maior distância de todas: A do convívio entre eles sem saberem sequer os seus maiores medos e depressões.

A fuga? Drogas; álcool; sexo.. E por fim, a morte. A derradeira chave para a liberdade, e neste caso também a fama.

A fuga para um final feliz, embora sem aplausos. Mas com a atenção que desesperadamente precisamos, enfim.

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Quantos de nós não vivemos assim também?

Presos em amizades e amores que não nos preenchem emocionalmente. Sem a possibilidade de redenção, a morrer por dentro de uma insatisfação crónica sem causa aparente.

Raiva, rancor, ausência, trauma, todas essas energias que carregamos diariamente e nos impossibilitam de estabelecer laços sinceros e profundos com aqueles ao nosso redor.

Vicissitudes de uma Geração Livre, mas ainda escrava do seu Passado. Sem paixões nem idealismos, apenas todas as possibilidades dessa tal Liberdade que não nos leva a lado nenhum.

 

 

Girlhood: a ilusão da realidade

Girlhood é um filme escrito e realizado por uma mulher branca, francesa que pretendeu retratar a vida de jovens mulheres negras da periferia francesa.

Costuma-se dizer que “percepção é realidade” e não poderia estar mais de acordo. Cada indivíduo vive numa realidade completamente diferente, pois sente e absorve o seu ambiente de formas diferentes.

Esse seja talvez o maior desafio para quem faz um filme: como criar uma imagem que represente a realidade ?

No filme Girlhood, da realizadora francesa Céline Sciamma, é quase impossível não sentir essa distinção entre a percepção dela e a realidade que procura retratar. Ou pelo menos para quem conhece minimamente essa realidade!

A história acompanha o desenvolvimento de Mariéme, desde uma tímida e solitária menina negra a uma adolescente rebelde e conflituosa.

A intenção do filme é de despertar um sentimento de culpa face à indiferença da sociedade francesa às comunidades imigrantes que vivem à margem de tudo: da cidade; da lei e até mesmo da “francofonia”.

 

Infelizmente, o que o filme tem de real é pouco.

A realidade familiar é praticamente secundária à situação da adolescente durante o filme, evidenciando o desconhecimento da realizadora no que toca às especificidades de uma família imigrante.

O pai não aparece. A mãe trabalha como empregada doméstica e quase não passa tempo com os filhos. O irmão é extremamente abusivo. A irmã mais nova está à procura de um ídolo. E Mariéme tem apenas 16 anos e aparentemente nenhum sonho.

O que a realizadora consegue- e muito bem- é descrever a força que vem de um grupo de mulheres unidas. É essencial para a auto-afirmação de qualquer mulher que esta se rodeie de mulheres como ela.

No entanto, rapidamente o grupo de amigas torna-se destrutivo, trazendo à superfície tudo o que há de pior na protagonista: inveja; raiva; tristeza; carência.

Outro ponto positivo é a gradual evolução das tentações a que Mariéme está exposta. O que começa por ser uma vontade de estar na moda e usar roupas trendy, rapidamente transforma-se numa porta para um mundo de drogas e prostituição.

Note-se que este lado está intimamente ligado à exploração da sexualidade da adolescente. A adolescente vê-se dividida entre o seu desejo e curiosidade e os olhos incriminadores da sociedade machista.

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O filme é uma obra interessante na medida em que, embora carregada de estereótipos, permite-nos olhar (de uma forma unidimensional) para a realidade de muitas raparigas descendentes de africanos imigrantes na Europa.

Para a maioria dos adolescentes nessas condições, a construção da sua identidade passa muito pela descoberta da sua Africanidade, e depois pela rejeição ou aceitação desta. Pela manutenção das relações familiares, que se estendem às outras famílias em situações similares.  E pela resposta à pressão das estruturas da sociedade onde estão inseridos: escola; mercado de trabalho; oportunidades de crescimento; etc.

Infelizmente para Céline Sciamma a sua percepção não lhe permitiu chegar tão longe. Ela ficou-se pelo que estava à superfície da realidade: pela armadilha fácil do crime e justiça de rua.

A Mariéme de França, que poderia muito bem ser a Mariana em Portugal, empurrada para a marginalidade sem uma chance de saber quem é ou quer ser.

 

 

 

 

 

 

Alicia Keys e a rejeição das negras escuras

O que os aplausos à campanha #nomakeup /sem maquilhagem de Alicia Keys dizem sobre o grande elefante branco na sala das feministas negras.

A cantora norte-americana Alicia Keys tomou um bravo passo posicionando-se contra a ditadura de beleza que obriga as mulheres a maquilharem-se todos os dias, escondendo as partes de si que menos gostam e realçando os traços que as aproximam ao ideal de beleza que tanto procuramos alcançar.

Para uma artista como ela que serve de inspiração para muitas adolescentes, jovens adultas e mulheres, a manipulação da sua imagem  promove um ideal de perfeição inalcançável. Uma imagem que não corresponde à realidade e que deturpa a imagem que temos de nós mesmas.

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Alicia Keys para Fault Magazine

No entanto, Alicia não é a primeira mulher americana negra a tomar uma posição contra essa cultura.

No ano passado Lupita Nyong’o e Viola Davis, entre outras artistas, fizeram um ensaio fotográfico para a revista Vanity Fair em que posaram completamente desvestidas de maquilhagem.

 

Como mulheres negras e escuras, os seus traços foram imediatamente ridicularizados e as actrizes foram ostracizadas por não estarem “glamurosas” o suficiente.

blog-post-viola-davis-3No seu trabalho em “How To Get Away With Murder/ Como Defender um Assassino”, Viola Davis representa uma sensual advogada negra, com uma carreira de sonho e uma vida abastada e emocionante.
Numa das cenas mais icónicas da série, Viola tira a peruca e a maquilhagem preparando-se para dormir, mostrando essa dualidade que muitas mulheres negras vivem: por um lado são livres e fortes; por outro, são completamente reféns de um padrão de beleza longe da sua verdadeira face que só enfrentam no escuro da sua própria intimidade.

Lupita, por sua vez, escolheu um papel mais discreto às luzes de Hollywwod, para trazer diferentes representações da mulher negra daquelas que estamos cansados de ver.

Para além disso, ambas têm vindo a trazer essa luta para o tapete vermelho, preferindo o cabelo natural e mostrando a versatilidade e beleza que daí pode vir. Um exemplo perfeito é o penteado escolhido por Lupita para a Met Gala, em que a atriz se inspirou na África Ocidental.

Mas infelizmente, o trabalho feito por estas duas é ignorado.

Aparentemente não há espaço no Feminismo Negro para as mulheres escuras. Para mulheres de lábios grossos. Mulheres com carapinha.

O nosso silêncio perante o trabalho destas mulheres evidencia o colorismo que nos orienta, e o racismo aí escondido.

Queremos apenas os traços mais finos: o nariz em bico e lábios discretos. Queremos o cabelo em cachos e a pele mais clara.

Porquê?

Que Feminismo é esse e para quem?

Notas sobre Big Brother, Sexualidade Feminina e Afins

Por que a sociedade se choca com uma mulher a explorar livremente o seu corpo e não se choca quando esse corpo é invadido sem a sua permissão?

 

Tem havido muito alarido em torno de fotos de algo que aconteceu no Big Brother Xtremo Angola/ Moçambique. Em fóruns tanto de Angola como de Moçambique as pessoas mostraram-se indignadas, chateadas e até envergonhadas por verem algumas colegas da casa com os seios à mostra; fazendo danças sensuais ou trocando carícias com outros na casa.

 
O facto é que o programa posiciona-se como M18 e está a ser transmitido via DStv, em que os usuários podem bloquear o conteúdo de um determinado canal caso achem inapropriado. Adicionalmente, todos os participantes são adultos e estão conscientes que todos os seus passos são gravados 24h diariamente em todos os cantos da casa.


Ainda assim, houve um desfile de discursos moralistas e de defesa dos valores “culturais” das nossas sociedades. As moças foram apedrejadas virtualmente, praticamente queimadas na fogueira como as “bruxas” da Idade Média perseguidas pela Inquisição.

Mas a mim não enganam: esse discurso cheira a machismo! 


Por que é que essa mesma sociedade não se choca quando surgem fotos de menores nuas ou seminuas a circular? Por que é que não nos chocamos quando alguém divulga um vídeo intimo filmado às escondidas? Por que é que até reencaminhados essas imagens?

A sexualidade feminina só choca quando é livre.

 

Quando o parceiro zanga-se e publica fotos íntimas da mulher, isso não nos choca. Quando numa novela a mulher é coagida a ter relações; quando é forçada a beijar alguém; quando usa o sexo para “prender” o homem, aí está tudo bem.


O choque não está em ver os seios das mulheres; nem em saber que elas são sexualmente activas, mas sim em ver uma mulher em plena TV a assumir a sua sexualidade e demonstrando prazer de forma autónoma.

 

Aquelas mulheres não se deixaram intimidar pelos olhos da sociedade machista que lhes assistem. Elas rejeitaram a posição de mulheres submissas, não se curvando aos padrões patriarcais em que vivemos e puseram o seu prazer em primeiro lugar.


O choque está em verem uma mulher a consentir e a assumir-se como um ser sexual em toda a plenitude sem pudor algum.