Querido diário

Querido diário

Ultimamente tenho refletido sobre a retórica do “aconteça o que acontecer” no contexto de relações. Essa retórica basicamente é uma afirmação de compromisso, seja entre amigos, amantes, etc. significa que “aconteça o que acontecer” eu estarei lá; “aconteça o que acontecer” nós continuaremos ligados, que tudo vai ficar bem.

Mas enfim, nós sabemos que isso não é verdade. Cenas acontecem. Cenas horríveis, cenas dolorosas, cenas difíceis de superar. E relações acabam. As pessoas afastam-se.

O problema com essa retórica é que presume que independentemente da situação, a relação está num patamar acima. Como se estivéssemos a assumir que já não há desafios, que essa relação não pode mais ser destruída – isto não só é errado, como é perigoso.

É errado no sentido em que encaramos a outra parte como algo garantido. Assumimos que aquela pessoa estará sempre lá, pois afinal de contas “aconteça o que acontecer” ela estará sempre ao nosso lado, pronta para perdoar e seguir em frente como se nada tivesse acontecido.

É também perigoso, porque ambas as partes estão a dizer que não há limites para as coisas erradas que podem vir a acontecer. Estamos a destruir os nossos limites pessoais. Estou a abdicar do meu poder, do meu sentido de segurança e auto-cuidado, e em troca estou a invadir o espaço de outra pessoa. Isso faz sentido?

É um conceito tão distorcido. Não é possível, a partir desse princípio, construir uma relação saudável. Ou é?

Como proteger o nosso sentido de pessoa própria, a nossa integridade pessoal, numa relação em que não há limites?

Não sei se é possível termos em nós um lugar bonito para receber amor e afecto, quando esse lugar pode facilmente ser invadido e vandalizado.

Então, quando dermos por nós a dizer que iremos estar sempre do lado da pessoa em qualquer circunstância, lembremo-nos dos nossos limites, dos nossos valores e da base sobre a qual queremos viver a nossa vida. E talvez,  enquanto fazemos esse exercício, tenhamos também de avaliar que espaços temos ocupado sem permissão, que lugares desvalorizamos?