Mondlane, um herói improvável

Eduardo Mondlane foi o grande arquitecto da independência de Moçambique.

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Eduardo Mondlane foi fundador e primeiro presidente da Frente de Libertação de Moçambique. Fonte: Frelimo

Um simples pastor filho de um líder local, foi com o apoio da Missão Suíça que teve a possibilidade de seguir os seus estudos na África do Sul, Portugal e por fim Estados Unidos da América, onde se doutorou em Sociologia.

Cresceu, portanto, não tendo outra opção senão se consciencializar sobre a sua posição no mundo: homem, negro, africano, moçambicano. Mas ao mesmo tempo, nascia nele também a consciência de valores e direitos mínimos para a prosperidade de todos os seres humanos.

À semelhança da independência da Tanzânia (1961) e da Zâmbia/ Malawi (1964), Mondlane queria uma independência pacífica. No entanto, o Estado Português não cedeu pacificamente a independência das terras que ocupava ilegalmente.

O seu desejo pela autodeterminação do povo de Moçambique levou-lhe, em 1962, a unir todos os movimentos de libertação num só, formando assim a FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique) e foi ele o seu primeiro presidente.

Concluindo que não seria possível alcançar a independência sem recurso às armas, em 1964 a FRELIMO começa os primeiros ataques de guerrilha. Com o apoio da Tanzânia, da Argélia e de outros países africanos e não só, Mondlane conseguiu desenhar e implementar uma estratégia sólida para derrubar as tropas portuguesas em Moçambique.

Infelizmente Mondlane não viu o seu sonho realizado. Foi assassinado a 3 de Fevereiro de 1969 – motivo pelo qual hoje celebramos o Dia dos Heróis- ao abrir uma encomenda com uma bomba preparada em Lourenço Marques pela PIDE.

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Funeral de Eduardo Mondlane, em Dar Es Salaam, Fev. 1969. Vê-se Julius Nyerere, Presidente da Tanzânia, Janet Mondlane, viúva de Mondlane e os três filhos do casal. Fonte: The Delagoa Bay

É importante referir que com a morte de Mondlane o próprio destino da FRELIMO se alterou drasticamente.

A liderança de Mondlane, um homem religioso, académico, conservador, chocava com os membros mais radicais  da FRELIMO. Mesmo na Tanzânia, onde a FRELIMO tinha a sua base e outros movimentos guerrilheiros se encontravam, vários desses movimentos se voltavam para a esquerda.

Era também da URSS que vinha grande parte do armamento e treino da guerrilha da Frelimo. No entanto, Mondlane, que tinha vivido nos EUA tinha uma posição mais pró-Ocidental. Mas a aproximação com os EUA era praticamente impossível, já que o mundo se dividia em dois blocos distintos e a quebra de alianças poderia pôr em causa todo o projecto de libertação de Moçambique.

Em meados dos anos 60, num contexto de bipolarização global, em que a disputa entre o Ocidente e o Bloco de Leste pelo domínio do Terceiro Mundo se intensificava, a posição neutra e cautelosa de Mondlane destoava do resto. Com a sua morte em 1969, há uma viragem da FRELIMO para uma esquerda radicalizada.

Por outro lado, o seu casamento com Janet Mondlane, uma mulher branca americana, não era bem vista por muitos. A relação interracial evidenciava o cosmopolismo de Mondlane como um jovem africano intelectual, mas também o colocava numa posição de “diplomata” em vez de “guerrilheiro”.

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Eduardo Mondlane era um docente com cara de guerrilheiro e um guerrilheiro com cara de docente. Fonte: Eduardo Mondlane and Social Sciences

É importante recordar Mondlane como o exímio investigador que ele foi. Como um dos primeiros africanos, e certamente um dos poucos moçambicanos que nessa altura chegou tão longe, destacou-se pela sua excelência na vida académica.

A questão racial e identidade nacional na vida social foi o seu grande objeto de estudo, tanto durante o Mestrado como durante o Doutoramento.

Como um jovem africano intelectual, ao sair da sua aldeia na província de Gaza deparou-se com um mundo marcado por choques e contrastes. As suas origens humildes, sem qualquer privilégio permitiram-lhe ter um sentido muito sólido da sua africanidade e da sua cultura.

Foi esse sentido e orgulho da cultura africana que permitiu que ele estudasse, nos E.U.A, a questão racial sem se preocupar em procurar uma identidade negra, ao contrário dos seus colegas afro-americanos. E foi esse mesmo sentido que despontou a necessidade de fazer da independência seu projecto pessoal.

Mondlane era por isso um patriota, no sentido em que tinha um orgulho muito forte das suas raízes e estava disposto a deixar (e deixou) tudo para lutar pelo seu país e também como nacionalista, pois formou um projecto de unificação de Moçambique e de formação de Moçambique como nação.

Pela sua elegância, inteligência e perspicácia Mondlane representava uma ameaça à altura dos líderes ocidentais. Era um líder charmoso, bem educado, bom orador e ciente da sua identidade e dos seus objectivos.

Mondlane seria um líder progressista que teria liderado um movimento pacífico e feito uma transição sem sobressaltos, contudo, a História quis que ele liderasse uma guerrilha impedindo-o de fazer aquilo que era o seu desejo: desenvolver Moçambique e criar uma elite intelectual capaz de governar e elevar o país.

Por não ter tido tempo de fazer tudo isso, por ter sido obrigado a abandonar esse propósito, por não ter tido a chance de ser o herói que ele queria ser, por esses e pelos outros sonhos que ficaram por realizar: Obrigada.

Genocídios para além do Holocausto

O Holocausto é provavelmente o genocídio mais famoso da História, que decorreu durante a Segunda Guerra Mundial, em que cerca de 6 milhões de judeus foram assassinatos pelo regime Nazi. Mas e em África, não há Genocídio?

Considera-se Genocídio como o assassinato em massa de um grupo de pessoas com base na sua etnia, religião ou cultura. Num sentido mais amplo, fazem parte de um Genocídio não só o assassinato, de facto, mas também todas as acções de perseguição que violem a integridade física e/ou destruam as bases de sobrevivência desse grupo.

Embora o termo Genocídio só tenha sido institucionalizado em 1951, com a Convenção Para a Prevenção e Repressão do Crime do Genocídio pela ONU, muito antes do Holocausto (e depois) estes crimes foram praticados.

Há quem considere a Escravatura como o maior Genocídio da História da Humanidade, atendendo ao facto de mais de 10 milhões de africanos terem sido traficados para a Europa e as Américas; as suas terras foram roubadas (Colonialismo) e apagou-se a suas Histórias e Culturas, impedindo-os de manter a sua identidade.

Genocídios em África – ou contra africanos – até hoje aparecem como pequenas sombras, sem nunca serem lembrados como foram, com a devida solenidade ou sequer reconhecimento.

Quando em 1904, africanos da tribo Herero se revoltaram contra o roubo das suas terras, gado e mulheres por parte dos alemães, os africanos da tribo Nama juntaram-se. A revolta culminou na Batalha de Waterberg, de onde os africanos saíram derrotados.

Como castigo, a Alemanha massacrou entre 70,000 a 100,000 pessoas das tribos Herero e Nama, de onde hoje nós chamamos de Namíbia. Estas pessoas foram levadas para campos no deserto do Namíbe, onde a sua maioria morreu de complicações ligadas à subnutrição e condições de temperaturas extremas. Os seus cadáveres foram depois levados a Berlim para “experiências científicas”.

Apenas recentemente a Alemanha admitiu o crime, devolvendo parte desses esqueletos e prometendo um pedido de desculpas formal (mas sem reparações monetárias para a Namíbia).

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Sobreviventes do Genocídio na Namíbia

Na mesma altura houve também o Massacre de Maji Maji, no qual a Alemanha – sempre a Alemanha! – matou cerca de 75,000 africanos da região daquilo que hoje é a Tanzânia, depois de vários grupos se revoltarem contra a sua presença nos seus territórios. Neste caso, para além dos ataques físicos, os africanos foram também sujeitos a medidas repressivas como a limitação de fornecimento alimentar, através da destruição das suas plantações.

Mas não há Museus ou sequer provas físicas – para além  dos esqueletos recuperados e algum arquivo fotográfico- desses acontecimentos.

Durante o processo de descolonização do Quénia, o Reino Unido promoveu uma forte campanha contra a tribo Kikuyu, pois eram estes os maiores oponentes ao regime imperialista.

Movidos pelo desejo de controlarem os seus próprios destinos e a realidade de uma independência próxima, em 1952 os Kikuyu mobilizaram forças contra a ocupação britânica naquilo que ficou conhecida como a Revolta Mau Mau.

Em resposta, a Grã-Bretanha declarou estado de emergência e começou uma operação forte de ataque a todos aqueles que se presumia fazerem parte da equipa de “rebeldes”.

Campos de detenção foram instaurados e assim, instalou-se uma ordem na qual era legal usar a violência extrema como meio de dominação. Até 1960, data em que os campos foram encerrados, cerca de 90,000 quenianos foram executados, mutilados ou torturados pelas forças britânicas.

Só em 2003 a Grã-Bretanha concordou em pagar reparações a alguns sobreviventes. Depois de anos de dor, trauma e luto por tudo o que aconteceu, muitos deles já idosos serão lembrados apenas pelos seus depoimentos em tribunal.

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Cerca de 150 campos de detenção foram instalados no Quénia.

Mas europeus à parte, genocídios intra-africanos também ocorreram.

O mais gritante é talvez o Genocídio do Ruanda, em que em apenas 100 dias, militantes radicais da tribo Hutu, liderados pelo grupo nacionalista Parmehutu perseguiram, torturaram e assassinaram entre 500,000 a 1,000,000 de Tsutis. Sendo que, mais de 200,000 refugiaram-se em países vizinhos nesse período.

Embora divergências tribais sempre tivessem havido entre os dois grupos, foi sobretudo depois da descolonização e durante a luta pelo poder político que estas diferenças ganharam forma institucionalizada.

Ao contrário dos restantes casos, no Ruanda o genocídio foi documentado via rádio, televisão e telefone. A comunidade internacional, no entanto, fechou os olhos e viu perto de 20% da população ruandesa a ser assassinada, ao vivo e a cores.

O massacre terminou apenas quando a Frente Patriótica do Ruanda, partido com apoio dos Tsutsis conseguiu derrubar o regime do Parmehutu. Nesse período mais de 2 milhões de Hutus fugiram do país, temendo retaliação. Até hoje decorrem julgamentos relacionados ao crime.

Na República Centro-Africana decorre neste momento algo que pode muito em breve aparecer nos nossos livros de História como um dos piores genocídios em África. Não pela dimensão do país, tão pouco pelo número de mortos, mas pelas implicações que tem.

Quando o grupo militar Seleka, muçulmano, foi derrubado em 2014 pelo grupo rebelde Anti-Balaka, cristão, através de um golpe de Estado (o 5o. em 56 anos de independência), uma forte perseguição à minoria islâmica começou.

Desde então, mais de 800,000 pessoas já foram deslocadas e mais de 400,000 refugiaram-se em outros países fugindo da fúria das armas cristãs sobre o Alcorão. A crise na República Centro-Africana é das desgraças mais ignoradas da História recente.

No centro destas questões misturam-se questões religiosas, culturais, étnicas e sobretudo de recursos. É o caso do Darfur, onde mais de 500,000 pessoas já morreram. Da Somália considerada como o pior desastre humanitário do séc. XXI. Do Congo, onde em 2006 apenas, mais de 25,000 violações foram reportadas.

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Mais de 5 milhões já morreram no Congo, um recorde desde a Segunda Guerra Mundial

Mas há um factor comum a todos estes casos: a História repete-se (quase) de forma cíclica. Por não haver um registo, um reconhecimento e por tabela, responsabilização, vive-se um eterno Presente.

Rebeldes contra rebeldes contra civis contra mulheres contra homens contra crianças contra igrejas contra diamantes contra terras contra todos. Todos eles sem memória. Sem Passado.

Precisamos também de construir Museus para os nossos genocídios. Conversar com os nossos pesadelos. Dar cara às nossas desgraças. Chorar os nossos horrores. E nesses processos quem sabe, construir um Passado que sirva para pacificar o Futuro.