A pequena casa branca (ou o Museu Nacional da Escravatura)

A pequena casa branca (ou o Museu Nacional da Escravatura)

Notas sobre a visita ao Museu Nacional da Escravatura, em Luanda.

Era manhã de sábado e tirando a ressaca da fantástica noite de sexta-feira, o dia estava lindo. Dia de visitar o Museu Nacional da Escravatura.

Logo no primeiro dia visitei a Fortaleza de S. Miguel e fiquei supreendida pela positiva. Devo dizer que, partindo da minha experiência em Museus Moçambicanos, fiquei impressionada com a qualidade dos Museus que pude visitar em Luanda.

Angola teve a sua independência em 1975 depois de longos anos de uma guerra contra Portugal. Depois dessa guerra pela libertação nacional, veio uma sangrenta guerra civil que só terminou em 2002, portanto só muito recentemente Angola, como país, começou a olhar para si.

É excusado dizer que muito se perdeu, tanto em infraestruturas, como em capital humano. E claro, as prioridades de um país em conflito estão mais ligadas à sobrevivência e pouca ou nenhuma importância se dá à História e/ou Filosofia.

Mas o Museu Nacional da Escravatura não me decepcionou. Uma pequena casa branca, aparentemente inofensiva, mas que carrega em si muita história.

Até ao séc. XIX, quando Portugal proibiu o tráfico de pessoas para serem escravizadas, esta casa serviu uma das maiores famílias de comerciantes de africanos.

A casa pertenceu a D. Álvaro de Carvalho Matoso, no séc. XVII, um traficante de pessoas para trabalho escravo. Nesse tempo Luanda era um dos pontos de partida das caravanas dos africanos capturados no continente, que eram depois levados para as Américas.

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A casa é símbolo de barbárie e resistência. Fonte: Rede Angola

Uma pequena casa branca, no topo da colina com vista para a baía, de onde certamente dava para ver os navios a chegar e a partir.

O Museu reúne uma série de utensílios usados para tortura, captura e aprisionamento dos habitantes daquilo que hoje chamamos de Angola, e também objectos de cozinha e caça, entre outros.

Para além disso traz também várias informações, como dados numéricos, datas importantes e até nomes que ajudam a perceber a dimensão da máquina do comércio de pessoas para escravatura.

Mas para mim, a parte mais marcante foi a pequena capela, localizada na parte traseira da casa onde eram baptizados os recém-capturados “escravos”. Era ali onde, com cruzes e terços, água-benta e pai-nossos se fazia a conversão das ‘almas perdidas’ que enviavam para o outro lado do Atlântico.

Da original capela, para além da pequena pia baptismal e das paredes, não há mais nada senão a mudez ensurdecedora daquele pequeno espaço onde mataram os nossos deuses e os nossos anjos. O silêncio da “evangelização”.

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Luanda era uma cidade escravagista. Fonte: Público

Não fosse esta casa assombrada, estas pedras no chão, estes gritos nas paredes, até dava uma casa bonita, a pequena casa branca.

Do lado de fora, olhando para a Ilha do Mussulo com o Sol daquela manhã de sábado a beijar o mar, não queria mais nada – senão curar a ressaca!

Luanda, o que diriam os mais de 5 milhões de africanos que daqui saíram e nunca mais voltaram?

 

 

Ludo, esquecida e encontrada

Ludo, esquecida e encontrada

Em “Teoria Geral do Esquecimento” conhecemos Ludo, uma mulher esquecida em Luanda e encontrada após 30 anos.

Tudo começa em Luanda, nos anos 70, quando a guerra pela libertação de Angola cria um ambiente de instabilidade e insegurança generalizados, que levam muitas famílias da classe média/ alta a fugir rumo a Portugal.

Ludovica Fernandes Mano (Ludo), portuguesa que vive com a irmã e o cunhado na capital angolana é a protagonista, que sofre de fobia social e não sai de casa. Os três moram num prédio bem situado, na cidade de Luanda e observam calmos o movimento de angolanos e portugueses sem saber se vão ou se ficam.

Numa noite o casal sai para jantar e nunca mais regressa. É aqui onde começa a história de esquecimento de Ludo.

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Foto: ‘Os dias da independência, angola 1975’, de Joaquim Lobo

Através de recortes de diários e anotações da própria Ludo, José Eduardo Agualusa guia-nos pela consciência dela e pelos seus maiores medos e prazeres.

Tendo como escudo o muro que ergueu a separar o seu apartamento do resto do prédio, Ludo mantém-se isolada por quase 30 anos no seu apartamento tendo como única companhia o latir faminto de Fantasma, seu cão.

Ludo revela-se extremamente inteligente, proactiva e até mesmo destemida no conforto do seu limitado habitat. É uma mulher forte, que não se deixa sucumbir pelas incertezas e instabilidades ao seu redor, mas antes, consegue manter uma certa lucidez que, no meio de tanta loucura, pode parecer estranho.

‘Às vezes vejo um macaco passeando-se pelos ramos, lá no fundo, por entre sombra e os pássaros. Deve ter pertencido a alguém, talvez tenha fugido, ou então o dono abandonou-o. Simpatizo com ele. É, como eu, um corpo estranho à cidade.”

Ludo tenta manter a sua sanidade quando tudo parece desmoronar-se à sua volta: o desaparecimento da sua única família; a decadência da cidade; o abandono ao estilo de vida que até então levava; etc.

Ela vê-se numa encruzilhada entre guerra e paz; vida e morte. No meio deste cenário consegue manter um pouco de “normalidade” que lhe garante a sua sobrevivência.

E isso leva-nos à questão: o que é ‘normal’ em tempo de guerra? O que é ‘normal’ no colonialismo’? Nas revoluções?

Existirá forma de passar por estes processos históricos sem esquecer um pouco quem nós somos? Quem nós fomos?

teoria-geral-do-esquecimentoEste é um livro sobre pessoas esquecidas, pessoas que querem esquecer e/ou pessoas que querem ser esquecidas. E claro, sobre os processos de reconstrução ou destruição que devem ser feitos para que isso aconteça.

Rapidamente percebe-se que não há heróis nem vilões, não há Deus nem Diabo e todas as pessoas batalham diariamente para gerir e equilibrar tanto as forças do bem como as forças do mal que têm dentro de si.

Ludovica é uma excelente metáfora para a própria Angola que, por quase 30 anos isolou-se, combatendo guerras com a própria consciência, tendo erguido um muro que a separou do resto do mundo.

Contudo, o mundo lá fora continuou a girar e a mudar na sua original indiferença e um dia Angola – assim como Ludo – teve de enfrentá-lo.

Esses conflitos internos – tanto em Ludo, como em Angola – são-nos descritos com um ritmo que nem sempre é o mesmo, mas que nunca nos é difícil acompanhar.

O autor vai enquadrando todos os acontecimentos na História, trazendo-nos personagens diferentes, em situações por vezes tristes, por vezes contentes, sempre com bastante sarcasmo e ironia – tal como é também na vida real.

Este ritmo da própria história é de tal forma envolvente que o próprio leitor esquece-se do que estará a acontecer. O leitor perde-se no tempo: passado; presente e futuro misturam-se. Não importa.

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O livro garantiu ao autor o Prémio Literário Internacional de Dublin. Fonte: Agualusa

Ao recontar (ou seria reinventar?) a história de Ludo, Agualusa traz à superfície importantes reflexões sobre o racismo, o colonialismo e a xenofobia, e por outro lado, leva-nos também a repensar a depressão, a memória e acima de tudo a justiça.

O autor brinca connosco, como se fôssemos marionetas, puxando-nos para dentro e fora da realidade de Ludovica, não deixando, no entanto de dizer aquilo que quer de nós.

A história ficcionada de Ludo oferece-nos algo entre a vida real e a vida imaginada; a memória individual e a memória colectiva de Angola, começando na guerra pela independência até ao início do séc. XIX.

Nesta brincadeira de faz-de-contas, o autor, de forma cómica e verdadeira dá-nos a conhecer os caminhos difíceis, com muitas quedas e tropeços, da História recente de Angola.

 

Deixem a Kizomba em paz!

Já chega de deixarmos a nossa cultura ser apropriada, extraviada e abusada por estrangeiros.

Nos anos recentes tem havido um boom dentro da “Lusofonia” no que toca à Kizomba. Parece que de repente todos acordaram para o ritmo angolano: de Angola a Portugal, Espanha, África do Sul e até mesmo Brasil. O mundo despertou ao som de África.

Até já se diz que Lisboa é a capital da Kizomba. Sim, isso mesmo! Um ritmo angolano, cantado e ensinado por africanos tem a sua capital na Europa. Parece piada, mas há pessoas que acreditam que isso seja verdade.

A kizomba é uma dança de Angola que surgiu nos anos 80, no entanto se popularizou nos últimos cinco anos com grandes nomes tais como Anselmo Ralph (Angola) e Nelson Freitas (Cabo Verde).

As comunidades imigrantes de origem africana em Portugal (e não só) sempre tiveram os seus espaços próprios para dançar as suas músicas e viver a sua cultura. E em Lisboa esses espaços eram o Mussulo e o Sarabanda, entre outros, que essencialmente eram frequentados por africanos de classe média-baixa e alguns brancos atrevidos que lá se iam “desvalorizar”.

Essa vida à margem da sociedade é típica das sociedades imigrantes. Para os lisboetas, esses locais sempre foram antros de perdição já que no seu imaginário os africanos são todos promíscuos, festeiros e dados a grandes bebedeiras, nada aptos para trabalhar e que só se querem divertir. Porquê então o súbito interesse pela kizomba?

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As “noites africanas” estão na moda.

Há muitos elementos mainstream hoje que sempre fizeram parte das culturas africanas e sempre foram considerados de valor e belos, mas que ganharam novos rumos quando outros povos começaram a valorizar.

Os mesmos símbolos e hábitos considerados primitivos ou selvagens, como tatuagens, piercings, rastas, etc, aos poucos criaram espaço na cultura pop. Um cidadão branco de rastas é hippie, alternativo, interessante e tal enquanto as mesmas rastas num cidadão negro causam desconfiança, são marcas de desleixo e pouca higiene.

A verdade é que existe um viés quando um determinado elemento é usado num contexto “tribal” e quando é usado no meio “urbano”. Quando é visto com um plano de fundo africano e quando é visto com um plano de fundo europeu. Parece que tudo precisa de passar por aprovação ocidental para ser considerado bonito e infelizmente nesse movimento de ascensão perde o seu significado.

A este processo de adopção de elementos de uma determinada cultura por um grupo diferente chama-se apropriação cultural. A apropriação cultural só pode acontecer quando um grupo privilegiado rouba elementos tais como arte; estética; língua; religião; música; etc, de  uma cultura de um grupo oprimido.

Quando removemos os elementos culturais do seu contexto original, para além da perda de importância e legado que carregam, muitas vezes reforçamos estereótipos.

No caso da Kizomba a sua valorização deveu-se sobretudo ao facto de haver uma classe africana média-alta que aos poucos conquistou espaços centrais na Europa e ganhou mais poder de compra, criando condições para artistas do seu agrado poderem encher casas de espectáculos além fronteiras.

Assim da marginalidade para a centralidade, a Kizomba manteve o seu ritmo original e compassado, mas ficou hipersexualizada e muito ligada à vida luxuosa, de grandes farras, corpos sensuais e altos carros, correspondendo à expectativa portuguesa daquilo que são as aspirações dos africanos.

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Está na moda ser preto, desde que você não seja preto

À semelhança da Kizomba, a capulana, tecido africano típico de Moçambique também sofreu um ataque de apropriação cultural. Este processo também aconteceu recentemente com a nova vaga de emigração portuguesa, que se deslumbrou com as cores e o brilho da capulana.

O pano que usávamos para amarrar o bebé às costas, para amarrar à nossa cintura, agora ganhou designs europeus, tanto é que hoje ainda é considerado algo negativo, ultrapassado e até certo ponto ‘primitivo’ usar a capulana na sua forma mais tradicional, mas por outro lado, é elegante e chique fazer um vestido de noiva misturando o cetim e a renda branca com a capulana.

A apropriação cultural descontextualiza o elemento em si, distanciando-o das suas origens e da sua simbologia/ valor. De tal forma que pode-se de facto acreditar que Lisboa é a capital da Kizomba, embora a Kizomba seja de Angola, mas porque olhamos para a Kizomba como algo isolado, sem raízes nem ramificações, posicionamos onde melhor nos convém.

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Imigrantes protestam em Lisboa contra regras do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras

Para mais, nos aproveitamos de uma certa cultura sem reconhecer as ruínas que ficam por reconstruir. Ou seja, ouvimos a música; dançamos ao seu ritmo; usamos as suas roupas; mas não nos unimos para apoiar as suas dores e as suas causas.

Quantos lisboetas interagem e se identificam com a Kizomba? Onde estão os portugueses a lutar por uma maior e melhor integração dos imigrantes africanos? O que têm feito essas centenas (talvez até milhares) de instrutores de kizomba europeus pelos dançarinos amadores que criam novos passos e tendências?

Deles ouvimos apenas o silêncio que confirma a sua conivência e satisfação com o status quo. Pode-se falar então em globalização? Podemos encarar estes processos como trocas de experiências, conhecimentos e percepções?

Talvez… Quando houver um equilíbrio na distribuição de poder e quando pudermos reconhecer a humanidade de todos nós sem excepções e não considerarmos umas culturas melhores, mais desenvolvidas e mais apuradas que outras, aí sim, será uma troca sem perdas nem prejuízos.